23.1.21

Marco Lucchesi: "Beleza desnuda, cintilação"

 



Beleza desnuda, cintilação. A síntese intangível, acima das partes, da soma das partes. Não mais que lúcidos vestígios.

Ó sede que desenha os lábios da loucura.




LUCCHESI, Marco. "Beleza desnuda". In:_____.  Mal de amor. São Paulo: Patuá, 2018.

21.1.21

Charles Baudelaire: "De profundis clamavi": trad. por Júlio Castañon Guimarães

 



De profundis clamavi


Imploro-te piedade, meu único amor,

Do abismo onde me foi o coração lançado,

Triste universo e seu horizonte cerrado

Onde na noite nadam blasfêmia e horror;


Seis meses paira um sol frio nessa região,

Por seis outros a noite vem tudo ganhar;

É uma extensão mais nua que a terra polar;

– Nem animais, nem riachos, nem vegetação!


Ora, não há horror no mundo que ultrapasse

A gélida crueldade desse sol e a face

Dessa noite sem fim, ao Caos tão semelhante;


Tenho inveja da fera mais horripilante,

Que pode afundar num sono sem contratempo,

Tão lenta se desfia a urdidura do tempo!








De profundis clamavi


J'implore ta pitié, Toi, l'unique que j'aime,

Du fond du gouffre obscur où mon coeur est tombé.

C'est un univers morne à l'horizon plombé,

Où nagent dans la nuit l'horreur et le blasphème;


Un soleil sans chaleur plane au-dessus six mois,

Et les six autres mois la nuit couvre la terre;

C'est un pays plus nu que la terre polaire

— Ni bêtes, ni ruisseaux, ni verdure, ni bois!


Or il n'est pas d'horreur au monde qui surpasse

La froide cruauté de ce soleil de glace

Et cette immense nuit semblable au vieux Chaos;


Je jalouse le sort des plus vils animaux

Qui peuvent se plonger dans un sommeil stupide,

Tant l'écheveau du temps lentement se dévide!






BAUDELAIRE, Charles. "De profundis clamavi". In: As flores do mal. Trad. por Júlio Castañon Guimarães. São Paulo: Companhia das Letras, 2019.

19.1.21

Geraldo Holanda Cavalcanti: "Para findar"

 



Para findar


Que me resta dizer agora

que o desejo estrebucha

no corpo sem memória

que as palavras recolho

improferidas

para que o ouvido

não maculem

tornando ridículo

o que quisera belo?

Não olho no espelho de minhas mãos

que ao afago já não servem

Perdi as rédeas do sonho

e a beleza ora vejo

pela vidraça baça

de meus olhos sem lampejo







CAVALCANTI, Geraldo Holanda. "Para findar". In: Poesia reunida. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 1998.

17.1.21

Casimiro de Brito: poemas "1" e "2" de "Ofício de oleiro"

 



1


O mundo não está frio

nem morto nem

indiferente

às formigas que brilham

na carne da pedra.




2


O barro desta luz

andrógina canto – 

barca de som

onde se alojam a febre, o sémen

do mar, aves

que não me canso

de invocar




BRITO, Casimiro de. Poemas "1" e "2" de "Ofício de oleiro". In:_____. Arte pobre. Leiria: Editorial Diferença, 2000.

14.1.21

Geraldo Carneiro: "O tal total"

 



o tal total


o amor é o tal total que move o mundo

a tal totalidade tautológica,

o como somos: nossos cromossomos

nos quais nunca se pertenceu ao nada:

só pertencemos ao tudo total

que nos absorve e sorve as nossas águas

e as nossas mágoas ficam revoando

como se revoltadas ao princípio,

àquele principício originário

onde era Orfeu, onde era Prometeu,

e continua sendo sempre lá

o cais, o never more, o nunca mais,

o tal do és pó e ao pó retornarás.





CARNEIRO, Geraldo. "O tal total". In:_____. Poemas reunidos. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2010.

12.1.21

Weydson Barros Leal: "PARA JOSÉ MARIO PEREIRA"

 



PARA JOSÉ MARIO PEREIRA



No futuro, 

no silêncio de uma biblioteca de vozes

que ainda não sabemos nomear, 

um homem descobrirá que no Brasil - no tempo 

das pestes que inquietavam a ciência - 

um outro homem lia e gravava poemas

como uma cura fugaz. 

Terá sido um estranho ofício, pensará 

o descobridor, não fosse o alento 

que aqueles poemas podiam levar

ao seu redor antigo. 

No silêncio desse leitor de vozes, 

uma palavra restará guardada 

como uma incompreensão, 

e por um instante algo daquilo 

renovará a humanidade. 








LEAL, Weydson Barros. "PARA JOSÉ MARIO PEREIRA". 

10.1.21

Domício Proença Filho: "O poema"

 



O poema


Ali 

o fundo do poço. 

Ali 

o caminho novo.

Ali

a terra, o infinito,

a água, o ar e o fogo.

Ali

a luz, o mistério.

Ali 

o silêncio

e a palavra:

Ali

o risco do jogo.




PROENÇA FILHO, Domício. "O poema". In:_____. O risco do jogo. São Paulo: Prumo, 2013.

7.1.21

Eucanaã Ferraz: "18.05.1961"

 



18.05.1961



Nasci num lugar pobre,

onde o hospital era longe,

onde era longe a estrada

e os anjos não conheciam:


Nasci mês de maio, azul

de tardes macias,

de pai José,

mãe Maria.


Batizaram-me: Terra Prometida.

Terra pobre, onde a felicidade passa 

longe, mas daqui eu a vejo

e todo o meu corpo brilha.






FERRAZ, Eucanaã. "18.05.1961". In:_____.  Livro primeiro. Rio de Janeiro: Edições do autor, 1990. 

5.1.21

Carlos Nejar: "Nossa é a miséria"

 



Nossa é a miséria




Nossa é a miséria,

nossa é a inquietação incalculável,

nossa é a ânsia de mar e de naufrágios,

onde nossas raízes se alimentam.


Em vão lutamos

contra os grandes signos.


Seremos sempre

a mesma folhagem

de madrugada ausente.


O mesmo aceno imperceptível

entre a janela e o sonho.

A mesma lágrima

no mesmo rosto vazio.


A mesma frase

dentro dos mesmos olhos

sob a fonte.


Seremos sempre

a mesma dor oculta

nas árvores, no vento.


A mesma humilhação

diante da vida.

A mesma solidão

dentro da noite.


A mesma noite antiga

que separa

a semente do fruto

e amadurece

os lábios para a morte

como um rasto

de silêncio no mar.





NEJAR, Carlos "Nosssa é a miséria". In:_____. Livro de Silbion. Porto Alegre: Difusão de Cultura, 1963.


3.1.21

Rogério Batalha: "O vaqueiro"

 



O vaqueiro



em Miguel Couto

(onde nasci)

havia um vaqueiro chamado Diomedes


com suas quietudes, seus pés tristes

seus desertos, sua pele violeta

seus ruídos e pastos


o velho vaqueiro

tinha o verde como palácio

por oração, cavalos.







BATALHA, Rogério. "O vaqueiro". In_____. AZUL. Rio de Janeiro: Texto Território, 2016


1.1.21

Antonio Carlos Secchin: "Não, não era ainda a era da passagem"

 




Não, não era ainda a era da passagem

do nada ao nada, e do nada ao seu restante.

Viver era tanger o instante, era linguagem

de se inventar o visível, e era bastante.

Falar é tatear o nome do que se afasta.

Além da terra, há só o sonho de perdê-la.

Além do céu, o mesmo céu, que se alastra

num arquipélago de escuro e de estrela.





SECCHIN, Antonio Carlos. "Não, não era ainda a era da passagem". In:_____. Todos os ventos. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2002.