26.9.20

Jorge de Sousa Braga: "Poema de amor"

 



Poema de amor


Esta noite sonhei oferecer-te o anel de Saturno

e quase ia morrendo com o receio de que ele não

te coubesse no dedo.




BRAGA, Jorge de Sousa. "Poema de amor". In: PEDROSA, Inês (org.). Poemas de amor. Antologia de poesia portuguesa. Lisboa: Publicações Dom Quixote, 2005.


22.9.20

Constantinos Caváfis: "Εν τη οδώ" / "Na rua": trad. por Ísis Borges da Fonseca

 


Na rua


Seu simpático rosto, um pouco pálido;

seus olhos castanhos, como que fatigados;

vinte e cinco anos, contudo tem mais a aparência de vinte;

com algo de artístico em seu modo de trajar

– certa cor da gravata, certa forma do colarinho – 

anda a esmo pela rua

como que hipnotizado ainda pela volúpia ilícita,

pela volúpia sobremaneira ilícita que desfrutou.








Εν τη οδώ


Το συμπαθητικό του πρόσωπο, κομμάτι ωχρό·

τα καστανά του μάτια, σαν κομένα·

είκοσι πέντ' ετών, πλην μοιάζει μάλλον είκοσι·

με κάτι καλλιτεχνικό στο ντύσιμό του

- τίποτε χρώμα της κραβάτας, σχήμα του κολλάρου -

ασκόπως περπατεί μες στην οδό,

ακόμη σαν υπνωτισμένος απ' την άνομη ηδονή,

από την πολύ άνομη ηδονή που απέκτησε.







CAVÁFIS, Constantinos. "Εν τη οδώ" / "Na rua". In:_____. Poemas de K. Kaváfis. Org. e trad. por Ísis Bórges da Fonseca. São Paulo: Odysseus Editora, 2006.

20.9.20

Rodrigo Garcia Lopes: "Breve história da solidão"

 



Breve história da solidão



No escuro de uma caverna, 

nas paredes de Pompeia, 


na superfície de um papiro, 

na solidão de uma tela, 


num grafite imprevisto 

ou na imensidão sidérea, 


esses escritos, frágeis rabiscos, 

querem dizer apenas isto: 


existo.







LOPES, Rodrigo Garcia. "Breve história da solidão". In:_____. O enigma das ondas. São Paulo: Iluminuras. Edição do Kindle, 2020.

18.9.20

Michelangelo Buonarroti: " I’ mi son caro assai più ch’i’ non soglio" / "Eu me aprecio bem mais do que costumo": trad. por Nilson Moulin




Eu me aprecio bem mais do que costumo


  Eu me aprecio bem mais do que costumo;

contigo no coração,valho mais que eu mesmo,

como pedra que depois de talhada,

vale mais que pedra bruta.

  Ou como folha de papel, escrita ou pintada,

é mais apreciada que um pano qualquer,

assim me tornei, desde que alvo me fiz

marcado por tua face, e não me queixo.

  Seguro com tal marca, vou a qualquer lugar,

como quem se carrega de armas ou sortilégios,

que todo perigo afugenta.

  Protegido contra água e contra fogo,

com teu emblema, ilumino qualquer cego e com

minha saliva curo todo veneno.




I’ mi son caro assai più ch’i’ non soglio;


 I’ mi son caro assai più ch’i’ non soglio;

poi ch’i’ t’ebbi nel cor più di me vaglio,

come pietra c’aggiuntovi l’intaglio

è di più pregio che ’l suo primo scoglio.

  O come scritta o pinta carta o foglio

più si riguarda d’ogni straccio o taglio,

tal di me fo, da po’ ch’i’ fu’ berzaglio

segnato dal tuo viso, e non mi doglio.

  Sicur con tale stampa in ogni loco

vo, come quel c’ha incanti o arme seco,

c’ogni periglio gli fan venir meno.

  I’ vaglio contr’a l’acqua e contr’al foco,

col segno tuo rallumino ogni cieco,

e col mie sputo sano ogni veleno.




BUONARROTI, Michelangelo.  "I’ mi son caro assai più ch’i’ non soglio" / "Eu me aprecio bem mais do que costumo". In:_____. Poemas. Org. por Andrea Lombardi; traduções por Nilson Moulin. Rio de Janeiro: Imago, 1994.











13.9.20

Francisco Bosco: "Garamond"

 



Garamond


Primeiro na tela da mente: 

seus deletes sem tecla,


filme cabeça, legendas

boiando sobre nada.


Depois no papel pautado, 

à caneta Bic azul, com letra


imperfeita, suja de mão, 

e intrincadas rasuras.


Daí passar a limpo, mero 

artesão, olhos de régua, a mão


contra a mão, o alheamento 

no rumor da página.


Por fim imprimir, com tipo 

Garamond, em cuja distância


típica dos habitantes dos livros, 

lavamos as mãos.





BOSCO, Francisco. "Garamond". In:_____. Da amizade. Rio de Janeiro: 7Letras, 2003.

11.9.20

Frandis Carco: "Beurceuse" / "Cantiga de ninar": trad. de Guilherme de Almeida

 



Cantiga de ninar


Este lento estremecimento

É a chuva lânguida entre as folhas...

Ela sofre para que a acolhas

Num silencioso encantamento.


Lutam a chuva e o vento em fuga. 

Tu te exaltas, e eu... eu queria 

Morrer numa cantiga fria

De água dócil que o vento enxuga.


É a chuva que soluça, ou é 

O vento que chora, eu te juro... 

Morro de um mal gostoso e obscuro 

E tu não sabes bem o que é...






Berceuse


Ce lent et cher frémissement,

C’est la pluie douce dans les feuilles,

Elle s’afflige et tu l’accueilles

Dans un muet enchantement.



Le vent s’embrouille avec la pluie.

Tu t’exaltes, moi je voudrais

Mourir dans ce murmure frais

D’eau molle que le vent essuie !



C’est la pluie qui sanglote, c’est

Le vent qui pleure, je t’assure.

Je meurs d’une exquise blessure

Et tu ne sais pas ce que c’est…





CARCO, Francis. "Berceuse" / "Cantiga de ninar". In: ALMEIDA, Guilherme de. Poetas de França. Trad. de Guilherme de Almeida. São Paulo: Babel, s.d.

9.9.20

Giuseppe Ungaretti: "Casa mia" / "Minha casa": trad. de Geraldo Holanda Cavalcanti




Minha casa


Surpresa
depois de tanto
deste amor

Pensava tê-lo dispersado
pelo mundo




Casa mia


Sorpresa
dopo tanto
d'un amore.

Credevo di averlo sparpagliato
per il mondo.




UNGARETTI, Giuseppe. "Casa mia" / "Minha casa". In:_____. Poemas. Edição bilingue. Seleção, tradução e notas por Geraldo Holanda Cavalcanti. São Paulo: EdUSP, 2017. 

6.9.20

Paul Éluard: "Un vivant parle pour les morts" / "Um que está vivo fala para os mortos": trad. por Maria Gabriel Llansol




Um que está vivo fala para os mortos


Doce futuro, esse olho zarolho sou eu,

Esse ventre aberto e esses nervos em franja

Sou eu, presa dos vermes e dos corvos,

Filho do nada como se é filho de rei.


Em breve vou perder minha aparência:

Eu estou na terra em vez de estar sobre ela,

O meu coração desperdiçado voa com a poeira,

Só tenho sentido por total inexistência.






Un vivant parle pour les morts


Doux avenir cet oeil crevé c'est moi

Ce ventre ouvert et ces nerfs en lambeaux

C'est moi sujet des vers et des corbeaux

Fils du néant comme est fils de roi



J'aurai bientôt perdu mon apparence

Je suis en terre au lieu d'être sur terre

Mon coeur gâché vole avec la poussière

Je n'ai de sens que par complète absence






ÉLUARD, Paul. "Un vivant parle pour les morts" / "Um que está vivo fala para os mortos". In:_____. ÚLtimos poemas de amor. Trad. por Maria Gasbriela Llansol. Lisboa: Relógio D'Água, 2002.

3.9.20

José Almino: "A um passante"





A um passante


Passa por mim fulano, a sombra do que foi.
Fora amigo de meu pai e essa imagem,
logo morta,
é tão inútil como a Rua da Matriz,
assim, desassombrada e vazia,
longe de meu afeto e de minha memória.
E, no entanto, esse traço, esse momento,
sopros de um registro involuntário,
perseguem-me por um instante;
não, até agora nessas mal traçadas linhas,
onde a banalidade das coisas se impõe
inconclusa.





ALMINO, José. "A um passante". In:_____. Encouraçado e cosido dentro da pele. Rio de Janeiro: Confraria do Vento, 2019.

1.9.20

Adriano Nunes: "O tempo"

Agradeço a Adriano Nunes por me ter dedicado o seguinte, belo poema:



O tempo

           para Antonio Cicero   


O tempo mora
Dentro do centro
Da intuição
Ou dos objetos
Que em si só são?

O tempo jorra
De todo íntimo?
Vinga objetivo
Lá fora, então?
Existe ou não?

Ou será só
Mero fenômeno,
Representado
Qual pura forma?
Ilusão lógica?

Conceito não?
Ou condição
Doutros fenômenos
Do mundo dado?
Saberão sábios?

Quem mesmo certo
Está? Que importa
Discutir isso?
Melhor, é fato,
Ter, sempre à mão,

Alados versos
Para compor
Uma canção
De amor, pois tão
Presto é o tempo!





NUNES, Adriano. "O tempo"