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2.7.18
Por trás da canção "Fullgás"
14.12.17
Marina Lima e Antonio Cicero: show "Dois Irmãos"
No dia 6 de julho deste ano, Marina e eu apresentamos, no palco do projeto Unimúsica, no Salão de Atos da UFRGS, em Porto Alegre, um show intitulado "Dois Irmãos". O Unimúsica acaba de colocá-lo no YouTube. Ei-lo:
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8.7.17
Jorge Furtado sobre o show "Dois Irmãos", de Marina e Antonio Cicero
Quinta-feira passada, Marina e eu fizemos um show, intitulado "Dois Irmãos", em Porto Alegre, em que lembramos como se deu nossa parceria. Fiquei feliz com o comentário que, no dia seguinte, Jorge Furtado, grande diretor e roteirista de cinema e televisão, fez, no Facebook (https://www.facebook.com/jorge.furtado.52) sobre o show. É o seguinte:
Porto Alegre ontem viveu um grande momento com o show "Dois Irmãos", de Marina Lima e Antonio Cícero na Reitoria da UFRGS, um momento de beleza e poesia que nos lembra o que o Brasil tem de melhor. Marina encantou a todos com suas belíssimas canções e a mim surpreendeu tocando violão com maestria, só tinha visto shows dela com grandes bandas e não sabia que ela tocava tão bem. Antonio Cícero é um grande poeta e muito bem humorado, poderia passar a noite toda ouvindo seus versos e histórias.
Há um momento do show em que ele lê um texto não escrito por ele e ela canta uma música que não é parceria dos dois. Talvez não por coincidência, Marina cantou "Pessoa", do Dalto e Antonio Cícero leu um texto do Fernando Pessoa que eu não conhecia, muito bom.
"Quem, que seja português, pode viver a estreiteza de uma só personalidade, de uma só nação, de uma só fé? Que português verdadeiro pode, por exemplo, viver a estreiteza estéril do catolicismo, quando fora dele há que viver todos os protestantismos, todos os credos orientais, todos os paganismos mortos e vivos, fundindo-os portuguesmente no Paganismo Superior? Não queiramos que fora de nós fique um único deus! Absorvamos os deuses todos! Conquistamos já o Mar: resta que conquistemos o Céu, ficando a terra para os Outros, os eternamente Outros, os Outros de nascença, os europeus que não são europeus porque não são portugueses. Ser tudo, de todas as maneiras, porque a verdade não pode estar em faltar ainda alguma cousa! Criemos assim o Paganismo Superior, o Politeísmo Supremo! Na eterna mentira de todos os deuses, só os deuses todos são verdade. "
Fernando Pessoa, in 'Portugal entre Passado e Futuro'
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16.8.15
Nelson Motta homenageia Marina Lima
Na semana passada, Nelsinho Motta fez uma bela homenagem à
Marina Lima, no Jornal da Globo. Abaixo, vocês encontrarão o link para ela.
Aproveito
para corrigir apenas um pequeno equívoco. Ao contrário do que Nelsinho pensava,
Marina não nasceu no Piaui. Nossos pais são, de fato, piauienses, porém não se
conheceram lá, mas no Rio de Janeiro, onde namoraram, casaram-se e tiveram seus
filhos. Mas isso é um detalhe. A homenagem de Nelsinho é linda.
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8.11.13
Entrevista para Pedro Vale, do jornal "Tribuna do Norte"
Eis a entrevista que dei, na semana passada, para o Pedro Vale, da Tribuna do Norte, de Natal:
1 - O que podemos esperar da
aula espetáculo que vai acontecer no dia de abertura da Feira?
Pela primeira vez, Marina e eu
vamos, lado a lado, falar em público sobre nossa parceria, explicando como
começou, como compomos nossas canções, de que modo nos inspiramos para compor
algumas delas, o que pensamos de nosso trabalho conjunto etc. Acho que nós
mesmos não sabemos bem o que esperar desse encontro, mas esperamos que dê certo
e seja interessante para o público.
2 - Há diferença entre se
escrever a letra de uma canção e se escrever para um livro?
Sim, pois escrevo minhas letras, em
geral, para melodias já prontas, que me são dadas por meus parceiros ou
parceiras. Logo, não posso deixar de levar em conta não só a própria melodia,
com todas as suas sugestões, como o parceiro ou parceira em questão, e a pessoa
que deverá cantar a canção final. Já quando escrevo um poema, não penso senão
no que vai acontecendo na minha cabeça enquanto o escrevo.
3 - Quais os benefícios de se
ter a(o) irmã(o) como parceira(o) de trabalho?
A vantagem é a intimidade que os
irmãos têm. Na hora de compor e de dizer por onde achamos que a canção deve ir,
é bom não ter muita cerimônia.
4 - Como a sua musicalidade
influencia os seus escritos (os que, evidentemente, não sejam letras de
música)?
Na verdade, não sei se sou tão
musical assim. Quem é musical é a Marina. Eu faço apenas as letras. Não toco
nenhum instrumento e sou inteiramente desafinado. O que acontece é que presto
muita atenção ao aspecto sonoro – por exemplo, ao ritmo – da própria linguagem
e, naturalmente, ao fazer um poema, sou capaz de usar qualquer um dos recursos
de versificação que me ocorrerem.
5 - Quais músicos atuais você
escuta e quais escritores dessa geração você lê?
Escuto, por exemplo (e por ordem
alfabética) , Adriana Calcanhotto, Arnaldo Antunes, Arthur Nestrovski, Arthur
Nogueira, Caetano Veloso, Cid Campos, João Bosco, José Miguel Wisnik, Leo
Cavalcanti, Luis Tatit, Martinália, Péricles Cavalcanti...
6 - Que artistas, sejam de qual
época e de qual mídia for, inspiraram o seu trabalho?
Muitos; por exemplo (em ordem
alfabética) Anacreonte, Baudelaire, Bob Dylan, Caetano Veloso, Calímaco,
Catulo, Drummond, Hölderlin, Horácio, Rilke, Rimbaud, Shakespeare, T.S. Eliot,
Vinícius, Yeats...
7 - Como a maturidade e
experiência adquiridas em décadas de fazer artístico e intelectual influenciam
sua produção atual?
Não sou eu a melhor pessoa para
julgar meu próprio trabalho e minha própria evolução. Não sei dizer.
8 - Depois de já ter trilhado
por tantas mídias diferentes, que novidades podemos esperar de você no futuro?
Quando muito, novos poemas, novas
letras e novos ensaios de filosofia.
9 - Não podemos deixar de falar
das biografias não-autorizadas. Você é a favor ou contra? Por quê?
Sou contra a proibição de
biografias não autorizadas. Parecem-me inconstitucionais os artigos 20 e 21 do
código civil, pois contradizem o artigo 5º, inciso IV da Constituição, segundo
o qual “é livre a manifestação do pensamento, sendo vedado o anonimato”, e
contradizem o artigo 5º, inciso IX, segundo o qual “é livre a expressão da
atividade intelectual, artística, científica e de comunicação, independentemente
de censura ou licença”. E o inciso do mesmo artigo 5º que trata da privacidade,
que é o X, diz apenas que “são invioláveis a intimidade, a vida privada, a
honra e a imagem das pessoas, ASSEGURADO O DIREITO À INDENIZAÇÃO pelo dano
material ou moral decorrente de sua violação”. Ou seja, o máximo que se pode
pretender é a indenização pelo dano moral, mas jamais a proibição da publicação
de um texto. Assim, o que devemos lutar, no Brasil, é para que a justiça, não
apenas nesse caso, mas sempre, seja mais ágil; e para que, no caso específico
do “dano material ou moral” que uma biografia difamante cause no biografado,
seja realmente substancial a indenização imposta ao biógrafo. Acho também que
deve ser punida qualquer violação ILEGAL da privacidade de uma pessoa. Ninguém
tem o direito, por exemplo, de violar minha correspondência ou de
clandestinamente escutar minhas conversas telefônicas.
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11.3.13
Entrevista de Antonio Cicero à revista Cult
Dei uma entrevista para Marcus Preto, que foi publicada no último número da revista Cult. Ela se encontra aqui:
http://revistacult.uol.com.br/home/2013/03/a-lira-de-antonio-cicero/
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29.6.12
Entrevista ao jornal Correio da Bahia
A seguinte entrevista, que concedi a Salvatore Carrozzo, do jornal Correio da Bahia, de Salvador, foi publicada em 27 de junho:
Qual foi o seu objetivo ao fazer este livro? Qual pergunta queria responder?
A pergunta que motiva o livro é a que frequentemente me fazem: qual a diferença entre poesia e filosofia? Como penso, contra as tendências da moda, que são empreendimentos diferentes, aproveitei para não apenas falar dessa diferença, mas sobretudo para expor minhas ideias sobre a especificidade da poesia.
O brasileiro ainda liga poesia e filosofia a algo hermético?
Muita gente realmente despreza tudo o que não tem alguma utilidade prática. Pior: despreza tudo o que não dá dinheiro. Além disso, enquanto é possível fazer coisas práticas, como trabalhar, comer, transar ou ler o jornal ouvindo música, por exemplo, não é possível fazer nada disso ao mesmo tempo em que se lê um poema ou um ensaio de filosofia. Estes exigem tempo e concentração. Sendo assim, a poesia e a filosofia acabam sendo desprezadas. A ciência não é desprezada do mesmo modo somente porque é associada à tecnologia, logo, à técnica, logo, à utilidade prática.
Em um momento do livro, o senhor cita a lenda segundo a qual filósofo Tales, olhando os astros, caiu em um poço, e foi caçoado: "Pretendendo conhecer os céus, ignorava o que se encontrava aos seus pés". A filosofia tem virado muito as costas para os problemas do Brasil?
Acho mais lamentável que os brasileiros virem as costas para a filosofia. Então devemos deixar o pensamento mais ambicioso e profundo para os franceses, alemães, americanos, isto é, para os outros, limitando-nos a pensar sobre o que está aos nossos pés? Então um alemão, quando filosofa, pode perguntar-se sobre o ser, sobre o universo ou sobre os problemas da humanidade, mas nós, brasileiros, devemos nos ater aos problemas do Brasil? A Grécia antiga é hoje admirada como um dos pontos altos da história exatamente por causa de gente como Tales, que era capaz de voltar o olhar para o que se encontra muito além do chão que pisava, e não por causa dos que caçoavam de Tales.
O senhor diferencia pensar sobre o mundo e pensar o mundo. Poderia explicar melhor isso?
Em 2004, Adauto Novaes concebeu um ciclo de conferências intitulado “Poetas que pensaram o mundo”. Pareceu-me importante que ele o tivesse intitulado assim e não, como seria de esperar, “Poetas que pensaram SOBRE o mundo”. Refletindo sobre a diferença entre essas duas formulações, pareceu-me que, de fato, são os filósofos que pensam SOBRE o mundo, enquanto os poetas pensam O mundo. É como se os filósofos estivessem ACIMA, o que implica que estivessem FORA do mundo, ao pensar sobre ele. Já o pensamento dos poetas tende a se confundir com o mundo. O poeta, enquanto poeta, isto é, nos seus poemas, pensa não apenas com conceitos que pretendam abarcar o mundo, mas também com os sons, os ritmos, as imagens do próprio mundo: pensa, por isso O mundo, e não sobre o mundo.
O termo "poético" é usado para dizer algo muitas vezes pueril. "Fulano tem um olhar poético da vida", por exemplo. Isso faz parte da construção da poesia como algo supérfluo?
Creio que sim. É como se os poetas, como as crianças, não tenham caído na “real”, que é, segundo o senso comum, ver a vida com um olhar pragmático, utilitário, instrumental.
Em seu livro, o senhor fala de textos que podem, simultaneamente, ter uma contribuição original ao pensamento filosófico e ser um bom poema. Isso é raro hoje em dia?
Não é raro apenas hoje em dia. Sempre foi muito raro que um texto fosse, ao mesmo tempo e no mesmo trecho, um bom poema e uma contribuição original ao pensamento filosófico. É que aquilo que torna um texto poético bom não é o que torna um texto filosófico bom. O valor de um texto filosófico depende, por um lado, da originalidade e da capacidade das teses filosóficas que propõe de darem conta de questões lógicas, ontológicas, epistemológicas e estéticas, bem como da qualidade da argumentação com que o faz. Já o valor de um poema é função de sua capacidade de estimular o jogo de todas as nossas faculdades: inteligência, sensibilidade, emoção, sensualidade, memória etc. São coisas inteiramente diferentes.
O senhor diz, no livro, ser perfeitamente concebível um filósofo não produzir uma obra sequer em sua vida. Isso de alguma forma não corrobora a ideia do filósofo como um ser superior, que não faz parte do mundo?
Não necessariamente. Sócrates, por exemplo, era considerado filósofo porque suas ideias, mesmo não tendo sido escritas, foram discutidas e divulgadas pelos seus discípulos. Tanto ele quanto Pitágoras, outro filósofo que jamais escreveu, diziam preferir colocar suas doutrinas em seres dotados de alma (os discípulos) do que em seres sem alma (os livros). No fundo, eles achavam que, desse modo, essas doutrinas fariam mais integralmente parte do mundo.
Muitos poetas, o senhor incluído, dizem que, a rigor, o poema não serve para nada. Muito já foi declamado sobre esse assunto. Não é algo radical demais?
Não. É que o poema não precisa se justificar por nenhuma utilidade ulterior a ele mesmo. Sua leitura compensa a si própria. Nesse sentido, o poema vale por si. Isso não significa nenhum formalismo. É o poema como um todo, em que forma e conteúdo, não podem ser separados um do outro, que vale por si.
O senhor se refere muito a Carlos Drummond de Andrade no seu livro. Uma predileção especial? Podemos tratá-lo como um filósofo?
Não. Drummond não foi um filósofo. Foi o nosso maior poeta. Enquanto tal, ele não foi inferior a filósofo nenhum. A poesia é diferente, mas não é inferior nem superior à filosofia. Como eu já disse, um poema é capaz de mexer com todas as nossas faculdades: e é capaz de mexer com tudo o que sabemos, inclusive com a filosofia, a história, a geografia, a mitologia, a física que conheçamos. Um poema pode, por exemplo, falar do ser, da Grécia, de vulcões, de Zeus, de “partículas elementares” ou de “buracos negros”. Mas isso não quer dizer que ele seja uma obra de filosofia, história, geografia mitologia ou física. Ele é uma obra de poesia apenas, e isso basta.
No Brasil, a média é de pouco mais de um livro lido por ano. Isso não é muito frustrante para um escritor?
Sim; principalmente considerando que, apesar disso, nenhum governo investe maciçamente na educação.
No livro, o senhor diz que "deve-se às vanguardas do século XX a desfetichização completa de todos os recursos poéticos". Poderia explicar melhor isso?
É muito simples. Certas formas poéticas haviam sido fetichizadas, isto é, enfeitiçadas, pela tradição. Como a maior parte da poesia produzida no Ocidente moderno era metrificada e rimada, por exemplo, supunha-se que a métrica e a rima fossem intrinsecamente poéticas. Elas eram, de maneira geral, tidas como necessárias e como suficientes para a produção de um poema. Viraram fetiches. Ou seja, um texto que não possuísse métrica e rima não era normalmente tomado como um poema; e um texto que as possuísse era automaticamente tomado com um poema. Ora, as vanguardas mostraram que era possível produzir poemas sem métrica, rima ou outras características fetichizadas. Com isso, desfetichizaram tais características.
O senhor lê latim e grego? Ainda são línguas essenciais para o estudo da filosofia como foi no passado?
Tenho a impressão de que nada foi mais importante, para minha formação, do que aprender grego e latim. Nada me estimulou ou ensinou mais do que o estudo dessas línguas, tanto no que diz respeito à poesia, quanto no que diz respeito à filosofia. Mas não tenho o direito de generalizar. Há inúmeros grandes poetas e inúmeros grandes filósofos que não leem nem grego nem latim.
No ano passado, Marina Lima, sua irmã, lançou Climax, o primeiro disco sem colaborações suas. O senhor se incomodou com isso, de alguma forma?
Não me incomodou propriamente porque isso é, em parte, resultado de minha própria opção por me concentrar em escrever ensaios de filosofia e poesia para ser lida. Além disso, nossa parceria era sempre resultado de muitas conversas. Normalmente, eu ia para a casa dela, onde ela me mostrava a música que estava começando a compor e eu, a partir das conversas e do clima da música, começava a esboçar uns versos. Ora, agora Marina está morando em São Paulo e eu, no Rio, de modo que isso se tornou mais complicado. Lamento essa distância, mas tenho certeza de que ainda faremos muita coisa juntos.
Qual foi o seu objetivo ao fazer este livro? Qual pergunta queria responder?
A pergunta que motiva o livro é a que frequentemente me fazem: qual a diferença entre poesia e filosofia? Como penso, contra as tendências da moda, que são empreendimentos diferentes, aproveitei para não apenas falar dessa diferença, mas sobretudo para expor minhas ideias sobre a especificidade da poesia.
O brasileiro ainda liga poesia e filosofia a algo hermético?
Muita gente realmente despreza tudo o que não tem alguma utilidade prática. Pior: despreza tudo o que não dá dinheiro. Além disso, enquanto é possível fazer coisas práticas, como trabalhar, comer, transar ou ler o jornal ouvindo música, por exemplo, não é possível fazer nada disso ao mesmo tempo em que se lê um poema ou um ensaio de filosofia. Estes exigem tempo e concentração. Sendo assim, a poesia e a filosofia acabam sendo desprezadas. A ciência não é desprezada do mesmo modo somente porque é associada à tecnologia, logo, à técnica, logo, à utilidade prática.
Em um momento do livro, o senhor cita a lenda segundo a qual filósofo Tales, olhando os astros, caiu em um poço, e foi caçoado: "Pretendendo conhecer os céus, ignorava o que se encontrava aos seus pés". A filosofia tem virado muito as costas para os problemas do Brasil?
Acho mais lamentável que os brasileiros virem as costas para a filosofia. Então devemos deixar o pensamento mais ambicioso e profundo para os franceses, alemães, americanos, isto é, para os outros, limitando-nos a pensar sobre o que está aos nossos pés? Então um alemão, quando filosofa, pode perguntar-se sobre o ser, sobre o universo ou sobre os problemas da humanidade, mas nós, brasileiros, devemos nos ater aos problemas do Brasil? A Grécia antiga é hoje admirada como um dos pontos altos da história exatamente por causa de gente como Tales, que era capaz de voltar o olhar para o que se encontra muito além do chão que pisava, e não por causa dos que caçoavam de Tales.
O senhor diferencia pensar sobre o mundo e pensar o mundo. Poderia explicar melhor isso?
Em 2004, Adauto Novaes concebeu um ciclo de conferências intitulado “Poetas que pensaram o mundo”. Pareceu-me importante que ele o tivesse intitulado assim e não, como seria de esperar, “Poetas que pensaram SOBRE o mundo”. Refletindo sobre a diferença entre essas duas formulações, pareceu-me que, de fato, são os filósofos que pensam SOBRE o mundo, enquanto os poetas pensam O mundo. É como se os filósofos estivessem ACIMA, o que implica que estivessem FORA do mundo, ao pensar sobre ele. Já o pensamento dos poetas tende a se confundir com o mundo. O poeta, enquanto poeta, isto é, nos seus poemas, pensa não apenas com conceitos que pretendam abarcar o mundo, mas também com os sons, os ritmos, as imagens do próprio mundo: pensa, por isso O mundo, e não sobre o mundo.
O termo "poético" é usado para dizer algo muitas vezes pueril. "Fulano tem um olhar poético da vida", por exemplo. Isso faz parte da construção da poesia como algo supérfluo?
Creio que sim. É como se os poetas, como as crianças, não tenham caído na “real”, que é, segundo o senso comum, ver a vida com um olhar pragmático, utilitário, instrumental.
Em seu livro, o senhor fala de textos que podem, simultaneamente, ter uma contribuição original ao pensamento filosófico e ser um bom poema. Isso é raro hoje em dia?
Não é raro apenas hoje em dia. Sempre foi muito raro que um texto fosse, ao mesmo tempo e no mesmo trecho, um bom poema e uma contribuição original ao pensamento filosófico. É que aquilo que torna um texto poético bom não é o que torna um texto filosófico bom. O valor de um texto filosófico depende, por um lado, da originalidade e da capacidade das teses filosóficas que propõe de darem conta de questões lógicas, ontológicas, epistemológicas e estéticas, bem como da qualidade da argumentação com que o faz. Já o valor de um poema é função de sua capacidade de estimular o jogo de todas as nossas faculdades: inteligência, sensibilidade, emoção, sensualidade, memória etc. São coisas inteiramente diferentes.
O senhor diz, no livro, ser perfeitamente concebível um filósofo não produzir uma obra sequer em sua vida. Isso de alguma forma não corrobora a ideia do filósofo como um ser superior, que não faz parte do mundo?
Não necessariamente. Sócrates, por exemplo, era considerado filósofo porque suas ideias, mesmo não tendo sido escritas, foram discutidas e divulgadas pelos seus discípulos. Tanto ele quanto Pitágoras, outro filósofo que jamais escreveu, diziam preferir colocar suas doutrinas em seres dotados de alma (os discípulos) do que em seres sem alma (os livros). No fundo, eles achavam que, desse modo, essas doutrinas fariam mais integralmente parte do mundo.
Muitos poetas, o senhor incluído, dizem que, a rigor, o poema não serve para nada. Muito já foi declamado sobre esse assunto. Não é algo radical demais?
Não. É que o poema não precisa se justificar por nenhuma utilidade ulterior a ele mesmo. Sua leitura compensa a si própria. Nesse sentido, o poema vale por si. Isso não significa nenhum formalismo. É o poema como um todo, em que forma e conteúdo, não podem ser separados um do outro, que vale por si.
O senhor se refere muito a Carlos Drummond de Andrade no seu livro. Uma predileção especial? Podemos tratá-lo como um filósofo?
Não. Drummond não foi um filósofo. Foi o nosso maior poeta. Enquanto tal, ele não foi inferior a filósofo nenhum. A poesia é diferente, mas não é inferior nem superior à filosofia. Como eu já disse, um poema é capaz de mexer com todas as nossas faculdades: e é capaz de mexer com tudo o que sabemos, inclusive com a filosofia, a história, a geografia, a mitologia, a física que conheçamos. Um poema pode, por exemplo, falar do ser, da Grécia, de vulcões, de Zeus, de “partículas elementares” ou de “buracos negros”. Mas isso não quer dizer que ele seja uma obra de filosofia, história, geografia mitologia ou física. Ele é uma obra de poesia apenas, e isso basta.
No Brasil, a média é de pouco mais de um livro lido por ano. Isso não é muito frustrante para um escritor?
Sim; principalmente considerando que, apesar disso, nenhum governo investe maciçamente na educação.
No livro, o senhor diz que "deve-se às vanguardas do século XX a desfetichização completa de todos os recursos poéticos". Poderia explicar melhor isso?
É muito simples. Certas formas poéticas haviam sido fetichizadas, isto é, enfeitiçadas, pela tradição. Como a maior parte da poesia produzida no Ocidente moderno era metrificada e rimada, por exemplo, supunha-se que a métrica e a rima fossem intrinsecamente poéticas. Elas eram, de maneira geral, tidas como necessárias e como suficientes para a produção de um poema. Viraram fetiches. Ou seja, um texto que não possuísse métrica e rima não era normalmente tomado como um poema; e um texto que as possuísse era automaticamente tomado com um poema. Ora, as vanguardas mostraram que era possível produzir poemas sem métrica, rima ou outras características fetichizadas. Com isso, desfetichizaram tais características.
O senhor lê latim e grego? Ainda são línguas essenciais para o estudo da filosofia como foi no passado?
Tenho a impressão de que nada foi mais importante, para minha formação, do que aprender grego e latim. Nada me estimulou ou ensinou mais do que o estudo dessas línguas, tanto no que diz respeito à poesia, quanto no que diz respeito à filosofia. Mas não tenho o direito de generalizar. Há inúmeros grandes poetas e inúmeros grandes filósofos que não leem nem grego nem latim.
No ano passado, Marina Lima, sua irmã, lançou Climax, o primeiro disco sem colaborações suas. O senhor se incomodou com isso, de alguma forma?
Não me incomodou propriamente porque isso é, em parte, resultado de minha própria opção por me concentrar em escrever ensaios de filosofia e poesia para ser lida. Além disso, nossa parceria era sempre resultado de muitas conversas. Normalmente, eu ia para a casa dela, onde ela me mostrava a música que estava começando a compor e eu, a partir das conversas e do clima da música, começava a esboçar uns versos. Ora, agora Marina está morando em São Paulo e eu, no Rio, de modo que isso se tornou mais complicado. Lamento essa distância, mas tenho certeza de que ainda faremos muita coisa juntos.
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2.6.11
Sobre a cantora Marina Lima
O seguinte texto, escrito por mim sobre minha irmã, Marina Lima, que está lançando um novo disco, foi publicado na quarta-feira, 1 de junho, na "Ilustrada", da Folha de São Paulo.
Arte de Marina Lima funciona como um espelho mágico
Marina é da raça das cantoras que, ao invés de interpretar as canções que cantam, fazem-se interpretar por elas. Mas não se trata simplesmente de que as canções nos revelem a psicologia da mulher que canta. As cantoras a que me refiro fazem da sua voz a intersecção da fala e do canto, da vida e da arte, do singular e do universal.
Como diz o compositor Luiz Tatit, "a voz que canta prenuncia, para além de um certo corpo vivo, [...] um corpo imortalizado em sua extensão timbrística".
A música de Marina, é, por um lado, um gesto intensamente pessoal e, por isso, precário e arriscado; mas é, por outro lado, um voo perfeccionista e impaciente com todas as vicissitudes demasiadamente humanas.
Em virtude da primeira característica, identificamo-nos com ela, mas, em virtude da segunda, a admiramos. No entanto, separá-las é ato de abstração, pois elas são indissociáveis. O todo, a arte de Marina, funciona como um espelho mágico, que nos devolve não a imagem da nossa realidade física ou psicológica, mas a força de sentimentos maravilhosos e obscuros e de promessas de felicidade há muito dormentes em nosso coração.
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