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20.5.19

Luís de Camões: "Oh, como se me alonga, de ano em ano"




Oh, como se me alonga, de ano em ano,
A peregrinação cansada minha!
Como se encurta, e como ao fim caminha
Este meu breve e vão discurso humano!

Vai-se gastando a idade e cresce o dano;
Perde-se-me um remédio, que inda tinha;
Se por experiência se adivinha,
Qualquer grande esperança é grande engano.

Corro após este bem que não se alcança;
No meio do caminho me falece,
Mil vezes caio, e perco a confiança.

Quando ele foge, eu tardo; e, na tardança,
Se os olhos ergo a ver se inda parece,
Da vista se me perde e da esperança.





CAMÕES, Luís de. "Oh, como se me alonga, de ano em ano". In:_____. Lírica. São Paulo: Cultrix, 1981.

15.9.17

Luís de Camões: "Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades"



Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades

Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades,
muda-se o ser, muda-se a confiança;
todo o mundo é composto de mudança,
tomando sempre novas qualidades.

Continuamente vemos novidades,
diferentes em tudo da esperança;
do mal ficam as mágoas na lembrança,
e do bem – se algum houve – as saudades.

O tempo cobre o chão de verde manto,
que já coberto foi de neve fria,
e enfim converte em choro o doce canto.

E, afora este mudar-se cada dia,
outra mudança faz de mor espanto:
Que não se muda já como soía.



CAMÕES, Luís. "Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades". In:_____. Lírica completa II. Sonetos. Lisboa: Imprensa Nacional; Casa da Moeda, 1980.

21.9.14

Luís de Camões: "Os bons sempre vi passar"




Esparsa sua ao desconcerto do mundo

Os bons vi sempre passar
No mundo graves tormentos;
E para mais m’espantar,
Os maus vi sempre nadar
Em mar de contentamentos.
Cuidando alcançar assim
O bem tão mal ordenado,
Fui mau, mas fui castigado:
Assi que só para mim
Anda o mundo concertado.



CAMÕES, Luís de. "De cuidados rodeado". In:_____. Lírica completa I. Vila da Maia: Imprensa Nacional, 1980.

30.7.14

Luís de Camões: "Amor é um fogo que arde sem se ver"





Amor é um fogo que arde sem se ver,
É ferida que dói, e não se sente;
É um contentamento descontente,
É dor que desatina sem doer.

É um não querer mais que bem querer;
É um andar solitário entre a gente;
É nunca contentar-se de contente;
É um cuidar que se ganha em se perder.

É querer estar preso por vontade;
É servir a quem vence, o vencedor;
É ter com quem nos mata, lealdade.

Mas como causar pode seu favor
Nos corações humanos amizade,
Se tão contrário a si é o mesmo Amor?



CAMÕES, Luís de. Lírica completa II. Sonetos. Lisboa: Imprensa Nacional / Casa da Moeda, 1980.

24.5.12

Luís de Camões: "Amor, co a esperança já perdida"



Amor, co a esperança já perdida

Amor, co a esperança já perdida,
teu soberano templo visitei;
por sinal do naufrágio que passei,
em lugar dos vestidos, pus a vida.

Que queres mais de mim, que destruída
me tens a glória toda que alcancei?
Não cuides de forçar-me, que não sei
tornar a entrar onde não há saída.

Vês aqui alma, vida e esperança,
despojos doces de meu bem passado,
enquanto quis aquela que eu adoro:

nelas podes tomar de mim vingança;
e se inda não estás de mim vingado,
contenta-te co as lágrimas que choro.




CAMÕES, Luís de. Lírica completa II. Sonetos. Lisboa: Imprensa Nacional; Casa da Moeda: 1980.

25.12.09

Luís de Camões: "Aquela cativa"

Aquela cativa

Endechas a ũa cativa com quem andava de amores na Índia, chamada Bárbora.

Aquela cativa
que me tem cativo,
porque nela vivo
já não quer que viva.
Eu nunca vi rosa
em suaves molhos,
que pera meus olhos
fosse mais fermosa.

Nem no campo flores,
nem no céu estrelas
me parecem belas
como os meus amores.
Rosto singular,
olhos sossegados,
pretos e cansados,
mas não de matar.

Uma graça viva,
que neles lhe mora,
para ser senhora
de quem é cativa.
Pretos os cabelos,
onde o povo vão
perde opinião
que os louros são belos.

Pretidão de Amor,
tão doce a figura,
que a neve lhe jura
que trocara a cor.
Leda mansidão,
que o siso acompanha;
bem parece estranha,
Mas bárbora não.

Presença serena
que a tormenta amansa;
nela, enfim, descansa
toda a minha pena.
Esta é a cativa
que me tem cativo.
E pois nela vivo,
é força que viva.



CAMÕES, Luís de. Lírica completa. Vol.1. Prefácio e notas de Maria de Lurdes Saraiva. Lisboa: Imprensa Nacional / Casa da Moeda, 1980.

1.3.08

Camões: Pensamentos, que agora novamente

Em seu comentário ao soneto de Sá de Miranda, Carlos Eduardo mencinou o seguinte --esplêndido -- soneto de Camões:





Pensamentos, que agora novamente
Cuidados vãos em mim ressuscitais,
Dizei-me: ainda não vos contentais
De terdes quem vos tem tão descontente?

Que fantasia é esta, que presente
Cada hora ante meus olhos me mostrais?
Com sonhos e com sombras atentais
Quem nem por sonhos pode ser contente?

Vejo-vos, pensamentos, alterados;
E não quereis, de esquivos, declarar-me
Que é isto que vos traz tão enleados?

Não me negueis, se andais para negar-me;
Que, se contra mim estais alevantados,
Eu vos ajudarei mesmo a matar-me.



De: CAMÕES, Luís de. "Sonetos". In: SARAIVA, M. de L. _____ Lírica completa. Vol.2. Lisboa: Imprensa Nacional, 198, p.262

26.2.08

Petrarca: Pace non trovo e non ho da far guerra

A obra-prima de Camões aqui postada no dia 22 de fevereiro foi a ele inspirada por outra obra-prima: um soneto de Petrarca. Fiz uma tradução aproximada desse soneto. Ei-la, com o original italiano embaixo.



CXXXIV

Paz não encontro e nem me quer a guerra;
E temo e espero e ardo e sou gelado
E vôo sobre o céu e jazo à terra;
E nada aperto, e o mundo todo abraço.

Quem me prende não larga nem encerra,
Nem por seu me retém nem abre o laço;
E nem me mata Amor nem me liberta,
Nem me quer vivo nem quer meu trespasso.

Vejo sem olhos, sem ter língua grito;
E anseio por morrer, e peço ajuda;
E me odeio a mim mesmo e amo a sós.

De dor me alimento, chorando rio;
Igualmente desprezo a morte e a luta:
E neste estado estou, mulher, por vós.



CXXXIV

Pace non trovo e non ho da far guerra
e temo, e spero; e ardo e sono un ghiaccio;
e volo sopra 'l cielo, e giaccio in terra;
e nulla stringo, e tutto il mondo abbraccio.

Tal m'ha in pregion, che non m'apre né sera,
né per suo mi ritèn né scioglie il laccio;
e non m'ancide Amore, e non mi sferra,
né mi vuol vivo, né mi trae d'impaccio.

Veggio senz'occhi, e non ho lingua, e grido;
e bramo di perir, e chieggio aita;
e ho in odio me stesso, e amo altrui.

Pascomi di dolor, piangendo rido;
egualmente mi spiace morte e vita:
in questo stato son, donna, per voi.


De: PETRARCA, Francesco. Dal Canzoniere/Le chansonnier. Paris: Aubier-Flammarion, 1969, p.158.

22.2.08

Camões: Tanto de meu estado me acho incerto

Publico a seguir um clássico soneto de Camões. “Um clássico é um clássico”, diz Ezra Pound, “não porque se conforme a certas regras estruturais, ou porque se adéqüe a certas definições (das quais o seu autor, bem provavelmente, jamais ouviu falar). É clássico por causa de certo frescor eterno e irreprimível”. Esqueça-se o leitor de que se encontra ante um clássico, e mesmo ante um soneto, e o leia como se fosse pela primeira vez, e como se tivesse sido escrito ontem. Pronuncie-o em voz baixa e lenta. Deixe entrar cada verso, cada palavra, cada sílaba, cada letra com todo o seu peso ou a sua leveza em seu ouvido, pausando de acordo com as sugestões do verso. Passe por cima do que não entender imediatamente. Leia-o todo. Depois o releia várias vezes, para compreender e apreciar cada vez mais: para fazê-lo seu.


Tanto de meu estado me acho incerto,
Que em vivo ardor tremendo estou de frio;
Sem causa, juntamente choro e rio;
O mundo todo abarco e nada aperto.

É tudo quanto sinto um desconcerto;
Da alma um fogo me sai, da vista um rio;
Agora espero, agora desconfio,
Agora desvario, agora acerto.

Estando em terra, chego ao Céu voando;
Numa hora acho mil anos, e é de jeito
Que em mil anos não posso achar uma hora.

Se me pergunta alguém porque assim ando,
Respondo que não sei; porém suspeito
Que só porque vos vi, minha Senhora.

De: CAMÕES, Luís de. Lírica. São Paulo: Cultrix, 1981, p.117.