Afinal tenho tempo de responder ao último comentário de Paulo de Toledo sobre a postagem de 21/05, “A poesia é um segredo dos deuses?”. O assunto é a especificidade da poesia. Como essa correspondência me parece muito interessante, resolvi recapitular abaixo os lances mais importantes dela (até agora) e postar, no final de tudo, a minha resposta – nada definitiva – de hoje.
23/05
Caro Antonio,
[...]
o que eu quis questionar [no comentário de 22/05] era se é possível dizer que há um "específico poético", i.e., haveria algo de único no discurso poético que realmente o diferenciaria do discurso prosaico? Afinal, se não basta dividir um texto em várias linhas para considerá-lo um poema, nem tampouco criar rimas no final de cada uma dessas linhas, então o que faz de um "conjunto de palavras" um poema?
Eu me arriscaria a tentar responder a essa questão da seguinte forma: a poesia é a única arte que consegue transformar signos convencionalizados (o signo verbal peirceano) em signos icônicos (aqueles que se relacionam com o seu objeto por meio de similaridades), criando uma relação de semelhança e, portanto, "necessária", "não-arbitrária", entre os signos que a compõem e o seu objeto.
Há também o inefável, o inexplicável, o intangível... Mas, quanto a esse aspecto da poesia, eu fico com Pessoa: "Sentir? Sinta quem lê!"
Abrações
Paulo de Toledo
23/05
Caro Paulo,
Acho que a iconicidade é uma característica importante de muitos poemas e de muitos componentes de diferentes poemas, mas não creio que seja a diferença específica, que determinaria a essência da poesia.
Você define o signo icônico como "aquele que se relaciona com seu objeto por meio da similaridade". Isso, porém, supõe uma diferença entre o poema e o seu objeto, que seria mais ou menos análoga à diferença entre o significante e o significado. Ora, penso que num poema, no limite, não se pode separar o significante do significado, o poema do seu objeto. É por isso que o poema não é parafraseável, isto é, que não se pode dizer em outras palavras o que um poema diz. Em última análise, parece-me que o poema é o objeto mesmo: o objeto verbal que vale por si, não por causa do que ele diz sobre outra coisa.
Abraço,
Antonio Cicero
Caro AC,
o poema é, sim, algo não "parafraseável", mas exatamente porque os signos verbais (signos simbólicos, na nomenclatura peirceana) que o compõe (e que são signos convencionalizados, arbitrários), ao serem manejados pelo poeta, tornam-se signos icônicos (também segundo a definição de Peirce). E o signo icônico, diferentemente do signo simbólico/verbal, não admite paráfrase. Quando Dante se utiliza do número-conceito 3 para estruturar seu poema (terza rima, 3 cabeças do demônio, 3 "points": inferno, purgatório e paraíso etc.), este número transforma-se em um ícone do poema. Como diria o Décio Pignatari: ritmo é ícone. Portanto, quando lemos dois versos em que o esquema rímico e rítmico são iguais, há uma relação de similaridade entre eles e, consequentemente, há uma relação icônica entre os versos. As palavaras que os compõem deixam de ser meramente signos convencionalizados para se tornarem signos não-arbitrários, necessários.
Era mais ou menos isso que eu tentei dizer no outro comentário.
Abração
Paulo de Toledo
Hoje:
Caro Paulo,
Desculpe a demora da minha resposta. Deveu-se à viagem que fiz e, depois, a alguns problemas que tive que tentar resolver ao chegar, antes de me conceder o lazer para me dedicar a essas questões, que, no final das contas, são as que mais me interessam.
Como já lhe disse, acho que está certo considerar uma característica importante de muitos poemas a iconicidade de muitos dos seus signos. Entretanto, não creio que ela seja totalmente adequada para determinar o que é um poema. Em primeiro lugar, um poema não é composto apenas de signos icônicos. A maior parte dos signos de alguns – grandes – poemas não me parecem absolutamente icônicos. Tomemos, por exemplo, “Homenagem a Paul Klee”, do João Cabral:
Homenagem a Paul Klee
Nele houve o insano projeto
de envelhecer sem rotina;
e ele o viveu, despelando-se
de toda pele que o tinha.
Sem medo, lavava as mãos
do que até então vinha sendo:
de noite, saltava os muros,
saía a novos serenos.
Não vejo por que considerar icônicos os signos desse poema: a menos que se estenda tanto a noção de “ícone” que ela possa ser usada de praticamente tudo: e, consequentemente, não signifique nada em particular. Aliás, acho que você corre esse perigo quando, falando de ritmo ser ícone, diz que os esquemas rímicos e rítmicos já representam relações icônicas entre os versos. Parece-me que a relação icônica é semântica e não sintática. Você mesmo a considera uma “relação de semelhança e, portanto ‘necessária’, ‘não-arbitrária’, entre os signos que a compõem e o seu objeto”. Por exemplo, ritmo é ícone, sim, no poema “Caçar em vão”, de Armando Freitas Filho, que postei aqui em 28/05.
Entretanto, se, por exemplo, o esquema de rimas inteiramente convencional de um soneto petrarquiano não tiver nenhuma relação com o que está sendo dito, não terá sentido considerá-lo icônico. Nem toda relação paronomásica constitui um ícone porque nem sempre ela compõe a imagem ou o retrato de alguma coisa; nem sempre, através dela, o plano semântico se projeta no sintático ou o significado no significante, ou, para falar como o Décio, nem sempre o eixo de similaridade se projeta sobre o de contigüidade, o paradigma sobre o sintagma, ou o ícone sobre o símbolo.
Já o que você diz do esquema triádico da Commedia de Dante parece-me correto, pois evoca a trindade divina.
Mas além de achar que há poemas cujos signos não são mais icônicos do que os de outros tipos de discurso (o que significa que a iconicidade não é uma condição necessária para a poesia) acho que há outros discursos nada poéticos (por exemplo, o da publicidade) que usa signos icônicos pelo menos tão freqüente e intensamente quanto a poesia o faz (o que significa que a iconicidade não é condição suficiente para a poesia).
Em suma, tenho a impressão de que a iconicidade ainda não resolve o problema da especificidade da poesia.
Um abraço,
Antonio Cicero
Mostrando postagens com marcador Paulo de Toledo. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Paulo de Toledo. Mostrar todas as postagens
Assinar:
Postagens (Atom)