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10.6.18

Luís Miguel Nava: "Rapazes"



Rapazes

Foi há cerca de um ano que eu
os vi, onde o granito e a luz são consanguíneos.

Seguiam abraçados um
ao outro, o pensamento posto no amoroso
lençol de que era na mão deles
o guarda-chuva uma antecipação.



NAVA, Luís Miguel. "Rapazes". In:_____. Poesia completa 1979-1994. Org. por Gastão Cruz. Lisboa: Publicações Dom Quixote, 2002.

15.4.18

Luís Miguel Nava: "A fome"



A fome

Aqui, onde a mão não
alcança o interruptor da vida, aqui
só brilha a solidão.
Desfazem-se as lembranças contra os vidros.
Aqui, onde a brancura
dum lenço é a brancura do infortúnio,
aqui a solidão
não brilha, apenas
se estorce.
A fome fala através das feridas.




NAVA, Luís Miguel. "A fome". In:_____. Vulcão. Lisboa: Quetzal, 1994.

14.3.16

Luís Miguel Nava: "A pouco e pouco"




A pouco e pouco



     Há entre o coração e a pele cumplicidades para cujo entendimento apenas corpos como o dele às vezes contribuem.
     Olhando-o nos olhos não é fácil destrinçar do alcantilado coração a cama onde dormíamos, ao mais pequeno sopro o sol parece evaporar-se.
     Por esse coração, ainda que escarpado, era, no entanto, fácil alcançar a pele, o mar à força de bater na rocha ia ficando a pouco e pouco em carne viva.



NAVA, Luís Miguel. "A pouco e pouco". In:_____. "Como alguém disse". In:_____. Poesia completa 1979-1994. Lisboa: Publicações Dom Quixote, 2002.

20.1.16

Luís Miguel Nava: "Abismos"




Abismos

Entre estes meus amigos através
de cujos corações arde o horizonte e a ponte
da qual o seu sorriso era um dos arcos
abriram-se os abismos.



NAVA, Luís Miguel. "Abismos". In:_____. Poesia completa 1979-1994. Org. de Gastão Cruz. Lisboa: Dom Quixote, 2002.


7.8.15

Luís Miguel Nava: "Há uma pedra feroz"





Há uma pedra feroz

Há uma pedra feroz,
um rapaz,
há o olhar do rapaz atado à pedra,
o olhar do rapaz, a minha casa,
o olhar do rapaz às vezes é a pedra.



NAVA, Luís Miguel. "Há uma pedra feroz". In_____. "Onde a nudez". In:_____. Poesia completa. 1979-1994. Org. de Gastão Cruz. Lisboa: Dom Quixote, 2002.

22.12.14

Luís MIguel Nava: "Crawl"





                                          Crawl



     Às vezes, entranhando-me num espelho, consigo dar nele duas ou três braçadas sucessivas.



NAVA, Luís Miguel. "Rebentação". In:_____. Poesia completa. Org. de Gastão Cruz. Lisboa: Dom Quixote, 2002.

22.4.14

Luís Miguel Nava: "Paixão"






Paixão

Ficávamos no quarto até anoitecer, ao conseguirmos
situar num mesmo poema o coração e a pele quase podíamos
erguer entre eles uma parede e abrir
depois caminho à água.

Quem pelo seu sorriso então se aventurasse achar-se-ia
de súbito em profundas minas, a memória
das suas mais longínquas galerias
extrai aquilo de que é feito o coração.

Ficávamos no quarto, onde por vezes
o mar vinha irromper. É sem dúvida em dias de maior
paixão que pelo coração se chega à pele.
Não há então entre eles nenhum desnível.



NAVA, Luís Miguel. "Paixão". In: PEDROSA, Inês (org.). Poemas de amor. Antologia de poesia portuguesa. Lisboa: Dom Quixote, 2005.

21.9.13

Luis Miguel Nava: "Falésias"







Falésias


Poder-me-ão encontrar, trago um rapaz na minha
memória, a casa a uma janela
da qual ele vem com um sabor à boca,
falésias onde o aguardo à hora do crepúsculo.

Regresso assim ao mar de que não posso
falar sem recorrer ao fogo e as tempestades
ao longe multiplicam-nos os passos.
Onde eu não sonhe a solidão, fá-lo por mim.




NAVA, Luis Miguel. Como alguém disse. Lisboa: Contexto, 1982.

3.9.09

Luís Miguel Nava: "Ao mínimo clarão"




Ao mínimo clarão

Talvez seja melhor não nos voltarmos
a ver, ao mínimo clarão
das mãos a pele se desavém com a memória.
As mãos são de qualquer corpo a coroa.

Das dele já nem sequer o itinerário
sei hoje muito bem, onde o horizonte
se desata o mar agora
regressa ao coração de que faz parte.

Ainda é o mar contudo o que se vê
florir onde ele chegar. chamando a esse
rapaz rebentação,
o céu rasga-se à volta dos seus ombros.



NAVA, Luís Miguel. "Como alguém disse". In: Poesia completa (1979-1994). Lisboa: Dom Quixote, 2002.

29.12.08

Luís Miguel Nava: "Ars poetica"

.



Ars poetica


O mar, no seu lugar pôr um relâmpago.




De: NAVA, Luís Miguel. "Onde à nudez". In: Poesia completa. 1979-1994. Organização e posfácio de Gastão Cruz. Prefácio de Fernando Pinto do Amaral. Lisboa: Dom Quixote, 2002.

15.5.08

Luís Miguel Nava

MANUEL

Fui ter com ele à Feira Popular, donde minutos
depois partimos para Sintra. Lembro-me
de o carro avançar à velocidade do meu sangue.
No Guincho, onde momentos antes
de o sol se pôr parámos, vi o mar
ganhar no espírito dele outra ondulação.
De nós, assim o soube, erguem paisagens
as viagens. Entre a pele e o coração alçam-se as pontes.


De: NAVA, Luís Miguel. "Onde à nudez". In: Poesia completa. Org. CRUZ, Gastão. Lisboa: Dom Quixote, 2002, p.62.

19.8.07

Luís Miguel Nava: Rapaz

RAPAZ

Não sei como é possível falar desse
rapaz pelo interior
de cuja pele o sol surge antes de o fazer no céu.


NAVA, Luís Miguel. "Rapaz". In: Poesia completa. 1974-1994. Org. e posfácio de Gastão Cruz. Lisboa: Dom Quixote, 2002, p.86.