31.12.10

!!!!!!!!!!!FELIZ 2011!!!!!!!!!!

Rainer Maria Rilke: "Archaïscher Torso Apollos" / "Torso arcaico de Apolo": trad. Manuel Bandeira




Torso arcaico de Apolo

Não sabemos como era a cabeça, que falta,
de pupilas amadurecidas. Porém
o torso arde ainda como um candelabro e tem,
só que meio apagada, a luz do olhar, que salta

e brilha. Se não fosse assim, a curva rara
do peito não deslumbraria, nem achar
caminho poderia um sorriso e baixar
da anca suave ao centro onde o sexo se alteara.

Não fosse assim, seria essa estátua uma mera
pedra, um desfigurado mármore, e nem já
resplandecera mais como pele de fera.

Seus limites não transporia desmedida
como uma estrela; pois ali ponto não há
que não te mire. Força é mudares de vida.




Archaïscher Torso Apollos

Wir kannten nicht sein unerhörtes Haupt,
darin die Augenäpfel reiften. Aber
sein Torso glüht noch wie ein Kandelaber,
in dem sein Schauen, nur zurückgeschraubt,

sich hält und glänzt. Sonst könnte nicht der Bug
der Brust dich blenden, und im leisen Drehen
der Lenden könnte nicht ein Lächeln gehen
zu jener Mitte, die die Zeugung trug.

Sonst stünde dieser Stein entstellt und kurz
unter der Schultern durchsichtigem Sturz
und flimmerte nicht so wie Raubtierfelle

Und bräche nicht aus allen seinen Rändern
aus wie ein Stern: denn da ist keine Stelle,
die dich nicht sieht. Du mußt dein Leben ändern.



RILKE, Rainer Maria. "Der neuen Gedichte anderer Teil". Sämtliche Werke. Frankfurt: Insel, 1926.

BANDEIRA, Manuel. "Poemas traduzidos". Estrela da vida inteira. Rio de Janeiro: José Olympio, 1966.




28.12.10

Rubén Dario: "Ama tu ritmo..." / "Ama teu ritmo... : " trad. Antonio Cicero




Ama teu ritmo...


Ama teu ritmo e ritma tuas ações
sob sua lei, assim como teus versos;
tu és um universo de universos,
e tua alma uma fonte de canções.

A celeste unidade que supões
fará brotar em ti mundos diversos,
e, ao ressoar teus números dispersos,
pitagoriza entre as constelações.

Escuta essa retórica divina
do pássaro do ar e a noturna
irradiação geométrica adivinha;

mata essa indiferença taciturna
e pérola a pérola cristalina
engasta onde a verdade entorna a urna.




Ama tu ritmo...


Ama tu ritmo y ritma tus acciones
bajo su ley, así como tus versos;
eres un universo de universos
y tu alma una fuente de canciones.

La celeste unidad que presupones
hará brotar en ti mundos diversos,
y al resonar tus números dispersos
pitagoriza en tus constelaciones.

Escucha la retórica divina
del pájaro del aire y la nocturna
irradiación geométrica adivina;

mata la indiferencia taciturna
y engarza perla y perla cristalina
en donde la verdad vuelca su urna.



DARIO, Rubén. Y una sed de ilusiones infinita. Edición e introducción de Alberto Acereda. Barcelona: Lumen, 2000.

25.12.10

Jorge Luis Borges: "Poema de los dones" / "Poema dos dons": trad. de Josely Vianna Baptista




Poema dos dons


Ninguém rebaixe a lágrima ou rejeite
esta declaração da maestria.
de Deus, que com magnífica ironia
deu-me a um só tempo os livros e a noite.

Da cidade de livros tornou donos
estes olhos sem luz, que só concedem
em ler entre as bibliotecas dos sonhos
insensatos parágrafos que cedem

as alvas a seu afã. Em vão o dia
prodiga-lhes seus livros infinitos,
árduos como os árduos manuscritos
que pereceram em Alexandria.

De fome e de sede (narra uma história grega)
morre um rei entre fontes e jardins;
eu fatigo sem rumo os confins
dessa alta e funda biblioteca cega.

Enciclopédias, atlas, o Oriente
e o Ocidente, centúrias, dinastias,
símbolos, cosmos e cosmogonias
brindam as paredes, mas inutilmente.

Em minha sombra, o oco breu com desvelo
investigo, o báculo indeciso,
eu, que me figurava o paraíso
tendo uma biblioteca por modelo.

Algo, que por certo não se vislumbra
no termo acaso, rege estas coisas;
outro já recebeu em outras nebulosas
tardes os muitos livros e a penumbra.

Ao errar pelas lentas galerias
sinto às vezes com vago horror sagrado
que sou o outro, o morto, habituado
aos mesmos passos e aos mesmos dias.

Qual de nós dois escreve este poema
de uma só sombra e de um plural?
O nome que assina é essencial,
se é indiviso e uno este anátema?

Groussac ou Borges, olho este querido
mundo que se deforma e que se apaga
numa empalidecida cinza vaga
que se parece ao sonho e ao olvido



Poema de los dones


Nadie rebaje a lágrima o reproche
esta declaración de la maestría
de Dios, que con magnífica ironía
me dio a la vez los libros y la noche.

De esta ciudad de libros hizo dueños
a unos ojos sin luz, que sólo pueden
leer en las bibliotecas de los sueños
los insensatos párrafos que ceden

las albas a su afán. En vano el día
les prodiga sus libros infinitos,
arduos como los arduos manuscritos
que perecieron en Alejandría.

De hambre y de sed (narra una historia griega)
muere un rey entre fuentes y jardines;
yo fatigo sin rumbo los confines
de esta alta y honda biblioteca ciega.

Enciclopedias, atlas, el Oriente
y el Occidente, siglos, dinastías,
símbolos, cosmos y cosmogonías
brindan los muros, pero inútilmente.

Lento en mi sombra, la penumbra hueca
exploro con el báculo indeciso,
yo, que me figuraba el Paraíso
bajo la especie de una biblioteca.

Algo, que ciertamente no se nombra
con la palabra azar, rige estas cosas;
otro ya recibió en otras borrosas
tardes los muchos libros y la sombra.

Al errar por las lentas galerías
suelo sentir con vago horror sagrado
que soy el otro, el muerto, que habrá dado
los mismos pasos en los mismos días.

¿Cuál de los dos escribe este poema
de un yo plural y de una sola sombra?
¿Qué importa la palabra que me nombra
si es indiviso y uno el anatema?

Groussac o Borges, miro este querido
mundo que se deforma y que se apaga
en una pálida ceniza vaga
que se parece al sueño y al olvido.





BORGES, Jorge Luis. Poesía. Trad. de Josely Vianna Baptista. São Paulo: Companhia das Letras, 2009.

22.12.10

Jacques Prévert: "Le lézard" / "A lagartixa"




A Lagartixa


A lagartixa do amor
Fugiu mais uma vez
E me deixou o rabo entre os dedos
Bem feito
Eu quis guardá-la para mim





Le lézard

Le lézard de l'amour
S'est enfui encore une fois
Et m'a laissé sa queue entre les doigts
C'est bien fait
J'avais voulu le garder pour moi



PRÉVERT, Jacques. Histoires et d'autres histoires. Paris: Le point du jour, 1963.

21.12.10

Sobre os ateus envergonhados

Confirmando o que observei sobre os ateus envergonhados, hoje uma carta de leitor à Folha, escrita por uma pessoa que se diz ateia, afirma considerar “boa notícia a informação [...] de que a campanha contra a discriminação ao ateísmo foi cancelada. Ela me pareceu agressiva demais”.

Então é agressivo dizer que “a religião não define o caráter”? É agressivo dizer a verdade? Por que é que os ateus devem ouvir calados as proposições não apenas falsas mas caluniosas e ofensivas dos religiosos sobre o ateísmo, porém os religiosos devem ser poupados de ouvir verdades simples como essa?

Segundo o mesmo leitor, os ateus não necessitam “usar a mesma intolerância e ódio que os religiosos têm pelos que não creem na mesma coisa que eles”. Também acho. Mas deixar de se defender da intolerância, do ódio e das calúnias dos religiosos não é uma demonstração de tolerância, mas de covardia, que só faz confirmar aos religiosos intolerantes, raivosos e caluniosos que é assim mesmo que eles devem continuar a ser.

20.12.10

Os cartazes da ATEA





Ninguém ignora que já houve tempo em que, para escapar do preconceito racial, alguns negros – principalmente alguns mestiços – se sentiam compelidos a provar de algum modo que, apesar de terem pele escura, não eram tão escuros “por dentro”, pois tinham a alma branca. Como faziam? Tomavam, em muitas questões, o partido dos racistas. Distanciavam-se, nessa medida, dos demais negros e mestiços. Algumas pessoas, em alguns lugares, mesmo no Brasil, ainda agem assim.

Observo hoje algo semelhante entre os ateus. Vou dar um exemplo.

Uma campanha da Associação Brasileira de Ateus e Agnósticos (ATEA) pretende combater o preconceito contra os ateus, colocando em ônibus urbanos cartazes que ridicularizam certas crenças prejudiciais ao ateísmo. Uma delas é, por exemplo, que, dada a premissa – falsa – de que a religião é a fonte da moral, o homem sem religião não tem moral ou caráter.

Contra esse preconceito, a ATEA preparou um cartaz que afirma: “Religião não define caráter. Diga não ao preconceito contra ateus”. E pôs o retrato de Charles Chaplin, com a legenda “Não acredita em Deus” ao lado do retrato de Adolf Hitler, com a legenda “Acredita em Deus”.

Ei-lo:



Ora, diante desse cartaz, jornalistas que normalmente costumam ter opiniões bastante racionais e inteligentes – inclusive alguns que se dizem ateus –, afirmam coisas tais como: “seria fácil inverter a lógica da propaganda, opondo, por exemplo, Madre Teresa de Calcutá (a religiosa) a Joseph Stálin (o ateu)”.

Será que quem diz isso não percebe que a oposição que propõe (que não passa de um lugar comum) não inverte em nada a lógica da propaganda da ATEA? O que esta diz é que “Religião não define caráter”: logo, que se pode ter bom ou mau caráter, independentemente de se ser religioso ou ateu.

São os religiosos que há tempos usam a oposição entre o mau ateu (Stalin) e a boa religiosa (Madre Teresa) para tentar provar que os religiosos são bons e os ateus são maus. E os ateus da ATEA não “invertem” essa “lógica”, mas simplesmente a rejeitam, por espúria.

Esse cartaz não faz propaganda anti-religiosa ou ateísta. Ele apenas combate o preconceito anti-ateu. Pois bem, esse preconceito é tão forte que, até o momento em que escrevo, nenhuma companhia de ônibus aceitou ostentar esse ou os demais cartazes da ATEA.

18.12.10

O agoral

O seguinte texto foi originalmente uma conferência que pronunciei no Centro Cultural Banco do Brasil, no Rio de Janeiro, em 1992, por ocasião da comemoração do septuagésimo aniversário da Semana de Arte Moderna de 1922. Essa conferência foi publicada no meu livro “O mundo desde o fim” (Rio de Janeiro: Francisco Alves, 1995). A bem da verdade, trata-se de um texto ainda menos jornalístico do que os que publiquei na minha coluna da “Ilustrada”, mas, como não é demasiadamente longo e, a meu ver, basicamente mantém a sua atualidade, resolvi postá-lo aqui no blog.


O Agoral


As mais diversas e mesmo as mais conflitantes tendências encontraram expressão em 1922. É evidente a heterogeneidade irredutível dos projetos de Tarsila e Plínio Salgado, Graça Aranha e Oswald de Andrade. Isso quer dizer que, ao contrário do que ocorre, por exemplo, nos Estados Unidos ou na América espanhola, "modernismo", no Brasil, não é em primeiro lugar o nome próprio de um movimento particular de vanguarda entre outros mas a designação comúm a todos eles. Um tal modernismo não tem data. Por isso mesmo, a maior homenagem que lhe pode ser feita não é tratá-lo como antiguidade, mas simplesmente continuá-lo.

Costuma-se confundir modernidade com contemporaneidade. Há quem considere a contemporaneidade como um valor. Há quem pense que o auge do moderno consiste em "captar o novo." Há quem afirme que o grande resultado da Semana de 22 foi tornar o Brasil contemporâneo da Europa. Mas contemporaneidade não é modernidade. Quero aqui afirmar o moderno em oposição ao contemporâneo.

Que quer dizer contemporâneo? Se digo que Mário foi contemporâneo de Oswald, isso significa que Mário foi do mesmo tempo que Oswald. Se digo que Mário é contemporâneo simplesmente, isso significa que Mário é do mesmo tempo que eu, que estou falando. Assim, quando comento música contemporânea, por exemplo, estou necessariamente falando da música do meu tempo, seja quem eu for. Ser contemporâneo significa ser presentificável ou comparecível a mim, que estou empregando a palavra "contemporâneo." Eu, que falo, sou em todos os casos possíveis a instância perante a qual pessoas e coisas contemporâneas são apresentáveis, a instância que reconhece a contemporaneidade delas.

Uma vez que a contemporaneidade consiste em uma relação comutativa, não posso deixar de, reflexivamente, me reconhecer contemporâneo das coisas e pessoas que me são contemporâneas. E exatamente porque sou contemporâneo dessas coisas, não faria sentido para mim desejar sê-lo.

Por outro lado, se me digo contemporâneo não desta ou daquela coisa mas contemporâneo simpliciter, não posso deixar de estar empregando incorretamente a palavra "contemporâneo", pois então não estou dizendo absolutamente nada: o meu enunciado, nesse caso, não é verdadeiro nem falso. Dizê-lo ou dizer o seu oposto são a mesma coisa: ele não chega a fazer declaração alguma. Para declarar alguma coisa, meu enunciado teria que explicitar de que objeto me digo contemporâneo. A contemporaneidade é sempre relativa. Uma vez que não se pode ser contemporâneo de modo absoluto, já que isso nada quer dizer, tampouco se pode desejar sê-lo.

Contudo, se não se pode desejar a contemporaneidade, crer-se desejá-la não deixa de ser sintoma de alguma coisa. Se digo desejar a contemporaneidade, é porque não suponho estar no centro mas na periferia do mundo. Ora, que o sujeito se considere central e o objeto, periférico, e não vice-versa
é justamente a grande revolução axio-gnoseológica da modernidade, realizada em primeiro lugar pelo cogito e, em segundo lugar, pela in-versão kantiana da Revolução de Copérnico. Assim, quem pretende ser uma espécie de antena que capte o novo, inconscientemente já se condenou de antemão à posição do não-moderno e provinciano em relação ao que considera como os centros produtores do novo.

Mas até agora falei somente do contemporâneo. E o moderno? A palavra mesma consiste em adjetivo oriúndo do advérbio latino modo, que quer dizer agora mesmo. Moderno é, portanto, o que toma por referência o agora; trata-se, em suma, do que podemos chamar de agoral.

Agora é, por um lado, o contemporâneo ou prae-s-ente mas, por outro lado, a negação do contemporâneo e presente: por exemplo, o possível e a mudança. O contemporâneo ou presente, enquanto positivo e particular, não passa de uma entre inúmeras possibilidades. Ele é contingente, acidental e relativo. Mesmo que agora não fosse, por exemplo, dia onze de fevereiro de 1992, agora seria agora. A negação do contemporâneo e presente, por outro lado, é necessária, essencial, absoluta. Agora poderia não ser isto ou aquilo mas, em hipótese alguma, agora deixaria de ser a possibilidade dessas ou de outras coisas. Agora mesmo o grande globo inteiro e todas as coisas que possui podem dissolver-se feito um espetáculo insubstancial, sem deixar nem uma núvem para trás. Agora não é em primeiro lugar um mundo determinado mas a indeterminação tenebrosa que gera e traga os mais esplêndidos mundos. Do possível e da mudança, quer dizer, da negação, surgem agora mesmo outras realidades, diferentes das que me são contemporâneas. Estas mesmas, que agora se me dão, são produtos da negação passada. Toda positividade pode ser tomada como negação negada, produto da negação negante que, ao negar-se a si própria, transforma-se no seu oposto. Mas não posso deixar de observar que eu mesmo faço parte do agora. Por um lado, sou corpo, quer dizer, positividade contingente, acidental e relativa isto é, produto, negação negada, mas, por outro lado, sou também possibilidade e mudança, imaginação e liberdade, isto é, negatividade. E' enquanto negação negante ou natura naturans e não enquanto positividade ou natura naturata que sou parte essencial do agora, centro e fonte do mundo.

Esse reconhecimento consiste em uma anamnese. Para se dar a ilusão de solidez e preservar-se do espectro da dissolução e da barbárie, o mundo pré-moderno tenta se esquecer das origens líquidas e flamejantes dos seus precários cristais e toma o poema como mais sagrado do que a poesia. É esse o fetichismo primordial. Só os grandes poetas, bem mais próximos da Loucura e do Cáos e do Oceano e do Abismo do Céu e da Ira, jamais se esqueceram da verdade que se reconhece na modernidade. Em outras palavras, todo artista criativo sempre foi e é moderno. Conversamente, moderno é o ponto de vista da criatividade. Ora, o artista não evita nem procura mas produz o novo: e não o produz a partir de positividade, presença ou contemporaneidade alguma, ainda que recém-nascida, mas do que antes nem sequer se constituira em presença, isto é, a partir da absoluta negação. Do seu ponto de vista, a novidade não passa de uma expressão abstrata da singularidade que discrimina e distingue seu ser, sua imagem, seus gestos ou seus produtos e que torna determinado ato seu ou obra sua algo esquisito, notável, memorável, insubstituível, prototípico. O artista é esquisito (palavra que tomo, é claro, não apenas na acepção portuguesa mas também na do vocábulo latino exquisitus, de requintado, acepção que se conservou nas derivações espanhola, francesa, inglesa etc.), o artista é perverso em relação às versões canônicas, às formas e às ordens, quer dizer, aos mundos positivos do seu tempo. Negação do centro positivo, ou melhor, centro negativo do mundo, o artista, de fato -- e cada ser humano, de direito -- é excêntrico em relação a qualquer centro positivo ou convencional. Como poderia resultar do desejo inevitavelmente esteticista de ser contemporâneo o que só surge feito negação, intempestividade, estranheza, extemporaneidade?

13.12.10

Alex Varella: "Embarcadisso"





EMBARCADISSO



Deitava na minha cama, mas no meio da noite passava pra cabeceira do rio

em Ítaca ou Alexandria eu já sabia o que isso quer dizer

era um menino da natureza

meus olhos são o sinônimo perfeito do lugar

nasci à beira-mim, isso é, à beira mar




VARELLA, Alex. "Novos poemas de Alexandria".  Disp. in blog A cidade sou eu (http://acidadesoueu.blogspot.com/). Acessado em 13/12/2010.

12.12.10

Lançamento do Livro de sombras de Luciano Figueiredo



Livro de sombras -- pintura, cinema e poesia --, de Luciano Figueiredo, com poema de Antonio Cicero, organizado por Katia Maciel e André Parente, será lançado na Livraria Argumento do Leblon, na Rua Dias Ferreira, 417, às 19h do dia 14 de dezembro.

Comunico aos leitores do blog que já não faço parte dos colunistas da "Ilustrada", da Folha de São Paulo.

Embora eu tenha tido, na Folha, leitores fieis e de grande qualidade, parece que a quantidade dos mesmos era menor do que a que convém a uma coluna da “Ilustrada”. Em outras palavras, creio que meus artigos eram considerados difíceis e/ou desinteressantes pelo leitor médio.
Por outro lado, fui convidado para escrever artigos eventuais para a "Ilustríssima", coisa que pretendo fazer.

10.12.10

Bertold Brecht: "Von der Kindermörderin Marie Farrar" / "A infanticida Marie Farrar": trad. de Paulo César de Souza





A infanticida Marie Farrar
 1
Marie Farrar, nascida em abril, menor
De idade, raquítica, sem sinais, órfã
Até agora sem antecedentes, afirma
Ter matado uma criança, da seguinte maneira:
Diz que, com dois meses de gravidez
Visitou uma mulher num subsolo
E recebeu, para abortar, uma injeção
Que em nada adiantou, embora doesse.
     Os senhores, por favor, não fiquem indignados.
     Pois todos nós precisamos de ajuda, coitados.


2
Ela porém, diz, não deixou de pagar
O combinado, e passou a usar uma cinta
E bebeu álcool, colocou pimenta dentro
Mas só fez vomitar e expelir.
Sua barriga aumentava a olhos vistos
E também doía, por exemplo, ao lavar pratos.
E ela mesma, diz, ainda não terminara de crescer.
Rezava à Virgem Maria, a esperança não perdia.
     Os senhores, por favor, não fiquem indignados
     Pois todos nós precisamos de ajuda, coitados.


3
Mas as rezas foram de pouca ajuda, ao que parece.
Havia pedido muito. Com o corpo já maior
Desmaiava na Missa. Várias vezes suou
Suor frio, ajoelhada diante do altar.
Mas manteve seu estado em segredo
Até a hora do nascimento.
Havia dado certo, pois ninguém acreditava
Que ela, tão pouco atraente, caísse em tentação.
     Mas os senhores, por favor, não fiquem indignados
     Pois todos nós precisamos de ajuda, coitados.


4
Nesse dia, diz ela, de manhã cedo
Ao lavar a escada, sentiu como se
Lhe arranhassem as entranhas. Estremeceu.
Conseguiu no entanto esconder a dor.
Durante o dia, pendurando a roupa lavada
Quebrou a cabeça pensando: percebeu angustiada
Que iria dar à luz, sentindo então
O coração pesado. Era tarde quando se retirou.
     Mas os senhores, por favor, não fiquem indignados
     Pois todos nós precisamos de ajuda, coitados.



5
Mas foi chamada ainda uma vez, após se deitar:
Havia caído mais neve, ela teve que limpar.
Isso até a meia-noite. Foi um dia longo.
Somente de madrugada ela foi parir em paz.
E teve, como diz, um filho homem.
Um filho como tantos outros filhos.
Uma mãe como as outras ela não era, porém
E não podemos desprezá-la por isso.
     Mas os senhores, por favor, não fiquem indignados.
     Pois todos nós precisamos de ajuda, coitados.


6
Vamos deixá-la então acabar
De contar o que aconteceu ao filho
(Diz que nada deseja esconder)
Para que se veja como sou eu, como é você.
Havia acabado de se deitar, diz, quando
Sentiu náuseas. Sozinha
Sem saber o que viria
Com esforço calou seus gritos.
     E os senhores, por favor, não fiquem indignados
     Pois todos precisamos de ajuda, coitados.


7
Com as últimas forças, diz ela
Pois seu quarto estava muito frio
Arrastou-se até o sanitário, e lá (já não
sabe quando) deu à luz sem cerimônia
Lá pelo nascer do sol. Agora, diz ela
Estava inteiramente perturbada, e já com o corpo
Meio enrijecido, mal podia segurar a criança
Porque caía neve naquele sanitário dos serventes.
     Os senhores, por favor, não fiquem indignados
     Pois todos nós precisamos de ajuda, coitados.


8
Então, entre o quarto e o sanitário — diz que
Até então não havia acontecido — a criança começou
A chorar, o que a irritou tanto, diz, que
Com ambos os punhos, cegamente, sem parar
Bateu nela até que se calasse, diz ela.
Levou em seguida o corpo da criança
Para sua cama, pelo resto da noite
E de manhã escondeu-o na lavanderia.
     Os senhores, por favor, não fiquem indignados
     Pois todos nós precisamos de ajuda, coitados.


9
Marie Farrar, nascida em abril
Falecida na prisão de Meissen
Mãe solteira, condenada, pode lhes mostrar
A fragilidade de toda criatura. Vocês
Que dão à luz entre lençóis limpos
E chamam de “abençoada” sua gravidez
Não amaldiçoem os fracos e rejeitados, pois
Se o seu pecado foi grave, o sofrimento é grande.
     Por isso lhes peço que não fiquem indignados
     Pois todos nós precisamos de ajuda, coitados.





Von der Kindermörderin Marie Farrar


1
Marie Farrar, geboren im April
Unmündig, merkmallos,rachitisch, Waise
Bislang angeblich unbescholten, will
Ein Kind ermordet haben in der Weise:
Sie sagt, sie habe schon im zweiten Monat
Bei einer Frau in einem Kellerhaus
Versucht, es abzutreiben mit zwei Spritzen
Angeblich schmerzhaft, doch ging's nicht heraus.
     Doch ihr, ich bitte euch, wollt nich in Zorn verfallen
     Denn alle Kreatur braucht Hilf von allen.

2
Sie habe dennoch, sagt sie, gleich bezahlt
was ausgemacht war, sich fortan geschnürt
Auch Sprit getrunken, Pfeffer drin vermahlt
Doch habe sie das nur stark abgeführt.
Ihr Leib sei zusehends geschwollen, habe
Auch stark geschmerzt, beim Tellerwaschen oft.
Sie selbst sei, sagt sie, damals noch gewachsen.
Sie habe zu Marie gebetet, viel erhofft.
     Auch ihr, ich bitte euch, wollt nich in Zorn verfallen
     Denn alle Kreatur braucht Hilf von allen.

3
Doch die Gebete hätten, scheinbar, nichts genützt.
Es war auch viel verlangt. Als sie dann dicker war
Hab ihr in Frühmetten geschwindelt. Oft hab sie geschwitzt
Auch Angstschweiß, häufig unter dem Altar.
Doch hab den Zustand sie geheimgehalten
Bis die Geburt sie nachher überfiel
Es sei gegangen, da wohl niemand glaubte
dass sie, sehr reizlos, in Versuchung fiel.
     Und ihr, ich bitte euch, wollt nich in Zorn verfallen
     Denn alle Kreatur braucht Hilf von allen.

4
An diesem Tag, sagt sie, in aller Früh
Ist ihr beim Stiegenwischen so, als krallten
Ihr Nägel in den Bauch. Es schüttelt sie.
Jedoch gelingt es ihr, den Schmerz geheimzuhalten.
Den ganzen Tag, es sei beim Wäschehängen
Zerbricht sie sich den Kopf; dann kommt sie drauf
Dass sie gebären sollte, und es wird ihr
Gleich schwer ums Herz. Erst spät geht sie hinauf.
     Doch ihr, ich bitte euch, wollt nich in Zorn verfallen
     Denn alle Kreatur braucht Hilf von allen.


5
Man holte sie noch einmal, als sie lag
Schnee war gefallen, und sie mußte kehren.
Das ging bis elf. Es war ein langer Tag.
Erst in der Nacht konnt sie in Ruhe gebären.
Und sie gebar, so sagt sie, einen Sohn.
Der Sohn war ebenso wie andere Söhne.
Doch war sie nicht, wie andre Mütter sind obschon -
Es liegt kein Grund vor, dass ich sie verhöhne.
     Auch ihr, ich bitte euch, wollt nich in Zorn verfallen
     Denn alle Kreatur braucht Hilf von allen.

6
So lasst sie also weiter denn erzählen
wie es mit diesem Sohn geworden ist
(Sie wolle davon, sagt sie, nichts verhehlen)
Damit man sieht wie ich bin und du bist.
Sie sagt, sie sei, nur kurz im Bett, von Übel-
keit stark befallen worden, und allein
Hab sie, nicht wissend, was geschehen sollte
Mit Mühe sich bezwungen, nicht zu schrein.
     Und ihr, ich bitte euch, wollt nich in Zorn verfallen
     Denn alle Kreatur braucht Hilf von allen.

7
Mit letzter Kraft hab sie, so sagt sie, dann
Da ihre Kammer auch eiskalt gewesen
sich zum Abort geschleppt und dort auch (wann
weiß sie nicht mehr) geborn ohn Federlesen
So gegen Morgen zu. Sie sei, sagt sie
Jetzt ganz verwirrt gewesen, habe dann
Halb schon erstarrt, das Kind kaum halten können
Weil es in den Gesindabort hereinschnein kann.
     Auch ihr, ich bitte euch, wollt nich in Zorn verfallen
     Denn alle Kreatur braucht Hilf von allen.

8
Dann zwischen Kammer und Abort - vorher, sagt sie
Sei noch gar nichts gewesen - fing das Kind
zu schreien an, das hab sie so verdrossen, sagt sie
Dass sie's mit beiden Fäusten, ohne Aufhörn, blind
So lang geschlagen habe, bis es still war, sagt sie.
Hieraus hab sie das Tote noch durchaus
zu sich ins Bett genommen für den Rest der Nacht
Und es versteckt am Morgen in dem Wäschehaus.
     Doch ihr, ich bitte euch, wollt nich in Zorn verfallen
     Denn alle Kreatur braucht Hilf von allen.


9
Marie Farrar, geboren im April

gestorben im Gefängnishaus zu Meißen
Ledige Kindesmutter, abgeurteilt, will
Euch die Gebrechen aller Kreatur erweisen.
Ihr, die ihr gut gebärt in saubren Wochenbetten
und nennt "gesegnet" euren schwangren Schoß
wollt nicht verdammen die verworfnen Schwachen
Denn ihre Sünd war groß, doch ihr Leid war groß.
     Darum ihr, ich bitte euch, wollt nich in Zorn verfallen
     Denn alle Kreatur braucht Hilf von allen.






BRECHT, Bertold. Die Hauspostille. Frankfurt: Suhrkamp, 1976.

BRECHT, Bertold. "Poemas do Manual de devoção de Bertold Brecht". Poemas 1913-1956. Seleção e tradução de Paulo César de Souza. Sâo Paulo: Editora 34, 2001.

9.12.10

Mauro Santa Cecília: "Á prova de dissabores"





Na terça-feira passada ocorreu o lançamento, no POP, da bela antologia que Heloisa Buarque de Holanda fez de poemas de Armando Freitas Filho. Mediados por João Camillo Penna, Heloisa e Armando compuseram uma mesa extremamente espirituosa.

Depois do lançamento, fui com o poeta Mauro Santa Cecília ao Caroline Café, ali perto. Mauro relata nossa passagem pelo Café numa crônica intitulada "À prova de dissabores", a 82ª da série de crônicas "De bar em bar", escritas por ele. Ela pode ser lida no blog MauroStaCecília, no endereço: http://maurosantacecilia.blogspot.com/2010/12/prova-de-dissabores.html.

Ciranda da Poesia


Sábado, 11 de dezembro, das 17 às 20:30 h

Galeria Largo das Artes
Rua Luís de Camões, 02/sobrado
Largo de São Francisco -- Centro
Rio de Janeiro

8.12.10

Paulo Leminski: "Blade Runner Waltz"

Blade Runner Waltz

Em mil novecentos e oitenta e sempre,
ah, que tempos aqueles,
dançamos ao luar, ao som da valsa
A Perfeição do Amor Através da Dor e da
                                        [Renúncia,
nome, confesso, um pouco longo,
mas os tempos, aquele tempo,
ah, não se faz mais tempo
como antigamente
Aquilo sim é que eram horas,
dias enormes, semanas anos, minutos milênios,
e toda aquela fortuna em tempo
a gente gastava em bobagens,
amar, sonhar, dançar ao som da valsa,
aquelas falsas valsas de tão imenso nome lento
que a gente dançava em algum setembro
daqueles mil novecentos e oitenta e sempre.



LEMINSKI, Paulo. La vie en close. São Paulo: Brasiliense, 1991.

7.12.10

Francisco Bosco: de "Flashes"




Quando alguém se torna um escritor? Quando finalmente está insatisfeito.




BOSCO, Francisco. "Flashes". Da amizade. Rio de Janeiro: 7 Letras, 2003.

5.12.10

Drauzio Varella: "Violência contra homossexuais"

O seguinte artigo de Drauzio Varella foi publicado na sua coluna da "Ilustrada", da Folha de São Paulo, no sábado, 4 de dezembro. Republico-o por considerá-lo um dos textos mais lúcidos e inteligentes que já li sobre o assunto.


Violência contra homossexuais

A HOMOSSEXUALIDADE é uma ilha cercada de ignorância por todos os lados. Nesse sentido, não existe aspecto do comportamento humano que se lhe compare.

Não há descrição de civilização alguma, de qualquer época, que não faça referência a mulheres e a homens homossexuais. Apesar de tal constatação, esse comportamento ainda é chamado de antinatural.

Os que assim o julgam partem do princípio de que a natureza (leia-se Deus) criou os órgãos sexuais para a procriação; portanto, qualquer relacionamento que não envolva pênis e vagina vai contra ela (ou Ele).

Se partirmos de princípio tão frágil, como justificar a prática de sexo anal entre heterossexuais? E o sexo oral? E o beijo na boca? Deus não teria criado a boca para comer e a língua para articular palavras?

Se a homossexualidade fosse apenas uma perversão humana, não seria encontrada em outros animais. Desde o início do século 20, no entanto, ela tem sido descrita em grande variedade de invertebrados e em vertebrados, como répteis, pássaros e mamíferos.

Em alguma fase da vida de virtualmente todas as espécies de pássaros, ocorrem interações homossexuais que, pelo menos entre os machos, ocasionalmente terminam em orgasmo e ejaculação.

Comportamento homossexual foi documentado em fêmeas e machos de ao menos 71 espécies de mamíferos, incluindo ratos, camundongos, hamsters, cobaias, coelhos, porcos-espinhos, cães, gatos, cabritos, gado, porcos, antílopes, carneiros, macacos e até leões, os reis da selva.

A homossexualidade entre primatas não humanos está fartamente documentada na literatura científica. Já em 1914, Hamilton publicou no "Journal of Animal Behaviour" um estudo sobre as tendências sexuais em macacos e babuínos, no qual descreveu intercursos com contato vaginal entre as fêmeas e penetração anal entre os machos dessas espécies. Em 1917, Kempf relatou observações semelhantes.

Masturbação mútua e penetração anal estão no repertório sexual de todos os primatas já estudados, inclusive bonobos e chimpanzés, nossos parentes mais próximos.

Considerar contra a natureza as práticas homossexuais da espécie humana é ignorar todo o conhecimento adquirido pelos etologistas em mais de um século de pesquisas.

Os que se sentem pessoalmente ofendidos pela existência de homossexuais talvez imaginem que eles escolheram pertencer a essa minoria por mero capricho. Quer dizer, num belo dia, pensaram: eu poderia ser heterossexual, mas, como sou sem-vergonha, prefiro me relacionar com pessoas do mesmo sexo.

Não sejamos ridículos; quem escolheria a homossexualidade se pudesse ser como a maioria dominante? Se a vida já é dura para os heterossexuais, imagine para os outros.

A sexualidade não admite opções, simplesmente se impõe. Podemos controlar nosso comportamento; o desejo, jamais. O desejo brota da alma humana, indomável como a água que despenca da cachoeira.

Mais antiga do que a roda, a homossexualidade é tão legítima e inevitável quanto a heterossexualidade. Reprimi-la é ato de violência que deve ser punido de forma exemplar, como alguns países o fazem com o racismo.

Os que se sentem ultrajados pela presença de homossexuais que procurem no âmago das próprias inclinações sexuais as razões para justificar o ultraje. Ao contrário dos conturbados e inseguros, mulheres e homens em paz com a sexualidade pessoal aceitam a alheia com respeito e naturalidade.

Negar a pessoas do mesmo sexo permissão para viverem em uniões estáveis com os mesmos direitos das uniões heterossexuais é uma imposição abusiva que vai contra os princípios mais elementares de justiça social.

Os pastores de almas que se opõem ao casamento entre homossexuais têm o direito de recomendar a seus rebanhos que não o façam, mas não podem ser nazistas a ponto de pretender impor sua vontade aos mais esclarecidos.

Afinal, caro leitor, a menos que suas noites sejam atormentadas por fantasias sexuais inconfessáveis, que diferença faz se a colega de escritório é apaixonada por uma mulher? Se o vizinho dorme com outro homem? Se, ao morrer, o apartamento dele será herdado por um sobrinho ou pelo companheiro com quem viveu por 30 anos?

3.12.10

Salvatore Quasimodo: "S'ode ancora il mare" / "Ouve-se ainda o mar": trad. de Geraldo Holanda Cavalcanti





Ouve-se ainda o mar

Há muitas noites ouve-se ainda o mar
que, leve, sobe e desce a lisa areia.
Eco de uma voz na mente aprisionada
que do tempo remonta: e mesmo este
lamento assíduo de gaivotas: dos
pássaros das torres, talvez, que abril
impele para as campinas. Outrora,
comigo estavas aqui com tua voz;
e eu quisera que a ti também voltasse
de mim, agora, um eco de memória,
como esse escuro murmúrio de mar.


S'ode ancora il mare

Già da più notti s'ode ancora il mare,
lieve, su e giù, lungo le sabbie lisce.
Eco d'una voce chiusa nella mente
che risale dal tempo; ed anche questo
lamento assiduo di gabbiani: forse
d'uccelli delle torri, che l'aprile
sospinge verso la pianura. Già
m'eri vicina tu con quella voce;
ed io vorrei che pure a te venisse,
ora, di me un'eco di memoria,
come quel buio murmure di mare.



QUASIMODO, Salvatore. "Giorno dopo giorno". Poesias. Edição bilingue. Tradução de CAVALCANTI, Geraldo Holanda. Rio de Janeiro: Record, 1999.

2.12.10

Nietzsche: "Alles, was tief ist..."




Alles, was tief ist, liebt die Maske.

Tudo o que é profundo ama a máscara.


NIETZSCHE, Friedrich. Jenseits von Gut und Böse. Berlin: Directmedia, 2000.

28.11.10

O construtivismo brasileiro



O seguinte artigo foi publicado na minha coluna da "Ilustrada", da Folha de São Paulo, no sábado, 27 de novembro.




O construtivismo brasileiro

HÁ POUCOS dias li, não me lembro mais onde, que na verdade De Gaulle (1890-1970) jamais declarou que o Brasil não era um país sério. Por outro lado, parece confirmado que seu compatriota Lévi-Strauss (1908-2009) chegou mesmo a dizer que "o Brasil é um país surrealista". Frequentemente ouço brasileiros afirmarem o mesmo que o antropólogo francês. Talvez tenham razão; mas quiçá seja exatamente por isso que, em comparação com o que ocorreu em Portugal, na Espanha ou na França, por exemplo, o surrealismo tenha vingado relativamente pouco nas artes brasileiras.

É que, como observa o poeta alemão Friedrich Hölderlin (1770-1843), nada aprendemos com maior dificuldade do que a usar livremente o que nos é natural. Afinal, não é a arte precisamente o oposto da natureza, como o artificial, do natural?

Tendo isso em mente, lembremo-nos também de que certo clichê bem representado, por exemplo, em filmes de Hollywood de algumas décadas atrás, faz do homem tropical um mero escravo da natureza circundante, dos vícios ou das paixões que ela lhe impõe, reduzindo-o à indolência e à passividade. Se Hölderlin tem razão, não será exatamente por isso – CONTRA tal pretenso destino – que Hélio Oiticica (1937-1980), por exemplo, dizia sentir no âmago da alma brasileira uma "vontade construtiva geral"?

Se eu estiver certo, o sentido mais profundo do uso da palavra "tropicália" feito por Oiticica e, em seguida, pelo movimento musical liderado por Caetano Veloso e Gilberto Gil terá sido o de promover a reversão e/ou ironizar tal concepção estereotipada dos trópicos. De todo modo, é claro que o construtivismo brasileiro não poderia deixar de se opor tanto à submissão à natureza quanto ao surrealismo.

Com efeito, a arte brasileira e moderna canônica, em particular a partir da segunda metade do século 20 – desde a epopeia glauberiana do cinema novo à decantação joão-gilbertiana do samba e da bossa nova; desde o plano piloto dos arquitetos da visão e loucura de Brasília ao plano piloto dos poetas concretistas dos campos e espaços de São Paulo; desde a psicologia da composição de João Cabral aos relevos espaciais de Oiticica; desde os bichos geométricos de Lygia Clark ao filme "O Cinema Falado" (1986), de Caetano Veloso etc. –, tudo parece confirmar a "vontade construtiva geral".

O artista brasileiro moderno tende a desconfiar do dado imediato, isto é, do lugar da natureza, da cultura, da história em que os outros querem situá-lo no mundo. Entende-se: o dado, aquilo que é constituído pelo passado natural e cultural, é no Brasil tomado principalmente como o tempo do subdesenvolvimento, da dependência cultural, política e econômica, e da escravatura. É da reação contra essa situação que surge a tendência construtiva de quase toda a nossa melhor arte. Nesse processo, não é o Brasil do passado que determina o Brasil moderno. Ao contrário: é o Brasil moderno que reinventa o Brasil do passado. Também nesse sentido tinha razão o crítico Mário Pedrosa (1900-1981), ligado a artistas de vanguarda como Ferreira Gullar, Lygia Clark e Hélio Oiticica, quando sentenciou que "o Brasil é um país condenado ao moderno".

Para o artista brasileiro, pensar sobre o Brasil – pensar o Brasil – não pode deixar de ser reinventá-lo. E creio que grande parte dos artistas modernos, os vários modernismos desde 22, o concretismo, o neoconcretismo, a bossa nova, o tropicalismo e os artistas contemporâneos sempre se encontraram nessa mesma situação ante a tarefa da inventio Brasilis: da descoberta-invenção do Brasil.

25.11.10

Joan Brossa: "M'estava ajaçat..." / "Estava deitado..."




Estava deitado...

Estava deitado dormitando sob
uma árvore quando me despertou
o rumor de uns ramos e vi
passar um homem voando;
mas agora que o digo, talvez fosse
um pássaro.



M'estava ajaçat...

M'estava ajaçat dormitant sota
un arbre quan em va despertar
un soroll de branques i vaig veure
que passava un home volant;
però, ara que ho dic, potser era
un ocell.



BROSSA, Joan. Poemes de Joan Brossa (antologia). Madrid: Ediciones Libertarias, 1983.

23.11.10

Declaração







DECLARAÇÃO

Quantas vezes lhe declarei o meu amor?
Declarei-o verbalmente inúmeras vezes
e o declaram todos os meus gestos tendentes
a você: a minha língua, a brincar com o som
do seu nome, Marcelo, o declara; e o declaram
os meus olhos felizes quando o vêem chegar
feito um presente e de repente elucidar
a casa inteira que, conquanto iluminada,
permanecia opaca sem você; e quando,
tendo apagado todas as lâmpadas, juntos,
no terraço, nos consignamos aos traslados
dos círculos do relógio do céu noturno
ou aos rios de nuvens em que nos miramos
e nos perderemos, declaro-o no escuro.



CICERO, Antonio. A cidade e os livros. Rio de Janeiro: Record, 2002.

Luciano Figueiredo: Entrevista a Regis Bonvicino, na Sibila




O artista plástico Luciano Figueiredo deu uma extraordinária entrevista ao poeta Regis Bonvicino, na Sibila. Endereço: http://www.sibila.com.br/index.php/arterisco/1704-figueiredo-reve-oiticica-torquato-e-a-tropicalia

22.11.10

Nelson Ascher: "Adivinhação"




Adivinhação

          p/ d.p. aos 70

O que é o que é
que, quando se entrecruzam
à beira do silêncio
sintagma e paradigma,

obriga a língua a dar
com a linguagem nos dentes,
deixa as palavras todas
com a língua de fora?

O que é o que é
que, onde "o amor e, em sua
ausência, o amor" ou "manchas
solares confabulam",

deixa a linguagem boqui-
aberta, sem palavras,
e obriga os linguarudos
a engolirem a língua?

O que é, o que é
que edípico e antropófago
bolina e morde, morde e
bolina a própria língua

materna até que doa
com gosto? — É a poesia
que o dolce software nuovo
contém. Pois é: poesia.



ASCHER, Nelson. Parte alguma. São Paulo: Companhia das Letras, 2005.

19.11.10

Carlos Drummond de Andrade: "A suposta existência"




Agradeço a Eleonora pela gentileza de nos ter enviado o seguinte poema -- filosófico -- de Carlos Drummond de Andrade, cujo tema é uma questão em que tocamos ontem (18/11), na aula do POP sobre letras de canções:



A suposta existência



Como é o lugar
quando ninguém passa por ele?
Existem as coisas
sem ser vistas?

O interior do apartamento desabitado,
a pinça esquecida na gaveta,
os eucaliptos à noite no caminho
três vezes deserto,
a formiga sob a terra no domingo,
os mortos, um minuto
depois de sepultados,
nós, sozinhos
no quarto sem espelho?

Que fazem, que são
as coisas não testadas como coisas,
minerais não descobertos - e algum dia
o serão?

Estrela não pensada,
palavra rascunhada no papel
que nunca ninguém leu?
Existe, existe o mundo
apenas pelo olhar
que o cria e lhe confere
espacialidade?

Concretitude das coisas: falácia
de olho enganador, ouvido falso,
mão que brinca de pegar o não
e pegando-o concede-lhe
a ilusão de forma
e, ilusão maior, a de sentido?

Ou tudo vige
planturosamente, à revelia
de nossa judicial inquirição
e esta apenas existe consentida
pelos elementos inquiridos?
Será tudo talvez hipermercado
de possíveis e impossíveis possibilíssimos
que geram minha fantasia de consciência
enquanto
exercito a mentira de passear
mas passeado sou pelo passeio,
que é o sumo real, a divertir-se
com esta bruma-sonho de sentir-me
e fruir peripécias de passagem?

Eis se delineia
espantosa batalha
entre o ser inventado
e o mundo inventor.
Sou ficção rebelada
contra a mente universa
e tento construir-me
de novo a cada instante, a cada cólica,
na faina de traçar
meu início só meu
e distender um arco de vontade
para cobrir todo o depósito
de circunstantes coisas soberanas.

A guerra sem mercê, indefinida
prossegue,
feita de negação, armas de dúvida,
táticas a se voltarem contra mim,
teima interrogante de saber
se existe o inimigo, se existimos
ou somos todos uma hipótese
de luta
ao sol do dia curto em que lutamos.



ANDRADE, Carlos Drummond de. "A paixão medida". Poesia completa. Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 2002.

17.11.10

Hokusai: "A onda"

Hokusai: "Desde seis anos..."




Desde seis anos, tenho mania de desenhar as formas das coisas. Aos cinquenta anos, eu tinha publicado uma infinidade de desenhos, mas nada do que fiz antes dos setenta anos vale a pena. Foi aos setenta e três que compreendi mais ou menos a estrutura da verdadeira natureza dos animais, das árvores, das plantas, dos pássaros, dos peixes e dos insetos.

Consequentemente, quando eu tiver oitenta anos, terei progredido ainda mais; aos noventa, penetrarei no mistério das coisas. Com cem anos, serei um artista maravilhoso. E quando eu tiver cento e dez, tudo o que eu criar: um ponto, uma linha, tudo será vivo.

Peço aos que viverem tanto quanto eu que vejam como cumpro minha palavra.

Escrito na idade de sete e cinco anos por mim, outrora Hokusai, hoje Gwakio Rojin, o velho louco pelo desenho.

14.11.10

Liberalismo e religião




O seguinte artigo foi publicado na minha coluna da "Ilustrada", da Folha de São Paulo, no sábado, 14 de outubro:


Liberalismo e religião


NO INTERESSANTE artigo "Patologias do indivíduo" (Opinião, 9/11), Vladimir Safatle afirma que "a vida contemporânea demonstrou que individualismo e religiosidade, liberalismo e restrições religiosas dogmáticas, longe de serem antagônicos, transformaram-se nos dois polos complementares e paradoxais do mesmo movimento pendular". Trata-se, para ele, do movimento pendular do pensamento conservador.

Num primeiro momento, a vitória do Partido Republicano nas recentes eleições americanas – que provavelmente até ocasionou o seu artigo – parece dar-lhe razão. Ocorre porém que, justamente nos Estados Unidos, o "pensamento conservador" se define em oposição ao "pensamento liberal", de modo que a vitória dos republicanos sobre os democratas foi tomada por todos como uma vitória dos conservadores CONTRA os liberais.

O que diferencia o conservadorismo americano do europeu é que os Estados Unidos não tiveram uma aristocracia. Principalmente depois da Revolução Francesa, o conservadorismo europeu, nostálgico do "ancien régime", definia-se contra a Ilustração, a secularização, o liberalismo e o individualismo, que considerava alienantes, e exaltava os valores da comunidade, da autoridade, da hierarquia e do sagrado.

Os Estados Unidos, porém, já surgiram com a afirmação tanto da separação entre o Estado e a religião quanto das liberdades individuais. A divergência entre conservadores e liberais americanos se dá principalmente no sentido e no alcance que cada um deles atribui a cada um desses pontos. O primeiro é um ponto fundamental para os liberais. Quanto aos conservadores, basta lembrar a recente demonstração de ignorância da candidata republicana ao Senado pelo Estado de Delaware, Cristine O'Donnell, que reconheceu publicamente desconhecer que a separação entre o Estado e a religião se encontra estabelecida na famosíssima primeira emenda da Constituição dos EUA.

Quanto às liberdades individuais, os liberais tendem, cada vez mais, a entendê-las no sentido mais amplo e universal possível, considerando que compete à sociedade, por meio do aparelho de Estado, garantir que, em princípio, todos os cidadãos tenham a oportunidade de exercê-las plenamente, oferecendo-lhes, para tanto, as condições necessárias de saúde pública, educação, renda mínima etc. Como o famoso economista liberal Paul Krugman recentemente declarou, o termo "liberal" nos Estados Unidos significa mais ou menos o mesmo que "social-democrata" significa na Europa.

Já os conservadores americanos, opondo-se à interpretação ampla das liberdades individuais, tentam reduzi-las basicamente à garantia do "laissez-faire", isto é, da ausência ou da minimização da intervenção do Estado na sociedade e na economia. Para eles, qualquer interpretação mais ampla das liberdades individuais é suspeita, e "social-democracia" é sinônimo de "comunismo".

A quem pode interessar diretamente tal conservadorismo, senão à plutocracia americana, aos grandes bancos, corporações e bilionários? Pode-se facilmente entender como é que, contra qualquer mudança, esses conservadores deem graças a Deus pela sobrevivência e expansão da religião e de pretensos "valores genuinamente americanos".

O estranho é que os republicanos tenham sido capazes de seduzir para esse conservadorismo parte considerável da população interiorana e branca norte-americana, principalmente a parcela composta de subempregados, desempregados e ameaçados de desemprego. O ex-colunista do Wall Street Journal, Thomas Frank, chama atenção, em seu famoso livro “What’s the matter with Kansas?”, para o paradoxo de que essa população vote predominantemente no Partido Republicano, apesar de ter sido economicamente prejudicada exatamente pela política conservadora de privatização, desregulamentação, favorecimento dos monopólios econômicos em todas as áreas, desde a bancária até a de radiodifusão e a de empacotamento de carne – o que resultou no sucateamento das indústrias do centro-oeste –, destruição do estado de bem-estar social, desmantelamento do movimento operário etc.

Uma explicação possível para essa aparente incongruência é que, dado que foi a partir dos anos 1960 que tiveram início não somente as mais importantes ampliações dos direitos – das liberdades – dos negros, dos gays, das minorias em geral, das mulheres etc., mas também o declínio econômico de grande parte da população do interior, esta tenha acreditado no mito conservador de que tal declínio tenha sido causado pela ampliação desses direitos. Assim, ela culpa o liberalismo cosmopolita por ter destruído os "valores genuinamente americanos" -- e, segundo crê, "cristãos" -- dos anos 1950, sua época áurea.

De todo modo, é preciso reconhecer que a relação entre o liberalismo e a religião é um tanto mais complexa do que a que Safatle esboçou.

13.11.10

Paulo Henriques Britto: "Súcubo"




SÚCUBO

A lucidez de certos sonhos
que nem parecem ser reais,
tal como faz a realidade.

Entra-se neles de repente,
não no começo, sem saber
de onde se vem e aonde se vai,

e pouco a pouco dá-se conta
de que há um sentido nisso tudo,
só que não está ao nosso alcance,

e quando menos se imagina
tudo termina de repente,
tal como faz a realidade.




BRITTO, Paulo Henriques. Macau. São Paulo: Companhia das Letras, 2003.

11.11.10

Geraldo Carneiro: "a outra voz"




a outra voz


não adianta, nada neste mundo

pertence a ti, nem essa ínfima parte

que te compete recifrar em arte.

só é teu o circo das desilusões,

o canto das sereias, o naufrágio

no qual perdeu-se a vida, o rumo, a nave,

a memória da ilha em que viveste

o ato inaugural da tua odisséia.

Penélope esgarçou-se em muitas faces,

e mesmo a guerra, com seus alaridos,

só sobrevive nas versões dos bardos.

não há mais ilha, nem há mais princípio:

teu principado é só imaginário.

 
 
CARNEIRO, Geraldo. "Balada do impostor". Poemas reunidos. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2010.

9.11.10

Ricardo Silvestrin: "não quero mais de um poeta"

Li o seguinte poema de Ricardo Silvestrin no excelente livro que Antonio Carlos Secchin acaba de lançar, Memórias de um leitor de poesia, e não pude deixar de pescá-lo para os leitores deste blog:




não quero mais de um poeta

que a sua letra

palavra presa na página

borboleta

nem quero saber da sua vida

da verdade que nunca foi dita

mesmo por ele

que tudo que viveu duvida

não revirem a sua cova

o seu arquivo

é no seu livro que o poeta está enterrado

vivo.




SILVESTRIN, Ricardo. "não quero mais de um poeta". Palavra mágica. Porto Alegre: Massao Ohno, 1994.

SECCHIN, Antonio Carlos. Memórias de um leitor de poesia. Rio de Janeiro: Topbooks, 2010.

8.11.10

Bill Maher: "Religião não causa mal nenhum"




Na semana passada assisti, na HBO, a um programa engraçadíssimo e inteligente do comediante Bill Maher. Como ontem descobri que um dos seus trechos mais engraçados se encontrava no You Tube, resolvi postá-lo aqui. Aí está:


7.11.10

Waly Salomão: "Câmara de ecos"

Câmara de ecos

Cresci sob um teto sossegado,
meu sonho era um pequenino sonho meu.
Na ciência dos cuidados fui treinado.

Agora, entre meu ser e o ser alheio
a linha de fronteira se rompeu.



SALOMÃO, Waly. Algaravias: cãmara de ecos. Rio de Janeiro: Rocco, 2007.

6.11.10

Jorge Luis Borges: "Spinoza" / "Spinoza": trad. de José Marcos Mariani Macedo



Spinoza

Las traslúcidas manos del judío
Labran en la penumbra los cristales
Y la tarde que muere es miedo y frío.
(Las tardes a las tardes son iguales.)
Las manos y el espacio de jacinto
Que palidece en el confín del Ghetto
Casi no existen para el hombre quieto
Que está soñando un claro laberinto.
No lo turba la fama, ese reflejo
De sueños en el sueño de otro espejo,
Ni el temeroso amor de las doncellas.
Libre de la metáfora y del mito
Labra un arduo cristal: el infinito
Mapa de Aquel que es todas Sus estrellas.


Spinoza

As translúcidas mãos do judeu
Lavram na penumbra os cristais
E a tarde que morre é medo e frio.
(As tardes às tardes são iguais.)
As mãos e o espaço de jacinto
Que empalidece nos confins do Gueto
Quase não existem para o homem quieto
Que está sonhando um claro labirinto.
Não o perturba a fama, esse reflexo
De sonhos no sonho de outro espelho,
Nem o temeroso amor das donzelas.
Livre da metáfora e do mito
Lavra um árduo cristal: o infinito
Mapa d’ Aquele que é todas as Suas estrelas.



BORGES, Jorge Luis. "El otro, el mundo". Obras completas. Buenos Aires: Emecé Editors, 1974.

BORGES, Jorge luis. Esse ofício do verso. Traduçao de José Marcos Mariani Macedo. São Paulo: Companhia das letras, 2007.

2.11.10

Machado de Assis: "Spinoza"




Spinoza

Gosto de ver-te, grave e solitário,
Sob o fumo de esquálida candeia,
Nas mãos a ferramenta de operário,
E na cabeça a coruscante idéia.

E enquanto o pensamento delineia
Uma filosofia, o pão diário
A tua mão a labutar granjeia
E achas na independência o teu salário.

Soem cá fora agitações e lutas,
Sibile o bafo aspérrimo do inverno,
Tu trabalhas, tu pensas, e executas

Sóbrio, tranqüilo, desvelado e terno,
A lei comum, e morres, e transmutas
O suado labor no prêmio eterno.



ASSIS, Machado de. Obra completa, v.3. Org. Afrânio Coutinho. Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 1973.

31.10.10

A questão do aborto 2

O seguinte artigo foi publicado na minha coluna da "Ilustrada", da Folha de São Paulo, no sábado, 30 de outubro:


A questão do aborto 2

NA SEMANA passada, João Pereira Coutinho escreveu em sua coluna ("A questão do aborto, revisitada", Ilustrada, 19/10) um artigo em que apresentava uma veemente objeção à tese que eu havia antes defendido de que o aborto deve ser descriminalizado.

Lembro sucintamente que, tomando por base os escritos do filósofo francês Francis Kaplan, eu havia chamado a atenção para a distinção entre "estar vivo" e "ser um ser vivo". Um olho, na medida em que faculta a um ser humano enxergar, está vivo, mas não é um ser vivo pois não tem todas as funções necessárias para estar vivo. Ele precisa obter essas funções do ser vivo que é o ser humano. Assim ocorre com o embrião, que obtém do ser vivo que é a mãe todas as funções necessárias para estar vivo e para se desenvolver.

O mais importante, porém, é constatar que hoje se sabe que, pelo menos até o terceiro mês da concepção, o embrião não tem atividade cerebral. Dado que um ser humano sem atividade cerebral é, como lembra Kaplan, considerado clinicamente morto, sustento que não tem o menor sentido comparar o aborto -sobretudo se efetuado até o terceiro mês da concepção- com o assassinato de uma criança; e que é um absurdo a tese de que a vida da mãe não vale mais que a do embrião. Por isso, defendo que, pelo menos até o terceiro mês da concepção, a descriminalização do aborto deve ser incondicional.

Coutinho objeta que eu propositadamente excluo da minha argumentação "um pormenor fundamental: o que existe de "potencialidade" no embrião humano". Segundo ele, citando Stephen Schwarz, o aborto "significa a morte de um "ser vivo" em potência; significa, em linguagem prosaica, o roubo de um futuro pela autonomia do presente". Ora, para Coutinho, "uma sociedade será tão mais civilizada quanto maior for a proteção jurídica concedida a esse "ser vivo em potência'". E arremata: "Porque, como diria Henry Miller, escritor americano que está longe de ser um beato, "'não conheço maior crime do que matar o que luta para nascer'".

Coutinho escreve bem e reconheço ser bonito esse arremate; no entanto, creio que exatamente o seu uso no presente contexto trai a falácia em que se baseia essa defesa da criminalização do aborto.

Dizer que o embrião "luta para nascer" é dizer que ele deseja intensamente nascer. Desse modo, ele é transformado numa pessoa.

A possibilidade puramente objetiva de que o feto nasça passa a ser concebida como o desejo do embrião, assim como a possibilidade de vir a ser um médico é o desejo do estudante de medicina. E, assim como impedir que o estudante se forme e exerça a medicina constituiria a maldade de frustrá-lo de seu maior sonho, assim também o aborto constituiria a maldade de frustrar o sonho de nascer -o direito de nascer- do pobre embrião.

Mas o fato é que essa novela se desfaz quando nos lembramos de que, pelo menos nos três primeiros meses, quando ainda não tem sequer atividade cerebral, o embrião constitui uma unidade apenas para os outros, mas não para si.

Na verdade, ele nem sequer possui um "si". Sem sentir, pensar ou ter um "si", o embrião não chega a ser uma pessoa, de modo que não poderia ter projeto, desejo ou ambição: sem falar de um futuro que lhe pudesse ser "roubado". Ora, que sentido teria falar de "direitos" ou de "proteção jurídica" de algo que nem sequer pensa, sente ou tem um "si"?

Não é sequer a partir de si próprio que o embrião se desenvolve. “O que chamamos concepção”, diz Kaplan, “corresponde praticamente a um enxerto de cromossomos do pai num óvulo da mãe”. Depois disso, até o terceiro mês da concepção, as informações que formarão o feto provêm da mãe. Ou seja, a “potencialidade” dele é como a potencialidade de uma folha em branco conter um poema. E quem compararia rasgar uma folha em branco com rasgar a folha em que já está escrito um belo poema?

As possibilidades que o embrião encarna, portanto, não são possibilidades que ele mesmo contemple. Elas são, em primeiro lugar, possibilidades objetivas: no caso em questão, a possibilidade trivial de que o mundo adquira mais um habitante. Não vejo sentido, neste mundo superpopulado em que vivemos, em fazer força para que o mundo não deixe de ter mais um habitante.

Em segundo lugar, porém, as possibilidades que o embrião encarna afetam diretamente algumas pessoas: em particular seus pais e, em primeiríssimo lugar, a mãe que o carrega no útero. Em última análise é, portanto, a ela que deve caber o direito de escolher entre abortar ou não. Não se pode, em nome de nenhuma ideologia -religiosa ou laica- roubar-lhe esse direito.

A mim parece que uma sociedade será tanto mais civilizada quanto maior for a proteção jurídica concedida a tais sujeitos reais -em oposição a sujeitos fictícios- de direitos.

29.10.10

Adriano Nunes: "Olvido"

Olvido

Esquece Helena
Esquece o mundo
Esquece a fundo
Esquece a pena

Esquece o verso
Esquece o susto
Esquece, é justo
Esquece emerso

Esquece mesmo
Esquece o rumo
Esquece o sumo
Esquece a esmo

Esquece a Grécia
Esquece a luta
Esquece-a! Custa?
Esquece a astúcia.

Entrevista à Sibila

Está no ar a entrevista "A poesia não nasce das regras", que dei aos poetas Luis Dolhnikoff e Régis Bonvicino, da revista Sibila. O endereço é: http://www.sibila.com.br/index.php/critica/1338-a-poesia-nao-nasce-das-regras.

27.10.10

Marcel Proust: de "A l'ombre des jeunes filles en fleurs"




J’avais autrefois entrevu aux Champs-Élysées et je m’étais rendu mieux compte depuis qu’en étant amoureux d’une femme nous projetons simplement en elle un état de notre âme ; que par conséquent l’important n’est pas la valeur de la femme mais la profondeur de l’état ; et que les émotions qu’une jeune fille médiocre nous donne peuvent nous permettre de faire monter à notre conscience des parties plus intimes de nous-même, plus personnelles, plus lointaines, plus essentielles, que ne ferait le plaisir que nous donne la conversation d’un homme supérieur ou même la contemplation admirative de ses œuvres.


Eu havia outrora entrevisto nos Champs Élysées, e depois compreendi melhor, que, quando estamos enamorados de uma mulher, projetamos simplesmente nela um estado de nossa alma; que por conseguinte o importante não é o valor da mulher, mas a profundidade do estado; e que as emoções que uma moça medíocre nos dá podem permitir-nos fazer elevarem-se à consciência algumas partes mais íntimas de nós mesmos, mais pessoais, mais longínquas, mais essenciais do que o prazer de conversar com um homem superior ou mesmo o de contemplar com admiração suas obras seria capaz de produzir.



PROUST, Marcel. "A l'ombre des jeunes filles en fleurs". A la recherche du temps perdu. Paris: Gallimard, 1919.

24.10.10

Manuel Bandeira: "Tema e voltas"




Tema e voltas

Mas para quê
Tanto sofrimento,
Se nos céus há o lento
Deslizar da noite?

Mas para quê
Tanto sofrimento,
Se lá fora o vento
É um canto na noite?

Mas para quê
Tanto sofrimento,
Se agora, ao relento,
Cheira a flor da noite?

Mas para quê
Tanto sofrimento,
Se o meu pensamento
É livre na noite?




BANDEIRA, Manuel. "Belo belo". Poesia completa e prosa. Rio de Janeiro: José Aguilar, 1967.

23.10.10

Maria Rita Kehl: "Repulsa ao sexo"





O seguinte -- excelente -- artigo de Maria Rita Kehl foi publicado no jornal O Estado de São Paulo no dia 18 de setembro, isto é, duas semanas antes do episódio lamentável de sua demissão, em consequência da publicação de um artigo seu ("Dois pesos") que destoava da linha política declaradamente adotada pelo jornal, de apoio, nas atuais eleições, ao candidato José Serra.



Repulsa ao sexo


Entre os três candidatos à presidência mais bem colocados nas pesquisas, não sabemos a verdadeira posição de Dilma e de Serra. Declaram-se contrários para não mexer num vespeiro que pode lhes custar votos. Marina, evangélica, talvez diga a verdade. Sua posição é tão conservadora nesse aspecto quanto em relação às pesquisas com transgênicos ou células–tronco.

Mas o debate sobre a descriminalização do aborto não pode ser pautado pela corrida eleitoral. Algumas considerações desinteressadas são necessárias, ainda que dolorosas. A começar pelo óbvio: não se trata de ser a favor do aborto. Ninguém é. O aborto é sempre a última saída para uma gravidez indesejada. Não é política de controle de natalidade. Não é curtição de adolescentes irresponsáveis, embora algumas vezes possa resultar disso. É uma escolha dramática para a mulher que engravida e se vê sem condições, psíquicas ou materiais, de assumir a maternidade. Se nenhuma mulher passa impune por uma decisão dessas, a culpa e a dor que ela sente com certeza são agravadas pela criminalização do procedimento. O tom acusador dos que se opõem à legalização impede que a sociedade brasileira crie alternativas éticas para que os casais possam ponderar melhor antes, e conviver depois, da decisão de interromper uma gestação indesejada ou impossível de ser levada a termo.

Além da perda à qual mulher nenhuma é indiferente, além do luto inevitável, as jovens grávidas que pensam em abortar são levadas a arcar com a pesada acusação de assassinato. O drama da gravidez indesejada é agravado pela ilegalidade, a maldade dos moralistas e a incompreensão geral. Ora, as razões que as levam a cogitar, ou praticar, um aborto, raramente são levianas. São situações de abandono por parte de um namorado, marido ou amante, que às vezes desaparecem sem nem saber que a moça engravidou. Situações de pobreza e falta de perspectivas para constituir uma família ou aumentar ainda mais a prole já numerosa. O debate envolve políticas de saúde pública para as classes pobres. Da classe média para cima, as moças pagam caro para abortar em clínicas particulares, sem que seu drama seja discutido pelo padre e o juiz nas páginas dos jornais.

O ponto, então, não é ser a favor do aborto. É ser contra sua criminalização. Por pressões da CCNBB, o Ministro Paulo Vannucci precisou excluir o direito ao aborto do recente Plano Nacional de Direitos Humanos. Mas mesmo entre católicos não há pleno consenso. O corajoso grupo das “Católicas pelo direito de decidir” reflete e discute a sério as questões éticas que o aborto envolve.

O argumento da Igreja é a defesa intransigente da vida humana. Pois bem: ninguém nega que o feto, desde a concepção, seja uma forma de vida. Mas a partir de quantos meses passa a ser considerado uma vida humana? Se não existe um critério científico decisivo, sugiro que examinemos as práticas correntes nas sociedades modernas. Afinal, o conceito de humano mudou muitas vezes ao longo da história. Data de 1537 a bula papal que declarava que os índios do Novo Continente eram humanos, não bestas; o debate, que versava sobre o direito a escravizar-se índios e negros, estendeu-se até o século XVII.

A modernidade ampliou enormemente os direitos da vida humana, ao declarar que todos devem ter as mesmas chances e os mesmos direitos de pertencer à comunidade desigual, mas universal, dos homens. No entanto, as práticas que confirmam o direito a ser reconhecido como humano nunca incluíram o feto. Sua humanidade não tem sido contemplada por nenhum dos rituais simbólicos que identificam a vida biológica à espécie. Vejamos: os fetos perdidos por abortos espontâneos não são batizados. A Igreja não exige isto. Também não são enterrados. Sua curta existência não é imortalizada numa sepultura – modo como quase todas as culturas humanas atestam a passagem de seus semelhantes pelo reino desse mundo. Os fetos não são incluídos em nenhum dos rituais, religiosos ou leigos, que registram a existência de mais uma vida humana entre os vivos.

A ambigüidade da Igreja que se diz defensora da vida se revela na condenação ao uso da camisinha mesmo diante do risco de contágio pelo HIV, que ainda mata milhões de pessoas no mundo. A África, último continente de maioria católica, paupérrimo (et pour cause...), tem 60% de sua população infectada pelo HIV. O que diz o Papa? Que não façam sexo. A favor da vida e contra o sexo – pena de morte para os pecadores contaminados.

Ou talvez esta não seja uma condenação ao sexo: só à recente liberdade sexual das mulheres. Enquanto a dupla moral favoreceu a libertinagem dos bons cavalheiros cristãos, tudo bem. Mas a liberdade sexual das mulheres, pior, das mães – este é o ponto! – é inadmissível. Em mais de um debate público escutei o argumento de conservadores linha-dura, de que a mulher que faz sexo sem planejar filhos tem que agüentar as conseqüências. Eis a face cruel da criminalização do aborto: trata-se de fazer, do filho, o castigo da mãe pecadora. Cai a máscara que escondia a repulsa ao sexo: não se está brigando em defesa da vida, ou da criança (que, em caso de fetos com malformações graves, não chegarão viver poucas semanas). A obrigação de levar a termo a gravidez indesejada não é mais que um modo de castigar a mulher que desnaturalizou o sexo, ao separar seu prazer sexual da missão de procriar.

21.10.10

Daniel Sottomaior: "Ateísmo e cidadania"




O seguinte artigo, de Daniel Sottomaior, presidente da Atea (Associação Brasileira de Ateus e Agnósticos), cujo endereço eletrônico é http://www.atea.org.br/, foi publicado na Folha de São Paulo na quarta-feira, 19 de outubro.



20 de outubro de 2010

Ateísmo e cidadania
DANIEL SOTTOMAIOR


No Brasil atual, é inimaginável um senador da República dizer que "tem pena" de judeus.
Ou um apresentador de TV afirmar repetidas vezes que certo criminoso "só pode ser negro". Ou um candidato à Presidência afirmar que o judaísmo tem criado problemas no Brasil e no mundo e que é bom que o próximo mandatário supremo não seja judeu.

Ou um vilão de novela ser gay e atribuir sua maldade à própria homossexualidade.

No entanto, esse é o país em que vivem cerca de 4 milhões de ateus -número aproximado, já que o IBGE nos nega essa informação, a despeito do art. 5º da Constituição: "Ninguém será privado de direitos por motivo de crença religiosa ou de convicção filosófica".

Todos esses casos são reais, referindo-se na verdade a ateus, mas ninguém foi destituído, despedido ou processado pelo Ministério Público. Por que será?

A Folha dá enorme passo na direção certa ao abrir espaço a esta resposta ao artigo "Dilma e a fé Cristã", de Frei Betto ("Tendências/Debates", 10/10). Nele, o dominicano afirmou: "Nossos torturadores, sim, praticavam o ateísmo militante ao profanar, com violência, os templos vivos de Deus: as vítimas levadas ao pau de arara, ao choque elétrico, ao afogamento e à morte".

Não há como salvar essa lógica.

Trata-se de expressão clara de preconceito. Se a frase é inaceitável referindo-se a judaísmo ou negritude, então o mesmo deve valer para o ateísmo. E o contexto não poderia ser pior: o mote do artigo é salvar a candidata de "acusações" de ateísmo, ao invés de mostrar que ateísmo não é matéria de acusação em sociedade não discriminadora.

Identificar grupos de pessoas a deficiência física, estética, mental, moral ou até teológica sempre foi a racionalização do discriminador.

A maldade dos ateus é mais uma dessas lendas preconceituosas, reafirmada "ad nauseam" pela sacrossanta Bíblia Sagrada e por quase todos os seus cristianíssimos seguidores, apesar de desautorizada por todos os dados disponíveis.

A Associação Brasileira de Ateus e Agnósticos (Atea) vem congregando descrentes em todos os quadrantes do país, esclarecendo a sociedade, defendendo os ateus da posição inferior que nos querem impingir, lutando por um Estado verdadeiramente laico e levando aos tribunais as pessoas e instituições que insistem no contrário.

Isso, sim, é ateísmo militante.

Ironicamente, bulas papais como "Ad extirpanda" e "Dum diversas" deixam claro que o cristianismo militante inclui tortura e escravização de descrentes. Não consta que tenham sido revogadas.

O grande manual de tortura de todos os tempos, "Malleus Maleficarum", foi escrito também por dominicanos, e serviu de guia, durante séculos, para a violência católica contra infiéis.
No caso a que Frei Betto se refere, os papéis também estão invertidos: combater o ateísmo era uma das justificativas para a ditadura, sintomaticamente inaugurada com a Marcha da Família com Deus pela Liberdade.

É o teísmo militante, naquela época como hoje, alimentando-se do preconceito escancarado contra ateus, sequestrando e engravidando a política, em nome dos bons tempos, para nela conceber seus frutos. Vejam só no que deu.

20.10.10

Jacques Prévert: "Tant de forêts..." / "Tantas florestas": tradução de Silviano Santiago




Tantas florestas...

Tantas florestas arrancadas da terra
e massacradas
arrasadas
rotativadas

Tantas florestas sacrificadas para virar pasta
                                        de papel
milhares de jornais chamando anualmente a atenção dos leitores para os perigos do desmatamento dos bosques e das florestas.


Tant de forêts...

Tant de forêts arrachées à la terre
Et massacrées
Achevées
Rotativées

Tant de forêts sacrifiées pour la pâte à papier
des milliards de journaux attirant annuellement l´attention des lecteurs sur les dangers du déboisement des bois et des forêts


PRÉVERT, Jacques. Poemas. Introdução, seleção e tradução dos poemas por SANTIAGO, Silviano. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1985.

17.10.10

A questão do aborto





O seguinte artigo foi publicado na minha coluna da "Ilustrada", da Folha de São Paulo, no sábado, 16 de outubro.



A questão do aborto

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Quem se opõe à descriminalização do aborto defende não a vida, mas uma crença religiosa
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Se não me engano, algum tempo atrás Lula previu que, nas eleições deste ano, todos os candidatos à Presidência seriam de esquerda. De fato, os três mais votados candidatos do primeiro turno, logo, os dois do segundo, são considerados de esquerda.

Serão mesmo? Pensaria o contrário quem, sem nada saber dos candidatos, visse as fotos diárias que a imprensa publica de cada um deles a assistir à missa; ou suas confraternizações com pastores e políticos evangélicos; ou lesse suas declarações de fé; ou as promessas de obediência que fazem a líderes religiosos; ou suas renegações da proposta da descriminalização do aborto...

Dois dias atrás, afirmando que uma eleição é o pior momento para debater qualquer questão que seja, Contardo Calligaris postergou uma discussão sobre o aborto. Acho que ele estava certo. Contudo, tendo lido inúmeros ataques à tese de que o aborto deve ser descriminalizado, mas nenhum argumento a favor dela, resolvi lembrar alguns.

E, para mim, os argumentos mais decisivos são os do filósofo francês Francis Kaplan no seu livro "O Embrião É um Ser Vivo?", por ele resumidos em entrevista que a Folha publicou em abril de 2008.

Segundo Kaplan, deve-se distinguir entre "estar vivo" e "ser um ser vivo". Um ser vivo não é apenas um ser que tem funções (pois várias partes do ser vivo têm funções), mas um ser que tem todas as funções necessárias para estar vivo. Assim é um ser humano, por exemplo. Já o olho do ser humano, na medida em que lhe faculta enxergar, está vivo, mas não é um ser vivo. O olho está vivo somente na medida em que faz parte do ser vivo que é o ser humano.

Assim também o embrião está vivo somente enquanto parte de outro ser vivo, que é a sua mãe. Por si mesmo, "as funções vitais de que ele precisa para estar vivo são as da mãe. É graças à função digestiva da mãe que ele recebe o alimento, que pode usar somente por lhe chegar previamente digerido pela mãe; é graças à função glicogênica do fígado da mãe que ele recebe a glicose; é graças à função respiratória da mãe que os glóbulos vermelhos de seu sangue recebem o oxigênio; é graças à função excretória da mãe que ele expulsa materiais prejudiciais, dejetos que, de outro modo, o envenenariam".

E mais: "Não é o embrião que se desenvolve: é a mãe que, por meio da produção da serotonina periférica no sangue, determina, durante mais da metade da gestação, o desenvolvimento neurobiológico e a viabilidade futura do organismo que carrega".

Kaplan explica, ademais, que, pelo menos até o terceiro mês da concepção, o feto não tem atividade cerebral. Acontece que, como ele observa, "um homem sem atividade cerebral é considerado clinicamente morto". Ora, “o prazo de três meses é o prazo dentro do qual a maioria das mulheres que querem abortar aborta, mesmo quando podem fazê-lo legalmente mais tarde”. Vê-se assim que não tem o menor sentido comparar o aborto com o assassinato de uma criança, como alguns religiosos costumam fazer. E que pensar então da tese de que a vida da mãe não vale mais que a do feto?

Diga-se a verdade: quem se opõe à descriminalização do aborto defende não a vida, como alega, mas sim uma crença religiosa segundo a qual nem o prazer sexual pode ser um fim em si mesmo nem o ser humano é dono de si próprio ou do seu corpo.

Ora, cada qual tem o direito à crença religiosa que bem entender, mas o Estado, que deve ser laico, não pode adotar nenhuma delas em particular.

Nenhuma mulher recorre ao aborto por prazer, mas em consequência de sofrimento, e para evitar ainda maior sofrimento para si, para sua família e para a criança que nasceria.

É uma grande crueldade que o Estado penalize essas mulheres e, principalmente, as mulheres pobres que, sem recursos, são obrigadas a praticar o aborto nas piores condições imagináveis.

16.10.10

Barak Obama: Discurso (com legendas)

Agradeço ao Poeta Alberto Pucheu por me ter chamado atenção para o seguinte vídeo, que mostra um excelente discurso do então candidato a Presidente dos Estados Unidos, Barak Obama. Não dá para não ficar com pena da indigência mental dos NOSSOS atuais candidatos a presidente, quando falam dos mesmos temas!


13.10.10

Thomas Hardy: "Afterwards" / "Depois": tradução de Ângela Melim

Afterwards


When the Present has latched its postern
                    behind my tremulous stay,
And the May month flaps its glad green leaves
                    like wings,
Delicate-filmed as new-spun silk, will the
                    neighbours say,
“He was a man who used to notice such
                    things”?

Quando o presente tiver trancado a sua porta
                    após a minha trêmula estadia,
E o mês de maio abanar suas alegres folhas
                    verdes como asas,
Névoa delicada feito seda acabada de fiar, irão
                    os vizinhos dizer:
“Ele era um homem que costumava notar tais
                    coisas”?

If it be in the dusk when, like an eyelid’s
                    soundless blink,
The dewfall-hawk comes crossing the shades
                    to alight
Upon the wind-warped upland thorn, a gazer
                    may think,
“To him this must have been a familiar sight.”

Se for na penumbra quando, com um piscar
                    sem som de uma pálpebra
O falcão da queda do orvalho vier cruzando
                    as sombras para iluminar
O espinheiro do planalto torcido de vento, um
                    observador pode pensar:
“Para ele essa deve ter sido uma visão
                    familiar”.

If I pass during some nocturnal blackness,
                    mothy and warm,
When the hedgehog travels furtively over the
                    lawn,
One may say, “He strove that such innocent
                    creatures should come to no
                    harm,
But he could do little for them; and now he
                    is gone.”

Se eu passar durante algum negrume noturno,
                    cheio de mariposas e morno,
quando o ouriço-cacheiro viaja furtivamente
                    pelo gramado,
Podem dizer: “Ele lutou para que a essas
                    inocentes criaturas não
                    sobreviesse nenhum mal,
Mas pouco pôde fazer por elas, e agora foi-se”.

If, when hearing that I have been stilled at
                    last, they stand at the door,
Watching the full-starred heavens that winter
                    sees,
Will this thought rise on those who will meet
                    my face no more,
“He was one who had an eye for such
                    mysteries”?

Se, ao saber que aquietei-me afinal, eles
                    estiverem de pé à porta,
Acompanhando os céus inteirametne estrelados
                    que o inverno vê,
Irá esse pensamento despertar naqueles que
                    não mais encontrarão meu rosto:
“Ele foi alguém que tinha olhos para tais
                    mistérios.”?

And will any say when my bell of quittance is
                    heard in the gloom,
And a crossing breeze cuts a pause in its
                    outrollings,
Till they rise again, as they were a new
                    bell's boom,
"He hears it not now, but used to notice such
                    things?”

E irá alguém dizer quando o sino da minha
                    despedida for ouvido ao
                    escurecer,
E a brisa que passa cortar uma pausa em seus
                    desenrolares
Enquanto não tornam a levantar-se como se
                    fossem um novo repicar de sino:
“Ele já não ouve mas costumava notar tais
                    coisas”?



HARDY, Thomas. "Afterwards". In: AUDEN, W.H. Fazer, saber, julgar. Tradução de Ângela Melim. Ilha de Santa Catarina: Noa Noa, 1981.