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27.4.15

Ian Hamilton: "Last respects" / "Tributo final"





Tributo final

A tua respiração desalinha levemente
Uma só fiada de pétalas
Quando te inclinas para ele. Os teus dedos,
No ar, por cima do seu rosto,
São elegantes, perplexos. Pairam
Sobre a sua boca fria
Mas não lhe tocam; no fumo das velas
Vogam tênues sombras até ao seu cabelo.
O teu gesto amigável
Derrama mais pétalas:
Um pânico colorido.



Last respects

Your breathing slightly disarrays
A single row of petals
as you lean over him. Your fingers,
In the air, above his face,
Are elegant, perplexed. They pause
At his cold mouth
But won’t touch down; thin shadows drift
On candle smoke into his hair.
Your friendly touch
Brings down more petals:
A colourful panic.




HAMILTON, Ian. "Last respects" / "Tributo final". In:_____. Fifty poems / Cinquenta poemas. Trad. de Nuno Vidal. Lisboa: Cotovia, 1995.



7.9.14

Ian Hamilton: "Poet" / "Poeta": trad. Nuno Vidal





“A luz sucumbe; o mundo sorve a escuridão invernosa
E por todo o lado
Vastas cidades abandonam-se aos seus fantasmas..."
O poeta, à escuta de outras vidas
Como a sua, recomeça: "E é tudo
Delírio...”


"Light fails; the world sucks on the winter dark
And everywhere
Huge cities are surrendering their ghosts…"
The poet, listening for other lives
Like his, begins again: "And it is all
Folly…"


HAMILTON, Ian. "Poet" / "Poeta". In:____. Cinquenta poemas. Trad. Nuno Vida. Lisboa: Cotovia, 1995.


3.6.12

Ian Hamilton: "The storm" / "A tempestade": trad. Nuno Vidal

The storm

Miles off, a storm breaks. It ripples to our room.
You look up to the light so it catches one side
Of your face, your tight mouth, your startled eyes
You turn to me, and when I call you come
Over and kneel beside me, wanting me to take
Your head between my hands as if it were
A delicate bowl that the storm might break
You want me to get between you and the brute thunder.
Settling on your flesh, my great hands stir,
Pulse on you, and then wondering how to do it, grip.
The storm rolls through me as your mouth opens.



A tempestade

Ao longe, rompe um temporal. Rola para o nosso quarto.
Olhas para a luz de modo a apanhar-te um lado
Da cara, da boca apertada, do olhar sobressaltado.
Viras-te para mim e quando chamo tu vens
Cá e ajoelhas-te ao meu lado, para eu tomar
A tua cabeça entre as mãos como se fora tal
Uma taça delicada que a tormenta pudesse quebrar.
Queres que me ponha entre ti e o trovão brutal.
Ao pousar na tua carne estas mãos grandes tremem,
Latejam em ti e depois, inseguramente, cingem.
O temporal invade-me enquanto a tua boca abre.




HAMILTON, Ian. Cinquenta poemas. Edição bilingue. Tradução de Nuno Vidal. Lisboa: Cotovia, 1995.

3.10.10

A vida passada a limpo



O seguinte artigo foi publicado na minha coluna da "Ilustrada", da Folha de São Paulo, no sábado, 2 de outubro.


A vida passada a limpo


NA VÉSPERA das eleições, é natural que praticamente não se fale senão de política: e às vezes com uma histeria tanto maior quanto menos importante é o que se diz. Para variar, voltarei a escrever sobre um dos meus assuntos favoritos e inesgotáveis: "Que é a poesia?"
Outro dia, para tentar responder a essa pergunta, vali-me de um poema de Manuel Bandeira, "O Rio". Hoje aproveito o extraordinário título de um livro de Carlos Drummond de Andrade: "A Vida Passada a Limpo".

Passar a limpo um texto é retirar-lhe tudo o que não lhe pertence por direito, modificar o que deve ser modificado, adicionar o que falta, reduzi-lo ao que deve ser e apenas ao que deve ser. No caso de um poema, faz-se isso até o impossível, isto é, até que ele resplandeça. O que resplandece é o que vale por si: o que merece existir.

Para tentar chegar a esse ponto, o poeta necessita pôr em jogo, até aonde não possam mais ir, todos os recursos de que dispõe: todo seu intelecto, sua sensibilidade, sua intuição, sua razão, sua sensualidade, sua experiência, seu vocabulário, seu conhecimento, seu senso de humor etc. E entre os "cetera" encontra-se a capacidade de, a cada momento, intuir o que interessa e o que não interessa naquilo que o acaso e o inconsciente ofereçam.

Em princípio, tudo num poema é arbitrário. O poeta sabe que a poesia é compatível com uma infinidade de formas e temas. Ele tem o direito de usar qualquer das formas tradicionais do verso, o direito de modificá-las e o direito de inventar novas formas para os seus poemas. Nenhuma opção lhe é vedada a priori; em compensação, nenhuma opção lhe confere garantia alguma de que sua obra venha a ter qualquer valor.

O poema se desenvolve a partir de alguma decisão ou de algum acaso inicial. Por exemplo, ocorre ao poeta, em primeiro lugar, uma frase que ouviu no metrô; a partir dela, esboça-se uma ideia: e ele começa a fazer um poema. Ou então ocorre-lhe uma ideia e ele tenta desdobrá-la e realizá-la. A cada passo, é preciso fazer escolhas. Em algum momento -seja no início, seja no meio do trabalho- impõe-se decidir a estrutura global do poema: se será longo ou curto; se será dividido em estrofes; se seus versos serão livres ou metrificados; se serão rimados ou brancos; se o poema como um todo terá um formato tradicional, como um soneto, ou uma forma "sui generis" etc. Às vezes, uma primeira decisão parece impor todas as demais, que vêm como que natural e impensadamente; às vezes, certos momentos se dão como crises que aguardam soluções.

Cada escolha que o poeta faz limita a liberdade vertiginosa de que ele dispunha antes de começar a escrever. As restrições devidas a formas autoimpostas são importantes, porque exatamente o esforço consciente e obsessivo para tentar resolver a tensão entre elas e o impulso expressivo é um dos fatores que mais propiciam a ocorrência de intervenções felizes do acaso e do inconsciente: o que, de certo modo, dissolve a dicotomia tradicional entre a inspiração, por um lado, e a arte ou o trabalho, por outro.

Assim, numa época em que "tempo é dinheiro", a poesia se compraz em esbanjar o tempo do poeta. Mas o poema em que a poesia esbanjou o tempo do poeta é aquele que também dissipará o tempo do leitor ideal, que se deleita ao flanar pelas linhas dos poemas que mereçam uma leitura ao mesmo tempo vagarosa e ligeira, reflexiva e intuitiva, auscultativa e conotativa, prospectiva e retrospectiva, linear e não linear, imanente e transcendente, imaginativa e precisa, intelectual e sensual, ingênua e informada. Ora, é por essa temporalidade concreta, que se põe no lugar da temporalidade abstrata do cotidiano, que se mede a grandeza de um poema.

Dizer que a poesia é a vida passada a limpo é dizer que a vida é o rascunho da poesia. Isso significa que o fim da vida é virar poesia. Por essa razão, longe de ser um meio (por exemplo, um meio de "expressão" ou de "comunicação") para o poeta, a poesia é o seu fim. Dado que o fim subordina os meios, e não vice-versa, o poeta é um servo -um servo voluntário e apaixonado, é verdade, mas um servo- da poesia. Nessa relação, não é ela que se inclina às conveniências dele, mas é ele que deve dobrar-se às exigências e aos caprichos -inclusive aos silêncios- dela.

22.9.08

Ian Hamilton: "Epitaph" / tradução de Nuno Vidal

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Epitaph

The scent of old roses and tobacco
Takes me back.
It's almost twenty years
Since I last saw you
And our half-hearted love affair goes on.

You left me this:
A hand, half-open, motionless
On a green counterpane.
Enough to build
A few melancholy poems on.

If I had touched you then
One of us might have survived.



Epitáfio

O aroma de rosas velhas e tabaco
Faz-me regressar.
Há quase vinte anos
Que não nos vemos
E a nossa desapegada paixão continua.

Foi isto que me deixaste:
A mão, entreaberta, imóvel
Sobre uma colcha verde.
O bastante para erguer
Alguns poemas melancólicos.

Se então eu te houvesse tocado
Um de nós podia ter sobrevivido.



De: HAMILTON, Ian. Cinquenta poemas. Edição biligue. Trad. Nuno Vidal. Lisboa: Cotovia, 1995.