23.11.10

Declaração







DECLARAÇÃO

Quantas vezes lhe declarei o meu amor?
Declarei-o verbalmente inúmeras vezes
e o declaram todos os meus gestos tendentes
a você: a minha língua, a brincar com o som
do seu nome, Marcelo, o declara; e o declaram
os meus olhos felizes quando o vêem chegar
feito um presente e de repente elucidar
a casa inteira que, conquanto iluminada,
permanecia opaca sem você; e quando,
tendo apagado todas as lâmpadas, juntos,
no terraço, nos consignamos aos traslados
dos círculos do relógio do céu noturno
ou aos rios de nuvens em que nos miramos
e nos perderemos, declaro-o no escuro.



CICERO, Antonio. A cidade e os livros. Rio de Janeiro: Record, 2002.

12 comentários:

Letícia disse...

Declaração de poeta é outra coisa! De um grande poeta é outra coisa mais bonita ainda!

Esse poema é belíssimo. Bom relê-lo aqui.

Um beijo.

ADRIANO NUNES disse...

Cicero,



Que belíssimo poema! Que declaração!



Abração fraterno,
Adriano Nunes.

Roberto Bozzetti disse...

"... declaro-o no escuro". Esclarecimento, clarificação feliz de todo obscuro, luz sobre obscurantismo. Leitor de poesia, leio, releio, recomendo e agradeço sempre por "A cidade e os livros", um dos mais belos livros de poesia que já li.

Eleonora disse...

Oi Antonio,

Que declaração delicada e, ao mesmo tempo, forte. Assim como você.

Um abraço,


Eleonora

Nobile José disse...

da série "bárbaros amargos":

(http://cenag.uol.com.br/noticias_ler.php?id=NDA5NQ==)

"O militar e deputado federal Jair Bolsonaro (PP-RJ) sugeriu que os pais deveriam bater nos filhos com tendências homossexuais para mudarem de comportamento. A afirmação foi feita ao programa "Participação Popular", da TV Câmara.

Os deputados Jair Bolsonaro e Paulo Henrique Lustosa (PMDB/CE), presidente da Frente Parlamentar da Criança e do Adolescente, discutiam sobre a Lei da Palmada, quando Bolsonaro afirmou: “O filho começa a ficar assim meio gayzinho, leva um coro, ele muda o comportamento dele. Olha, eu vejo muita gente por aí dizendo: ainda bem que eu levei umas palmadas, meu pai me ensinou a ser homem”."

é essa gente q vai pro congresso representar este estado em chamas????

Antonio Cicero disse...

Agradeço a gentileza de Letícia, Adriano, Roberto e Eleonora.

E concordo com Nobile José: é de fato inacreditável o primarismo desse deputado.

carmen silvia presotto disse...

A hora do amor é iluminada e este poema é isso: amor!!

Beijos

ADRIANO NUNES disse...

Cicero,

não publique o comentário anterior, pois o poema tinha um erro. O poema certo está aqui:


"para ele"

ele,
com o seu medo
de pele,

me repele.
com seu dedo
no gatilho - tiro

certo -
(nem sei
por que vivo)

assusta-me.
(como ele é
lindo!)

amá-lo
decerto
é isso:

ele,
lá, na sua
teia,

em seu edifício.
eu aqui
com os meus

cacos de menino
de circo,
em curto-fortuito,

escondido.
entre um ver-
so e um flerte

promíscuo,
declamo: amo-o!
que importa o risco?



abração,
Adriano Nunes.

Alcione disse...

Esse poema é muito belo, e também os demais desse livro tão lindo, parabéns, e é uma honra poder estar aqui e dizer isso ao seu próprio autor,rss, é difícil fazer algo assim!
um grande abraço!

Revelação

Oh, minha vida
Aonde permaneces escondida
Se todos os caminhos
Levam-me até você
E tudo foge para longe
sombras feitas de nuvens
Ao meu redor
Os edifícios crescem como bolhas
Bem longe das folhas, das ruas,
Aonde eu perdi a eira
E a beira
Milhares de janelinhas
Todas em linha
no espelho
na carruagem dos meus sonhos
outro mundo se rompeu
Esqueço meu eu
Quando atravesso um simples olhar teu.

Rubens disse...

Teus olhos cheios de mistérios,
brilhantes como diamantes,
miram para o mundo,
seu pensamento profundo,
almejo um dia mergulhar.
e contigo compartilhar,
meus desejos mais profundos,
em delírios divagar,
de seus beijos desfrutar.

Flaixer disse...

que texto bonito, quanta poesia!

R. disse...

Gostei demais deste poema, Cícero.

Em retribuição, segue um escrito.

Há toques que – às vezes muito de leve – nos tocam tão intensamente
que o desvario se produz em ondas sucessivas de cor, de som, de luz.
Há palavras que – às vezes de longe – nos tocam tão profundamente,
tão diretamente ao ponto,
que nos cintilam a alma e nos oceanam imenso
em marés de embriaguez e fé.
A palavra dita com os olhos por um instante cravados,
revelando sentidos outros,
A palavra escrita com fendas intencionais
de não-ditos, reticências, interditos,
O silêncio e sua aguda voz implacável.
O toque assim se faz pelos sentidos
do que se diz-não-diz e não pelo tato.
O toque vai direto ao peito,
por dentro dos sentidos,
não passa pela pele.
O toque estremece o coração
com uma onda de gelo seco e quente,
fugaz,
como um vento de relance.
A linguagem, quando chega à alma,
rompe os pólos e frutifica unidade.
Real e virtual?
Longe e perto?
Corpo e mente?
Com e sem?
Sim e não?
Tu e eu?
Nada disso.

Rosaura Soligo
http://chiarosscuro.blogspot.com/