26.9.20

Jorge de Sousa Braga: "Poema de amor"

 



Poema de amor


Esta noite sonhei oferecer-te o anel de Saturno

e quase ia morrendo com o receio de que ele não

te coubesse no dedo.




BRAGA, Jorge de Sousa. "Poema de amor". In: PEDROSA, Inês (org.). Poemas de amor. Antologia de poesia portuguesa. Lisboa: Publicações Dom Quixote, 2005.


22.9.20

Constantinos Caváfis: "Εν τη οδώ" / "Na rua": trad. por Ísis Borges da Fonseca

 


Na rua


Seu simpático rosto, um pouco pálido;

seus olhos castanhos, como que fatigados;

vinte e cinco anos, contudo tem mais a aparência de vinte;

com algo de artístico em seu modo de trajar

– certa cor da gravata, certa forma do colarinho – 

anda a esmo pela rua

como que hipnotizado ainda pela volúpia ilícita,

pela volúpia sobremaneira ilícita que desfrutou.








Εν τη οδώ


Το συμπαθητικό του πρόσωπο, κομμάτι ωχρό·

τα καστανά του μάτια, σαν κομένα·

είκοσι πέντ' ετών, πλην μοιάζει μάλλον είκοσι·

με κάτι καλλιτεχνικό στο ντύσιμό του

- τίποτε χρώμα της κραβάτας, σχήμα του κολλάρου -

ασκόπως περπατεί μες στην οδό,

ακόμη σαν υπνωτισμένος απ' την άνομη ηδονή,

από την πολύ άνομη ηδονή που απέκτησε.







CAVÁFIS, Constantinos. "Εν τη οδώ" / "Na rua". In:_____. Poemas de K. Kaváfis. Org. e trad. por Ísis Bórges da Fonseca. São Paulo: Odysseus Editora, 2006.

20.9.20

Rodrigo Garcia Lopes: "Breve história da solidão"

 



Breve história da solidão



No escuro de uma caverna, 

nas paredes de Pompeia, 


na superfície de um papiro, 

na solidão de uma tela, 


num grafite imprevisto 

ou na imensidão sidérea, 


esses escritos, frágeis rabiscos, 

querem dizer apenas isto: 


existo.







LOPES, Rodrigo Garcia. "Breve história da solidão". In:_____. O enigma das ondas. São Paulo: Iluminuras. Edição do Kindle, 2020.

18.9.20

Michelangelo Buonarroti: " I’ mi son caro assai più ch’i’ non soglio" / "Eu me aprecio bem mais do que costumo": trad. por Nilson Moulin




Eu me aprecio bem mais do que costumo


  Eu me aprecio bem mais do que costumo;

contigo no coração,valho mais que eu mesmo,

como pedra que depois de talhada,

vale mais que pedra bruta.

  Ou como folha de papel, escrita ou pintada,

é mais apreciada que um pano qualquer,

assim me tornei, desde que alvo me fiz

marcado por tua face, e não me queixo.

  Seguro com tal marca, vou a qualquer lugar,

como quem se carrega de armas ou sortilégios,

que todo perigo afugenta.

  Protegido contra água e contra fogo,

com teu emblema, ilumino qualquer cego e com

minha saliva curo todo veneno.




I’ mi son caro assai più ch’i’ non soglio;


 I’ mi son caro assai più ch’i’ non soglio;

poi ch’i’ t’ebbi nel cor più di me vaglio,

come pietra c’aggiuntovi l’intaglio

è di più pregio che ’l suo primo scoglio.

  O come scritta o pinta carta o foglio

più si riguarda d’ogni straccio o taglio,

tal di me fo, da po’ ch’i’ fu’ berzaglio

segnato dal tuo viso, e non mi doglio.

  Sicur con tale stampa in ogni loco

vo, come quel c’ha incanti o arme seco,

c’ogni periglio gli fan venir meno.

  I’ vaglio contr’a l’acqua e contr’al foco,

col segno tuo rallumino ogni cieco,

e col mie sputo sano ogni veleno.




BUONARROTI, Michelangelo.  "I’ mi son caro assai più ch’i’ non soglio" / "Eu me aprecio bem mais do que costumo". In:_____. Poemas. Org. por Andrea Lombardi; traduções por Nilson Moulin. Rio de Janeiro: Imago, 1994.











13.9.20

Francisco Bosco: "Garamond"

 



Garamond


Primeiro na tela da mente: 

seus deletes sem tecla,


filme cabeça, legendas

boiando sobre nada.


Depois no papel pautado, 

à caneta Bic azul, com letra


imperfeita, suja de mão, 

e intrincadas rasuras.


Daí passar a limpo, mero 

artesão, olhos de régua, a mão


contra a mão, o alheamento 

no rumor da página.


Por fim imprimir, com tipo 

Garamond, em cuja distância


típica dos habitantes dos livros, 

lavamos as mãos.





BOSCO, Francisco. "Garamond". In:_____. Da amizade. Rio de Janeiro: 7Letras, 2003.

11.9.20

Frandis Carco: "Beurceuse" / "Cantiga de ninar": trad. de Guilherme de Almeida

 



Cantiga de ninar


Este lento estremecimento

É a chuva lânguida entre as folhas...

Ela sofre para que a acolhas

Num silencioso encantamento.


Lutam a chuva e o vento em fuga. 

Tu te exaltas, e eu... eu queria 

Morrer numa cantiga fria

De água dócil que o vento enxuga.


É a chuva que soluça, ou é 

O vento que chora, eu te juro... 

Morro de um mal gostoso e obscuro 

E tu não sabes bem o que é...






Berceuse


Ce lent et cher frémissement,

C’est la pluie douce dans les feuilles,

Elle s’afflige et tu l’accueilles

Dans un muet enchantement.



Le vent s’embrouille avec la pluie.

Tu t’exaltes, moi je voudrais

Mourir dans ce murmure frais

D’eau molle que le vent essuie !



C’est la pluie qui sanglote, c’est

Le vent qui pleure, je t’assure.

Je meurs d’une exquise blessure

Et tu ne sais pas ce que c’est…





CARCO, Francis. "Berceuse" / "Cantiga de ninar". In: ALMEIDA, Guilherme de. Poetas de França. Trad. de Guilherme de Almeida. São Paulo: Babel, s.d.

9.9.20

Giuseppe Ungaretti: "Casa mia" / "Minha casa": trad. de Geraldo Holanda Cavalcanti




Minha casa


Surpresa
depois de tanto
deste amor

Pensava tê-lo dispersado
pelo mundo




Casa mia


Sorpresa
dopo tanto
d'un amore.

Credevo di averlo sparpagliato
per il mondo.




UNGARETTI, Giuseppe. "Casa mia" / "Minha casa". In:_____. Poemas. Edição bilingue. Seleção, tradução e notas por Geraldo Holanda Cavalcanti. São Paulo: EdUSP, 2017. 

6.9.20

Paul Éluard: "Un vivant parle pour les morts" / "Um que está vivo fala para os mortos": trad. por Maria Gabriel Llansol




Um que está vivo fala para os mortos


Doce futuro, esse olho zarolho sou eu,

Esse ventre aberto e esses nervos em franja

Sou eu, presa dos vermes e dos corvos,

Filho do nada como se é filho de rei.


Em breve vou perder minha aparência:

Eu estou na terra em vez de estar sobre ela,

O meu coração desperdiçado voa com a poeira,

Só tenho sentido por total inexistência.






Un vivant parle pour les morts


Doux avenir cet oeil crevé c'est moi

Ce ventre ouvert et ces nerfs en lambeaux

C'est moi sujet des vers et des corbeaux

Fils du néant comme est fils de roi



J'aurai bientôt perdu mon apparence

Je suis en terre au lieu d'être sur terre

Mon coeur gâché vole avec la poussière

Je n'ai de sens que par complète absence






ÉLUARD, Paul. "Un vivant parle pour les morts" / "Um que está vivo fala para os mortos". In:_____. ÚLtimos poemas de amor. Trad. por Maria Gasbriela Llansol. Lisboa: Relógio D'Água, 2002.

3.9.20

José Almino: "A um passante"





A um passante


Passa por mim fulano, a sombra do que foi.
Fora amigo de meu pai e essa imagem,
logo morta,
é tão inútil como a Rua da Matriz,
assim, desassombrada e vazia,
longe de meu afeto e de minha memória.
E, no entanto, esse traço, esse momento,
sopros de um registro involuntário,
perseguem-me por um instante;
não, até agora nessas mal traçadas linhas,
onde a banalidade das coisas se impõe
inconclusa.





ALMINO, José. "A um passante". In:_____. Encouraçado e cosido dentro da pele. Rio de Janeiro: Confraria do Vento, 2019.

1.9.20

Adriano Nunes: "O tempo"

Agradeço a Adriano Nunes por me ter dedicado o seguinte, belo poema:



O tempo

           para Antonio Cicero   


O tempo mora
Dentro do centro
Da intuição
Ou dos objetos
Que em si só são?

O tempo jorra
De todo íntimo?
Vinga objetivo
Lá fora, então?
Existe ou não?

Ou será só
Mero fenômeno,
Representado
Qual pura forma?
Ilusão lógica?

Conceito não?
Ou condição
Doutros fenômenos
Do mundo dado?
Saberão sábios?

Quem mesmo certo
Está? Que importa
Discutir isso?
Melhor, é fato,
Ter, sempre à mão,

Alados versos
Para compor
Uma canção
De amor, pois tão
Presto é o tempo!





NUNES, Adriano. "O tempo"

30.8.20

Manuel Bandeira: "O cacto"




O cacto


Aquele cacto lembrava os gestos desesperados da estatuária:
Laocoonte constrangido pelas serpentes,
Ugolino e os filhos esfaimados.
Evocava também o seco nordeste, carnaubais, caatingas...
Era enorme, mesmo para esta terra de feracidades excepcionais.

Um dia um tufão furibundo abateu-o pela raiz.
O cacto tombou atravessado na rua,
Quebrou os beirais do casario fronteiro,
Impediu o trânsito de bonde, automóveis, carroças,
Arrebentou os cabos elétricos e durante vinte e quatro horas privou a
                                                      [cidade de iluminação e energia:

– Era belo, áspero, intratável.






BANDEIRA, Manuel. "O cacto". In:______. 50 poemas escolhidos pelo autor. São Paulo: Cosac Naify, 2006.

28.8.20

Guillaume Apollinaire: "Inscription qui se trouve sur le tombeau d'Apollinaire" / "Inscrição que se encontra sobre o seu túmulo"




Inscrição que se encontra
sobre o seu túmulo


Eu finalmente me afastei
De tudo o que há de natural
Posso morrer mas não pecar
E o que ninguém jamais tocou
Não só toquei como apalpei
Já perscrutei o que ninguém
Nunca sequer imaginou
E sopesei vezes sem conta
Até a vida imponderável
Se vou morrer, morro sorrindo






Incription qui se trouve
sur le tombeau d’Apollinaire


Je me suis enfin détaché
De toutes choses naturelles
Je peux enfin mourir mais non pêcher
Et ce qu’on n’a jamais touché
Je l’ai touché je l’ai palpé
Et j’ai scruté tout ce que nul
Ne peut en rien imaginer
Et j’ai soupesé maintes fois
Même la vie impondérable
Je peux mourir en souriant





APOLLINAIRE, Guillaume. "Inscription qui se trouve sur le tombeau d'Apollinaire" / "Inscrição que se encontra sobre seu túmulo". In: ASCHER, Nelson (trad. e org.). Poesia alheia; 124 poemas traduzidos. Rio de Janeiro: Imago Ed., 1998.

26.8.20

Alberto da Costa e Silva: "Soneto a Vermeer"




Soneto a Vermeer


De luto, a minha avó costura à máquina,
e gira um cata-vento em plena sala.
Vejo seu rosto, sombra que a janela
corrompe contra um pátio amarelado

de sol e de mosaicos. Sobre a mesa,
a tesoura, um esquadro, alguns retalhos
e a imóvel solidão. A minha avó,
com seus olhos azuis, o tempo acalma.

A minha avó é jovem, mansa e apenas
a limpidez de tudo. Sonho vê-la
no seu vestido negro, a gola branca,
contra o corpo de cão, negro, da máquina:

a roda, de perfil, parece imóvel
e a vida não se exila na beleza.




COSTA E SILVA, Alberto da. "Soneto a Vermeer". In:_____. Poemas reunidos. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2012.


23.8.20

Antonio Carlos Secchin: "Uma prosa súbita"




Uma prosa súbita

Se não for para arder,
   ser rosa no inverno de que serve?
     Eugénio de Andrade


Uma prosa súbita
para a rosa de neve:
às vezes é só um verso
onde a voz de Andrade ferve.
E perdura, apesar do inverno
armado na paisagem:
o que há pouco era flor
virou arte,
rosa em riste na beira do abismo
contra
o silêncio azul da tarde.




SECCHIN, Antonio Carlos. "Uma prosa súbita". In: REIS-SÁ, Jorge. Creio que foi o sorriso. Uma antologia. Porto: A casa dos ceifeiros, 2020.

21.8.20

Ramon Nunes Mello: "amor genuíno"




amor genuíno



perdoe
a rima
prefiro o amor
a paixão não tem
humor





MELLO, Ramon Nunes. "amor genuíno". In:_____. Há um mar no fundo de cada sonho. Rio de Janeiro: Verso Brasil Editora, 2016.

17.8.20

Rogério Batalha: "Bom mesmo"




Bom mesmo


bom mesmo é vagabundear ruas
ouvir o balbuciar das gentes
fitar uma flor perdida no baldio.

(até que o mar e sua franja de espuma
molhe seus pés cansados
e a dor tombe diante do inesperado salto).

bom mesmo é vagabundear astros
perfumar-se nos antros dos enamorados.

depois ir ao encontro das moscas
bater um papo com seus brejos
perder o norte e o sul
pescar do céu seu mel azul.

então, por na vasilha do dia
o à toa e o em vão das horas.




BATALHA, Rogério. "Bom mesmo". In:_____. Azul. Rio de Janeiro: Texto Território, 2016.


15.8.20

Caváfis: "Η αρχή των" / "Seu começo"




Seu começo

A satisfação de seu prazer ilícito
efetuou-se. Levantaram-se do leito,
e vestem-se às pressas, sem falar.
Saem em separado, furtivamente, da casa; e como
caminham um tanto apreensivos na rua, parecem
suspeitar que alguma coisa neles trai
em que espécie de leito há pouco se deitaram.

Mas como ganhou a vida do artista!
Amanhã, depois de amanhã ou após anos, serão escritos
os vigorosos versos cujo começo aqui ocorreu.





Η αρχή των

Η εκπλήρωσις της έκνομής των ηδονής
έγινεν. Απ’ το στρώμα σηκωθήκαν,
και βιαστικά ντύνονται χωρίς να μιλούν.
Βγαίνουνε χωριστά, κρυφά απ’ το σπίτι· και καθώς
βαδίζουνε κάπως ανήσυχα στον δρόμο, μοιάζει
σαν να υποψιάζονται που κάτι επάνω των προδίδει
σε τί είδους κλίνην έπεσαν προ ολίγου.

Πλην του τεχνίτου πώς εκέρδισε η ζωή.
Αύριο, μεθαύριο, ή με τα χρόνια θα γραφούν
οι στίχ’ οι δυνατοί που εδώ ήταν η αρχή των.




CAVÁFIS, Constantinos. "Η αρχή των" / "Seu começo". In:_____. Poemas de K. Kaváfis. Trad. de Isis Borges Belchior da Fonseca. São Paulo: Odysseus Editora, 2006.

13.8.20

Moraes Moreira: "Cantoras do meu Brasil"




Cantoras do meu Brasil


Só peço que me aguardem
Quero o feitiço de Carmem

Na escuridão quem me salva
É a luz da estrela Dalva

Juro que já me senti
A irreverente Aracy

Sabendo o que é ser humilde
Choro que nem Ademilde

Às vezes ouço na minha
Vozes de Linda e Dircinha

Já tive muitos amores
Me pego sendo Dolores

Falar que sou, nem precisa
Romântica feito Maysa

Minha paixão se declara
Clara, Clara, Clara e Clara

Antes durante e após
Da geração espontânea
Na cena contemporânea
Posso soltar minha voz

Fazendo aqui meu perfil
Com ferramentas modernas
Homenageio as eternas
Cantoras do meu Brasil





MORAES MOREIRA. "Cantoras do meu Brasil". In:_____. Poeta não tem idade. Rio de Janeiro: Numa, 2016.

CONTRA A LEI QUE PREJUDICA OS COMPOSITORES!




Contra o PL 3968, que quer prejudicar os compositores


"Mais uma vez, os direitos de compositores, intérpretes e músicos estão sendo ameaçados.
O direito autoral é a justa remuneração de milhares de profissionais da música.

Projetos de lei nunca deveriam ser discutidos às pressas, em meio a uma pandemia mundial. Todas as partes precisam ser ouvidas.
O Projeto de Lei 3968 é de 1997. Por que agora seria urgente? Isso não faz sentido."

 
“Diga não ao PL 3968”

Milton Nascimento


ARTIGO: A FALTA DE DIÁLOGO
Projeto na Câmara quer cortar remuneração de artistas sem ouvi-los

Por Gilberto Gil, do Rio
Originalmente publicado no Jornal Folha de São Paulo, no dia 12/08/2020
 
A falta de diálogo vem interditando a participação e o debate na sociedade brasileira. E vou buscar como exemplo um fato que envolve, neste momento, a música brasileira, um dos traços mais marcantes da nossa cultura. O cenário é o Congresso Nacional.
Em meio à maior angustia vivida pela saúde pública mundial e suas consequências econômicas e sociais, alguns políticos decidiram investir contra os direitos autorais que garantem a sobrevivência de compositores, músicos e cantores. Estamos falando de uma iniciativa recente, no Congresso, de um projeto que, se aprovado, impactará diretamente 400 mil pessoas e suas famílias.
Por meio das MPs 907 e 948, tentaram, recentemente, permitir que o setor hoteleiro deixasse de pagar os direitos autorais pela execução pública das obras musicais em quartos de hotéis. Ao setor hoteleiro, uniram-se vários outros setores, todos com o mesmo objetivo: não pagar pelo uso de obras musicais.
Não conseguiram, mas não desistiram. Em sessão remota prevista para breve, a Câmara poderá aprovar, sem ouvir os titulares de direitos autorais, um requerimento de urgência ao projeto de lei 3.968 de 1997, ao qual estão apensados mais de 50 outros projetos, todos buscando a isenção do pagamento da remuneração que autores, músicos e intérpretes têm o direito de receber pelo uso de suas obras musicais.
A questão aqui colocada é que a Constituição, a Lei Federal de Direitos Autorais e normas internacionais de proteção à propriedade intelectual garantem aos autores o domínio sobre suas obras e o devido pagamento pela execução pública de suas criações.
Em 2013, a sociedade abriu uma ampla discussão, que resultou em diversas mudanças na Lei de Direito Autoral.

"Se o Congresso agora entende que esta lei deve ser revista, nós, artistas e entidades que nos representam, estamos dispostos a discutir o assunto. Queremos e devemos ser convocados para essa discussão.

Não concordamos —é importante que se diga— nem com o momento nem com a forma com que essa revisão está sendo proposta, pressupondo, de boa-fé, que a intenção do Congresso é, de fato, avançar nessa questão.
É um contrassenso que essa questão seja levada ao Congresso, de afogadilho, sem o contraditório e o confronto de opiniões, sem que todos os segmentos envolvidos se sentem à mesa.
Perguntamos: para onde foi o diálogo? A democracia pressupõe a participação de todos na definição dos processos políticos. Ouvir todas as partes interessadas nas questões que lhes dizem respeito é a norma do jogo democrático.
É descabido e desumano que isso ocorra em meio a um momento inédito de pandemia, quando milhões de brasileiros sofrem com incertezas em relação à sua saúde, convivem indefesos e impotentes com a morte diária de pessoas vitimadas por uma doença ainda não totalmente conhecida e enxergam um futuro econômico incerto.
Além de descabido e desumano, é traiçoeiro sacar de um projeto de 1997, anterior a uma lei que foi votada e aprovado em 2013. Todo esse movimento em falso para beneficiar interesses econômicos em detrimento da sobrevivência de milhares de trabalhadores. Sim, artista é trabalhador. Não podemos esquecer desse aspecto fundamental na discussão que precisa ser feita.
A indústria da música é uma parte importante da economia criativa do Brasil, e no meio da crise buscou se reinventar. Munidos de uma tecnologia da comunicação cada vez mais sem fronteiras, os artistas apostaram nas lives para chegar ao seu público. E tem sido assim nesses tempos em que não podemos nos abraçar, encontrar as pessoas que amamos nem nos divertir com segurança.
Portanto, a música está na contramão das medidas que tentam tolher a capacidade criativa dos artistas, impondo-lhes num momento tão difícil maiores restrições econômicas. Temos esperanças de que nenhuma medida nesse sentido —uma afronta ao Estado democrático de Direito— será aprovada sem que os artistas sejam chamados ao palco de debates para expor sua opinião na defesa dos seus direitos.
Evitar o debate, além de não democrático, pode soar como intolerância, palavra tão utilizada ultimamente no que tange às relações humanas e políticas e que deve estar longe, também, das questões que envolvam a cultura —essa dimensão simbólica que nos caracteriza e nos liberta, tão preciosa na construção de nossas identidades como povo e nação.

11.8.20

#TodosPelaMúsica #DireitosAutorais #NãoAoPL3968/1997



O Projeto de Lei 3.968/97 que tramita pela Câmara em caráter de urgência tenta isentar órgãos públicos e outras entidades do pagamento dos direitos autorais pelas obras musicais utilizadas. Para que a música exista da maneira que você escuta hoje, foi necessário trabalho duro e de muitas pessoas envolvidas. Estes profissionais, assim como qualquer outro, merecem ter seu trabalho remunerado. Se você paga para utilizar um serviço ou adquirir um produto, então por que não pagaria pela música?





10.8.20

Marcial: Epigrama 1.24




Epigrama 1.24

Veja, Deciano, aquele homem despenteado,
Cenho cerrado, que até incute medo,
E que só fala dos varões de antigamente:
Casou-se ontem, acredite: ele era a noiva.




MARCIAL. Epigrama 24. In: PIGNATARI, Décio. 31 poetas 214 poemas: do Rigveda e Safo a Apollinaire. 2ª Ed. Campinas: Unicamp, 2007.






Epigramma I.XXIV 

Aspicis incomptis illum, Deciane, capillis,     
Cuius et ipse times triste supercilium, 
Qui loquitur Curios adsertoresque Camillos?     
Nolito fronti credere: nupsit heri. 




MARTIALIS, M. Val. Epigramma XXIV. In:_____. Epigrammata. Org. por W.M. Lindsay. Oxford: Oxford U. Press, 1922.











8.8.20

Sophia de Mello Breyner Andresen: "25 de Abril"




25 de Abril


Esta é a madrugada que eu esperava
O dia inicial inteiro e limpo
Onde emergimos da noite e do silêncio
E livres habitamos a substância do tempo




ANDRESEN, Sophia de Mello Breyner. "25 de Abril". In: REIS-SÁ, Jorge. Creio que foi o sorriso, uma antologia. Braga: Publito, 2020. 

4.8.20

Antonio Cicero: "Consegui"





Consegui

eis o que consegui:
tudo estava partido e então
juntei tudo em ti
toda minha fortuna
quase nada tudo muitas coisas
numa
só:
eu quis correr esse risco antes de virar
pó:
juntar tudo em ti:
toda joia todo pen drive todo cisco
tudo o que ganhei tudo o que perdi
meu corpo minha cabeça meu livro meu disco meu pânico meu tônico
meu endereço
eletrônico
meu número meu nome meu endereço
físico
meu túmulo meu berço
aquela aurora este crepúsculo
o mar o sol a noite a ilha
o meu opúsculo
meu futuro meu passado meu presente
meio aqui
e meio ausente

meu continente meu conteúdo
e além de todo o mundo
também tudo o que é imundo tudo
o medo e a esperança
algo que fica
algo que dança
o que sei o que ignoro
o que rio
e o que choro
toda paixão
todo meu ser
todo meu não
tudo estava perdido e aí
juntei tudo
em ti





CICERO, Antonio. "Consegui". In:_____. Porventura. Rio de Janeiro: Record, 2012.

1.8.20

Haroldo de Campos: "ideocabograma"



ideocabograma




pound attention !

joyce a minute !

  finnegans wait !

  don’t go beckett !

  arnoholzwege :

  i’m cummings !



  mallaimé

. . .





CAMPOS, Haroldo de. "ideocabograma". In:_____. Crisantempo: no espaço curvo nasce um.  São Paulo: Perspectiva, 2004.

30.7.20

Adriano Nunes: "Cânone mínimo"


É com grande prazer que publico aqui o novíssimo poema de Adriano Nunes:


Cânone mínimo



Volto a Voltaire
E depois parto
Para Pasárgada.
Pouco me importa
Que dê em nada.
Que puis-je faire?

De gole em gole,
Gullar engulo.
De pulo em pulo,
Alcanço os Paulos,
Jorges, Joãos,
Sem queixas, juro.

Cecília, Emily,
Ana, Sophia,
Florbela, Safo,
E mais poetas
Fazem meu dia!
Vale o Vallias.

Rumino os russos.
Já com Drummond
Tranquilo durmo
Um sono grego,
Meio moderno.
Lê-los? tão bom!

Augusto, Arnaldo
E os concretistas:
Lindos seus livros!
Atiro ao Inferno
O Dante mesmo
Mal traduzido.

Melhor Cervantes
Antes que isso
Tudo termine.
E numa boa
Amo Pessoa.
O pensar voa!

O mestre Whitman
Também me instiga.
E quase até
Já Baudelaire
Esqueço a esmo!
Que fatal erro!

Logo me agrego
Mais aos latinos,
De versos finos.
Antonio Cicero
Está comigo
Desde o princípio.

De Goethe, gosto
Muito, e me assanha
Tanto Montaigne -
Fico até tonto!
A lista é longa,
A vida é breve.

Dou-me a sonhos?
Huidobro em dobro.
Tudo é íntimo,
Mundos sem fim.
Sigo seguindo,
Em mim, Secchin...

E só com esses,
E alguns ingleses,
Outros franceses,
Sem interesses,
Em verso, exponho
Cânone mínimo.





Adriano Nunes

28.7.20

Antonio Cicero: "FEDRA"




FEDRA

EM TEU NOMEN
O FILLE
SIDERADA
DE MINOS ET DE PARSIPHAÉ
BRILHAM AS TREVAS
MEDRAM
OS 
DES
ASTROS
OS 
DE
SIDERIOS
DE TEU ATRO SANGRE






CICERO, Antonio. "FEDRA". In:_____. Porventura. Rio de Janeiro: Record, 2012.

26.7.20

Luc Ferry: "O casamento homossexual"


Ouçam as excelentes ideias que o grande pensador francês Luc Ferry expôs no Brasil, em 2019, no grande ciclo internacional de conferências Fronteiras do Pensamento:





24.7.20

Luís de Camões: "Busque Amor novas artes, novo engenho"




Busque Amor novas artes, novo engenho


Busque Amor novas artes, novo engenho,
Para matar me, e novas esquivanças;
Que não pode tirar me as esperanças,
Que mal me tirará o que eu não tenho.

Olhai de que esperanças me mantenho!
Vede que perigosas seguranças!
Que não temo contrastes nem mudanças,
Andando em bravo mar, perdido o lenho.

Mas, conquanto não pode haver desgosto
Onde esperança falta, lá me esconde
Amor um mal, que mata e não se vê;

Que dias há que n'alma me tem posto
Um não sei quê, que nasce não sei onde,
Vem não sei como, e dói não sei por quê.





CAMÕES, Luís de. "Busque Amor novas artes, novo engenho". In:_____. Lírica. Org. por Massaud Moisés. São Paulo: Cultrix, 1981.

22.7.20

Paul Celan: "Die Wind im Rücken" / "Com o vento pelas costas"




Com o vento pelas costas


Com o vento pelas costas
morro e apago-me
na grande monção –
é então que verdadeiramente vivo.




Den Wind im Rücken



Den Wind im Rücken,
sterb ich mich ein
in den Großpassat –
und lebe erst recht.







CELAN, Paul. "Den Wind im Rücken" / "Com o vento pelas costas". In:_____. A morte é uma flor. Poemas do espólio (Die Gedichte aus dem Nachlass). Trad. por João Barrento. Lisboa: Cotovia, 1998.






19.7.20

Luís Miguel Nava: "No fogo da memória"




No fogo da memória


Começa-se o silêncio a desenhar
nos interstícios da carne, a que se prendem
imagens que no fogo
lento da memória se apuraram
de dia para dia e que o passado
nos serve agora como uma iguaria.





NAVA, Luís Miguel. "No fogo da memória". In:_____. "O céu sob as entranhas". In:_____. Poesia completa -- 1979-1994. Organização e posfácio por Gastão Cruz. Lisboa: Com Quixote, 2002.


17.7.20

Lêdo Ivo: "Carta da Inglaterra"




Carta da Inglaterra

Abra sua porta
à imaginação.
Nenhum sonho fique
do lado de fora.

Caído o crepúsculo
sonhe e seja tudo,
rosa de mil pétalas
aberta na sombra.

Quem se multiplica
não sofre o vexame
de só ser um só.

Eis que o sol se esconde.
Múltiplo atravesso
as pontes de Londres.




IVO, Lêdo. "Carta da Inglaterra". In:_____. "Crepúsculo civil". In:_____. Poesia completa: 1940-2004. Rio de Janeiro: Topbooks, 2004.

16.7.20

Parada do Orgulho e Carnavais


Vejam, hoje, às 21h, as incríveis imagens das celebrações LGBTQIA do portfólio do fotógrafo e Mestre em Comunicação Pedro Stephan



14.7.20

Canção "Antigo verão", parceria de Arthur Nogueira e Antonio Cicero

Arthur Nogueira fez a canção "Antigo verão" a partir do poema do mesmo nome, do meu livro A cidade e os livros. Ouçam:







Segundo a mitologia grega, foi da espuma do mar da ilha de Citera que nasceu Afrodite, a deusa do amor. "O embarque para Citera" é o nome do seguinte quandro de Antoine Watteau:


11.7.20

Friedrich Hölderlin: "Die scheinheiligen Dichter" / "Os poetas hipócritas": trad. de Paulo Quintela




Os poetas hipócritas


Frios hipócritas, não faleis dos deuses!
Vós sois tão razoáveis! não acreditais em Hélios,
Nem no Tonante e no Deus do Mar;
A Terra está morta, quem quer agradecer-lhe? ─

Confiança, Deuses! pois ornais a canção,
Inda que dos vossos nomes a alma já se foi,
E quando é precisa uma grande palavra,
Mãe Natureza! é em ti que se pensa.






Die scheinheiligen Dichter


Ihr kalten Heuchler, sprecht von den Göttern nicht!
Ihr habt Verstand! ihr glaubt nicht an Helios,
Noch an den Donnerer und Meergott;
Todt ist die Erde, wer mag ihr danken? –


Getrost ihr Götter! zieret ihr doch das Lied,
Wenn schon aus euren Nahmen die Seele schwand,
Und ist ein großes Wort vonnöthen,
Mutter Natur! so gedenkt man deiner.







HÖLDERLIN, Friedrich. "Die schein heiligen Dichter" / "Os poetas hipócritas". In:_____. Hölderlin: Poemas. Org. e trad. de Paulo Quintela. Coimbra: Atlântida, 1959.

9.7.20

Wallace Stevens: "As you leave the room" / "Ao sair da sala: trad. por Paulo Henriques Britto




Ao sair da sala


Você fala  Diz: O caráter do agora não é
Esqueleto saído do estojo. Eu também não.

Aquele poema sobre o abacaxi, aquele
Sobre a mente sempre insatisfeita,

Aquele sobre o herói plausível, e o outro
Sobre o verão, não são pensamentos de esqueleto.

Terei eu vivido uma vida de esqueleto,
De um descrente da realidade,

Compatriota de todos os ossos do mundo?
Agora, aqui, a neve que eu esquecera se transforma

Em parte de uma realidade maior,
De uma apreciação de uma realidade,

Uma elevação, portanto, como se eu levasse,
Ao sair, algo palpável em todos os sentidos.

Porém nada mudou além do que é
Irreal, como se coisa alguma tivesse mudado.






As You Leave the Room


You speak. You say: Today’s character is not
A skeleton out of its cabinet. Nor am I.

That poem about the pineapple, the one
About the mind as never satisfied,

The one about the credible hero, the one
About summer, are not what skeletons think about.

I wonder, have I lived a skeleton’s life,
As a disbeliever in reality,

A countryman of all the bones in the world?
Now, here, the snow I had forgotten becomes

Part of a major reality, part of
An appreciation of a reality

And thus an elevation, as if I left
With something I could touch, touch every way.

And yet nothing has been changed except what is
Unreal, as if nothing had been changed at all.







STEVENS, Wallace. "As you leave the room" / "Ao sair da sala". In: _____. O imperador do sorvete e outros poemas / Wallce Stevens. Seleção, tradução, apresentação e notas por Paulo Henriques Britto. São Paulo: Companhia das Letras, 2017.


7.7.20

Vera Casa Nova: "Abraço em Waly"




Abraço em Waly

Essa memória do riso aberto...
Não me esqueço de lembrar
aquela gargalhada florida e louca na livraria.
A história não revela,
verso aponta:
os cristais clivados.
anos 70
nem nos babilaques.
Teus cabelos crespos
ondeando teu rosto quadrangular
falando de Salvador.
Quem não se amalgamou?
nessa seiva do logbook
desse lonesome cowboy baiano,
o delírio de um tabaréu
ecoa em mim
ad aeternum.

Até breve!





CASA NOVA, Vera. "Abraço em Waly". In: Casa Nova, Vera; Carmona, Kaio; Dolabela, Marcelo (orgs.). Entrelinhas, entremontes: versos contemporâneos mineiros. Belo Horizonte: Quixote + Do Editoras Associadas, 2020.

5.7.20

Diego Mendes Sousa: "Fanal do colo agônico"




Fanal do colo agônico


O passado e eu conjugamos
uma interrogação triste?

Paro,
a esperar que o tempo intimidado
olhe-me cara a cara
a fim de que renasça pasmado e luminoso.

Fico -- como um ausente sem endereço --
em uma rua escura de um outono febril
a ver ainda pássaros negros
no agônico coração amargo.

Sou -- mirando os meus labirintos em queda --
a cachoeira ruminando horizontes fantasmas
e esquecidos.
Eu e o passado,
triste exclamação conjugada!





SOUSA, Diego Mendes. "Fanal do colo agônico". In:_____. Fanais dos verdes luzeiros. Guaratinguetá, SP: Penalux, 2019.

3.7.20

Adriano Nunes: "Cantar é preciso"


Agradeço ao poeta Adriano Nunes por ter dedicado a mim o seguinte, belo poema:



Cantar é preciso

                  para Antonio Cicero

Cantar é preciso,
Ainda que seja
O vazio, o nada,
A tristeza, a perda,
O que quer que até
Alcance a cabeça.

Cantar e cantar,
Mesmo que depois
O existir se perca
Na eterna estranheza
Da cantiga, para
Que o agoral exerça

A sua potência
De luz, porque já
Pouquíssimo importa
Senão cantar. Canta!
Canta a lida quântica,
A que vinga, íntima.

Cantar é preciso,
Ainda que seja
O vácuo, o não-ser,
O pesar à espreita,
O que quer que até
Confunda a cabeça.


1.7.20

David Mourão-Ferreira: "Soneto do cativo"




Soneto do cativo


Se é sem dúvida Amor esta explosão
De tantas sensações contraditórias;
A sórdida mistura das memórias,
Tão longe da verdade e da invenção;

O espelho deformante; a profusão
De frases insensatas, incensórias;
A cúmplice partilha nas histórias
Do que os outros dirão ou não dirão;

Se é sem dúvida Amor a cobardia
De buscar nos lençóis a mais sombria
Razão de encantamento e de desprezo;

Não há dúvida, Amor, que te não fujo
E que, por ti, tão cego, surdo e sujo,
Tenho vivido eternamente preso!





MOURÃO-FERREIRA, David. "Soneto do cativo". In: BERARDINELLI, Cleonice (org.). Cinco séculos de sonetos portugueses, de Camões a Fernando Pessoa. Rio de Janeiro: Casa da Plavra,k 2013.

28.6.20

Rodrigo Garcia Lopes: "Enquanto"






Enquanto

Língua, estranha viagem
por paraísos perdidos, esperantos,
sendas, cantilenas
de templos escondidos
à beira-mar
na mata densa, enquanto
em estado de pensamento
a paisagem se evapora
num eu que é quase silêncio
brecha entre o que foi
e o que será
tempo dentro de tempo
vestígios da noite derruída
vertigens pelas trilhas de luz
outro outono e seus gestos
claros e secretos
enquanto flores de linguagem
caem em nossos pés





LOPES, Rodrigo Garcia. "Enquanto". In:_____.  Estúdio realidade. Rio de Janeiro: 7 Letras, 2013.

25.6.20

Luís Miguel Nava: "Poema inicial"




Poema inicial

Poder-me-ão entender todos aqueles
de quem o coração for a roldana
do poço que lhes desce na memória.

Se alguma coisa vi foi com o sangue.
De alguém a quem o sangue serviu de olhos poderá
falar quem o fizer de mim.





NAVA, Luís Miguel. "Poema inicial". In:_____. "Rebentação". In:_____. Poesia completa 1979-1994. Org. por Gastão Cruz. Lisboa: Dom Quixote, 2002.

23.6.20

Afrânio Peixoto: "Na poça da lama"




Na poça da lama


Na poça da lama
Como no divino céu
Também passa a lua.





PEIXOTO, Afrânio. "Na poça da lama". In: CALCANHOTTO, Adriana (org.). Haicai do Brasil. Rio de Janeiro: Edições de Janeiro, 2014.

21.6.20

Caio Meira: III







III

Escrevo essas palavras de pau duro, na esperança
de encorpá-las ou dar a elas mais carnadura e
alguma veia inflamada. Ou ainda: que
a ereção (da qual sou sujeito apenas
transitório) não seja mais meu atributo,
tampouco o alongamento de qualquer das 
                                                             [vontades
que me animam, mas que lhes dê a gota
que falta ao transbordamento e o vigor para
se lançarem de si mesmas. Nesse elã, uma
expansão em busca da pandora emaranhada
entre tecidos e cordames e novelos.





MEIRA, Caio. III. In:_____. "Fenomenologia para a ereção". In:_____. Romance. Rio de Janeiro: Circuito, 2013.      

18.6.20

Antonio Cicero: "Cidade"





Cidade
Para Arthur Nestrovsky

Lembro que o futuro era uma cidade
nebulosa da qual eu esperava
tudo e que, sendo uma cidade, nada
esperava de ninguém. Ah, cidade
sonhada de avenidas macadâmicas,
turbas febris e prédios de granito:
o que era que eu perdera e que, perdido
e em cacos, buscava nas tuas áridas
calçadas e esquinas? Hoje constato
que a névoa do futuro do passado
adensa-se dia a dia. De longe
teus contornos são mais arredondados.
Tu, cidade irreal, aos poucos somes:
já anseio te rever e já te escondes.






CICERO, Antonio. "Cidade". In: Porventura. Rio de Janeiro: Record, 2012.

15.6.20

Antonio Carlos Secchin: "Receita de poema"




Receita de poema


Um poema que desaparecesse
à medida que fosse nascendo,
e que dele nada então restasse
senão o silêncio de estar não sendo.

Que nele apenas ecoasse
o som do vazio mais pleno.
E depois que tudo matasse
morresse do próprio veneno.





SECCHIN, Antonio Carlos. "Receita de poema". In:_____. Hálito das pedras. (Série "Item de Colecionador" - coordenada por Diego Mendes Sousa). Gurantinguetá: Penalux, 2019.

12.6.20

Arnaldo Antunes: "Olho o olho do outro"






Olho o olho do outro,
penso o que ele pensa.
Voltar a mim é a minha 
diferença.

Olho o ralo até turvá-lo,
penso que ele não pensa.
Ir com a água é a minha 
recompensa.





ANTUNES, Arnaldo. "Olho o olho do outro". In:_____. de Psia (1986). In:_____. Como é que chama o nome disso. Antologia. São Paulo: Publifolha, 2006.

8.6.20

Moacyr Félix: "Havia"




Havia


Havia um Deus de costas, nu e sobre o lustre
na sala mais íntima das minhas almas.
Chamei-o pelo nome. E ele dissolveu-se
no espaço agora definido pelo corpo
da minha natureza a celebrar desejos
não mais divinos porque imensamente humanos.

A vida se liberta ao libertar o fogo
maior que o medo de dar nome aos deuses.
Chega de fantasmas! Vamos ficar nus, vamos ser
inteiramente o corpo que somos
porque é no chão sem fim do que é o desejo
que o universo planta em nós a sua voz. E mora.





FÉLIX, Moacyr. "Havia". In:_____. Em nome da vida. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1981.

5.6.20

Heinrich Heine: "Und bist du erst mein ehlich Weib" / "Quando eu te desposar, teus dias"




Quando eu te desposar, teus dias


Quando eu te desposar, teus dias
     Serão dignos de invejas;
Desfrutarás mil alegrias
     E ociosidade régia.

Hei de perdoar-te mau humor,
     E queixas mas -- é claro –
Se não cobrires de louvor
     Meu verso, eu me separo.




Und bist du erst mein ehlich Weib


Und bist du erst mein ehlich Weib,
     Dann bist du zu beneiden,
Dann lebst du in lauter Zeitvertreib,
     In lauter Pläsier und Freuden.

Und wenn du schiltst und wenn du tobst,
     Ich werd es geduldig leiden;
Doch wenn du meine Verse nicht lobst,
     Laß ich mich von dir scheiden.





HEINE, Heinrich. "Und bist du erst mein ehlich Weib" / "Quando eu te desposar". In: ASCHER, Nelson (trad. e org.). Poesia alheia. 124 poemas traduzidos. Rio de Janeiro: Imago, 1998

3.6.20

Ferreira Gullar: "Off price"




Off price


Que a sorte me livre do mercado
e que me deixe
continuar fazendo (sem o saber)
                fora de esquema
                meu poema
inesperado

                 e que eu possa
                 cada vez mais desaprender
                 de pensar o pensado
e assim poder
reinventar o certo pelo errado




GULLAR, Ferreira. "Off price". In:_____. Em alguma parte alguma. Rio de Janeiro: José Olympio, 2010.

30.5.20

Lêdo Ivo: "A palavra final"




A palavra final


Falo como as plantas.
Digo como as pedras.

Clamo como o réptil,
o miasma e o verme.

Quantas vozes tenho
quando estou calado?

Meu silêncio é a voz
vinda do outro lado

onde a escuridão
dispensa as palavras

a fala espantada
de quem sabe e cala.




IVO, Lêdo. "A palavra final". In:_____. "Crepúsculo civil". In:_____. Poesia completa 1940-2004. Rio de Janeiro: Topbooks, 2004.

28.5.20

Adriano Nunes: "Nesses instantes dispersos"



Sendo hoje aniversário do querido amigo Adriano Nunes, resolvi aqui postar um dos belíssimos poemas do seu e-book Escombros do Infinito, que foi lançado pela Amazon.





Nesses instantes dispersos




Madrugada. Outros versos

Vazam do báratro infindo

Do ser. Sonhos vão fluindo...

São vários, vivos, diversos!



Viver vem-nos diluindo

Nesses instantes dispersos

Em que nos vemos imersos

Na dor, na alegria... Indo,



À tez dos acasos, para

A plenitude mais clara

Do fenomênico mundo.



Madrugada. Quem repara

Que em mim tudo fere fundo

E sangra, neste segundo?




NUNES, Adriano. "Nesses instantes dispersos". In:_____. Escombros do Infinito. Amazon: e-book Kindle, 2020.

27.5.20

Poesia: Um Bando de Gente



É hoje! Os poetas Ricardo Silvestrin, Laís Araruna de Aquino, Mônica de Aquino, Tito Leite e eu leremos alguns de nossos poemas, às 20h, no You Tube e no Instagram!





26.5.20

Rainer Maria Rilke: "Initiale" / "Inicial": trad. de Augusto de Campos




Inicial

Deixe a sua beleza se mostrar
sem cálculo e sem fala.
Ela diz por você: eu sou. Você se cala.
E ela se manifesta de mil modos
e enfim atinge a todos.






Initiale

Gieb deine Schönheit immer hin
ohne Rechnen und Reden.
Du schweigst. Sie sagt für dich: Ich bin.
Und kommt in tausendfachem Sinn,
kommt endlich |über jeden.





RILKE, Rainer Maria. "Initiale" / "Inicial". In: CAMPOS, Augusto de (org. e trad.). Coisas e anjos de Rilke. São Paulo: Perspectiva, 2013. 

24.5.20

Carlos Cardoso: "Folhas secas"




Folhas secas


Folhas desabam de seus galhos
lentas e suaves tocam o chão,

folhas secas tão próprias
que paro e observo a mudança
do tom e do tempo a serem tomados
por sua beleza.

Certeza, nenhuma.

Estilhaços de suposições,
vários.

Essa é a rua que habito
lindas árvores
mar batendo nas pedras
folhas e silêncio a me intrigarem
decifram a beleza
em sua possível morte.

Mar batendo
nas pedras ao norte.





CARDOSO, Carlos. "Folhas secas". In:_____. Melancolia. Rio de Janeiro: Record, 2019.

21.5.20

Constantinos Caváfis: "Coisas pintadas": trad. de Ísis Borges da Fonseca





Coisas pintadas


Por meu trabalho zelo, e a ele quero bem.
Mas a lentidão da composição hoje me desanima.
O dia influiu sobre mim. Seu aspecto
torna-se continuamente sombrio. Sem cessar venta e chove. Mais desejo olhar que falar.
Nesta pintura vejo agora
um belo rapaz que, perto da fonte,
se estendeu, depois de ter-se cansado talvez de correr.
Que belo menino! Que divino meio-dia
já o arrebatou para adormecê-lo! -
Fico a olhar assim por muito tempo.
E, dentro da arte novamente, descanso de sua labuta.






CAVÁFIS, Constantinos. "Coisas pintadas". In:_____. Poemas de K. Kavávis. Trad. de Ísis Borges da Fonseca. São Paulo: Odysseus Editora, 2006.

15.5.20

Waly Salomão: "RIO(COLOQUIAL-MODERNISTA).DOC"




RIO(COLOQUIAL-MODERNISTA).DOC



O deus que banha o Rio de Janeiro

fica murrinha nos dias sem sol.

Mas é só o sol brilhar:

o Rio arreganha suas sem-vergonhas,

e o deus experimenta

novíssimas aptidões

para o prazer.



Aí o deus e o Rio se esparramam no tempo,

sem ziquiziras.






SALOMÃO, Waly. "RIO(COLOQUIAL-MODERNISTA).DOC". In:_____. "Algaravias: câmara de ecos". In:_____. Poesia total. São Paulo: Companhia das Letras, 2014.

11.5.20

Armando Freitas Filho: "Escrever é riscar o fósforo"




23


Escrever é riscar o fósforo
e sob seu pequeno clarão
dar asas ao ar – distância, destino
segurando a chama contra
a desatenção do vento, mantendo
a luz acesa, mesmo que o pensamento
pisque, até que os dedos se queimem.





FREITAS FILHO,  Armando. 23: "Escrever é riscar o fósforo". In:_____. "Numeral". In:_____.  Máquina de escrever: poesia reunida e revista. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2003.

9.5.20

Antoine Emaz: "Lie, 4" / "Borra, 4": trad. por Júlio Castañon Guimarães




Borra, 4 (25.07.06)


enfim o vento
de verdade
no azul do verão
o ar
o frescor na pele e nas telhas
após dias
enfim

dias escaldantes
corpo dessorado

andava-se
em uma massa mole quente
para avançar
se empurrava o ar

no jardim raso amarelo seco






Lie, 4 (25.07.06)


enfin le vent
vrai
dans le bleu de l’été
l’air
le frais sur la peau et les tuiles
après des jours
enfin

jours plombés
corps essoré

on marchait
dans une masse molle chaude
pour avancer
on poussait l’air

dans le jardin ras jaune sec







EMAZ, Antoine. "Lie, 4" (25.07.06) / "Borra, 4" (25.07.06). In:_____. Lama, pele. Trad. por Júlio Castañon Guimarães. Rio de Janeiro: 7 Letras, 2012.





7.5.20

Antonio Carlos Secchin: "Biografia"




Biografia


O poema vai nascendo
num passo que desafia:
numa hora eu já o levo,
outra vez ele me guia.

O poema vai nascendo,
mas seu corpo é prematuro,
letra lenta que incendeia
com a carícia de um murro.

O poema vai nascendo
sem mão ou mãe que o sustente,
e perverso me contradiz
insuportavelmente.

Jorro que engole e segura
o pedaço duro do grito,
o poema vai nascendo,
pombo de pluma e granito.






SECCHIN, Antonio Carlos. "Biografia". In:_____. Hálito das pedras. Antologia selecionada e organizada por Diego Mendes Sousa. Guartinguetá: Penalux, 2019.

5.5.20

Paula Lavigne: "Carta à imprensa e a quem mais interessar"

Publico a seguir uma importante carta da Paula Lavigne sobre a ameaça que paira sobre os compositores brasileiros a partir da emenda apresentada pelo deputado Felipe Carreras à MP 948/2020. 


CARTA À IMPRENSA E A QUEM MAIS INTERESSAR
Publicada em 05/05/2020

por Paula Lavigne
Presidente da Associação Procure Saber

Os direitos autorais dos autores e compositores brasileiros e de seus colegas do mundo inteiro estão ameaçados pelos violentos ataques promovidos pelo deputado Felipe Carreras, por razões de seu  interesse pessoal e em benefício de promotores de eventos que obtêm altos lucros  em suas  atividades comerciais. Sem autores não haveria música e sem música não haveria artista para interpretá-la, nem promotores de eventos. Sem essa cadeia criativa da música, eles sequer existiriam.

A Constituição Brasileira assegura aos autores o direito exclusivo de autorizar ou proibir o uso de suas composições. Além das garantias que as leis brasileiras oferecem, vários tratados internacionais que o Brasil assinou estabelecem regras de cumprimento obrigatório, que estão sendo violadas pela emenda à MP 948. Os Direitos autorais, não se inserem apenas entre os tratados de Direitos Humanos e de propriedade intelectual. Por sua importância para a economia dos países, especialmente a dos países que produzem cultura, como é o caso do Brasil, os direitos autorais passaram a ser considerados por esses aspectos comerciais. A proteção dos direitos dos autores no mundo está, portanto, presente em tratados comerciais administrados pela Organização Mundial do Comércio, como o TRIPS, de qual o Brasil é membro, já tendo manifestado, inclusive, seu interesse de fazer parte da OCDE. 

A emenda do deputado Felipe Carreras não é permitida por esses  mecanismos internacionais comerciais, causando amplos e incontáveis prejuízos ao Brasil e aos autores e compositores nacionais e estrangeiros, podendo significar efeitos catastróficos, como a paralização dos pagamentos aos autores brasileiros em todos os países, como medida de retaliação.

O ECAD, no Brasil, representa todos os autores nacionais e estrangeiros frente às empresas de promoção de eventos e outros usuários que exploram as suas músicas. Deixar de pagar a quem se deve, usando de subterfúgios para obter vantagens  é uma das características de uma prática conhecida como “enriquecimento sem causa”. Não cabe aos devedores dos autores repassar suas obrigações para os artistas que as interpretam e muito menos colocar preço no que não lhe pertence.



4.5.20

Antonio Cicero: "As livrarias"




As livrarias

                                                                        para Alberto Mathias

Ia ao centro da cidade
e me achava em livrarias,
livros, páginas, Bagdad,
Londres, Rio, Alexandria:

Que cidade foi aquela
em que me sonhei perder
e antes disso acontecer
aconteceu-me perdê-la?





CICERO, Antonio. "As livrarias". In:_____. A cidade e os livros. Rio de Janeiro: Record, 2002.

1.5.20

Angela Melim: "Uma casa no ar"




Uma casa no ar
é a minha:
vejo do alto
casas antigas, panos ao vento, a luz do mundo
– o verão no Rio –
e sou feliz.

Poeta:
verde e sol
me atravessam.

Fotossintética
clorofílica
transparente

puro ar puro, moro aqui.





MELIM, Angela. "Uma casa no ar". In:_____. Possibilidades. Rio de Janeiro: Ibis Libris, 2006.

29.4.20

Link para o ensaio "A casa e o voo do pássaro", de Pedro Duarte




Gostei muito do ensaio “A casa e o voo do pássaro”, do Pedro Duarte, que se encontra no blog “Pensar o tempo”, da Editora Bazar do Tempo. É verdade que o ensaio termina com um trecho do meu poema “Guardar”, o que me deixou muito contente. Mas estejam certos de que não é por causa desse final que o recomendo aqui, mas porque se trata de um texto muito interessante e muito oportuno. Seu endereço, no blog da Bazar do Tempo é: https://bazardotempo.com.br/1562-2/.  Deem uma olhada!

Antonio Cicero


28.4.20

Murilo Mendes: "As ruínas de Selinunte"





As ruínas de Selinunte


Correspondendo a fragmentos de astros,
A corpos transviados de gigantes,
A formas elaboradas no futuro,
Severas tombando
Sobre o mar em linha azul, as ruínas
Severas tombando
Compõem, dóricas, o céu largo.
Severas se erguendo,
Procuram-se, organizam-se,
Em forma teatral suscitam o deus
Verticalmente, horizontalmente.

Nossa medida de humanos
– Medida desmesurada –
Em Selinunte se exprime:
Para a catástrofe, em busca
Da sobrevivência, nascemos.




MENDES, Murilo. "As ruínas de Selinunte". In:_____. "Siciliana". In:_____. Poesia completa e prosa. Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 1994.

26.4.20

Giuseppe Ungaretti: "Rosso e azzurro" / "Vermelho e azul": trad. por Geraldo Holanda Cavalcanti




Vermelho e azul


Esperei que vos alçastes,
Cores do amor,
E eis que desvelais uma infância de céu.

Entrega a mais bela rosa sonhada.




Rosso e azzurro


Ho atteso che vi alzaste,
Colori dell’amore,
E ora svelate un’infanzia di cielo.

Porge la rosa più bella sognata.




UNGARETTI,  Giuseppe. "Rosso e azzurro" / "Vermelho e azul". In:_____. Poemas. Org. e trad. por Geraldo Holanda Cavalcanti. São Paulo: USP, 2017.

24.4.20

William Shakespeare: Sonnet 57 / Soneto 57: trad. de Adriano Nunes




Soneto 57


Servo de ti, farei o que senão
Zelar por se cumprir tua vontade?
Não tenho excelso tempo a ser em vão,
Nem ofício a fazer que não te agrade.
Sequer censuro a hora que é infinda
Ao cuidar,  meu senhor, do tempo teu,
Nem penso co' amargor a ausência advinda
Quando ao servo teu deste outro adeus.
Nem ouso sob ciúmes perguntar
Onde estarás ou quais os teus negócios,
E espero, triste servo, co' o pensar
Que feliz é quem frui contigo os ócios.
  Como tolo o amor é, que em teu querer,
  No que possas fazer, mal algum vê.




Sonnet 57


Being your slave what should I do but tend,
Upon the hours, and times of your desire?
I have no precious time at all to spend,
Nor services to do, till you require.
Nor dare I chide the world-without-end hour,
Whilst I, my sovereign, watch the clock for you,
Nor think the bitterness of absence sour
When you have bid your servant once adieu;
Nor dare I question with my jealous thought
Where you may be, or your affairs suppose,
But, like a sad slave, stay and think of nought
Save, where you are, how happy you make those.
  So true a fool is love, that in your will,
  Though you do anything, he thinks no ill.






SHAKESPEARE, William. Sonnet 57 / Soneto 57. In:_____. The Sonnets and a Lover's complaint. Org. por John Kerrigan. London: Penguin, 2009.

21.4.20

Manuel Bandeira: "Cantiga"




Cantiga


Nas ondas da praia
Nas ondas do mar
Quero ser feliz
Quero me afogar.

Nas ondas da praia
Quem vem me beijar?
Quero a estrela-d'alva
Rainha do mar.

Quero ser feliz
Na ondas do mar
Quero esquecer tudo
Quero descansar.





BANDEIRA, Manuel. "Cantiga". In:_____. "Estrela da manhã". In: Poesia completa e prosa. Rio de Janeiro: José Aguilar, 1967.