11.7.20

Friedrich Hölderlin: "Die schein heiligen Dichter" / "Os poetas hipócritas": trad. de Paulo Quintela




Os poetas hipócritas


Frios hipócritas, não faleis dos deuses!
Vós sois tão razoáveis! não acreditais em Hélios,
Nem no Tonante e no Deus do Mar;
A Terra está morta, quem quer agradecer-lhe? ─

Confiança, Deuses! pois ornais a canção,
Inda que dos vossos nomes a alma já se foi,
E quando é precisa uma grande palavra,
Mãe Natureza! é em ti que se pensa.






Die schein heiligen Dichter


Ihr kalten Heuchler, sprecht von den Göttern nicht!
Ihr habt Verstand! ihr glaubt nicht an Helios,
Noch an den Donnerer und Meergott;
Todt ist die Erde, wer mag ihr danken? –


Getrost ihr Götter! zieret ihr doch das Lied,
Wenn schon aus euren Nahmen die Seele schwand,
Und ist ein großes Wort vonnöthen,
Mutter Natur! so gedenkt man deiner.







HÖLDERLIN, Friedrich. "Die schein heiligen Dichter" / "Os poetas hipócritas". In:_____. Hölderlin: Poemas. Org. e trad. de Paulo Quintela. Coimbra: Atlântida, 1959.

9.7.20

Wallace Stevens: "As you leave the room" / "Ao sair da sala: trad. por Paulo Henriques Britto




Ao sair da sala


Você fala  Diz: O caráter do agora não é
Esqueleto saído do estojo. Eu também não.

Aquele poema sobre o abacaxi, aquele
Sobre a mente sempre insatisfeita,

Aquele sobre o herói plausível, e o outro
Sobre o verão, não são pensamentos de esqueleto.

Terei eu vivido uma vida de esqueleto,
De um descrente da realidade,

Compatriota de todos os ossos do mundo?
Agora, aqui, a neve que eu esquecera se transforma

Em parte de uma realidade maior,
De uma apreciação de uma realidade,

Uma elevação, portanto, como se eu levasse,
Ao sair, algo palpável em todos os sentidos.

Porém nada mudou além do que é
Irreal, como se coisa alguma tivesse mudado.






As You Leave the Room


You speak. You say: Today’s character is not
A skeleton out of its cabinet. Nor am I.

That poem about the pineapple, the one
About the mind as never satisfied,

The one about the credible hero, the one
About summer, are not what skeletons think about.

I wonder, have I lived a skeleton’s life,
As a disbeliever in reality,

A countryman of all the bones in the world?
Now, here, the snow I had forgotten becomes

Part of a major reality, part of
An appreciation of a reality

And thus an elevation, as if I left
With something I could touch, touch every way.

And yet nothing has been changed except what is
Unreal, as if nothing had been changed at all.







STEVENS, Wallace. "As you leave the room" / "Ao sair da sala". In: _____. O imperador do sorvete e outros poemas / Wallce Stevens. Seleção, tradução, apresentação e notas por Paulo Henriques Britto. São Paulo: Companhia das Letras, 2017.


7.7.20

Vera Casa Nova: "Abraço em Waly"




Abraço em Waly

Essa memória do riso aberto...
Não me esqueço de lembrar
aquela gargalhada florida e louca na livraria.
A história não revela,
verso aponta:
os cristais clivados.
anos 70
nem nos babilaques.
Teus cabelos crespos
ondeando teu rosto quadrangular
falando de Salvador.
Quem não se amalgamou?
nessa seiva do logbook
desse lonesome cowboy baiano,
o delírio de um tabaréu
ecoa em mim
ad aeternum.

Até breve!





CASA NOVA, Vera. "Abraço em Waly". In: Casa Nova, Vera; Carmona, Kaio; Dolabela, Marcelo (orgs.). Entrelinhas, entremontes: versos contemporâneos mineiros. Belo Horizonte: Quixote + Do Editoras Associadas, 2020.

5.7.20

Diego Mendes Sousa: "Fanal do colo agônico"




Fanal do colo agônico


O passado e eu conjugamos
uma interrogação triste?

Paro,
a esperar que o tempo intimidado
olhe-me cara a cara
a fim de que renasça pasmado e luminoso.

Fico -- como um ausente sem endereço --
em uma rua escura de um outono febril
a ver ainda pássaros negros
no agônico coração amargo.

Sou -- mirando os meus labirintos em queda --
a cachoeira ruminando horizontes fantasmas
e esquecidos.
Eu e o passado,
triste exclamação conjugada!





SOUSA, Diego Mendes. "Fanal do colo agônico". In:_____. Fanais dos verdes luzeiros. Guaratinguetá, SP: Penalux, 2019.

3.7.20

Adriano Nunes: "Cantar é preciso"


Agradeço ao poeta Adriano Nunes por ter dedicado a mim o seguinte, belo poema:



Cantar é preciso

                  para Antonio Cicero

Cantar é preciso,
Ainda que seja
O vazio, o nada,
A tristeza, a perda,
O que quer que até
Alcance a cabeça.

Cantar e cantar,
Mesmo que depois
O existir se perca
Na eterna estranheza
Da cantiga, para
Que o agoral exerça

A sua potência
De luz, porque já
Pouquíssimo importa
Senão cantar. Canta!
Canta a lida quântica,
A que vinga, íntima.

Cantar é preciso,
Ainda que seja
O vácuo, o não-ser,
O pesar à espreita,
O que quer que até
Confunda a cabeça.


1.7.20

David Mourão-Ferreira: "Soneto do cativo"




Soneto do cativo


Se é sem dúvida Amor esta explosão
De tantas sensações contraditórias;
A sórdida mistura das memórias,
Tão longe da verdade e da invenção;

O espelho deformante; a profusão
De frases insensatas, incensórias;
A cúmplice partilha nas histórias
Do que os outros dirão ou não dirão;

Se é sem dúvida Amor a cobardia
De buscar nos lençóis a mais sombria
Razão de encantamento e de desprezo;

Não há dúvida, Amor, que te não fujo
E que, por ti, tão cego, surdo e sujo,
Tenho vivido eternamente preso!





MOURÃO-FERREIRA, David. "Soneto do cativo". In: BERARDINELLI, Cleonice (org.). Cinco séculos de sonetos portugueses, de Camões a Fernando Pessoa. Rio de Janeiro: Casa da Plavra,k 2013.

28.6.20

Rodrigo Garcia Lopes: "Enquanto"






Enquanto

Língua, estranha viagem
por paraísos perdidos, esperantos,
sendas, cantilenas
de templos escondidos
à beira-mar
na mata densa, enquanto
em estado de pensamento
a paisagem se evapora
num eu que é quase silêncio
brecha entre o que foi
e o que será
tempo dentro de tempo
vestígios da noite derruída
vertigens pelas trilhas de luz
outro outono e seus gestos
claros e secretos
enquanto flores de linguagem
caem em nossos pés





LOPES, Rodrigo Garcia. "Enquanto". In:_____.  Estúdio realidade. Rio de Janeiro: 7 Letras, 2013.

25.6.20

Luís Miguel Nava: "Poema inicial"




Poema inicial

Poder-me-ão entender todos aqueles
de quem o coração for a roldana
do poço que lhes desce na memória.

Se alguma coisa vi foi com o sangue.
De alguém a quem o sangue serviu de olhos poderá
falar quem o fizer de mim.





NAVA, Luís Miguel. "Poema inicial". In:_____. "Rebentação". In:_____. Poesia completa 1979-1994. Org. por Gastão Cruz. Lisboa: Dom Quixote, 2002.

23.6.20

Afrânio Peixoto: "Na poça da lama"




Na poça da lama


Na poça da lama
Como no divino céu
Também passa a lua.





PEIXOTO, Afrânio. "Na poça da lama". In: CALCANHOTTO, Adriana (org.). Haicai do Brasil. Rio de Janeiro: Edições de Janeiro, 2014.

21.6.20

Caio Meira: III







III

Escrevo essas palavras de pau duro, na esperança
de encorpá-las ou dar a elas mais carnadura e
alguma veia inflamada. Ou ainda: que
a ereção (da qual sou sujeito apenas
transitório) não seja mais meu atributo,
tampouco o alongamento de qualquer das 
                                                             [vontades
que me animam, mas que lhes dê a gota
que falta ao transbordamento e o vigor para
se lançarem de si mesmas. Nesse elã, uma
expansão em busca da pandora emaranhada
entre tecidos e cordames e novelos.





MEIRA, Caio. III. In:_____. "Fenomenologia para a ereção". In:_____. Romance. Rio de Janeiro: Circuito, 2013.      

18.6.20

Antonio Cicero: "Cidade"





Cidade
Para Arthur Nestrovsky

Lembro que o futuro era uma cidade
nebulosa da qual eu esperava
tudo e que, sendo uma cidade, nada
esperava de ninguém. Ah, cidade
sonhada de avenidas macadâmicas,
turbas febris e prédios de granito:
o que era que eu perdera e que, perdido
e em cacos, buscava nas tuas áridas
calçadas e esquinas? Hoje constato
que a névoa do futuro do passado
adensa-se dia a dia. De longe
teus contornos são mais arredondados.
Tu, cidade irreal, aos poucos somes:
já anseio te rever e já te escondes.






CICERO, Antonio. "Cidade". In: Porventura. Rio de Janeiro: Record, 2012.

15.6.20

Antonio Carlos Secchin: "Receita de poema"




Receita de poema


Um poema que desaparecesse
à medida que fosse nascendo,
e que dele nada então restasse
senão o silêncio de estar não sendo.

Que nele apenas ecoasse
o som do vazio mais pleno.
E depois que tudo matasse
morresse do próprio veneno.





SECCHIN, Antonio Carlos. "Receita de poema". In:_____. Hálito das pedras. (Série "Item de Colecionador" - coordenada por Diego Mendes Sousa). Gurantinguetá: Penalux, 2019.

12.6.20

Arnaldo Antunes: "Olho o olho do outro"






Olho o olho do outro,
penso o que ele pensa.
Voltar a mim é a minha 
diferença.

Olho o ralo até turvá-lo,
penso que ele não pensa.
Ir com a água é a minha 
recompensa.





ANTUNES, Arnaldo. "Olho o olho do outro". In:_____. de Psia (1986). In:_____. Como é que chama o nome disso. Antologia. São Paulo: Publifolha, 2006.

8.6.20

Moacyr Félix: "Havia"




Havia


Havia um Deus de costas, nu e sobre o lustre
na sala mais íntima das minhas almas.
Chamei-o pelo nome. E ele dissolveu-se
no espaço agora definido pelo corpo
da minha natureza a celebrar desejos
não mais divinos porque imensamente humanos.

A vida se liberta ao libertar o fogo
maior que o medo de dar nome aos deuses.
Chega de fantasmas! Vamos ficar nus, vamos ser
inteiramente o corpo que somos
porque é no chão sem fim do que é o desejo
que o universo planta em nós a sua voz. E mora.





FÉLIX, Moacyr. "Havia". In:_____. Em nome da vida. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1981.

5.6.20

Heinrich Heine: "Und bist du erst mein ehlich Weib" / "Quando eu te desposar, teus dias"




Quando eu te desposar, teus dias


Quando eu te desposar, teus dias
     Serão dignos de invejas;
Desfrutarás mil alegrias
     E ociosidade régia.

Hei de perdoar-te mau humor,
     E queixas mas -- é claro –
Se não cobrires de louvor
     Meu verso, eu me separo.




Und bist du erst mein ehlich Weib


Und bist du erst mein ehlich Weib,
     Dann bist du zu beneiden,
Dann lebst du in lauter Zeitvertreib,
     In lauter Pläsier und Freuden.

Und wenn du schiltst und wenn du tobst,
     Ich werd es geduldig leiden;
Doch wenn du meine Verse nicht lobst,
     Laß ich mich von dir scheiden.





HEINE, Heinrich. "Und bist du erst mein ehlich Weib" / "Quando eu te desposar". In: ASCHER, Nelson (trad. e org.). Poesia alheia. 124 poemas traduzidos. Rio de Janeiro: Imago, 1998

3.6.20

Ferreira Gullar: "Off price"




Off price


Que a sorte me livre do mercado
e que me deixe
continuar fazendo (sem o saber)
                fora de esquema
                meu poema
inesperado

                 e que eu possa
                 cada vez mais desaprender
                 de pensar o pensado
e assim poder
reinventar o certo pelo errado




GULLAR, Ferreira. "Off price". In:_____. Em alguma parte alguma. Rio de Janeiro: José Olympio, 2010.

30.5.20

Lêdo Ivo: "A palavra final"




A palavra final


Falo como as plantas.
Digo como as pedras.

Clamo como o réptil,
o miasma e o verme.

Quantas vozes tenho
quando estou calado?

Meu silêncio é a voz
vinda do outro lado

onde a escuridão
dispensa as palavras

a fala espantada
de quem sabe e cala.




IVO, Lêdo. "A palavra final". In:_____. "Crepúsculo civil". In:_____. Poesia completa 1940-2004. Rio de Janeiro: Topbooks, 2004.

28.5.20

Adriano Nunes: "Nesses instantes dispersos"



Sendo hoje aniversário do querido amigo Adriano Nunes, resolvi aqui postar um dos belíssimos poemas do seu e-book Escombros do Infinito, que foi lançado pela Amazon.





Nesses instantes dispersos




Madrugada. Outros versos

Vazam do báratro infindo

Do ser. Sonhos vão fluindo...

São vários, vivos, diversos!



Viver vem-nos diluindo

Nesses instantes dispersos

Em que nos vemos imersos

Na dor, na alegria... Indo,



À tez dos acasos, para

A plenitude mais clara

Do fenomênico mundo.



Madrugada. Quem repara

Que em mim tudo fere fundo

E sangra, neste segundo?




NUNES, Adriano. "Nesses instantes dispersos". In:_____. Escombros do Infinito. Amazon: e-book Kindle, 2020.

27.5.20

Poesia: Um Bando de Gente



É hoje! Os poetas Ricardo Silvestrin, Laís Araruna de Aquino, Mônica de Aquino, Tito Leite e eu leremos alguns de nossos poemas, às 20h, no You Tube e no Instagram!





26.5.20

Rainer Maria Rilke: "Initiale" / "Inicial": trad. de Augusto de Campos




Inicial

Deixe a sua beleza se mostrar
sem cálculo e sem fala.
Ela diz por você: eu sou. Você se cala.
E ela se manifesta de mil modos
e enfim atinge a todos.






Initiale

Gieb deine Schönheit immer hin
ohne Rechnen und Reden.
Du schweigst. Sie sagt für dich: Ich bin.
Und kommt in tausendfachem Sinn,
kommt endlich |über jeden.





RILKE, Rainer Maria. "Initiale" / "Inicial". In: CAMPOS, Augusto de (org. e trad.). Coisas e anjos de Rilke. São Paulo: Perspectiva, 2013. 

24.5.20

Carlos Cardoso: "Folhas secas"




Folhas secas


Folhas desabam de seus galhos
lentas e suaves tocam o chão,

folhas secas tão próprias
que paro e observo a mudança
do tom e do tempo a serem tomados
por sua beleza.

Certeza, nenhuma.

Estilhaços de suposições,
vários.

Essa é a rua que habito
lindas árvores
mar batendo nas pedras
folhas e silêncio a me intrigarem
decifram a beleza
em sua possível morte.

Mar batendo
nas pedras ao norte.





CARDOSO, Carlos. "Folhas secas". In:_____. Melancolia. Rio de Janeiro: Record, 2019.

21.5.20

Constantinos Caváfis: "Coisas pintadas": trad. de Ísis Borges da Fonseca





Coisas pintadas


Por meu trabalho zelo, e a ele quero bem.
Mas a lentidão da composição hoje me desanima.
O dia influiu sobre mim. Seu aspecto
torna-se continuamente sombrio. Sem cessar venta e chove. Mais desejo olhar que falar.
Nesta pintura vejo agora
um belo rapaz que, perto da fonte,
se estendeu, depois de ter-se cansado talvez de correr.
Que belo menino! Que divino meio-dia
já o arrebatou para adormecê-lo! -
Fico a olhar assim por muito tempo.
E, dentro da arte novamente, descanso de sua labuta.






CAVÁFIS, Constantinos. "Coisas pintadas". In:_____. Poemas de K. Kavávis. Trad. de Ísis Borges da Fonseca. São Paulo: Odysseus Editora, 2006.

15.5.20

Waly Salomão: "RIO(COLOQUIAL-MODERNISTA).DOC"




RIO(COLOQUIAL-MODERNISTA).DOC



O deus que banha o Rio de Janeiro

fica murrinha nos dias sem sol.

Mas é só o sol brilhar:

o Rio arreganha suas sem-vergonhas,

e o deus experimenta

novíssimas aptidões

para o prazer.



Aí o deus e o Rio se esparramam no tempo,

sem ziquiziras.






SALOMÃO, Waly. "RIO(COLOQUIAL-MODERNISTA).DOC". In:_____. "Algaravias: câmara de ecos". In:_____. Poesia total. São Paulo: Companhia das Letras, 2014.

11.5.20

Armando Freitas Filho: "Escrever é riscar o fósforo"




23


Escrever é riscar o fósforo
e sob seu pequeno clarão
dar asas ao ar – distância, destino
segurando a chama contra
a desatenção do vento, mantendo
a luz acesa, mesmo que o pensamento
pisque, até que os dedos se queimem.





FREITAS FILHO,  Armando. 23: "Escrever é riscar o fósforo". In:_____. "Numeral". In:_____.  Máquina de escrever: poesia reunida e revista. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2003.

9.5.20

Antoine Emaz: "Lie, 4" / "Borra, 4": trad. por Júlio Castañon Guimarães




Borra, 4 (25.07.06)


enfim o vento
de verdade
no azul do verão
o ar
o frescor na pele e nas telhas
após dias
enfim

dias escaldantes
corpo dessorado

andava-se
em uma massa mole quente
para avançar
se empurrava o ar

no jardim raso amarelo seco






Lie, 4 (25.07.06)


enfin le vent
vrai
dans le bleu de l’été
l’air
le frais sur la peau et les tuiles
après des jours
enfin

jours plombés
corps essoré

on marchait
dans une masse molle chaude
pour avancer
on poussait l’air

dans le jardin ras jaune sec







EMAZ, Antoine. "Lie, 4" (25.07.06) / "Borra, 4" (25.07.06). In:_____. Lama, pele. Trad. por Júlio Castañon Guimarães. Rio de Janeiro: 7 Letras, 2012.





7.5.20

Antonio Carlos Secchin: "Biografia"




Biografia


O poema vai nascendo
num passo que desafia:
numa hora eu já o levo,
outra vez ele me guia.

O poema vai nascendo,
mas seu corpo é prematuro,
letra lenta que incendeia
com a carícia de um murro.

O poema vai nascendo
sem mão ou mãe que o sustente,
e perverso me contradiz
insuportavelmente.

Jorro que engole e segura
o pedaço duro do grito,
o poema vai nascendo,
pombo de pluma e granito.






SECCHIN, Antonio Carlos. "Biografia". In:_____. Hálito das pedras. Antologia selecionada e organizada por Diego Mendes Sousa. Guartinguetá: Penalux, 2019.

5.5.20

Paula Lavigne: "Carta à imprensa e a quem mais interessar"

Publico a seguir uma importante carta da Paula Lavigne sobre a ameaça que paira sobre os compositores brasileiros a partir da emenda apresentada pelo deputado Felipe Carreras à MP 948/2020. 


CARTA À IMPRENSA E A QUEM MAIS INTERESSAR
Publicada em 05/05/2020

por Paula Lavigne
Presidente da Associação Procure Saber

Os direitos autorais dos autores e compositores brasileiros e de seus colegas do mundo inteiro estão ameaçados pelos violentos ataques promovidos pelo deputado Felipe Carreras, por razões de seu  interesse pessoal e em benefício de promotores de eventos que obtêm altos lucros  em suas  atividades comerciais. Sem autores não haveria música e sem música não haveria artista para interpretá-la, nem promotores de eventos. Sem essa cadeia criativa da música, eles sequer existiriam.

A Constituição Brasileira assegura aos autores o direito exclusivo de autorizar ou proibir o uso de suas composições. Além das garantias que as leis brasileiras oferecem, vários tratados internacionais que o Brasil assinou estabelecem regras de cumprimento obrigatório, que estão sendo violadas pela emenda à MP 948. Os Direitos autorais, não se inserem apenas entre os tratados de Direitos Humanos e de propriedade intelectual. Por sua importância para a economia dos países, especialmente a dos países que produzem cultura, como é o caso do Brasil, os direitos autorais passaram a ser considerados por esses aspectos comerciais. A proteção dos direitos dos autores no mundo está, portanto, presente em tratados comerciais administrados pela Organização Mundial do Comércio, como o TRIPS, de qual o Brasil é membro, já tendo manifestado, inclusive, seu interesse de fazer parte da OCDE. 

A emenda do deputado Felipe Carreras não é permitida por esses  mecanismos internacionais comerciais, causando amplos e incontáveis prejuízos ao Brasil e aos autores e compositores nacionais e estrangeiros, podendo significar efeitos catastróficos, como a paralização dos pagamentos aos autores brasileiros em todos os países, como medida de retaliação.

O ECAD, no Brasil, representa todos os autores nacionais e estrangeiros frente às empresas de promoção de eventos e outros usuários que exploram as suas músicas. Deixar de pagar a quem se deve, usando de subterfúgios para obter vantagens  é uma das características de uma prática conhecida como “enriquecimento sem causa”. Não cabe aos devedores dos autores repassar suas obrigações para os artistas que as interpretam e muito menos colocar preço no que não lhe pertence.



4.5.20

Antonio Cicero: "As livrarias"




As livrarias

                                                                        para Alberto Mathias

Ia ao centro da cidade
e me achava em livrarias,
livros, páginas, Bagdad,
Londres, Rio, Alexandria:

Que cidade foi aquela
em que me sonhei perder
e antes disso acontecer
aconteceu-me perdê-la?





CICERO, Antonio. "As livrarias". In:_____. A cidade e os livros. Rio de Janeiro: Record, 2002.

1.5.20

Angela Melim: "Uma casa no ar"




Uma casa no ar
é a minha:
vejo do alto
casas antigas, panos ao vento, a luz do mundo
– o verão no Rio –
e sou feliz.

Poeta:
verde e sol
me atravessam.

Fotossintética
clorofílica
transparente

puro ar puro, moro aqui.





MELIM, Angela. "Uma casa no ar". In:_____. Possibilidades. Rio de Janeiro: Ibis Libris, 2006.

29.4.20

Link para o ensaio "A casa e o voo do pássaro", de Pedro Duarte




Gostei muito do ensaio “A casa e o voo do pássaro”, do Pedro Duarte, que se encontra no blog “Pensar o tempo”, da Editora Bazar do Tempo. É verdade que o ensaio termina com um trecho do meu poema “Guardar”, o que me deixou muito contente. Mas estejam certos de que não é por causa desse final que o recomendo aqui, mas porque se trata de um texto muito interessante e muito oportuno. Seu endereço, no blog da Bazar do Tempo é: https://bazardotempo.com.br/1562-2/.  Deem uma olhada!

Antonio Cicero


28.4.20

Murilo Mendes: "As ruínas de Selinunte"





As ruínas de Selinunte


Correspondendo a fragmentos de astros,
A corpos transviados de gigantes,
A formas elaboradas no futuro,
Severas tombando
Sobre o mar em linha azul, as ruínas
Severas tombando
Compõem, dóricas, o céu largo.
Severas se erguendo,
Procuram-se, organizam-se,
Em forma teatral suscitam o deus
Verticalmente, horizontalmente.

Nossa medida de humanos
– Medida desmesurada –
Em Selinunte se exprime:
Para a catástrofe, em busca
Da sobrevivência, nascemos.




MENDES, Murilo. "As ruínas de Selinunte". In:_____. "Siciliana". In:_____. Poesia completa e prosa. Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 1994.

26.4.20

Giuseppe Ungaretti: "Rosso e azzurro" / "Vermelho e azul": trad. por Geraldo Holanda Cavalcanti




Vermelho e azul


Esperei que vos alçastes,
Cores do amor,
E eis que desvelais uma infância de céu.

Entrega a mais bela rosa sonhada.




Rosso e azzurro


Ho atteso che vi alzaste,
Colori dell’amore,
E ora svelate un’infanzia di cielo.

Porge la rosa più bella sognata.




UNGARETTI,  Giuseppe. "Rosso e azzurro" / "Vermelho e azul". In:_____. Poemas. Org. e trad. por Geraldo Holanda Cavalcanti. São Paulo: USP, 2017.

24.4.20

William Shakespeare: Sonnet 57 / Soneto 57: trad. de Adriano Nunes




Soneto 57


Servo de ti, farei o que senão
Zelar por se cumprir tua vontade?
Não tenho excelso tempo a ser em vão,
Nem ofício a fazer que não te agrade.
Sequer censuro a hora que é infinda
Ao cuidar,  meu senhor, do tempo teu,
Nem penso co' amargor a ausência advinda
Quando ao servo teu deste outro adeus.
Nem ouso sob ciúmes perguntar
Onde estarás ou quais os teus negócios,
E espero, triste servo, co' o pensar
Que feliz é quem frui contigo os ócios.
  Como tolo o amor é, que em teu querer,
  No que possas fazer, mal algum vê.




Sonnet 57


Being your slave what should I do but tend,
Upon the hours, and times of your desire?
I have no precious time at all to spend,
Nor services to do, till you require.
Nor dare I chide the world-without-end hour,
Whilst I, my sovereign, watch the clock for you,
Nor think the bitterness of absence sour
When you have bid your servant once adieu;
Nor dare I question with my jealous thought
Where you may be, or your affairs suppose,
But, like a sad slave, stay and think of nought
Save, where you are, how happy you make those.
  So true a fool is love, that in your will,
  Though you do anything, he thinks no ill.






SHAKESPEARE, William. Sonnet 57 / Soneto 57. In:_____. The Sonnets and a Lover's complaint. Org. por John Kerrigan. London: Penguin, 2009.

21.4.20

Manuel Bandeira: "Cantiga"




Cantiga


Nas ondas da praia
Nas ondas do mar
Quero ser feliz
Quero me afogar.

Nas ondas da praia
Quem vem me beijar?
Quero a estrela-d'alva
Rainha do mar.

Quero ser feliz
Na ondas do mar
Quero esquecer tudo
Quero descansar.





BANDEIRA, Manuel. "Cantiga". In:_____. "Estrela da manhã". In: Poesia completa e prosa. Rio de Janeiro: José Aguilar, 1967.

17.4.20

Michelangelo Buonarroti: "Tu sa' ch'i' so, signor mie, che tu sai" / "Tu sabes que sei, senhor meu, que tu sabes"







 Tu sabes que sei, senhor meu, que tu sabes
que venho para fruir-te mais de perto
e sabes que sei que tu bem sabes quem sou:
por que tanto retardas nosso abraço?
 Se verdadeira é a esperança que me dás
se verdadeiro é o desejo que me entregas
que se rompa o muro entre nós levantado
pois dupla força tem o grito sufocado.
 Se amo mais em ti, senhor meu caro,
o que tudo mais amas, não te zangues
pois o espírito do outro se enamora.
 O que no teu belo rosto desejo e aprendo
mal foi entendido por outros homens
quem quiser saber convém antes morrer.



Tu sa' ch'i' so, signor mie, che tu sai


  Tu sa’ ch’i’ so, signor mie, che tu sai
ch’i vengo per goderti più da presso,
e sai ch’i’ so che tu sa’ ch’i’ son desso:
a che più indugio a salutarci omai?
  Se vera è la speranza che mi dai,
se vero è ’l gran desio che m’è concesso,
rompasi il mur fra l’uno e l’altra messo,
ché doppia forza hann’i celati guai.
  S’i’ amo sol di te, signor mie caro,
quel che di te più ami, non ti sdegni,
ché l’un dell’altro spirto s’innamora.
  Quel che nel tuo bel volto bramo e ’mparo,
e mal compres’ è dagli umani ingegni,
chi ’l vuol saper convien che prima mora.





BUONARROTI, Michelangelo. "Tu sa' ch'i' so, signor mie, che tu sai" / "Tu sabes que sei, senhor meu, que tu sabes". In:_____. Poemas. Org. por Andrea Lombardi; traduzido por Nilson Moulin. Rio de Janeiro: Imago, 1994.

15.4.20

Antonio Cicero: "Segundo a tradição"




Segundo a tradição


O grande bem não nos é nunca dado
e foste já furtado do segundo:
o resto é afogar-te com o amado
na líquida volúpia de um segundo.





CICERO, Antonio. "Segundo a tradição". In:_____. Guardar. Rio de Janeiro: Record, 1996.

10.4.20

Luís Miguel Nava: "Basalto"




Basalto


Agora que se o mar ainda
rebenta é por acção da memória, arrancam-me
basalto ao coração ondas fortíssimas.

Ainda o vejo às vezes por aí, olhamo-nos
então como se à boca
nos viesse o sabor do nosso próprio coração,
mas pouco há a dizer acerca disso.





NAVA,  Luís Miguel. "Basalto". In:_____. "Como alguém disse". In:_____. Poesia completa: 1979-1994. Lisboa: Dom Quixote, 2002.

6.4.20

Ferreira Gullar: "Barulho"




BARULHO



Todo poema é feito de ar
apenas:
a mão do poeta
não rasga a madeira
não fere
o metal
a pedra
não tinge de azul
os dedos
quando escreve manhã
ou brisa
ou blusa
de mulher.
O poema
é sem matéria palpável
tudo
o que há nele
é barulho
quando rumoreja
ao sopro da leitura.






GULLAR, Ferreira. "Barulho". In:_____. "Barulhos". In:_____. Toda poesia. Rio de Janeiro: José Olympio, 2015.

2.4.20

Antonio Cicero: "Muro"




Muro

E se um poema opaco feito muro
te fizer sonhar noites em claro?
E se justo o poema mais obscuro
te resplandecer mais que o mais claro?





CICERO, Antonio. "Muro". In:_____. Porventura. Rio de Janeiro: Record, 2012.

29.3.20

Felipe Fortuna: "Sem"




Sem


Quisera escrever branco em branco

e ainda assim mudar de linha.

O verso interpretado, a música

conduzida no ar como um salto,

mas cada palavra invisível.



(         ). Equilibrar

Vogais de cores corrompidas,

e a sílaba desaparece

Quando é lida. Quisera então

Escrever o poema sem.






FORTUNA, Felipe. "Sem". In:_____. Em seu lugar. Poemas reunidos. Rio de Janeiro: Barléu, 2005.

25.3.20

Johann Wolfgag von Goethe: "Elfenlied" /"Canção dos elfos": trad. de Paulo Quintela




Canção dos elfos


À meia-noite, quando já os homens dormem,
É então para nós que a lua brilha,
Que para nós a estrela começa a cintilar;
Vagueamos e cantamos
E é então que gostamos de dançar.

À meia-noite, quando já os homens dormem,
Sobre prados, junto aos alnos,
Buscamos o nosso lugar,
Vagueamos e cantamos
E dançamos um sonho de luar.




Elfenlied


Um Mitternacht, wenn die Menschen erst schlafen,
Dann scheinet uns der Mond,
Dann leuchtet uns der Stern;
Wir wandeln und singen,
Und tanzen erst gern.

Um Mitternacht, wenn die Menschen erst schlafen,
Auf Wiesen an den Erlen
Wir suchen unsern Raum
Und wandeln und singen
Und tanzen einen Traum.





GOETHE, Johann Wolfgang von. "Elfenlied" / "Canção dos elfos". In:_____. Poemas. Antologia. Org. e trad. por Paulo Quintela. Coimbra: Centelha, 1979.



22.3.20

Rogério Batalha: "Inútil reclamar"




Inútil reclamar


inútil reclamar
se o que se foi é nuvem
que se enruga ao bel prazer
e como tal é viagem que não cessa.

inútil reclamar
se o corpo que é feito de trevas
e varandas
no fundo sempre se orna de esperanças.

inútil reclamar
se o que se perde se veste do bagaço do vivido
e é justamente daí – que reacende –
seu facho perdido.





BATALHA, Rogério. "Inútil reclamar". In:_____. Azul. Rio de Janeiro: TextoTerritório, 2016.

20.3.20

Salgado Maranhão: "A pelagem da tigra"






A pelagem da tigra

São feitas de crisântemos as fibras
desse fogo que se molda à palavra
(e a esse jogo em que o amor se equilibra
como se a vida, então, lhe fosse escrava);
ou, talvez, da pelagem de uma tigra
(que ocultasse um vulcão em sua lava)
para blefar que fica enquanto migra
para fingir que beija quando crava.
Mas isto são hipóteses ou arenga
ao que se queira e não está à venda:
um terçar de lábios na carne brusca.
São só pegadas do que seja a lenda
de algum tesouro que se nos ofusca,
que ao tê-lo não se tenha mais que a busca.






MARANHÃO, Salgado. "A pelagem da tigra". In: SABINO, Paulo (org.). A estante dos poetas. Antologia. Rio de Janeiro: Ibis Libris, 2020.

18.3.20

Paulo Henriques Britto: Da série "Caderno". I




Da série Caderno



I

Escrevo nas nuvens.
Tenho um caderno sempre aberto numa nuvem,
e nele escrevo. É nuvem, não papel.

Mas as palavras são de terra. Escrevo terra,
mesmo escrevendo nas nuvens.
Só às palavras-terra me aferro.

Outras sei que são só som:
são ar. E há também as pura tinta
descarnada. Que são água.

A água é boa e o ar é bom.
A carne é terra: também soa,
também sobe às nuvens, certo,

e arde como a chama mais impura.
Porém é terra. E só palavras-terra
me aterram.





BRITTO, Paulo Henriques. Da série Caderno. I. In: SABINO, Paulo (org.). A estante dos poetas. Rio de Janeiro: Ibis Libris, 2020.

16.3.20

Antonio Cicero: "Canção do amor impossível"



Canção do amor impossível



Como não te perderia

se te amei perdidamente

se em teus lábios eu sorvia

néctar quando sorrias

se quando estavas presente

era eu que não me achava

e quando tu não estavas

eu também ficava ausente

se eras minha fantasia

elevada à poesia

se nasceste em meu poente

como não te perderia





CICERO, Antonio. "Canção do amor impossível". In:_____. SABINO, Paulo (org.). A estante dos poetas. Antologia. Rio de Janeiro: Ibis Libris, 2020.

14.3.20

Antonio Carlos Secchin: "Com todo o amor..."




Com todo o amor...


Com todo o amor de Amaro de Oliveira.
São Paulo, 2 de abril de 39.
O autógrafo se espalha em folha inteira,
enredando o leitor, que se comove,

não na história narrada pelo texto,
mas na letra do amor, que agora move
a trama envelhecida de outro enredo,
convidando uma dama a que o prove.

Catharina, Tereza, Ignez, Amália?
Não se percebe o nome, está extinta
a pólvora escondida na palavra,

na escrita escura do que já fugiu:
Perdido entre os papéis de minha casa,
Amaro ama alguém no mês de abril.





SECCHIN, Antonio Carlos. "Com todo o amor". In: SABINO, Paulo et al. (orgs.). A estante dos poetas. Antologia. Rio de Janeiro: Ibis Libris, 2020.

12.3.20

Adriano Espínola: "Língua mar"




Língua-mar


A língua em que navego, marinheiro,

na proa das vogais e consoantes,

é a que me chega em ondas incessantes

à praia deste poema aventureiro.

É a língua portuguesa, a que primeiro

transpôs o abismo e as dores velejantes,

no mistério das águas mais distantes,

e que agora me banha por inteiro.

Língua de sol, espuma e maresia,

que a nau dos sonhadores-navegantes

atravessa a caminho dos instantes,

cruzando o Bojador de cada dia.

Ó língua-mar, viajando em todos nós!

No teu sal, singra, errante, a minha voz.





ESPÍNOLA, Adriano. "Língua-mar". In: SABINO, Paulo et al. (org.). A estante dos poetas. Antologia. Rio de Janeiro: Ibis Libris, 2020.

10.3.20

Geraldo Carneiro: "o elogio dos soníferos"




o elogio dos soníferos

soníferos eu lanço contra as feras
que me devoram a solidez do sono.
a solidão em si não me apavora.
os outros são o inferno, o purgatório
e às vezes são também o paraíso.
não sei do inverno que virá ou não
virá, ainda não formei juízo.
aliás, juízo sempre me faltou
e há de faltar, espero, até a morte,
esse capítulo da história natural,
contra o qual não farei rebelião.
amparo metafísico? não tenho.
invejo o céu, a dança das esferas,
morro de inveja do Ptolomeu,
vagando a salvo nas cosmologias
com Deus no centro, o resto ao seu redor.
não tenho centro, cetro ou direção.
a mim só não me falta coração





CARNEIRO, Geraldo. "o elogio dos soníferos". In: SABINO, Paulo (org.). A estante dos poetas. Rio de Janeiro: Ibis Libris, 2020.

8.3.20

Antonio Cicero: orelhas do livro "Alguns poemas e + alguns", de Jorge Salomão




Eis o que escrevi, em 2016, nas orelhas do livro Alguns poemas e + alguns, de Jorge Salomão:




EU NÃO SOU UM POETA,
diz Jorge Salomão no primeiro poema de alguns poemas e + alguns,

sou um malabarista
e dos piores que existem
quando vou andar no arame
logo caio no chão

É que Jorge é um poeta-malabarista: um malabarista enquanto poeta e um poeta enquanto malabarista. Ele conta que quando vai andar no arame logo cai no chão? Mas isso confirma o que digo, pois é exatamente para cair no chão que ele vai andar no arame. E o que ele faz no chão, lê-se no segundo poema do livro:

cato versos pelo chão das ruas
cato versos pelo chão de casa
cato versos dentro de mim

E o poeta-malabarista não cai apenas no chão, mas também no azul:

alguém cantando um blues
eu caindo no azul

Junto com ele, também o seu leitor, ao cair no chão do azul ou no azul do chão, redescobre o mundo. E não é esse o sentido de toda grande poesia? Assim, o leitor de alguns poemas e + alguns terá o prazer redescobrir

à moda de bandeira
a rua
o casario
a ladeira
o espelho d’água
a baía de guanabara
ou ao constatar que
como não há solução
só problemas
a questão é filosofar
e como um trapezista pular
e acreditar:
o que se passa sob o sol
é tudo ficção


É tudo ficção e é tudo verdade nos versos que o poeta-malabarista catou no chão em que faz questão de cair ou mergulhar. 



ANTONIO CICERO




In: SALOMÃO, Jorge. Alguns poemas e + alguns. Rio de Janeiro: Rubra Editora, 2016.





7.3.20

Jorge Salomão: "Tem horas que pareço eu"




Foi com enorme tristeza que eu soube, há pouco, da morte do admirável poeta e performer Jorge Salomão, que foi um dos meus maiores amigos. Publico abaixo o último poema dele, que acabo de ler, em artigo de Cláudio Leal, no site da Folha de São Paulo:



Tem horas que pareço eu


Tem horas que pareço eu
Tem horas que pareço Man Ray
Eu sou do tamanho da minha cor
Da cor da fita do Bonfim

Tem horas que me camuflo
Tem horas que sou molusco
Tem horas que nada sei
Tem horas que sou Man Ray

Tem horas Itapagipe
Tem horas Cubana
Tem horas curtindo cena
Tem horas olhando o mar

Tem horas que nada pareço, sem chão nem teto
Tem horas vários retratos
Tem horas que sou possível
Tem horas escuridão.







2.3.20

Francisco Alvim: "Bruma"




Bruma


Teu ser inconcluso
trabalha na pedra
e a pedra se esgarça
em bruma.

Tão nítida a hora
as coisas tão nítidas
tua face contudo
na bruma

Talvez tua fala
o som de teus passos
possam desfazer
a bruma

Tua fala é bruma
Teus passos são bruma




ALVIM, Francisco. "Bruma" In:_____. Sol dos cegos. Rio de Janeiro, 1968.

27.2.20

Mário Quintana: "Canção da janela aberta"




Canção da janela aberta


Passa nuvem, passa estrela,
Passa a lua na janela...

Sem mais cuidados na terra,
Preguei meus olhos no Céu.

E o meu quarto, pela noite
Imensa e triste, navega...

Deito-me ao fundo do barco,
Sob os silêncios do Céu.

Adeus, Cidade Maldita,
Que lá se vai o teu Poeta.

Adeus para sempre, Amigos...
Vou sepultar-me no Céu!






QUINTANA, Mário. “Canção da janela aberta”. In: MOISÉS, Massaud. A literatura brasileira através dos textos. São Paulo: Cultrix, 2012.

25.2.20

Giuseppe Ungaretti: "Eterno"




Eterno

Entre uma flor colhida e outra ofertada
o inexprimível nada




Eterno

Tra um fiore colto e l’altro donato
l’inesprimibile nulla








UNGARETTI, Giuseppe. “Eterno”. In:_____. A alegria. Trad. de Geraldo Holanda Cavalcanti. Rio de Janeiro: Record, 2003.

23.2.20

Diego Mendes Sousa: "Tinteiros da propensão almejada"




Tinteiros da propensão almejada

Entendido
em humanidade,
bacharel em poesia,
doutor em dor
inclinado
para o amor

(em proeminência
sobre o poema)

na obediência
à Musa.






SOUSA, Diego Mendes. “Tinteiros da propensão almejada”. In:_____. Tinteiros da casa e do coração desertos. Guaratinguetá: Penalux, 2019.


21.2.20

Olavo Bilac: "Ora (direis) ouvir estrelas!"




"Ora (direis) ouvir estrelas!"                      


“Ora (direis) ouvir estrelas! Certo
Perdeste o senso!” E eu vos direi, no entanto,
Que, para ouvi-las, muita vez desperto
E abro as janelas, pálido de espanto...

E conversamos toda a noite, enquanto
A via-láctea, como um pálio aberto,
Cintila. E, ao vir do sol, saudoso e em pranto,
Inda as procuro pelo céu deserto.

Direis agora: “Tresloucado amigo!
Que conversas com elas? Que sentido
Tem o que dizem, quando estão contigo?”

E eu vos direi: “Amai para entendê-las!
Pois só quem ama pode ter ouvido
Capaz de ouvir e de entender estrelas”.




BILAC, Olavo. "Ora (direis) ouvir estrelas!". In:_____. "Via Láctea". In: RAMOS, Péricles Eugênio da Silva. Panorama da poesia brasileira, vol.III: Parnasianismo. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1959.

19.2.20

Anna Akhmatova: "Поет" / "Poeta": trad. por Joaquim Manuel Magalhães e Vadim Dmitriev




Poeta


Tal coisa um trabalho, supões tu -
Descuidadosa maneira de viver:
Ouvir algo da música às ocultas
E dá-lo brincando como seu.

Como scherzo divertido de alguém
Em quaisquer versos colocado,
Jurar que um pobre coração
Assim geme entre o brilho das searas.

E depois ouvir o bosque às ocultas,
Os pinheiros com ar de poucas falas,
Por enquanto uma cortina de fumo
Da neblina por todo o lado.

Colho de um lugar ao outro,
E até, sem sentimento de culpa,
Um pouco de vida ardilosa,
E tudo - do silêncio noturno.






Поет


Подумаешь, тоже работа, —
Беспечное это житьё:
Подслушать у музыки что-то
И выдать шутя за своё.

И, чьё-то весёлое скерцо
В какие-то строки вложив,
Поклясться, что бедное сердце
Так стонет средь блещущих нив.

А после подслушать у леса,
У сосен, молчальниц на вид,
Пока дымовая завеса
Тумана повсюду стоит.

Налево беру и направо,
И даже, без чувства вины,
Немного у жизни лукавой,
И всё — у ночной тишины.





AKHMATOVA, Anna. "Поет" / "Poeta". In:_____. Poemas. Trad. por Joaquim Manuel Magalhães e Vadim Dmitriev. Lisboa: Relógio D'Água, 2003.

17.2.20

Inês Pedrosa: "Escrever num tempo de barbárie"


Um amigo me enviou o link para uma entrevista em que, em determinado ponto, a grande escritora portuguesa Inês Pedrosa me elogia. Claro que fiquei orgulhosíssimo! Mas juro que não foi por causa do elogio, mas sim porque toda a entrevista é muito brilhante, que resolvi aqui colocar aqui o tal link. O entrevistador é Álvaro Alves de Faria e a entrevista foi publicada pela Revista Caliban. Eis o link:

15.2.20

Adriano Nunes: "Como se faz uma canção"



Quando Adriano Nunes me mostrou o seguinte, belo poema, que escreveu e dedicou ao grande compositor e cantor Péricles Cavalcanti, eu lhe disse que gostaria de postá-lo no blog Acontecimentos. Agradeço-lhe por me ter autorizado a fazê-lo. 


Como se faz uma canção

              para Péricles Cavalcanti

Como se faz uma canção?
Dize-me então!
Será que é com a voz do agora,
Do que em ser mais se comemora?
Será que não?

Como fazer esta canção
Ser a canção de toda hora?
Como tecê-la
Para que não mesmo pareça
Apenas bela?

Como compô-la além da estética,
Sem quaisquer regras,
Ritmos, melodias ou métricas?
Como entregar-me
Todo, espírito, osso e carne?

Vingará canção de verdade?
Como escrevê-la
Sem medo de vir a esquecê-la
Numa gaveta,
Dada ao Olvido? Quem bem sabe?

Como se faz uma canção?
Só saberão
As Musas? Os músicos não?
Como perceber que está feita,
Pronta, perfeita?

Pela letra e sentido à mão?
Como, sem trauma, pô-la à prova
Do público que tudo cobra?
Como dar mil asas a ela,
Para que seja só canção?


12.2.20

Carlos de Oliveira: "Soneto fiel"




Soneto fiel


Vocábulos de sílica, aspereza,
Chuva nas dunas, tojos, animais
Caçados entre névoas matinais,
A beleza que têm se é beleza.

O trabalho da plaina portuguesa,
As ondas de madeira artesanais
Deixando o seu fulgor nos areais,
A solidão coalhada sobre a mesa.

As sílabas de cedro, de papel,
A espuma vegetal, o selo de água,
Caindo-me nas mãos desde o início.

O abat-jour, o seu luar fiel,
Insinuando sem amor nem mágoa
A noite que cercou o meu ofício.




OLIVEIRA, Carlos de. "Soneto fiel". In:_____. "Sobre o lado esquerdo". In:_____. Trabalho poético. Porto: Assírio & Alvim, 2003.

10.2.20

Flávio Castro: "JCMN"




JCMN


enquanto céu se transforma
escreve palavras nódoas
no branco árido da página
escuta a visão do vento
assoviar noutro pavimento
entreabrem-se então palavras
raras fáceis inexistentes
até que à página se enfrasem
com sua sintaxe riocorrente




CASTRO, Flávio. "JCMN". In:_____. Galeria. Rio de Janeiro: 7 Letras, 2019.

8.2.20

Ingeborg Bachmann: "Nach dieser Sintflut" / "Depois deste dilúvio": trad. por Vera Lins e Friedrich Forsch




Depois deste dilúvio


Depois deste dilúvio
queria ver a pomba,
e nada senão a pomba
salva outra vez.

Me afundaria nesse mar!
Se ela não voasse,
se não trouxesse
na última hora a folha.






Nach dieser Sintflut


Nach dieser Sintflut
möchte ich die Taube,
und nichts als die Taube,
noch einmal gerettet sehn.

Ich ginge ja unter in diesem Meer!
flög' sie nicht aus,
brächte sie nicht
in letzter Stunde das Blatt.





BACHMANN, Ingeborg. "Nach dieser Sintflut" / "Depois deste dilúvio". Trad. por Vera Lins e Friedrich Forsch. In: LINS, Vera. Ingeborg Bachmann. Rio de Janeiro: EDUERJ, 2013. 

5.2.20

FONTES DOS TEXTOS COMENTADOS NA PALESTRA “O QUE É A POESIA?”






ANDRADE, Carlos Drummond de. “Coração numeroso”. In:_____. “Alguma poesia”. In:_____. Poesia e prosa. Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 1988.

ANDRADE, Carlos Drummond de. “José”. In:_____. “José”. In:_____. Poesia e prosa. Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 1988.

ASCHER, Nelson. Poesia alheia. 124 poemas traduzidos. Rio de Janeiro: Imago, 1998.

BANDEIRA, Manuel. "Libertinagem". Estrela da vida inteira. Rio de Janeiro: José Olympio, 1966.

BRITTO, Paulo Henriques. “Horácio no Baixo”. In:_____. Formas do nada. São Paulo: Companhia das Letras, 2012.

CAMÕES, Luís de. Lírica. “Tanto de meu estado me acho incerto”. In:_____.  Lírica. São Paulo: Cultrix, 1981.

CAMPOS, Augusto de. « Não”. In:_____. Não. Poemas. São Paulo: Perspectiva, 2009.


CAMPOS, Augusto de. » ferida ». Op.cit..

CAMPOS, Haroldo de. “horácio contra horácio”. In:_____. Crisantempo: No espaço curvo nasce um. São Paulo: Perspectiva, 2004.

CICERO, Antonio. "A mulher dos crisântemos". In:_____. Porventura. Rio de Janeiro: Record, 2012.

CICERO, Antonio. “Dilema”. In:_____. Guardar. Rio de Janeiro: Record, 1996.

CICERO, Antonio. “Guardar”. In:_____. Guardar. Rio de Janeiro: Record, 1996.


CORNEILLE, Pierre. „Stances à la Marquise“. In:_____. La poésie française du moyen âge à nos jours. Org. por Emmanuel de Waresquiel et Benoît Laudie. Paris: Larousse-Bordas, 1977.

COSTA, Sosígenes. “Pavão vermelho”. In:_____. Poesia completa. Salvador: Conselho Estadual de Cultura, 2001.

FREITAS FILHO, Armando. “Caçar em vão”. In:_____. Máquina de escrever: poesia reunida e revista. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2003.

GULLAR, Ferreira. “Anoitecer em outubro”. In:_____. Em alguma parte alguma. Rio de Janeiro: José Olympio, 2010.

HORACE. “Ode I.xi”. In:_____. Odes and epodes. Org. por Paul Shorey. New York: Sanborn, 1919.

HORACE: “Ode III.xxx”. In:_____. Odes and epodes. Org. Por Paul Shorey. New York: Sanborn, 1919.

JIMÉNEZ, Juan Ramón. “No era nadie”. In:_____. Jardines lejanos.Madrid: Taurus, 1982.

JUNQUEIRA, Ivan. "O poema". In:_____. Poesia completa. Edição por Jorge Reis-Sá. Org. por Ricardo Vieira Lima. Lisboa: Glaciar, 2019.

MELO NETO, João Cabral de. “Catar feijão”. In:_____. Obra completa. Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 1995.

MORAES, Vinícius de.”Poética I”. In:_____. Nova antologia poética. Org. de Antonio Cicero e Eucanaã Ferraz. São Paulo: Companhia das Letras, 2005.


MORAES, Vinícius de. “Poética II”. In:_____. Nova antologia poética.. Org. de Antonio Cicero e Eucanaã Ferraz. São Paulo: Companhia das Letras, 2005.



PENA FILHO, Carlos. "A vertigem lúcida". In:_____.  Livro geral. Olinda: Gráfica Vitória, 1977.

SARTRE, Jean-Paul. Que é a literatura?. Petrópolis: Vozes, 2015.

VARELLA, Alex. “Nosso mito”. In:_____. Céu em cima mar em baixo. Rio de Janeiro: Topbooks, 2012.


3.2.20

Antonio Cicero: "A mulher dos crisântemos"





A Mulher dos crisântemos
(sobre um quadro de Degas)

As flores transbordam do seu vaso à mesa,
um pouco à esquerda da tela cujas beiras
por pouco não ultrapassam, invadindo
a moldura. Também o seu colorido
quase abandona a paleta da pintura
(é que o jovem mestre ostenta sprezzatura),
mas apenas quase. O olhar passa por elas,
pousa aqui, pousa ali, hesitante abelha,
visita, à esquerda do vaso, um jarro d´água,
nota um lenço largado sobre a toalha
bordada da mesa e ruma ao lado oposto
da tela, para uma mulher cujos olhos
ignoram-no, atraídos talvez por algo
que se acha fora não somente do quadro
em que ela se encontra, mas também daquele
em que nos perceberia, se quisesse.
Sem saber por que, o olhar não mais a quer
largar. Diga-se a verdade: essa mulher
deixa a desejar. Ela não se compara
aos crisântemos que lhe deram a fama
a que mal faz jus, já que se encontra à margem
do quadro, e nem sequer inteira, só em parte.
Se é que ela sorri, sorri com um sorriso
Em parte encoberto, duvidoso e esquivo.
Dela está bem mais presente ali a ausência
que a presença. E, dado que a ausência é proteica
e tudo nada, o olhar mal mergulha em sua
vertiginosa superfície e flutua
de volta às flores sobre o fundo castanho
do papel de parede; depois, da capo.







CICERO, Antonio. "A mulher dos crisântemos". In:_____. Porventura. Rio de Janeiro: Record, 2012.