26.2.19

Vera Casa Nova: "Retiro-me do verso"




Retiro-me do verso


Retiro-me do verso
Retiro-me.
Retiro.
Estou em outro verso
Reverso da estória.

Retiro-me da página
Entro na imagem.

Retiro de meus dias
O suor do poema
A acidez da imagem.





CASA NOVA, Vera. "Retiro-me do verso". In:_____. Língua plena: poemas de Vera Casa Nova. Rio de Janeiro: Gramma, 2018.

25.2.19

Ruy Espinheira Filho: "O poeta e seu leitor"




O poeta e seu leitor


Releio amado poeta
e não reencontro o que li.

Sem dúvida: é o mesmo livro
que tanto li e reli.

Onde as graves emoções
em que outrora me perdi,

os densos sopros de alma
em que chorei ou sorri?

Por mais que releia o livro,
não vejo o que vi ali.

Terá mudado o poeta,
ou me enganei no que li?

Não, não mudou o poeta,
nem me enganei no que li

na voz serena dos versos
em que chorei ou sorri:

é que o leitor do poeta
foi um que em mim já perdi.





ESPINHEIRA FILHO, Ruy. "O poeta e seu leitor". In:_____. Estação infinita e outras estações: poesia reunida (1966-2012).  Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 2012.

23.2.19

Vinícius de Moraes: "Balada da moça do Miramar"




Balada da moça do Miramar


Silêncio da madrugada
No Edifício Miramar...
Sentada em frente à janela
Nua, morta, deslumbrada
Uma moça mira o mar.

Ninguém sabe quem é ela
Nem ninguém há de saber
Deixou a porta trancada
Faz bem uns dois cinco dias
Já começa a apodrecer
Seus ambos joelhos de âmbar
Furam-lhe o branco da pele
E a grande flor do seu corpo
Destila um fétido mel.

Mantém-se extática em face
Da aurora em elaboração
Embora formigas pretas
Que lhe entram pelos ouvidos
Se escapem por umas gretas
Do lado do coração.
Em volta é segredo: e móveis
Imóveis na solidão...
Mas apesar da necrose
Que lhe corrói o nariz
A moça está tão sem pose
Numa ilusão tão serena
Que, certo, morreu feliz.

A vida que está na morte
Os dedos já lhe comeu
Só lhe resta um aro de ouro
Que a morte em vida lhe deu
Mas seu cabelo de ouro
Rebrilha com tanta luz
Que a sua caveira é bela
E belo é seu ventre louro
E seus pelinhos azuis.

De noite é a lua quem ama
A moça do Miramar
Enquanto o mar tece a trama
Desse conúbio lunar
Depois é o sol violento
O sol batido de vento
Que vem com furor violeta
A moça violentar.

Muitos dias se passaram
Muitos dias passarão
À noite segue-se o dia
E assim os dias se vão
E enquanto os dias se passam
Trazendo a putrefação
À noite coisas se passam...
A moça e a lua se enlaçam
Ambas mortas de paixão.

Ah, morte do amor do mundo
Ah, vida feita de dar
Ah, sonhos sempre nascendo
Ah, sonhos sempre a acabar
Ah, flores que estão crescendo
Do fundo da podridão
Ah, vermes, morte vivendo
Nas flores ainda em botão
Ah, sonhos, ah, desesperos
Ah, desespero de amar
Ah, vida sempre morrendo
Ah, moça do Miramar!





MORAES, Vinícius de. "Balada da moça do Miramari". In:_____. Nova antologia poética. Org. por Antonio Cicero e Eucanaã Ferraz. São Paulo: Companhia das Letras, 2005.

20.2.19

Ferreira Gullar: "Verão"




Verão


Este fevereiro azul
como a chama da paixão
nascido com a morte certa
com prevista duração

deflagra suas manhãs
sobre as montanhas e o mar
com o desatino de tudo
que está para se acabar.

A carne de fevereiro
tem o sabor suicida
de coisa que está vivendo
vivendo mas já perdida.

Mas como tudo que vive
não desiste de viver,
fevereiro não desiste:
vai morrer, não quer morrer.

E a luta de resistência
se trava em todo lugar:
por cima dos edifícios
por sobre as águas do mar.

O vento que empurra a tarde
arrasta a fera ferida,
rasga-lhe o corpo de nuvens,
dessangra-a sobre a avenida

Vieira Souto e o Arpoador
numa ampla hemorragia.
Suja de sangue as montanhas
tinge as águas da baía.

E nesse esquartejamento
a que outros chamam verão,
fevereiro em agonia
resiste mordendo o chão.

Sim, fevereiro resiste
como uma fera ferida.
É essa esperança doida
que é o próprio nome da vida.

Vai morrer, não quer morrer.
Se apega a tudo que existe:
na areia, no mar, na relva,
no meu coração — resiste.




GULLAR, Ferreira. “Verão”. In:_____. Dentro da noite veloz. São Paulo: Companhia das Letras, 2018.

18.2.19

Luiz Roberto Nascimento Silva: "Será que é o mar"




Será que é o mar



Será que o mar conforma a terra

ou a terra invade o mar?

Visto do alto de um avião,

quando se vislumbra a Baía de Guanabara

não se sabe ao certo, nem de forma clara.


Será que é o azul do mar

que ilumina o céu e os seus olhos

ou será esse céu que dá cor à água

e ao seu transparente olhar de anágua?


Será que a distância que nos separa

é que aumenta a saudade

ou será a saudade que produz pressa

urgência da ausência

que a presença mascara?


Será que essas perguntas trazem respostas

ou serão respostas as próprias perguntas

sem importar quem as declara.

Assim segue o homem, eterno enigma

entre todos os animais; espécie mais rara.






SILVA, Luiz Roberto Nascimento. "Será que é o mar". In:_____. Rio 80 graus. Rio de Janeiro: 7 Letras, 2018.


15.2.19

W. B. Yeats: "An Irish airman foresees his death" / "Um aviador irlandês prevê a morte"



Um aviador irlandês prevê a morte


Encontrarei meu fim no meio

das nuvens de algum céu sobejo;

os que combato, eu não odeio,

também não amo os que protejo;

Kiltartan Cross é meu país,

seus pobres são a minha gente,

nada a fará mais infeliz

do que já era, ou mais contente.

Não é por lei ou por dever,

turba ou políticos, que luto,

mas pelo afã de me entreter,

a sós, nas nuvens em tumulto.

Tudo na mente foi pesado:

nada que espere ou que recorde

vale-me a pena comparado

com esta vida ou esta morte.






An Irish airman foresees his death


I know that I shall meet my fate 

Somewhere among the clouds above; 

Those that I fight I do not hate 

Those that I guard I do not love; 

My country is Kiltartan Cross,

My countrymen Kiltartan’s poor, 

No likely end could bring them loss 

Or leave them happier than before. 

Nor law, nor duty bade me fight, 

Nor public man, nor cheering crowds,

A lonely impulse of delight 

Drove to this tumult in the clouds; 

I balanced all, brought all to mind, 

The years to come seemed waste of breath, 

A waste of breath the years behind

In balance with this life, this death.






YEATS, W.B. "An Irish airman foresees his death" / "Um aviador irlandês prevê a morte". In: ASCHER, Nelson (org.). Poesia alheia. 124 poemas traduzidos. Rio de Janeiro: Imago, 1998.


13.2.19

Fernando Pessoa: "Sonhador de sonhos"




Sonhador de sonhos


Sonhador de sonhos

Queres me vender

Teus dias risonhos

Por eu te esquecer?...


Minha alma é só mágoa

Por saber que vive...

Passo como a água,

Nunca fui ou estive...






PESSOA, Fernando. “Sonhador de sonhos”. In:_____. Poesia, 1902-17. Org. por Manuela Parreira da Silva, Ana Maria Freitas, Madalena Dine. Porto:  Assírio & Alvim, 2005.

11.2.19

Ingeborg Bachmann: "Schatten Rosen Schatten" / "Sombras rosas sombras"



Sombras rosas sombras


Sob um céu estranho

sombras rosas

sombras

sobre uma terra estranha

entre rosas e sombras

numa água estranha

minha sombra






Schatten Rosen Schatten


Unter einem fremden Himmel

Schatten Rosen

Schatten

auf einer fremden Erde

zwischen Rosen und Schatten

in einem fremden Wasser

mein Schatten





BACHMANN, Ingeborg. Werke. Eds. Christine Kosehel, Inge von Weidenbaum, Clemens Münster. München, Zürich: R. Piper, 1978.

9.2.19

Jorge Luis Borges: "El despertar" / "O despertar"




O despertar                                                               


Penetra a luz e ascendo lentamente

Dos sonhos para o sonho compartido

E as coisas voltam para o seu devido

E esperado lugar e no presente

Retorna esmagador e vasto o vago

Ontem: as seculares migrações

Do pássaro e do homem, as legiões

Que o ferro destroçou, Roma e Cartago.

Torna também a cotidiana história:

Meu rosto e minha voz, o medo, a sorte.

Ah, se aquele outro despertar, a morte,

Me deparasse um tempo sem memória

Do meu nome, de mim, de meus momentos!

– Trouxesse esta manhã o esquecimento!...







El despertar


Entra la luz y asciendo torpemente

De los sueños al sueño compartido

Y las cosas recobran su debido

Y esperado lugar y en el presente

Converge abrumador y vasto el vago

Ayer: las seculares migraciones

Del pájaro y del hombre, las legiones

Que el hierro destruyó: Roma y Cartago.

Vuelve también la cotidiana historia:                                              

Mi voz, mi rostro, mi temor, mi suerte.

¡Ah, si aquel otro despertar la muerte

Me deparara un tiempo sin memoria

De mi nombre y de todo lo que he sido!

¡Ah, si en esa mañana hubiera olvido!






BORGES, Jorge Luis. “El despertar” / “O despertar”. In:_____. Borges poeta – Antologia poética bilingüe. Trad. de Jorge Wanderley. Rio de Janeiro: Leviatã, 1992.











6.2.19

Ivan Junqueira: "Poética"



Poética


A arte é pura matemática
como de Bach uma tocata
ou de Cézanne a pincelada
exasperada, mas exata.

É mais do que isso: uma abstrata
cosmogonia de fantasmas
que de ti lentos se desgarram
em busca de uma forma clara,

da linha que lhes dê, no espaço,
a geometria das rosáceas,
a curva austera das arcadas
ou o rigor de uma pilastra;

enfim, nada que lembre as dádivas
da natureza, mas a pátina
em que, domada, a vida alastra
a luz e a cor da eternidade,

tal qual se vê nas cariátides
ou nas harpias de um bestiário,
onde a emoção sucumbe à adaga
do pensamento que a trespassa.

Despencam, secas, as grinaldas
que o tempo pendurou na escarpa.
Mas dura e esplende a catedral
que se ergue muito além das árvores.





JUNQUEIRA, Ivan. "Poética". In:_____. O tempo além do tempo. Antologia. Org. por Arnaldo Saraiva. Vila Nova de Famalicão: Quasi, 2007.




5.2.19

Franz Kafka: Aphorismus 06 / Aforismo 06: trad. de Silveira de Souza




06

O momento decisivo do desenvolvimento humano é perpétuo. Em torno, movimentam-se os espíritos revolucionários, os quais, em verdade, buscam inutilmente de antemão tudo explicar, pois nada definitivo ainda aconteceu.





06

Der entscheidende Augenblick der menschlichen Entwicklung ist immerwährend. Darum sind die revolutionären geistigen Bewegungen, welche alles Frühere für nichtig erklären, im Recht, denn es ist noch nichts geschehen.





KAFKA, Franz. Aforismo 96. In:_____. 28 desaforismos = 28 Aphorismen. Trad. de Silveira de Souza. Florianópolis: Editora da UFSC: Bernúncia, 2010.

4.2.19

Hélio Schwartsman: "Trevas cristãs"



Ontem foi publicado na Folha de São Paulo um artigo em que, oportunamente, Hélio Schwartsman nos lembra do perigo que pode representar um lema como "Deus acima de todos", do Presidente Jair Bolsonaro, do seu Ministro das Relações Exteriores, Ernesto Araujo, e de outros membros do atual governo brasileiro:



Trevas cristãs

O “Deus acima de todos” que integrou o lema da campanha de Jair Bolsonaro e ainda o acompanha em muitas de suas declarações deveria provocar calafrios em todas as pessoas historicamente alfabetizadas, sejam elas religiosas ou não. Como a maioria dos brasileiros votou em Jair Bolsonaro conhecendo seu lema, parece lícito concluir que ou a maioria das pessoas é masoquista ou não é historicamente alfabetizada.

Nesta última hipótese, nossos professores de história, todos eles esquerdistas, fracassaram miseravelmente em mostrar para seus alunos os crimes cometidos em nome de Deus. Um bom jeito de sanar essa falha é a leitura de “The Darkening Age” (a idade das trevas), de Catherine Nixey (há uma edição lusitana).

A tese central do livro é simples. O cristianismo triunfou na Europa e cercanias destruindo o mundo clássico que o precedeu. O “destruir” deve ser interpretado literalmente, para incluir a pilhagem de templos, vandalização de estátuas, queima de livros e, é claro, tortura e assassinato de adversários. Nixey conta os detalhes dessa história.

Para dar uma ideia da escala da destruição, estima-se que apenas 10% da literatura clássica tenha sobrevivido até a Idade Moderna. Se considerarmos só os latinos, o quadro é ainda pior. Só 1% do que foi escrito por romanos não cristãos foi preservado. Santos das Igrejas Católica e Ortodoxa, como João Crisóstomo, gabavam-se de ter feito desaparecer toda uma cultura.

O que mais perturba na leitura de “The Darkening Age” é a total semelhança entre o que fizeram os cristãos dos anos 300, 400 e 500 o que fazem hoje membros do Taleban e do Estado Islâmico. A intolerância que militantes religiosos radicais mostram para com outros credos, os assassinatos praticados com requintes de crueldade e a insana “certeza” de estar obedecendo a comandos de um ente supremo infalível revelam quão perigoso é pôr Deus acima de tudo.


Hélio Schwartsman

2.2.19

Giuseppe Ungaretti: "Tutto ho perduto" / "Tudo perdi": trad. de Geraldo Holanda Cavalcanti



Tudo perdi


Tudo perdi de minha infância
E já não mais poderei
Desmemoriar-me num grito.

Soterrei a infância
Na profundez das noites
E agora uma espada invisível
Me separa de tudo.

Relembro que exultava te amando,
Hoje eis-me perdido
No infinito das noites.

Desespero que incessante aumenta
Presa à garganta,
A vida já não me é mais
Que uma rocha de gritos.




Tutto ho perduto

Tutto ho perduto dell'infanzia
E non potrò mai più
Smemorarmi in un grido.
 
L'infanzia ho sotterrato
Nel fondo delle notti
E ora, spada invisibile,
Mi separa da tutto.

Di me rammento che esultavo amandoti,
Ed eccomi perduto
In infinito delle notti.

Disperazione che incessante aumenta
La vita non mi è più,
Arrestata in fondo alla gola,
Che una roccia di gridi.





UNGARETTI, Giuseppe. "Tutto ho perduto" / "Tudo perdi". In:_____. Poemas. Trad. de Geraldo Holanda Cavalcanti. São Paulo: Edusp, 2017.