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19.6.22

Paul Henriques Britto: "Elogio do raso"

 



Elogio do raso



Recomeçar sem que haja

arremedo de começo

exige mais que coragem.

Há que ter um forte apreço


pela aparência mais chã

e o desdém mais destemido

pelas funduras malsãs

onde se acoita o sentido.


Este apego à superfície 

– dizem – dá força à vontade

(o que, apesar de tolice,

pode até ser verdade). 





BRITTO, Paulo Henriques. "Elogio do raso". In:_____ Por ora. Poesia reunida (1982-2018). Lisboa: Imprensa Nacional - Casa da Moeda, S.A., 2021.



21.2.22

Paulo Henriques Britto: "Ao leitor"

 



Ao leitor


Se fosse o Ser quem fala no poema

eu calaria a boca, e é até possível

que o escutasse, um pouco. Sem problema;

seria, eu sei, um papo de alto nível.


Mas esta fala aqui -- garanto -- vem

de um mero estar, minúsculo, mortal,

prosaico e costumeiro, a voz de alguém

que embore sonhe no condicional


habita -- na vigília -- o indicativo,

e fala sempre, sempre, na primeira

e singular pessoa que está sendo


agora e aqui, como qualquer ser vivo

com o dom da palavra (a trapaceira),

tal qual faz quem me lê neste momento.





BRITTO, Paulo Henriques. "Ao leitor". In:  Uma antologia comemorativa.. São Paulo: Companhia das Letras, 35 anos.

3.2.22

Wallace Stevens: "Of mere being" / "Meramente ser": trad. de Paulo Henriques Britto

 



Meramente Ser


A palmeira no final da mente,

Além do pensamento último, se eleva

No brônzeo cenário.


Um pássaro de penas de ouro

Canta na palmeira, sem sentido humano,

Sem sentimento humano, um canto estrangeiro.


Então você entende que não é a razão

Que nos traz tristeza ou alegria.

O pássaro canta. As penas brilham.


A palmeira paira no limiar do espaço.

O vento roça devagar seus galhos.

As penas de ouro do pássaro resplendem fogo.






Of mere being



The palm at the end of the mind,

Beyond the last thought, rises

In the bronze decor,


A gold-feathered bird

Sings in the palm, without human meaning,

Without human feeling, a foreign song.


You know then that it is not the reason

That makes us happy or unhappy.

The bird sings. Its feathers shine.


The palm stands on the edge of space.

The wind moves slowly in the branches.

The bird's fire-fangled feathers dangle down.





STEVENS, Wallace. "Of mere being" / "Meramente ser". In: O imperador do sorvete e outros poemas.

Seleção e tradução de Paulo Henriques Britto. São Paulo: Cmpanhia das Letrs, 2017.




28.1.22

Paulo Henriques Britto: "À margem do Douro"

 



À margem do Douro



Não espero nada, e já me satisfaço

com a consciência de ainda estar em mim

e não de volta ao nada de onde vim.

Por ora, ao menos, ainda ocupo espaço,

junto a uma mesa no Cais da Ribeira;

permito-me, sem culpa, desfrutar

de pão, e queijo, e vinho, e vista, e ar,

todo o entorno da minha cadeira.

Que os dias que me restam não me tragam

apenas a miséria de contá-los

pra ao fim ver que as contas não fecham. Peço

demais? Eu, que não sou desses que tragam

a vida num só gole e no gargalo,

sem ter nem mesmo perguntado o preço.




BRITTO, Paulo Henriques. "À margem do Douro". In:_____ "Nenhum mistério". In:_____ Por Ora. Poesia reunida (1982-2018). Lisboa: Imprensa Nacional - Casa da Moeda, 2021.

9.11.21

Paulo Henriques Britto: "Ao leitor"

 



Ao leitor


Se fosse o Ser quem fala no poema

eu calaria a boca, e é até possível

que o escutasse, um pouco. Sem problema;

seria, eu sei, um papo de alto nível.


Mas esta fala aqui — garanto — vem

de um mero estar, minúsculo, mortal,

prosaico e costumeiro, a voz de alguém

que embora sonhe no condicional


habita — na vigília — o indicativo,

e fala sempre, sempre, na primeira

e singular pessoa que está sendo


agora e aqui, como qualquer ser vivo

com o dom da palavra (a trapaceira),

tal qual faz quem me lê neste momento.





BRITTO, Paulo Henriques. "Ao leitor". In: Medida do silêncio. Uma antologia comemorativa. São Paulo: Companhia das Letras, 2021.


8.5.21

Paulo Henriques Britto: "XII". Da série Caderno

 



XII



Confinado num corpo

de dúbia propriedade

provido de um contorno

muito bem delineado,


procura na palavra

(por mais escarnecida)

a possibilidade

de uma quase saída


rumo a um outro eu

novo do cerne à casca

ou então, faute de mieux,

a uma boa máscara.




BRITTO, Paulo Henriques. "XII" da série Caderno. In: SABINO, Paulo (org.). A estante dos poetas. Antologia. Rio de Janeiro: Ibis Libris, 2020.

9.7.20

Wallace Stevens: "As you leave the room" / "Ao sair da sala: trad. por Paulo Henriques Britto




Ao sair da sala


Você fala  Diz: O caráter do agora não é
Esqueleto saído do estojo. Eu também não.

Aquele poema sobre o abacaxi, aquele
Sobre a mente sempre insatisfeita,

Aquele sobre o herói plausível, e o outro
Sobre o verão, não são pensamentos de esqueleto.

Terei eu vivido uma vida de esqueleto,
De um descrente da realidade,

Compatriota de todos os ossos do mundo?
Agora, aqui, a neve que eu esquecera se transforma

Em parte de uma realidade maior,
De uma apreciação de uma realidade,

Uma elevação, portanto, como se eu levasse,
Ao sair, algo palpável em todos os sentidos.

Porém nada mudou além do que é
Irreal, como se coisa alguma tivesse mudado.






As You Leave the Room


You speak. You say: Today’s character is not
A skeleton out of its cabinet. Nor am I.

That poem about the pineapple, the one
About the mind as never satisfied,

The one about the credible hero, the one
About summer, are not what skeletons think about.

I wonder, have I lived a skeleton’s life,
As a disbeliever in reality,

A countryman of all the bones in the world?
Now, here, the snow I had forgotten becomes

Part of a major reality, part of
An appreciation of a reality

And thus an elevation, as if I left
With something I could touch, touch every way.

And yet nothing has been changed except what is
Unreal, as if nothing had been changed at all.







STEVENS, Wallace. "As you leave the room" / "Ao sair da sala". In: _____. O imperador do sorvete e outros poemas / Wallce Stevens. Seleção, tradução, apresentação e notas por Paulo Henriques Britto. São Paulo: Companhia das Letras, 2017.


18.3.20

Paulo Henriques Britto: Da série "Caderno". I




Da série Caderno



I

Escrevo nas nuvens.
Tenho um caderno sempre aberto numa nuvem,
e nele escrevo. É nuvem, não papel.

Mas as palavras são de terra. Escrevo terra,
mesmo escrevendo nas nuvens.
Só às palavras-terra me aferro.

Outras sei que são só som:
são ar. E há também as pura tinta
descarnada. Que são água.

A água é boa e o ar é bom.
A carne é terra: também soa,
também sobe às nuvens, certo,

e arde como a chama mais impura.
Porém é terra. E só palavras-terra
me aterram.





BRITTO, Paulo Henriques. Da série Caderno. I. In: SABINO, Paulo (org.). A estante dos poetas. Rio de Janeiro: Ibis Libris, 2020.

12.11.19

Paulo Henriques Britto: "Spleen 2 ½"




Spleen 2 ½


Não se fazem mais lembranças
como as de antigamente.
Agora a memória apenas
acumula indiferente

o que logrou atrair
a atenção por um instante
e amarra tudo com o mesmo
indefectível barbante

e o joga numa gaveta
cronicamente emperrada,
a qual só será aberta
na hora errada.






BRITTO,  Paulo  Henriques. "Spleen 2 ½". In:_____. Nenhum mistério. São Paulo: Companhia das Letras, 2018.

16.3.19

Wallace Stevens: "The planet on the table" / "O planeta na mesa": Trad. por Paulo Henriques Britto




O planeta na mesa


Ariel gostou de ter escrito seus poemas.
Eram de um tempo relembrado
Ou de algo visto que o agradara.

Outros feitos do sol
Eram agrura e tumulto
E o arbusto maduro retorcido.

Seu ser e o sol eram um só
E seus poemas, embora feitos de seu ser,
Não eram menos feitos do sol.

Que perdurassem não era importante.
O importante era que portassem
Algum traço ou caráter,

Uma afluência, mesmo quase imperceptível,
Na pobreza de suas palavras,
Do planeta do qual faziam parte.






The planet on the table


Ariel was glad he had written his poems.
They were of a remembered time
Or of something seen that he liked.

Other makings of the sun
Were waste and welter
And the ripe shrub writhed.

His self and the sun were one
And his poems, although makings of his self,
Were no less makings of the sun.

It was not important that they survive.
What mattered was that they should bear
Some lineament or character,

Some affluence, if only half-perceived,
In the poverty of their words,
Of the planet of which they were part.






STEVENS, Wallace. "The planet on the table" / "O planeta na mesa". In:_____. O imperador do sorvete e outros poemas. Trad. por Paulo Henriques Britto. São Paulo: Companhia das Letras, 2017.

9.12.18

Wallace Stevens: "The house was quiet and the world was calm" / "A casa estava quieta e o mundo calmo": trad. de Paulo Henriques Britto



A casa estava quieta e o mundo calmo


A casa estava quieta e o mundo calmo.
Leitor tornou-se livro, e a noite de verão

Era como o ser consciente do livro.
A casa estava quieta e o mundo calmo.

Palavras eram ditas como se livro não houvesse,
Só que o leitor debruçado sobre a página

Queria debruçar-se, queria mais que muito ser
O sábio para quem o livro é verdadeiro

E a noite de verão é como perfeição da mente.
A casa estava quieta porque tinha de estar.

Estar quieta era parte do sentido e da mente:
Acesso da perfeição à página.

E o mundo estava calmo. Em mundo calmo,
Em que não há outro sentido, a verdade

É calma, é verão e é noite, a verdade
É o leitor insone debruçado a ler.






The house was quiet and the world was calm


The house was quiet and the world was calm.
The reader became the book; and summer night

Was like the conscious being of the book.
The house was quiet and the world was calm.

The words were spoken as if there was no book,
Except that the reader leaned above the page,

Wanted to lean, wanted much most to be
The scholar to whom his book is true, to whom

The summer night is like a perfection of thought.
The house was quiet because it had to be.

The quiet was part of the meaning, part of the mind:
The access of perfection to the page.

And the world was calm. The truth in a calm world,
In which there is no other meaning, itself

Is calm, itself is summer and night, itself
Is the reader leaning late and reading there.






STEVENS, Wallace. "The house was quiet and the world was calm" / "A casa estava quieta e o mundo calmo". In:_____. O imperador do sorvete e outros poemas. Trad. de Paulo Henriques Britto. São Paulo: Companhia das Letras, 2017.

12.11.18

Paulo Henriques Britto: "Da irresolução"



Da irresolução

Por não se estar preparado
perde-se a vida inteira.
A preparação, porém,
pra ser completa e certeira,

exigiria no mínimo
uma existência e meia.
Compreende-se, portanto,
aquele que titubeia

ao se ver face a face
com tamanho compromisso,
e termina decidindo
viver mesmo de improviso.




BRITTO, Paulo Henriques. "Da irresolução". In:_____. Nenhum mistério. São Paulo: Companhia das Letras, 2018.

4.10.18

Elizabeth Bishop: "The shampoo" / "O banho de shampoo": trad. de Paulo Henriques Britto



O banho de xampu

Os liquens – silenciosas explosões
nas pedras – crescem e engordam,
concêntricas, cinzentas concussões.
Têm um encontro marcado
com os halos ao redor da lua, embora
até o momento nada tenha mudado.

E como o céu há de nos dar guarida
enquanto isso não se der,
você há de convir, amiga,
que se precipitou;
e eis no que dá. Porque o Tempo é,
mais que tudo, contemporizador.

No teu cabelo negro brilham estrelas
cadentes, arredias.
Para onde irão elas
tão cedo, resolutas?
– Vem, deixa eu lavá-lo, aqui nesta bacia
amassada e brilhante como a lua.





The shampoo

The still explosions on the rocks,
the lichens, grow
by spreading gray, concentric shocks.
They have arranged
to meet the rings around the moon, although
within our memories they have not changed.

And since the heavens will attend
as long on us,
you've been, dear friend,
precipitate and pragmatical;
and look what happens.  For Time is
nothing if not amenable.

The shooting stars in your black hair
in bright formation
are flocking where,
so straight, so soon?
– Come, let me wash it in this big tin basin,
battered and shiny like the moon.





BISHOP, Elizabeth. "The shampoo" / "O banho de xampu". In:_____. Poemas escolhidos de Elizabeth Bishop. Seleção e trad. de Paulo Henriques Britto. São Paulo: Companhia das Letras, 2012.



29.8.18

Paulo Henriques Britto: "Da metafísica"



Da metafísica

Ser parte de alguém ou algo
tão grande que não se entenda:
toda crença, ao fim e ao cabo,
se resume a essa lenda --

o mais rematado dislate,
coisa jamais entendida,
que eleva ao sumo quilate
o caco mais reles de vida.




BRITTO, Paul Henriques. "Da metafísica". In:_____. Nenhum mistério. São Paulo: Companhia das Letras, 2018.

19.7.18

Frank O'Hara: "Today" / "Hoje": trad. de Beatriz Bastos e Paulo Henrique Britto



Hoje

Ah! cangurus, paetês, milk-shakes!
Que beleza! Pérolas, gaitas,
jujubas, aspirinas! todas essas
coisas sobre as quais sempre se fala

ainda fazem de um poema uma surpresa!
Elas estão conosco todos os dias mesmo
que em casamatas e catafalcos. São coisas
com sentido. São fortes feito pedra.


Today
Oh! kangaroos, sequins, chocolate sodas!
You really are beautiful! Pearls,
harmonicas, jujubes, aspirins! all
the stuff they’ve always talked about
 
still makes a poem a surprise!
These things are with us every day
even on beachheads and biers. They
do have meaning. They’re strong as rocks.



O'HARA, Frank. "Today"/"Hoje". In:_____. Meu coração está no bolso. Trad. de Beatriz Bastos e Paulo Henriques Britto. São Paulo: Luna Parque, 2017.




25.4.18

Frank O'Hara: "My heart" / "Meu coração": trad. de Beatriz Bastos e Paulo Henriques Britto



Meu coração

Não vou chorar o tempo todo
nem hei de rir o tempo todo,
não prefiro uma “tendência” a outra.
Prefiro o imediatismo de um filme ruim,
não só os filmes b, mas também
a superprodução espetacular. Quero ser
ao menos tão vital quanto o vulgar. E se
um aficionado de minha bagunça exclamar “Isso
não parece coisa do Frank!”, que bom! Não
uso ternos azuis e marrons o tempo todo,
não é? Não. Às vezes vou à Ópera com a roupa
de trabalho. Quero meus pés descalços,
o meu rosto barbeado, e o meu coração —
ninguém manda no coração, mas
o melhor dele, a minha poesia, está aberta.





My heart

I'm not going to cry all the time
nor shall I laugh all the time,
I don't prefer one "strain" to another.
I'd have the immediacy of a bad movie,
not just a sleeper, but also the big,
overproduced first-run kind. I want to be
at least as alive as the vulgar. And if
some aficionado of my mess says "That's
not like Frank!", all to the good! I
don't wear brown and gray suits all the time,
do I? No. I wear workshirts to the opera,
often. I want my feet to be bare,
I want my face to be shaven, and my heart—
you can't plan on the heart, but
the better part of it, my poetry, is open.




O'HARA, Frank. "My heart" / "Meu coração". In:_____. Meu coração está no bolso. Trad. de Beatriz Bastos e Paulo Henriques Britto. São Paulo: Luna Parque, 2017.

21.3.18

Frank O'Hara: "Melancholy breakfast" / "Café melancólico": trad. por Beatriz Bastos e Paulo Henriques Britto



Café melancólico
azul em cima azul embaixo

o ovo silencioso pensa
e o ouvido elétrico da torradeira
      espera

as estrelas se recolheram
“aquela nuvem se escondeu”

os elementos da descrença são bem fortes de manhã





Melancholy breakfast 
blue overhead blue underneath 

the silent egg thinks 
and the toaster's electrical 
            ear waits 

the stars are in 
"that cloud is hid" 

the elements of disbelief are very strong in the morning





O'HARA, Frank. "Melancholy breakfast" / "Café melancólico". In:_____. Meu coração está no bolso. Trad. de Beatriz Bastos e Paulo Henriques Britto. São Paulo: Luna Parque, 2017.

30.1.18

Paulo Henriques Britto: "Duas Bagatelas I"



                   Duas bagatelas I
              
                   O que conheço de mim
                   é quase só o que sei,
                   e o que sei é quase só
                   o que não quero saber.
                   Resta saber se isso tudo
                   é só o começo ou se é o fim
                   ou — o que é pior que tudo —
                   se é tudo.
  



BRITTO, Paulo Henriques. "Duas bagatelas I". In:_____. Mínima lírica. São Paulo: Companhia das Letras: São Paulo, 1989.

27.1.18

Frank O'Hara: "Why I am not a painter" / "Por que não sou pintor": trad. de Beatriz Bastos e Paulo Henriques Britto



Por que não sou pintor

Não sou pintor, e sim poeta.
Por quê? Acho que eu preferia
ser pintor, só que não sou. Bem,

por exemplo, o Mike Goldberg
está começando um quadro. Vou lá.
“Senta e bebe alguma coisa”, ele
diz. Bebo. Bebemos. Eu olho
pro quadro. “Você escreveu SARDINHAS.”
“Tinha que pôr alguma coisa ali.”
“Ah.” Os dias passam e eu
vou lá de novo. O quadro avança,
eu vou embora, e os dias vão
passando. Eu volto. O quadro está
pronto. “Cadê SARDINHAS?”
Só ficaram umas
letras. “Era demais”, diz Mike.

Mas e eu? Um dia eu penso numa
cor: laranja. Escrevo um verso sobre
laranja. E logo é uma página
inteira de palavras, não versos.
Depois outra página. Devia
haver muito mais, não laranja, mas
palavras, sobre o horror do laranja e
da vida. Os dias passam. Está até
em prosa, sou poeta mesmo. Meu poema
está pronto, e ainda nem falei em
laranja. Doze poemas, e o nome é
LARANJAS. E um dia numa galeria
vejo o quadro do Mike: SARDINHAS.




Why I am not a painter

I am not a painter, I am a poet.
Why? I think I would rather be
a painter, but I am not. Well,

for instance, Mike Goldberg
is starting a painting. I drop in.
“Sit down and have a drink” he
says. I drink; we drink. I look
up. “You have SARDINES in it.”
“Yes, it needed something there.”
“Oh.” I go and the days go by
and I drop in again. The painting
is going on, and I go, and the days
go by. I drop in. The painting is
finished. “Where’s SARDINES?”
All that’s left is just
letters, “It was too much," Mike says.

But me? One day I am thinking of
a color: orange. I write a line
about orange. Pretty soon it is a
whole page of words, not lines.
Then another page. There should be
so much more, not of orange, of
words, of how terrible orange is
and life. Days go by. It is even in
prose, I am a real poet. My poem
is finished and I haven’t mentioned
orange yet. It’s twelve poems, I call
it ORANGES. And one day in a gallery
I see Mike’s painting, called SARDINES.




O'HARA, Frank. "Why I am not a painter" / "Por que não sou pintor". In:_____. Meu coração está no bolso. Trad. de Beatriz Bastos e Paulo Henriques Britto. São Paulo: Luna Parque, 2017.