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12.11.19

Paulo Henriques Britto: "Spleen 2 ½"




Spleen 2 ½


Não se fazem mais lembranças
como as de antigamente.
Agora a memória apenas
acumula indiferente

o que logrou atrair
a atenção por um instante
e amarra tudo com o mesmo
indefectível barbante

e o joga numa gaveta
cronicamente emperrada,
a qual só será aberta
na hora errada.






BRITTO,  Paulo  Henriques. "Spleen 2 ½". In:_____. Nenhum mistério. São Paulo: Companhia das Letras, 2018.

16.3.19

Wallace Stevens: "The planet on the table" / "O planeta na mesa": Trad. por Paulo Henriques Britto




O planeta na mesa


Ariel gostou de ter escrito seus poemas.
Eram de um tempo relembrado
Ou de algo visto que o agradara.

Outros feitos do sol
Eram agrura e tumulto
E o arbusto maduro retorcido.

Seu ser e o sol eram um só
E seus poemas, embora feitos de seu ser,
Não eram menos feitos do sol.

Que perdurassem não era importante.
O importante era que portassem
Algum traço ou caráter,

Uma afluência, mesmo quase imperceptível,
Na pobreza de suas palavras,
Do planeta do qual faziam parte.






The planet on the table


Ariel was glad he had written his poems.
They were of a remembered time
Or of something seen that he liked.

Other makings of the sun
Were waste and welter
And the ripe shrub writhed.

His self and the sun were one
And his poems, although makings of his self,
Were no less makings of the sun.

It was not important that they survive.
What mattered was that they should bear
Some lineament or character,

Some affluence, if only half-perceived,
In the poverty of their words,
Of the planet of which they were part.






STEVENS, Wallace. "The planet on the table" / "O planeta na mesa". In:_____. O imperador do sorvete e outros poemas. Trad. por Paulo Henriques Britto. São Paulo: Companhia das Letras, 2017.

9.12.18

Wallace Stevens: "The house was quiet and the world was calm" / "A casa estava quieta e o mundo calmo": trad. de Paulo Henriques Britto



A casa estava quieta e o mundo calmo


A casa estava quieta e o mundo calmo.
Leitor tornou-se livro, e a noite de verão

Era como o ser consciente do livro.
A casa estava quieta e o mundo calmo.

Palavras eram ditas como se livro não houvesse,
Só que o leitor debruçado sobre a página

Queria debruçar-se, queria mais que muito ser
O sábio para quem o livro é verdadeiro

E a noite de verão é como perfeição da mente.
A casa estava quieta porque tinha de estar.

Estar quieta era parte do sentido e da mente:
Acesso da perfeição à página.

E o mundo estava calmo. Em mundo calmo,
Em que não há outro sentido, a verdade

É calma, é verão e é noite, a verdade
É o leitor insone debruçado a ler.






The house was quiet and the world was calm


The house was quiet and the world was calm.
The reader became the book; and summer night

Was like the conscious being of the book.
The house was quiet and the world was calm.

The words were spoken as if there was no book,
Except that the reader leaned above the page,

Wanted to lean, wanted much most to be
The scholar to whom his book is true, to whom

The summer night is like a perfection of thought.
The house was quiet because it had to be.

The quiet was part of the meaning, part of the mind:
The access of perfection to the page.

And the world was calm. The truth in a calm world,
In which there is no other meaning, itself

Is calm, itself is summer and night, itself
Is the reader leaning late and reading there.






STEVENS, Wallace. "The house was quiet and the world was calm" / "A casa estava quieta e o mundo calmo". In:_____. O imperador do sorvete e outros poemas. Trad. de Paulo Henriques Britto. São Paulo: Companhia das Letras, 2017.

12.11.18

Paulo Henriques Britto: "Da irresolução"



Da irresolução

Por não se estar preparado
perde-se a vida inteira.
A preparação, porém,
pra ser completa e certeira,

exigiria no mínimo
uma existência e meia.
Compreende-se, portanto,
aquele que titubeia

ao se ver face a face
com tamanho compromisso,
e termina decidindo
viver mesmo de improviso.




BRITTO, Paulo Henriques. "Da irresolução". In:_____. Nenhum mistério. São Paulo: Companhia das Letras, 2018.

4.10.18

Elizabeth Bishop: "The shampoo" / "O banho de shampoo": trad. de Paulo Henriques Britto



O banho de xampu

Os liquens – silenciosas explosões
nas pedras – crescem e engordam,
concêntricas, cinzentas concussões.
Têm um encontro marcado
com os halos ao redor da lua, embora
até o momento nada tenha mudado.

E como o céu há de nos dar guarida
enquanto isso não se der,
você há de convir, amiga,
que se precipitou;
e eis no que dá. Porque o Tempo é,
mais que tudo, contemporizador.

No teu cabelo negro brilham estrelas
cadentes, arredias.
Para onde irão elas
tão cedo, resolutas?
– Vem, deixa eu lavá-lo, aqui nesta bacia
amassada e brilhante como a lua.





The shampoo

The still explosions on the rocks,
the lichens, grow
by spreading gray, concentric shocks.
They have arranged
to meet the rings around the moon, although
within our memories they have not changed.

And since the heavens will attend
as long on us,
you've been, dear friend,
precipitate and pragmatical;
and look what happens.  For Time is
nothing if not amenable.

The shooting stars in your black hair
in bright formation
are flocking where,
so straight, so soon?
– Come, let me wash it in this big tin basin,
battered and shiny like the moon.





BISHOP, Elizabeth. "The shampoo" / "O banho de xampu". In:_____. Poemas escolhidos de Elizabeth Bishop. Seleção e trad. de Paulo Henriques Britto. São Paulo: Companhia das Letras, 2012.



29.8.18

Paulo Henriques Britto: "Da metafísica"



Da metafísica

Ser parte de alguém ou algo
tão grande que não se entenda:
toda crença, ao fim e ao cabo,
se resume a essa lenda --

o mais rematado dislate,
coisa jamais entendida,
que eleva ao sumo quilate
o caco mais reles de vida.




BRITTO, Paul Henriques. "Da metafísica". In:_____. Nenhum mistério. São Paulo: Companhia das Letras, 2018.

19.7.18

Frank O'Hara: "Today" / "Hoje": trad. de Beatriz Bastos e Paulo Henrique Britto



Hoje

Ah! cangurus, paetês, milk-shakes!
Que beleza! Pérolas, gaitas,
jujubas, aspirinas! todas essas
coisas sobre as quais sempre se fala

ainda fazem de um poema uma surpresa!
Elas estão conosco todos os dias mesmo
que em casamatas e catafalcos. São coisas
com sentido. São fortes feito pedra.


Today
Oh! kangaroos, sequins, chocolate sodas!
You really are beautiful! Pearls,
harmonicas, jujubes, aspirins! all
the stuff they’ve always talked about
 
still makes a poem a surprise!
These things are with us every day
even on beachheads and biers. They
do have meaning. They’re strong as rocks.



O'HARA, Frank. "Today"/"Hoje". In:_____. Meu coração está no bolso. Trad. de Beatriz Bastos e Paulo Henriques Britto. São Paulo: Luna Parque, 2017.




25.4.18

Frank O'Hara: "My heart" / "Meu coração": trad. de Beatriz Bastos e Paulo Henriques Britto



Meu coração

Não vou chorar o tempo todo
nem hei de rir o tempo todo,
não prefiro uma “tendência” a outra.
Prefiro o imediatismo de um filme ruim,
não só os filmes b, mas também
a superprodução espetacular. Quero ser
ao menos tão vital quanto o vulgar. E se
um aficionado de minha bagunça exclamar “Isso
não parece coisa do Frank!”, que bom! Não
uso ternos azuis e marrons o tempo todo,
não é? Não. Às vezes vou à Ópera com a roupa
de trabalho. Quero meus pés descalços,
o meu rosto barbeado, e o meu coração —
ninguém manda no coração, mas
o melhor dele, a minha poesia, está aberta.





My heart

I'm not going to cry all the time
nor shall I laugh all the time,
I don't prefer one "strain" to another.
I'd have the immediacy of a bad movie,
not just a sleeper, but also the big,
overproduced first-run kind. I want to be
at least as alive as the vulgar. And if
some aficionado of my mess says "That's
not like Frank!", all to the good! I
don't wear brown and gray suits all the time,
do I? No. I wear workshirts to the opera,
often. I want my feet to be bare,
I want my face to be shaven, and my heart—
you can't plan on the heart, but
the better part of it, my poetry, is open.




O'HARA, Frank. "My heart" / "Meu coração". In:_____. Meu coração está no bolso. Trad. de Beatriz Bastos e Paulo Henriques Britto. São Paulo: Luna Parque, 2017.

21.3.18

Frank O'Hara: "Melancholy breakfast" / "Café melancólico": trad. por Beatriz Bastos e Paulo Henriques Britto



Café melancólico
azul em cima azul embaixo

o ovo silencioso pensa
e o ouvido elétrico da torradeira
      espera

as estrelas se recolheram
“aquela nuvem se escondeu”

os elementos da descrença são bem fortes de manhã





Melancholy breakfast 
blue overhead blue underneath 

the silent egg thinks 
and the toaster's electrical 
            ear waits 

the stars are in 
"that cloud is hid" 

the elements of disbelief are very strong in the morning





O'HARA, Frank. "Melancholy breakfast" / "Café melancólico". In:_____. Meu coração está no bolso. Trad. de Beatriz Bastos e Paulo Henriques Britto. São Paulo: Luna Parque, 2017.

30.1.18

Paulo Henriques Britto: "Duas Bagatelas I"



                   Duas bagatelas I
              
                   O que conheço de mim
                   é quase só o que sei,
                   e o que sei é quase só
                   o que não quero saber.
                   Resta saber se isso tudo
                   é só o começo ou se é o fim
                   ou — o que é pior que tudo —
                   se é tudo.
  



BRITTO, Paulo Henriques. "Duas bagatelas I". In:_____. Mínima lírica. São Paulo: Companhia das Letras: São Paulo, 1989.

27.1.18

Frank O'Hara: "Why I am not a painter" / "Por que não sou pintor": trad. de Beatriz Bastos e Paulo Henriques Britto



Por que não sou pintor

Não sou pintor, e sim poeta.
Por quê? Acho que eu preferia
ser pintor, só que não sou. Bem,

por exemplo, o Mike Goldberg
está começando um quadro. Vou lá.
“Senta e bebe alguma coisa”, ele
diz. Bebo. Bebemos. Eu olho
pro quadro. “Você escreveu SARDINHAS.”
“Tinha que pôr alguma coisa ali.”
“Ah.” Os dias passam e eu
vou lá de novo. O quadro avança,
eu vou embora, e os dias vão
passando. Eu volto. O quadro está
pronto. “Cadê SARDINHAS?”
Só ficaram umas
letras. “Era demais”, diz Mike.

Mas e eu? Um dia eu penso numa
cor: laranja. Escrevo um verso sobre
laranja. E logo é uma página
inteira de palavras, não versos.
Depois outra página. Devia
haver muito mais, não laranja, mas
palavras, sobre o horror do laranja e
da vida. Os dias passam. Está até
em prosa, sou poeta mesmo. Meu poema
está pronto, e ainda nem falei em
laranja. Doze poemas, e o nome é
LARANJAS. E um dia numa galeria
vejo o quadro do Mike: SARDINHAS.




Why I am not a painter

I am not a painter, I am a poet.
Why? I think I would rather be
a painter, but I am not. Well,

for instance, Mike Goldberg
is starting a painting. I drop in.
“Sit down and have a drink” he
says. I drink; we drink. I look
up. “You have SARDINES in it.”
“Yes, it needed something there.”
“Oh.” I go and the days go by
and I drop in again. The painting
is going on, and I go, and the days
go by. I drop in. The painting is
finished. “Where’s SARDINES?”
All that’s left is just
letters, “It was too much," Mike says.

But me? One day I am thinking of
a color: orange. I write a line
about orange. Pretty soon it is a
whole page of words, not lines.
Then another page. There should be
so much more, not of orange, of
words, of how terrible orange is
and life. Days go by. It is even in
prose, I am a real poet. My poem
is finished and I haven’t mentioned
orange yet. It’s twelve poems, I call
it ORANGES. And one day in a gallery
I see Mike’s painting, called SARDINES.




O'HARA, Frank. "Why I am not a painter" / "Por que não sou pintor". In:_____. Meu coração está no bolso. Trad. de Beatriz Bastos e Paulo Henriques Britto. São Paulo: Luna Parque, 2017.


28.11.17

Wallace Stevens: "Man carrying thing" / "Homem carregando coisa": trad. de Paulo Henriques Britto



Homem carregando coisa

O poema tem que resistir à inteligência
Até quase conseguir. Exemplo:

Vulto pardo em tarde de inverno resiste
À identidade. O que ele carrega resiste

Ao sentido mais premente. Aceite-os, pois,
Como secundários (partes semipercebidas

Do todo óbvio, partículas incertas
Do sólido certo, primário indubitável,

Coisas a flutuar como os cem primeiros flocos
Da nevasca que há que suportar a noite inteira,

De uma tormenta de coisas secundárias),
Horror de pensamentos súbito reais.

Temos que suportá-los a noite inteira, até
Que o claro óbvio se mostre, imóvel, no frio.




Man carrying thing

The poem must resist the intelligence
Almost successfully. Illustration:

A brune figure in winter evening resists
Identity. The thing he carries resists

The most necessitous sense. Accept them, then,
As secondary (parts not quite perceived

Of the obvious whole, uncertain particles
Of the certain solid, the primary free from doubt,

Things floating like the first hundred flakes of snow
Out of a storm we must endure all night,

Out of a storm of secondary things),
A horror of thoughts that suddenly are real.

We must endure our thoughts all night, until
The bright obvious stands motionless in cold.




STEVENS, Wallace. "Man carrying thing" / "Homem carregando coisa". In:_____. O imperador do sorvete e outros poemas. Trad. de Paulo Henriques Britto. São Paulo: Companhia das Letras, 2017.

15.6.17

Frank O'Hara: "Autobiographia literaria": Trad. de Beatriz Bastos e Paulo Henriques Britto



Autobiographia literaria

Quando era menino eu
brincava sozinho num
canto do pátio da escola
sem ninguém.

Odiava bonecas e
odiava jogos, os bichos eram
hostis e os pássaros
fugiam.

Se alguém me procurava
eu me escondia atrás de uma
árvore e gritava "Sou
um órfão."

E olha eu aqui, o
centro de toda beleza!
escrevendo estes versos!
Imagina!




Autobiographia literaria

When I was a child
I played by myself in a
corner of the schoolyard
all alone.

I hated dolls and I
hated games, animals were
not friendly and birds
flew away.

If anyone was looking
for me I hid behind a
tree and cried out "I am
an orphan."

And here I am, the
center of all beauty!
writing these poems!
Imagine!



O'HARA, Frank. "Autobiographia literaria". In:_____. Meu coração está no bolso. Trad. de Beatriz Bastos e Paulo Henriques Britto. São Paulo: Luna Parque, 2017.


25.3.17

George Gordon Byron: "Beppo: a Venetian story, XLIV" / "Beppo: uma história veneziana, XLIV": trad. Paulo Henriques Britto




XLIV

Adoro o italiano, esse latim
  Bastardo, doce e suave como um beijo,
Como se escrito em folhas de cetim,
  De sons tão musicais quanto um solfejo,
Sílabas líquidas do início ao fim,
  Tão diferentes desse gargarejo
Que lá no norte agride-nos o ouvido —
  Sibilado, anasalado e cuspido.


XLIV

I love the language, that soft bastard Latin,         
  Which melts like kisses from a female mouth,
And sounds as if it should be writ on satin,
  With syllables which breathe of the sweet South,
And gentle liquids gliding all so pat in,
  That not a single accent seems uncouth,         
Like our harsh northern whistling, grunting guttural,
  Which we’re obliged to hiss, and spit, and sputter all.




BYRON, George Gordon. "Beppo: a Venetian story" /"Beppo: uma história veneziana". In: Lord Byron. Beppo: uma história veneziana. Trad.: Paulo Henriques Britto. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2010.

25.12.16

Paulo Henriques Britto: "Cuidado poeta..."




Cuidado, poeta: o tempo engorda a alma.
Depois de um certo número de páginas
anjos não pousam mais nas entrelinhas.
E até a lucidez, essa moderna,
também se gasta, como qualquer moeda.

O ter o que dizer é jogo arriscado,
não se resolve com um só lance de dados.
Não basta a precisão do gesto apenas.
O gesto mais felino é quase nada
sem o lastro da existência, essa cansada,

com sua textura por demais espessa
pra traspassar a tímida peneira
da pálida poesia, essa antiga.
O tempo é escasso. O dicionário é gordo.
Cuidado: Todo silêncio é pouco.



BRITTO, Paulo Henriques. "Cuidado poeta...". In: FÉLIX, Moacyr (org.). 41 poetas do Rio. Rio de Janeiro: FUNARTE, 1998.

15.10.15

Elizabeth Bishop: "Insomnia" / "Insônia": trad. Paulo Henriques Britto





Insônia

A lua no espelho da cômoda
está a mil milhas, ou mais
(e se olha, talvez com orgulho,
porém não sorri jamais)
muito além do sono, eu diria,
ou então só dorme de dia.

Se o Mundo a abandonasse,
ela o mandava pro inferno,
e num lago ou num espelho
faria seu lar eterno.
— Envolve em gaze e joga
tudo que te faz sofrer no

poço desse mundo inverso
onde o esquerdo é que é o direito,
onde as sombras são os corpos,
e à noite ninguém se deita,
e o céu é raso como o oceano
é profundo, e tu me amas.




Insomnia

The moon in the bureau mirror
looks out a million miles
(and perhaps with pride, at herself,
but she never, never smiles)
far and away beyond sleep, or
perhaps she's a daytime sleeper.

By the Universe deserted,
she'd tell it to go to hell,
and she'd find a body of water,
or a mirror, on which to dwell.
So wrap up care in a cobweb
and drop it down the well

into that world inverted
where left is always right,
where the shadows are really the body,
where we stay awake all night,
where the heavens are shallow as the sea
is now deep, and you love me. 




BISHOP, Elizabeth. "Insomnia" / "Insônia". In:_____. Poemas escohidos de Elizabeth Bishop. Seleção, tradução e textos introdutórios de Paulo Henriques Britto. São Paulo: Companhia das Letras, 2011.

10.9.15

George Gordon Byron: estrofe XIX de "Beppo: a Venetian story" / "Beppo: uma história veneziana": trad. Paulo Henriques Britto





XIX

Já viste uma gôndola, meu prezado
Leitor? Vou descrever – é coisa à toa:
Um barco negro, coberto, alongado,
Leve e compacto; tem de ferro a proa,
E é por dois remadores tripulado.
Mais parece um caixão numa canoa,
E dentro dele, o que se diga ou faça
Jamais é percebido por quem passa.



XIX

Didst ever see a Gondola? For fear
You should not, I'll describe it you exactly:
'Tis a long covered boat that's common here,
Carved at the prow, built lightly, but compactly,
Rowed by two rowers, each call'd "Gondolier,"
It glides along the water looking blackly,
Just like a coffin clapt in a canoe,
Where none can make out what you say or do.




BYRON, George Gordon. Estrofe XIX. Trad. de Paulo Henriques Britto. In:_____. Beppo: uma história veneziana. Trad. de Paulo Henriques Britto. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2010.  

30.7.15

OCUPAÇÃO POÉTICA DO TEATRO CÂNDIDO MENDES






OCUPAÇÃO POÉTICA – TEATRO CÂNDIDO MENDES

Divididos em três noites, seis importantes poetas – Adriano Espínola, Alex Varella, Antonio Carlos Secchin, Antonio Cícero, Paulo Henriques Britto, Salgado Maranhão – lerão obras autorais, inéditas e consagradas, e também textos de outros poetas.

Coordenação: PAULO SABINO
Sexta-feira (31/07): ANTONIO CICERO & ALEX VARELLA
Sábado (01/08): SALGADO MARANHÃO & ADRIANO ESPÍNOLA
Domingo (02/08): ANTONIO CARLOS SECCHIN & PAULO HENRIQUES BRITTO

Horário: 20h
Entrada: R$ 5,00
Centro Cultural Cândido Mendes. End.: Joana Angélica, 63 – Ipanema, Rio de Janeiro. Tel.: (21) 
2523-3663.

1.9.13

Elizabeth Bishop: "It is marvellous to wake up together" / "É maravilhoso despertar juntas": trad. Paulo Henriques Britto






"It is marvellous to wake up together"

It is marvellous to wake up together
At the same minute; marvellous to hear
The rain begin suddenly all over the roof,
To feel the air suddenly clear
As if electricity had passed through it
From a black mesh of wires in the sky.
All over the roof the rain hisses,
And below, the light falling of kisses.

An electrical storm is coming or moving away;
It is the prickling air that wakes us up.
If lightning struck the house now, it would run
From the four blue china balls on top
Down the roof and down the rods all around us,
And we imagine dreamily
How the whole house caught in a bird-cage of lightning
Would be quite delightful rather than frightening;

And from the same simplified point of view
Of night and lying flat on one’s back
All things might change equally easily,
Since always to warn us there must be these black
Electrical wires dangling. Without surprise
The world might change to something quite different,
As the air changes or the lightning comes without our blinking,
Change as our kisses are changing without our thinking.




"É maravilhos despertar juntas"

É maravilhoso despertar juntas
No mesmo minuto; maravilhoso ouvir
A chuva começando de repente a crepitar no telhado,
Sentir o ar limpo de repente
Como se percorrido pela eletricidade
Numa rede negra de fios no céu.
No telhado, a chuva cai, tamborilando,
E cá embaixo, caem beijos brandos.

Uma tempestade está  chegando ou indo embora;
É o ar carregado que nos desperta.
Se um raio caísse na casa agora, desceria
Das quatro bolas azuis de porcelana lá no alto,
Se espalhando pelo telhado e os para-raios a nossa volta,
E imaginamos sonhadoras,
Que a casa inteira, uma gaiola de energia elétrica,
Seria muito agradável, e nada tétrica.

E do mesmo ponto de vista simplificado
Da noite, e de estar deitadas,
Todas as coisas poderiam mudar com igual facilidade,
Pois por esses fios elétricos negros
Seríamos sempre alertadas. Sem surpresa,
O mundo poderá virar algo muito diferente.
  Tal como o ar muda ou o relâmpago cai sem piscarmos,
Como estão mudando nossos beijos sem pensarmos.




BISHOP, Elizabeth. Poemas escolhidos de Elizabeth Bishop. Seleção, tradução e textos introdutórios de Paulo Henriques Britto. São Paulo: Companhia das Letras, 2012.