16.10.17

Edgar Allan Poe: "Eldorado": trad. de Nelson Ascher



Eldorado

Um cavaleiro
seguiu faceiro
ao sol e à sombra, ousado
e, não obstante,
cantarolante,
em busca do Eldorado.

Mas ficou velho
esse andarilho
e não pôde, assombrado,
nunca, em lugar
algum, achar
nem sombra de Eldorado.

Enfim, diante
de sombra errante,
parou, já fatigado
e indagou: "Onde,
sombra, se esconde
a terra de Eldorado?"

"Vai às montanhas
da lua e entranhas
do atroz vale assombrado,
que há mais viagem”,
disse a miragem,
"se buscas o Eldorado."




Eldorado

Gaily bedight,
A gallant knight,
In sunshine and in shadow,
Had journeyed long,
Singing a song,
In search of Eldorado.

But he grew old
This knight so bold
And o'er his heart a shadow
Fell as he found
No spot of ground
That looked like Eldorado.

And, as his strength
Failed him at length,
He met a pilgrim shadow
"Shadow," said he,
"Where can it be
This land of Eldorado?"

"Over the Mountains
Of the Moon,
Down the Valley of the Shadow,
Ride, boldly ride,"
The shade replied
"If you seek for Eldorado!"




POE, Edgar Allan. "Eldorado". In: ASCHER, Nelson (trad. e org.). Poesia Alheia. 124 poemas traduzidos. Rio de Janeiro: Imago, 1998.

12.10.17

Juan Ramón Jiménez: "Ruta" / "Rota": trad. Antonio Cicero



Ruta

Todos duermen, abajo.
                                 Arriba, alertas,
el timonel y yo.


Él, mirando la aguja, dueño de
los cuerpos, con sus llaves
echadas. Yo, los ojos
en lo infinito, guiando
los tesoros abiertos de las almas.



JIMÉNEZ, Juan Ramón. "Ruta". In:_____. Piedra y cielo. Verso (1917-1918). Madrid: Edição do autor, 1919.





Rota

Todos dormem, embaixo.
                                    Em cima, alertas
o timoneiro e eu.

Ele, olhando a bússola, dono
dos corpos atrás de portas
fechadas. Eu, os olhos
no infinito, guiando
os tesouros abertos das almas.





9.10.17

Cacá Diegues: "Tragam suas crianças"



O seguinte, excelente artigo de Cacá Diegues foi publicado em O Globo de domingo, 8 de outubro de 2017:


Tragam suas crianças


Em 1865, o quadro “Olympia”, do pintor Édouard Manet, um dos pais históricos do impressionismo, foi recusado no Salão de Belas Artes de Paris. O quadro rejeitado foi então exposto no Salão dos Recusados, onde provocou um escândalo sem precedentes. “Olympia” retratava uma mulher nua, deitada na cama enquanto uma criada lhe trazia flores.

Além de mal pintado, um borrão de cores desordenado, atentado à boa pintura de uma época neoclássica e acadêmica, “Olympia” foi acusado também de indecente e pornográfico. Professores e estudantes de Belas Artes organizavam passeatas contra a obra, mães de família cobriam o quadro com lençóis para que ele não fosse visto, jornalistas zombeteiros faziam piadas ao vivo e em seus jornais.

Não se tem notícia, porém, de nenhuma autoridade local propondo sorridente que a tela e seus admiradores fossem jogados no fundo do mar.

Exatamente 150 anos depois, no verão europeu de 2015, o Museu d’Orsay e o l’Orangerie, duas das principais salas de exposição de arte em Paris, iniciaram intensa campanha de promoção de suas mostras com uma frase: “Emmenez vos enfants voir des gens tout nus” (em tradução livre, “Tragam suas crianças para ver pessoas completamente nuas”). E a imagem que ilustra a frase, nos cartazes da campanha, é a da tela “Mulher nua deitada”, pintada em 1907 por outro mestre impressionista, Auguste Renoir.

Os cartazes foram espalhados pelas ruas, por pontos de ônibus e estações de metrô, por onde quer que a população de Paris passasse. Segundo a diretora do Museu d’Orsay, a campanha, além de lembrar que os filhos podem ser responsáveis pela presença dos pais nas exposições, pretende também educar as crianças para um melhor conhecimento da vida através da arte. Mesmo uma tela como a célebre “A origem do mundo”, de Gustave Courbet, simples, dinâmica e bela reprodução do órgão sexual feminino, está liberada para a visão das crianças.

O Estado francês não tem o direito de se meter nesse assunto e não se meteu. A aprovação da maior parte da população do país coroa o avanço ético e educacional que o procedimento representa. Não se pode tratar crianças como débeis mentais, protegidas do mundo pela ignorância cultivada pelos pais e educadores; elas são responsáveis pela direção que o mundo um dia vai tomar. Qual o problema de conhecerem melhor o corpo humano e seu funcionamento? Para que serve a vida?

Além disso, vai à exposição e leva seus filhos quem bem quiser, contanto que não incomode ninguém. Quem não quiser, tampouco será obrigado a ir, sozinho ou acompanhado. É assim que funciona a democracia.

Uma emergente mentalidade restritiva e boçalizante tem se tornado frequente no Brasil de hoje. Os esforços do nosso modernismo na cultura brasileira, sobretudo durante a segunda metade do século XX, frustram-se na proibição de manifestações de liberdade, de novos conhecimentos, de exercícios da diferença e de alegria. O modernismo nos ensinou o direito de sermos felizes. Ele livrou o Brasil da falsidade colonial, de uma cultura de repressão, da negação do que somos. E agora somos ameaçados por essa aurora de um novo medievalismo cheio de preconceitos e de sombra. Antes de tudo, se condena a felicidade.

Os nazistas sabiam que a cultura é o cerne de toda nação que se quer formar. Goebbels inaugurou o domínio deles sobre a Alemanha com uma exposição de “Arte degenerada”, uma seleção de tudo que fosse liberdade criativa, tudo que representasse manifestação livre da invenção humana. O mais importante teórico do Partido Nazista, Alfred Rosenberg, acusou de degenerada a estética modernista de pintores como Chagall, Mondrian, Kandinsky, Klee, todos eles, cujas telas foram queimadas, antecedendo a grande fogueira de livros que representavam o mesmo “subjetivismo degenerado”.

Essa experiência não ficou perdida no tempo. Agora mesmo, já no século XXI, conhecemos o movimento político e cultural dos talibãs no Afeganistão e do Estado Islâmico no Iraque e na Síria, destruindo monumentos e cidades inteiras, sob o pretexto de adorações que contrariavam as crenças do islamismo. O fundamentalismo se repete no mundo inteiro, através de ações intolerantes em nome das religiões mais populares.

No Brasil, além da violência contra a “Queermuseu” em Porto Alegre e a performance “La Bête” no MAM de São Paulo, já tivemos a depredação do túmulo de Chico Xavier em Uberaba, a destruição de uma casa de candomblé apedrejada em Nova Iguaçu, a proibição da peça “O Evangelho segundo Jesus, Rainha do Céu” por um juiz do interior paulista, a alegre proposta de atirar uma exposição inteira no fundo do mar. E por aí afora.

A arte é um ofício solitário e sem limites conceituais, ninguém pode tentar domá-la em benefício de uma ideia que lhe é estranha. Desde as estátuas nuas de deuses e heróis gregos, tem sido sempre assim e assim sempre será. Esse é o jeito que temos de saber quem somos e o que queremos ser. A censura a isso, seja em nome do que for, é sempre inaceitável.


Cacá Diegues

8.10.17

Gregório Duvivier: "Plano de Poder"



É muito atual o seguinte momento do "Greg News", do Gregório Duvivier. Afinal, na semana passada, o pastor Crivella, por razões pseudo-moralistas, censurou uma exposição de arte. Como diz Gregório, precisamos estar atentos -- neste momento confuso da política brasileira -- ao perigoso plano de poder da Igreja Universal do Reino de Deus.

7.10.17

Adriano Nunes: "A falar de versos"



A falar de versos

para Antonio Cicero (por seu aniversário) 

Praia planejada
No primeiro encontro.
Mas a chuvarada
Veio forte e... Pronto:

Estamos nós dois
A falar de versos
E do que depois
Será, mais imersos

Em cada poeta
Que amamos. O mar
Até nos completa,
Neste patamar

De alegria estética.
Do Latino, as Odes
Belas, as grãs Odes!
Do Helênico, a Ética...

Na prima visita,
Rápida, na praia,
A arte se espraia
E a vida se agita.



Adriano Nunes

4.10.17

Antonio Cicero: "O poeta lírico"



O poeta lírico

Não sei contar histórias. Minha prima,
Corina, que sabe fazê-lo, disse
ser esse defeito a causa ostensiva
do que, em falso tom de corriqueirice,
ela se deleita em qualificar
de “o óbvio malogro” das minhas lides
poéticas. Tive que concordar
pois, por não sei que artes de berliques
e berloques, ela me criticava
com um argumento do próprio Filósofo
– para ela anacrônico e monótono –
em cuja obra-prima eu mergulhara
há tanto tempo – e a fundo – e ela nada.
Eu morreria se tivesse um óbolo.



CICERO, Antonio. "O poeta lírico". In:_____. Porventura. Rio de Janeiro: Record, 2012.

2.10.17

Entrevista a Nahima Maciel, do "Correio Brasiliense"


A seguinte entrevista foi dada por mim a Nahima Maciel, do Correio Brasiliense, durante a 33ª Feira do Livro de Brasília, em junho deste ano:


Antonio Cicero afirma que a poesia permite ampliar a experiência do ser
O poeta e filósofo esteve na capital federal para pareticipar da 33ª Feira do Livro de Brasília

24/06/2017

Nahima Maciel

A filosofia é inevitável e, nos dias de hoje, extremamente necessária. É a “metalinguagem terminal”, nas palavras do poeta e filósofo Antonio Cicero. Tem uma certa coerência e alguma utilidade, já que filosofar pode ser um caminho para melhorar o mundo. A poesia é outra coisa. Não tem utilidade prática alguma e permite apreender o mundo em uma outra dimensão que não aquela das coisas funcionais. “A poesia é a língua-objeto terminal”, explica Cicero, que esteve em Brasília para a 33ª Feira do Livro de Brasília para falar do tropicalismo, tema do evento. O filósofo acaba de lançar A poesia e a crítica, coletânea com textos de palestras e ensaios proferidos e escritos nos últimos 11 anos.


Em 2016, Cicero lançou um disco em parceria com Arthur Nogueira. Presente foi uma espécie de celebração dos 70 anos do artista, mas também um aviso de que, a partir de agora, pretende se dedicar apenas à poesia. E essa, no caso do Brasil, está muito ligada à música graças a movimentos como a bossa nova e a tropicália. Na apresentação de A poesia e a crítica, Cicero conta como se encantou com Caetano Veloso no final dos anos 1960, quando foi morar em Londres para estudar e fugir da ditadura. Veloso, na época no exílio e casado com Dedé Gadelha, prima de Cícero, era capaz de colocar abaixo as barreiras entre o erudito e o popular graças a uma grande liberdade de pensamento, a mesma que fez Tom Jobim e Vinicius de Moraes ignorarem essas fronteiras.

Dessa forma, a poesia e a música sempre andaram juntas, mais agarradas uma à outra no Brasil do que em outros países. “Você vê um músico extraordinário como Tom Jobim fazendo música popular, um poeta como Vinicius de Moraes, erudito, de repente fazendo canções com Tom Jobim. Depois, veio uma geração incrível de pessoas influenciadas por eles. O próprio Caetano, um grande poeta. Não tem como negar. O Chico Buarque. São grandes poetas e músicos que estão fazendo coisas novamente consideradas menores, mas que não são menores”, diz Cicero, ao comentar o estardalhaço feito em torno do prêmio Nobel de literatura concedido a Bob Dylan. Abaixo, Cícero fala sobre filosofia, sobre o Brasil e sobre a  poesia no mundo contemporâneo.


Ainda é importante falar de filosofia hoje?

Não se pode evitar a filosofia. Chamo a filosofia de metalinguagem das metalinguagens. Metalinguagem é a linguagem que fala de outra linguagem. Se estou falando sobre um livro de poesia ou qualquer outra coisa, minha linguagem é metalinguística em relação a ele. A poesia é a metalinguagem das metalinguagens. A língua sobre a qual se fala é a língua-objeto. Não é possível falar da filosofia sem filosofar porque só a filosofia fala de si própria. A filosofia é a metalinguagem terminal e a poesia é a língua-objeto terminal. Então, você não pode atacar a filosofia sem ser filosófico. E a filosofia, justamente por isso, fala das últimas coisas, ou das primeiras. Ela fala sobre o ser de maneira geral, sobre o sentido da vida. A ética faz parte da filosofia, a estética, também. Não há como evitar. A filosofia puramente quer ser. Tem a ver com a razão e com o intelecto. A religião tem a ver com fé, emoção.

Está difícil falar de ética hoje no Brasil?

Um dos problemas que vejo no Brasil é que todas as ideologias tradicionais funcionam quase como uma religião. Os conjuntos de ideias que as pessoas tinham sobre o Brasil ou o mundo, aparentemente, falharam todos. Depois da queda da cortina de ferro, tudo falhou. Parece que não deu certo. As previsões e as esperanças para a esquerda não deram certo. A URSS não funcionou, a China maoísta, que era contra a URSS porque achava que tinha um marxismo-leninismo mais puro, não deu certo. Isso criou uma situação muito complicada para as pessoas que tinham essa ideologia, o que não quer dizer que as ideologias de direita sejam melhores ou funcionem melhor. Não acredito nisso. Na verdade, nenhuma deu certo. Agora é uma hora de se pensar de novo no que Marx realmente queria.

Como assim?

O materialismo histórico, que pretende ser o marxismo científico, não deu certo. A partir dele  previa-se, por exemplo, que a classe operária teria salários cada vez menores; que haveria uma queda da taxa de lucro dos capitalistas; que as tentativas das nações capitalistas de evitar as crises econômicas falhariam; que haveria revoluções socialistas nos países mais avançados, não nos menos avançados. Essas previsões falharam. Karl Popper, um pensador austríaco, dizia que a ciência – e Marx pensava que tinha feito uma filosofia científica – não pode estar sempre procurando provar que está certa, como faz o marxismo. Ao contrário, a verdadeira ciência está sempre procurando coisas que poderiam “desprovar” o que ela afirma. Está sempre se submetendo a testes. E enquanto os testes não destruírem a teoria científica, ela se segura. Mas pode vir alguém no futuro que faça uma experimentação e mostre que tudo está errado. A ciência é isso, está sempre ali sendo testada.

O que faz de um poema, um poema?

Essa coisa é muito difícil de responder. Já tive várias maneiras de falar desse assunto. Não existe uma definição que seja universalmente aceitável do que é poesia. Goethe dizia que a gente fala da poesia como uma das artes, mas isso está errado: a gente devia pensar em cada arte como sendo uma das várias formas de poesia. E poesia como se fosse um nome para as artes em geral. E tem a poesia que produz os poemas. Não só versos, porque há poemas em prosa e poemas visuais. O importante nas diferentes artes é que elas nos oferecem uma maneira de apreender o próprio ser, a vida, o mundo, diferente daquele que temos cotidianamente.

E como é nossa forma de ver o mundo no cotidiano?

É extremamente utilitária. A gente faz as coisas todas tendo em vista determinados propósitos, determinadas finalidades. Tudo é muito calculado. A gente apreende o mundo a partir dessa maneira de ver as coisas, cada coisa tem um sentido, serve para uma coisa. E a gente tende a ver as próprias pessoas assim. A poesia, não.

A poesia possibilita, como você fala em um dos textos do livro, uma nova dimensão do ser. Que dimensão?

A gente passa a apreender o mundo de uma maneira diferente quando entra num poema, numa pintura, numa peça musical. Nosso mundo se amplia porque a gente percebe as coisas de uma maneira que a gente não percebia antes. É como se fosse uma outra dimensão. Existe a dimensão utilitária e existe essa dimensão estética, usando essa palavra com cuidado porque muita gente pode apreender o próprio estético como utilitário, como se fosse o que a gente acha bonito. Não é isso, é uma coisa mais ampla. Vamos dizer, apreender de um  modo artístico a linguagem, sentir. Isso enriquece nossa maneira de estar no mundo. Devemos ter essa maneira de estar no mundo mesmo sem estar lendo um poema. É possível curtir as coisas de uma maneira diferente. A poesia nos leva a isso e nos abre muitas perspectivas sobre as diferentes coisas que estão no mundo e na nossa vida. E ela faz isso subvertendo a maneira normal de a gente realmente ver as coisas, captar, apreender.

Se falou muito da ligação entre música e poesia quando Bob Dylan ganhou o Nobel, mas no Brasil essa discussão existe há muito tempo. Falamos mais nisso por termos a música que temos? 

Acho que sim. No Brasil aconteceu mais fortemente do que nos outros países essa compreensão de que não é possível separar radicalmente o que é alta cultura, cultura erudita, do que é cultura popular. A ideia, que é uma ideia moderna e necessária, é que não se julgue uma obra a partir do lugar que a ela é convencionalmente designado. Se trata de uma obra erudita ou popular? Não. O que interessa é, primeiro, você olhar a própria coisa e ela ser capaz de ter esse efeito de que falei, estético ou artístico. Pode ser mais forte ou menos forte, mas isso não depende de ela ser erudita ou popular. O Bob Dylan pode, de repente, ter isso tão forte quanto um compositor de música erudita. Não dá mais para julgar com preconceito.

E qual o papel da Bossa Nova e da Tropicália nisso?

A bossa nova foi o movimento que realmente tematizou isso e compreendeu totalmente o que tinha acontecido. E quem fez isso mais claramente ainda foram os tropicalistas. Eles compreenderam totalmente essa situação e fizeram uma revolução nesse sentido. Isso foi muito importante. Foram eles que tornaram possível a gente compreender que aquela hierarquia tinha dançado.

Você vislumbra alguma outra revolução desse tipo possível na cultura brasileira?

Não. Mas acho que não precisa ter. Já foi feita essa revolução, já se sabe disso. O que tem é muita coisa muito ruim e algumas poucas coisas boas. Mas sempre foi assim, em todas as épocas e em todas as áreas. A gente sempre acha que agora é pior. Tenho a impressão de que quem viveu a experiência tropicalista pode ter isso muito forte. Eu vivi, mas tento me conter porque, às vezes, acho que ainda não deu tempo de perceber as coisas boas que estão sendo feitas. Há tanta coisa. A internet multiplicou. Todo mundo escreve poesia hoje. Mesmo quem não gosta. É estranhíssimo. E claro que a maior parte não é boa. Mas alguns poetas são muito bons.

A internet fez mal para a poesia?

Acho que não fez mal, mas permitiu a muita gente escrever. Isso tem um lado bom, talvez pessoas que não apareciam antes apareçam agora. Mas é que é tanta coisa que é muito difícil você filtrar. E demora um tempo. Essas coisas vão sendo filtradas com o tempo.





30.9.17

Marcelo Rondinelli: "Hölderlin (re)traduzido no Brasil: constelações poético-tradutórias, acontecimentos"


O poeta André Vallias acaba de me chamar atenção para um belo ensaio do Professor Marcelo Rondinelli, intitulado "Hölderlin (re)traduzido no Brasil: constelações poético-tradutórias, acontecimentos". Nesse texto são consideradas, entre outras coisas, algumas das traduções que fiz de poemas do grande poeta alemão. O ensaio foi originalmente publicado no vol.18, nº2, 2016 da Revista Graphos -- que é uma publicação do Programa de Pós-Graduação em Letras da Univesidade Federal da Paraíba -- e pode ser lido aqui: http://periodicos.ufpb.br/index.php/graphos/article/viewFile/32163/16707.

29.9.17

Cecília Meireles: "Se eu fosse apenas..."



Se eu fosse apenas...

Se eu fosse apenas uma rosa,
com que prazer me desfolhava,
já que a vida é tão dolorosa
e não te sei dizer mais nada!

Se eu fosse apenas água ou vento,
com que prazer me desfaria,
como em teu próprio pensamento
vais desfazendo a minha vida!

Perdoa-me causar-te a mágoa
desta humana, amarga demora!
– de ser menos breve do que a água,
mais durável que o vento e a rosa...



MEIRELES, Cecília. "Se eu fosse apenas". In:_____. "Retrato natural". In:_____. Obra poética. Rio de Janeiro: Aguilar, 1967,

27.9.17

Jean-Pierre Lemaire: "Le piano" / "O piano": trad. de Júlio Castañon Guimarães



O piano

No piano, havia um outro mundo
com florestas, campos cheios de animais
cidades ao pôr do sol, batalhas
vozes que pareciam a de meu pai
histórias, viagens a todos os países
e sobretudo, acho eu, nossa história futura
que era preciso decifrar sem poder se apressar demais.



Le piano

Dans le piano, il y avait un autre monde
avec des forêts, des prairies pleines d’animaux
des villes au soleil couchant, des batailles
des voix qui ressemblaient à celle de mon père
des contes, des voyages dans tous les pays
et surtout, je crois, notre histoire future
qu’il fallait déchiffrer sans pouvoir aller vite





LEMAIRE, Jean-Pierre. "Le piano" /"O piano". In:_____. Poemas. Trad. de Júlio Castañon Guimarães. São Paulo: Lumme Editor, 2010. 

24.9.17

José Paulo Paes: "Madrigal"



Madrigal

Meu amor é simples, Dora,
Como a água e o pão.

Como o céu refletido
Nas pupilas de um cão.



PAES, José Paulo. "Madrigal". In:_____. Poemas reunidos. São Paulo: Diário de S. Paulo, 1961.

22.9.17

Jorge Salomão: "onde se esconde o selvagem coração?"



onde se esconde o selvagem coração?
na lata de lixo ou passeia de bonde?
na marginal ou na transversal?
o que fazer para achá-lo no baú do caos?
nas curvas ou nas linhas retas?
no sentido ou na percepção?
ah! confuso jeito de encarar o viver
como agulha no palheiro
procurá-lo, é fogo
se espalhando no campo
não há início nem meio nem fim
onde crepita alado esse coração?
que ventos são esses que sopram assim
mandando os barcos contra os rochedos?



SALOMÃO, Jorge. 
                                 Rio, 2017

21.9.17

Ricardo Silvestrin: "deus descansou"



deus descansou
e esse foi seu vacilo
achou que o jogo estava ganho
e o mundo então deu naquilo
deus lavou as mãos
disse se virem
já fiz a minha parte
pensam que é mole
tirar um mundo da cartola
se querem perfeito
nada feito
tô fora
e se foi pelo infinito
sem dar ouvidos
aos gritos
de deus do céu
deus nos proteja
deus nosso senhor
onde anda
por hoje o criador
pelo universo
de banda
gozando a aposentadoria
que ganhou em sete dias
fez um mundo imperfeito
mas bate no peito
e diz
se não gostarem
façam outro
devolução não aceito
já fiz o homem
à minha imagem e semelhança
pra continuar
no meu lugar
a lambança



SILVESTRIN, Ricardo. “deus descansou”. In:_____. Metal. Porto Alegre: Artes e Ofícios, 2013.

18.9.17

Octavio Paz: "Escritura"



Escritura

Yo dibujo estas letras
como el día dibuja sus imágenes
y sopra sobre ellas y no vuelve.



Escritura

Desenho estas letras
como o dia desenha suas imagens
e sopra sobre elas e não volta.




PAZ, Octavio. "Escritura". In:_____. Lo mejor de Octavio Paz. El fuego de cada día. Barcelona: Seix Barral, 1998.

15.9.17

Luís de Camões: "Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades"



Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades

Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades,
muda-se o ser, muda-se a confiança;
todo o mundo é composto de mudança,
tomando sempre novas qualidades.

Continuamente vemos novidades,
diferentes em tudo da esperança;
do mal ficam as mágoas na lembrança,
e do bem – se algum houve – as saudades.

O tempo cobre o chão de verde manto,
que já coberto foi de neve fria,
e enfim converte em choro o doce canto.

E, afora este mudar-se cada dia,
outra mudança faz de mor espanto:
Que não se muda já como soía.



CAMÕES, Luís. "Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades". In:_____. Lírica completa II. Sonetos. Lisboa: Imprensa Nacional; Casa da Moeda, 1980.

12.9.17

Antonio Carlos Secchin: "A gaveta"



A gaveta

A gaveta está trancada,
a chave levou Maria.
Nela guardados os planos
de quem já fui algum dia?
Decerto aí também mora
a linha da pescaria
que mirou no meu futuro,
mas errou a pontaria.
Desconheço se ela abriga
alguma mercadoria
dispondo de mais valor
que um pardal na ventania.
Mas por que agora eu escuto
numa quase litania
as vozes que dela saem
e se engrossam em gritaria?
Chamo então um bom chaveiro
da Europa, Olinda ou Bahia,
para arrombar a gaveta,
pois lá do fundo eu traria
a chave de algum passado
que aprisionado me espia.
Chega um e chegam dez
chaveiros em romaria.
A gaveta a todos eles,
um por um, derrotaria.
São bem fracos contra a força
e a resistência bravia
que a tal fechadura impõe
frente a tal cavalaria.
Na madrugada, cansado
pela perdida porfia,
percebo voando no ar
uma dúbia melodia.
Provém daquela gaveta:
ela afinal me induzia
a entrar sem maior esforço,
já que a mim se entregaria,
e dentro de si guardava
peça de imensa valia;
eu agora nem de chave
nem de nada carecia.
Conseguiu me convencer
com voz bastante macia,
e, pronto para apossar-me
da mais pura pedraria,
abri-a com a mão amante
de quem pisa em joalheria.
O tesouro acumulado
era a gaveta vazia.
Dois insetos passeavam
sobre a superfície fria.



SECCHIN, Antonio Carlos. "A gaveta". In:_____. Desdizer. Rio de Janeiro: Topbooks, 2017.




10.9.17

Ferreira Gullar: "Um pouco antes"



Agradeço a meu amigo Adriano Nunes por me ter lembrado que hoje Ferreira Gullar faria 87 anos. Viva Gullar!



Um pouco antes

Quando já não for possível encontrar-me
em nenhum ponto da cidade
ou do planeta
                    pensa
                            ao veres no horizonte
                            sobre o mar de Copacabana
                                                          uma nesga azul de céu
                    pensa que resta alguma coisa de mim
                    por aqui
                                Não te custará nada imaginar
                                que estou sorrindo ainda naquela nesga
                                azul celeste
                                pouco antes de dissipar-me para sempre




GULLAR, Ferreira. "Um pouco antes". In:_____. "Em alguma parte alguma". In:_____. Toda poesia. Rio de Janeiro: José Olympio, 2015.

8.9.17

Giuseppe Ungaretti: "Sereno" / "Céu claro": trad. de Geraldo Holanda Cavalcanti



Sereno

Bosco di Courton Iuglio 1918

Dopo tanta
nebbia
a una
a una
si svelano
le stelle.

Respiro
il fresco
che mi lascia
il colore del cielo,

mi riconosco
immagine
passeggera

Presa in un giro
immortale




Céu claro

Bosque de Courton, julho de 1018

Depois de tanta
névoa
uma
a uma
se desvelam
as estrelas

Respiro
o frescor
que me deixa
a cor do céu

Me reconheço
imagem
passageira

Presa de um ciclo
imortal



UNGARETTI, Giuseppe. "Sereno" / "Céu claro". In:_____. A alegria. Edição bilíngüe. Trad. de Geraldo Holanda Cavalcanti. Rio de Janeiro: Record, 2003.

6.9.17

António Barbosa Bacelar: "A uma ausência"



A uma ausência

Sinto-me sem sentir todo abrasado
No rigoroso fogo que me alenta;
O mal, que me consome, me sustenta;
O bem que me entretém me dá cuidado.

Ando sem me mover, falo calado,
O que mais perto vejo, se me ausenta,
E o que estou sem ver, mais me atormenta,
Alegro-me de ver-me atormentado.

Choro no mesmo ponto em que me rio,
No mor risco me anima á confiança,
Do que menos se espera estou mais certo;

Mas se de confiado desconfio,
É porque entre os receios da mudança
Ando perdido em mim como em deserto.



BACELAR, António Barbosa. "A uma ausência". In: SYLVA, Mathias Pereyra (org.). A Fénis renascida ou obras poéticas dos melhores engenhos portugueses. Ericeira: Officina de António Pedroszo Galrão, 1728.

3.9.17

William Soares dos Santos: "Quando a madrugada"



Quando a madrugada

Quando a madrugada
se
levanta

com todo
o seu esplendor,

ela pergunta
por minha
existência

e eu
não sei
o que digo.


SANTOS, William Soares dos. "Quando a madrugada". In:_____. poemas da meia-noite (e do meio-dia). Belo Horizonte: Editora Moinhos, 2017.
                                                                                                                                                                                                                             

31.8.17

Arthur Nogueira e Fafá de Belém cantam "Consegui"

Meu parceiro Arthur Nogueira acaba de lançar o clip -- com a participação da querida Fafá de Belém -- da canção "Consegui", parceria minha e dele. Vejam:



30.8.17

Aleksandr Puchkin: "Поэтy" / "A um poeta": trad. de José Casado



A um poeta

Não estimes, poeta, o amor da turbamulta.
Passará o eco do exaltado louvor;
Ouve o rir da alma fria e a máxima de estulta,
Mas permanece firme e calmo e superior.

És rei: por livre estrada (a ser nenhum consulta)
Vai ao fim que a razão livre te faz propor;
Frutos a aperfeiçoar da ideia amada, exulta,
Sem prêmios exigir por proezas de valor.

Acha-os em ti. És teu supremo tribunal;
Julga tua criação do modo mais cabal.
Contente dela estás, autocrítico atuante?

Estás? Deves deixar que a chusma a ataque então,
Cuspa no altar de sobre o qual vem teu clarão
E a trípode te abale com pueril desplante.



Поэтy

Поэт! не дорожи любовию народной.
Восторженных похвал пройдет минутный шум;
Услышишь суд глупца и смех толпы холодной,
Но ты останься тверд, спокоен и угрюм.

Ты царь: живи один. Дорогою свободной
Иди, куда влечет тебя свободный ум,
Усовершенствуя плоды любимых дум,
Не требуя наград за подвиг благородный.

Они в самом тебе. Ты сам свой высший суд;
Всех строже оценить умеешь ты свой труд.
Ты им доволен ли, взыскательный художник?


Доволен? Так пускай толпа его бранит
И плюет на алтарь, где твой огонь горит,
И в детской резвости колеблет твой треножник.



PUCHKIN, Aleksandr Segueievitch. "Поэтy" / "A um poeta". In:_____. Poesias escolhidas. Trad. de José Casado. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1992. 

27.8.17

Pedro Tamen: "Palavras minhas"



Palavras minhas

Palavras que disseste e já não dizes,
palavras como um sol que me queimava,
olhos loucos de um vento que soprava
em olhos que eram meus, e mais felizes.

Palavras que disseste e que diziam
segredos que eram lentas madrugadas,
promessas imperfeitas, murmuradas
enquanto os nossos beijos permitiam.

Palavras que dizias, sem sentido,
sem as quereres, mas só porque eram elas
que traziam a calma das estrelas
à noite que assomava ao meu ouvido…

Palavras que não dizes, nem são tuas,
que morreram, que em ti já não existem
– que são minhas, só minhas, pois persistem
na memória que arrasto pelas ruas.



TAMEN, Pedro. "Palavras minhas". In:_____. Tábua das matérias (Poemas 1956-1991). Sintra: Tertúlia, 1991.

25.8.17

Ricardo Silvestrin: "Bilhete"



Bilhete

Não me parecias frágil,
via-te doce.
Talvez fosses mesmo forte,
é preciso ser valente
pra decretar a própria morte.

Tinha-te por calmo.
Que rio obscuro e discreto
te puxava para o fundo,
sem saber nadar,
sem ninguém saber de nada?

Não deixaste uma carta,
um poema, um bilhete de suicida.
Como se quisesses dizer
que a morte
não deve explicações à vida



SILVESTRIN, Ricardo. "Bilhete". In:_____. Typographo. São Paulo: Patuá, 2016.

23.8.17

Lúcio Carvalho: "A poesia, a crítica e um tanto mais"


Gostei também do artigo "A poesia, a crítica e um tanto mais", de Lúcio Carvalho, na revista digital "amálgama", editada por Daniel Lopes. Encontra-se aqui:
https://www.revistaamalgama.com.br/07/2017/resenha-a-poesia-e-a-critica-antonio-cicero/ 

Jorge Salomão: "em mim não habita o deserto que há em ti"



em mim não habita o deserto que há em ti
minha alma é um oásis luminoso
você constrói sua jaula, e nela quer ficar
cuidado
eu faço o que acho que deve ser feito na hora certa
existe diferença entre paixão e projeção?
será que terei de me tornar um insensível
só pra suprir a demanda do mercado atual?
quanto mais eu me acho mais eu me perco
que os tambores batam
e que tudo se acenda forte!



SALOMÃO, Jorge. "em mim não habita o deserto que há em ti". In:_____. Mosaical. Rio de Janeiro: Gryphus, 1994.

22.8.17

Arthur Nogueira sobre "A poesia e a crítica"



Fiquei muito feliz com o que meu querido amigo e parceiro, Arthur Nogueira, escreveu, para o blog da Companhia das Letras, sobre meu livro "A poesia e a crítica". Fica aqui:
http://www.blogdacompanhia.com.br/conteudos/visualizar/Sobre-A-poesia-e-a-critica-de-Antonio-Cicero4

21.8.17

P.B. Shelley: "Lines (That time is dead forever...)" / "Versos (Perdeu-se a era...)": trad. de Adriano Scandolara



Lines (That time is dead for ever...)

That time is dead for ever, child!
Drowned, frozen, dead for ever!
We look on the past
And stare aghast
At the spectres wailing, pale and ghast,
Of hopes which thou and I beguiled
To death on life’s dark river.

The stream we gazed on then rolled by;
Its waves are unreturning;
But we yet stand
In a lone land,
Like tombs to mark the memory
Of hopes and fears, which fade and flee
In the light of life’s dim morning.



Versos (Perdeu-se a era...)

Perdeu-se a era, Ó criança!
gelada, fugaz, perdida!
e vê-se o passado
de olhar assombrado,
enquanto geme o espectro, afogado,
dos nossos devaneios de esperança,
no rio sombrio da vida.

O rio que vimos noutro momento
deságua em tempos de outrora;
e todavia
em terra vazia,
jazemos feito monumentos
de esperança e medo, fugindo lentos
na réstia vital desta aurora.




SHELLEY, P.B. "Lines (That time is dead forever...)". In:_____. Prometeu desacorrentado e outros poemas. Trad. por Adriano Scandolara. Belo Horizonte: Autêntica, 2015.

19.8.17

Roberto Athayde: "Entrementes em Copacabana"





Entrementes em Copacabana

Aquela pessoa na horizontal
Aquele defunto na ciclovia
Lembrete importuno da morte rainha



ATHAYDE, Roberto. "Entrementes em Copacabana". In:_____. Abracadabrante. Rio de Janeiro: Sans Souci, 2001.


18.8.17

Entrevista de Antonio Cicero ao Canal Curta



O excelente Canal Curta acaba de postar no You Tube trechos de uma entrevista que fez comigo por ocasião do lançamento do meu livro mais recente, A poesia e a crítica. Ei-los:

17.8.17

Adriano Nunes: "Erato"

Agradeço a Adriano Nunes por me ter dedicado o seguinte belo poema:



Clique, para ampliar:






NUNES, Adriano. "Erato".



15.8.17

Carlos Drummond de Andrade: "Confissão"



Confissão

É certo que me repito,
é certo que me refuto
e que, decidido, hesito
no entra-e-sai de um minuto.

É certo que irresoluto
entre o velho e o novo rito,
atiro à cesta o absoluto
como inútil papelito.

É tão certo que me aperto
numa tenaz de mosquito
como é trinta vezes certo
que me oculto no meu grito.

Certo, certo, certo, certo
que mais sinto que reflito
as fábulas do deserto
do raciocínio infinito.

É tudo certo e prescrito
em nebuloso estatuto.
O homem, chamar-lhe mito
não passa de anacoluto.



ANDRADE, Carlos Drummond de. "Confissão". In:_____. "As impurezas do branco". In:_____. Poesia e prosa. Rio de Janeiro: Nova Aguiolar, 1988.

10 fatos sobre Antonio Cicero



Acabo de ver que o site Bol (Brasil On Line) publicou uma matéria intitulada "10 fatos sobre Antonio Cicero, o mais novo imortal do Brasil". Fica aqui: https://noticias.bol.uol.com.br/bol-listas/10-fatos-sobre-antonio-cicero-o-mais-novo-imortal-do-brasil.htm.

11.8.17

Eucanaã Ferraz: "Graça"



Graça

Milhões de palavras derramadas inúteis
mas teu rosto não; árvores tombadas livros
partidos tudo se vende mas teu rosto não;
sangue de cidades e crianças mas teu rosto
segue limpo; em cada canto um inimigo;
no teu rosto não: rosto onde não cabe
a guerra; rosto sem irmão; teu rosto
o teu nome o diz.



FERRAZ, Eucanaã. "Graça". In:_____. Escuta. São Paulo: Companhia das Letras, 2015.

8.8.17

Jules Laforgue: "Complainte de la bonne défunte" / "Lamento da boa defunta": trad. de Régis Bonvicino




Lamento da boa defunta

Pela avenida ela fugia,
Iluminada eu a seguia,
Adivinhei! O olho dizia,
Hélas! Eu a reconhecia!

Iluminada eu a seguia,
Boca ingênua, nada via,
Oh! sim eu a reconhecia,
Ou sonhaborto ela seria?

Boca murcha, olho-fantasia;
Branco cravo, azul esvaía;
O sonhaborto amanhecia!
Ela em morta se convertia.

Jaz, cravo, de azul esvaía,
A vida humana prosseguia
Sem ti, defunta em demasia.
– Oh! já em casa, boca vazia!

Claro, eu não a conhecia.




Complainte de la bonne défunte

Elle fuyait par l'avenue,
Je la suivais illuminé,
Ses yeux disaient : " J'ai deviné
Hélas! que tu m'as reconnue ! "

Je la suivis illuminé !
Yeux désolés, bouche ingénue,
Pourquoi l'avais-je reconnue,
Elle, loyal rêve mort-né ?

Yeux trop mûrs, mais bouche ingénue ;
Oeillet blanc, d'azur trop veiné ;
Oh ! oui, rien qu'un rêve mort-né,
Car, défunte elle est devenue.

Gis, oeillet, d'azur trop veiné,
La vie humaine continue
Sans toi, défunte devenue.
- Oh ! je rentrerai sans dîner !

Vrai, je ne l'ai jamais connue.




LAFORGUE, Jules. "Complainte de la bonne défunte" / "Lamento da boa defunda". In:_____. Litanias da lua. Org. e trad. de Régis Bonvicino. São Paulo: Iluminuras, 1989. 

6.8.17

Para Suzana Moraes



Minha amiga Susana Moraes, uma das pessoas que mais admirei e amei em toda minha vida, faria aniversário hoje. Abaixo, uma foto de nós dois e um dos poemas que a ela dediquei. 
















Longe
                                    Para Susana Moraes

A chuva forte, o resfriado
real ou fingido, e eis-me livre
da escola e solto no meu quarto,
nos lençóis, nos mares de Chipre
ou no salão de Ana Pavlovna
ou no de Alcínoo, nas cavernas
de Barabar ou sob a abóbada
de Xanadu; perplexo em Tebas
e pelas veredas ambíguas
do sertão do corpo da língua,
cada vez mais longe de escolas
e de peladas e de bolas
e de promessas de futuros:
é mesmo errático meu rumo.



5.8.17

Manuel Bandeira: "Soneto inglês nº2"



Soneto inglês nº2

Aceitar o castigo imerecido,
Não por fraqueza, mas por altivez.
No tormento mais fundo o teu gemido
Trocar num grito de ódio a quem o fez.
As delícias da carne e pensamento
Com que o instinto da espécie nos engana,
Sobpor ao generoso sentimento
De uma afeição mais simplesmente humana.
Não tremer de esperança e nem de espanto.
Nada pedir nem desejar senão
A coragem de ser um novo santo
Sem fé num mundo além do mundo. E então
    Morrer sem uma lágrima, que a vida
    Não vale a pena e a dor de ser vivida.



BANDEIRA, Manuel. "Soneto inglês nº2". In:_____. Poesia completa e prosa. Rio de Janeiro: Aguilar, 1967.

3.8.17

Jorge Luis Borges: "Camden, 1982": trad. de Augusto de Campos



Camden, 1982

O cheiro do jornal e dos periódicos.
O domingo e seus tédios. A manhã
E na entrevista página essa vã
Publicação de versos alegóricos

De um colega feliz. O homem velho
Está prostrado e branco na decente
Habitação de pobre. Ociosamente
Olha seu rosto no cansado espelho.


Pensa, já sem assombro, que essa cara
É ele. Incerta, a mão acaso toca
A barba turva e a saqueada boca.

Não está longe o fim. Sua voz declara:
Quase não sou, mas os meus versos ritmam
A vida e sua glória. Sou Walt Whitman.




Camden, 1982


El olor del café y de los periódicos.
El domingo y su tedio. La mañana
Y en la entrevista página esa vana
Publicación de versos alegóricos

De un colega feliz. El hombre viejo
Está postrado y blanco en su decente
Habitación de pobre. Ociosamente
Mira su cara en el cansado espejo.

Piensa, ya sin asombro, que esa cara
Es él. La distraída mano toca
La turbia barba y saqueada boca.

No está lejos el fin. Su voz declara:
Casi no soy, pero mis versos ritman
La vida y su esplendor. Yo fui Walt Whitman.




BORGES, Jorge Luis. "Camden, 1982". In:_____. Quase Borges: 20 transpoemas e uma entrevista. Org. e trad. de Augusto de Campos. São Paulo: Terracota, 2013.

1.8.17

Sandra Niskier Flanzer: "In utilizar"



In utilizar

Gastar, gastar, usar a vida
Deixar que escorra, provar da bica
Gastar, roer, raspar do fundo
Fincar as unhas no umbigo do mundo.
Cravar as mãos, roçar, pegar,
Ir ao encontro de, ralar, ralar
Usar agora, desgastar, se engastar
No tempo breve que passa justo.
Perder, perder, ceder ao outro
O resto pífio desse plano torto
De achar que vivo é o que se encaixa
Quando é a morte que se guarda em caixa.
Porvir, puir, e por ir, desperdiçar
Do impossível, cruzar a faixa
Fuçar o real que no acaso sobrar
E torná-lo inútil a ponto de gostar.




FLANZER, Sandra Niskier. "In utilizar". In:_____. Do quarto. Rio de Janeiro: 7Letras, 2017.

30.7.17

Adriano Nunes: "Ars poetica"

Eis um belo poema que Adriano Nunes dedicou a Adriana Calcanhotto e postou na sua página do Facebook (https://www.facebook.com/adriano.nunes.71):


Ars poetica

               Para Adriana Calcanhotto

Da vez
À voz,
A ver-
Ve de
Viver.

Da voz
À vez,
O ver-
So a
Sorver

O vão,
A vez,
O véu
Da voz,

Do ver.



NUNES, Adriano. "Ars poetica". In:_____. "QUEFAÇOCOMOQUENÃOFAÇO". In: https://www.facebook.com/adriano.nunes.71. Acessado em 30/07/2017.

28.7.17

Giuseppe Ungaretti: "Noia" / "Tédio": trad. por Geraldo Holanda Cavalcanti



Tédio

Também esta noite passará

Esta solidão em volta
a titubeante sombra dos fios do bonde
sobre o asfalto úmido

Olho as cabeças dos cocheiros
cochilando
balançar





Noia

Anche questa notte passerà

Questa solitudine in giro
titubante ombra dei fili tranviari
sull’umido asfalto

Guardo le teste dei brumisti
nel mezzo sonno
tentennare




UNGARETTI, Giuseppe. "Noia" / "Tédio". In:_____. A alegria. Trad. por Geraldo Holanda Cavalcanti. Rio de Janeiro: Record, 2003.




24.7.17

Omar Salomão: "tempo"



tempo

apenas tempo fosse
o som dos passos repetidos

o rio ainda é rio
e o tempo não vira
não muda, transforma

a escada e os ninhos
o som dos pássaros apenas

sem peso debaixo dos meus pés
ouço a água correr
molho o pulso e a nuca

eu paro sobre o cais
                   minha sombra
                               dança
                              sobre as ondas




SALOMÃO, Omar. "tempo". In:_____. Pequenos reparos. Rio de Janeiro: José Olympio, 2017.

22.7.17

Nietzsche: III.143 de "A gaia ciência"



143
Grande vantagem do politeísmo. — Que o indivíduo estabelecesse seu próprio ideal e dele derivasse a sua lei, seus amigos e seus direitos — isso talvez fosse considerado, até então,
o mais monstruoso dos equívocos humanos e a idolatria em si; de fato, os poucos que ousaram fazê-lo sempre necessitaram de uma apologia diante de si mesmos, exclamando habitualmente: “Não fui eu! Eu não! Foi um deus através de mim!” Foi na maravilhosa arte e energia de criar deuses — o politeísmo — que esse impulso pôde se descarregar, que ele se purificou, se consumou e enobreceu: pois originalmente era um impulso vulgar e insignificante, ligado à teimosia, à desobediência e à inveja. Ser hostil a esse impulso para um ideal próprio: tal era, então, a lei de toda moralidade. Havia apenas uma norma: “o homem” — e cada povo acreditava possuir essa única e derradeira norma. Mas além de si e fora de si, num remoto sobre-mundo, era permitido enxergar uma pluralidade de normas: um deus não era a negação ou a blasfêmia contra um outro deus! Aí se admitiu, pela primeira vez, o luxo de haver indivíduos, aí se honrou, pela primeira vez, o direito dos indivíduos. A invenção de deuses, heróis e super-homens de toda espécie, e também de quase-homens e sub-homens, de fadas, anões, sátiros, demônios e diabos, foi o inestimável exercício prévio para a justificação do amor-próprio e da soberania do indivíduo: a liberdade que se concedia a um deus, relativamente aos outros deuses, terminou por ser dada a si mesmo, em relação a leis, costumes e vizinhos. Já o monoteísmo, esse rígido corolário da doutrina de um só homem normal — a crença num só deus normal, além do qual há apenas falsos deuses enganadores —, foi talvez o maior perigo para a humanidade até então: ela foi ameaçada pela prematura estagnação que, tanto quanto podemos ver, a maioria das outras espécies animais atingiu há muito tempo; em que todos crêem num só tipo normal e ideal em sua espécie, tendo definitivamente traduzido a moralidade dos costumes em sua carne e seu sangue. No politeísmo estava prefigurada a humana liberdade e variedade de pensamento: a força de criar para si olhos novos e seus, sempre novos e cada vez mais seus; de modo que somente para o homem, entre todos os animais, não existem horizontes e perspectivas eternas.




NIETZSCHE, Friedrich. A gaia ciência. Trad. de Paulo César de Souza. São Paulo, Companhia das Letras, 2009, Livro I, § 143.  

20.7.17

Stefan George: "Komm in den totgesagten park und schau" / "Vem ao parque tido por morto e admira": trad. por Eduardo de Campos Valadares



Vem ao parque tido por morto e admira:
O vislumbre de praias sorridentes ·
O súbito azul na nuvem conspira
Ilumina ilha e trilha iridescentes.

Lá toma o cinza · o amarelo vívido
Do arbusto e bétula · o ar é tépido ·
A rosa tardia ainda floresce ·
Beija a eleita e uma coroa tece ·

A última gérbera não esqueças ·
A púrpura no silvestre sarmento ·
Também o resto de verde ornamento
Nessa outonal face te reconheças.





Komm in den totgesagten park und schau:
Der schimmer ferner lächelnder gestade
Der reinen wolken unverhofftes blau
Erhellt die weiher und die bunten pfade

Dort nimm das tiefe gelb · das weiche grau
Von birken und von buchs · der wind ist lau ·
Die späten rosen welkten noch nicht ganz ·
Erlese küsse sie und flicht den kranz ·

Vergiss auch diese lezten astern nicht ·
Den purpur um die ranken wilder reben ·
Und auch was übrig blieb von grünem leben
Verwinde leicht im herbstlichen gesicht.



GEORGE, Stefan. "Komm in den totgesagten park und schau" / "Vem ao parque tido por morto e admira". Trad. por Eduardo de Campos Valadares. In:_____. Crepúsculo. São Paulo: Iluminuras, 2000.


18.7.17

Antonio Cicero nos "Encontros de Interrogação"



Em 2014, fui convidado por Heloísa Buarque de Hollanda e Lourival Holanda para participar da série de conferências anualmente promovida pelo Itau Cultural com o nome de “Encontros de Interrogação”. O tema era a poesia. Eis a gravação de alguns momentos desse “Encontro”:



16.7.17

João Bandeira: "Se a vida insiste em complicar"



Se a vida insiste em complicar
tua existência
dispensa que ela se explique



BANDEIRA, João. "Se a vida insiste em complicar". In:_____. Quem quando queira. São Paulo: Cosac Naify, 2015.

13.7.17

Sophia de Mello Breyner Andresen: "Meio-dia"


Meio-dia

Meio-dia. Um canto da praia sem ninguém.
O sol no alto, fundo, enorme, aberto,
Tornou o céu de todo o deus deserto.
A luz cai implacável como um castigo.
Não há fantasmas nem almas,
E o mar imenso solitário e antigo,
Parece bater palmas.



ANDRESEN, Sophia de Mello Breyner. "Meio-dia". In:_____. "Poesia". In:_____. Obra poética. Org. por Carlos Mendes de Sousa. Alfragide: Editorial Caminho, 2011.


12.7.17

Poemas de Antonio Cicero no site "A Vida Breve"



Gostei de saber que o site português "A Vida Breve" está a transmitir a gravação de dois poemas meus: "Diamante" (do livro Porventura) e "Dilema" (do livro Guardar). Encontram-se aqui:

https://www.rtp.pt/play/p1109/e297851/a-vida-breve

11.7.17

Margarida Patriota: "Penumbrismo"



Penumbrismo

Nem trevas, nem luz
Nem gelo, nem lava
Trégua no campo das bravatas
Cessar fogo nas trincheiras da Luta

Penumbra, loção neutra
Banho morno benfazejo
Aplaca a pele que ontem ardeu
E há de arder amanhã

Faze esquecer que no futuro
Hostes rivais
Da tradição e da ruptura
Retomarão hostilidades

Extremas



PATRIOTA, Margarida. "Penumbrismo". In:_____. Laminário. Rio de Janeiro: 7 Letras, 2017.

9.7.17

Hölderlin: "Da ich ein Knabe war..." / "Quando era menino": trad. de Paulo Quintela


Quando era menino...

   Quando era menino,
      Salvou-me um deus muita vez
        Da gritaria e dos açoites dos homens,
           E então brincava seguro e bem
             Com as flores do bosque,
                E as brisas do céu
                  Brincavam comigo.

E assim como alegras
O coração das plantas,
Quando elas te estendem
Os braços tenros,

Assim me alegraste o coração,
Pai Hélios! e, como Endymion,
Era eu o teu amado,
Lua sagrada!

Ó vós todos, fiéis,
Amigos deuses!
Se vós soubésseis
Como a minha alma vos amou!

É verdade que então vos não chamava
Ainda pelos nomes, e vós também
Nunca me nomeáveis, como os homens se nomeiam,
Como se se conhecessem.

Mas conhecia-vos melhor
Do que jamais conheci os homens;
Entendia o silêncio do Éter;
Palavras dos homens nunca as entendi.

A mim criou-me a harmonia
Do bosque sussurrante
E aprendi a amar
Entre as flores.
Foi nos braços dos deuses que eu cresci.



Da ich ein Knabe war...

    Da ich ein Knabe war,
      Rettet' ein Gott mich oft
        Vom Geschrei und der Rute der Menschen,
          Da spielt ich sicher und gut
            Mit den Blumen des Hains,
              Und die Lüftchen des Himmels
                Spielten mit mir.

    Und wie du das Herz
    Der Pflanzen erfreust,
    Wenn sie entgegen dir
    Die zarten Arme strecken,

    So hast du mein Herz erfreut,
    Vater Helios! und, wie Endymion,
    War ich dein Liebling,
    Heilige Luna!

    O all ihr treuen
    Freundlichen Götter!
    Daß ihr wüßtet,
    Wie euch meine Seele geliebt!

    Zwar damals rief ich noch nicht
Euch mit Namen, auch ihr
    Nanntet mich nie, wie die Menschen sich nennen,
    Als kennten sie sich.

    Doch kannt ich euch besser,
    Als ich je die Menschen gekannt,
    Ich verstand die Stille des Aethers,
    Der Menschen Worte verstand ich nie.

    Mich erzog der Wohllaut
    Des säuselnden Hains
    Und lieben lernt ich
    Unter den Blumen.

    Im Arme der Götter wuchs ich groß.


HÖLDERLIN, Friedrich. "Da ich ein Knabe war..." / "Quando era menino...". In_____. Hölderlin: poemas. Org. e trad. de Paulo Quintela. Coimbra: Atlântida, 1959. 



8.7.17

Jorge Furtado sobre o show "Dois Irmãos", de Marina e Antonio Cicero


Quinta-feira passada, Marina e eu fizemos um show, intitulado "Dois Irmãos", em Porto Alegre, em que lembramos como se deu nossa parceria. Fiquei feliz com o comentário que, no dia seguinte, Jorge Furtado, grande diretor e roteirista de cinema e televisão, fez, no Facebook (https://www.facebook.com/jorge.furtado.52) sobre o show. É o seguinte:

Porto Alegre ontem viveu um grande momento com o show "Dois Irmãos", de Marina Lima e Antonio Cícero na Reitoria da UFRGS, um momento de beleza e poesia que nos lembra o que o Brasil tem de melhor. Marina encantou a todos com suas belíssimas canções e a mim surpreendeu tocando violão com maestria, só tinha visto shows dela com grandes bandas e não sabia que ela tocava tão bem. Antonio Cícero é um grande poeta e muito bem humorado, poderia passar a noite toda ouvindo seus versos e histórias.

Há um momento do show em que ele lê um texto não escrito por ele e ela canta uma música que não é parceria dos dois. Talvez não por coincidência, Marina cantou "Pessoa", do Dalto e Antonio Cícero leu um texto do Fernando Pessoa que eu não conhecia, muito bom.

"Quem, que seja português, pode viver a estreiteza de uma só personalidade, de uma só nação, de uma só fé? Que português verdadeiro pode, por exemplo, viver a estreiteza estéril do catolicismo, quando fora dele há que viver todos os protestantismos, todos os credos orientais, todos os paganismos mortos e vivos, fundindo-os portuguesmente no Paganismo Superior? Não queiramos que fora de nós fique um único deus! Absorvamos os deuses todos! Conquistamos já o Mar: resta que conquistemos o Céu, ficando a terra para os Outros, os eternamente Outros, os Outros de nascença, os europeus que não são europeus porque não são portugueses. Ser tudo, de todas as maneiras, porque a verdade não pode estar em faltar ainda alguma cousa! Criemos assim o Paganismo Superior, o Politeísmo Supremo! Na eterna mentira de todos os deuses, só os deuses todos são verdade. "


Fernando Pessoa, in 'Portugal entre Passado e Futuro'



6.7.17

Ricardo Silvestrin: "pedra dentro do mar"



pedra dentro do mar
a onda passa
a pedra dura



SILVESTRIN, Ricardo. "pedra dentro do mar". In:_____. Prêt-à-porter: haicais para as quatro estações. Porto Alegre: Artes & Ecos, 2017.

3.7.17

Alice Sant'Anna: "desenhava tudo o que via"



desenhava tudo o que via
com uma estranha compulsão
passava cinco, seis horas na frente
de um quadro, uma maçaneta, um pastel de nata
completamente absorto
sacava do bolso o lápis
corria para rabiscar, depois anotava
a data ao lado, a rua, nada
se perdia no caderno
enquanto isso eu aflita queria repetir
o gesto, documentar tudo, dizer do gosto
da canela no pastel de nata
do primeiro dia azul de lisboa
mas não escrevia e com pressa para registrar
me tornava burocrática
no diário: hoje fomos de trem, estava quente




SANT'ANNA, Alice. "desenhava tudo o que via". In_____. Rabo de baleia. São Paulo: Cosac Naify, 2013.

25.6.17

Alberto Pucheu: "Viagem aos 18 ou 19 anos"



Viagem aos 18 ou 19 anos

havia uma paisagem de pintura chinesa
ou japonesa, dessas em que o nanquim abre
um vazio branco por toda a montanha
e pelo lago no qual, em tempos passados,
distante, um pescador pescava solitário
em sua canoa, sem mais ninguém por ali.

havia uma floresta em plena cidade
invisível, na qual, em tempos passados,
inadequado à tarefa que lhe fora incumbida,
um temeroso soldado buscava — solitário —
fugir de uma guerra que por ali guerreavam,
alcançando o muro que limitava a mata e ele.

havia, desta vez, não uma imagem ou outra
qualquer, mas somente uma sensação
tão viva e, mesmo, uma certeza (a lhe invadirem)
de ser esta, a atual, sua terceira vida,
ainda que nenhuma dica lhe fosse dada
para ajudá-lo a vivê-la um pouco melhor.

havia, então, a última, que estava por vir,
apenas um brilho de luz prateada, chegando
de todos os lados para se concentrar
em um foco nítida e densamente coeso
que logo explodia, lançando seus estilhaços
excentricamente em todas as direções.




PUCHEU, Alberto. "Viagem aos 18 ou 19 anos". In:_____. para que poetas em tempos de terrorismo? Rio de Janeiro: Azougue, 2017.

24.6.17

Octavio Paz: "Aquí"



Aqui

Meus passos nesta rua
ressoam
           noutra rua
onde
         ouço meus passos
passarem nesta rua
onde
Só é real a névoa




Mis pasos en esta calle
resuenan
             en otra calle
donde
         oigo mis pasos
pasar en esta calle
donde
Sólo es real la niebla.



PAZ, Octavio. "Aquí". In:_____. "Días hábiles". In:_____. Obra poética I (1935-1970). México: FCE, Círculo de Lectores, 1997.

23.6.17

Domício Proença Filho: "Asilo"



Asilo

Se o sonho,
fraturada primavera,
não retorna
O que fazer do inverno?

Ressonhar o verão,
talvez o outono,
saciar-se com o gosto
de alguma brisa
carícia na face rude
do tempo.




PROENÇA FILHO, Domício. "Asilo". In:_____. O risco do jogo. São Paulo: Prumo, 2013.

17.6.17

Manno Góes: "O devido pagamento"

Excelente artigo de Manno Góes, publicado em O Globo de hoje:



O devido pagamento


É fato que a música é elemento primordial na caracterização de uma cultura, de um povo e suas manifestações artísticas. Através de canções, uma nação se expressa, se comunica com o mundo e atrai atenção às características regionais de sua origem. Não há ninguém que não ouça um reggae e não se lembre da Jamaica; um jazz e não se lembre de Nova Orleans; um rock e não se lembre de Londres; uma salsa e não se lembre de Cuba; um samba-reggae e não se lembre da Bahia; um samba ou uma bossa nova e não se lembre do Rio.

A música estabelece identidades culturais próprias, originais, criando padrões de cidadania e aspectos preciosos de influências e significados de uma região.

E por detrás de cada canção há um autor. Uma semente. O autor é a semente. Simples assim. Sem o criador, não haveria Spotify, Apple Music, YouTube, bandas de rock — ou deuses: não haveria Lennon e McCartney. Roberto e Erasmo. Caetano e Gil. Cazuza ou Renato Russo. Felizmente, a lista é quase interminável. Não haveria a quem agradecer pela criação de versos, frases e melodias que transformam gerações. Que mudaram vidas. Porque o papel da arte é esse: transformar. Transformar-se.

Não haveria Semana de Arte Moderna em 22 sem Oswald de Andrade; não haveria tropicália sem os baianos e Oiticica, nem haveria Tom Zé; ou Raul, ou João Gilberto ou Fernando Brant, sem o poder infinito da criação.

Por compreender que a criatividade é o pó mágico do Peter Pan; a asa do avião, o software do aparelho celular, nós, autores, precisamos de coerência e respeito.

Nossa atividade é subjetiva e abstrata. Porém, não há nada mais real e tátil no mundo do que a importância da criação. Não somos autores apenas. Somos atores na construção de um mundo que reconhece que a arte não seria uma das maravilhas do mundo se não existíssemos.

E, mais do que isso: somos humanos. Pessoas com pulmões, coração e sentimentos. Precisamos de oxigênio e água. E comida. E arte. E remuneração digna pelo que fazemos.

Precisamos de compreensão, afagos, carinho. Proteção. Direitos autorais são, antes de tudo, amor à arte. Alegar que é necessário isentar hotéis, motéis e pousadas de pagamentos autorais para impulsionar o turismo — como pretende o PL 3968, da deputada Renata Abreu — é desconectar a cultura do lazer. Segundo o Ecad, a parlamentar é detentora de redes de rádios inadimplentes com os autores; sua iniciativa causará um prejuízo anual aos autores de cerca de R$ 200 milhões. Agir assim é desconhecer que um elemento poderosíssimo de atração turística são justamente a música e as manifestações culturais de um lugar. É contraditório e irresponsável. É afirmar que a música não é tão importante assim. E quem acha que a música não tem tamanha importância no seu poder de atração e sedução comete um grave equívoco.

O Brasil e sua maravilhosa diversidade cultural oferecem atrativos infinitos para quem vem nos visitar. Além de nossas praias, florestas, montanhas, gastronomia, danças, festas, cores e sincretismo religioso, somos um país de intensa produtividade musical. Não cabe aos autores pagar o preço do que não lhes é devido. Nosso turismo precisa de nossa música. E nossos autores precisam ser remunerados por quem oferece suas canções aos turistas.


Manno Góes é compositor


Anna Akhmatova: "Я пришла к поэту в гости" / "Cheguei de visita ao poeta": trad. de Joaquim Manuel Magalhães e Vadim Ditriev



Cheguei de visita ao poeta

                                          Para Alexandre Blok

Cheguei de visita ao poeta.
Meio-dia em ponto. Domingo.
Silêncio na ampla sala,
Além das janelas frio

E um sol cor de framboesa
Sobre farrapos gris de fumo...
E o dono olha calado
Para mim limpidamente!

São tais os olhos que tem
Que ninguém os deve esquecer,
Para mim é melhor, à cautela,
De modo algum os fitar.

Mas será lembrado o diálogo,
O dia fumoso, o domingo
Na casa alta e cinzenta

Às portas de mar do Neva.



Я пришла к поэту в гости.

                                            Александру Блоку

Я пришла к поэту в гости.
Ровно полдень. Воскресенье.
Тихо в комнате просторной,
А за окнами мороз.

И малиновое солнце
Над лохматым сизым дымом...
Как хозяин молчаливый
Ясно смотрит на меня.

У него глаза такие,
Что запомнить каждый должен,
Мне же лучше, осторожной,
В них и вовсе не глядеть.

Но запомнится беседа,
Дымный полдень, воскресенье,
В доме сером и высоком

У морских ворот Невы.


AKHMATOVA, Anna. "Я пришла к поэту в гости" / "Cheguei de visita ao poeta". Trad.: Joaquim Manuel Magalhães e Vadim Dmitriev. In:_____. Poemas. Lisboa: Relógio d'Água, 2003.

15.6.17

Frank O'Hara: "Autobiographia literaria": Trad. de Beatriz Bastos e Paulo Henriques Britto



Autobiographia literaria

Quando era menino eu
brincava sozinho num
canto do pátio da escola
sem ninguém.

Odiava bonecas e
odiava jogos, os bichos eram
hostis e os pássaros
fugiam.

Se alguém me procurava
eu me escondia atrás de uma
árvore e gritava "Sou
um órfão."

E olha eu aqui, o
centro de toda beleza!
escrevendo estes versos!
Imagina!




Autobiographia literaria

When I was a child
I played by myself in a
corner of the schoolyard
all alone.

I hated dolls and I
hated games, animals were
not friendly and birds
flew away.

If anyone was looking
for me I hid behind a
tree and cried out "I am
an orphan."

And here I am, the
center of all beauty!
writing these poems!
Imagine!



O'HARA, Frank. "Autobiographia literaria". In:_____. Meu coração está no bolso. Trad. de Beatriz Bastos e Paulo Henriques Britto. São Paulo: Luna Parque, 2017.


13.6.17

Ricardo Silvestrin: "O menos vendido"



O menos vendido

Custa muito
pra se fazer um poeta.
Palavra por palavra,
fonema por fonema.
Às vezes passa um século
e nenhum fica pronto.
Enquanto isso,
quem paga as contas,
vai ao supermercado,
compra sapato pras crianças?
Ler seu poema não custa nada.
Um poeta se faz com sacrifício.
É uma afronta à relação custo-benefício.



SILVESTRIN, Ricardo. "O menos vendido". In:_____.O menos vendido. São Paulo: Nankin Editorial, 2006.

10.6.17

Manuel Alegre: "Trova do vento que passa"



Trova do vento que passa

Pergunto ao vento que passa
notícias do meu país
e o vento cala a desgraça
o vento nada me diz.

Pergunto aos rios que levam
tanto sonho à flor das águas
e os rios não me sossegam
levam sonhos deixam mágoas.

Levam sonhos deixam mágoas
ai rios do meu país
minha pátria à flor das águas
para onde vais? Ninguém diz.

Se o verde trevo desfolhas
pede notícias e diz
ao trevo de quatro folhas
que morro por meu país.

Pergunto à gente que passa
por que vai de olhos no chão.
Silêncio -- é tudo o que tem
quem vive na servidão.

Vi florir os verdes ramos
direitos e ao céu voltados.
E a quem gosta de ter amos
vi sempre os ombros curvados.

E o vento não me diz nada
ninguém diz nada de novo.
Vi minha pátria pregada
nos braços em cruz do povo.

Vi minha pátria na margem
dos rios que vão pró mar
como quem ama a viagem
mas tem sempre de ficar.

Vi navios a partir
(Portugal à flor das águas)
vi minha trova florir
(verdes folhas verdes mágoas).

Há quem te queira ignorada
e fale pátria em teu nome.
Eu vi-te crucificada
nos braços negros da fome.

E o vento não me diz nada
só o silêncio persiste.
Vi minha pátria parada
à beira de um rio triste.

Ninguém diz nada de novo
se notícias vou pedindo
nas mãos vazias do povo
vi minha pátria florindo.

E a noite cresce por dentro
dos homens do meu país.
Peço notícias ao vento
e o vento nada me diz.

Mas há sempre uma candeia
dentro da própria desgraça
há sempre alguém que semeia
canções no vento que passa.

Mesmo na noite mais triste
em tempo de servidão
há sempre alguém que resiste
há sempre alguém que diz não.



ALEGRE, Manuel. "Trova do vento que passa". In:_____. Obra poética. Lisboa: Publicações Dom Quixote, 1998.



7.6.17

Souza Anamari: Poema


Alguém me enviou um link para o seguinte vídeo, no YouTube. 

Pesquisando na Internet, li, no site Almanaque Cultural Brasileiro (http://almanaquenilomoraes.blogspot.com.br/2016/10/tetras-religiosas.html) o seguinte sobre essa moça:

Mariana Souza, de São Paulo, que também assina como Souza Anamari, tem 20 anos, é artesã, 
e está rodando o mundo da internet com um poema sobre intolerância religiosa capaz de 
encher de emoção o coração de qualquer um. Anamari afirma já ter sofrido preconceito 
religioso e foi uma situação assim que serviu de inspiração para o poema: "Tudo começa 
pelo respeito".





Carlos Drummond de Andrade: "Encontro"



Encontro

Meu pai perdi no tempo e ganho em sonho.
Se a noite me atribui poder de fuga,
sinto logo meu pai e nele ponho
o olhar, lendo-lhe a face, ruga a ruga.

Está morto, que importa? Inda madruga
e seu rosto, nem triste nem risonho,
é o rosto, antigo, o mesmo. E não enxuga
suor algum, na calma de meu sonho.

Oh meu pai arquiteto e fazendeiro!
Faz casas de silêncio, e suas roças
de cinza estão maduras, orvalhadas

por um rio que corre o tempo inteiro,
e corre além do tempo, enquanto as nossas
murcham num sopro fontes represadas.



ANDRADE, Carlos Drummond de. "Claro enigma". In:_____. Poesia e prosa. Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 1988.

5.6.17

Emily Dickinson "The heart asks Pleasure" / "Quer-se o Prazer": trad. por Augusto de Campos



23

The heart asks Pleasure – first –
And then – Excuse from pain –
And then – those little Anodynes
That deaden suffering –
 
And then – to go to sleep–      
And then – if it should be
The will of its Inquisitor
The Luxury to die –


23

Quer-se o Prazer – antes –
Depois – não sentir Dor –
Depois – alguns Calmantes
Para lhe contrapor –

Depois – adormecer –
Depois – se bem prouver
Ao seu Inquisidor
O Luxo de morrer –



DICKINSON, Emily. "The hear asks Pleasure" / "Quer-se o prazer". In:_____. Não sou ninguém. Poemas. Trad. de Augusto de Campos. Campinas: Unicamp, 2015.

2.6.17

Deado Lara: "Mera fantasia"



Mera fantasia

O que
Sobrou
Da velha-guarda
Capengando

Por aí,
Sob a geometria
Indecifrável
Das estrelas,

Agarrado
Ao cobertor
Miserável,
Que a boca

Da noite
Já vai consumindo
Por uma estrada
De Minas.



LARA, Deado. "Mera fantasia". In:_____. Uma canção para o Ira. São Lourenço: Gráfica Novo Mundo, 2016.

31.5.17

Stefan George: "Nacht-Gesant I" / "Canto noturno I": trad. Eduardo de Campos Valadares


Canto noturno I

Mel e medo
Sou avesso
Orla e rumo
Meu destino.

Chuva e outono
Com a morte
Brilho e flor
Com a vida.

O que fiz
O que ardi
O que sei
O que sou:

Um incêndio
Que se apaga
Uma canção
Que se acaba.



Nacht-Gesang I

Mild und trüb  
Ist mir fern,  
Saum und Fahrt  
Mein Geschick.   

Sturm und Herbst  
Mit dem Tod, 
Glanz und Mai  
Mit dem Glück.   

Was ich tat,  
Was ich litt,  
Was ich sann,  
Was ich bin:   

Wie ein Brand  
Der verraucht,  
Wie ein Sang  
Der verklingt.



GEORGE, Stefan. "Nacht-Gesang I" / "Canto Noturno I". In:_____. Crepúsculo. Seleção, ensaio e tradução de Eduardo de Campos Valadares. São Paulo: Iluminuras, 2000.




28.5.17

Adriano Nunes: "A sorte de ser ninguém"

No dia do aniversário do poeta Adriano Nunes, desejo-lhe muita
felicidade e poesia, e tenho o prazer de publicar aqui o belíssimo 
poema que ainda ontem ele me enviou:




A sorte de ser ninguém

                                para meu amigo, o poeta português 
                                                  Tiago Torres da Silva

Nesta tarde de nada mesmo importar,
Poderia tecer outro soneto
De amor ou de ilusão, criar um mar
De imagens sem fim, de mim repleto,

Ou, quem sabe, a canção que, já no ar,
Deixa-se desfazer, por ser, decerto,
O certo a acontecer, para alargar
O lugar do devir, estar desperto.

Ah, fome de ninguém ser desde já!
Ah, gozo de ninguém ser por completo!
Dize-me, coração, ser em que dá?

Nesta tarde de vácuos, sou objeto
Das minhas esperanças, obsoleto,
A sorte de ninguém ser, aqui, lá.



NUNES, Adriano. "A sorte de ser ninguém"

24.5.17

Nuno Rau: "today, that's the question"



today, that’s the question

                                                                      para Geraldo Carneiro

a forma fixa: o conteúdo não
a mente é livre, o pensamento inquieto,
e exposto a mais esta contradição
cometo – extemporâneo – outro soneto.
O que me trouxe o uso da Razão
não sei dizer se é bom ou mau, exceto
que me arranharam fundo o coração
uns versos íntimos, um mal secreto.
Nunca aceitei o Tempo que me coube
ou por erro escolhi – e ser barroco,
parnasiano, moderno, pop, concreto,
no meu to be or not eu nunca soube:
“a vida, com seu desconcerto louco,
fugiu de vez da cela dos sonetos?”



RAU, Nuno. "today, that's the question". In:_____. Mecânica aplicada. São Paulo: Patuá, 2017.

20.5.17

Sandra Niskier Flanzer: "Tocar de ouvido"



Tocar de ouvido

Durante tempos cultivei sabedoria,
Tentada a convencer-me que a agarrava,
Tentando demover-me da empáfia convencida
De supor que inspiração não se pegava.
Ora, cansei de ir contra a natureza das mãos.
Cansei dos falsos toques, dados no saber sem vida.
Se hoje escrevo, como quem toca de ouvido,
É porque me tocam as coisas que ouço.
Ouço as coisas que toco e, pronto, escrevo.
No mais, é só o de menos.



FLANZER, Sandra Niskier. "Tocar de ouvido". In:_____. Por um, segundo. Rio de Janeiro: Contra Capa, 2012.