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26.11.19
29.10.19
18.8.19
Antonio Cicero: Sobre "A poesia e a crítica"
Falo um pouco de poesia e da ABL na seguinte entrevista que dei para o Canal Curta, por ocasião do lançamento do meu livro A poesia e a crítica, em 2017:
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17.6.19
A Estante do Poeta
Amanhã, dia 18, estarei no Espaço Afluentes, na Av. Rio Branco, 181, sala
1905 (em frente à estação de metrô “Carioca”), participando do projeto “A
Estante do Poeta”, no qual fui convidado a conversar com Paulo Sabino sobre como a poesia entrou na
minha vida, como foi que me descobri poeta e que poetas e/ou poemas mais me
influenciaram.
Antonio Cicero
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27.5.19
Conferência de Antonio Cicero: "Poesia e música a partir de Homero"
Eis a conferência “Poesia e música a partir de Homero”, que fiz na Academia Brasileira de Letras no dia 16 de maio. Ela fez parte do ciclo de conferências “Poesia
cantada: melodia e verso”, sob a coordenação do Acadêmico e jornalista Zuenir
Ventura. A Acadêmica e escritora Ana Maria Machado é a coordenadora geral dos
ciclos de conferências de 2019.
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23.5.19
"Poesia e Prosa": programa de Maria Bethania em homenagem a Waly Salomão
Assistam à bela homenagem que Maria Bethania fez ao poeta Waly Salomão, em seu programa "Poesia e Prosa", no canal Arte 1. Do programa participaram José Miguel Wisnik, Jards Macalé e Antonio Cicero.
18.5.19
Alain: "Le vrai poète..." \ "O verdadeiro poeta..."
Le vrai poète est celui qui trouve l’idée en forgeant le vers.
O verdadeiro poeta é aquele que encontra a ideia ao forjar o verso.
ALAIN. Préliminaires à l'esthétique. Paris: Gallimard, 1939.
29.3.19
Antonio Cícero: “Os maiores intelectuais que já conheci têm a poesia na mais alta conta”
Seguindo a sugestão de meu grande amigo Adriano Nunes, publico a seguir uma entrevista que concedi à Revista Forum em 2017, logo depois de ter sido eleito para a ABL:
Revista Forum
https://www.revistaforum.com.br/antonio-cicero-os-maiores-intelectuais-que-ja-conheci-tem-poesia-na-mais-alta-conta/
13 DE AGOSTO DE 2017
Antonio Cícero: “Os maiores intelectuais que já conheci têm a poesia na mais alta conta”
Por Ivan Longo
“Modernamente, alguns dos maiores poetas contemporâneos são ‘letristas’. No Brasil, temos, por exemplo, Vinícius de Moraes, Caetano Veloso e Chico Buarque”, avalia Cícero, recém eleito para a cadeira 27 da Academia Brasileira de Letras. Confira sua entrevista à Fórum
Por Lucas Vasques
Filósofo, escritor, poeta, letrista, ensaísta e mais. Há muitos Antonio Cícero em um só. No último dia 10 de agosto, em reconhecimento à sua rica trajetória intelectual, ele foi eleito para a cadeira 27 da Academia Brasileira de Letras (ABL), sucedendo Eduardo Portella. Antes, os ocupantes da cadeira 27 foram Joaquim Nabuco (fundador da cadeira e que escolheu como patrono Maciel Monteiro), Dantas Barreto, Gregório da Fonseca, Levi Carneiro e Otávio de Faria.
“Antonio Cícero é um dos escritores mais representativos da literatura brasileira contemporânea”, definiu Domício Proença Filho, presidente da ABL. E sua trajetória foi longa. Autor dos livros de poemas Guardar, A cidade e os livros, Porventura e O livro de sombras, este em parceria com o artista plástico Luciano Figueiredo, também publicou ensaios filosóficos, além de ter uma intensa militância na cena cultural brasileira, organizando e participando ativamente de coletâneas e conferências.
Cícero escreve poesia desde jovem, mas sua escrita passou a ser mais conhecida popularmente depois que começou a compor as letras das canções de sua irmã Marina Lima, como Fullgás, Para Começar e À Francesa, as duas primeiras em parceria com Marina e a última com Cláudio Zolli. Também teve outros parceiros na música, com destaque para Waly Salomão, João Bosco, Orlando Moraes, Adriana Calcanhoto e Lulu Santos (coautor, junto com Cícero e Sérgio Souza, do grande sucesso O Último Romântico).
Fórum – A poesia, de alguma forma, é encarada com certo menosprezo, inclusive dentro do universo intelectual. Sua eleição à ABL pode representar uma mudança nesse paradigma?
Antonio Cícero – Há muitos “universos intelectuais”. Não acho que a poesia seja encarada com menosprezo nos melhores universos intelectuais. Ao contrário: os maiores intelectuais que já conheci – e conheci muitos, tanto no Brasil quanto no exterior – têm a poesia na mais alta conta. Que intelectual de peso pode desprezar as obras de Homero, Virgílio, Horácio, Dante, Shakespeare, Camões, Antero de Quental, Calderón de la Barca, Keats, Wordsworth, Goethe, Hölderlin, Baudelaire, Mallarmé, Fernando Pessoa, T.S. Eliot, Manuel Bandeira, Drummond, João Cabral, Ferreira Gullar, Augusto de Campos, Armando Freitas Filho ou tantos e tantos outros?
Fórum – Você, além de filósofo e poeta, também ficou conhecido por ser um letrista de destaque na MPB. Uma velha discussão que permeia o mundo acadêmico é se letra de canção é poesia. Há poesia em letra de canção? E quais as intersecções entre ambas?
Antonio Cícero – A poesia começou sendo cantada. Os poemas de Homero eram recitativos, isto é, eram meio recitados e meio cantados. Os poemas líricos gregos, como a própria palavra “lírico” indica, eram cantados, acompanhados pela lira. Assim, alguns dos maiores poemas da tradição ocidental eram o que chamamos de “letras de música”. Modernamente, alguns dos maiores poetas contemporâneos são “letristas”. No Brasil, temos, por exemplo, Vinícius de Moraes, Caetano Veloso e Chico Buarque.
Fórum – Dentro desse debate, o fato de Bob Dylan ter sido escolhido para ganhar o Prêmio Nobel de Literatura indica que a literatura pode ser encarada de uma forma mais ampla?
Antonio Cícero – Sim, claro.
Fórum – Em sua avaliação, o que há de filosofia na sua poesia?
Antonio Cícero – Na poesia podem entrar todas as faculdades humanas: razão, intelecto, emoção, sensação, sentimento, emoção, memória, cultura etc. Assim, o que pensamos filosoficamente pode, de um modo ou de outro, entrar num poema. Contudo, a filosofia não é, num poema, necessariamente mais importante do que um gosto, uma impressão, um amor, um ódio, um corpo, um rosto… Quando está presente, ela não passa de um elemento, muitas vezes inteiramente secundário. Não é, de maneira nenhuma, a filosofia que torna um poema bom ou ruim. Mesmo quem não é marxista pode, por exemplo, admirar imensamente um poema de Brecht em que estejam presentes ideias marxistas.
Fórum – Um poema, apesar de ser uma forma bem particular de linguagem, pode funcionar como crítica ou narrativa filosófica?
Antonio Cícero – Sim. O poema de Lucrécio De rerum natura pretende ser um tratado filosófico epicurista. Mas o que o torna bom enquanto tratado epicurista não é necessariamente o que torna alguns de seus trechos esplêndidos enquanto poesia. Por exemplo, os seguintes dois versos têm sido considerados como versos insuperáveis em qualquer literatura, mesmo por quem não é epicurista:
“nequiquam, quoniam medio de fonte leporum
surgit amari aliquit quod in ipsis floribus angat”,
que podem ser traduzidos como
“tudo é em vão, pois da própria fonte da doçura
súbito surge algo que nos amargura”
Fórum – O presidente da ABL, Domício Proença Filho, afirmou que você é um dos escritores mais representativos da literatura brasileira contemporânea. Você encara isso como uma forma de reconhecimento por seus anos de trabalho?
Antonio Cícero – Sim. E fico muito grato ao presidente Domício Proença Filho por ter afirmado isso.
Foto: Eucanaã Ferraz/Divulgação
CICERO, Antonio. “Os maiores intelectuais que já conheci têm a poesia na mais alta conta”. In: Revista Forum: https://www.revistaforum.com.br/antonio-cicero-os-maiores-intelectuais-que-ja-conheci-tem-poesia-na-mais-alta-conta/
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23.8.18
Antonio Carlos Secchin: "Drummond; poesia e aporia"
Assistam à brlhante conferência do acadêmico Antonio Carlos Secchin intitulada "Drummond: poesia e aporia". Essa conferência, que teve lugar no teatro R. Magalhães, na ABL, no dia 16 do corrente, fez parte do ciclo de conferências "Cadeira 41", coordenado pela acadêmica Ana Maria Machado. Não tendo podido conduzir essa mesa por estar de viagem, Ana Maria pediu-me que a substituísse, o que fiz com prazer.
15.8.18
Antonio Cicero: Editorial da Revista UBC
No corrente mês, tive a honra de escrever o editorial da Revista UBC, que é a revista publicada pela União Brasileira de Compositores, da qual me orgulho de ser membro há muitos anos e um dos diretores, há um ano e alguns meses. Eis o texto que produzi:
Mesmo após a concessão do Prêmio
Nobel de Literatura a Bob Dylan, ainda há quem considere que as letras de
música são algo relativamente vulgar e inferior à poesia.
Um argumento frequentemente
empregado para tentar provar essa tese é que, às vezes, uma letra emociona
quando cantada e, quando lida no papel, sem acompanhamento musical, torna-se
insípida. É verdade, mas vejamos por que razão isso se dá. Ao contrário de um
poema – que tem seu fim em si próprio – uma letra de canção não tem, enquanto
tal, seu fim em si própria, mas na obra de arte, isto é, na canção, de que faz
parte. Por isso, para que julguemos boa uma letra de canção, é necessário e
suficiente que ela contribua para que a obra lítero-musical de que faz parte
seja boa. E, embora seja verdade que uma canção não seja um poema, há canções
que são obras de arte tão boas quanto bons poemas. Pense-se, entre inúmeras
outras, em “Construção”, de Chico Buarque, em “Terra”, de Caetano Veloso, em
“Cais”, de Milton Nascimento e Ronaldo Bastos ou em “Blowin’ in the Wind”, de
Bob Dylan.
De todo modo, há muitas letras de
canções que, quando lidas, revelam-se também como grandes poemas. É o caso, na
verdade, das quatro letras de canções que acabamos de citar. Ademais, não nos
esqueçamos de que os poemas líricos da Grécia antiga, por exemplo, eram letras
de canções. Perderam-se as músicas que os acompanhavam, de modo que não os
conhecemos senão na forma escrita. Ora, muitos deles são contados entre os
maiores poemas que se conhecem.
Vê-se assim como são inteiramente
ridículos os preconceitos que pretendem desvalorizar as letras de música.
9.8.18
Waly Salomão: "Tlaquepaque"
Tlaquepaque
Há que haver manjar dos deuses para aquele que descrê dos deuses
Meus pés esfolados recorrem becos, vielas, ruas,
avenidas intermináveis,
sem fonte alguma desencadear.
Busco tal ou qual cosmético – aceite de jojoba – como Édipo
[arrancava os próprios olhos
E Antígona escavava a terra para contra a lei do estado dar
[sepultura ao corpo familiar amado.
Há que haver ambrosia para aquele que descrê dos deuses.
SALOMÃO, Waly. "Tlaquepaque". In:_____. Poesia total. São Paulo: Companhia das Letras, 2014.
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17.7.18
Antonio Cicero: "A poesia e a filosofia no mundo contemporâneo"
Na semana passada proferi uma palestra intitulada "A poesia e a filosofia no mundo contemporâneo", na Academia Brasileira de Letra. O vídeo correspondente foi postado no YouTube pela ABL. Ei-lo:
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9.7.18
A poesia e a filosofia no mundo contemporâneo
Na próxima quinta-feira, dia 12 de julho, às 17h30, darei, no Teatro R. Magalhães Jr., da Academia Brasileira de Letras, a palestra "A poesia e a filosofia no mundo contemporâneo". Ela será parte do ciclo de conferências "Poesia e Filosofia" do qual -- a convite da Primeira Secretária d ABL, a escritora Ana Maria Machado -- sou o coordenador, no corrente mês. A entrada será franca.
Como parte do mesmo ciclo de conferências, ocorreu, na quinta-feira passada, no mesmo local, a bela e erudita conferência de Alberto Pucheu, "Espantografias: entre poesia e filosofia". Na quinta-feira, dia 26 do corrente mês, terá lugar a conferência de Evando Nascimento, intitulada "Uma literatura pensante: Pessoa, Clarice e as plantas".
Como parte do mesmo ciclo de conferências, ocorreu, na quinta-feira passada, no mesmo local, a bela e erudita conferência de Alberto Pucheu, "Espantografias: entre poesia e filosofia". Na quinta-feira, dia 26 do corrente mês, terá lugar a conferência de Evando Nascimento, intitulada "Uma literatura pensante: Pessoa, Clarice e as plantas".
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5.4.18
Antonio Carlos Secchin: "Caetano Veloso: Londres e São Paulo"
Assistam à gravação da belíssima palestra do acadêmico Antonio Carlos Secchin, intitulada "Caetano Veloso: Londres e São Paulo", pronunciada na terça-feira passada, na ABL, como parte do ciclo de conferências "As cidades dos poetas":
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7.12.17
Sylvia Beirute sobre a poesia de Antonio Cicero
Fiquei feliz com a análise crítica que a poeta portuguesa Sylvia Beirute fez da poesia que escrevo. Fica aqui: http://sylviabeirute.blogspot.com.br/2010/11/antonio-cicero-poemas-poesia-analise.html.
.
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26.11.17
Paul Valéry: "Quem escreve em versos..."
Quem escreve em versos...
Quem escreve em versos dança sobre a corda. Anda, sorri, saúda e isso nada tem de extraordinário, até o momento em que se percebe que esse homem tão simples e à vontade faz todas essas coisas sobre um fio da grossura do dedo.
VALÉRY, Paul. “Poésie”. In:_____. Ego scriptor et Petits poèmes abstraits. Présentation et choix de Judith Robinson-Valéry. Paris: Gallimard, 1992.
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2.10.17
Entrevista a Nahima Maciel, do "Correio Brasiliense"
A seguinte entrevista foi dada por mim a Nahima Maciel, do Correio Brasiliense, durante a 33ª Feira do Livro de Brasília, em junho deste ano:
Antonio Cicero afirma que a poesia permite ampliar a experiência do ser
O poeta e filósofo esteve na capital federal para pareticipar da 33ª Feira do Livro de Brasília
24/06/2017
Nahima Maciel
A filosofia é inevitável e, nos dias de hoje, extremamente necessária. É a “metalinguagem terminal”, nas palavras do poeta e filósofo Antonio Cicero. Tem uma certa coerência e alguma utilidade, já que filosofar pode ser um caminho para melhorar o mundo. A poesia é outra coisa. Não tem utilidade prática alguma e permite apreender o mundo em uma outra dimensão que não aquela das coisas funcionais. “A poesia é a língua-objeto terminal”, explica Cicero, que esteve em Brasília para a 33ª Feira do Livro de Brasília para falar do tropicalismo, tema do evento. O filósofo acaba de lançar A poesia e a crítica, coletânea com textos de palestras e ensaios proferidos e escritos nos últimos 11 anos.
Em 2016, Cicero lançou um disco em parceria com Arthur Nogueira. Presente foi uma espécie de celebração dos 70 anos do artista, mas também um aviso de que, a partir de agora, pretende se dedicar apenas à poesia. E essa, no caso do Brasil, está muito ligada à música graças a movimentos como a bossa nova e a tropicália. Na apresentação de A poesia e a crítica, Cicero conta como se encantou com Caetano Veloso no final dos anos 1960, quando foi morar em Londres para estudar e fugir da ditadura. Veloso, na época no exílio e casado com Dedé Gadelha, prima de Cícero, era capaz de colocar abaixo as barreiras entre o erudito e o popular graças a uma grande liberdade de pensamento, a mesma que fez Tom Jobim e Vinicius de Moraes ignorarem essas fronteiras.
Dessa forma, a poesia e a música sempre andaram juntas, mais agarradas uma à outra no Brasil do que em outros países. “Você vê um músico extraordinário como Tom Jobim fazendo música popular, um poeta como Vinicius de Moraes, erudito, de repente fazendo canções com Tom Jobim. Depois, veio uma geração incrível de pessoas influenciadas por eles. O próprio Caetano, um grande poeta. Não tem como negar. O Chico Buarque. São grandes poetas e músicos que estão fazendo coisas novamente consideradas menores, mas que não são menores”, diz Cicero, ao comentar o estardalhaço feito em torno do prêmio Nobel de literatura concedido a Bob Dylan. Abaixo, Cícero fala sobre filosofia, sobre o Brasil e sobre a poesia no mundo contemporâneo.
Ainda é importante falar de filosofia hoje?
Não se pode evitar a filosofia. Chamo a filosofia de metalinguagem das metalinguagens. Metalinguagem é a linguagem que fala de outra linguagem. Se estou falando sobre um livro de poesia ou qualquer outra coisa, minha linguagem é metalinguística em relação a ele. A poesia é a metalinguagem das metalinguagens. A língua sobre a qual se fala é a língua-objeto. Não é possível falar da filosofia sem filosofar porque só a filosofia fala de si própria. A filosofia é a metalinguagem terminal e a poesia é a língua-objeto terminal. Então, você não pode atacar a filosofia sem ser filosófico. E a filosofia, justamente por isso, fala das últimas coisas, ou das primeiras. Ela fala sobre o ser de maneira geral, sobre o sentido da vida. A ética faz parte da filosofia, a estética, também. Não há como evitar. A filosofia puramente quer ser. Tem a ver com a razão e com o intelecto. A religião tem a ver com fé, emoção.
Está difícil falar de ética hoje no Brasil?
Um dos problemas que vejo no Brasil é que todas as ideologias tradicionais funcionam quase como uma religião. Os conjuntos de ideias que as pessoas tinham sobre o Brasil ou o mundo, aparentemente, falharam todos. Depois da queda da cortina de ferro, tudo falhou. Parece que não deu certo. As previsões e as esperanças para a esquerda não deram certo. A URSS não funcionou, a China maoísta, que era contra a URSS porque achava que tinha um marxismo-leninismo mais puro, não deu certo. Isso criou uma situação muito complicada para as pessoas que tinham essa ideologia, o que não quer dizer que as ideologias de direita sejam melhores ou funcionem melhor. Não acredito nisso. Na verdade, nenhuma deu certo. Agora é uma hora de se pensar de novo no que Marx realmente queria.
Como assim?
O materialismo histórico, que pretende ser o marxismo científico, não deu certo. A partir dele previa-se, por exemplo, que a classe operária teria salários cada vez menores; que haveria uma queda da taxa de lucro dos capitalistas; que as tentativas das nações capitalistas de evitar as crises econômicas falhariam; que haveria revoluções socialistas nos países mais avançados, não nos menos avançados. Essas previsões falharam. Karl Popper, um pensador austríaco, dizia que a ciência – e Marx pensava que tinha feito uma filosofia científica – não pode estar sempre procurando provar que está certa, como faz o marxismo. Ao contrário, a verdadeira ciência está sempre procurando coisas que poderiam “desprovar” o que ela afirma. Está sempre se submetendo a testes. E enquanto os testes não destruírem a teoria científica, ela se segura. Mas pode vir alguém no futuro que faça uma experimentação e mostre que tudo está errado. A ciência é isso, está sempre ali sendo testada.
O que faz de um poema, um poema?
Essa coisa é muito difícil de responder. Já tive várias maneiras de falar desse assunto. Não existe uma definição que seja universalmente aceitável do que é poesia. Goethe dizia que a gente fala da poesia como uma das artes, mas isso está errado: a gente devia pensar em cada arte como sendo uma das várias formas de poesia. E poesia como se fosse um nome para as artes em geral. E tem a poesia que produz os poemas. Não só versos, porque há poemas em prosa e poemas visuais. O importante nas diferentes artes é que elas nos oferecem uma maneira de apreender o próprio ser, a vida, o mundo, diferente daquele que temos cotidianamente.
E como é nossa forma de ver o mundo no cotidiano?
É extremamente utilitária. A gente faz as coisas todas tendo em vista determinados propósitos, determinadas finalidades. Tudo é muito calculado. A gente apreende o mundo a partir dessa maneira de ver as coisas, cada coisa tem um sentido, serve para uma coisa. E a gente tende a ver as próprias pessoas assim. A poesia, não.
A poesia possibilita, como você fala em um dos textos do livro, uma nova dimensão do ser. Que dimensão?
A gente passa a apreender o mundo de uma maneira diferente quando entra num poema, numa pintura, numa peça musical. Nosso mundo se amplia porque a gente percebe as coisas de uma maneira que a gente não percebia antes. É como se fosse uma outra dimensão. Existe a dimensão utilitária e existe essa dimensão estética, usando essa palavra com cuidado porque muita gente pode apreender o próprio estético como utilitário, como se fosse o que a gente acha bonito. Não é isso, é uma coisa mais ampla. Vamos dizer, apreender de um modo artístico a linguagem, sentir. Isso enriquece nossa maneira de estar no mundo. Devemos ter essa maneira de estar no mundo mesmo sem estar lendo um poema. É possível curtir as coisas de uma maneira diferente. A poesia nos leva a isso e nos abre muitas perspectivas sobre as diferentes coisas que estão no mundo e na nossa vida. E ela faz isso subvertendo a maneira normal de a gente realmente ver as coisas, captar, apreender.
Se falou muito da ligação entre música e poesia quando Bob Dylan ganhou o Nobel, mas no Brasil essa discussão existe há muito tempo. Falamos mais nisso por termos a música que temos?
Acho que sim. No Brasil aconteceu mais fortemente do que nos outros países essa compreensão de que não é possível separar radicalmente o que é alta cultura, cultura erudita, do que é cultura popular. A ideia, que é uma ideia moderna e necessária, é que não se julgue uma obra a partir do lugar que a ela é convencionalmente designado. Se trata de uma obra erudita ou popular? Não. O que interessa é, primeiro, você olhar a própria coisa e ela ser capaz de ter esse efeito de que falei, estético ou artístico. Pode ser mais forte ou menos forte, mas isso não depende de ela ser erudita ou popular. O Bob Dylan pode, de repente, ter isso tão forte quanto um compositor de música erudita. Não dá mais para julgar com preconceito.
E qual o papel da Bossa Nova e da Tropicália nisso?
A bossa nova foi o movimento que realmente tematizou isso e compreendeu totalmente o que tinha acontecido. E quem fez isso mais claramente ainda foram os tropicalistas. Eles compreenderam totalmente essa situação e fizeram uma revolução nesse sentido. Isso foi muito importante. Foram eles que tornaram possível a gente compreender que aquela hierarquia tinha dançado.
Você vislumbra alguma outra revolução desse tipo possível na cultura brasileira?
Não. Mas acho que não precisa ter. Já foi feita essa revolução, já se sabe disso. O que tem é muita coisa muito ruim e algumas poucas coisas boas. Mas sempre foi assim, em todas as épocas e em todas as áreas. A gente sempre acha que agora é pior. Tenho a impressão de que quem viveu a experiência tropicalista pode ter isso muito forte. Eu vivi, mas tento me conter porque, às vezes, acho que ainda não deu tempo de perceber as coisas boas que estão sendo feitas. Há tanta coisa. A internet multiplicou. Todo mundo escreve poesia hoje. Mesmo quem não gosta. É estranhíssimo. E claro que a maior parte não é boa. Mas alguns poetas são muito bons.
A internet fez mal para a poesia?
Acho que não fez mal, mas permitiu a muita gente escrever. Isso tem um lado bom, talvez pessoas que não apareciam antes apareçam agora. Mas é que é tanta coisa que é muito difícil você filtrar. E demora um tempo. Essas coisas vão sendo filtradas com o tempo.
30.9.17
Marcelo Rondinelli: "Hölderlin (re)traduzido no Brasil: constelações poético-tradutórias, acontecimentos"
O poeta André Vallias acaba de me chamar atenção para um belo ensaio do Professor Marcelo Rondinelli, intitulado "Hölderlin (re)traduzido no Brasil: constelações poético-tradutórias, acontecimentos". Nesse texto são consideradas, entre outras coisas, algumas das traduções que fiz de poemas do grande poeta alemão. O ensaio foi originalmente publicado no vol.18, nº2, 2016 da Revista Graphos -- que é uma publicação do Programa de Pós-Graduação em Letras da Univesidade Federal da Paraíba -- e pode ser lido aqui: http://periodicos.ufpb.br/index.php/graphos/article/viewFile/32163/16707.
23.8.17
Lúcio Carvalho: "A poesia, a crítica e um tanto mais"
Gostei também do artigo "A poesia, a crítica e um tanto mais", de Lúcio Carvalho, na revista digital "amálgama", editada por Daniel Lopes. Encontra-se aqui:
https://www.revistaamalgama.com.br/07/2017/resenha-a-poesia-e-a-critica-antonio-cicero/
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18.8.17
Entrevista de Antonio Cicero ao Canal Curta
O excelente Canal Curta acaba de postar no You Tube trechos de uma entrevista que fez comigo por ocasião do lançamento do meu livro mais recente, A poesia e a crítica. Ei-los:
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