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17.6.12
Antonio Cicero: entrevista a Diego Viana
A seguir publico na íntegra a entrevista que concedi a Diego Viana e que foi publicada parcialmente no jornal Valor Econômico, em 11 do corrente:
Sua participação na Flip deste ano será dedicada aos 110 anos de Drummond. Gostaria de poder adiantar um pouco do que será discutido. O que há para dizer de Drummond, hoje, que vá além de tudo que já se disse?
Sempre haverá o que dizer sobre a poesia de Drummond porque Drummond escreveu vários grandes poemas. Ora, um único grande poema já é capaz de evocar tantas coisas, de aludir a tantas coisas, de admitir tantos níveis de tantas interpretações, que nada do que se disser sobre ele será capaz de esgotá-lo.
Logo nos primeiros capítulos, o sr. aponta uma característica comum da filosofia e da poesia, que as deixa, ambas, algo deslocadas hoje: a exigência de dedicação e tempo. Até que ponto a correria contemporânea pode comprometer não apenas a recepção, mas a própria atividade da poesia e da filosofia?
De fato, a temporalidade cotidiana, utilitária e instrumental dos nossos dias não favorece o cultivo nem da poesia nem da filosofia. Trata-se de uma temporalidade inteiramente submetida ao utilidade, à instrumentalidade, ao princípio do desempenho. Contudo, é a filosofia que nos permite criticar a exclusividade da vigência desse mesmo princípio, e é a poesia escrita que nos dá acesso a outro modo de apreensão do ser, a outra temporalidade, não submetida ao princípio do desempenho. É por serem empreendimentos extremos do pensamento que a poesia e a filosofia são tanto indispensáveis quanto impopulares, pelo menos hoje e no futuro previsível.
A liberdade dos poetas, conquistada a duras penas, em relação às formas (inclusive a liberdade de adotar uma forma clássica) é, não raro, criticada como esteticamente permissiva demais. Assim como ocorre com a maior parte da arte contemporânea, a poesia enfrenta um saudosismo segundo o qual “quando tudo se pode fazer, nada se faz de verdade”. Como o sr. encara essa antiga objeção à poesia e à arte contemporâneas?
Encaro-a como inaceitável, pois regressiva. As vanguardas nos ensinaram que não é possível estabelecer limites a priori para a liberdade poética. A poesia não se encontra prêt-à-porter em nenhuma forma dada. O domínio de nenhuma técnica particular garante a qualidade de um poema. Quase todos os poemas escritos em versos livres são ruins; mas também quase todos os poemas escritos em versos metrificados são ruins. É que, em matéria de poesia, só o excelente é bom. E não há regras para a produção ou a avaliação de poesia excelente. É preciso julgar caso a caso. Como já dizia Montaigne, “a poesia boa, excessiva, divina está acima das regras e da razão”.
Já em 2007, o sr. publicou um artigo em que argumentava pela manutenção da fronteira clara entre poesia e filosofia. Há quanto tempo a questão dessa fronteira o motiva? Nos cinco anos de intervalo entre o artigo e o livro, a que acréscimos sua reflexão o levou?
Quando escrevi o artigo, já pensava a maior parte das coisas que agora desenvolvo no livro. No espaço limitado de um artigo de jornal, porém, era limitado o que eu podia dizer. Por isso, quando o Evando Nascimento, que dirige o selo “Coleção Contemporânea” da Civilização Brasileira, convidou-me para escrever um volume sobre poesia e filosofia, aproveitei essa ocasião.
Para alguém que trabalha com a mesma desenvoltura na erudição da filosofia e na música popular, como se dá a relação entre o erudito e o popular? Durante décadas, foi uma relação de desconfiança mútua, não raro até de desprezo.
É verdade. No entanto, há muita coisa vulgar no terreno “erudito” e muita coisa fina no terreno “popular”. De novo, também aqui é preciso julgar caso a caso. Antigamente eu considerava que o desprezo pelo jazz que um pensador como Adorno ostentava não passasse de uma mistura de ignorância e preconceito; hoje em dia, porém, depois de ler o artigo de 1933 em que Adorno, sendo judeu e marxista, apela ao governo nazista pela proibição do jazz, considero esse “desprezo” como simplesmente patológico.
Além da vontade em borrar a fronteira entre poesia e filosofia, me parece que uma das tarefas a que se entregou a filosofia no século XX, ou, pelo menos, a filosofia chamada continental (particularmente a francesa), foi justamente derreter fronteiras em geral, entre práticas, teorias, doutrinas. Se aceitarmos essa perspectiva, poderíamos dizer que erguer-se contra a dissolução da fronteira entre poesia e filosofia se inscreve numa disputa mais ampla, erguendo-se contra a dissolução de fronteiras em geral?
Não, pois creio que algumas fronteiras eram meramente convencionais, de modo que teriam, mais cedo ou mais tarde, que ser relativizadas ou suprimidas. Refiro-me, em particular, às fronteiras entre as diferentes artes. Mas, como tento mostrar no meu livro, a fronteira entre arte e filosofia não pode ser suprimida sem prejuízo para ambas. Creio que o mesmo vale para as fronteiras entre arte e ciência, por um lado, e ciência e filosofia, por outro.
Até que ponto a motivação para questionar o vínculo entre poesia e filosofia está ligada a sua própria prática dupla, de poeta e filósofo? Pergunto isso porque poderíamos acrescentar aí uma questão, para além daquela do poema como objeto, sobre o sujeito do fazer poético e o sujeito do pensamento filosófico: como é a coabitação entre esses esforços dentro de uma mesma consciência, no caso, a sua? Ou seja: dialogam? São permeáveis um ao outro? Entram em conflito?
Costumo dizer que, em mim, quando chega o filósofo, o poeta vai embora; e que, enquanto o filósofo está presente, o poeta nem sequer aparece. Sei que isso parece um tanto esquizofrênico, mas é assim.
A mesma questão, de maneira mais direta e simples: em sua poesia, não há também filosofia e, em sua filosofia, poesia?
Em minha poesia pode estar presente tudo o que sei e tudo o que vivo, inclusive a filosofia. Contudo, o que sei de filosofia não está mais presente na minha poesia do que o que sei de história, sociologia, urbanismo, pintura, romance etc.; nem mais presente nela do que a minha memória, o meu senso de humor, a minha emoção, as minhas sensações etc. É o livre jogo das diferentes faculdades que produz o poema. Embora também na filosofia tudo possa ser levado em conta, o que nela domina é a razão. Mas o que faço questão de mostrar no livro é que são inteiramente diferentes os fatores que nos fazem dar valor a um poema, por um lado, e os que nos fazem dar valor a uma obra filosófica, por outro.
Simplifiquei a pergunta anterior para poder introduzir a questão de filósofos que escreveram poesia (não simplesmente verso) mesmo quando filosofavam: sejam Heráclito, Parmênides e Empédocles, seja Lucrécio, seja Nietzsche. Neles, o trabalho poético prejudica ou amplifica o trabalho filosófico?
Tanto os poetas quanto os filósofos são pensadores. Ocorre porém que os pensamentos destes são de natureza inteiramente diferente dos pensamentos daqueles. Digo sempre que os filósofos pensam SOBRE o mundo. É como se estivessem do lado de fora, ou acima do mundo, para pensar sobre ele. O mundo é o objeto sobre o qual eles pensam. Já os poetas pensam O mundo. Eles estão imersos no mundo que pensam. Não há nem a mediação preposicional -- ou linguística --, nem mediação nenhuma entre eles e o mundo que pensam. Eles não se diferenciam do mundo, que se lhes apresenta tanto como objeto quanto como sujeito. Quanto aos filósofos que você menciona: Heráclito, que se saiba, não escreveu propriamente poemas, mas aforismos; Parmênides e Empédocles escreveram em versos, mas como Aristóteles observava, referindo-se a eles, fazer versos não é ainda fazer poesia. Já Lucrécio, embora fosse certamente um grande poeta, não se declarava filósofo, mas apenas divulgador da obra do filósofo Epicuro. É verdade que Nietzsche escreveu alguns poemas, mas a maior e melhor parte de sua obra não é propriamente composta de poemas, mas de textos literários bastante sui generis.
Outro tema que aparece no livro e no artigo é o da intuição, na filosofia, e da inspiração, na poesia. Considerando que ambos os termos remetem à noção de um germe criativo, a desenvolver pela reflexão ou pela sensibilidade, de que maneira eles se diferenciam? Podemos dissociá-los radicalmente?
Em certo sentido sim, pois ambos provêm do acaso e do inconsciente, mas eu diria que a intuição filosófica se aproxima de uma espécie de curto-circuito conceitual ou intelectual, enquanto a inspiração do poeta envolve todas as suas faculdades.
Pierre Vidal-Nacquet e Jean-Pierre Vernant retraçam a passagem da Grécia clássica à Grécia socrática, discutindo, entre outras coisas, a evolução das formas de registro da história e do pensamento; um dos elementos dessa transformação está na gramatização da língua, com a separação das frases etc., e a transição do verso para a prosa na história, na filosofia, no teatro. Assim, a poesia poderia ser associada a uma “mentalidade trágica”, enquanto a prosa se associaria a um racionalismo então nascente. Agora, à pergunta: levando adiante essa leitura, a distinção rigorosa entre filosofia e poesia não seria a expressão desse racionalismo, o que faria da tentativa de ir além dessa distinção um esforço de superá-lo? Ou seja: definir essa fronteira comum não consiste, também, em definir as fronteiras da filosofia como um todo?
A gramatização da língua grega se deu em primeiro lugar ao serem escritos os poemas orais de Homero. Ou seja, ela se deu antes da produção de qualquer texto em prosa. Acho errado considerar a poesia lírica como expressão de uma “mentalidade trágica”. Quanto à distinção entre poesia e filosofia, ela não é, a meu ver, a expressão de nenhum racionalismo, mas sim uma expressão da atividade da própria razão. E não vejo como seria possível à razão superar a si própria.
Se um poema, como um quadro de Rembrandt, é uma obra que suscita “o livre jogo da imaginação e do entendimento”, ele não é, porém, um objeto da natureza, como a paisagem e a flor. Existe aí um ato dotado de finalidade estética, ao qual o leitor ou espectador será confrontado, ainda que de maneira exclusivamente estética; é, ao menos, um ato que se insere na realidade e a condensa no objeto da criação: o poema, o quadro. Ora, esse confronto com um objeto que penetra na realidade de maneira até então desconhecida não poderia ser um embrião ou um estopim de filosofia? O mesmo não poderia se dar no propósito de criação de um poema?
Sim. Um ramo da filosofia, a estética, reflete exatamente SOBRE a arte, a poesia, a criação. Mas seria absurdo confundir a estética filosófica com a arte, a poesia ou a criação.
21.5.12
Entrevista a Marcos Augusto Gonçalves sobre o livro "Poesia e filosofia"
A seguinte entrevista, dada a Marcos Augusto Gonçalves, foi publicada ontem no caderno "Ilustríssima" da Folha de São Paulo:
A ideia e a lira
Para Antonio Cicero, poesia e filosofia são nuvens diferentes
RESUMO O poeta e filósofo carioca Antonio Cicero comenta seu ensaio recém-lançado "Poesia e Filosofia", que reflete sobre os limites entre a atividade filosófica, feita de ideias e de caráter abstrato, e a prática poética, constituída de palavras e eminentemente concreta. Em suas palavras, trata-se de "nuvens diferentes".
MARCOS AUGUSTO GONÇALVES
EM SUAS PALESTRAS e apresentações públicas, Antonio Cicero já se habituou a responder perguntas sobre letras de canções, poesia e filosofia, atividades que coexistem em seu universo intelectual e criativo. Se as semelhanças entre poema e letra de música são evidentes, no caso da filosofia e da poesia a distância que as separa é bem maior do que se poderia, irrefletidamente, supor.
"Penso que são atividades humanas inteiramente diferentes uma da outra", afirma Cicero, 66, em seu novo livro, "Poesia e Filosofia" [Civilização Brasileira, 144 págs., R$ 34,90] , publicado na coleção Contemporânea, dirigida pelo pelo professor de literatura Evando Nascimento.
O volume reúne argumentos para demonstrar, com base na reflexão e na experiência do autor, que poeta e filósofo podem até viver com a cabeça nas nuvens, como imagina o senso comum -mas nuvens diferentes: "A filosofia deve ser um empreendimento extremo da razão, a poesia, não". Enquanto o discurso da filosofia encerra uma proposição sobre as coisas, o valor da poesia, segundo Cícero, "não é dado pelo que fale sobre coisa alguma".
Sua finalidade "é o poema, a obra poética, feita para ser fruída esteticamente". Ou, como respondeu o poeta francês Stéphane Mallarmé (1842-98) ao pintor Edgar Degas (1834-1917), que pretendia fazer poesia por ter muitas ideias: poemas são escritos com palavras, não com ideias.
Cicero estudou filosofia no Rio de Janeiro, na década de 1960, concluiu o curso na Universidade de Londres e fez pós-graduação na Universidade Georgetown, nos EUA.
Em 1995, publicou o ensaio filosófico "O Mundo desde o Fim" (Francisco Alves); três anos depois, veio o volume de poesia "Guardar" (1996), estreia em livro do poeta já conhecido pelas letras cantadas pela irmã Marina Lima.
Poesia e filosofia continuaram sendo trabalhadas em canteiros de obras paralelos: em 2005, veio a antologia de ensaios "Finalidades sem Fim" (Companhia das Letras). Uma amostra de sua produção poética está na antologia que a EdUerj lançou em 2010, com apresentação de Alberto Pucheu.
Na entrevista a seguir, resultado de conversas telefônicas e troca de e-mails, ele fala sobre o livro.
Você afirma que um ensaio de filosofia exige sobretudo aplicação para desenvolver e explicar ideias, enquanto a poesia depende da dedicação do espírito, recursos, faculdades, esforços. Essa afirmação parte de uma experiência pessoal. Ela é generalizável?
Talvez não seja a rigor universalizável, mas parece ser em certa medida generalizável, pois o fato é que, pelo menos desde Homero, muito mais poetas do que filósofos dão importância, na produção de poemas, ao que chamam de "inspiração", isto é, a algo que escapa de seu controle e de sua decisão racional.
Em sua opinião um poema, a rigor, não serve para nada: ou sua leitura recompensa a si própria ou não tem nenhum valor. Você diria que essa afirmação se aplicaria às artes de uma maneira geral?
Sim. [Paul] Valéry [1871-1945] dizia que um poema devia ser uma festa do intelecto. Penso que idealmente a apreciação de um poema enquanto poema é uma festa não apenas do intelecto, mas da interação de todas as nossas faculdades -razão, sensibilidade, sensualidade, emoção, senso de humor, intuição- entre si e com nossa experiência, cultura, conhecimento etc. Idealmente, o mesmo vale para a apreciação de todas as artes. Essa festa já vale por si.
Você reitera a fórmula de Mallarmé, segundo a qual poesia se faz com palavras, e não com ideias. Os filósofos clássicos que expunham suas ideias sob a forma poética não faziam poesia, mas filosofia em verso? Você não poderia ser acusado de formalista?
Seria uma acusação sem fundamento. Veja bem: o pintor Degas estava explicando que pensava poder escrever um poema, já que tinha muitas ideias. Mallarmé então respondeu que um poema não se escreve com ideias, mas com palavras. Invertamos a situação. Suponhamos que Mallarmé tivesse dito a Degas que pensava poder fazer uma pintura, já que tinha muitas ideias. Que lhe responderia Degas, com toda a probabilidade?
Que uma pintura não se faz com ideias, mas com tinta e movimentos da mão e do pincel. Ou seja, quando Mallarmé diz a Degas que a poesia não se faz com ideias, mas com palavras, ele está dizendo que a poesia, não menos que a pintura, é arte, e não filosofia.
Um poema é uma obra, um objeto, não menos que uma pintura. Esta é feita com tinta, mão, pincel; aquele, com palavras. É por essa razão que se pode estudar a filosofia de filósofos que não possuem obra, como Sócrates, mas não se pode falar da poesia de quem jamais haja feito um poema.
No entanto, isso não quer dizer que um poema -ou uma pintura- não contenha ideias. Um poema é feito de palavras e ideias, formas e conteúdos. O que ocorre é que, num poema, as ideias são inseparáveis das palavras, e os conteúdos, das formas. Um poema não pode ser parafraseado, isto é, dito em outras palavras.
Quanto aos filósofos pré-socráticos, que escreviam em versos, é preciso, de fato, não esquecer que uma sequência de versos não chega a ser necessariamente um poema, e que um poema não é necessariamente feito de uma sequência de versos.
Na Grécia arcaica, escreviam-se não só obras de filosofia, mas também de medicina em versos. Essas obras não eram poemas, como, aliás, já observava Aristóteles, exatamente porque, ao contrário do que ocorre na poesia, nelas o conteúdo pode ser separado da forma, assim como as ideias, das palavras que as exprimem.
É possível que se faça um poema filosófico inteiramente satisfatório como literatura e filosofia?
Talvez o que tenha chegado mais perto disso seja o longo poema "Da Natureza das Coisas", de Lucrécio [c. 96 a.C.-c. 55 a.C.]. No entanto, o próprio Lucrécio considerava que seu maior mérito era ter exposto a filosofia de Epicuro em "luminosos versos, a tudo tocando com a graça das Musas". Além disso, a meu juízo, os trechos mais poéticos do poema não são os mais interessantes filosoficamente e vice-versa.
A grande dificuldade é que a filosofia, quando maximamente ambiciosa, consiste num empreendimento racional, crítico, abstrato, enquanto o poema é sempre concreto, no sentido de consistir numa síntese indissociável de múltiplas determinações semânticas, sintáticas, morfológicas, fonológicas, rítmicas etc.
Assim, enquanto a ambiguidade, a anfibologia, a polissemia, a equivocação, a imprecisão, em suma, a "sujeira" linguística são características a serem evitadas (ou são tomadas como "males necessários") pela filosofia maximamente ambiciosa, elas são o próprio material com o qual a poesia trabalha.
O que é mais difícil, traduzir poemas ou conceitos filosóficos?
Traduzir poemas. Como, na poesia, o significado não se separa do significante, é a tradução de poemas que beira a impossibilidade. É por isso que o poeta Haroldo de Campos [1929-2003] empregava a palavra "transcriação" para a tentativa de tradução de poemas. Já os conceitos filosóficos são -ou devem ser- perfeitamente traduzíveis. A pretensão de que não o sejam não passa, a meu ver, de mistificação indigna.
Filósofo e poeta não se aproximam ao serem personagens deslocados da lógica do desempenho que marca a vida contemporânea?
Por esse ângulo sim, eles se aproximam. Não é à toa que o senso comum acha que tanto um quanto o outro vivem com a cabeça nas nuvens: para ele, nem um nem o outro têm o pé na Terra.
No entanto, como mostro no livro, as nuvens do poeta não são normalmente as do filósofo. Enquanto este se interessa, por exemplo, pelo "ser enquanto ser", pela relação entre a matéria e a ideia, pela natureza da verdade etc., o poeta fala do amanhecer, do amor que sente por alguém, da morte que se aproxima, de certo tom de azul, dos sapatos usados, da rua que vê pela janela do ônibus...
Se, a seu ver, poesia e filosofia são inteiramente distintas, o mesmo não se pode dizer da atividade do letrista e do poeta. Quais são as semelhanças e diferenças entre letra de canção e poema?
A meu ver, a letra de canção é uma forma de poesia. Há uma diferença evidente, entretanto, entre um poema destinado a ser cantado e escutado (uma letra de canção) e um poema destinado a ser lido. É que este é autotélico: ele já constitui a obra de arte, a ser fruída por um leitor; já aquele é heterotélico: ele faz parte da canção, e é esta que é a obra de arte, a ser fruída por um ouvinte.
Assim, para mim, uma coisa é fazer um poema para ser lido; outra coisa é fazer uma letra de canção. É que, quando faço um poema, penso apenas nele mesmo; mas quando faço uma letra de canção -e normalmente faço letras para melodias que algum compositor ou compositora me oferece-, faço-a para também corresponder às notas e ao espírito da melodia.
Isso não quer dizer, porém, que um poema feito para ser lido seja necessariamente melhor do que uma letra de canção.
A prova disso é que os poemas líricos da Grécia antiga, como os de Safo, Alceu e Anacreonte, que fazem parte importante do cânone ocidental de poesia, eram o que hoje chamamos de "letra de canção". Afinal, o próprio epíteto "lírico" vem de "lira". Outra prova disso é que um cancionista como Caetano Veloso, por exemplo, é com certeza um dos nossos maiores poetas.
A ideia e a lira
Para Antonio Cicero, poesia e filosofia são nuvens diferentes
RESUMO O poeta e filósofo carioca Antonio Cicero comenta seu ensaio recém-lançado "Poesia e Filosofia", que reflete sobre os limites entre a atividade filosófica, feita de ideias e de caráter abstrato, e a prática poética, constituída de palavras e eminentemente concreta. Em suas palavras, trata-se de "nuvens diferentes".
MARCOS AUGUSTO GONÇALVES
EM SUAS PALESTRAS e apresentações públicas, Antonio Cicero já se habituou a responder perguntas sobre letras de canções, poesia e filosofia, atividades que coexistem em seu universo intelectual e criativo. Se as semelhanças entre poema e letra de música são evidentes, no caso da filosofia e da poesia a distância que as separa é bem maior do que se poderia, irrefletidamente, supor.
"Penso que são atividades humanas inteiramente diferentes uma da outra", afirma Cicero, 66, em seu novo livro, "Poesia e Filosofia" [Civilização Brasileira, 144 págs., R$ 34,90] , publicado na coleção Contemporânea, dirigida pelo pelo professor de literatura Evando Nascimento.
O volume reúne argumentos para demonstrar, com base na reflexão e na experiência do autor, que poeta e filósofo podem até viver com a cabeça nas nuvens, como imagina o senso comum -mas nuvens diferentes: "A filosofia deve ser um empreendimento extremo da razão, a poesia, não". Enquanto o discurso da filosofia encerra uma proposição sobre as coisas, o valor da poesia, segundo Cícero, "não é dado pelo que fale sobre coisa alguma".
Sua finalidade "é o poema, a obra poética, feita para ser fruída esteticamente". Ou, como respondeu o poeta francês Stéphane Mallarmé (1842-98) ao pintor Edgar Degas (1834-1917), que pretendia fazer poesia por ter muitas ideias: poemas são escritos com palavras, não com ideias.
Cicero estudou filosofia no Rio de Janeiro, na década de 1960, concluiu o curso na Universidade de Londres e fez pós-graduação na Universidade Georgetown, nos EUA.
Em 1995, publicou o ensaio filosófico "O Mundo desde o Fim" (Francisco Alves); três anos depois, veio o volume de poesia "Guardar" (1996), estreia em livro do poeta já conhecido pelas letras cantadas pela irmã Marina Lima.
Poesia e filosofia continuaram sendo trabalhadas em canteiros de obras paralelos: em 2005, veio a antologia de ensaios "Finalidades sem Fim" (Companhia das Letras). Uma amostra de sua produção poética está na antologia que a EdUerj lançou em 2010, com apresentação de Alberto Pucheu.
Na entrevista a seguir, resultado de conversas telefônicas e troca de e-mails, ele fala sobre o livro.
Você afirma que um ensaio de filosofia exige sobretudo aplicação para desenvolver e explicar ideias, enquanto a poesia depende da dedicação do espírito, recursos, faculdades, esforços. Essa afirmação parte de uma experiência pessoal. Ela é generalizável?
Talvez não seja a rigor universalizável, mas parece ser em certa medida generalizável, pois o fato é que, pelo menos desde Homero, muito mais poetas do que filósofos dão importância, na produção de poemas, ao que chamam de "inspiração", isto é, a algo que escapa de seu controle e de sua decisão racional.
Em sua opinião um poema, a rigor, não serve para nada: ou sua leitura recompensa a si própria ou não tem nenhum valor. Você diria que essa afirmação se aplicaria às artes de uma maneira geral?
Sim. [Paul] Valéry [1871-1945] dizia que um poema devia ser uma festa do intelecto. Penso que idealmente a apreciação de um poema enquanto poema é uma festa não apenas do intelecto, mas da interação de todas as nossas faculdades -razão, sensibilidade, sensualidade, emoção, senso de humor, intuição- entre si e com nossa experiência, cultura, conhecimento etc. Idealmente, o mesmo vale para a apreciação de todas as artes. Essa festa já vale por si.
Você reitera a fórmula de Mallarmé, segundo a qual poesia se faz com palavras, e não com ideias. Os filósofos clássicos que expunham suas ideias sob a forma poética não faziam poesia, mas filosofia em verso? Você não poderia ser acusado de formalista?
Seria uma acusação sem fundamento. Veja bem: o pintor Degas estava explicando que pensava poder escrever um poema, já que tinha muitas ideias. Mallarmé então respondeu que um poema não se escreve com ideias, mas com palavras. Invertamos a situação. Suponhamos que Mallarmé tivesse dito a Degas que pensava poder fazer uma pintura, já que tinha muitas ideias. Que lhe responderia Degas, com toda a probabilidade?
Que uma pintura não se faz com ideias, mas com tinta e movimentos da mão e do pincel. Ou seja, quando Mallarmé diz a Degas que a poesia não se faz com ideias, mas com palavras, ele está dizendo que a poesia, não menos que a pintura, é arte, e não filosofia.
Um poema é uma obra, um objeto, não menos que uma pintura. Esta é feita com tinta, mão, pincel; aquele, com palavras. É por essa razão que se pode estudar a filosofia de filósofos que não possuem obra, como Sócrates, mas não se pode falar da poesia de quem jamais haja feito um poema.
No entanto, isso não quer dizer que um poema -ou uma pintura- não contenha ideias. Um poema é feito de palavras e ideias, formas e conteúdos. O que ocorre é que, num poema, as ideias são inseparáveis das palavras, e os conteúdos, das formas. Um poema não pode ser parafraseado, isto é, dito em outras palavras.
Quanto aos filósofos pré-socráticos, que escreviam em versos, é preciso, de fato, não esquecer que uma sequência de versos não chega a ser necessariamente um poema, e que um poema não é necessariamente feito de uma sequência de versos.
Na Grécia arcaica, escreviam-se não só obras de filosofia, mas também de medicina em versos. Essas obras não eram poemas, como, aliás, já observava Aristóteles, exatamente porque, ao contrário do que ocorre na poesia, nelas o conteúdo pode ser separado da forma, assim como as ideias, das palavras que as exprimem.
É possível que se faça um poema filosófico inteiramente satisfatório como literatura e filosofia?
Talvez o que tenha chegado mais perto disso seja o longo poema "Da Natureza das Coisas", de Lucrécio [c. 96 a.C.-c. 55 a.C.]. No entanto, o próprio Lucrécio considerava que seu maior mérito era ter exposto a filosofia de Epicuro em "luminosos versos, a tudo tocando com a graça das Musas". Além disso, a meu juízo, os trechos mais poéticos do poema não são os mais interessantes filosoficamente e vice-versa.
A grande dificuldade é que a filosofia, quando maximamente ambiciosa, consiste num empreendimento racional, crítico, abstrato, enquanto o poema é sempre concreto, no sentido de consistir numa síntese indissociável de múltiplas determinações semânticas, sintáticas, morfológicas, fonológicas, rítmicas etc.
Assim, enquanto a ambiguidade, a anfibologia, a polissemia, a equivocação, a imprecisão, em suma, a "sujeira" linguística são características a serem evitadas (ou são tomadas como "males necessários") pela filosofia maximamente ambiciosa, elas são o próprio material com o qual a poesia trabalha.
O que é mais difícil, traduzir poemas ou conceitos filosóficos?
Traduzir poemas. Como, na poesia, o significado não se separa do significante, é a tradução de poemas que beira a impossibilidade. É por isso que o poeta Haroldo de Campos [1929-2003] empregava a palavra "transcriação" para a tentativa de tradução de poemas. Já os conceitos filosóficos são -ou devem ser- perfeitamente traduzíveis. A pretensão de que não o sejam não passa, a meu ver, de mistificação indigna.
Filósofo e poeta não se aproximam ao serem personagens deslocados da lógica do desempenho que marca a vida contemporânea?
Por esse ângulo sim, eles se aproximam. Não é à toa que o senso comum acha que tanto um quanto o outro vivem com a cabeça nas nuvens: para ele, nem um nem o outro têm o pé na Terra.
No entanto, como mostro no livro, as nuvens do poeta não são normalmente as do filósofo. Enquanto este se interessa, por exemplo, pelo "ser enquanto ser", pela relação entre a matéria e a ideia, pela natureza da verdade etc., o poeta fala do amanhecer, do amor que sente por alguém, da morte que se aproxima, de certo tom de azul, dos sapatos usados, da rua que vê pela janela do ônibus...
Se, a seu ver, poesia e filosofia são inteiramente distintas, o mesmo não se pode dizer da atividade do letrista e do poeta. Quais são as semelhanças e diferenças entre letra de canção e poema?
A meu ver, a letra de canção é uma forma de poesia. Há uma diferença evidente, entretanto, entre um poema destinado a ser cantado e escutado (uma letra de canção) e um poema destinado a ser lido. É que este é autotélico: ele já constitui a obra de arte, a ser fruída por um leitor; já aquele é heterotélico: ele faz parte da canção, e é esta que é a obra de arte, a ser fruída por um ouvinte.
Assim, para mim, uma coisa é fazer um poema para ser lido; outra coisa é fazer uma letra de canção. É que, quando faço um poema, penso apenas nele mesmo; mas quando faço uma letra de canção -e normalmente faço letras para melodias que algum compositor ou compositora me oferece-, faço-a para também corresponder às notas e ao espírito da melodia.
Isso não quer dizer, porém, que um poema feito para ser lido seja necessariamente melhor do que uma letra de canção.
A prova disso é que os poemas líricos da Grécia antiga, como os de Safo, Alceu e Anacreonte, que fazem parte importante do cânone ocidental de poesia, eram o que hoje chamamos de "letra de canção". Afinal, o próprio epíteto "lírico" vem de "lira". Outra prova disso é que um cancionista como Caetano Veloso, por exemplo, é com certeza um dos nossos maiores poetas.
19.3.12
Fernando Brant: "Os direitos autorais são uma conquista da civilização"
Agradeço ao escritor Pedro Maciel por me ter enviado o seguinte artigo de Fernando Brant, publicado originalmente no jornal Estado de Minas, em março de 2012:
Os direitos autorais são uma conquista da civilização
Os poetas escrevem versos e os enviam aos leitores como carta de náufrago. Não têm esperança de serem muito lidos, mas almejam pelo menos a atenção dos colegas de profissão. Se o acaso, após várias edições minúsculas bancadas por suas pequenas economias, os levam a alguma espécie de reconhecimento público, é como se o mundo se debruçasse diante de seu talento. Poetas escrevem para poetas, o que nos leva a concluir que os que o lêem também o são ou, no mínimo, comungam da mesma sensibilidade. O leitor de poesia fornece o combustível para que eles prossigam.
A poesia, por mais que digam o contrário os práticos do mercado, tem um poder avassalador. Inocula a alma das pessoas e se transmite por gerações. Criada sem nenhuma ambição econômica, ela acaba por criar uma força tão forte como o dinheiro. Ela ri dos poderosos e expõe o ridículo dos ditadores, pois todos eles têm tempo de validade. A poesia não.
Nos tempos de Homero, Virgílio ou Camões, séculos e até milênios antes do capitalismo, a recompensa pelas obras criadas por eles era, no máximo, a glória contemporânea ou futura. O mesmo se pode dizer das artes da pintura e da escultura. Até que os mecenas financiassem o trabalho desses gênios.
Aí vieram o iluminismo, a idade das luzes, a revolução francesa e os direitos humanos.
A valorização do cidadão, senhor do Estado, a quem somente delegava poderes, a conquista da democracia, do governo para todos, da igualdade, da fraternidade e da liberdade. Nos versos de Cecília Meireles, “liberdade – essa palavra que o sonho humano alimenta: que não há ninguém que explique e ninguém que não entenda.”
Depois de 14 de julho de 1789, os cidadãos escritores, poetas e artistas se levantaram na defesa de seus direitos de autores. No restaurante “Les Ambassateurs”, textos escritos por eles eram encenados e eles não recebiam nada. Tudo ali era pago: os vinhos e champagnes, as requintadas refeições.
Numa certa noite, toda a Paris cultural se dirigiu àquela casa de pasto e espetáculo.Todos comeram e beberam do melhor. Na hora da conta, disseram que não pagariam nada, da mesma forma que suas obras não eram remuneradas. Chamou-se a polícia, instaurou-se a polêmica e daí resultou a criação da primeira sociedade de autores teatrais. Depois dela, centenas foram fundadas em todos os países, no ocidente e no oriente, em defesa dos criadores e de suas obras.
Disse acima que o leitor de poesia também é poeta, pois participa com sua sensibilidade da criação que o autor lhe oferece. O mesmo vale para quem escuta e canta canções, assiste a filmes, contempla as belezas plásticas e lê romances.
Mas essa parceria inexiste quando, em nome da existência de novos meios de comunicação, pessoas e empresas renegam o que é conquista da civilização e burlam o direito dos autores que dizem amar. Não amam.
14.3.12
J.G. Hamann: de "Aesthetica in nuce"
A poesia é a língua materna da humanidade; assim como a jardinagem é mais antiga que a agricultura, a pintura que a escrita, o canto que a declamação, a parábola que a dedução, a troca que o comércio.
HAMANN, J.G. Sokratische Denkwürdigkeiten. Aesthetica in nuce. Stuttgart: Reclam, 1998.
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4.3.12
Johann Wolfgang von Goethe: De "Wilhelm Meisters Wanderjahre"
Os autores mais originais dos últimos tempos são originais, não por produzirem algo novo, mas apenas porque são capazes de dizer as coisas que dizem como se elas nunca antes houvessem sido ditas.
Die originalsten Autoren der neusten Zeit sind es nicht deswegen, weil sie etwas Neues hervorbringen, sondern allein weil sie fähig sind, dergleichen Dinge zu sagen, als wenn sie vorher niemals wären gesagt gewesen.
GOETHE, Johann Wolfgang von. Wilhelm Meisters Wanderjahre. In:_____. Werke. Berlin: Direcmedia, 1998.
22.10.11
Bibliografia do curso "Certa poesia e alguma canção"
Sobre poética e crítica:
ARISTÓTELES. Poética. Trad. E. de Sousa. Porto Alegre: Globo, 1966.
ASCHER, Nelson. Poesia alheia. Rio de Janeiro: Imago, 1998.
AUDEN, W. Fazer, saber e julgar. Trad. de Ângela Melim. Ilha de Santa Catarina: Noa Noa, 1981.
BANDEIRA, M. Seleta de prosa. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1997.
BERARDINELLI, A. Da poesia à prosa. Trad. de M.S. Dias. São Paulo: Cosac Naify, 2007.
BLANCHOT, M. O espaço literário. Trad. A. Cabral. Rio de Janeiro: Rocco, 1987.
BOILEAU, N. Arte poética. Ed. bilingue. Trad. Conce de Ericeira. Prefácio e notas de J.P. Machado. Lisboa: Fernandes, 1950.
CABRAL de Melo Neto, J. "Poesia e composição". In: _____. Obra completa. Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 1995. p.721-37.
CALVINO, I. Por que ler os clássicos. São Paulo: Companhia das Letras, 1994.
CICERO, Antonio. Finalidades sem fim.
Ensaios sobre poesia e arte. São Paulo: Companhia das Letras, 2005.
ELIOT, T.S. “A tradição e o talento individual”. In: Ensaios de doutrina crítica. Lisboa: Guimarães, 1962.
HORÁCIO. Arte poética. Lisboa: Inquérito, 1984.
PESSOA, F. "Nota preliminar às Odes de Ricardo Reis". Apontamento solto de Álvaro de Campos. In: _____. Obra poética. Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 1969. p.251-96.
PESSOA, F. "Nota preliminar às Poesias de Álvaro de Campos". Apontamento solto de Ricardo Reis. In: _____. Obra poética. Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 1969. p.297-423.
PIGNATARI, Décio. O que é a comunicação poética. São Paulo: Brasiliense, 1991.
POUND, E. ABC da literatura. Trad. de A. de Campos e J.P. Paes. São Paulo: Cultrix, 2001.
SCHILLER, Friedrich von. A educação estética do homem. Trad. de M. Suzuki e R. Schwartz. São Paulo: Iluminuras, 1995.
SCHLEGEL, Friedrich. Conversa sobre poesia e outros fragmentos. Trad. V.P. Stirnimann. São Paulo: Iluminuras, 1994.
SHELLEY, P.B. Defesa da poesia. Lisboa: Guimarães Editores, 1986.
VALÉRY, P. Variedades. Trad. de M.M. de Siqueira. São Paulo: Iluminuras, 1991.
Sobre versificação:
BANDEIRA, Manuel. “A versificação em língua portuguesa”. In: GUIMARÃES, Júlio (org.). _____. Seleta de prosa. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1997.
MATTOSO, Glauco. “Apêndice”. In: Geléia de rococó. São Paulo: Ciência do Acidente, 1999).
ALI, Said. Versificação portuguesa. São Paulo: Edusp, 1999.
Sobre letra de canção:
CICERO, A. "Letra de música". Cultura Brasileira Contemporânea, vol.1, n.1, p.7-15, Rio de Janeiro, Novembro, 2006.
CAMPOS, A.d. "Boa palavra sobre a música popular". In: Balanço da bossa e outras bossas. 3ª ed. São Paulo: Perspectiva, 1978. p.59-65.
NAVES, Santuza Cambraia. Canção popular no Brasil. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2010.
TATIT, L. O cancionista. Composição de canções no Brasil. São Paulo: Edusp, 1996.
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20.10.11
Entrevista ao Correio Brasiliense
A seguinte matéria, publicada no jornal Correio Brasiliense de 19 do corrente, foi feita a partir de uma entrevista que concedi a Severino Francisco.
Correio Brasiliense, 19/10/2011
Antonio Cicero fala sobre a preguiça que faz criar, hoje, na Caixa Cultural
Oswald de Andrade escreveu: ninguém quis comprar o poeta. Mas, na contramão das relações utilitaristas de mercado, a poesia resiste como uma atividade em que a preguiça se torna fecunda e produtiva. Poesia e preguiça são o tema que o poeta, filósofo e compositor carioca Antonio Cicero aborda hoje, a partir das 19h30, na Caixa Cultural: “Para quem pensa que tempo é dinheiro ou que só o perecível vale a pena, a poesia não tem lugar nenhum”, comenta Antonio Cicero. “Felizmente, nem todo mundo pensa assim.”
De maneira geral, a fruição de um poema exige mais tempo livre do que a de obras de outros gêneros artísticos. Não precisamos nos concentrar numa canção ou numa pintura, ou numa escultura, ou na arquitetura de um prédio, para que elas nos deleitem. Podemos apreciá-las en passant. Não é assim com um poema escrito, observa Antonio Cicero. Quem lê um poema como se fosse um artigo de jornal, por exemplo, não é capaz de fruí-lo. Para desfrutar um poema é necessário dedicar-lhe tempo: tempo livre de preocupações utilitárias, livre de finalidades ulteriores, livre de trabalho, livre, em suma, do princípio do desempenho, que rege quase toda a nossa vida cotidiana. “Para fazer um poema, é necessário ainda mais tempo livre. E nada garante que, ainda que um poeta dedique muito tempo à criação de um poema, esse poema vai ficar pronto. Ora, do ponto de vista de quem se encontra submisso ao princípio do trabalho ou do desempenho, alguém que se entrega desse modo a um tempo livre não está fazendo nada, de modo que é simplesmente preguiçoso.”
Cicero pinçou a expressão “preguiça fecunda” no poema A cabeleira, de Charles Baudelaire. Trata-se de um estado de espírito em que a sensibilidade, a imaginação, o intelecto, a cultura — em suma, as diferentes faculdades do poeta — brincam irresponsavelmente umas com as outras. “Nesse estado, abolem-se temporariamente as dicotomias necessárias para a vida utilitária, como a que separa sujeito de objeto, significado de significante, atividade de passividade, causa de efeito etc.” A internet provocaria uma preguiça infecunda e improdutiva, uma preguiça de ler? “Quanto à internet, creio que tudo depende do uso que dela se faz”, responde.
Os poetas modernos ou pós-modernos não assimilaram também a velocidade e a fugacidade, escrevendo com letras de macarrão ou em guardanapos, sem tempo para a preguiça? Cicero não crê que haja poetas de verdade que não tenham tempo para a preguiça, no sentido que indicou. Um poeta assim seria sem tempo para a poesia: “Quanto a escrever em guardanapos, muitas vezes isso ocorre porque a intuição produtiva ou a inspiração nem sempre vem quando a gente quer; às vezes, ela passa voando, quando a gente menos espera; e então, se o poeta não a capturar em pleno voo, e colocar num guardanapo, corre sério risco de perdê-la. Como diziam os antigos, a Musa é ciumenta”.
Banalização
Poetas modernos da qualidade de Baudelaire e Rimbaud usaram o haxixe e outras drogas com o objetivo de ampliar o campo da percepção. Hoje, as drogas foram massificadas e banalizadas. Mas Cicero lembra que o próprio Baudelaire dizia concordar com o teórico musical Auguste Barbereau, que afirmava que os grandes poetas não necessitavam de drogas, pois eram capazes de atingir um estado poético pelo puro e livre exercício da vontade. “De todo modo, eu faria algumas distinções. Penso que as drogas que criam dependência física, como a heroína, são simplesmente nocivas. Além disso, considero nocivas drogas como a cocaína e seus derivados, pois, independentemente de criarem dependência, tornam seus usuários pessoas extremamente desagradáveis e antipoéticas. Já a maconha e o haxixe, parecem-me ser mais ou menos como o álcool: algumas pessoas se dão bem com elas, outras mal. Quanto a mim, prefiro entrar no estado poético sem ter tomado droga nenhuma.”
Qual o lugar da poesia em que tempo é dinheiro? A apreensão utilitária e instrumental do ser, que é a que praticamos durante a maior parte da nossa vida, é absolutamente necessária, mas não é a única, responde Cicero. “É possível também uma apreensão estética do ser: uma disponibilidade tal às suas manifestações que as distinções utilitárias, instrumentais, estabelecidas pela razão crítica deixam, momentaneamente, de ter a última palavra. O poeta enquanto poeta, isto é, enquanto faz poesia, habita o mundo aberto pela apreensão estética do ser.”
Antônio Cicero não sabe dizer com precisão se houve queda no altíssimo nível poético das letras das canções populares no Brasil, depois de alcançar o ápice nas décadas de 1960 e 1960, pois, ultimamente, tem se dedicado quase exclusivamente à poesia feita pra ser lida, por um lado, e à filosofia, por outro: "E isso, não porque não goste do que se faz hoje em matéria de música, mas porque esses dois outros campos têm exigido quase todo o meu tempo. Mas há alguns artistas novos que admiro muito. Entre esses, faço questão de citar dois cantores e compositores: Leo Cavalcanti e Arthur Nogueira."
Depois da grande geração de poetas modernistas e do ciclo da Poesia marginal, Cicero identifica muitos poetas bons, mas sem necessariamente estar ligados em nenhuma corrente estética: "A geração de que você fala abriu caminho para uma pluralidade de poéticas. Cada poeta — e cada poema — deve ser julgado por si, e não pela sua pertinência a esta ou aquela corrente. A internet permite a muita gente mostrar o seu trabalho, o que é bom. Mas o que é bom é raro: e sempre foi assim."
Cicero descobriu a poesia por meio do ritmo de I-Juca Pirama, de Gonçalves Dias, lido numa antologia escolar. Ao ser solicitado a citar os grandes poemas e os grandes versos que marcaram a sua vida, ele não nomeia nenhum, pois teme ser injusto. Mas, para ele, o maior livro brasileiro de poesia — e um dos maiores do mundo — é Claro enigma, de Carlos Drummond de Andrade. !Seria bom que se ensinasse a ler poesia – não digo para fora apenas, mas, sobretudo, para dentro – nas escolas. Mas, para isso, os próprios professores precisam aprender a ler poesia."
Correio Brasiliense, 19/10/2011
Antonio Cicero fala sobre a preguiça que faz criar, hoje, na Caixa Cultural
Oswald de Andrade escreveu: ninguém quis comprar o poeta. Mas, na contramão das relações utilitaristas de mercado, a poesia resiste como uma atividade em que a preguiça se torna fecunda e produtiva. Poesia e preguiça são o tema que o poeta, filósofo e compositor carioca Antonio Cicero aborda hoje, a partir das 19h30, na Caixa Cultural: “Para quem pensa que tempo é dinheiro ou que só o perecível vale a pena, a poesia não tem lugar nenhum”, comenta Antonio Cicero. “Felizmente, nem todo mundo pensa assim.”
De maneira geral, a fruição de um poema exige mais tempo livre do que a de obras de outros gêneros artísticos. Não precisamos nos concentrar numa canção ou numa pintura, ou numa escultura, ou na arquitetura de um prédio, para que elas nos deleitem. Podemos apreciá-las en passant. Não é assim com um poema escrito, observa Antonio Cicero. Quem lê um poema como se fosse um artigo de jornal, por exemplo, não é capaz de fruí-lo. Para desfrutar um poema é necessário dedicar-lhe tempo: tempo livre de preocupações utilitárias, livre de finalidades ulteriores, livre de trabalho, livre, em suma, do princípio do desempenho, que rege quase toda a nossa vida cotidiana. “Para fazer um poema, é necessário ainda mais tempo livre. E nada garante que, ainda que um poeta dedique muito tempo à criação de um poema, esse poema vai ficar pronto. Ora, do ponto de vista de quem se encontra submisso ao princípio do trabalho ou do desempenho, alguém que se entrega desse modo a um tempo livre não está fazendo nada, de modo que é simplesmente preguiçoso.”
Cicero pinçou a expressão “preguiça fecunda” no poema A cabeleira, de Charles Baudelaire. Trata-se de um estado de espírito em que a sensibilidade, a imaginação, o intelecto, a cultura — em suma, as diferentes faculdades do poeta — brincam irresponsavelmente umas com as outras. “Nesse estado, abolem-se temporariamente as dicotomias necessárias para a vida utilitária, como a que separa sujeito de objeto, significado de significante, atividade de passividade, causa de efeito etc.” A internet provocaria uma preguiça infecunda e improdutiva, uma preguiça de ler? “Quanto à internet, creio que tudo depende do uso que dela se faz”, responde.
Os poetas modernos ou pós-modernos não assimilaram também a velocidade e a fugacidade, escrevendo com letras de macarrão ou em guardanapos, sem tempo para a preguiça? Cicero não crê que haja poetas de verdade que não tenham tempo para a preguiça, no sentido que indicou. Um poeta assim seria sem tempo para a poesia: “Quanto a escrever em guardanapos, muitas vezes isso ocorre porque a intuição produtiva ou a inspiração nem sempre vem quando a gente quer; às vezes, ela passa voando, quando a gente menos espera; e então, se o poeta não a capturar em pleno voo, e colocar num guardanapo, corre sério risco de perdê-la. Como diziam os antigos, a Musa é ciumenta”.
Banalização
Poetas modernos da qualidade de Baudelaire e Rimbaud usaram o haxixe e outras drogas com o objetivo de ampliar o campo da percepção. Hoje, as drogas foram massificadas e banalizadas. Mas Cicero lembra que o próprio Baudelaire dizia concordar com o teórico musical Auguste Barbereau, que afirmava que os grandes poetas não necessitavam de drogas, pois eram capazes de atingir um estado poético pelo puro e livre exercício da vontade. “De todo modo, eu faria algumas distinções. Penso que as drogas que criam dependência física, como a heroína, são simplesmente nocivas. Além disso, considero nocivas drogas como a cocaína e seus derivados, pois, independentemente de criarem dependência, tornam seus usuários pessoas extremamente desagradáveis e antipoéticas. Já a maconha e o haxixe, parecem-me ser mais ou menos como o álcool: algumas pessoas se dão bem com elas, outras mal. Quanto a mim, prefiro entrar no estado poético sem ter tomado droga nenhuma.”
Qual o lugar da poesia em que tempo é dinheiro? A apreensão utilitária e instrumental do ser, que é a que praticamos durante a maior parte da nossa vida, é absolutamente necessária, mas não é a única, responde Cicero. “É possível também uma apreensão estética do ser: uma disponibilidade tal às suas manifestações que as distinções utilitárias, instrumentais, estabelecidas pela razão crítica deixam, momentaneamente, de ter a última palavra. O poeta enquanto poeta, isto é, enquanto faz poesia, habita o mundo aberto pela apreensão estética do ser.”
Antônio Cicero não sabe dizer com precisão se houve queda no altíssimo nível poético das letras das canções populares no Brasil, depois de alcançar o ápice nas décadas de 1960 e 1960, pois, ultimamente, tem se dedicado quase exclusivamente à poesia feita pra ser lida, por um lado, e à filosofia, por outro: "E isso, não porque não goste do que se faz hoje em matéria de música, mas porque esses dois outros campos têm exigido quase todo o meu tempo. Mas há alguns artistas novos que admiro muito. Entre esses, faço questão de citar dois cantores e compositores: Leo Cavalcanti e Arthur Nogueira."
Depois da grande geração de poetas modernistas e do ciclo da Poesia marginal, Cicero identifica muitos poetas bons, mas sem necessariamente estar ligados em nenhuma corrente estética: "A geração de que você fala abriu caminho para uma pluralidade de poéticas. Cada poeta — e cada poema — deve ser julgado por si, e não pela sua pertinência a esta ou aquela corrente. A internet permite a muita gente mostrar o seu trabalho, o que é bom. Mas o que é bom é raro: e sempre foi assim."
Cicero descobriu a poesia por meio do ritmo de I-Juca Pirama, de Gonçalves Dias, lido numa antologia escolar. Ao ser solicitado a citar os grandes poemas e os grandes versos que marcaram a sua vida, ele não nomeia nenhum, pois teme ser injusto. Mas, para ele, o maior livro brasileiro de poesia — e um dos maiores do mundo — é Claro enigma, de Carlos Drummond de Andrade. !Seria bom que se ensinasse a ler poesia – não digo para fora apenas, mas, sobretudo, para dentro – nas escolas. Mas, para isso, os próprios professores precisam aprender a ler poesia."
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14.8.11
1.4.11
Inês Pedrosa: "Bethânia e as virgens deserdadas"
O seguinte artigo da importante escritora portuguesa Inês Pedrosa, diretora da Casa Fernando Pessoa, foi publicado ontem no jornal Estado de São Paulo:
Bethânia e as virgens deserdadas
Durante os breves dias que passei agora no Brasil, pasmei com a ferocidade da campanha contra um projeto de poesia de Maria Bethânia. O meu pasmo foi subindo de degrau em degrau a cada hora de cada um dos cinco dias e terminou num miradouro de indignação. Parece-me útil dar a ver aos brasileiros o panorama feio que os meus portugueses olhos divisaram – amo demasiado o Brasil para poder ficar fora dele mesmo quando ele me deixa fora de mim, mas temo que assim não aconteça com corações mais turísticos do que o meu.
O coro de virgens ofendidas com a verba que o Ministério da Cultura autoriza a captar para o projeto de Bethânia ( um milhão e trezentos mil reais) é patético por diversas razões, a primeira das quais é a suposição cândida de que, a não ser investido na divulgação de poesia de língua portuguesa a que Bethânia se propõe, esse dinheiro seria canalizado para escolas, hospitais e o escambau. Verdade seja que a lista dos projetos aprovados pelo Ministério da Cultura inclui muita coisa que, vista de fora, me parece o escambau. Em Portugal, a Lei do Mecenato não funciona, porque o conceito de desenvolvimento através das artes ainda não conseguiu furar a massa cinzenta dos empresários lusitanos. Por isso, os apoios à cultura saem directamente do bolso dos contribuintes, o que os torna sempre polémicos e sujeitos à conspiração das invejas organizadas – a mais eficiente organização do país.
Eu tinha a ilusão de que o Brasil não era assim – via o Brasil virado para o futuro, incompatível com o ressentimento. Ainda quero ver, porque o Brasil onde eu moro e quero cada vez mais morar é povoado por artistas que se inspiram mutuamente, estudiosos ousados, enfim, gente que não perde tempo a envenenar-se e a envenenar os outros. Pobres puritanos da moral alheia: a grana que patrocinará Bethânia nunca serviria para pagar outras coisas. Porquê? Porque Bethânia não é uma coisa qualquer. O que ela faz tem repercussão. Possui um talento e uma voz únicos. Aguentem-se.
Porque será que só o projeto de Bethânia é sujeito ao escrutínio da maledicência? Porque Bethânia é uma estrela – de fato. Enche quantas vezes quiser as maiores salas de espetáculos de Portugal, da Europa e de várias partes do mundo. Porque o Ministério da Cultura do Brasil a subsidia? Não: porque tem um percurso internacionalmente reconhecido. Como cidadã da gloriosa pátria da língua portuguesa – a única pátria em que, tal como Fernando Pessoa, me reconheço – agradeço-lhe diariamente o seu trabalho de muitas décadas em prol da poesia e dos poetas desta língua, de Pessoa a Guimarães Rosa, de Vinicius de Moraes a José Régio, de Sophia de Mello Breyner Andresen a João Cabral de Melo Neto. Se me tornei, ainda adolescente, leitora de José Régio, a ela o devo. O meu fascínio por Pessoa começou com a voz dela. E foi dela que recebi o primeiro estímulo para a descoberta da sublime literatura brasileira. Não há muitos cantores populares por esse mundo que se dediquem, de um modo contínuo, a este trabalho pioneiro e pedagógico. Penso que a visível subida do nível cultural do Brasil nas últimas décadas deve muito a Maria Bethânia. E tenho a certeza que a literatura portuguesa tem uma dívida imensa para com ela – toda a minha geração foi tocada pelos seus poetas, mesmo ou sobretudo quando, aos vinte anos, ia ouvi-la apenas para encontrar consolo para a vertigem das paixões mal sucedidas.
A 8 de Março de 2010 fui ao Rio de Janeiro para, em nome da Casa Fernando Pessoa e em parceria com o Instituto Moreira Salles, galardoar Maria Bethânia e Cleonice Berardinelli com a Ordem do Desassossego, então instituída. Quisémos que a primeira atribuição dessa Ordem fosse uma homenagem ao Brasil e a essas duas heroínas da divulgação da obra de Fernando Pessoa. Pouco depois, Bethânia foi a Portugal fazer um show e contactou-me, dizendo que queria oferecer um recital de poesia de língua portuguesa na Casa Fernando Pessoa. E ofereceu – sim, gratuitamente, escandalizem-se, oh virgens! – um espetáculo belíssimo, concebido, encenado e realizado por ela, aliando interpretação e canto, com uma inteligentíssima seleção dos maiores poetas de Portugal e do Brasil. As paredes da Casa iam estourando, tal a multidão e o deslumbramento.
Nessa ocasião, Bethânia falou-me da sua vontade de levar pelo interior do Brasil e de Portugal um conjunto de espetáculos destes, exclusivamente dedicados à poesia. Que Bethânia ou alguém próximo dela ( porque Bethânia nem sequer é praticante da religião das redes virtuais) tenha acrescentado a esse projeto a circulação dos poemas ditos na internet, parece-me uma excelente e eficaz ideia. Sim, opulentos invejosos, já há muita poesia na net – mas não dita e encenada por Bethânia. A voz e o critério dela chegam mais longe, movem mais almas – é isso que não se lhe perdoa. Caetano já o disse, numa crónica coruscante, no “Globo”. Mas eu quero repeti-lo, porque não sou irmã dela – amo-a, sim, como comecei a amá-lo a ele, desde a mais tenra juventude e sem os conhecer de parte alguma nem saber onde ficava Santo Amaro da Purificação, de onde ambos vieram, sem patrocínios nem padrinhos, para acrescentar luz e força às nossas vidas. Amo-os porque as suas vozes e os seus dons criativos me fizeram e fazem acreditar que o mundo pode ser um lugar mais belo e mais sábio. O Brasil está a dar certo porque eles – e muitos outros como eles, e uma multidão com eles – assim o quiseram. E isso só não vê quem não quer – ou não é capaz – de ver.
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