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22.4.14

Marcelo Diniz: "Litorânea"






Litorânea

O mar respira no litoral,
um pulmão que não é meu
ouço inchar-se na areia,
derramar-se, devolvendo-se,
perigoso chamado: — você
não tem história e, ainda
que tivesse, nada é seu
nesta cidade, números,
cifras, senhas sem milagre,
nada é seu, muito menos
este corpo que se banha
e se encanta com as sílabas
incontáveis de um murmúrio
que espera seu retorno
com eterna paciência.



DINIZ, Marcelo. Cosmologia. Rio de Janeiro: 7Letras, 2004.

4.10.10

Marcelo Diniz: "Tudo se faz de forma assim tão vária"




Tudo se faz de forma assim tão vária


Tudo se faz de forma assim tão vária
a nunca ser o mesmo que se escreve;
escreve-se porque falar é breve
e, eterna, a lavra quer-se abecedária;

tudo se faz, portanto, involuntária
e cautelosamente, como deve
quem deseja dotar o que é mais leve
de concisão sutil tão necessária;

por que se passe a limpo o repetido
para gravar o travo do que é dito
fixo na cifra e nítido no lido;

faz-se todo, finito após finito
a fim de, a cada surto do sortido,
somar-se ao infinito um outro escrito.

18.3.08

Marcelo Diniz: "eu não sei o que eu faço com um verso"

É uma felicidade postar esse esplêndido soneto de Marcelo Diniz:


eu não sei o que eu faço com um verso
e, tão logo não saiba, de repente,
do nada, este terceiro e o subseqüente
enquadram-se em quarteto tergiverso;

eu não sei se concentro ou se disperso,
se a forma que se fixa é contingente
ou feita, conteúdo e continente,
exatamente enquanto eu desconverso;

só sei que de acidente em acidente
a forma converteu-se em controverso
modo de se dizer o que se sente:

que ecoem estes ecos do universo,
que o façam, verso a verso, reticente,
de etc em etc diverso