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21.8.15

Arthur Nogueira: "Sem medo nem esperança"

Arthur Nogueira estará lançando seu belíssimo disco Sem medo nem esperança no próximo domingo, 23 de agosto, com um show no SESC Belenzinho.


Clique para ampliar:






















Sobre o título do disco, tive o prazer de escrever o seguinte:

A divisa “sem esperança nem medo” – nec spe nec metu – é adotada, desde a antiguidade, por aqueles que, desprezando tanto as promessas quanto as ameaças referentes a alguma hipotética vida futura, sabem que viver o presente em toda a sua plenitude constitui o mais alto e o mais profundo fim da própria vida.

Tal é a disposição que se manifesta no topos poético do carpe diem, isto é, “colhe o dia presente!”, que se encontra, desde a antiguidade até hoje, em alguns dos maiores poemas já escritos. Assim, por exemplo, diz Paulo Mendes Campos na primeira estrofe do seu belo soneto “Tempo-eternidade”:

                  O instante é tudo para mim que, ausente
                  do segredo que os dias encadeia,
                  me abismo na canção que pastoreia
                  as infinitas nuvens do presente.


Entre outras coisas, é isso que nos delicia nas canções cantadas por Arthur Nogueira: o convite para que vivamos assim, sem medo nem esperança, mas com a coragem e o tesão de nos abismarmos no instante, nos dias, nas canções e nas infinitas nuvens do presente.

Antonio Cicero


22.1.15

Basílio da Gama: "A uma senhora"




A uma senhora

Já, Marfísia cruel, me não maltrata
Saber que usas comigo de cautelas,
Que inda te espero ver, por causa delas,
Arrependida de ter sido ingrata.

Com o tempo, que tudo desbarata,
Teus olhos deixarão de ser estrelas;
Verás murchar no rosto as faces belas,
E as tranças de ouro converter-se em prata:

Pois se sabes que a tua formosura
Por força há de sofrer da idade os danos,
Por que me negas hoje esta ventura?

Guarda para seu tempo os desenganos,
Gozemo-nos agora, enquanto dura,
Já que dura tão pouco a flor dos anos.



GAMA, Basílio da. "A uma senhora". In: CAMPOS, Paulo Mendes. Forma e expressão do soneto. Rio de Janeiro: Ministério da Educação e Saúde, s.d.

17.12.14

Paulo Mendes Campos: "Tempo-eternidade"



Tempo-eternidade

O instante é tudo para mim que ausente
do segredo que os dias encadeia
me abismo na canção que pastoreia
as infinitas nuvens do presente.

Pobre de tempo fico transparente
à luz desta canção que me rodeia
como se a carne se fizesse alheia
à nossa opacidade descontente.

Nos meus olhos o tempo é uma cegueira
e a minha eternidade uma bandeira
aberta em céu azul de solidões.

Sem margens sem destino sem história
o tempo que se esvai é minha glória
e o susto de minh´alma sem razões.



CAMPOS, Paulo Mendes. Antologia poética. Rio de Janeiro: Fontana Expressão e Cultura, 1978.

12.3.14

Lêdo Ivo: "Soneto"




Soneto

À doce sombra dos cancioneiros
Em plena juventude encontro abrigo.
Estou farto do tempo, e não consigo
Cantar solenemente os derradeiros.

Versos de minha vida, que os primeiros
Foram cantados já, mas sem o antigo
Acento de pureza ou de perigo
De eternos cantos, nunca passageiros.

Sôbolos rios que cantando vão
A lírica imortal do degredado
Que, estando em Babilônia, quer Sião,

Irei, levando uma mulher comigo,
E serei, mergulhado no passado,
Cada vez mais moderno e mais antigo.




IVO, Lêdo. "Soneto". In: CAMPOS, Paulo Mendes (org). Forma e expressão do soneto. Rio de Janeiro: Ministério da Educação e Saúde, s.d.

16.1.11

Paulo Mendes Campos: "Neste soneto"




Neste soneto

Neste soneto, meu amor, eu digo,
Um pouco à moda de Tomás Gonzaga,
Que muita coisa bela o verso indaga
Mas poucos belos versos eu consigo.
Igual à fonte escassa no deserto,
Minha emoção é muita, a forma é pouca.
Se o verso errado sempre vem-me à boca,
Só no meu peito vive o verso certo.
Ouço uma voz soprar à frase dura
Umas palavras brandas, entretanto,
Não sei caber as falas de meu canto
Dentro de forma fácil e segura.
E louvo aqui aqueles grandes mestres
Das emoções do céu e das terrestres.



CAMPOS, Paulo Mendes. A palavra escrita. Rio de Janeiro: Hipocampo, 1951.