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25.5.19

Ricardo Silvestrin: "Ofício"




Ofício

Não tem atalho
na travessia do artista.

Seu nome é trabalho,
embora o ócio
faça parte do ofício.

Embora ria enquanto
pega no pesado.

Outros sonhem 
com aposentadoria.

O trabalho do artista
vai até o último dia.




SILVESTRIN, Ricardo. "Ofício". In:_____. Sobre o que. São Paulo: Patuá, 2019.

27.3.18

Ricardo Silvestrin: "auto-biografia precoce"



auto-biografia precoce

minha vida
é uma obra
de ficção
qualquer semelhança 
comigo mesmo
terá sido
mera coincidência



SILVESTRIN, Ricardo."auto-biografia precoce". In_____"Quieto no meu canto". In:_____ O menos vendido. São Paulo: Nankin Editorial, 2006.

21.9.17

Ricardo Silvestrin: "deus descansou"



deus descansou
e esse foi seu vacilo
achou que o jogo estava ganho
e o mundo então deu naquilo
deus lavou as mãos
disse se virem
já fiz a minha parte
pensam que é mole
tirar um mundo da cartola
se querem perfeito
nada feito
tô fora
e se foi pelo infinito
sem dar ouvidos
aos gritos
de deus do céu
deus nos proteja
deus nosso senhor
onde anda
por hoje o criador
pelo universo
de banda
gozando a aposentadoria
que ganhou em sete dias
fez um mundo imperfeito
mas bate no peito
e diz
se não gostarem
façam outro
devolução não aceito
já fiz o homem
à minha imagem e semelhança
pra continuar
no meu lugar
a lambança



SILVESTRIN, Ricardo. “deus descansou”. In:_____. Metal. Porto Alegre: Artes e Ofícios, 2013.

25.8.17

Ricardo Silvestrin: "Bilhete"



Bilhete

Não me parecias frágil,
via-te doce.
Talvez fosses mesmo forte,
é preciso ser valente
pra decretar a própria morte.

Tinha-te por calmo.
Que rio obscuro e discreto
te puxava para o fundo,
sem saber nadar,
sem ninguém saber de nada?

Não deixaste uma carta,
um poema, um bilhete de suicida.
Como se quisesses dizer
que a morte
não deve explicações à vida



SILVESTRIN, Ricardo. "Bilhete". In:_____. Typographo. São Paulo: Patuá, 2016.

6.7.17

Ricardo Silvestrin: "pedra dentro do mar"



pedra dentro do mar
a onda passa
a pedra dura



SILVESTRIN, Ricardo. "pedra dentro do mar". In:_____. Prêt-à-porter: haicais para as quatro estações. Porto Alegre: Artes & Ecos, 2017.

13.6.17

Ricardo Silvestrin: "O menos vendido"



O menos vendido

Custa muito
pra se fazer um poeta.
Palavra por palavra,
fonema por fonema.
Às vezes passa um século
e nenhum fica pronto.
Enquanto isso,
quem paga as contas,
vai ao supermercado,
compra sapato pras crianças?
Ler seu poema não custa nada.
Um poeta se faz com sacrifício.
É uma afronta à relação custo-benefício.



SILVESTRIN, Ricardo. "O menos vendido". In:_____.O menos vendido. São Paulo: Nankin Editorial, 2006.

16.12.16

Ricardo Silvestrin: "Caos, Ébero e Nix"




Caos, Ébero e Nix


O Caos era tudo
antes da criação do mundo.

Dele nasceram Ébero,
as trevas do inferno
e Nix, a noite.

De Nix e Ébero
vieram Áiter, o éter
e Hemera, o dia.

Antes do Caos,
nada mais havia.

Nosso elemento primordial,
nossa origem e final,
dele nascemos,
contra ele organizamos o mundo.

Mas sabemos, lá no fundo,
que o Caos é tudo.



SILVESTRIN, Ricardo. "Caos, Ébero e Nix". In:_____. Typographo. São Paulo: Patuá, 2016.

16.8.16

Ricardo Silvestrin: "Dança"





Dança


Sim, existe a dança:
o corpo solto avança
e recua leve nos passos
matemáticos, um, dois, um,
como se fosse mais fácil
viver num tempo menor,
brincadeira de criança
que sabe de cor o roteiro
e ri na hora marcada.

Fora da dança, o infinito
nos convida, nos seduz
com passos improváveis,
mas temos dois olhos,
apenas duas pernas,
e, sobretudo, duas mãos
onde só cabe um punhado
de estrelas.




SILVESTRIN, Ricardo. "Dança". In:_____. Typographo. São Paulo: Patuá, 2016.

15.6.16

Ricardo Silvestrin: "Seleção"




Seleção

Não é mesmo a minha
trilhar o caminho certo,
andar na linha,
equilibrista no circo.

Olhado à distância,
o passado é uma mancha,
um feixe de nervos
e ânsias.

Não me pergunte
como saí vivo
da infância
e de tudo
que veio em sequência.

Outros encham a boca:
“viveria tudo
outra vez”.
Escolho os melhores dias
 e vivo só mais um mês.



SILVESTRIN, Ricardo. "Seleção". In:_____. Typographo. São Paulo: Patuá, 2016.

24.8.15

O hino dos poETs




Meu querido amigo, o admirável poeta Ricardo Silvestrin, enviou-me o link para o clip, no You Tube, em que o grupo "os poETs", de que ele faz parte, canta o seu hino. Vejam:


Clique, para ouvir:









2.3.14

Ricardo Silvestrin: "Metal"





Nada garante que esta noite
se apague no claro do dia
só porque um dia antes
era assim que acontecia.
Dorme teu sono, acorda dissonante,
sem saber se eras tu
ou tua sombra
que do sonho emergia.
Lava teus olhos, cospe na pia.
Enquanto dormias,
o espelho estava acordado.
Abre a janela, espia:
quem sabe o mundo
ainda está do outro lado.




SILVESTRIN, Ricardo. Metal. Porto Alegre: Artes e Ofícios, 2013.

18.12.13

Ricardo Silvestrin "palavra não é coisa"






palavra não é coisa
que se diga
quem toma a palavra
pela coisa
diz palavra com palavra
mas não diz coisa com coisa
a palavra pode ser pesada
a coisa, leve
e vice-versa não é coisa alguma
a palavra coisa
não é a coisa palavra
palavra e coisa
jamais serão a mesma coisa



SILVESTRIN, Ricardo. Palavra mágica. São Paulo: IEL/Massao Ohno, 1994.

29.1.13

Ricardo Silvestrin: "Juro dizer a meia-verdade"






Juro dizer a meia-verdade
a meia-mentira
o centauro por inteiro

nada mais que a sedução da sereia
o passo em falso, verdadeiro
na beira de um desfiladeiro

juro com a mão direita
sobre a bíblia
e a mão esquerda abanando

em nome de Deus, de Zeus
de Oxalá ou da besta

juro que os que quiserem
somente a verdade
vão perder o melhor da festa






SILVESTRIN, Ricardo. Palavra mágica. Porto Alegre: Instituto Estadual do Livro / Massao Ohno, 1994.

26.5.11

Ricardo Silvestrin: "Cantei a poesia"




cantei a poesia
e ela ficou comigo
por um dia

agora que eu não vivo sem ela
me esnoba
só vem quando quer

ai, mulher difícil
se lhe dou bandeira
ela quer vinícius



SILVESTRIN, Ricardo. Palavra mágica. Porto Alegre: Massao Ohno, 1994.

9.11.10

Ricardo Silvestrin: "não quero mais de um poeta"

Li o seguinte poema de Ricardo Silvestrin no excelente livro que Antonio Carlos Secchin acaba de lançar, Memórias de um leitor de poesia, e não pude deixar de pescá-lo para os leitores deste blog:




não quero mais de um poeta

que a sua letra

palavra presa na página

borboleta

nem quero saber da sua vida

da verdade que nunca foi dita

mesmo por ele

que tudo que viveu duvida

não revirem a sua cova

o seu arquivo

é no seu livro que o poeta está enterrado

vivo.




SILVESTRIN, Ricardo. "não quero mais de um poeta". Palavra mágica. Porto Alegre: Massao Ohno, 1994.

SECCHIN, Antonio Carlos. Memórias de um leitor de poesia. Rio de Janeiro: Topbooks, 2010.