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23.9.15

Francis Ponge: "À la rêveuse matière" / "À sonhadora matéria": trad. de Manuel Gusmão




     À sonhadora matéria

     Provavelmente, tudo e todos - e nós mesmos - não somos senão sonhos imediatos da divina Matéria:
     Os produtos textuais da sua prodigiosa imaginação.
     E assim, num certo sentido, poder-se-is dizer que a natureza inteira, nela incluindo os homens, não é senão uma escrita; mas uma escrita de uma certa espécie; uma escrita não-significativa, pelo facto de que não se refere a nenhum sistema de significação; de que se trata de um universo indefinido: propriamente imenso, sem medidas.
     Enquanto que o mundo das palavras é um universo finito.
     Mas pelo facto de ser composto por esses objectos muito particulares e particularmente comoventes, os sons significativos e articulados de que somos capazes, que nos servem ao mesmo tempo para nomear os objectos da natureza e para exprimir os nossos sentimentos,
     Basta sem dúvida nomear o que quer que seja - de uma certa maneira - para exprimir tudo do homem e, no mesmo lance, glorificar a matéria, exemplo para a escrita e providência do espírito.




À la rêveuse matière

     Probablement, tout et tous - et nous-mêmes - ne sommes-nous que des rêves immédiats de la divine Matière.
     Les produits textuels de sa prodigieuse imagination.
     Et ainsi, en un sens, pourrait-on dire que la nature entière, y compris les hommes, n'est qu'une écriture; mais une écriture d'un certain genre; une écriture non significative, du fait qu'elle ne se réfère à aucun système de signification; qu’il s'agit d'un univers indéfini : â proprement parler immense, sans mesures.
     Tandis que le monde des paroles est un univers fini.
     Mais du fait qu'il est composé de ces objets très particuliers et particulièrement émouvants, les sons significatifs et articulés dont nous sommes capables, qui nous servent à la fois à nommer les objets de la nature et à exprimer nos sentiments,
     Sans doute suffit-il de nommer quoi que ce soit - d'une certaine manière - pour exprimer tout de l'homme et, du même coup, glorifier la matière, exemple pour l'écriture et providence de l'esprit.



PONGE, Francis. "À la rêveuse matière" / "À sonhadora matéria". Trad. de Manuel Gusmão. In:_____. "Nouveau recueil" / "Nova recolha". In:_____. Alguns poemas (antologia poética). Seleção, tradução e introdução de Manuel Gusmão. Lisboa: Cotovia, 1996.   


19.7.10

Francis Ponge: "Le pain" / "O pão": trad. de Manuel Gusmão





O Pão

A superfície do pão é maravilhosa primeiro por causa desta impressão quase panorâmica que dá: como se tivesse ao dispor, sob a mão, os Alpes, o Taurus ou a Cordilheira dos Andes.
Assim pois uma massa amorfa enquanto arrota foi introduzida para nós no forno estelar, onde, endurecendo, se afeiçoou em vales, cumes, ondulações, ravinas... E todos esses planos desde então tão nitidamente articulados, essas lajes finas em que a luz aplicadamente deita os seus lumes, - sem um olhar sequer para a flacidez ignóbil subjacente.
Esse lasso e frio subsolo que se chama o miolo tem o seu tecido semelhante ao das esponjas: folhas ou flores são aí como irmãs siamesas soldadas por todos os cotovelos ao mesmo tempo. Logo que o pão endurece essas flores murcham murcham e contraem-se: destacam-se então umas das outras e a massa torna-se por isso friável.
Mas quebremo-la, calemo-nos: porque o pão deve ser a nossa boca menos objecto de respeito do que de refeição.



Le pain

La surface du pain est merveilleuse d'abord à cause de cette impression quasi panoramique qu'elle donne : comme si l'on avait à disposition sous la main les Alpes, le Taurus ou la Cordillère des Andes.
Ainsi donc une masse amorphe en train d'éructer fut glissée pour nous dans le four stellaire, où durcissant elle s'est façonnée en vallées, crêtes, ondulations, crevasses... Et tous ces plans dès lors si nettement articulés, ces dalles minces où la lumière avec application couche ses feux, sans un regard pour la mollesse ignoble sous-jacente.
Ce lâche et froid sous-sol que l'on nomme la mie a son tissu pareil à celui des éponges : feuilles ou fleurs y sont comme des sœurs siamoises soudées par tous les coudes à la fois.
Lorsque le pain rassit ces fleurs fanent et se rétrécissent : elles se détachent alors les unes des autres, et la masse en devient friable...
Mais brisons-la : car le pain doit être dans notre bouche moins objet de respect que de consommation.



PONGE, Francis. Alguns poemas. Seleção, introdução e tradução de Manuel Gusmão. Lisboa: Cotovia, 1996.