27.5.18

Arthur Rimbaud: "Bonne pensée du matin" / "Bom augúrio matutino": trad. de Ivo Barroso



Bom augúrio matutino

Verão, às quatro da madrugada
O sono do amor ainda demora.
Sob os bosques dispersa a aurora
            O odor da noite festejada.

Mas lá, em seus imensos canteiros
De obras, em mangas de camisa,
Ao sol das Hespérides, já se agitam
            Os carpinteiros.

Em seus desertos de serragem,
Caros lambris preparam, lentos,
Em que a riqueza da cidade
          Verá falsos firmamentos.

Ah! por esses belos Fabricantes,
Súditos de um rei da Babilônia,
Vênus! deixa um pouco os Amantes
          Com as almas em coroa.

          Rainha dos Pastores!
   Dai-lhes o trago deste dia,
   Para que em paz recobrem forças
À espera do banho de mar, ao meio-dia.





Bonne pensée du matin

À quatre heures du matin, l'été,
Le sommeil d'amour dure encore.
Sous les bosquets, l'aube évapore
          L'odeur du soir fêté.

Mais là-bas dans l'immense chantier
Vers le soleil des Hespérides,
En bras de chemise, les charpentiers
          Déjà s'agitent.

Dans leur désert de mousse, tranquilles,
Ils préparent les lambris précieux
Où la richesse de la ville
          Rira sous de faux cieux.

Ah ! pour ces Ouvriers charmants
Sujets d'un roi de Babylone,
Vénus ! laisse un peu les Amants
          Dont l'âme est en couronne

          Ô Reine des Bergers !
  Porte aux travailleurs l'eau-de-vie.
  Pour que leurs forces soient en paix
En attendant le bain dans la mer, à midi.





RIMBAUD, Arthur. "Bonne pensée du matin" / "Bom augúrio matutino". In:_____. Poesia completa. Edição bilingue. Trad. de Ivo Barroso. Rio de Janeiro: Topbooks, 1995.

25.5.18

Victor Colonna: "Curto-circuito"



Curto-circuito

De repente eu paro e olho: é ele!
Desengato marcha-a-ré crescente
Meu rosto fica roxo, vermelho
Desamarra-se o elo da corrente.

Curto-circuito, incêndio, tragédia!
Meu cabelo arrepiado espeta
Meu pulso desencapado te choca
Meu corpo endiabrado, capeta.

E meu peito pega fogo: é vida.
Um calor que se desprende e solta
Amor é caminho longo: é ida
É só ida. Não tem volta.




COLONNA, Victor. "Curto-circuito". In:_____. Cabeça, tronco e versos. Rio de Janeiro: Editora da Palavra, 2009.

22.5.18

"Mergulho": exposição de pinturas de Luiz Pizarro



Clique no cartaz, para ampliá-lo:

Leo Gonçalves: "Lição de shiatsu # 1"



Lição de shiatsu # 1

para massagem no ego:
usar a língua






GONÇALVES, Leo. "Lição de shiatsu # 1". In:_____. Use o assento para flutuar (segunda edição, revista e ampliada). Belo Horizonte: Crisálida, 2018.

20.5.18

Rogério Batalha: "Não se ouvia barulho"



Não se ouvia barulho

não se ouvia barulho
quando a lua deu colo às minhas ruínas
quando um verso represou minhas enchentes
não se ouvia barulho
quando as pedras me adotaram como filho
não se ouvia barulho
quando o andarilho fitou os olhos tristes
de sua aldeia
não se ouvia barulho
sobre os trapos que devoravam
a criança síria
morta
numa praia deserta.




BATALHA, Rogério. "Não se ouvia barulho". In:_____. Azul. Rio de Janeiro: TextoTerritório, 2016.

18.5.18

Friedrich Hölderlin: "Die Götter" / "Os deuses": trad. de Paulo Quintela



                            Os deuses

    Éter calmo! sempre bela me conservas
        A alma no meio da dor; e ante os teus raios,
            Hélios! se enobrece em valentia
                Muitas vezes o peito revoltado.

    Ó bons Deuses! pobre é quem vos não conhece;
        No peito rude nunca o dissídio se lhe acalma,
            E o mundo pra ele é noite, e nenhuma
                Alegria lhe medra nem canção nenhuma.

    Vós só, com vossa juventude eterna, mantendes
        Nos corações que vos amam a candura infantil,
            E não deixais que em cuidados e erros
                Jamais lhe morra no luto o Génio.



                            Die Götter

    Du stiller Aether! immer bewahrst du schön
        Die Seele mir im Schmerz, und es adelt sich
            Zur Tapferkeit vor deinen Strahlen,
                Helios! oft die empörte Brust mir.

    Ihr guten Götter! arm ist, wer euch nicht kennt,
        Im rohen Busen ruhet der Zwist ihm nie,
            Und Nacht ist ihm die Welt und keine
                Freude gedeihet und kein Gesang ihm.

    Nur ihr, mit eurer ewigen Jugend, nährt
        In Herzen, die euch lieben, den Kindersinn,
            Und laßt in Sorgen und in Irren
                Nimmer den Genius sich vertrauern.




HÖLDERLIN, Friedrich. "Die Götter" / "Os deuses". In:_____. Hölderlin: Poemas. Org. e trad. de Paulo Quintela. Coimbra: Atlântida, 1959.

[Hölderlin: Gedichte 1800-1804, S. 15. Digitale Bibliothek Band 75: Deutsche Lyrik von Luther bis Rilke, S. 54677 (vgl. Hölderlin-KSA Bd. 2, S. 16)]



15.5.18

Casimiro de Brito: "Velho como as flores"



100

Velho como as flores
o vinho respira
no meu copo.
Velho como as aves 
o tinto que bebo
com amigos
que partiram.





BRITO, Casimiro de. "Velho como as flores". In:_____. Arte de bem morrer.  Lisboa: Roma Editora, 2007.

13.5.18

Manuel Bandeira: "Porquinho da Índia"




Porquinho-da-Índia

Quando eu tinha seis anos
Ganhei um porquinho-da-índia.
Que dor de coração me dava
Porque o bichinho só queria estar debaixo do fogão!
Levava ele prá sala
Pra os lugares mais bonitos mais limpinhos
Ele não gostava:
Queria era estar debaixo do fogão.
Não fazia caso nenhum das minhas ternurinhas…

— O meu porquinho-da-índia foi minha primeira namorada.




BANDEIRA, Maznuel. "Porquinho-da-Índia". In:_____. Poesia completa e prosa. Rio de Janeiro: José Aguilar, 1967.

11.5.18

Adriano Nunes: "Maresia"

Agradeço a meu amigo Adriano Nunes pelo seguinte presente:


Maresia
                para Antonio Cicero


Vento do mar...
Não há sereias
Silentes, há
O sol na veia
Da verve, já
À vez se dar.
Passa o pensar...
A grã voz? Eia!
Passa-se a amar
O que incendeia
A vida, lá
Onde o ser há.
Vento no mar,
Quem nos rodeia
Está a par
De tudo, ou teima
Em duvidar
Do som ao ar?
O sentir dá
Mil voltas e, à
Flor do olhar,
Sonhos semeia.
O que mais há
Além do lar?




Adriano Nunes

9.5.18

Eugénio de Andrade: "As mãos e os frutos"



As mãos e os frutos

Shelley sem anjos e sem pureza,
Aqui estou à tua espera nesta praça,
Onde não há pombos mansos mas tristeza
E uma fonte por onde a água já não passa.

Das árvores não te falo pois estão nuas;
Das casas não vale a pena porque estão
Gastas pelo relógio e pelas luas
E pelos olhos de quem espera em vão.

De mim podia falar-te, mas não sei
Que dizer-te desta história de maneira
Que te pareça natural a minha voz.

Só sei que passo aqui a tarde inteira
Tecendo estes versos e a noite
Que te há-de trazer e nos há-de deixar sós.




ANDRADE, Eugénio de. "As mãos e os frutos". In: BERARDINELLI, Cleonice (org.). Cinco séculos de sonetos portugueses: de Camões a Fernando Pessoa. Rio de Janeiro: Casa da Palavra, 2013.

7.5.18

Armando Freitas Filho: "A tarde precipita sua cor"




A tarde precipita sua cor 
cai, no começo 
      no princípio da noite 
e o que ainda aqui resiste 
meio fera, ao precipício 
ficou na beira da taça 
que não suporta mais 
sequer um riso 
pois todo cristal está sempre
na iminência, um minuto antes
            de partir.





FREITAS FILHO, Armando. "A tarde precipita sua cor". In:_____. Uma antologia. Vila Nova de Famalicão: Quasi, 2006.

5.5.18

Hart Crane: "Medusa": trad. de Augusto de Campos




Medusa



“Caia comigo

Nas estrelas frígidas

Caia comigo

Na luz do delírio

Mergulhe

Onde não há canção

Salvo as cãs dos ventos velhos.


Siga-me

Até o fim,

Até o caos estonteante

O eterno caos fervente

Dos meus cabelos!


Contemple a sua amante, –

Pedra!”




Medusa


"Fall with me

Through the frigid stars:

Fall with me

Through the raving light: –

Sink

Where is no song

But only the white hair of aged winds.



Follow

Into utterness,

Into dizzying chaos, –

The eternal boiling chaos

Of my locks!



Behold thy lover, -

Stone!"





CRANE, Hart. "Medusa". In: CAMPOS, Augusto de (org. e trad.). Poesia da recusa. São Paulo: Perspectiva, 2006.

3.5.18

Jorge Luis Borges: "Laberinto" / "Labirinto": trad. de Augusto de Campos



Labirinto

Não haverá nunca uma porta. Já estás dentro.
E o alcácer abarca o universo
E não tem anverso nem reverso
Não tem extremo muro nem secreto centro.

Não esperes que o rigor do teu caminho
Que fatalmente se bifurca em outro,
Que fatalmente se bifurca em outro,
Terá fim. É de ferro teu destino

Como o juiz. Não creias na investida
Do touro que é um homem cuja estranha
Forma plural dá horror a essa maranha

De interminável  pedra entretecida.
Não virá. Nada esperes. Nem te espera
No negro crepúsculo uma fera.





Laberinto

No habrá nunca una puerta. Estás adentro
Y el alcázar abarca el universo
Y no tiene ni anverso ni reverso
Ni externo muro ni secreto centro.

No esperes que el rigor de tu camino
Que tercamente se bifurca en otro,
Que tercamente se bifurca en otro,
Tendrá fin. Es de hierro tu destino

Como tu juez. No aguardes la embestida
Del toro que es un hombre y cuya extraña
Forma plural da horror a la maraña

De interminable piedra entretejida.
No existe. Nada esperes. Ni siquiera
En el negro crepúsculo la fiera.




BORGES, Jorge Luis. "Laberinto" / "Labirinto". In: CAMPOS, Augusto de. Quase Borges. 20 transpoemas e uma entrevista (organização e tradução). São Paulo: Terracota, 2013.

1.5.18

Jacques Prévert: "Quand..." / "Quando...": trad. de Silviano Santiago



Quando...

Quando o leãozinho almoça
a leoa rejuvenesce
Quando o fogo exige a sua parte
a terra enrubesce
Quando a morte lhe fala do amor
a vida estremece
Quando a vida lhe fala da morte
o amor sorri.




Quand...

Quand le lionceau déjeune
la lionne rajeunit
Quand le feu réclame sa part
la terre rougit
Quand la mort lui parle de l’amour
la vie frémit
Quand la vie lui parle de la mort
l’amour sourit.





PRÉVERT, Jacques. "Quand..."/"Quando". In:_____. Poemas. Seleção e trad. de Silviano Santiago. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1985.

29.4.18

Marco Lucchesi: "Camões"




Camões




mais


belo


sol


quando


te


pões


nos rubros


mares


de Camões





LUCCHESI, Marco. "Camões". In:_____. Clio. São Paulo: Biblioteca Azul, 2014.

27.4.18

Giuseppe Ungaretti: "Agonia": Trad. de Geraldo Holanda Cavalcanti



Agonia

Morrer como as calhandras sedentas
na miragem

Ou como a codorniz
cruzado o mar
sobre as primeiras moitas
porque já não tem ânimo
de voar

Mas não viver se queixando
como um pintassilgo cego




Agonia

Morire come le allodole assetate
sul miraggio

O come la quaglia
passato il mare
nei primi cespugli
perché di volare
non ha più voglia

Ma non vivere di lamento
come un cardellino accecato





UNGARETTI, Giuseppe. "Agonia". In:_____. Poemas. Trad. de Geraldo Holanda Cavalcanti. São Paulo: USP, 2017.

25.4.18

Frank O'Hara: "My heart" / "Meu coração": trad. de Beatriz Bastos e Paulo Henriques Britto



Meu coração

Não vou chorar o tempo todo
nem hei de rir o tempo todo,
não prefiro uma “tendência” a outra.
Prefiro o imediatismo de um filme ruim,
não só os filmes b, mas também
a superprodução espetacular. Quero ser
ao menos tão vital quanto o vulgar. E se
um aficionado de minha bagunça exclamar “Isso
não parece coisa do Frank!”, que bom! Não
uso ternos azuis e marrons o tempo todo,
não é? Não. Às vezes vou à Ópera com a roupa
de trabalho. Quero meus pés descalços,
o meu rosto barbeado, e o meu coração —
ninguém manda no coração, mas
o melhor dele, a minha poesia, está aberta.





My heart

I'm not going to cry all the time
nor shall I laugh all the time,
I don't prefer one "strain" to another.
I'd have the immediacy of a bad movie,
not just a sleeper, but also the big,
overproduced first-run kind. I want to be
at least as alive as the vulgar. And if
some aficionado of my mess says "That's
not like Frank!", all to the good! I
don't wear brown and gray suits all the time,
do I? No. I wear workshirts to the opera,
often. I want my feet to be bare,
I want my face to be shaven, and my heart—
you can't plan on the heart, but
the better part of it, my poetry, is open.




O'HARA, Frank. "My heart" / "Meu coração". In:_____. Meu coração está no bolso. Trad. de Beatriz Bastos e Paulo Henriques Britto. São Paulo: Luna Parque, 2017.

23.4.18

Cecília Meireles: "Timidez"




Timidez

Basta-me um pequeno gesto,
feito de longe e de leve,
para que venhas comigo
e eu para sempre te leve. . .

— mas só esse eu não farei.

Uma palavra caída
das montanhas dos instantes
desmancha todos os mares
e une as terras mais distantes..

— palavra que eu não direi.

Para que tu me adivinhes,
entre os ventos taciturnos,
apago meus pensamentos,
ponho vestidos noturnos,

— que amargamente inventei.

E, enquanto não me descobres,
os mundos vão navegando
nos ares certos do tempo,
até não se sabe quando...

— e um dia me acabarei.





MEIRELES, Cecília. "Timidez". In: GULLAR, Ferreira (org.). O prazer do poema: Uma antologia pessoal. Rio de Janeiro: Edições de Janeiro, 2014.


21.4.18

Aleksandr Blok: "Do ciclo 'Dança da morte'": trad. de Augusto de Campos



Do ciclo Dança da morte

Noite. Fanal. Rua. Farmácia.
Uma luz estúpida e baça.
Ainda que vivas outra vida,
Tudo é igual. Não há saída.

Morres – e tudo recomeça,
E se repete a mesma peça:
Noite – rugas de gelo no canal.
Farmácia. Rua. Fanal.




BLOK, Aleksandr. "Do ciclo Dança da morte". Trad. de Augusto de Campos. In: CAMPOS, Augusto de; CAMPOS, Haroldo de; SCHNAIDERMAN, Boris (organizadores e tradutores). Poesia russa moderna. São Paulo: Perspectiva, 2012.

18.4.18

Vinícius de Moraes: "Soneto do Café Lamas"



Soneto do Café Lamas

No Largo do Machado a pedida era o "Lamas"
Para uma boa média e uma "canoa" torrada
E onde a noite cumpria ir tomar umas brahmas
E apanhar uma zinha ou entrar numa porrada.

Bebendo, na tenção de putas e madamas
Batidas de limão até de madrugada
Difícil era prever se o epílogo das tramas
Seria algum michê ou alguma garrafada.

E em meio a cafetões concertando tramóias
Estudantes de porre e mulatas bonitas
Sem saber se ir dormir ou ir na Lili das Jóias

Ordenar, a cavalo, um bom filé com fritas
E ao romper da manhã, não tendo mais aonde
Morrer de solidão no reboque de um bonde.





MORAES, Vinícius. "Soneto do Café Lamas". In: GIL, Daniel. A poesia esparsa de Vinícius de Moraes. Uma leitura de inéditos e (des)conhecidos. São Paulo: Todas as Musas, 2018.

15.4.18

Luís Miguel Nava: "A fome"



A fome

Aqui, onde a mão não
alcança o interruptor da vida, aqui
só brilha a solidão.
Desfazem-se as lembranças contra os vidros.
Aqui, onde a brancura
dum lenço é a brancura do infortúnio,
aqui a solidão
não brilha, apenas
se estorce.
A fome fala através das feridas.




NAVA, Luís Miguel. "A fome". In:_____. Vulcão. Lisboa: Quetzal, 1994.

12.4.18

Wisława Szymborska: "Opinião sobre a pornografia": trad. de Regina Przybycien



Opinião sobre a pornografia

Não há devassidão maior que o pensamento.
Essa diabrura prolifera como erva daninha
num canteiro demarcado para margaridas.

Para aqueles que pensam nada é sagrado.
O topete de chamar as coisas pelos nomes,
a dissolução da análise, a impudicícia da síntese,
a perseguição selvagem e debochada dos fatos nus,
o tatear indecente de temas delicados,
a desova das ideias – é disso que eles gostam.

À luz do dia ou na escuridão da noite
se juntam aos pares, triângulos e círculos.
Pouco importa ali o sexo e a idade dos parceiros.
Seus olhos brilham, as faces queimam.
Um amigo desvirtua o outro.
Filhas depravadas degeneram o pai.
O irmão leva a irmã mais nova para o mau caminho.

Preferem o sabor de outros frutos
da árvore proibida do conhecimento
do que os traseiros rosados das revistas ilustradas,
toda essa pornografia na verdade simplória.
Os livros que os divertem não têm figuras.
A única variedade são certas frases
marcadas com a unha ou com o lápis.

É chocante em que posições,
com que escandalosa simplicidade
um intelecto emprenha o outro!
Tais posições nem o Kamasutra conhece.

Durante esses encontros só o chá ferve.
As pessoas sentam nas cadeiras, movem os lábios.
Cada qual coloca sua própria perna uma sobre a outra.
Dessa maneira um pé toca o chão,
o outro balança livremente no ar.
Só de vez em quando alguém se levanta,
se aproxima da janela
e pela fresta da cortina
espia a rua.




SZYMBORSKA, Wisława. "Opinião sobre a pornografia". In:_____. Poemas. Trad. de Regina Przybycien. São Paulo: Companhia das Letras, 2011.

10.4.18

Sophia de Mello Breyner Andresen: "As ondas quebravam uma a uma"



As ondas quebravam uma a uma
Eu estava só com a areia e com a espuma
Do mar que cantava só para mim.



ANDRESEN, Sophia de Mello Breyner. "As ondas quebravam uma a uma". In:_____. Coral e outros poemas. Org. por Eucanaã Ferraz. São Paulo: Companhia das Letras, 2018.

7.4.18

Paul Celan: "Der uns die Stunden zählte" / "Aquele que nos contava as horas": trad. João Barrento e Y.K. Centeno





Aquele que nos contava as horas

Aquele que nos contava as horas
continua a contar.
Que estará ele a contar, diz?
Conta e torna a contar.

Não faz mais frio,
nem mais noite,
nem mais húmido.

Só aquilo que nos ajudava a escutar
agora escuta
para si sozinho.




Der uns die Stunden zählte

Der uns die Stunde zählte,
er zählt weiter.
Was mag er zählen, sag?
Er zählt und zählt.

Nicht kühler wirds,
nicht nächtiger,
nicht feuchter.

Nur was uns lauschen half:
es lauscht nun
für sich allein.




CELAN, Paul. "Der uns die Stunden zählte" / "Aquele que nos contava as horas". In:_____. Sete rosas mais tarde. Antologia poética.  Org. e trad.: João Barrento e Y.K. Centeno. Lisboa: Cotovia, 1996.

5.4.18

Antonio Carlos Secchin: "Caetano Veloso: Londres e São Paulo"




Assistam à gravação da belíssima palestra do acadêmico Antonio Carlos Secchin, intitulada "Caetano Veloso: Londres e São Paulo", pronunciada na terça-feira passada, na ABL, como parte do ciclo de conferências "As cidades dos poetas":


3.4.18

Armando Freitas Filho: "Da casa dos três dígitos"



100

Da casa dos três dígitos

não saio mais. Trinco.

Dia após dia de prisão

na cidade em carne viva.

Entre em si para sempre:

tendo de seu, apenas, o bodum

ranzinza do corpo

que vai se resignando

a não perseguir o inominável

nem a se persignar.





FREITAS FILHO, Armando. “100: Da casa dos três dígitos”. In:_____. Lar. São Paulo: Companhia das Letras, 2009.

1.4.18

Sophia de Mello Breyner Andresen: "Ausentes são os deuses"



Ausentes são os deuses mas presidem.
Nós habitamos nessa
Transparência ambígua.

Seu pensamento emerge quando tudo
De súbito se torna
Solenemente exacto.

O seu olhar ensina o nosso olhar:
Nossa atenção ao mundo
É o culto que pedem.




ANDRESEN, Sophia de Mello Breyner. "Ausentes são os deuses". In:_____. "Homenagem a Ricardo Reis". In:_____. Dual. Porto: Assírio & Avim, 2014.

30.3.18

Antonio Risério: "Saudade do Salvador"



Saudade do Salvador

esta cidade tem asas.
às vezes ela vem
e minha saudade
fica cheia de casas.
esta saudade
é feito navalha.
é cega, de tão clara.
branca de neve
ou de giz.
esta cidade
é feita de várias.
às vezes ela vem
da parte mais antiga
do país.




RISÉRIO, Antonio. "Saudade do Salvador". In:_____. Fetiche. Salvador: Fundação Casa de Jorge Amado; Copene, 1996.

27.3.18

Ricardo Silvestrin: "auto-biografia precoce"



auto-biografia precoce

minha vida
é uma obra
de ficção
qualquer semelhança 
comigo mesmo
terá sido
mera coincidência



SILVESTRIN, Ricardo."auto-biografia precoce". In_____"Quieto no meu canto". In:_____ O menos vendido. São Paulo: Nankin Editorial, 2006.

25.3.18

Marianne Moore: "An Egyptian pulled glass bottle in the shape of a fish" / "Uma garrafa de vidro egípcia na forma de um peixe"




Uma garrafa de vidro egípcia na forma de um peixe

Aqui temos, desde
o princípio, paciência e sede,
    e arte, como em onda pênsil para que
    a observemos em sua essencial perpendicularidade;

não quebrável mas
intensa – o espectro, o vivaz
    e espetacular animal, o peixe,
    cujas escamas repelem o sabre do sol com a polidez.






An Egyptian pulled glass bottle in the shape of a fish

Here we have thirst
and patience, from the first,
    and art, as in a wave held up for us to see
    in its essential perpendicularity;

not brittle but 
intense—the spectrum, that
    spectacular and nimble animal the fish,
    whose scales turn aside the sun's sword by their polish.







MOORE, Marianne. "An Egyptian pulled glass bottle in the shape of a fish" / "Uma garrafa de vidro egípcia na forma de um peixe". In:_____. Poemas. Trad. de José Antonio Arantes. São Paulo: Companhia das Letras, 1991.

23.3.18

Frejat canta "Tudo ainda", dele, de Mauro Santa Cecilia e de Adriano Nunes



Ouçam, cantada por Frejat, a bela canção "Tudo ainda", que resultou da parceria dele com Mauro Santa Cecilia e Adriano Nunes. A canção foi feita a partir do poema homônimo de Adriano, publicado em seu livro Laringes de grafite:

























21.3.18

Frank O'Hara: "Melancholy breakfast" / "Café melancólico": trad. por Beatriz Bastos e Paulo Henriques Britto



Café melancólico
azul em cima azul embaixo

o ovo silencioso pensa
e o ouvido elétrico da torradeira
      espera

as estrelas se recolheram
“aquela nuvem se escondeu”

os elementos da descrença são bem fortes de manhã





Melancholy breakfast 
blue overhead blue underneath 

the silent egg thinks 
and the toaster's electrical 
            ear waits 

the stars are in 
"that cloud is hid" 

the elements of disbelief are very strong in the morning





O'HARA, Frank. "Melancholy breakfast" / "Café melancólico". In:_____. Meu coração está no bolso. Trad. de Beatriz Bastos e Paulo Henriques Britto. São Paulo: Luna Parque, 2017.

19.3.18



Sexta-feira passada, dia 16, tomei posse na Academia Brasileira de Letras. Abaixo, uma foto -- tirada pelo grande fotógrafo Mustapha Barrat -- do momento em que recebi o diploma. Abaixo da foto, o discurso que pronunciei na ocasião.



Em primeiro lugar, quero declarar minha profunda gratidão aos acadêmicos que votaram para que eu também fizesse parte desta Academia que, como já afirmou, com toda razão, o acadêmico Helio Jaguaribe, “constitui, para qualquer intelectual brasileiro, a mais alta distinção”.1

O professor Helio Jaguaribe foi um dos maiores amigos de meu pai, Ewaldo Correia Lima, que também era um intelectual. Aliás, meu pai tinha uma enorme biblioteca em casa, de modo que eu poderia até dizer, como Baudelaire, em trecho do poema “La voix”, que

"Mon berceau s’adossait à la bibliothèque,
Babel sombre, où roman, Science, fabliau,
Tout, la cendre latine et la poussière grecque,
Se mêlaient".

Ou, como na tradução feita pelo grande poeta Ivan Junqueira, acadêmico de quem me orgulho de ter sido amigo,

"Meu berço ao pé da biblioteca se estendia,
Babel onde ficção e ciência, tudo, o espólio
Da cinza grega ao pó do Lácio se fundia".2

Quando eu era adolescente, um dos meus grandes prazeres era ser ouvinte das conversas de meu pai com seus amigos intelectuais. Alguns deles vieram a fazer parte desta Academia, como Cândido Mendes de Almeida, Celso Furtado, Alberto Venâncio Filho e o já citado Helio Jaguaribe. Eram todos muito brilhantes. No que diz respeito a Jaguaribe, por exemplo, concordo com a observação do acadêmico Celso Lafer, segundo o qual o impacto de suas exposições tem a ver com “o vigor e o entusiasmo de sua orteguiana razão vital, a fulgurante inteligência de seu poder de síntese e a originalidade contagiante de suas formulações”.3

O fato é que foi sem dúvida a partir dessa experiência que passei a dar grande valor à convivência com intelectuais interessados em conversar sobre filosofia, literatura, arte, história, política etc. Comecei a participar ativamente – e não mais apenas como ouvinte – de conversas intelectuais a partir do momento em que entrei no curso de filosofia do Instituto de Filosofia e Ciências Sociais da UFRJ, onde tive o privilégio de conviver com colegas como Alex Varella, Paulo Sérgio Duarte, Kátia Muricy e Wilson Coutinho, entre outros, e com professores admiráveis como Emmanuel Carneiro Leão, José Américo Pessanha e Alberto Coelho.

Pois bem, fiz esses flashbacks autobiográficos com o intuito de mostrar uma das razões pelas quais é com grande alegria que entro nesta Academia. Mesmo quando eu era apenas candidato, já era para mim um enorme prazer encontrar e conversar com os acadêmicos, assistir às conferências que aqui têm lugar, comparecer aos lançamentos de livros e aos vernissages de exposições etc. Ao comentar isso com a admirável acadêmica Nélida Piñon, ela me disse: “é assim mesmo, Cicero: primeiro o candidato entra na Academia; depois, ele é eleito”.

Mas há também outras razões pelas quais é não apenas um prazer, mas sobretudo uma honra pertencer a esta casa. Para mim em particular, como poeta, é importante que haja uma instituição que, como diz o seu primeiro estatuto, elaborado na época de Machado de Assis, tenha por fim “a cultura da língua e da literatura nacional”.

Não ignoro que a Academia exerce outras funções, nem jamais me oporia a isso. Ao contrário: sou, como já disse, assíduo frequentador e admirador de conferências que, tendo lugar aqui, tratam de temas como arte, filosofia, linguística, história, sociologia, educação, direito, questões contemporâneas etc. E não ignoro que Joaquim Nabuco, o primeiro ocupante da cadeira 27, para a qual fui eleito, numa carta a Machado de Assis, ainda no século XIX, afirmava que “deve ter a Academia uma esfera mais alta do que a Literatura exclusivamente literária, para ter maior influência”.4

A meu ver, porém, é fundamental “a cultura da língua e da literatura nacional” porque penso que a Academia Brasileira de Letras é, por sua própria natureza, uma instituição que deve ter uma participação ativa e importante na determinação do cânone literário.

Contra o relativismo difuso que vigora em nossos dias, afirmo que existem obras boas e obras ruins, obras insignificantes e obras imortais. Um poeta que acredite que todos os poemas ou todos os textos se equivalem – por exemplo, que tudo é relativo ao gosto da pessoa que julga – não tem por que produzir uma obra nova. Pois bem, o cânone pretende ser o conjunto das obras modelares, exemplares, imortais. Ele será tanto mais perfeito quanto mais perto disso chegar. Ao falar de obras imortais, lembramo-nos de que a própria ideia de imortalidade dos membros da Academia deriva da ideia de que se supõe que alguém seja acadêmico em virtude de já ser responsável por ao menos alguma obra ou feito inesquecível.

O que é um poema imortal? Um poema imortal é um poema cujo valor não depende de fatores externos a ele: um poema, portanto, que vale por si. Como diz o primeiro verso da famosa Ode XXX do livro III das Odes de Horácio, “Exegi monumentum aere perennius”, isto é, “Erigi monumento mais duradouro que o bronze”. Vale a pena lê-la inteira, e vou fazê-lo em português, na tradução de Pedro Braga Falcão:

"Erigi monumento mais duradouro que o bronze,
mais alto do que a régia construção das pirâmides
que nem a voraz chuva, nem o impetuoso Áquilo
nem a inumerável série dos anos,
nem a fuga do tempo poderão destruir.
Nem tudo de mim morrerá, de mim grande parte
escapará a Libitina: jovem para sempre crescerei
no louvor dos vindouros, enquanto o pontífice
com a tácita virgem subir ao Capitólio.
Dir-se-á de mim, onde o violento Áufido brama,
onde Dauno pobre em água sobre rústicos povos reinou,
que de origem humilde me tornei poderoso,
o primeiro a trazer o canto eólio aos metros itálicos.
Assume o orgulho que o mérito conquistou
e benévola cinge meus cabelos,
Melpómene, com o délfico louro".5

Observe-se que, de certo modo, Horácio foi até humilde. Ele diz que crescerá no louvor dos vindouros enquanto o pontífice com a tácita virgem subir ao Capitólio. Ora, ora, o pontíficie subiu com a tácita virgem ao Capitólio somente enquanto durou o Império Romano; já a ode de Horácio e o próprio Horácio continuam a crescer no louvor de pessoas que vivem mais de dois mil e quinhentos anos após a queda do Império Romano. Para mim mesmo, não há poeta maior do que Horácio.

Mas como se estabelece efetivamente um cânone positivo? Para mim, uma descrição adequada foi dada pelo crítico literário norteamericano M.H. Abrams. Em suas palavras:

"Em décadas recentes a expressão “cânone literário” passou a denotar — em relação à literatura mundial ou europeia, mas mais comumente em relação a cada literatura nacional — aqueles autores que, por um consenso cumulativo de críticos, eruditos e professores, passaram a ser amplamente reconhecidos como “maiores” e a ter suas obras frequentemente saudadas como “clássicos” literários. As obras literárias de autores canônicos são, em qualquer momento dado, as mais editadas, as mais amplamente discutidas com maior frequência pelos críticos e historiadores literários e — na época presente — as que têm maior probabilidade de ser incluídas em antologias e nas bibliografias de cursos superiores com títulos tais como 'Obras-primas universais', 'Os maiores autores ingleses' ou 'Grandes escritores americanos'".6

Um cânone literário positivo não é portanto escolhido por nenhuma instituição particular, mas pelo que o filósofo Karl Popper chamava de “sociedade aberta”. Tal sociedade aberta é composta, aliás, não apenas dos críticos, eruditos e professores de que fala Abrams, mas também por historiadores, estudantes de literatura, jornalistas, o público em geral – e talvez em primeiro lugar – pelos próprios autores. Nesse sentido, tem razão Harold Bloom, quando diz que

"A resposta a 'quem canonizou Milton?' é, em primeiro lugar, John Milton mesmo, mas, quase em primeiro lugar, os outros poetas fortes, desde seu amigo Andrew Marvell, através de John Dryden, até quase todo poeta crucial do século XVIII e do período romântico: Pope, Thomson, Cowper, Collins, Blake, Wordsworth, Coleridge, Byron, Shelley, Keats. Certamente os críticos, dr. Johnson e Hazlitt, contribuíram para a canonização; mas Milton, como Chaucer, Spenser e Shakespeare, antes dele, e como Wordsworth, depois dele, simplesmente sobrepujou a tradição e a subsumiu".7

O cânone literário positivo, sendo produzido por uma sociedade aberta, é, ele próprio, aberto, expansivo e sempre sujeito a questionamentos, discussões e modificações. Convém ressaltar que o reconhecimento de um cânone não é absolutamente incompatível com a valorização da inovação na literatura. Assim, os movimentos de vanguarda não eram necessariamente contra o cânone. No Brasil, por exemplo, os poetas concretistas reconheciam um cânone poético que, seguindo a terminologia de Ezra Pound, chamavam de “paideuma”, palavra de origem grega que, etimologicamente, significa “aquilo que é matéria de ensino”. Ademais, foram os concretistas Augusto e Haroldo de Campos que, com seu livro ReVisão de Sousândrade, inscreveram Sousândrade, poeta maranhense do século XIX, no cânone brasileiro.8

Penso que a importância do cânone está, em primeiro lugar, no fato de que é através dele que sabemos o que é literatura e o que é boa literatura. Não é através de nenhuma definição que sabemos o que é poesia, mas sim através da leitura de poemas e, em primeiro lugar, de poemas que têm sido considerados bons, modelares, clássicos, canônicos pela sociedade aberta de poetas, escritores, teóricos da literatura, críticos, professores, jornalistas, leitores etc.

Sem dúvida, alguém objetará, com toda razão, que os membros de tal sociedade aberta frequentemente discordam sobre o que é bom, modelar, clássico, canônico. No entanto, como observava Kant, a verdade é que, quando alguém declara belo um objeto, crê merecer um consentimento universal. Essa pessoa pretende, mesmo sem possibilidade de demonstrar objetivamente a verdade do juízo estético, obter para ele uma adesão universal. E, de fato, há um extraordinário consenso tendencial em torno da qualidade de determinadas obras: de certo modo, tal consenso pode ser até mais duradouro do que o que vigora em torno da validade de teorias das ciências exatas como as da física. No século XVIII, tomava-se, por exemplo, a física de Newton como definitiva. No século XX, ela foi, sob muitos aspectos, destronada pela Teoria da Relatividade, de Einstein. Ora, no campo da literatura, é quase impensável para nós hoje que algum dia se chegue a abandonar o consenso tendencial em torno da qualidade de obras como Antígona, de Sófocles, ou as Odes de Horácio, ou a Comédia Divina, de Dante, ou Rei Lear, de Shakespeare, ou Fausto, de Goethe, ou As flores do mal, de Baudelaire, ou Mensagem, de Pessoa ou Libertinagem, de Bandeira, ou A rosa do povo, de Drummond, ou A educação pela pedra, de Cabral ou A luta corporal, de Gullar
.
Pois bem, a Academia Brasileira de Letras não apenas faz parte da sociedade aberta que elege o cânone, mas, em virtude de sua independência, de sua liberdade, do desprendimento de sua dedicação à cultura, encontra-se em posição privilegiada, em relação a outras instituições, como as ligadas a empreendimentos privados ou ao Estado, para discutir de modo sério, profundo e aberto questões dessa natureza. Em matéria de poesia, por exemplo o que – e de que modo, e a partir de que idade, e em que momento de sua educação – deve uma pessoa ler para realmente conseguir saber e apreciar aquilo que faz de um poema um poema? Que obras devem ser tombadas como patrimônios culturais? Discussões dessa natureza no âmbito da Academia Brasileira de Letras – correspondentes ao primeiro artigo do seu estatuto – certamente terão uma influência benéfica sobre as elaborações dos currículos escolares.

A cadeira que ocuparei aqui será a de número 27. Pois bem, seu primeiro ocupante foi o grande abolicionista Joaquim Nabuco. Mas antes de falar dele, vou recitar o que creio que seja o poema mais famoso de Maciel Monteiro, o médico, orador, diplomata, dandy e poeta, que Nabuco escolheu para ser o patrono da cadeira 27. O poema consiste num soneto intitulado “Formosa”.

"Formosa

Formosa, qual pincel em tela fina
Debuxar jamais pôde ou nunca ousara;
Formosa, qual jamais desabrochara
Na primavera rosa purpurina;
Formosa, qual se a própria mão divina
Lhe alinhara o contorno e a forma rara;
Formosa, qual jamais no céu brilhara
Astro gentil, estrela peregrina;
Formosa, qual se a natureza e a arte,
Dando as mãos em seus dons, em seus lavores
Jamais soube imitar no todo ou parte;
Mulher celeste, oh! anjo de primores!
Quem pode ver-te, sem querer amar-te?
Quem pode amar-te, sem morrer de amores?"9

Os dois últimos versos desse soneto,

"Quem pode ver-te, sem querer amar-te?
Quem pode amar-te sem morrer de amores?"

Ficaram muito populares.

Voltemos ao Joaquim Nabuco. Confesso que me sinto um pouco encabulado de falar de uma figura histórica que já foi objeto de estudos extremamente importantes de notáveis historiadores que pertencem a esta Academia, como Evaldo Cabral de Melo e José Murilo de Carvalho. Cumprindo a tradição, porém, direi algumas palavras sobre Nabuco.

Nabuco foi, como se sabe, um dos nossos mais importantes abolicionistas. Não se tratava para ele, que dizia ter absorvido a escravidão “no leite preto que o amamentara”, de uma questão política abstrata, mas extremamente concreta. E ele previu que a escravidão permaneceria por muito tempo como a característica nacional do Brasil, pois havia corrompido o país. Assim, ele afirmava, com toda razão que

"A classe dos que assim vivem com os olhos voltados para a munificência do Governo é extremamente numerosa e diretamente filha da escravidão, porque não consente outra carreira aos brasileiros, havendo abarcado a terra, degradado o trabalho, corrompido o sentimento de altivez pessoal em desprezo por quem trabalha"...10

Desse modo, segundo ele, o abolicionismo

"não reduz a sua missão a promover e conseguir — no mais breve prazo possível — o resgate dos escravos e dos ingênuos. Essa obra — de reparação, vergonha ou arrependimento, como a queiram chamar — da emancipação dos atuais escravos e seus filhos é apenas a tarefa imediata do abolicionismo. Além dessa, há outra maior, a do futuro: a de apagar todos os efeitos de um regímen que, há três séculos, é uma escola de desmoralização e inércia, de servilismo e irresponsabilidade para a casta dos senhores, e que fez do Brasil o Paraguai da escravidão".11
[...]
Depois que os últimos escravos houverem sido arrancados ao poder sinistro que representa para a raça negra a maldição da cor, será ainda preciso desbastar, por meio de uma educação viril e séria, a lenta estratificação de trezentos anos de cativeiro, isto é, de despotismo, superstição e ignorância".12

Além de seu entendimento intelectual e político da escravidão, Joaquim Nabuco narra admiravelmente, em alguns textos, a sua experiência pessoal com ela. Assim, por exemplo, no texto “Massangana” (que é o nome do engenho onde ele foi criado), ele diz:

"Estive envolvido na campanha da abolição e durante dez anos procurei extrair de tudo, da história, da ciência, da religião, da vida, um filtro que seduzisse a dinastia; vi os escravos em todas as condições imagináveis; mil vezes li A cabana do Pai Tomás, no original da dor vivida e sangrando; no entanto a escravidão para mim cabe toda em um quadro inesquecido da infância, em uma primeira impressão, que decidiu, estou certo, do emprego ulterior de minha vida. Eu estava uma tarde sentado no patamar da escada exterior da casa, quando vejo precipitar-se para mim um jovem negro desconhecido, de cerca de dezoito anos, o qual se abraça aos meus pés suplicando-me pelo amor de Deus que o fizesse comprar por minha madrinha para me servir. Ele vinha das vizinhanças, procurando mudar de senhor, porque o dele, dizia-me, o castigava, e ele tinha fugido com risco de vida... Foi este o traço inesperado que me descobriu a natureza da instituição com a qual eu vivera até então familiarmente, sem suspeitar a dor que ela ocultava".13

Sobre o segundo ocupante da cadeira 27, Dantas Barreto, tenho bem menos a dizer. Ele também foi pernambucano. Foi militar, tendo lutado na Guerra do Paraguai, e escreveu romances e peças de teatro que confesso não ter lido.

O terceiro ocupante da cadeira 27 foi o gaúcho Gregório da Fonseca. Também militar, ele escreveu ensaios e poemas. Tendo vindo morar no Rio de Janeiro, aproximou-se de Olavo Bilac. Não recitarei nenhum poema dele, mas apenas o interessante trecho inicial de um ensaio intitulado “Estética das batalhas”. É o seguinte:

"Ser artista: produzir uma obra prima; criar com o belo existente o belo que não existe; fixar para sempre um aspecto novo da Beleza que se não repetirá; avançar do seu tempo, do seu século, abrindo largas estradas ao pensamento futuro: para os gregos, era divino; é heroico, na expressão de Carlyle!"14

O quarto ocupante da cadeira 27 foi Levi Carneiro. Este nasceu em Niterói. Foi um grande advogado, autor de uma obra intitulada Livro de um advogado. Foi também fundador e primeiro presidente da Ordem dos Advogados do Brasil e do Instituto dos Advogados Brasileiros.

Já o quinto ocupante da cadeira 27 foi Otávio de Faria, um grande romancista carioca. Na sua obra, A tragédia burguesa, que consiste num ciclo de vários romances, ele apresenta um amplo painel da vida carioca.

Finalmente, o sexto ocupante da cadeira 27 foi o admirável e saudoso intelectual baiano Eduardo Portella. Uma das coisas pelas quais tenho grande admiração pelo Portella é o fato de que ele foi o fundador, em 1962, da revista Tempo Brasileiro, publicação extremamente importante para mim, sobretudo quando estudante, nas décadas de sessenta e setenta. Como muito bem disse Nélida Piñon, “Portella era um grande mestre do pensamento brasileiro que soube, com rara perspicácia, interpretar o fenômeno literário”. Autor de mais de 20 obras de crítica literária e ensaios, Portella se distingue também por ter, através da Tempo Brasileiro, sido um dos principais introdutores, no Brasil, do pensamento de Martin Heidegger e Jürgen Habermas.

Por último, quero fazer uma homenagem a um acadêmico que jamais ocupou a cadeira 27. Trata-se do grande poeta, ensaísta professor e bibliófilo Antonio Carlos Secchin. Penso que é, em primeiro lugar, graças a ele que aqui me encontro. Secchin foi o primeiro acadêmico a incentivar a minha candidatura à Academia. E seu firme apoio durou até a minha eleição. Em consequência de minha admiração pela sua obra, isso me deixou feliz, orgulhoso e confiante. Por essa razão, vou, neste momento, ler, em sua homenagem, um belíssimo e profundo poema de Desdizer, que é seu livro mais recente. O poema se intitula “Autorretrato”.

"Autorretrato

                  a Flávia Amparo

Um poeta nunca sabe
onde sua voz termina,
se é dele de fato a voz
que no seu nome se assina.
Nem sabe se a vida alheia
é seu pasto de rapina,
ou se o outro é que lhe invade,
numa voragem assassina.
Nenhum poeta conhece
esse motor que maquina
a explosão da coisa escrita
contra a crosta da rotina.
Entender inteiro o poeta
é bem malsinada sina:
quando o supomos em cena,
já vai sumindo na esquina,
entrando na contramão
do que o bom senso lhe ensina.
Por sob a zona da sombra,
navega em meio à neblina.
Sabe que nasce do escuro
a poesia que o ilumina".15


Notas:

1 JAGUARIBE, Hélio. “Discurso de Posse”, em 22/07/2005. Site da ABL, na URL: http://www.academia.org.br/academicos/helio-jaguaribe.

2 BAUDELAIRE, Charles. “La voix” / “A voz”. In: As Flores do mal. Trad. de Ivan Junqueira. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1985, p.550.

3 LAFER, Celso. “Helio Jaguaribe, aos 90”. Estado de São Paulo, 21/04/2013.

4 CARNEIRO, Levi. “Discurso de posse”. Site da ABL, na URL: http://www.academia.org.br/academicos/levi-carneiro/discurso-de-posse.

5 HORÁCIO. Ode iii.XXX. In:_____. Odes. Trad. de Pedro Braga Falcão. Lisboa: Cotovia, 2008, p.255.

6 ABRAMS, M. “Canon of literature”. In:_____. A glossary of literary terms. Boston: Thompson Wadsworth, 2005, p.29.

7 BLOOM, H. The Western Canon. The books and schools of the ages. New York: Riverhead Books, 1994, p.27.

8 CAMPOS, Augusto de; CAMPOS, Haroldo de. ReVisão de Sousândrade. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1982.

9 MONTEIRO, Maciel. “Formosa”. In: CAVALHEIRO, Edgar. Panorama da poesia brasileira, vol. II: O romantismo. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1959, p.4.

10 NABUCO, Joaquim. “Influências sociais e políticas da escravidão”. In:_____. O abolicionismo. Org. por Evaldo Cabral de Melo. São Paulo: Penguin Classics Companhia das Letras, 2011, p.60.

11 Ibid., p.12.

12 Ibid.

13 NABUCO, Joaquim. “Massangana”. In:____. Essencial Joaquim Nabuco. Org. de Evaldo Cabral de Melo. São Paulo: Penguin Classics Compahia das Letras, 2010, p.24.

14 FONSECA, Gregório da. “Estética das batalhas”. Trecho de Heroísmo e arte. Site da ABL, na URL: http://www.academia.org.br/academicos/gregorio-da-fonseca/textos-escolhidos

15 SECCHIN, Antonio Carlos. “Autorretrato”. In:_____. Desdizer e antes. Rio de Janeiro: Topbooks, 2017, p.39.

17.3.18

Manuel Bandeira: "O último poema"



O último poema

Assim eu quereria meu último poema
Que fosse terno dizendo as coisas mais simples e menos intencionais
Que fosse ardente como um soluço sem lágrimas
Que tivesse a beleza das flores quase sem perfume
A pureza da chama em que se consomem os diamantes mais límpidos
A paixão dos suicidas que se matam sem explicação.




BANDEIRA, Manuel. "O último poema". In:_____. 50 poemas escolhidos pelo autor. São Paulo: Cosac Naify, 2006.

15.3.18

Sophia de Mello Breyner Andresen: "Poema de Helena Lanari"



Poema de Helena Lanari

Gosto de ouvir o português do Brasil
Onde as palavras recuperam sua substância total
Concretas como frutos nítidas como pássaros
Gosto de ouvir a palavra com suas sílabas todas
Sem perder sequer um quinto de vogal

Quando Helena Lanari dizia o «coqueiro»
O coqueiro ficava muito mais vegetal




ANDRESEN, Sophia de Mello Breyner. "Poema de Helena Lanari". In_____. Obra poética. Org. por Carlos Mendes de Sousa. Alfragide: Caminho, 2011.

13.3.18

Jorge Luis Borges: "Borges e eu": trad. de Josely Vianna Baptista



Borges e eu

Ao outro, a Borges, é que sucedem as coisas. Eu caminho por Buenos Aires e me demoro, talvez já mecanicamente, para olhar o arco de um vestíbulo e o portão gradeado; de Borges tenho notícias pelo correio e vejo seu nome em uma lista tríplice de professores ou em um dicionário biográfico. Agradam-me os relógios de areia, os mapas, a tipografia do século XVIII, as etimologias, o gosto do café e a prosa de Stevenson; o outro compartilha essas preferências, mas de um modo vaidoso que as transforma em atributos de um ator. Seria exagerado afirmar que nossa relação é hostil; eu vivo, eu me deixo viver, para que Borges possa tramar sua literatura, e essa literatura me justifica. Não me custa nada confessar que alcançou certas páginas válidas, mas estas páginas não podem salvar-me, talvez porque o bom já não seja de ninguém, nem mesmo do outro, mas da linguagem ou da tradição. Além disso, eu estou destinado a perder-me, definitivamente, e só algum instante de mim poderá sobreviver no outro. Pouco a pouco vou cedendo-lhe tudo, embora conheça seu perverso costume de falsear e magnificar. Spinoza entendeu que todas as coisas querem perseverar em seu ser; a pedra eternamente quer ser pedra e o tigre um tigre. Eu permanecerei em Borges, não em mim (se é que sou alguém), mas me reconheço menos em seus livros do que em muitos outros ou do que no laborioso rasqueado de uma guitarra. Há alguns anos tentei livrar-me dele e passei das mitologias do arrabalde aos jogos com o tempo e com o infinito, mas esses jogos agora são de Borges e terei que imaginar outras coisas. Assim minha vida é uma fuga e tudo eu perco e tudo é do esquecimento, ou do outro. 

Não sei qual dos dois escreve esta página. 





BORGES, J.L. "Borges e eu". In:_____. O fazedor (1960). Trad. de Josely Vianna Baptista. São Paulo: Companhia das Letras, 2008. 

11.3.18

Arthur Rimbaud: "Ô saisons, ô châteaux" / "Ó castelo, ó sazões": trad. de Ivo Barroso



Ó castelo, ó sazões

Ó castelo, ó sazões
Que alma é sem senões?

Ó castelo, ó sazões,

Eu fiz o mágico estudo
Da ventura, que diz tudo.

Dai-lhe vivas toda vez
Cante seu galo gaulês.

Meu anseio é coisa ida,
Ele ocupou minha vida.

Esse Encanto! o corpo e a alma
Tomou-me, trazendo a calma.

Minha canção, o que entoa?
Por ele ela foge e voa!

[Se a desventura me aperta,
A desgraça será certa.

Que seu des prezo, ai de mim!
Me leve ao mais breve fim!

– Ó Castelo, ó Sazões!]




Ô saisons, ô châteaux

Ô saisons, ô châteaux,
Quelle âme est sans défauts ?

Ô saisons, ô châteaux,

J'ai fait la magique étude
Du Bonheur, que nul n'élude.

Ô vive lui, chaque fois
Que chante son coq gaulois.

Mais ! je n'aurai plus d'envie,
Il s'est chargé de ma vie.

Ce Charme ! il prit âme et corps,
Et dispersa tous efforts.

Que comprendre à ma parole ?
Il fait qu'elle fuie et vole !

Ô saisons, ô châteaux !

[ Et, si le malheur m'entraîne,
Sa disgrâce m'est certaine.

Il faut que son dédain, las !
Me livre au plus prompt trépas !

- Ô Saisons, ô Châteaux !]




RIMBAUD, Arthur. "Ô saisons, ô châteaux"/ "Ó castelo, ó sazões". In:_____. Poesia completa. Edição bilingue. Trad. de Ivo Barroso. Rio de Janeiro: Topbooks, 1995. 

9.3.18

Pedro Tamen: "Azul. Era azul? Era a cor"





Azul. Era azul? Era a cor
que era, não a que pretendo
-- ou seja, a que relembro.
O mar. Água, em todo o caso.
Vento por cima; ou era a voz
de alguém fazendo o ar bulir?
É na pele o que sinto
ou nos ouvidos soa? A sós
a praia. A sós, que não estou lá.





TAMEN, Pedro. "Azul. Era azul? Era a cor". In:_____. Memória indescritível. Lisboa: Gótica, 2000.

7.3.18

Adriano Nunes: "Das cinzas, tudo ainda"



Muito obrigado, querido Adriano Nunes, por ter dedicado a mim o seguinte belo poema:


Das cinzas, tudo ainda
                                        para Antonio Cicero

Meu pedaço de mar.
A Ítaca por mim
A esperar, a esperar...
Poderá ser que eu
Feito o astuto Odisseu
Chegue um dia até lá.

Meu recanto na Grécia,
Minha quimera estética.
E se eu não mais chegar?
E se eu mesmo chegar?
Que portento alçará
A vida ao patamar
Da grã felicidade,

Como se eu encontrasse
Outra nova verdade,
Outra Circe, quem sabe,
Outras Sereias, nessa
Marítima promessa
De amar e navegar?
Meu espanto de terra
À vista, a voz que erra

Desde a ágora à praia,
Ao sol que agora raia.
Minha Troia reerguida
Das cinzas, tudo ainda
Por vir, a minha Ilíada.
Ter na anêmica folha
O tanto, no poema,
Minha Atenas apenas...
Atento, minha Atenas!



Adriano Nunes

6.3.18

Francisco Alvim: "A poesia"



A poesia

Houve um tempo
em que Schmidt e Vinícius
dividiam as preferências
como maior poeta do Brasil
Quando por unanimidade ou quase
nesse jogo tolo
de se querer medir tudo
Drummond foi o escolhido
ele comentou
alguém já me mediu
com fita métrica
para saber se de fato sou
o maior poeta?

Estava certo
Pois a poesia
quando ocorre
tem mesmo a perfeição
do metro -- 
nem o mais
nem o menos
-- só que de um metro nenhum
um metro ninguém
um metro de nadas





ALVIM, Francisco. "A poesia". In:_____. O metro nenhum. São Paulo: Companhia das Letras, 2011.

3.3.18

Eugénio de Andrade: "Soneto"



Soneto

Amor desta tarde que arrefeceu
as mãos e os olhos que te dei;
amor exacto, vivo, desenhado
a fogo, onde eu próprio me queimei;

amor que me destrói e destruiu
a fria arquitectura desta tarde
– só a ti canto, que nem eu já sei
outra forma de ser e de encontrar-me.

Só a ti canto que não há razão
para que o frio que me queima os olhos
me trespasse e me suba ao coração;

só a ti canto, que não há desastre
de onde não possa ainda erguer-me
para encontrar de novo a tua face.



ANDRADE, Eugénio de. "Soneto". In:_____. "Os amantes sem dinheiro". In:_____. Primeiros poemas, As mãos e os frutos, Os amantes sem dinheiro. Vila Nova de Famalicão: Quase, 2006.

1.3.18

Augusto de Lima



Nostalgia panteísta

Um dia, interrogando o níveo seio
De uma concha voltada contra o ouvido,
Um longínquo rumor, como um gemido,
Ouvi plangente e de saudades cheio.

Esse rumor tristíssimo, escutei-o:
É a música das ondas, é o bramido,
Que ela guarda por tempo indefinido,
Das solidões marinhas de onde veio.

Homem, concha exilada, igual lamento
Em ti mesmo ouvirás, se ouvido atento
Aos recessos do espírito volveres.

É de saudade, esse lamento humano,
De uma vida anterior, pátrio oceano,
Da unidade concêntrica dos seres.




LIMA, Augusto de. "Nostalgia panteísta". In:_____. Poesias. Rio de Janeiro e Paris: Garnier, 1909.

27.2.18

Leo Gonçalves: "todo dia pela manhã"



todo dia pela manhã
eu beijo a minha própria boca
não é beijo no espelho não
é beijo na boca de verdade

todo dia pela manhã
eu beijo a minha própria boca
não é narcisismo não
é beijo de língua

e você? já beijou a sua própria boca?
não é beijo no espelho não
é beijo na boca

e você já beijou a sua própria boca?
não é narcisismo não
é beijo de língua



GONÇALVES, Leo. "todo dia pela manhã". In:_____. Use o assento para flutuar. Belo Horizonte: Crisálida, 2018.

26.2.18

Fabiano Fernandes Garcez: "A poesia de Antonio Cicero"



Adorei o que o poeta e professor Fabiano Fernandes Garcez escreveu sobre minha poesia na revista Literatura, aqui: http://literatura.uol.com.br/conheca-a-poesia-de-antonio-cicero/

25.2.18

José Régio: "Demasiado humano"



Demasiado humano

                                     ao Adolfo Casais Monteiro

Escancarei, por minhas mãos raivosas,
As chagas que em meu peito floresciam.
Versos a escorrer sangue eis escorriam
Dessas chagas abertas como rosas...

Assim vos disse angústias pavorosas
Em versos que gritavam... ou sorriam.
Disse-as com tal ardor, que todos criam
Esse rol de misérias fabulosas!

Chegou a hora de cansar..., cansei!
Sabei que as chagas todas que aureolei
São rosas de papel como as das feiras.

Que eu vivo a expor minh’alma nas estradas,
Com chagas inventadas retocadas...
Para esconder bem fundo as verdadeiras.



RÉGIO, José. "Demasiado humano". In:_____. BERARDINELLI, Cleonice (org.). Antologia de José Régio. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1985.

23.2.18

Alphonsus de Guimarães: "Ismália"



Ismália

Quando Ismália enlouqueceu,
Pôs-se na torre a sonhar...
Viu uma lua no céu,
Viu outra lua no mar.

No sonho em que se perdeu,
Banhou-se toda em luar...
Queria subir ao céu,
Queria descer ao mar...

E, no desvario seu,
Na torre pôs-se a cantar...
Estava perto do céu,
Estava longe do mar...

E como um anjo pendeu
As asas para voar...
Queria a lua do céu,
Queria a lua do mar...

As asas que Deus lhe deu
Ruflaram de par em par...
Sua alma subiu ao céu,
Seu corpo desceu ao mar...




GUIMARAENS, Alphosus de. "Ismália". In: BARBOSA, Frederico (org.). Cinco séculos de poesia. Antologia da poesia clássica brasileira. São Paulo: Landy, 2003.

21.2.18

Mário Quintana: "Das utopias"



Das utopias

Se as coisas são inatingíveis... ora!
Não é motivo para não querê-las...
Que tristes os caminhos, se não fora
A mágica presença das estrelas!



QUINTANA, Mário. "Das utopias". In:_____. Nova antologia poética. Rio de Janeiro: Codecri, 1981.

20.2.18

Curso "Estudos Narrativos", ministrado pelo professor William Soares



Neste primeiro semestre de 2018 o poeta e professor William Soares ministrará o curso “Estudos Narrativos” no Programa de Pós-Graduação Interdisciplinar em Linguística Aplicada da Faculdade de Letras da UFRJ. O curso será dividido em cinco módulos nos quais serão explorados elementos tais como a estrutura narrativa, a narrativa como instrumento de análise do discurso, narrativas em entrevistas, narrativas escritas e orais, narrativas como performance, narrativas em contextos diversos e o princípio narrativo em educação.
O curso acontecerá na Faculdade de Letras da UFRJ às quintas-feiras entre 09:00 e 12:30. Para mais detalhes vejam o programa abaixo:


17.2.18

Curso de grego antigo ministrado por Adriano Nunes



O poeta Adriano Nunes anuncia que oferecerá um curso básico de grego antigo (totalmente gratuito!) para aqueles que querem se iniciar na leitura de obras clássicas gregas. Serão estudados textos de Homero, Platão, Safo, Eurípides, Sófocles, entre muitos outros. Serão 25 lições (iniciais!) onde Adriano ensinará desde o alfabeto até a análise etimológica de termos gregos, o verso grego, etc. O curso será disponibilizado em uma página oficial criada no Facebook (https://www.facebook.com/cursodegregoantigoporadrianonunes/?ref=bookmarks) bem como no canal de Adriano no Youtube ( https://www.youtube.com/channel/UCmIl64Ja_zjf_ZZyHSye9BQ).



Antero de Quental: "Hino à Razão"



Hino à Razão

Razão, irmã do Amor e da Justiça,
Mais uma vez escuta a minha prece.
É a voz dum coração que te apetece,
Duma alma livre só a ti submissa.

Por ti é que a poeira movediça
De astros e sóis e mundos permanece;
E é por ti que a virtude prevalece,
E a flor do heroísmo medra e viça.

Por ti, na arena trágica, as nações
Buscam a liberdade, entre clarões;
E os que olham o futuro e cismam, mudos,

Por ti, podem sofrer e não se abatem,
Mãe de filhos robustos, que combatem
Tendo o teu nome escrito em seus escudos!




QUENTAL, Antero de. "Hino à Razão". In:_____. Sonetos. Lisboa: Sá da Costa, 1963.





15.2.18

Cecília Meireles: "Canção excêntrica"

Atendendo à sugestão de Ricardo, posto aqui a bela "Canção excêntrica" de Cecília Meireles:


 Canção excêntrica

Ando à procura de espaço
para o desenho da vida.
Em números me embaraço
e perco sempre a medida.
Se penso encontrar saída,
em vez de abrir um compasso,
protejo-me num abraço
e gero uma despedida.

Se volto sobre o meu passo,
é já distância perdida.

Meu coração, coisa de aço,
começa a achar um cansaço
esta procura de espaço
para o desenho da vida.
Já por exausta e descrida
não me animo a um breve traço:
– Saudosa do que não faço,
– Do que faço, arrependida.




MEIRELES, Cecília. "Canção excêntrica". In:_____. Obra poética. Rio de Janeiro: José Aguilar, 1967.

13.2.18

Euclides da Cunha: "Nestes três dias esplêndidos"

Agradeço ao poeta André Vallias por me ter chamado atenção para o seguinte poema de Euclides da Cunha:


Nestes três dias esplêndidos
Em que o Prazer tudo arrasa
Desde o cristão ao ateu,
Quem se sente neurastênico
Faz como eu,
Fica em casa



CUNHA, Euclides da. "Nestes três dias esplêndidos". In: Revista Fon-Fon!, Ano III, nº 8, 18/02/1909.

11.2.18

Eduardo Quina: "[nota]"



[nota]

continuamos estarrecidos a ouvir
a fatídica música de Orpheu.
a longínqua partitura do pranto
é alta. altíssima esta penúria
de que se fez irredutível o canto.
inculca-se a orquestração dos deuses
e da sua natureza impune.

e fez-se mytho e enigmático
na curva escarpada do tempo:
cesura que se abriu para sempre
nas entranhas.

inscrita na paisagem viva que se
desprende através da palavra
nas flores ocasionais da nossa infância
ou
nos estilhaços repercutidos e insignificantes da poesia.

tudo isto para dizer:
memória e ausência.



QUINA, Eduardo. "[nota]". In:_____. ausência. Leça da Palmeira: Eufeme, 2017 (2ª edição).

9.2.18

Fernando Pessoa: "Dom João, Infante de Portugal"



Dom João, Infante de Portugal

Não fui alguem. Minha alma estava estreita
Entre tam grandes almas minhas pares,
Inutilmente eleita,
Virgemmente parada;

Porque é do portuguez, pae de amplos mares,
Querer, poder só isto:
O inteiro mar, ou a orla vã desfeita --
O todo, ou o seu nada.



PESSOA, Fernando. "Dom João, Infante de Portugal". In:_____. Mensagem. Org. de Clarice Berardinelli, Maurício Matos. Rio de Janeiro: 7 Letras, 2008.

7.2.18

Bocage: "Enquanto o sábio arreiga o pensamento"



Enquanto o sábio arreiga o pensamento
Nos fenómenos teus, ó Natureza,
Ou solta árduo problema, ou sobre a mesa
Volve o subtil, geométrico instrumento;

Enquanto, alçando a mais o entendimento,
Estuda os vastos céus, e com certeza
Reconhece dos astros a grandeza,
A distância, o lugar e o movimento;

Enquanto o sábio, enfim, mais sabiamente
Se remonta nas asas do sentido
A corte do Senhor omnipotente,

Eu louco, eu cego, eu mísero, eu perdido,
De ti só trago cheia, oh Jónia, a mente;
Do mais e de mim mesmo ando esquecido.




BOCAGE, Manuel Maria l'Hedoux de Barbosa du. Obra completa. Edição de Daniel Pires. Porto: Caixotim, 2004.

5.2.18

Paul Celan: "Schreib dich nicht" / "Não te escrevas": trad. de João Barrento



Não te escrevas
entre os mundos,

ergue-te contra
a variedade de sentidos

confia no rastro das lágrimas
e aprende a viver




Schreib dich nicht
zwischen die Welten,

komm auf gegen
die Bedeutungen Vielfalt,

vertrau der Tränenspur
und lerne leben




CELAN, Paul. "Schreib dich nicht" / "Não te escrevas". In:_____. A morte é uma flor. Poemas do espólio. Trad. de João Barrento. Lisboa: Cotovia, 1998.

3.2.18

Jean-Pierre Lemaire: "L'imprimeur" / "O impressor": trad. de Júlio Castañon Guimarães



O impressor

a Jean-François

Na entrelinha, entre os tipos,
ele às vezes põe um pedaço de papel,
acrescenta às palavras visíveis
uma folha de fino silêncio,
o arrepio dos pinheiros em torno da oficina,
a onda quase apagada
vinda de uma forja na saída do lugarejo
ou da grande bigorna
muda do Mézenc.
Mais tarde, distante dali,
o poeta relê a página impressa,
reconhece seu rosto e seu próprio mundo
com alívio:
o espelho respira.




L’imprimeur

à Jean-François

Sur la réglette, entre les caractères,
il glisse parfois un morceau de papier,
ajoute aux mots visibles
une feuille de fin silence,
le frisson des sapins autour de l’atelier,
l’onde presque éteinte
venue d’une forge au bout du village
ou de la grande enclume
muette du Mézenc.
Plus tard, loin de là,
le poète relit la page imprimée,
reconnaît son visage et son propre monde
avec soulagement :
le miroir respire.




LEMAIRE, Jean-Pierre. "L'imprimeur" / "O impressor". In:_____. Poemas. Trad. de Júlio Castañon Guimarães. São Paulo: Lemme Editor, 2010. 

1.2.18

Ramon Nunes Mello: "da sensibilidade e outras percepções agudas"



da sensibilidade e outras percepções agudas

há 
um sol
dentro de
cada palavra

todos os dias
abro janelas
para iluminar
a língua





MELLO, Ramon Nunes. "da sensibilidade e outras percepções agudas". In:_____. Há um mar no fundo de cada sonho. Rio de Janeiro: Verso Brasil Editora, 2016.

30.1.18

Paulo Henriques Britto: "Duas Bagatelas I"



                   Duas bagatelas I
              
                   O que conheço de mim
                   é quase só o que sei,
                   e o que sei é quase só
                   o que não quero saber.
                   Resta saber se isso tudo
                   é só o começo ou se é o fim
                   ou — o que é pior que tudo —
                   se é tudo.
  



BRITTO, Paulo Henriques. "Duas bagatelas I". In:_____. Mínima lírica. São Paulo: Companhia das Letras: São Paulo, 1989.

27.1.18

Frank O'Hara: "Why I am not a painter" / "Por que não sou pintor": trad. de Beatriz Bastos e Paulo Henriques Britto



Por que não sou pintor

Não sou pintor, e sim poeta.
Por quê? Acho que eu preferia
ser pintor, só que não sou. Bem,

por exemplo, o Mike Goldberg
está começando um quadro. Vou lá.
“Senta e bebe alguma coisa”, ele
diz. Bebo. Bebemos. Eu olho
pro quadro. “Você escreveu SARDINHAS.”
“Tinha que pôr alguma coisa ali.”
“Ah.” Os dias passam e eu
vou lá de novo. O quadro avança,
eu vou embora, e os dias vão
passando. Eu volto. O quadro está
pronto. “Cadê SARDINHAS?”
Só ficaram umas
letras. “Era demais”, diz Mike.

Mas e eu? Um dia eu penso numa
cor: laranja. Escrevo um verso sobre
laranja. E logo é uma página
inteira de palavras, não versos.
Depois outra página. Devia
haver muito mais, não laranja, mas
palavras, sobre o horror do laranja e
da vida. Os dias passam. Está até
em prosa, sou poeta mesmo. Meu poema
está pronto, e ainda nem falei em
laranja. Doze poemas, e o nome é
LARANJAS. E um dia numa galeria
vejo o quadro do Mike: SARDINHAS.




Why I am not a painter

I am not a painter, I am a poet.
Why? I think I would rather be
a painter, but I am not. Well,

for instance, Mike Goldberg
is starting a painting. I drop in.
“Sit down and have a drink” he
says. I drink; we drink. I look
up. “You have SARDINES in it.”
“Yes, it needed something there.”
“Oh.” I go and the days go by
and I drop in again. The painting
is going on, and I go, and the days
go by. I drop in. The painting is
finished. “Where’s SARDINES?”
All that’s left is just
letters, “It was too much," Mike says.

But me? One day I am thinking of
a color: orange. I write a line
about orange. Pretty soon it is a
whole page of words, not lines.
Then another page. There should be
so much more, not of orange, of
words, of how terrible orange is
and life. Days go by. It is even in
prose, I am a real poet. My poem
is finished and I haven’t mentioned
orange yet. It’s twelve poems, I call
it ORANGES. And one day in a gallery
I see Mike’s painting, called SARDINES.




O'HARA, Frank. "Why I am not a painter" / "Por que não sou pintor". In:_____. Meu coração está no bolso. Trad. de Beatriz Bastos e Paulo Henriques Britto. São Paulo: Luna Parque, 2017.


24.1.18

Heirich Heine: "Ich stand in dunkeln Träumen" / "Num sonho escuro, eu": trad. de André Vallias



Num sonho escuro, eu
Olhava o seu retrato,
Então o rosto amado –
E imóvel – se moveu.

Nos lábios vi pousar
O riso mais bonito,
E, como umedecido,
Reacender o olhar.

Das lágrimas também
Meu rosto está molhado –
Eu não aceito o fato
Que te perdi, meu bem!



Ich stand in dunkeln Träumen
Und starrte ihr Bildniß an,
Und das geliebte Antlitz
Heimlich zu leben begann.
 
Um ihre Lippen zog sich
Ein Lächeln wunderbar,
Und wie von Wehmuthsthränen
Erglänzte ihr Augenpaar.
 
Auch meine Thränen flossen
Mir von den Wangen herab –  
Und ach, ich kann es nicht glauben,
Daß ich dich verloren hab'!



HEINE, Heinrich. "Ich stand in dunkeln Träumen" / "Num sonho escuro, eu". In: VALLIAS, André (org. e trad.). Heine, heim? Poeta dos contrários. São Paulo: Perspectiva: Goethe Institut, 2011.

22.1.18

Antonio Carlos Secchin: "Na antessala"



Na antessala

Espalhei dezoito heterônimos
em ruas do Rio e Lisboa.
Todos eles, se reunidos,
não valem um só de Pessoa.

Trancafiei-me num mosteiro,
esperando de Deus um dom.
O que Ele me deu foi pastiche
da poesia de Drummond.

Ressoa na minha gaveta
um comício de versos reles.
Em coro parecem dizer:
Não somos Cecília Meireles.

O desavisado leitor
não espere muito de mim.
O máximo, que mal consigo,
é chegar a Antonio Secchin.



SECCHIN, Antonio Carlos. "Na antesala". In:_____. Desdizer e antes. Rio de Janeiro: Topbooks, 2017.                                                

19.1.18

Javier Corrales: "Un matrimonio perfecto: evangélicos y conservadores en América Latina"



Achei muito bom o seguinte artigo de Javier Corrales. Li-o pela primeira vez no New York Times, em inglês, mas hoje descobri na Internet uma versão dele em castelhano, que resolvi postar abaixo, pois creio que a maior parte dos leitores brasileiros conseguem ler artigos nessa língua, irmã da nossa.


Un matrimonio perfecto: evangélicos y conservadores en América Latina
Javier Corrales


AMHERST, Massachusetts — Las iglesias evangélicas protestantes, que por estos días se encuentran en casi cualquier vecindario en América Latina, están transformando la política como ninguna otra fuerza. Le están dando a las causas conservadoras —en especial a los partidos políticos— un nuevo impulso y nuevos votantes.

En América Latina, el cristianismo se asociaba con el catolicismo romano. La Iglesia católica tuvo prácticamente el monopolio de la religión hasta la década de los ochenta. Al catolicismo solo lo desafiaban el anticlericalismo y el ateísmo. Nunca había habido otra religión. Hasta ahora.

Hoy en día los evangélicos constituyen casi el 20 por ciento de la población en América Latina, mucho más que el tres por ciento de hace seis décadas. En algunos cuantos países centroamericanos, están cerca de ser la mayoría.

La ideología de los pastores evangélicos es variada, pero en términos de género y sexualidad por lo general sus valores son conservadores, patriarcales y homofóbicos. Esperan que las mujeres sean totalmente sumisas a sus esposos evangélicos. En todos los países de la región, sus posturas en contra de los derechos de las personas homosexuales han sido las más radicales.

El ascenso de los grupos evangélicos es políticamente inquietante porque están alimentando una nueva forma de populismo. A los partidos conservadores les están dando votantes que no pertenecen a la élite, lo cual es bueno para la democracia, pero estos electores suelen ser intransigentes en asuntos relacionados con la sexualidad, lo que genera polarización cultural. La inclusión intolerante, que constituye la fórmula populista clásica en América Latina, está siendo reinventada por los pastores protestantes.

Brasil es un buen ejemplo del aumento del poder evangélico en América Latina. La bancada evangélica, los noventa y tantos miembros evangélicos del congreso, han frustrado acciones legislativas a favor de la población LGBT, desempeñaron un papel importante en la destitución de la presidenta Dilma Rousseff y cerraron exposiciones en museos. Un alcalde evangélico fue electo en Río de Janeiro, una de las ciudades del mundo más abiertas con la comunidad homosexual. Sus éxitos han sido tan ambiciosos, que los obispos evangélicos de otros países dicen que quieren imitar el “modelo brasileño”.

Ese modelo se está esparciendo por la región. Con la ayuda de los católicos, los evangélicos también han organizado marchas en contra del movimiento LGBT en Colombia, Costa Rica, República Dominicana, Perú y México. En Paraguay y Colombia pidieron que los ministerios de educación prohibieran los libros que abordan la sexualidad. En Colombia incluso se movilizaron para que se rechazara el acuerdo de paz con las Farc, el mayor grupo guerrillero en América Latina, con el argumento de que los acuerdos llevaban muy lejos los derechos feministas y de la comunidad LGBT.

¿Cómo es que los grupos evangélicos han adquirido tanto poder político? Después de todo, incluso en Brasil, las personas que se identifican como evangélicos siguen siendo una minoría y en la mayoría de los países el ateísmo va en aumento. La respuesta tiene que ver con sus nuevas tácticas políticas.

Ninguna de esas estrategias ha sido tan transformadora como la decisión de establecer alianzas con partidos políticos de derecha.

Históricamente, los partidos de derecha en América Latina tendían a gravitar hacia la Iglesia católica y a desdeñar el protestantismo, mientras que los evangélicos se mantenían al margen de la política. Ya no es así. Los partidos conservadores y los evangélicos están uniendo fuerzas.

Las elecciones presidenciales de Chile en 2017 ofrecen un ejemplo claro de esta unión entre los obispos evangélicos y los partidos. Dos candidatos de derecha, Sebastián Piñera y José Antonio Kast, buscaron ganarse el favor de los evangélicos. El ganador de las elecciones, Piñera, tenía cuatro pastores evangélicos como asesores de campaña.

Hay una razón por la cual los políticos conservadores están abrazando el evangelicalismo. Los grupos evangélicos están resolviendo la desventaja política más importante que los partidos de derecha tienen en América Latina: su falta de arrastre entre los votantes que no pertenecen a las élites. Tal como señaló el politólogo Ed Gibson, los partidos de derecha obtenían su electorado principal entre las clases sociales altas. Esto los hacía débiles electoralmente.

Los evangélicos están cambiando ese escenario. Están consiguiendo votantes entre gente de todas las clases sociales, pero principalmente entre los menos favorecidos. Están logrando convertir a los partidos de derecha en partidos del pueblo.

Este matrimonio de los pastores con los partidos no es un invento latinoamericano. Desde la década de los ochenta sucede en Estados Unidos, conforme la derecha cristiana poco a poco se convirtió en lo que puede llamarse el electorado más confiable del Partido Republicano. Incluso Donald Trump —a quien muchos consideran la antítesis de los valores bíblicos— hizo su campaña con una plataforma evangélica. Escogió a su compañero de fórmula, Mike Pence, por su evangelicalismo.

No es accidental que Estados Unidos y América Latina tengan experiencias similares en cuanto a la política evangélica. Los evangélicos estadounidenses instruyen a sus contrapartes latinoamericanos sobre cómo coquetear con los partidos, convertirse en cabilderos y combatir el matrimonio igualitario. Hay muy pocos grupos de la sociedad civil que tengan vínculos externos tan sólidos.

Además de establecer alianzas con los partidos, los grupos evangélicos latinoamericanos han aprendido a hacer las paces con su rival histórico, la Iglesia católica. Por lo menos en cuanto al tema de la sexualidad, los pastores y los sacerdotes han encontrado un nuevo terreno común.

El ejemplo más reciente de cooperación ha sido en el enfoque: el lenguaje que los actores políticos utilizan para describir sus causas. Para los sociólogos, mientras más actores logren enfocar un asunto para que resuene entre múltiples electorados, y no solo el principal, más probable es que influyan en la política.

En América Latina, los clérigos tanto católicos como evangélicos han encontrado un enfoque eficaz para su conservadurismo: la oposición a lo que han bautizado como “ideología de género”.

Este término se usa para etiquetar cualquier esfuerzo por promover la aceptación de la diversidad sexual y de género. Cuando los expertos argumentan que la diversidad sexual es real y la identidad de género es un constructo, el clero evangélico y católico dice que no se trata de algo científico, sino de una ideología.

A los evangélicos les gusta enfatizar la palabra “ideología” porque les da el derecho, argumentan, de protegerse a sí mismos —y en especial a sus hijos— de la exposición a esas ideas. La ideología de género les permite encubrir su homofobia con un llamado a proteger a los menores.

La belleza política de la “ideología de género” es que ha dado a los clérigos una forma de replantear su postura religiosa en términos laicos: como derechos de los padres. En América Latina, el nuevo lema cristiano es: “Con mis hijos no te metas”. Es uno de los resultados de esta colaboración entre evangélicos y católicos.

Políticamente, podríamos ser testigos de una tregua histórica entre los protestantes y los católicos en la región: mientras que los evangélicos acordaron adoptar la fuerte condena de la Iglesia católica al aborto, el catolicismo ha adoptado la fuerte condena de los evangélicos a la diversidad sexual y, juntos, pueden confrontar la tendencia en aumento hacia la secularización.

Los grupos evangélicos están resolviendo la desventaja política más importante que los partidos de derecha tienen en América Latina: su falta de arrastre entre los votantes que no pertenecen a las élites.
Esta tregua plantea un dilema para el papa Francisco, que está por terminar una gira por América Latina. Por una parte, ha expresado su rechazo al extremismo y su deseo de conectar con los grupos más modernos y liberales de la Iglesia. Por la otra, este papa ha hecho de los “encuentros cristianos” un sello distintivo de su papado, y él mismo no es del todo alérgico al conservadurismo cultural de los evangélicos.

Como actor político, el papa también se preocupa por la decreciente influencia de la Iglesia en la política, así que una alianza con los evangélicos parece el antídoto perfecto contra su declive político. Una cuestión apremiante que el papa necesita ponderar es si está dispuesto a pagar el precio de un mayor conservadurismo para reavivar el poder cristiano en Latinoamérica.

El evangelicalismo está transformando a los partidos y posiblemente a la Iglesia católica. Los partidos políticos se concebían a sí mismos como el freno esencial de la región en contra del populismo. Ese discurso ya no es creíble. Los partidos están dándose cuenta de que unirse a los pastores genera emoción entre los votantes —incluso si es solo entre quienes asisten a los servicios— y la emoción es equivalente al poder.


Javier Corrales, profesor de Ciencias Políticas en Amherts College, es coautor, junto con Michael Penfold, de “Dragon in the Tropics: The Legacy of Hugo Chávez in Venezuela”, y es articulista regular del The New York Times en Español.

Este artigo foi originalmente publicado em inglês no New York Times de 17 de janeiro de 2018.