15.7.18

Barão Vermelho: "A máquina de escrever"



Agradeço a Adriano Nunes por me ter informado que o poema "A máquina de escrever", de Giuseppe Ghiaroni, que publiquei aqui anteontem,  foi, há anos, musicado por Frejat/Barão Vermelho. Eis o link para a canção, no YouTube: https://youtu.be/7SlEOxqq1dI.

13.7.18

Giuseppe Ghiaroni: "A máquina de escrever"



Agradeço a Antonio Torres, por me ter chamado atenção para o seguinte belo poema de Giuseppe Ghiaroni:





A máquina de escrever


Mãe, se eu morrer de um repentino mal,
vende meus bens a bem dos meus credores:
a fantasia de festivas cores
que usei no derradeiro Carnaval.

Vende esse rádio que ganhei de prêmio
por um concurso num jornal do povo,
e aquele terno novo, ou quase novo,
com poucas manchas de café boêmio.

Vende também meus óculos antigos
que me davam uns ares inocentes.
Já não precisarei de duas lentes
para enxergar os corações amigos.

Vende , além das gravatas, do chapéu,
meus sapatos rangentes. Sem ruído
é mais provável que eu alcance o Céu
e logre penetrar despercebido.

Vende meu dente de ouro. O Paraíso
requer apenas a expressão do olhar.
Já não precisarei do meu sorriso
para um outro sorriso me enganar.

Vende meus olhos a um brechó qualquer
que os guarde numa loja poeirenta,
reluzindo na sombra pardacenta,
refletindo um semblante de mulher.

Vende tudo, ao findar a minha sorte,
libertando minha alma pensativa
para ninguém chorar a minha morte
sem realmente desejar que eu viva.

Pode vender meu próprio leito e roupa
para pagar àqueles a quem devo.
Sim, vende tudo, minha mãe, mas poupa
esta caduca máquina em que escrevo.

Mas poupa a minha amiga de horas mortas,
de teclas bambas, tique-taque incerto.
De ano em ano, manda-a ao conserto
e unta de azeite as suas peças tortas.

Vende todas as grandes pequenezas
que eram meu humílimo tesouro,
mas não! ainda que ofereçam ouro,
não venda o meu filtro de tristezas!

Quanta vez esta máquina afugenta
meus fantasmas da dúvida e do mal,
ela que é minha rude ferramenta,
o meu doce instrumento musical.

Bate rangendo, numa espécie de asma,
mas cada vez que bate é um grão de trigo.
Quando eu morrer, quem a levar consigo
há de levar consigo o meu fantasma.

Pois será para ela uma tortura
sentir nas bambas teclas solitárias
um bando de dez unhas usurárias
a datilografar uma fatura.

Deixa-a morrer também quando eu morrer;
deixa-a calar numa quietude extrema,
à espera do meu último poema
que as palavras não dão para fazer.

Conserva-a, minha mãe, no velho lar,
conservando os meus íntimos instantes,
e, nas noites de lua, não te espantes
quando as teclas baterem devagar.






GHIARONI, Giuseppe. "A máquina de escrever". In:_____.  A máquina de escrever. São Paulo: Scortecci, 1997.

12.7.18

Luís Felipe Castro Mendes: "Estóicos"



Estóicos

Deixa-te ficar comigo à beira do rio.
Entardeceu. Não procures o vulgar brilho da beleza
nem a sedução da mocidade.
Se te falarem dos deuses, finge entender.
E se chamarem poeta ao dono do circo,
concorda gravemente.




MENDES, Luís Felipe Castro. "Estóicos". In:_____. Os dias inventados. Lisboa: Gótica, 2001.

9.7.18

A poesia e a filosofia no mundo contemporâneo

Na próxima quinta-feira, dia 12 de julho, às 17h30, darei, no Teatro R. Magalhães Jr., da Academia Brasileira de Letras, a palestra "A poesia e a filosofia no mundo contemporâneo". Ela será parte do ciclo de conferências "Poesia e Filosofia" do qual -- a convite da Primeira Secretária d ABL, a escritora Ana Maria Machado -- sou o coordenador, no corrente mês. A entrada será franca. 













Como parte do mesmo ciclo de conferências, ocorreu, na quinta-feira passada, no mesmo local, a bela e erudita conferência de Alberto Pucheu, "Espantografias: entre poesia e filosofia". Na quinta-feira, dia 26 do corrente mês, terá lugar a conferência de Evando Nascimento, intitulada "Uma literatura pensante: Pessoa, Clarice e as plantas".  

Wisława Szymborska: "ABC": trad. de Regina Przybycien



ABC

Jamais vou descobrir
o que A. pensava de mim.
Se B. até o fim não me perdoou.
Porque C. fingia que estava tudo bem.
Que papel teve D. no silêncio de E.
O que F. esperava, se é que esperava.
Porque G. fingia, já que sabia muito bem.
O que H. tinha a esconder.
O que I. queria acrescentar.
Se o fato de eu estar ali ao lado
teve qualquer importância
para J., para K. e para o resto do alfabeto.”



SZYMBORSKA, Wisława. "ABC". In:_____. Um amor feliz. Trad. de Regina Przybycien. São Paulo: Companhia das Letras, 2016.

2.7.18

Por trás da canção "Fullgás"




Agradeço a meu amigo e parceiro Arthur Nogueira por me ter chamado atenção para um vídeo, que se encontra no You Tube, sobre a canção "Fullgás". Ele é assinado por Mr. Funky Sampa. Ei-lo:





30.6.18

Dênis Rubra: "quanto tempo cabe em um ano"



quanto tempo cabe em um ano
quantos anos em um segundo
quantos cantos entre
quatro paredes
quantos
mundos



RUBRA, Dênis. "quanto tempo cabe em um ano". In:_____. É muito cedo pra pensar. Rio de Janeiro: Rubra Editora, 2017.

28.6.18

Cassiano Ricardo: "Tradução"



Tradução

A Renato Jobim


outer space
     Kosmitchskoie prostranstvo
espace extra-athmosphérique
     espacio ultra-terrestre

tradução:

espaço poético absoluto.




RICARDO, Cassiano. "Tradução". In:_____. Jeremias sem-chorar. Rio de Janeiro: José Olympio, 1964.

26.6.18

Adriano Nunes: Sobre o videclipe da canção "Ninguém"



O dia amanheceu esteticamente implacável e belo! Um salve para todas as Musas que inspiraram o potente e inquieto Zé Pedro a dirigir o videoclipe "Rei Ninguém", da canção do Arthur Nogueira. No vídeo, vê-se a tensão dramática da poesia que a canção abarca, reluzindo e refletindo-se em uma amplidão enigmática em que o espectador não sabe a que instância dos signos o Rei que é metaforicamente Ninguém vai chegar, se quer realmente em algum lugar fisicamente alcançável. Mas não se enganem! O Rei Ninguém do Arthur Nogueira está além das convenções pragmáticas das estéticas mesquinhas e ornadas de clichês. Dizer que tem as terras de ninguém é dizer, ainda que pesem todas as consequências inescapáveis do devir e do saber sobre, que possui as terras além-dono: as terras-de-ninguém são as notas musicais da bela canção, são as imagens plenas de sentidos e significados vistas no vídeo,  procurando traduzir a real grandeza, o real tesouro que o artista tem em mãos, e de que alma e sinapses precisam para ser um rei, um rei ainda que, sob o pseudônimo "Ninguém", reine absoluto no reino que é poeticamente só seu e que lhe dá sentido e vida: o reino da Arte. Assim, como Ulisses, na Odisseia, a responder ao feroz ciclope Polifemo, astuciosamente, parece que Arthur responde a todos com a sua voz enigmática e transcendente: "Ninguém - este é o meu nome!". Bravíssimo! 
Para ser aplaudido de pé!

Adriano Nunes

Arthur Nogueira: clipe da canção"Ninguém"



Assistam ao belo clipe em que o cantor/compositor Arthur Nogueira canta "Ninguém", canção composta por ele para a tradução que o poeta Erick Monteiro Moraes fez do poema "Niemand", de Rose Ausländer:



25.6.18

Lêdo Ivo: "O homem vivo"



O homem vivo

Felicito-me a mim mesmo por ser transitório.
Sempre tive medo da eternidade,
esse grande cão obscuro que me farejava as pernas
e me seguia sem morder.

Aguardando a morte como quem espera uma carta
trazida por um estafeta divino,
nada tenho para as festas do dia seguinte.
Toda a minha vida foi este esperar sem fim.

Entre o sono e o mar total, na paisagem celeste,
soltei minha pandorga.
Vi o farol da minha terra, e minha infância inteira
estirada em cem léguas diante do mar.

Nada quero de ti, Morte, nem mesmo as recompensas de outro lado
com que amenizas o fim dos que muito sofreram.
Dá-me apenas o sono inteiriço dos que morrem
e são levados à terra dos pés juntos.

Que a vida seja um sonho, e os sonhos sejam sonhos
do sonho desdobrado dos que vivem.
Efêmero, bate no tempo um coração solitário
e a sombra da terra é pouca para escondê-lo.



IVO, Lêdo. "O homem vivo". In:_____. Poesia completa (1940-2004). Rio de Janeiro: Topbooks, 2004.

23.6.18

José Almino: "Objet trouvé"



Objet trouvé



tudo 
não 
é 
só 
bom

nem 
tudo 
é 
só 
bom




ALMINO, José. "Objet trouvé". In:_____. A estrela fria. São Paulo: Companhia das Letras, 2010.

21.6.18

Antero de Quental: "Tormento do ideal"



Tormento do ideal

Conheci a Beleza que não morre
E fiquei triste. Como quem da serra
Mais alta que haja, olhando aos pés a terra
E o mar, vê tudo, a maior nau ou torre,

Minguar, fundir-se, sob a luz que jorre:
Assim eu vi o mundo e o que ele encerra
Perder a cor, bem como a nuvem que erra
Ao pôr do sol e sobre o mar discorre.

Pedindo à forma, em vão, a ideia pura,
Tropeço, em sombras, na matéria dura,
E encontro a imperfeição de quanto existe.

Recebi o baptismo dos poetas,
E, assentado entre as formas incompletas
Para sempre fiquei pálido e triste.



QUENTAL, Antero de. "Tormento do ideal". In:_____. Sonetos. Org. por António Sergio. Lisboa: Sá da Costa Editora, 1963.


18.6.18

Entrevista de Eduardo Giannetti a Felipe Betim, do EL PAÍS



Recomendo a leitura da seguinte – excelente – entrevista do economista e filósofo Eduardo Gainnetti. Ela foi originalmente publicada na edição portuguesa do jornal espanhol El País (https://brasil.elpais.com), em 14 de junho de 2018. O entrevistador é Felipe Betim, do El País. No seu site original, o endereço da entrevista é: https://brasil.elpais.com/brasil/2018/06/05/politica/1528235313_705168.html


El País
Eduardo Giannetti | Economista e filósofo

Giannetti: “O ritmo de retomada desaponta, mas não sei onde estaríamos com Dilma”

Economista e filósofo assessora Marina Silva, a quem julga a mais comprometida com o país.
Para Eduardo Giannetti, Temer tinha um bom plano de Governo, mas só faz sobreviver desde 2017

São Paulo 14 JUN 2018 - 03:14 CEST

Quando lançou em 2016 o livro Trópicos Utópicos (Companhia das Letras), Eduardo Giannetti da Fonseca (Belo Horizonte, 1957) idealizava um Brasil que se apresentasse como alternativa aos modelos já conhecidos e uma nação que, pautada por seus próprios valores, percorre seu próprio caminho rumo ao desenvolvimento. O economista e filósofo retoma e se aprofunda no tema ao lançar agora O elogio do vira-lata e outros ensaios, uma coletânea de textos escritos entre 1989 e 2018 que reflete as mudanças pessoais pelas quais passou: "Eu era um jovem pesquisador com a pretensão de contribuir com o debate de ideias para a modernização do Brasil. Achava que o país precisava de uma injeção de liberalismo clássico", diz ele. "Hoje, me preocupa mais a construção de um Brasil que não seja uma cópia piorada dos países do norte. Me instiga a construção de uma originalidade brasileira diante de um mundo ocidental que não oferece mais sonhos e promessas de mudança genuína".

Assim, a primeira parte do livro, intitulada Enredos Brasileiros, fala sobre aspectos da psicologia brasileira, grandes questões nacionais e suas preocupações com a cultura. Ele aborda, por exemplo, o conhecido complexo de vira-lata do brasileiro e faz uma defesa de sua "condição de vira-lata". Também aborda o que chama de paradoxo do brasileiro. "Cada brasileiro, quando olha para si, se sente muito diferente e acima de tudo isso que aí está. Mas todos nós juntos somos exatamente tudo isso que aí está. É como se o brasileiro fosse o outro, sempre, e ninguém se reconhece no coletivo que somos nós juntos", explica.

Giannetti é também, junto com o economista André Lara Resende, colaborador da pré-candidata Marina Silva (REDE). Ao EL PAÍS, argumenta que a greve dos caminhoneiros mostrou que "a sociedade brasileira não tolera mais um sistema de governo em que o Estado dá a entender que a sociedade existe para servi-lo, e não o contrário". Ele critica uma política de preços da Petrobras baseada em reajustes diários de acordo com a cotação do dólar e os preços internacionais do Petróleo, algo "tecnocrática e de desconhecimento da vida comum".

Pergunta. Um dos seus textos no livro que você acaba de lançar é uma resenha de um livro do Roberto Mangabeira Unger sobre o que a esquerda deveria fazer. O que acha que ela deveria fazer?

Resposta. A minha grande bandeira, aspiração, é um Brasil em que a condição social, a condição de gênero, a condição de etnia em que a pessoa nasce não a prejudique de nenhuma maneira. Que ela tenha absoluta igualdade de oportunidade para a formação de suas capacidades de modo que ela tenha uma vida a mais plena possível. Estamos muito longe disso no Brasil, mas o caminho é a igualdade de oportunidades. Não me incomoda que as pessoas tenham desigualdade na chegada, desde que a igualdade tenha existido na partida. As pessoas tem valores diferentes, tem sonhos diferentes... Nem todo mundo, felizmente, está disposto a sacrificar tanto a vida em nome de valores financeiros e econômicos. As pessoas são diferentes e é bom que assim seja.

P. Mas a desigualdade na chegada tem que ser tão grande como é hoje no Brasil?

R. A desigualdade na chegada brasileira é totalmente viciada e deturpada por uma obscena desigualdade na partida. E isso envenena as relações sociais no Brasil. Elas são tóxicas. A maneira de corrigir isso é buscado uma equalização da igualdade de oportunidades. E temos que concentrar tudo o que for possível para corrigir essa distorção que nos acompanha desde nossa origem como nação. Mas, hoje, o estado brasileiro é um grande concentrador de renda.

P. Você está assessorando outra vez a Marina Silva [pré-candidata a presidência pela REDE]? Que papel terá em sua campanha?

R. Eu me dispus a ajudar na formulação de propostas. Estou contribuindo com o que eu puder para que isso aconteça. Fiquei muito feliz de estar trabalhando nesse projeto com uma pessoa que admiro enormemente, o André Lara Resende. Ele também está se dispondo com a formulação de propostas e ideias que possam ser implementadas por um Governo Marina.

P. No que diferencia a Marina Silva de outras candidaturas consideradas liberais, como a de Geraldo Alckmin (PSDB), Henrique Meirelles (MDB) ou João Amoêdo (NOVO)?

R. Estou acompanhando e colaborando com a Marina Silva desde 2010. Uma liderança como a dela é rara em qualquer lugar do mundo, porque é calcada em compromisso ético. Nenhum outro líder político brasileiro tem um grau de comprometimento com ética como a Marina Silva. Ela é a única capaz de trazer para o centro da agenda duas questões definidoras do nosso futuro: educação e meio ambiente. Economia é meio, não é fim. O importante é deixar nossa economia organizada para que nós possamos concentrar nossas atenções, como governo e como nação, naquilo que definirá nosso futuro. Não vejo ninguém mais apto e preparado a fazer esse projeto de estadista, de futuro, e com os valores corretos, do que Marina Silva.

P. Acabamos de sair de uma longa greve de caminhoneiros. Que balanço e que lições você faz dessa paralisação?

R. Me dei conta nesses últimos dias das semelhanças entre junho de 2013 e maio de 2018. São movimentos que começam localizados em torno de questões aparentemente muito setoriais: os 20 centavos, os 46 centavos. Transporte. São movimentos que rapidamente ganham a sociedade. A adesão é fortíssima e rápida, e acho que as novas tecnologias têm papel nisso. O sentimento todo da sociedade se mobiliza. E realmente toma conta do cenário. Não tem muita liderança centralizada, se espalha rapidamente e coloca o governo contra a parede. E depois tem uma dinâmica em que grupos minoritários radicais e violentos passam a tentar instrumentalizar o movimento. Os black blocs lá, e os pedidos por intervenção militar agora. A dinâmica é parecida. Por trás dos dois casos está um sentimento de que a sociedade brasileira não tolera mais um sistema de governo em que o Estado dá a entender que a sociedade existe para servi-lo, e não o contrário. Nós transferimos para os governantes, para o Estado brasileiro, uma fatia enorme do resultado do trabalho. A carga tributária é de 34% do PIB, o déficit nominal é 6% do PIB, o que significa que 40% de todo o valor criado pelo trabalho dos brasileiros transita pelo setor público. E a sociedade não vê contrapartida. Metade dos domicílios não tem nem sequer saneamento básico, a coisa mais elementar de uma vida digna. Como a educação fundamental, a saúde pública, a segurança, o transporte coletivo continuam tão precários? Tem alguma coisa profundamente errada nas finanças públicas brasileiras. A tentativa que vem sendo feita de 1988 pra cá, de acomodar a pressão para os gastos pelo aumento da carga tributaria, sistematicamente, esgotou. Acabou o ciclo de expansão fiscal. Então vamos ter que entrar em outro tipo de jogo. O que está por trás disso é uma demanda de mudar profundamente o modo como o Estado brasileiro direciona os recursos. Outro elemento fundamental desse sentimento de revolta hoje foram as revelações da Lava Jato, que mostrou como nunca antes o modo de se fazer política.

P. Se você estivesse dentro do governo, como resolveria a questão? Que política de preços a Petrobras deve adotar?

R. Não sou um pessoa boa de formulação e execução. Não me meto no Executivo e não é meu perfil. Mas uma coisa bem especifica e técnica é que acho uma maluquice corrigir preço do derivado do petróleo todos os dias, de acordo com dois preços altamente voláteis como o preço do petróleo no mercado internacional e o regime de cambio flutuante. Isso é uma ideia tecnocrática e de total desconhecimento da vida comum. A governança das estatais melhorou dramaticamente, acho que eles estão fazendo um trabalho muito bem vindo de profissionalização da gestão. Mas no caso específico da metodologia de correção dos derivados do petróleo, eles foram tecnocráticos e equivocados. Nós vamos de um extremo ao outro, porque antes a Dilma era de um intervencionismo desastrado. De repente, vamos para um fundamentalismo de mercado que torna o preço do gás de cozinha, do diesel e da gasolina um ativo financeiro, que varia fortemente para cima e para baixo todos os dias. Precisamos ter realismo tarifário, mas também um suavizador.

P. A paralisação mostra algumas contradições e complexidades. As pessoas querem menos impostos e mais serviços públicos universais. Apoiam a greve dos caminhoneiros, mas não aceitam pagar a conta.

R. Já está pagando muito mais do que deveria. No caso do preço médio dos remédios, 36% é imposto. Na gasolina e no diesel chega a ser mais do que isso. Não dá mais para acomodar os conflitos aumentando a carga tributária, isso chegou no limite. Precisamos repensar agora por que um Estado pelo qual transitam 40% do valor criado pelos brasileiros não atende as necessidades mais elementares das políticas públicas. O Bolsa Família é meio por cento do PIB, é a migalha que cai da mesa. E olha o impacto que isso tem na vida de milhões de brasileiros.

Uma das questões que tem que ficar claro é o sistema de castas da previdência brasileira. O benefício médio de aposentadoria do INSS, para o cidadão comum, é de 1.300 reais comum. Esse valor sobe, no Executivo federal, para 7.000 reais por mês. No Legislativo, são 16.000 reais por mês. No Judiciário, são 27.000 reais por mês. De média. Isso aqui é o antigo regime. Não fizemos no Brasil o equivalente da revolução francesa e americana, que começa com o lema “no taxation without a representation”. A gente não virou esse jogo no Brasil. Os governantes ainda agem como se a sociedade existisse para servi-los.

P. E como você acha que essa questão tributária tem que se resolver? Qual é a reforma desejável?

R. O sistema tributário brasileiro cobra desproporcionalmente de quem menos pode pagar, porque ele está calcado em impostos indiretos. E quem mais poderia e deveria estar pagando impostos consegue driblar as tentativas do fisco de taxar. Temos que caminhar para um sistema tributário menos calcado em impostos indiretos, que incidem no bolso de quem ganha menos, e um sistema mais calcado em renda e, em alguma medida, patrimônio, riqueza. O Estado brasileiro é regressivo na tributação e em grande medida regressivo no gasto. Na Previdência, o déficit de 4,2 milhões de aposentados do setor público é do tamanho do déficit da Previdência dos 29 milhões do INSS. É o sistema de castas. O gasto público em educação no Brasil está em torno de 6%, isso é mais que a média dos países da OCDE e mais do que a média de nossos pares na América Latina. Como você explica um gasto tão alto e resultados educacionais tão ruins no Pisa? Porque uma fatia muito importante do gasto público é capturado pelos mais ricos no ensino superior. O sujeito faz o fundamental e médio na escola particular cara e, quando chega na parte mais cara de sua educação, ele passa a contar com subsídio tributário que financia sua educação.

R. Quem já pagava pelo ensino fundamental e médio deve continuar pagando. E quem não puder pagar pelo ensino superior, ganha uma bolsa de estudos.

P. Você costuma dizer, na área fiscal, que precisamos de menos Brasília e mais Brasil. O que isso significa?

R. Em 1988 se optou pelo modelo do Estado federativo. O regime militar era centralizado, e optamos por descentralizar. Princípio perfeito. Mas, na prática, transferiram para os estados e municípios as atribuições do setor público, mas mantiveram no governo central a autoridade para tributar. Dois terços da arrecadação está concentrada em Brasília. Então temos um sistema de transferências muito nocivo para a boa utilização dos recursos públicos. A regra num Estado federativo é: o dinheiro público deve ser gasto o mais perto possível de onde ele é arrecadado, para o cidadão fiscalizar e cobrar. Para Brasília deveria ir aquilo que somente a União deve cuidar, como a diplomacia, o Banco Central, os órgãos reguladores... Além das distribuições regionais. Num Brasil tão desigual e heterogêneo, é normal que as regiões mais prósperas transfiram para regiões menos favorecidas. Mas por que o resto do dinheiro precisa ir para Brasília para depois voltar? Brasília não pode ficar arrecadando e repassando ou não, com os prefeitos de pires na mão pedindo dinheiro. 80% dos municípios vivem de mesada. Vira um modo de fazer política. Perde-se transparência, critério, prioridade, capacidade de fiscalização... Precisamos construir no Brasil cidadania tributária, em que as pessoas saibam o quanto pagam de imposto, para onde ele vai e como está voltando. Ninguém pode ser contra isso.

P. Que outros tipos de ideias a candidatura Marina Silva poderia trazer na questão da desigualdade e mundo do trabalho, que hoje passa por uma série de transformações tecnológicas?

R. Não posso responder por ela. Mas penso que, no mercado de trabalho brasileiro, há dezenas de milhões de cidadãos sem uma situação regular de emprego. Não dá para tolerar isso. Não é normal isso na vida organizada de qualquer país. Ninguém os representa. Esses brasileiros não têm nenhuma proteção, nenhum direito, e ninguém fala deles. Nós precisamos repensar as instituições do mercado de trabalho brasileiro tendo como objetivo maior permitir que todo brasileiro tenha, na sua atividade laboral, uma situação que lhe dê a condição de cidadão pleno. Mas o que nós temos hoje com a economia informal é subcidadãos, sem nenhum direito garantido de nada.

P. Mas com as mudanças tecnológicas, como  elas vão ter um posto de trabalho formal? Devemos começar a falar em direitos sociais desvinculados do emprego, como por exemplo uma renda mínima universal?

R. Acho um caminho interessante, mas com muito critério. Os recursos são limitados, o orçamento é restrito, e tem que ter muita seriedade. Esse é um drama que teremos que necessariamente equacionar. As instituições ficam muito defasadas em relação a mudança da vida prática e da tecnologia. Atualizar as instituições e as demandas dessa nova economia será um processo de tentativa e erro.

Há um artigo da minha coletânea chamado 'O outro Hayek', um neoliberal austríaco que defende renda mínima garantida universal, independente da pessoa trabalhar ou não. Eu adoraria estar numa sociedade que propiciasse ao cidadão uma renda independente do fato de ele estar ou não trabalhando. É um sonho de liberdade. Mas precisamos construir o caminho para isso.

P. Que balanço você faz do Governo Temer?

R. É uma pergunta que eu me faço e não consigo responder. Onde nós estaríamos agora se o Governo Dilma tivesse continuado? O Brasil estava na UTI, com sinais vitais em queda livre, sem nenhum horizonte. Era uma situação sem a menor perspectiva. Então, do ponto de vista econômico, foi um alívio ter uma boa equipe econômica, uma mudança para melhor na governança das estatais e ter um programa de reformas, que no geral é bem correto, a Ponte para o Futuro, que coloca uma agenda de mudanças para que o país volte a recuperar o crescimento e a sustentabilidade das contas públicas. Lamentavelmente, o componente político do governo Temer é... Ele não tem a menor credibilidade e acabou sendo pilhado em 14 de maio de 2017 por aquela conversa de comparsas no subsolo do Palácio. A partir de então o governo entrou no modo de sobrevivência. A agenda de reformas que estava sendo encaminhada foi praticamente abortada, interrompida, e o governo consumiu o que lhe restava de capital político simplesmente para se manter vivo diante das denúncias e de sua enorme e precária fragilidade.

P. O brasileiro ainda não sente os efeitos da recuperação. O desemprego é alto e a greve dos caminhoneiros evidenciou o como é difícil viver. Por quê?

R. Primeiro porque o governo Temer perdeu totalmente a capacidade de iniciativa ao não fazer a mais importante das reformas, que era a da Previdência. As expectativas gerais da economia foram prejudicadas por essa falência do projeto reformista. Acho que o governo Temer errou no sequenciamento das reformas, porque ele deveria ter usado o capital político do início de seu governo para fazer primeiro o mais difícil, e depois fazer o menos conflituoso. E tem um fato também, normal em todo processo de recuperação, que o emprego é uma variável de resposta lenta. Assim como o desemprego demora para aumentar quando começa a recessão, porque as empresas querem se sentir seguras de que esse quadro é permanente antes de demitir, e porque é caro demitir, o desemprego demora a cair quando acaba a recessão. Porque tem muita ociosidade, o quadro não está totalmente definido... As empresas relutam em contratar. Agora, o Brasil saiu da pior recessão da sua história. É muito desapontador o ritmo, é muito incerta a continuidade desse movimento, principalmente depois da greve, mas não sei onde estaríamos com o Governo Dilma.

P. Em 'O elogio do vira-lata', título do seu livro, você aborda a questão do complexo de vira-lata do brasileiro. Qual é a origem desta personalidade?

R. O complexo de vira-lata foi cunhado como expressão pelo Nelson Rodrigues, num contexto inclusive futebolístico. Mas depois isso transcendeu muito e entrou no imaginário brasileiro a ideia do complexo de vira-lata. Na verdade, esse sentimento de inferioridade, esse narcisismo as avessas da psicologia brasileira, não surge no momento em que é nomeado. Ele nos acompanha desde nossa origem como colônia. O mazombo era como primeiro se chamou o brasileiro, que é o filho do português imigrante com negros e indígenas. Eram chamados de brasileiros aqueles que exploravam o pau-brasil, faziam fortuna e voltavam pra Portugal. E o mazombo era uma figura... O termo é de uma língua angolana que denota bruto, iletrado, rústico, uma pessoa sem classe e distinção. O mazombo tinha vergonha de ser quem era e seu sonho era voltar pra Portugal, estudar em Coimbra e virar um cidadão de primeira. Então, o complexo de vira-lata é um traço quase de nascença da vida brasileira. E continua muito forte. A preferência por produtos importados, a inveja dos “civilizados” que têm tudo, conforto, segurança, renda, coisas de primeiro mundo.

P. Ao mesmo tempo, você ressalta e elogia uma condição nossa de vira-lata...

R. Me incomodava muito o uso do termo “vira-lata” para denotar a nossa condição inferior. O Nelson Rodrigues está coberto de razão quando ele fala que nós temos cronicamente um sentimento de inferioridade. Mas por que eleger o vira-lata do símbolo mor do que há de errado conosco? Por que vira-lata? Eu acho bela e acho digna de reconhecimento de orgulho a condição vira-lata. A síntese dessa força do ensaio é a seguinte: o verdadeiro complexo de vira-lata é a ideia de que há algo errado em ser vira-lata. E tem um subtexto aí que é o seguinte: o que é ser vira-lata? É a mistura. É não ter raça definida. E o Brasil é mestiço, tanto genética como principalmente culturalmente. Nós somos uma mestiçagens de elementos ameríndios, africanos e europeus de diversas procedências. E isso é o que nos dá força e esperança de ter uma contribuição original diante de um ocidente que está num beco sem saída.

P. Ao longo do século XX, sempre se falou que a mestiçagem tinha levado o Brasil a uma democracia racial. Mas hoje os movimentos negros estão apontando para o fato de que isso nunca existiu. De que o racismo sempre foi realidade e nunca se quis falar sobre isso. Esses mesmos movimentos negros denunciam que esse processo de mestiçagem do Brasil, sobretudo na época da escravidão, foi fruto de processos violentos, estupros... E também como um objetivo maior de embranquecer a população, como você bem aponta em seu texto. Como você se posiciona nesse debate?

R. A democracia racial foi usada como véu a encobrir uma realidade objetiva de discriminação e de racismo. É uma ideologia que encobre uma realidade que não pode ser negada. Agora, como ideal e como valor, acho que é por aí. Devemos perseguir uma igualdade de oportunidade de maneira muito mais agressiva e corajosa do que fizemos até hoje. Temos que reconhecer a existência da descriminação e combatê-la por todos os meios. Agora, nós não podemos negar, em nome disso, o que nos diferencia e o que nós temos de melhor, que é a mistura. A história é um processo muitas vezes tortuoso. A vinda dos africanos para a América é a coisa mais inominável em termos de violência e crueldade. Mas é um fato. Nós estamos aqui e estamos juntos. A minha tataravó era uma negra ex-escrava. Nós somos misturados, as pesquisas genéticas comprovam isso do ponto de vista biológico, mas o mais importante não é o biológico. É a integração cultural na música, na dança, na culinária, na literatura, no cinema... Os três gênios universais brasileiros são vira-latas: Aleijadinho, Machado de Assis e Pelé. São frutos dessa mistura, e é o que temos de melhor. E acho que temos que enaltecer e cultivar nossa condição vira-lata, que foi muito bem resumida num samba cantado pela Carmem Miranda, de um ator chamado Alberto Ribeiro, que chama-se “Cachorro Vira-Lata”. Ele enaltece a condição da liberdade do vira-lata sem coleira e sem patrão. Um belo sonho.

16.6.18

Jorge Luis Borges: "a un viejo poeta" / "a um velho poeta": trad. de Josely Vianna Baptista



A un viejo poeta

Caminas por el campo de Castilla
y casi no lo ves. Un intrincado
versículo de Juan es tu cuidado
y apenas reparaste en la amarilla

puesta del sol. La vaga luz delira
y en el confín del Este se dilata
esa luna de escarnio y de escarlata
que es acaso el espejo de la Ira.

Alzas los ojos y la miras. Una
memoria de algo que fue tuyo empieza
y se apaga. La pálida cabeza

bajas y sigues caminando triste,
sin recordar el verso que escribiste:
Y su epitafio la sangrienta luna.




a um velho poeta

Caminhas pelo campo de Castela
e quase não o vês. Um intrincado
versículo de João é teu cuidado
e mal percebes a luz amarela

do pôr do sol. A vaga luz delira
e nos confins do Leste se dilata
essa lua de escárnio e de escarlata
que talvez seja o espelho da Ira.

O olhar elevas e a contemplas. Uma
memória de algo que foi teu começa
e se dissipa. A pálida cabeça

curvas e segues caminhando triste,
sem recordar o verso que escreveste:
seu epitáfio a sangrenta lua.




BORGES, Jorge Luis. "a un viejo poeta" / "a um velho poeta". In:_____. O fazedor (1960). Trad. de Josely Vianna Baptista. São Paulo: Companhia das Letras, 2008.

12.6.18

Daniel Maia-Pinto Rodrigues: "É do princípio das tardes"



É do princípio das tardes
do sol das tardes
das janelas abertas
das cigarras
e é do sol a entrar pelas janelas
da sua incidência nas cristaleiras
nas macãs e nos jarrões,
é das iluminadas peças de bronze
do segundo plano das aguarelas
das mais à sombra fotografias da família
que eu saio
durante as horas paradas
para escrever poesia.




RODRIGUES, Daniel Maia-Pinto. "É do princípio das tardes". In:_____. Dióspiro, poesia reunida 1977-2007. Org. por Luís Miguel Queirós e José Carlos Tinoco. Vila Nova de Famalicão: Quasi Edições, 2007. 

10.6.18

Luís Miguel Nava: "Rapazes"



Rapazes

Foi há cerca de um ano que eu
os vi, onde o granito e a luz são consanguíneos.

Seguiam abraçados um
ao outro, o pensamento posto no amoroso
lençol de que era na mão deles
o guarda-chuva uma antecipação.



NAVA, Luís Miguel. "Rapazes". In:_____. Poesia completa 1979-1994. Org. por Gastão Cruz. Lisboa: Publicações Dom Quixote, 2002.

7.6.18

Mário Quintana: "O poema. I"; "O poema. II"



O poema. I

Um poema como um gole d'água bebido no escuro.
Como um pobre animal palpitando ferido.
Como pequenina moeda de prata perdida para sempre na floresta
[noturna.
Um poema sem outra angústia que a sua misteriosa condição de
[poema.

Triste.
Solitário.
Único.
Ferido de mortal beleza.




O poema. 2

O poema é uma pedra no abismo,
O eco do poema desloca os perfis:
Para bem das águas e das almas
Assassinemos o poeta..




QUINTANA, Mário. "O poema. I"; "O poema. II". In: BANDEIRA, Manuel. "Antologia". In: Apresentação da poesia brasileira, seguida de uma antologia. São Paulo: Cosanaify, 2009.

4.6.18

Luis Turiba: "Perxistência"



Perxistência

sonhos senhas
sedes credos
scripts santos ao sol
flores filtros
afloram o céu

cada passo um destino
cada ritmo uma rotina
caminhada é teimosia
mas sim, sigo rumo ao fim



 TURIBA, Luis. "Perxistência". In:_____. Qtais. Rio de Janeiro: 7 Letras, 2013.

2.6.18

Caio Meira: "Cozimento"



Cozimento

Ri o poeta
vindo da cozinha:
"adivinhe o que acaba
de sair do forno."
"Pães de queijo?"
"Não.
Um poema."



MEIRA, Caio. "Cozimento". In:_____. Romance. Rio de Janeiro: Circuito, 2013.

30.5.18

Waly Salomão: "Câmara de ecos"



Câmara de ecos

Cresci sob um teto sossegado,
meu sonho era um pequenino sonho meu.
Na ciência dos cuidados fui treinado.

Agora, entre meu ser e o ser alheio
a linha de fronteira se rompeu.



SALOMÃO, Waly. "Câmara de ecos". In:_____. "Algaravias: Câmara de ecos [1996]". In:_____. Poesia total. São Paulo: Companhia das Letras, 2014.


27.5.18

Arthur Rimbaud: "Bonne pensée du matin" / "Bom augúrio matutino": trad. de Ivo Barroso



Bom augúrio matutino

Verão, às quatro da madrugada
O sono do amor ainda demora.
Sob os bosques dispersa a aurora
            O odor da noite festejada.

Mas lá, em seus imensos canteiros
De obras, em mangas de camisa,
Ao sol das Hespérides, já se agitam
            Os carpinteiros.

Em seus desertos de serragem,
Caros lambris preparam, lentos,
Em que a riqueza da cidade
          Verá falsos firmamentos.

Ah! por esses belos Fabricantes,
Súditos de um rei da Babilônia,
Vênus! deixa um pouco os Amantes
          Com as almas em coroa.

          Rainha dos Pastores!
   Dai-lhes o trago deste dia,
   Para que em paz recobrem forças
À espera do banho de mar, ao meio-dia.





Bonne pensée du matin

À quatre heures du matin, l'été,
Le sommeil d'amour dure encore.
Sous les bosquets, l'aube évapore
          L'odeur du soir fêté.

Mais là-bas dans l'immense chantier
Vers le soleil des Hespérides,
En bras de chemise, les charpentiers
          Déjà s'agitent.

Dans leur désert de mousse, tranquilles,
Ils préparent les lambris précieux
Où la richesse de la ville
          Rira sous de faux cieux.

Ah ! pour ces Ouvriers charmants
Sujets d'un roi de Babylone,
Vénus ! laisse un peu les Amants
          Dont l'âme est en couronne

          Ô Reine des Bergers !
  Porte aux travailleurs l'eau-de-vie.
  Pour que leurs forces soient en paix
En attendant le bain dans la mer, à midi.





RIMBAUD, Arthur. "Bonne pensée du matin" / "Bom augúrio matutino". In:_____. Poesia completa. Edição bilingue. Trad. de Ivo Barroso. Rio de Janeiro: Topbooks, 1995.

25.5.18

Victor Colonna: "Curto-circuito"



Curto-circuito

De repente eu paro e olho: é ele!
Desengato marcha-a-ré crescente
Meu rosto fica roxo, vermelho
Desamarra-se o elo da corrente.

Curto-circuito, incêndio, tragédia!
Meu cabelo arrepiado espeta
Meu pulso desencapado te choca
Meu corpo endiabrado, capeta.

E meu peito pega fogo: é vida.
Um calor que se desprende e solta
Amor é caminho longo: é ida
É só ida. Não tem volta.




COLONNA, Victor. "Curto-circuito". In:_____. Cabeça, tronco e versos. Rio de Janeiro: Editora da Palavra, 2009.

22.5.18

"Mergulho": exposição de pinturas de Luiz Pizarro



Clique no cartaz, para ampliá-lo:

Leo Gonçalves: "Lição de shiatsu # 1"



Lição de shiatsu # 1

para massagem no ego:
usar a língua






GONÇALVES, Leo. "Lição de shiatsu # 1". In:_____. Use o assento para flutuar (segunda edição, revista e ampliada). Belo Horizonte: Crisálida, 2018.

20.5.18

Rogério Batalha: "Não se ouvia barulho"



Não se ouvia barulho

não se ouvia barulho
quando a lua deu colo às minhas ruínas
quando um verso represou minhas enchentes
não se ouvia barulho
quando as pedras me adotaram como filho
não se ouvia barulho
quando o andarilho fitou os olhos tristes
de sua aldeia
não se ouvia barulho
sobre os trapos que devoravam
a criança síria
morta
numa praia deserta.




BATALHA, Rogério. "Não se ouvia barulho". In:_____. Azul. Rio de Janeiro: TextoTerritório, 2016.

18.5.18

Friedrich Hölderlin: "Die Götter" / "Os deuses": trad. de Paulo Quintela



                            Os deuses

    Éter calmo! sempre bela me conservas
        A alma no meio da dor; e ante os teus raios,
            Hélios! se enobrece em valentia
                Muitas vezes o peito revoltado.

    Ó bons Deuses! pobre é quem vos não conhece;
        No peito rude nunca o dissídio se lhe acalma,
            E o mundo pra ele é noite, e nenhuma
                Alegria lhe medra nem canção nenhuma.

    Vós só, com vossa juventude eterna, mantendes
        Nos corações que vos amam a candura infantil,
            E não deixais que em cuidados e erros
                Jamais lhe morra no luto o Génio.



                            Die Götter

    Du stiller Aether! immer bewahrst du schön
        Die Seele mir im Schmerz, und es adelt sich
            Zur Tapferkeit vor deinen Strahlen,
                Helios! oft die empörte Brust mir.

    Ihr guten Götter! arm ist, wer euch nicht kennt,
        Im rohen Busen ruhet der Zwist ihm nie,
            Und Nacht ist ihm die Welt und keine
                Freude gedeihet und kein Gesang ihm.

    Nur ihr, mit eurer ewigen Jugend, nährt
        In Herzen, die euch lieben, den Kindersinn,
            Und laßt in Sorgen und in Irren
                Nimmer den Genius sich vertrauern.




HÖLDERLIN, Friedrich. "Die Götter" / "Os deuses". In:_____. Hölderlin: Poemas. Org. e trad. de Paulo Quintela. Coimbra: Atlântida, 1959.

[Hölderlin: Gedichte 1800-1804, S. 15. Digitale Bibliothek Band 75: Deutsche Lyrik von Luther bis Rilke, S. 54677 (vgl. Hölderlin-KSA Bd. 2, S. 16)]



15.5.18

Casimiro de Brito: "Velho como as flores"



100

Velho como as flores
o vinho respira
no meu copo.
Velho como as aves 
o tinto que bebo
com amigos
que partiram.





BRITO, Casimiro de. "Velho como as flores". In:_____. Arte de bem morrer.  Lisboa: Roma Editora, 2007.

13.5.18

Manuel Bandeira: "Porquinho da Índia"




Porquinho-da-Índia

Quando eu tinha seis anos
Ganhei um porquinho-da-índia.
Que dor de coração me dava
Porque o bichinho só queria estar debaixo do fogão!
Levava ele prá sala
Pra os lugares mais bonitos mais limpinhos
Ele não gostava:
Queria era estar debaixo do fogão.
Não fazia caso nenhum das minhas ternurinhas…

— O meu porquinho-da-índia foi minha primeira namorada.




BANDEIRA, Maznuel. "Porquinho-da-Índia". In:_____. Poesia completa e prosa. Rio de Janeiro: José Aguilar, 1967.

11.5.18

Adriano Nunes: "Maresia"

Agradeço a meu amigo Adriano Nunes pelo seguinte presente:


Maresia
                para Antonio Cicero


Vento do mar...
Não há sereias
Silentes, há
O sol na veia
Da verve, já
À vez se dar.
Passa o pensar...
A grã voz? Eia!
Passa-se a amar
O que incendeia
A vida, lá
Onde o ser há.
Vento no mar,
Quem nos rodeia
Está a par
De tudo, ou teima
Em duvidar
Do som ao ar?
O sentir dá
Mil voltas e, à
Flor do olhar,
Sonhos semeia.
O que mais há
Além do lar?




Adriano Nunes

9.5.18

Eugénio de Andrade: "As mãos e os frutos"



As mãos e os frutos

Shelley sem anjos e sem pureza,
Aqui estou à tua espera nesta praça,
Onde não há pombos mansos mas tristeza
E uma fonte por onde a água já não passa.

Das árvores não te falo pois estão nuas;
Das casas não vale a pena porque estão
Gastas pelo relógio e pelas luas
E pelos olhos de quem espera em vão.

De mim podia falar-te, mas não sei
Que dizer-te desta história de maneira
Que te pareça natural a minha voz.

Só sei que passo aqui a tarde inteira
Tecendo estes versos e a noite
Que te há-de trazer e nos há-de deixar sós.




ANDRADE, Eugénio de. "As mãos e os frutos". In: BERARDINELLI, Cleonice (org.). Cinco séculos de sonetos portugueses: de Camões a Fernando Pessoa. Rio de Janeiro: Casa da Palavra, 2013.

7.5.18

Armando Freitas Filho: "A tarde precipita sua cor"




A tarde precipita sua cor 
cai, no começo 
      no princípio da noite 
e o que ainda aqui resiste 
meio fera, ao precipício 
ficou na beira da taça 
que não suporta mais 
sequer um riso 
pois todo cristal está sempre
na iminência, um minuto antes
            de partir.





FREITAS FILHO, Armando. "A tarde precipita sua cor". In:_____. Uma antologia. Vila Nova de Famalicão: Quasi, 2006.

5.5.18

Hart Crane: "Medusa": trad. de Augusto de Campos




Medusa



“Caia comigo

Nas estrelas frígidas

Caia comigo

Na luz do delírio

Mergulhe

Onde não há canção

Salvo as cãs dos ventos velhos.


Siga-me

Até o fim,

Até o caos estonteante

O eterno caos fervente

Dos meus cabelos!


Contemple a sua amante, –

Pedra!”




Medusa


"Fall with me

Through the frigid stars:

Fall with me

Through the raving light: –

Sink

Where is no song

But only the white hair of aged winds.



Follow

Into utterness,

Into dizzying chaos, –

The eternal boiling chaos

Of my locks!



Behold thy lover, -

Stone!"





CRANE, Hart. "Medusa". In: CAMPOS, Augusto de (org. e trad.). Poesia da recusa. São Paulo: Perspectiva, 2006.

3.5.18

Jorge Luis Borges: "Laberinto" / "Labirinto": trad. de Augusto de Campos



Labirinto

Não haverá nunca uma porta. Já estás dentro.
E o alcácer abarca o universo
E não tem anverso nem reverso
Não tem extremo muro nem secreto centro.

Não esperes que o rigor do teu caminho
Que fatalmente se bifurca em outro,
Que fatalmente se bifurca em outro,
Terá fim. É de ferro teu destino

Como o juiz. Não creias na investida
Do touro que é um homem cuja estranha
Forma plural dá horror a essa maranha

De interminável  pedra entretecida.
Não virá. Nada esperes. Nem te espera
No negro crepúsculo uma fera.





Laberinto

No habrá nunca una puerta. Estás adentro
Y el alcázar abarca el universo
Y no tiene ni anverso ni reverso
Ni externo muro ni secreto centro.

No esperes que el rigor de tu camino
Que tercamente se bifurca en otro,
Que tercamente se bifurca en otro,
Tendrá fin. Es de hierro tu destino

Como tu juez. No aguardes la embestida
Del toro que es un hombre y cuya extraña
Forma plural da horror a la maraña

De interminable piedra entretejida.
No existe. Nada esperes. Ni siquiera
En el negro crepúsculo la fiera.




BORGES, Jorge Luis. "Laberinto" / "Labirinto". In: CAMPOS, Augusto de. Quase Borges. 20 transpoemas e uma entrevista (organização e tradução). São Paulo: Terracota, 2013.

1.5.18

Jacques Prévert: "Quand..." / "Quando...": trad. de Silviano Santiago



Quando...

Quando o leãozinho almoça
a leoa rejuvenesce
Quando o fogo exige a sua parte
a terra enrubesce
Quando a morte lhe fala do amor
a vida estremece
Quando a vida lhe fala da morte
o amor sorri.




Quand...

Quand le lionceau déjeune
la lionne rajeunit
Quand le feu réclame sa part
la terre rougit
Quand la mort lui parle de l’amour
la vie frémit
Quand la vie lui parle de la mort
l’amour sourit.





PRÉVERT, Jacques. "Quand..."/"Quando". In:_____. Poemas. Seleção e trad. de Silviano Santiago. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1985.

29.4.18

Marco Lucchesi: "Camões"




Camões




mais


belo


sol


quando


te


pões


nos rubros


mares


de Camões





LUCCHESI, Marco. "Camões". In:_____. Clio. São Paulo: Biblioteca Azul, 2014.

27.4.18

Giuseppe Ungaretti: "Agonia": Trad. de Geraldo Holanda Cavalcanti



Agonia

Morrer como as calhandras sedentas
na miragem

Ou como a codorniz
cruzado o mar
sobre as primeiras moitas
porque já não tem ânimo
de voar

Mas não viver se queixando
como um pintassilgo cego




Agonia

Morire come le allodole assetate
sul miraggio

O come la quaglia
passato il mare
nei primi cespugli
perché di volare
non ha più voglia

Ma non vivere di lamento
come un cardellino accecato





UNGARETTI, Giuseppe. "Agonia". In:_____. Poemas. Trad. de Geraldo Holanda Cavalcanti. São Paulo: USP, 2017.

25.4.18

Frank O'Hara: "My heart" / "Meu coração": trad. de Beatriz Bastos e Paulo Henriques Britto



Meu coração

Não vou chorar o tempo todo
nem hei de rir o tempo todo,
não prefiro uma “tendência” a outra.
Prefiro o imediatismo de um filme ruim,
não só os filmes b, mas também
a superprodução espetacular. Quero ser
ao menos tão vital quanto o vulgar. E se
um aficionado de minha bagunça exclamar “Isso
não parece coisa do Frank!”, que bom! Não
uso ternos azuis e marrons o tempo todo,
não é? Não. Às vezes vou à Ópera com a roupa
de trabalho. Quero meus pés descalços,
o meu rosto barbeado, e o meu coração —
ninguém manda no coração, mas
o melhor dele, a minha poesia, está aberta.





My heart

I'm not going to cry all the time
nor shall I laugh all the time,
I don't prefer one "strain" to another.
I'd have the immediacy of a bad movie,
not just a sleeper, but also the big,
overproduced first-run kind. I want to be
at least as alive as the vulgar. And if
some aficionado of my mess says "That's
not like Frank!", all to the good! I
don't wear brown and gray suits all the time,
do I? No. I wear workshirts to the opera,
often. I want my feet to be bare,
I want my face to be shaven, and my heart—
you can't plan on the heart, but
the better part of it, my poetry, is open.




O'HARA, Frank. "My heart" / "Meu coração". In:_____. Meu coração está no bolso. Trad. de Beatriz Bastos e Paulo Henriques Britto. São Paulo: Luna Parque, 2017.

23.4.18

Cecília Meireles: "Timidez"




Timidez

Basta-me um pequeno gesto,
feito de longe e de leve,
para que venhas comigo
e eu para sempre te leve. . .

— mas só esse eu não farei.

Uma palavra caída
das montanhas dos instantes
desmancha todos os mares
e une as terras mais distantes..

— palavra que eu não direi.

Para que tu me adivinhes,
entre os ventos taciturnos,
apago meus pensamentos,
ponho vestidos noturnos,

— que amargamente inventei.

E, enquanto não me descobres,
os mundos vão navegando
nos ares certos do tempo,
até não se sabe quando...

— e um dia me acabarei.





MEIRELES, Cecília. "Timidez". In: GULLAR, Ferreira (org.). O prazer do poema: Uma antologia pessoal. Rio de Janeiro: Edições de Janeiro, 2014.


21.4.18

Aleksandr Blok: "Do ciclo 'Dança da morte'": trad. de Augusto de Campos



Do ciclo Dança da morte

Noite. Fanal. Rua. Farmácia.
Uma luz estúpida e baça.
Ainda que vivas outra vida,
Tudo é igual. Não há saída.

Morres – e tudo recomeça,
E se repete a mesma peça:
Noite – rugas de gelo no canal.
Farmácia. Rua. Fanal.




BLOK, Aleksandr. "Do ciclo Dança da morte". Trad. de Augusto de Campos. In: CAMPOS, Augusto de; CAMPOS, Haroldo de; SCHNAIDERMAN, Boris (organizadores e tradutores). Poesia russa moderna. São Paulo: Perspectiva, 2012.

18.4.18

Vinícius de Moraes: "Soneto do Café Lamas"



Soneto do Café Lamas

No Largo do Machado a pedida era o "Lamas"
Para uma boa média e uma "canoa" torrada
E onde a noite cumpria ir tomar umas brahmas
E apanhar uma zinha ou entrar numa porrada.

Bebendo, na tenção de putas e madamas
Batidas de limão até de madrugada
Difícil era prever se o epílogo das tramas
Seria algum michê ou alguma garrafada.

E em meio a cafetões concertando tramóias
Estudantes de porre e mulatas bonitas
Sem saber se ir dormir ou ir na Lili das Jóias

Ordenar, a cavalo, um bom filé com fritas
E ao romper da manhã, não tendo mais aonde
Morrer de solidão no reboque de um bonde.





MORAES, Vinícius. "Soneto do Café Lamas". In: GIL, Daniel. A poesia esparsa de Vinícius de Moraes. Uma leitura de inéditos e (des)conhecidos. São Paulo: Todas as Musas, 2018.

15.4.18

Luís Miguel Nava: "A fome"



A fome

Aqui, onde a mão não
alcança o interruptor da vida, aqui
só brilha a solidão.
Desfazem-se as lembranças contra os vidros.
Aqui, onde a brancura
dum lenço é a brancura do infortúnio,
aqui a solidão
não brilha, apenas
se estorce.
A fome fala através das feridas.




NAVA, Luís Miguel. "A fome". In:_____. Vulcão. Lisboa: Quetzal, 1994.

12.4.18

Wisława Szymborska: "Opinião sobre a pornografia": trad. de Regina Przybycien



Opinião sobre a pornografia

Não há devassidão maior que o pensamento.
Essa diabrura prolifera como erva daninha
num canteiro demarcado para margaridas.

Para aqueles que pensam nada é sagrado.
O topete de chamar as coisas pelos nomes,
a dissolução da análise, a impudicícia da síntese,
a perseguição selvagem e debochada dos fatos nus,
o tatear indecente de temas delicados,
a desova das ideias – é disso que eles gostam.

À luz do dia ou na escuridão da noite
se juntam aos pares, triângulos e círculos.
Pouco importa ali o sexo e a idade dos parceiros.
Seus olhos brilham, as faces queimam.
Um amigo desvirtua o outro.
Filhas depravadas degeneram o pai.
O irmão leva a irmã mais nova para o mau caminho.

Preferem o sabor de outros frutos
da árvore proibida do conhecimento
do que os traseiros rosados das revistas ilustradas,
toda essa pornografia na verdade simplória.
Os livros que os divertem não têm figuras.
A única variedade são certas frases
marcadas com a unha ou com o lápis.

É chocante em que posições,
com que escandalosa simplicidade
um intelecto emprenha o outro!
Tais posições nem o Kamasutra conhece.

Durante esses encontros só o chá ferve.
As pessoas sentam nas cadeiras, movem os lábios.
Cada qual coloca sua própria perna uma sobre a outra.
Dessa maneira um pé toca o chão,
o outro balança livremente no ar.
Só de vez em quando alguém se levanta,
se aproxima da janela
e pela fresta da cortina
espia a rua.




SZYMBORSKA, Wisława. "Opinião sobre a pornografia". In:_____. Poemas. Trad. de Regina Przybycien. São Paulo: Companhia das Letras, 2011.

10.4.18

Sophia de Mello Breyner Andresen: "As ondas quebravam uma a uma"



As ondas quebravam uma a uma
Eu estava só com a areia e com a espuma
Do mar que cantava só para mim.



ANDRESEN, Sophia de Mello Breyner. "As ondas quebravam uma a uma". In:_____. Coral e outros poemas. Org. por Eucanaã Ferraz. São Paulo: Companhia das Letras, 2018.

7.4.18

Paul Celan: "Der uns die Stunden zählte" / "Aquele que nos contava as horas": trad. João Barrento e Y.K. Centeno





Aquele que nos contava as horas

Aquele que nos contava as horas
continua a contar.
Que estará ele a contar, diz?
Conta e torna a contar.

Não faz mais frio,
nem mais noite,
nem mais húmido.

Só aquilo que nos ajudava a escutar
agora escuta
para si sozinho.




Der uns die Stunden zählte

Der uns die Stunde zählte,
er zählt weiter.
Was mag er zählen, sag?
Er zählt und zählt.

Nicht kühler wirds,
nicht nächtiger,
nicht feuchter.

Nur was uns lauschen half:
es lauscht nun
für sich allein.




CELAN, Paul. "Der uns die Stunden zählte" / "Aquele que nos contava as horas". In:_____. Sete rosas mais tarde. Antologia poética.  Org. e trad.: João Barrento e Y.K. Centeno. Lisboa: Cotovia, 1996.

5.4.18

Antonio Carlos Secchin: "Caetano Veloso: Londres e São Paulo"




Assistam à gravação da belíssima palestra do acadêmico Antonio Carlos Secchin, intitulada "Caetano Veloso: Londres e São Paulo", pronunciada na terça-feira passada, na ABL, como parte do ciclo de conferências "As cidades dos poetas":


3.4.18

Armando Freitas Filho: "Da casa dos três dígitos"



100

Da casa dos três dígitos

não saio mais. Trinco.

Dia após dia de prisão

na cidade em carne viva.

Entre em si para sempre:

tendo de seu, apenas, o bodum

ranzinza do corpo

que vai se resignando

a não perseguir o inominável

nem a se persignar.





FREITAS FILHO, Armando. “100: Da casa dos três dígitos”. In:_____. Lar. São Paulo: Companhia das Letras, 2009.

1.4.18

Sophia de Mello Breyner Andresen: "Ausentes são os deuses"



Ausentes são os deuses mas presidem.
Nós habitamos nessa
Transparência ambígua.

Seu pensamento emerge quando tudo
De súbito se torna
Solenemente exacto.

O seu olhar ensina o nosso olhar:
Nossa atenção ao mundo
É o culto que pedem.




ANDRESEN, Sophia de Mello Breyner. "Ausentes são os deuses". In:_____. "Homenagem a Ricardo Reis". In:_____. Dual. Porto: Assírio & Avim, 2014.

30.3.18

Antonio Risério: "Saudade do Salvador"



Saudade do Salvador

esta cidade tem asas.
às vezes ela vem
e minha saudade
fica cheia de casas.
esta saudade
é feito navalha.
é cega, de tão clara.
branca de neve
ou de giz.
esta cidade
é feita de várias.
às vezes ela vem
da parte mais antiga
do país.




RISÉRIO, Antonio. "Saudade do Salvador". In:_____. Fetiche. Salvador: Fundação Casa de Jorge Amado; Copene, 1996.

27.3.18

Ricardo Silvestrin: "auto-biografia precoce"



auto-biografia precoce

minha vida
é uma obra
de ficção
qualquer semelhança 
comigo mesmo
terá sido
mera coincidência



SILVESTRIN, Ricardo."auto-biografia precoce". In_____"Quieto no meu canto". In:_____ O menos vendido. São Paulo: Nankin Editorial, 2006.

25.3.18

Marianne Moore: "An Egyptian pulled glass bottle in the shape of a fish" / "Uma garrafa de vidro egípcia na forma de um peixe"




Uma garrafa de vidro egípcia na forma de um peixe

Aqui temos, desde
o princípio, paciência e sede,
    e arte, como em onda pênsil para que
    a observemos em sua essencial perpendicularidade;

não quebrável mas
intensa – o espectro, o vivaz
    e espetacular animal, o peixe,
    cujas escamas repelem o sabre do sol com a polidez.






An Egyptian pulled glass bottle in the shape of a fish

Here we have thirst
and patience, from the first,
    and art, as in a wave held up for us to see
    in its essential perpendicularity;

not brittle but 
intense—the spectrum, that
    spectacular and nimble animal the fish,
    whose scales turn aside the sun's sword by their polish.







MOORE, Marianne. "An Egyptian pulled glass bottle in the shape of a fish" / "Uma garrafa de vidro egípcia na forma de um peixe". In:_____. Poemas. Trad. de José Antonio Arantes. São Paulo: Companhia das Letras, 1991.

23.3.18

Frejat canta "Tudo ainda", dele, de Mauro Santa Cecilia e de Adriano Nunes



Ouçam, cantada por Frejat, a bela canção "Tudo ainda", que resultou da parceria dele com Mauro Santa Cecilia e Adriano Nunes. A canção foi feita a partir do poema homônimo de Adriano, publicado em seu livro Laringes de grafite:

























21.3.18

Frank O'Hara: "Melancholy breakfast" / "Café melancólico": trad. por Beatriz Bastos e Paulo Henriques Britto



Café melancólico
azul em cima azul embaixo

o ovo silencioso pensa
e o ouvido elétrico da torradeira
      espera

as estrelas se recolheram
“aquela nuvem se escondeu”

os elementos da descrença são bem fortes de manhã





Melancholy breakfast 
blue overhead blue underneath 

the silent egg thinks 
and the toaster's electrical 
            ear waits 

the stars are in 
"that cloud is hid" 

the elements of disbelief are very strong in the morning





O'HARA, Frank. "Melancholy breakfast" / "Café melancólico". In:_____. Meu coração está no bolso. Trad. de Beatriz Bastos e Paulo Henriques Britto. São Paulo: Luna Parque, 2017.

19.3.18



Sexta-feira passada, dia 16, tomei posse na Academia Brasileira de Letras. Abaixo, uma foto -- tirada pelo grande fotógrafo Mustapha Barrat -- do momento em que recebi o diploma. Abaixo da foto, o discurso que pronunciei na ocasião.



Em primeiro lugar, quero declarar minha profunda gratidão aos acadêmicos que votaram para que eu também fizesse parte desta Academia que, como já afirmou, com toda razão, o acadêmico Helio Jaguaribe, “constitui, para qualquer intelectual brasileiro, a mais alta distinção”.1

O professor Helio Jaguaribe foi um dos maiores amigos de meu pai, Ewaldo Correia Lima, que também era um intelectual. Aliás, meu pai tinha uma enorme biblioteca em casa, de modo que eu poderia até dizer, como Baudelaire, em trecho do poema “La voix”, que

"Mon berceau s’adossait à la bibliothèque,
Babel sombre, où roman, Science, fabliau,
Tout, la cendre latine et la poussière grecque,
Se mêlaient".

Ou, como na tradução feita pelo grande poeta Ivan Junqueira, acadêmico de quem me orgulho de ter sido amigo,

"Meu berço ao pé da biblioteca se estendia,
Babel onde ficção e ciência, tudo, o espólio
Da cinza grega ao pó do Lácio se fundia".2

Quando eu era adolescente, um dos meus grandes prazeres era ser ouvinte das conversas de meu pai com seus amigos intelectuais. Alguns deles vieram a fazer parte desta Academia, como Cândido Mendes de Almeida, Celso Furtado, Alberto Venâncio Filho e o já citado Helio Jaguaribe. Eram todos muito brilhantes. No que diz respeito a Jaguaribe, por exemplo, concordo com a observação do acadêmico Celso Lafer, segundo o qual o impacto de suas exposições tem a ver com “o vigor e o entusiasmo de sua orteguiana razão vital, a fulgurante inteligência de seu poder de síntese e a originalidade contagiante de suas formulações”.3

O fato é que foi sem dúvida a partir dessa experiência que passei a dar grande valor à convivência com intelectuais interessados em conversar sobre filosofia, literatura, arte, história, política etc. Comecei a participar ativamente – e não mais apenas como ouvinte – de conversas intelectuais a partir do momento em que entrei no curso de filosofia do Instituto de Filosofia e Ciências Sociais da UFRJ, onde tive o privilégio de conviver com colegas como Alex Varella, Paulo Sérgio Duarte, Kátia Muricy e Wilson Coutinho, entre outros, e com professores admiráveis como Emmanuel Carneiro Leão, José Américo Pessanha e Alberto Coelho.

Pois bem, fiz esses flashbacks autobiográficos com o intuito de mostrar uma das razões pelas quais é com grande alegria que entro nesta Academia. Mesmo quando eu era apenas candidato, já era para mim um enorme prazer encontrar e conversar com os acadêmicos, assistir às conferências que aqui têm lugar, comparecer aos lançamentos de livros e aos vernissages de exposições etc. Ao comentar isso com a admirável acadêmica Nélida Piñon, ela me disse: “é assim mesmo, Cicero: primeiro o candidato entra na Academia; depois, ele é eleito”.

Mas há também outras razões pelas quais é não apenas um prazer, mas sobretudo uma honra pertencer a esta casa. Para mim em particular, como poeta, é importante que haja uma instituição que, como diz o seu primeiro estatuto, elaborado na época de Machado de Assis, tenha por fim “a cultura da língua e da literatura nacional”.

Não ignoro que a Academia exerce outras funções, nem jamais me oporia a isso. Ao contrário: sou, como já disse, assíduo frequentador e admirador de conferências que, tendo lugar aqui, tratam de temas como arte, filosofia, linguística, história, sociologia, educação, direito, questões contemporâneas etc. E não ignoro que Joaquim Nabuco, o primeiro ocupante da cadeira 27, para a qual fui eleito, numa carta a Machado de Assis, ainda no século XIX, afirmava que “deve ter a Academia uma esfera mais alta do que a Literatura exclusivamente literária, para ter maior influência”.4

A meu ver, porém, é fundamental “a cultura da língua e da literatura nacional” porque penso que a Academia Brasileira de Letras é, por sua própria natureza, uma instituição que deve ter uma participação ativa e importante na determinação do cânone literário.

Contra o relativismo difuso que vigora em nossos dias, afirmo que existem obras boas e obras ruins, obras insignificantes e obras imortais. Um poeta que acredite que todos os poemas ou todos os textos se equivalem – por exemplo, que tudo é relativo ao gosto da pessoa que julga – não tem por que produzir uma obra nova. Pois bem, o cânone pretende ser o conjunto das obras modelares, exemplares, imortais. Ele será tanto mais perfeito quanto mais perto disso chegar. Ao falar de obras imortais, lembramo-nos de que a própria ideia de imortalidade dos membros da Academia deriva da ideia de que se supõe que alguém seja acadêmico em virtude de já ser responsável por ao menos alguma obra ou feito inesquecível.

O que é um poema imortal? Um poema imortal é um poema cujo valor não depende de fatores externos a ele: um poema, portanto, que vale por si. Como diz o primeiro verso da famosa Ode XXX do livro III das Odes de Horácio, “Exegi monumentum aere perennius”, isto é, “Erigi monumento mais duradouro que o bronze”. Vale a pena lê-la inteira, e vou fazê-lo em português, na tradução de Pedro Braga Falcão:

"Erigi monumento mais duradouro que o bronze,
mais alto do que a régia construção das pirâmides
que nem a voraz chuva, nem o impetuoso Áquilo
nem a inumerável série dos anos,
nem a fuga do tempo poderão destruir.
Nem tudo de mim morrerá, de mim grande parte
escapará a Libitina: jovem para sempre crescerei
no louvor dos vindouros, enquanto o pontífice
com a tácita virgem subir ao Capitólio.
Dir-se-á de mim, onde o violento Áufido brama,
onde Dauno pobre em água sobre rústicos povos reinou,
que de origem humilde me tornei poderoso,
o primeiro a trazer o canto eólio aos metros itálicos.
Assume o orgulho que o mérito conquistou
e benévola cinge meus cabelos,
Melpómene, com o délfico louro".5

Observe-se que, de certo modo, Horácio foi até humilde. Ele diz que crescerá no louvor dos vindouros enquanto o pontífice com a tácita virgem subir ao Capitólio. Ora, ora, o pontíficie subiu com a tácita virgem ao Capitólio somente enquanto durou o Império Romano; já a ode de Horácio e o próprio Horácio continuam a crescer no louvor de pessoas que vivem mais de dois mil e quinhentos anos após a queda do Império Romano. Para mim mesmo, não há poeta maior do que Horácio.

Mas como se estabelece efetivamente um cânone positivo? Para mim, uma descrição adequada foi dada pelo crítico literário norteamericano M.H. Abrams. Em suas palavras:

"Em décadas recentes a expressão “cânone literário” passou a denotar — em relação à literatura mundial ou europeia, mas mais comumente em relação a cada literatura nacional — aqueles autores que, por um consenso cumulativo de críticos, eruditos e professores, passaram a ser amplamente reconhecidos como “maiores” e a ter suas obras frequentemente saudadas como “clássicos” literários. As obras literárias de autores canônicos são, em qualquer momento dado, as mais editadas, as mais amplamente discutidas com maior frequência pelos críticos e historiadores literários e — na época presente — as que têm maior probabilidade de ser incluídas em antologias e nas bibliografias de cursos superiores com títulos tais como 'Obras-primas universais', 'Os maiores autores ingleses' ou 'Grandes escritores americanos'".6

Um cânone literário positivo não é portanto escolhido por nenhuma instituição particular, mas pelo que o filósofo Karl Popper chamava de “sociedade aberta”. Tal sociedade aberta é composta, aliás, não apenas dos críticos, eruditos e professores de que fala Abrams, mas também por historiadores, estudantes de literatura, jornalistas, o público em geral – e talvez em primeiro lugar – pelos próprios autores. Nesse sentido, tem razão Harold Bloom, quando diz que

"A resposta a 'quem canonizou Milton?' é, em primeiro lugar, John Milton mesmo, mas, quase em primeiro lugar, os outros poetas fortes, desde seu amigo Andrew Marvell, através de John Dryden, até quase todo poeta crucial do século XVIII e do período romântico: Pope, Thomson, Cowper, Collins, Blake, Wordsworth, Coleridge, Byron, Shelley, Keats. Certamente os críticos, dr. Johnson e Hazlitt, contribuíram para a canonização; mas Milton, como Chaucer, Spenser e Shakespeare, antes dele, e como Wordsworth, depois dele, simplesmente sobrepujou a tradição e a subsumiu".7

O cânone literário positivo, sendo produzido por uma sociedade aberta, é, ele próprio, aberto, expansivo e sempre sujeito a questionamentos, discussões e modificações. Convém ressaltar que o reconhecimento de um cânone não é absolutamente incompatível com a valorização da inovação na literatura. Assim, os movimentos de vanguarda não eram necessariamente contra o cânone. No Brasil, por exemplo, os poetas concretistas reconheciam um cânone poético que, seguindo a terminologia de Ezra Pound, chamavam de “paideuma”, palavra de origem grega que, etimologicamente, significa “aquilo que é matéria de ensino”. Ademais, foram os concretistas Augusto e Haroldo de Campos que, com seu livro ReVisão de Sousândrade, inscreveram Sousândrade, poeta maranhense do século XIX, no cânone brasileiro.8

Penso que a importância do cânone está, em primeiro lugar, no fato de que é através dele que sabemos o que é literatura e o que é boa literatura. Não é através de nenhuma definição que sabemos o que é poesia, mas sim através da leitura de poemas e, em primeiro lugar, de poemas que têm sido considerados bons, modelares, clássicos, canônicos pela sociedade aberta de poetas, escritores, teóricos da literatura, críticos, professores, jornalistas, leitores etc.

Sem dúvida, alguém objetará, com toda razão, que os membros de tal sociedade aberta frequentemente discordam sobre o que é bom, modelar, clássico, canônico. No entanto, como observava Kant, a verdade é que, quando alguém declara belo um objeto, crê merecer um consentimento universal. Essa pessoa pretende, mesmo sem possibilidade de demonstrar objetivamente a verdade do juízo estético, obter para ele uma adesão universal. E, de fato, há um extraordinário consenso tendencial em torno da qualidade de determinadas obras: de certo modo, tal consenso pode ser até mais duradouro do que o que vigora em torno da validade de teorias das ciências exatas como as da física. No século XVIII, tomava-se, por exemplo, a física de Newton como definitiva. No século XX, ela foi, sob muitos aspectos, destronada pela Teoria da Relatividade, de Einstein. Ora, no campo da literatura, é quase impensável para nós hoje que algum dia se chegue a abandonar o consenso tendencial em torno da qualidade de obras como Antígona, de Sófocles, ou as Odes de Horácio, ou a Comédia Divina, de Dante, ou Rei Lear, de Shakespeare, ou Fausto, de Goethe, ou As flores do mal, de Baudelaire, ou Mensagem, de Pessoa ou Libertinagem, de Bandeira, ou A rosa do povo, de Drummond, ou A educação pela pedra, de Cabral ou A luta corporal, de Gullar
.
Pois bem, a Academia Brasileira de Letras não apenas faz parte da sociedade aberta que elege o cânone, mas, em virtude de sua independência, de sua liberdade, do desprendimento de sua dedicação à cultura, encontra-se em posição privilegiada, em relação a outras instituições, como as ligadas a empreendimentos privados ou ao Estado, para discutir de modo sério, profundo e aberto questões dessa natureza. Em matéria de poesia, por exemplo o que – e de que modo, e a partir de que idade, e em que momento de sua educação – deve uma pessoa ler para realmente conseguir saber e apreciar aquilo que faz de um poema um poema? Que obras devem ser tombadas como patrimônios culturais? Discussões dessa natureza no âmbito da Academia Brasileira de Letras – correspondentes ao primeiro artigo do seu estatuto – certamente terão uma influência benéfica sobre as elaborações dos currículos escolares.

A cadeira que ocuparei aqui será a de número 27. Pois bem, seu primeiro ocupante foi o grande abolicionista Joaquim Nabuco. Mas antes de falar dele, vou recitar o que creio que seja o poema mais famoso de Maciel Monteiro, o médico, orador, diplomata, dandy e poeta, que Nabuco escolheu para ser o patrono da cadeira 27. O poema consiste num soneto intitulado “Formosa”.

"Formosa

Formosa, qual pincel em tela fina
Debuxar jamais pôde ou nunca ousara;
Formosa, qual jamais desabrochara
Na primavera rosa purpurina;
Formosa, qual se a própria mão divina
Lhe alinhara o contorno e a forma rara;
Formosa, qual jamais no céu brilhara
Astro gentil, estrela peregrina;
Formosa, qual se a natureza e a arte,
Dando as mãos em seus dons, em seus lavores
Jamais soube imitar no todo ou parte;
Mulher celeste, oh! anjo de primores!
Quem pode ver-te, sem querer amar-te?
Quem pode amar-te, sem morrer de amores?"9

Os dois últimos versos desse soneto,

"Quem pode ver-te, sem querer amar-te?
Quem pode amar-te sem morrer de amores?"

Ficaram muito populares.

Voltemos ao Joaquim Nabuco. Confesso que me sinto um pouco encabulado de falar de uma figura histórica que já foi objeto de estudos extremamente importantes de notáveis historiadores que pertencem a esta Academia, como Evaldo Cabral de Melo e José Murilo de Carvalho. Cumprindo a tradição, porém, direi algumas palavras sobre Nabuco.

Nabuco foi, como se sabe, um dos nossos mais importantes abolicionistas. Não se tratava para ele, que dizia ter absorvido a escravidão “no leite preto que o amamentara”, de uma questão política abstrata, mas extremamente concreta. E ele previu que a escravidão permaneceria por muito tempo como a característica nacional do Brasil, pois havia corrompido o país. Assim, ele afirmava, com toda razão que

"A classe dos que assim vivem com os olhos voltados para a munificência do Governo é extremamente numerosa e diretamente filha da escravidão, porque não consente outra carreira aos brasileiros, havendo abarcado a terra, degradado o trabalho, corrompido o sentimento de altivez pessoal em desprezo por quem trabalha"...10

Desse modo, segundo ele, o abolicionismo

"não reduz a sua missão a promover e conseguir — no mais breve prazo possível — o resgate dos escravos e dos ingênuos. Essa obra — de reparação, vergonha ou arrependimento, como a queiram chamar — da emancipação dos atuais escravos e seus filhos é apenas a tarefa imediata do abolicionismo. Além dessa, há outra maior, a do futuro: a de apagar todos os efeitos de um regímen que, há três séculos, é uma escola de desmoralização e inércia, de servilismo e irresponsabilidade para a casta dos senhores, e que fez do Brasil o Paraguai da escravidão".11
[...]
Depois que os últimos escravos houverem sido arrancados ao poder sinistro que representa para a raça negra a maldição da cor, será ainda preciso desbastar, por meio de uma educação viril e séria, a lenta estratificação de trezentos anos de cativeiro, isto é, de despotismo, superstição e ignorância".12

Além de seu entendimento intelectual e político da escravidão, Joaquim Nabuco narra admiravelmente, em alguns textos, a sua experiência pessoal com ela. Assim, por exemplo, no texto “Massangana” (que é o nome do engenho onde ele foi criado), ele diz:

"Estive envolvido na campanha da abolição e durante dez anos procurei extrair de tudo, da história, da ciência, da religião, da vida, um filtro que seduzisse a dinastia; vi os escravos em todas as condições imagináveis; mil vezes li A cabana do Pai Tomás, no original da dor vivida e sangrando; no entanto a escravidão para mim cabe toda em um quadro inesquecido da infância, em uma primeira impressão, que decidiu, estou certo, do emprego ulterior de minha vida. Eu estava uma tarde sentado no patamar da escada exterior da casa, quando vejo precipitar-se para mim um jovem negro desconhecido, de cerca de dezoito anos, o qual se abraça aos meus pés suplicando-me pelo amor de Deus que o fizesse comprar por minha madrinha para me servir. Ele vinha das vizinhanças, procurando mudar de senhor, porque o dele, dizia-me, o castigava, e ele tinha fugido com risco de vida... Foi este o traço inesperado que me descobriu a natureza da instituição com a qual eu vivera até então familiarmente, sem suspeitar a dor que ela ocultava".13

Sobre o segundo ocupante da cadeira 27, Dantas Barreto, tenho bem menos a dizer. Ele também foi pernambucano. Foi militar, tendo lutado na Guerra do Paraguai, e escreveu romances e peças de teatro que confesso não ter lido.

O terceiro ocupante da cadeira 27 foi o gaúcho Gregório da Fonseca. Também militar, ele escreveu ensaios e poemas. Tendo vindo morar no Rio de Janeiro, aproximou-se de Olavo Bilac. Não recitarei nenhum poema dele, mas apenas o interessante trecho inicial de um ensaio intitulado “Estética das batalhas”. É o seguinte:

"Ser artista: produzir uma obra prima; criar com o belo existente o belo que não existe; fixar para sempre um aspecto novo da Beleza que se não repetirá; avançar do seu tempo, do seu século, abrindo largas estradas ao pensamento futuro: para os gregos, era divino; é heroico, na expressão de Carlyle!"14

O quarto ocupante da cadeira 27 foi Levi Carneiro. Este nasceu em Niterói. Foi um grande advogado, autor de uma obra intitulada Livro de um advogado. Foi também fundador e primeiro presidente da Ordem dos Advogados do Brasil e do Instituto dos Advogados Brasileiros.

Já o quinto ocupante da cadeira 27 foi Otávio de Faria, um grande romancista carioca. Na sua obra, A tragédia burguesa, que consiste num ciclo de vários romances, ele apresenta um amplo painel da vida carioca.

Finalmente, o sexto ocupante da cadeira 27 foi o admirável e saudoso intelectual baiano Eduardo Portella. Uma das coisas pelas quais tenho grande admiração pelo Portella é o fato de que ele foi o fundador, em 1962, da revista Tempo Brasileiro, publicação extremamente importante para mim, sobretudo quando estudante, nas décadas de sessenta e setenta. Como muito bem disse Nélida Piñon, “Portella era um grande mestre do pensamento brasileiro que soube, com rara perspicácia, interpretar o fenômeno literário”. Autor de mais de 20 obras de crítica literária e ensaios, Portella se distingue também por ter, através da Tempo Brasileiro, sido um dos principais introdutores, no Brasil, do pensamento de Martin Heidegger e Jürgen Habermas.

Por último, quero fazer uma homenagem a um acadêmico que jamais ocupou a cadeira 27. Trata-se do grande poeta, ensaísta professor e bibliófilo Antonio Carlos Secchin. Penso que é, em primeiro lugar, graças a ele que aqui me encontro. Secchin foi o primeiro acadêmico a incentivar a minha candidatura à Academia. E seu firme apoio durou até a minha eleição. Em consequência de minha admiração pela sua obra, isso me deixou feliz, orgulhoso e confiante. Por essa razão, vou, neste momento, ler, em sua homenagem, um belíssimo e profundo poema de Desdizer, que é seu livro mais recente. O poema se intitula “Autorretrato”.

"Autorretrato

                  a Flávia Amparo

Um poeta nunca sabe
onde sua voz termina,
se é dele de fato a voz
que no seu nome se assina.
Nem sabe se a vida alheia
é seu pasto de rapina,
ou se o outro é que lhe invade,
numa voragem assassina.
Nenhum poeta conhece
esse motor que maquina
a explosão da coisa escrita
contra a crosta da rotina.
Entender inteiro o poeta
é bem malsinada sina:
quando o supomos em cena,
já vai sumindo na esquina,
entrando na contramão
do que o bom senso lhe ensina.
Por sob a zona da sombra,
navega em meio à neblina.
Sabe que nasce do escuro
a poesia que o ilumina".15


Notas:

1 JAGUARIBE, Hélio. “Discurso de Posse”, em 22/07/2005. Site da ABL, na URL: http://www.academia.org.br/academicos/helio-jaguaribe.

2 BAUDELAIRE, Charles. “La voix” / “A voz”. In: As Flores do mal. Trad. de Ivan Junqueira. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1985, p.550.

3 LAFER, Celso. “Helio Jaguaribe, aos 90”. Estado de São Paulo, 21/04/2013.

4 CARNEIRO, Levi. “Discurso de posse”. Site da ABL, na URL: http://www.academia.org.br/academicos/levi-carneiro/discurso-de-posse.

5 HORÁCIO. Ode iii.XXX. In:_____. Odes. Trad. de Pedro Braga Falcão. Lisboa: Cotovia, 2008, p.255.

6 ABRAMS, M. “Canon of literature”. In:_____. A glossary of literary terms. Boston: Thompson Wadsworth, 2005, p.29.

7 BLOOM, H. The Western Canon. The books and schools of the ages. New York: Riverhead Books, 1994, p.27.

8 CAMPOS, Augusto de; CAMPOS, Haroldo de. ReVisão de Sousândrade. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1982.

9 MONTEIRO, Maciel. “Formosa”. In: CAVALHEIRO, Edgar. Panorama da poesia brasileira, vol. II: O romantismo. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1959, p.4.

10 NABUCO, Joaquim. “Influências sociais e políticas da escravidão”. In:_____. O abolicionismo. Org. por Evaldo Cabral de Melo. São Paulo: Penguin Classics Companhia das Letras, 2011, p.60.

11 Ibid., p.12.

12 Ibid.

13 NABUCO, Joaquim. “Massangana”. In:____. Essencial Joaquim Nabuco. Org. de Evaldo Cabral de Melo. São Paulo: Penguin Classics Compahia das Letras, 2010, p.24.

14 FONSECA, Gregório da. “Estética das batalhas”. Trecho de Heroísmo e arte. Site da ABL, na URL: http://www.academia.org.br/academicos/gregorio-da-fonseca/textos-escolhidos

15 SECCHIN, Antonio Carlos. “Autorretrato”. In:_____. Desdizer e antes. Rio de Janeiro: Topbooks, 2017, p.39.