16.9.18

Age de Carvalho: "Waly Salomão"



Waly Salomão

Ele,
todo alterado,
alter-
outro sempre,

de visita à bahiana Beirute,
à síria Aruad patrícia,
em 98, de volta
onde nunca jamais esteve
(a vida é sonho)
e onde agora nele,
com ele seria:

a ilha ali,
à mão
para o salto de Waly no sangue
tatarancestral, em viagem —
e cair na praia do Morro da Sereia,
Rio Vermelho, alto
verão na Bahia.




CARVALHO, Age de. "Waly Salomão". In:_____. Ainda: em viagem.  Belém: Ed. UFPA, 2015.

14.9.18

Helio Jaguaribe: "Tudo é irrelevante"



Helio Jaguaribe, que foi uma das pessoas mais brilhantes que conheci, faleceu na semana passada. Por coincidência, acaba de ser lançado um documentário sobre ele, intitulado "Tudo é irrelevante", dirigido por sua filha, Izabel Jaguaribe, e Ernesto Baldan. Eis o trailer desse filme:




12.9.18

Juan Arias: "A visão apocalítica do "Le Monde" sobre o Brasil"



Há alguns dias, o Le Monde publicou uma reportagem pessimista sobre o Brasil. Na verdade, ela corresponde ao que, nas circunstâncias atuais, muitos brasileiros também pensam. Ontem, porém, o jornal espanhol El País  publicou um artigo, assinado por Juan Arias, que, criticando o artigo do Le Monde, oferece-nos outra perspectiva. Conheci-o na tradução portuguesa oferecida pelo site IHU On-Line. Ei-lo:


A visão apocalítica do "Le Monde" sobre o Brasil


O mundo tem os olhos voltados ao Brasil a um mês das importantes e já ensanguentadas eleições presidenciais, ofuscadas pela história infinita da candidatura de Lula na prisão, negada pela Justiça brasileira. Entre as visões negativas da imprensa internacional sobre o Brasil, o editorial do importante jornal francês Le Monde é especialmente apocalíptico.

Com o título de “O naufrágio de uma nação”, o Le Monde chega a afirmar que o Brasil “é um país que parece ter perdido o controle de seu destino”. É, acrescenta, “uma nação que se sente abandonada”. A classe política também não se salva, chamada de “tão angustiante como envelhecida, minada pela corrupção”.

O Le Monde já foi uma referência de jornalismo no mundo que formou gerações inteiras. Talvez por isso sua visão catastrofista sobre o Brasil, para os que, sem ser brasileiros, vivem aqui de perto a crise que assola o país é surpreendente. Não que tenhamos os olhos vendados para reconhecer que o país vive um de seus momentos mais difíceis após a ditadura, mas também não é verdade que o país tenha naufragado e perdido o controle de seu destino.

Não deixa de surpreender que os que colocaram há poucos anos esse país no Olimpo dos deuses, inveja do mundo, hoje o apresentem como uma nação que perdeu o controle, sem que se preocupem em analisar por que isso teria ocorrido, em tão pouco tempo, do céu ao inferno. Dentro e fora do Brasil, hoje são necessárias mais do que visões catastrofistas, e às vezes até injustas, sobre esse importante país, coração econômico da América Latina, uma análise séria sobre as causas que conduziram a essa crise pela qual ele passa. Não existem crimes sem culpados e é importante ir às raízes do problema antes de se fazer julgamentos sumários como se o Brasil houvesse chegado a esse momento sem que ninguém se sinta responsável.

É verdade que existe hoje um perigo real de autoritarismo e saudades da ditadura, sobretudo dos que não a viveram em sua própria carne, e que existe uma crise entre as instituições que tentam rivalizar entre elas invadindo a independência das mesmas que deveria ser mais respeitada. Acreditar, entretanto, que a democracia naufragou é uma ofensa ao trabalho que esse país realizou para se manter dentro dos padrões das democracias mundiais. O Brasil, dentro do continente, faz parte, apesar de todos os seus problemas, dos mais bem aparelhados do continente na defesa dos direitos humanos. O Brasil não é a Venezuela e a Nicarágua e com toda a sua carga de violência ainda não chega aos índices de alguns países do continente.

É um país com total liberdade de expressão e com a Justiça, com todos os seus possíveis erros, agindo e punindo os crimes de corrupção das elites políticas e empresariais como nunca aconteceu em sua história, em que a prisão era privilégio de pobres e negros. É um país com um grande debate nacional sobre a discriminação racial e de gênero. E com um jornalismo que, apesar de todas as críticas que possam ser feitas, é um dos mais vivos e responsáveis do continente, algo que me permito afirmar com meus 50 anos na profissão.

É verdade que há anos os brasileiros não estavam tão divididos por motivos políticos, agravado pelas redes sociais que ampliaram as possibilidades de debate. É um país, entretanto, que dos partidos políticos à sociedade mais madura reprovou, por exemplo, o atentado sangrento contra Bolsonaro, o candidato ultraconservador e cultor da violência.

Não sinto, como o Le Monde, que o Brasil seja um país como um barco já naufragado e sem esperanças. É um país irritado com seus governantes, descrente com seus políticos, mas como na maior parte do mundo de hoje. Prefiro ficar com a visão editorial do El País, que condenando dias atrás o atentado a Bolsonaro e o perigo de que possa ser usado para colocar em confronto uma sociedade já exasperada, concluiu dizendo: “O Brasil não está em guerra”. Eu diria que é uma sociedade sofrendo das dores do parto. Um Brasil que quer mais e o quer para todos, sem privilégios vergonhosos para os que deveriam dar exemplo à sociedade. Não é um país em agonia. É tão vivo que ainda é capaz de demonstrar sua raiva.


10.9.18

W. P. Yeats: "A coat" / "Um manto": trad. por Nelson Ascher



Um manto

Fiz para o verso um manto
de alto a baixo ornado
com mitos do passado.
Tolos, no entanto,
ao mundo reles
o expõem como se urdido
fosse por eles.
Levem-no em paz,
pois, verso, andar despido
é mais audaz.





A coat

I made my song a coat
Covered with embroideries
Out of old mythologies
From heel to throat;
But the fools caught it,
Wore it in the world’s eyes
As though they’d wrought it.
Song, let them take it
For there’s more enterprise
In walking naked.





YEATS, W. B. "A coat" / "Um manto". In: ASCHER, Nelson. Poesia alheia; 124 poemas traduzidos. Trad. e org. por Nelson Ascher. Rio de Janeiro: Imago, 1998.

7.9.18

Paulo Sabino: "Um para dentro todo exterior"



Um para dentro todo exterior


nada  a  esconder
mesmo  que
muito  por
saber

o  mundo
é  um
para  dentro
todo  exterior

por detrás
do dentro
apenas o
dentro

nada
é  o  que  há
para  além
do  que  há:

o  oculto
às  claras

fundura
em  superfície

o  mistério
sem  segredos:

todas  as  coisas
ao  alcance  dos  dedos



SABINO, Paulo. "Um para dentro todo exterior". In:_____. Um para dentro todo exterior. Rio de Janeiro: Editora Autografia, 2018.


5.9.18

Fernando Pessoa / Álvaro de Campos: "Grandes são os desertos, e tudo é deserto"



Grandes são os desertos, e tudo é deserto.

Grandes são os desertos, e tudo é deserto.
Não são algumas toneladas de pedras ou tijolos ao alto
Que disfarçam o solo, o tal solo que é tudo.
Grandes são os desertos e as almas desertas e grandes -
Desertas porque não passa por elas senão elas mesmas,
Grandes porque de ali se vê tudo, e tudo morreu.

Grandes são os desertos, minha alma!
Grandes são os desertos.

Não tirei bilhete para a vida,
Errei a porta do sentimento,
Não houve vontade ou ocasião que eu não perdesse.
Hoje não me resta, em vésperas de viagem,
Com a mala aberta esperando a arrumação adiada,
Sentado na cadeira em companhia com as camisas que não cabem,
Hoje não me resta (à parte o incómodo de estar assim sentado)
Senão saber isto:
Grandes são os desertos, e tudo é deserto.
Grande é a vida, e não vale a pena haver vida.

Arrumo melhor a mala com os olhos de pensar em arrumar
Que com arrumação das mãos factícias (e creio que digo bem).
Acendo o cigarro para adiar a viagem,
Para adiar todas as viagens.
Para adiar o universo inteiro.

Volta amanhã, realidade!
Basta por hoje, gentes!
Adia-te, presente absoluto!
Mais vale não ser que ser assim.

Comprem chocolates à criança a quem sucedi por erro.
E tirem a tabuleta porque amanhã é infinito.

Mas tenho que arrumar a mala,
Tenho por força que arrumar a mala,
A mala.
Não posso levar as camisas na hipótese e a mala na razão.
Sim, toda a vida tenho tido que arrumar a mala.
Mas também, toda a vida, tenho ficado sentado sobre o canto das camisas empilhadas,
A ruminar, como um boi que não chegou a Ápis, destino.

Tenho que arrumar a mala de ser.
Tenho que existir a arrumar malas.
A cinza do cigarro cai sobre a camisa de cima do monte.
Olho para o lado, verifico que estou a dormir.
Sei só que tenho que arrumar a mala,
E que os desertos são grandes e tudo é deserto,
E qualquer parábola a respeito disto, mas dessa é que já me esqueci.

Ergo-me de repente todos os Césares.
Vou definitivamente arrumar a mala.
Arre, hei-de arrumá-la e fechá-la;
Hei-de vê-la levar de aqui,
Hei-de existir independentemente dela.

Grandes são os desertos e tudo é deserto,
Salvo erro, naturalmente.
Pobre da alma humana com oásis só no deserto ao lado!

Mais vale arrumar a mala.
Fim.




PESSOA, Fernando. “Poesias de Álvaro de Campos”. In:_____. Obra poética. Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 1986.

4.9.18

Alex Varella: "Mar Sophia"



MAR SOPHIA


I

O poeta ensinou às coisas a falar e dizer seu nome.

Por exemplo, o mar.

Do mar são prateleiras,

platibandas,

licor de cor de laranja,

minha fruta-cor amarela.

As coisas do mar são além-delas.




II

As coisas ensinaram o poeta a falar e dizer seu nome.

Meu nome é o mar.

Meu mar é o mar sophia, que é todo poesia.

Mar da poeta Sophia,

em sua concreta sabedoria.




VARELLA, Alex. "Mar Sophia". In:_____. Céu em cima, mar em baixo. Rio de Janeiro: Topbooks, 2012.

31.8.18

Guilherme de Almeida: "Noturno"



Noturno

Na cidade, a lua:
a joia branca que boia
na lama da rua.




ALMEIDA, Guilherme de. "Noturno". In: CALCANHOTTO, Adriana (org.) Haicai do Brasil. Rio de Janeiro: Edições de Janeiro, 2014.

29.8.18

Paulo Henriques Britto: "Da metafísica"



Da metafísica

Ser parte de alguém ou algo
tão grande que não se entenda:
toda crença, ao fim e ao cabo,
se resume a essa lenda --

o mais rematado dislate,
coisa jamais entendida,
que eleva ao sumo quilate
o caco mais reles de vida.




BRITTO, Paul Henriques. "Da metafísica". In:_____. Nenhum mistério. São Paulo: Companhia das Letras, 2018.

27.8.18

Alberto da Costa e Silva: "Ode a Marcel Proust"



Ode a Marcel Proust

Teus olhos, no retrato,
destilam lágrimas
e abraçam silentes o horizonte.
Tua face, na noite,
é um soluço inútil.

Por entre as moças em flor,
revejo o silêncio das ruelas
dos teus passeios noturnos,
assombrados de insônia,
pelos caminhos insondáveis
do amor e da infância.

Retiras da memória
um mundo ignoto e novo,
e acompanhas, nas tuas vigílias,
os passos dos homens nos tapetes
e as palavras doces que não foram pronunciadas.

A cada instante, um encontro inesperado:
um peixe, uma gravata ou uma flor apenas entreaberta.
Tuas mãos repelem a morte, enluvadas,
e escrevem como se nada mais existira
a não ser a torre da matriz de Combray.

Proust, repercute em mim
toda a tua agonia, companheiro.
Deixa, Marcel, que recolha tua tristeza,
como lágrimas num lenço,
do tumulto das páginas de teus livros,
e
grave na minha boca
o sentido mais oculto de tuas palavras.

Teus olhos, no retrato,
derramam-se na bruma.
E colocas, agora, mansamente,
com requintes de estranha vaidade,
uma flor – talvez orquídea –
            na lapela.




COSTA E SILVA, Alberto da. "Ode a Marcel Proust". In:_____. Poemas reunidos. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2012.




25.8.18

Giuseppe Ungaretti: "Vanità" / "Vaidade": trad. por Geraldo Holanda Cavalcanti



Vaidade

De repente
se eleva
sobre os escombros
a límpida
maravilha
da imensidão.

E o homem
curvado
sobre a água
surpreendida
pelo sol
se descobre
uma sombra

Embalada
pouco a pouco
desfeita


Vanità

D’improvviso
è alto
sulle macerie
il limpido
stupore
dell’immensità

E l’uomo
curvato
sull’acqua
sorpresa
dal sole
si rinviene
un’ombra

Cullata e
piano
franta





UNGARETTI, Giuseppe. "Vanità" / "Vaidade". In:_____. Poemas. Org. e trad. por Geraldo Holanda Cavalcanti. São Paulo: USP, 2017.

23.8.18

Antonio Carlos Secchin: "Drummond; poesia e aporia"




Assistam à brlhante conferência do acadêmico Antonio Carlos Secchin intitulada "Drummond: poesia e aporia". Essa conferência, que teve lugar no teatro R. Magalhães, na ABL, no dia 16 do corrente, fez parte do ciclo de conferências "Cadeira 41", coordenado pela acadêmica Ana Maria Machado. Não tendo podido conduzir essa mesa por estar de viagem, Ana Maria pediu-me que a substituísse, o que fiz com prazer. 



20.8.18

Fernando Pessoa: "Entre o sono e o sonho"



Entre o sono e o sonho

Entre o sono e o sonho,
Entre mim e o que em mim
É o quem eu me suponho,
Corre um rio sem fim.

Passou por outras margens,
Diversas mais além,
Naquelas várias viagens
Que todo o rio tem.

Chegou onde hoje habito
A casa que hoje sou.
Passa, se eu me medito;
Se desperto, passou.

E quem me sinto e morre
No que me liga a mim
Dorme onde o rio corre -
Esse rio sem fim.




PESSOA, Fernando. "Entre o sono e o sonho". In:_____. "Cancioneiro". In:_____. Obra poética. Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 1986. 

19.8.18

Gregório Duvivier: "difícil ser feliz nas festas de santa"




difícil ser feliz nas festas de santa
teresa ou sentado nas escadarias
da lapa por melhor que seja
sua companhia é difícil ser
sinceramente feliz na
pizzaria guanabara às
cinco da manhã em
meio a pedaços de
pizza fria e o cigano
igor de chapéu há
lugares em que
você sabe que
não vai ser
feliz mas
vai




DUVIVIER, Gregório. "difícil ser feliz nas festas de santa". In:_____. ligue os pontos: poemas de amor e big bang. São Paulo: Companhia das Letras, 2013.

15.8.18

Antonio Cicero: Editorial da Revista UBC



No corrente mês, tive a honra de escrever o editorial da Revista UBC, que é a revista publicada pela União Brasileira de Compositores, da qual me orgulho de ser membro há muitos anos e um dos diretores, há um ano e alguns meses. Eis o texto que produzi:



Mesmo após a concessão do Prêmio Nobel de Literatura a Bob Dylan, ainda há quem considere que as letras de música são algo relativamente vulgar e inferior à poesia.

Um argumento frequentemente empregado para tentar provar essa tese é que, às vezes, uma letra emociona quando cantada e, quando lida no papel, sem acompanhamento musical, torna-se insípida. É verdade, mas vejamos por que razão isso se dá. Ao contrário de um poema – que tem seu fim em si próprio – uma letra de canção não tem, enquanto tal, seu fim em si própria, mas na obra de arte, isto é, na canção, de que faz parte. Por isso, para que julguemos boa uma letra de canção, é necessário e suficiente que ela contribua para que a obra lítero-musical de que faz parte seja boa. E, embora seja verdade que uma canção não seja um poema, há canções que são obras de arte tão boas quanto bons poemas. Pense-se, entre inúmeras outras, em “Construção”, de Chico Buarque, em “Terra”, de Caetano Veloso, em “Cais”, de Milton Nascimento e Ronaldo Bastos ou em “Blowin’ in the Wind”, de Bob Dylan.

De todo modo, há muitas letras de canções que, quando lidas, revelam-se também como grandes poemas. É o caso, na verdade, das quatro letras de canções que acabamos de citar. Ademais, não nos esqueçamos de que os poemas líricos da Grécia antiga, por exemplo, eram letras de canções. Perderam-se as músicas que os acompanhavam, de modo que não os conhecemos senão na forma escrita. Ora, muitos deles são contados entre os maiores poemas que se conhecem.


Vê-se assim como são inteiramente ridículos os preconceitos que pretendem desvalorizar as letras de música. 







13.8.18

Heinrich Heine: "Ein Fichtenbaum steht einsam" / "Solitário na montanha": trad. de André Vallias



Solitário, na montanha,
Um pinheiro no hemisfério
Norte dorme sob a manta
Branca de gelo e de neve.

Ele sonha com a palmeira
Do Oriente, tão distante,
Que calada se lamenta
Sobre o penhasco escaldante.




Ein Fichtenbaum steht einsam
Im Norden auf kahler Höh’.
Ihn schläfert; mit weißer Decke
Umhüllen ihn Eis und Schnee.

Er träumt von einer Palme,
Die, fern im Morgenland,
Einsam und schweigend trauert
Auf brennender Felsenwand.





HEINE, Heinrich. "Ein Fichtenbaum steht einsam" / "Solitário, na montanha". In: VALLIAS, André (org. e trad.). Heine, hein?: Poeta dos contrários. São Paulo: Perspectiva: Goethe Institut, 2011.

9.8.18

Waly Salomão: "Tlaquepaque"



Tlaquepaque


Há que haver manjar dos deuses para aquele que descrê dos deuses

Meus pés esfolados recorrem becos, vielas, ruas,

avenidas intermináveis,

sem fonte alguma desencadear.

Busco tal ou qual cosmético – aceite de jojoba – como Édipo
[arrancava os próprios olhos

E Antígona escavava a terra para contra a lei do estado dar
[sepultura ao corpo familiar amado.

Há que haver ambrosia para aquele que descrê dos deuses.





SALOMÃO, Waly. "Tlaquepaque". In:_____. Poesia total. São Paulo: Companhia das Letras, 2014.

6.8.18

Alex Varella: "Céu em cima, mar em baixo"



Poema no passado

A casa era bela,
mas era no passado,
e o passado, uma balela
(o passado, passado não era).

Vem do presente esse passado,
nebuloso de si mesmo,
de si mesmo uma quimera.

O passado não é nem era.
É cinema do passado.
O passado é uma novela.




VARELLA, Alex. "Poema no passado". In:_____. Céu em cima, mar em baixo. Rio de Janeiro: Topbooks, 2012.

2.8.18

Mesa redonda "As artes plásticas hoje"

Assistam ao vídeo da mesa-redonda, coordenada por mim, "As artes plásticas hoje", com as brilhantes intervenções de Paulo Sergio Duarte e Paulo Venancio Filho, que teve lugar na terça-feira passada, na ABL. Essa mesa-redonda fez parte do Seminário "Brasil, brasis", coordenado pelo acadêmico Domício Proença Filho.

28.7.18

"As artes plasticas hoje": Mesa redonda na ABL




Às 17h30m do dia 31 do corrente mês, terça-feira, terá lugar, no Teatro R. Magalhães Pinto, na Av. Presidente Wilson, 203, a mesa redonda "As artes plásticas hoje", que será coordenada por mim.Dela participarão Paulo Sergio Duarte e Paulo Venancio Filho, dois dos mais importantes críticos e curadores de arte no Brasil. Essa mesa-redonda fará parte do seminário "Brasil, brasis", concebido e coordenado pelo Acadêmico Domício Proença Filho.



Evando Nascimento: "Uma literatura pensante: Pessoa, Clarice e as plantas"



Assistam ao vídeo da bela palestra pronunciada pelo escritor, pensador e professor universitário Evando Nascimento, na ABL, intitulada "Uma literatura pensante: Pessoa, Clarice e as plantas". Essa conferência fez parte do ciclo de conferências intitulado "Poesia e Filosofia", que concebi e coordenei no mês de julho.


27.7.18

Bertold Brecht: "General, dein Tank ist ein starker Wagen"/"O vosso tanque, general, é um carro forte"



General, dein Tank ist ein starker Wagen

General, dein Tank ist ein starker Wagen.
Er bricht einen Wald nieder und zermalmt hundert Menschen.
Aber er hat einen Fehler:
Er braucht einen Fahrer.

General, dein Bombenflugzeug ist stark.
Es fliegt schneller als der Sturm und trägt mehr als ein Elefant.
Aber es hat einen Fehler:
Es braucht einen Monteur.

General, der Mensch ist sehr brauchbar.
Er kann fliegen, und er kann töten.
Aber er hat einen Fehler:
Er kann denken.



O vosso tanque, general, é um carro forte.

O vosso tanque, general, é um carro forte
Derruba uma floresta, esmaga cem homens,
Mas tem um defeito
– Precisa de um motorista.

O vosso bombardeiro, general, é poderoso:
Voa mais depressa que a tempestade
E transporta mais carga do que um
Elefante.
Mas tem um defeito
– Precisa de um piloto.

O homem, meu general, é muito útil:
Sabe voar e sabe matar
Mas tem um defeito
– Sabe pensar.




BRECHT, Bertold. "General, dein Tank ist ein starker Wagen"/"O vosso tanque, general, é um carro fote". Trad. de Geir Campos. In: CAMPOS, Geir. O livro de ouro da poesia alemã. Editora Ediouro, s.l. e s.d.

24.7.18

Conferência de Evando Nascimento na ABL

A Academia Brasileira de Letras encerra o Ciclo de Conferências que, a convite da Acadêmica Ana Maria Machado, concebi para o mês de julho de 2018, com a palestra do  escritor, pensador e professor universitário Evando Nascimento. O tema escolhido foi Uma literatura pensante: Pessoa, Clarice e as plantas. Tenho certeza de que será interessantíssimo.

O evento está programado para quinta-feira, dia 26 de julho, às 17h30min, no Teatro R. Magalhães Jr., Avenida Presidente Wilson 203, Castelo, Rio de Janeiro. Entrada franca.


23.7.18

Elias Canetti: trecho de "A consciência das palavras": trad. de Nelson Ascher



A morte é o primeiro e mais antigo, haveria quase a tentação de dizer: o único fato. Tem uma idade monstruosa e, ainda assim, é nova a cada hora. Seu grau de dureza é dez, e ela corta também como o diamante. Ela possui o frio absoluto do espaço exterior: 273 graus negativos. Ela tem a velocidade de um furacão, a maior. Ela é muito real e superlativa, mas não é infinita, porque pode ser alcançada por qualquer caminho. Enquanto a morte existir, qualquer declaração é uma declaração contra ela. Enquanto a morte existir, qualquer luz é um fogo-fátuo, pois conduz a ela. Enquanto a morte existir, nenhuma beleza é bela, nenhuma bondade é boa. [...] Todas as tentativas de chegar a um acordo com a morte (e que mais são as religiões?) falharam. A descoberta de que não há nada após a morte – uma apavorante e inexaurível descoberta – banhou a vida com uma nova e desesperada santidade. O escritor que, em virtude do que nós, algo sumariamente, chamamos de seu vício, é capaz de de participar de muitas vidas deve participar também de todas as mortes que ameaçam aquelas vidas. Seu próprio medo (e quem não teme a morte?) deve tornar-se o medo que todos têm da morte. Seu próprio ódio (e quem não odeia a morte?) deve transformar-se no ódio que todos têm da morte. Isso e nada mais é sua oposição ao tempo, repleta de uma miríade de mortes.”



CANETTI, Elias. Trecho de “A consciência das palavras”. In: ASCHER, Nelson. “Canetti e a consciência das palavras”. Trad. por Nelson Ascher. In: Folha de São Paulo: Ilustrada, 02/05/1987.

21.7.18

Antonio Cicero: "Balanço"


Balanço


A infância não foi uma manhã de sol:
demorou vários séculos; e era pífia,
em geral, a companhia. Foi melhor,
em parte, a adolescência, pela delícia
do pressentimento da felicidade
na malícia, na molícia, na poesia,
no orgasmo; e pelos livros e amizades.
Um dia, apaixonado, encarei a minha
morte: e eis que ela não sustentou o olhar
e se esvaiu. Desde então é a morte alheia
que me abate. Tarde aprendi a gozar
a juventude, e já me ronda a suspeita
de que jamais serei plenamente adulto:
antes de sê-lo, serei velho. Que ao menos
os deuses façam felizes e maduros
Marcelo e um ou dois dos meus futuros versos.




CICERO, Antonio. "Balanço". In:_____. Porventura. Rio de Janeiro: Record, 2012.

19.7.18

Lançamento de "O menino que comia foie gras", de Hudson Carvalho

Como se lê no convite abaixo, na próxima segunda-feira será lançado o excelente livro de Hudson Carvalho, O menino que comia foie gras: crônicas do gourmand Pedro Henriques, para o qual tive o prazer de fazer o prefácio, intitulado "Come-se o texto". É isso mesmo: tanto as guloseimas ali apreciadas quanto o próprio textos são deliciosos! Não percam!

Antonio Cicero



Frank O'Hara: "Today" / "Hoje": trad. de Beatriz Bastos e Paulo Henrique Britto



Hoje

Ah! cangurus, paetês, milk-shakes!
Que beleza! Pérolas, gaitas,
jujubas, aspirinas! todas essas
coisas sobre as quais sempre se fala

ainda fazem de um poema uma surpresa!
Elas estão conosco todos os dias mesmo
que em casamatas e catafalcos. São coisas
com sentido. São fortes feito pedra.


Today
Oh! kangaroos, sequins, chocolate sodas!
You really are beautiful! Pearls,
harmonicas, jujubes, aspirins! all
the stuff they’ve always talked about
 
still makes a poem a surprise!
These things are with us every day
even on beachheads and biers. They
do have meaning. They’re strong as rocks.



O'HARA, Frank. "Today"/"Hoje". In:_____. Meu coração está no bolso. Trad. de Beatriz Bastos e Paulo Henriques Britto. São Paulo: Luna Parque, 2017.




17.7.18

Antonio Cicero: "A poesia e a filosofia no mundo contemporâneo"

Na semana passada proferi uma palestra intitulada "A poesia e a filosofia no mundo contemporâneo", na Academia Brasileira de Letra. O vídeo correspondente foi postado no YouTube pela ABL. Ei-lo:



15.7.18

Barão Vermelho: "A máquina de escrever"



Agradeço a Adriano Nunes por me ter informado que o poema "A máquina de escrever", de Giuseppe Ghiaroni, que publiquei aqui anteontem,  foi, há anos, musicado por Frejat/Barão Vermelho. Eis o link para a canção, no YouTube: https://youtu.be/7SlEOxqq1dI.

13.7.18

Giuseppe Ghiaroni: "A máquina de escrever"



Agradeço a Antonio Torres, por me ter chamado atenção para o seguinte belo poema de Giuseppe Ghiaroni:





A máquina de escrever


Mãe, se eu morrer de um repentino mal,
vende meus bens a bem dos meus credores:
a fantasia de festivas cores
que usei no derradeiro Carnaval.

Vende esse rádio que ganhei de prêmio
por um concurso num jornal do povo,
e aquele terno novo, ou quase novo,
com poucas manchas de café boêmio.

Vende também meus óculos antigos
que me davam uns ares inocentes.
Já não precisarei de duas lentes
para enxergar os corações amigos.

Vende , além das gravatas, do chapéu,
meus sapatos rangentes. Sem ruído
é mais provável que eu alcance o Céu
e logre penetrar despercebido.

Vende meu dente de ouro. O Paraíso
requer apenas a expressão do olhar.
Já não precisarei do meu sorriso
para um outro sorriso me enganar.

Vende meus olhos a um brechó qualquer
que os guarde numa loja poeirenta,
reluzindo na sombra pardacenta,
refletindo um semblante de mulher.

Vende tudo, ao findar a minha sorte,
libertando minha alma pensativa
para ninguém chorar a minha morte
sem realmente desejar que eu viva.

Pode vender meu próprio leito e roupa
para pagar àqueles a quem devo.
Sim, vende tudo, minha mãe, mas poupa
esta caduca máquina em que escrevo.

Mas poupa a minha amiga de horas mortas,
de teclas bambas, tique-taque incerto.
De ano em ano, manda-a ao conserto
e unta de azeite as suas peças tortas.

Vende todas as grandes pequenezas
que eram meu humílimo tesouro,
mas não! ainda que ofereçam ouro,
não venda o meu filtro de tristezas!

Quanta vez esta máquina afugenta
meus fantasmas da dúvida e do mal,
ela que é minha rude ferramenta,
o meu doce instrumento musical.

Bate rangendo, numa espécie de asma,
mas cada vez que bate é um grão de trigo.
Quando eu morrer, quem a levar consigo
há de levar consigo o meu fantasma.

Pois será para ela uma tortura
sentir nas bambas teclas solitárias
um bando de dez unhas usurárias
a datilografar uma fatura.

Deixa-a morrer também quando eu morrer;
deixa-a calar numa quietude extrema,
à espera do meu último poema
que as palavras não dão para fazer.

Conserva-a, minha mãe, no velho lar,
conservando os meus íntimos instantes,
e, nas noites de lua, não te espantes
quando as teclas baterem devagar.






GHIARONI, Giuseppe. "A máquina de escrever". In:_____.  A máquina de escrever. São Paulo: Scortecci, 1997.

12.7.18

Luís Felipe Castro Mendes: "Estóicos"



Estóicos

Deixa-te ficar comigo à beira do rio.
Entardeceu. Não procures o vulgar brilho da beleza
nem a sedução da mocidade.
Se te falarem dos deuses, finge entender.
E se chamarem poeta ao dono do circo,
concorda gravemente.




MENDES, Luís Felipe Castro. "Estóicos". In:_____. Os dias inventados. Lisboa: Gótica, 2001.

9.7.18

A poesia e a filosofia no mundo contemporâneo

Na próxima quinta-feira, dia 12 de julho, às 17h30, darei, no Teatro R. Magalhães Jr., da Academia Brasileira de Letras, a palestra "A poesia e a filosofia no mundo contemporâneo". Ela será parte do ciclo de conferências "Poesia e Filosofia" do qual -- a convite da Primeira Secretária d ABL, a escritora Ana Maria Machado -- sou o coordenador, no corrente mês. A entrada será franca. 













Como parte do mesmo ciclo de conferências, ocorreu, na quinta-feira passada, no mesmo local, a bela e erudita conferência de Alberto Pucheu, "Espantografias: entre poesia e filosofia". Na quinta-feira, dia 26 do corrente mês, terá lugar a conferência de Evando Nascimento, intitulada "Uma literatura pensante: Pessoa, Clarice e as plantas".  

Wisława Szymborska: "ABC": trad. de Regina Przybycien



ABC

Jamais vou descobrir
o que A. pensava de mim.
Se B. até o fim não me perdoou.
Porque C. fingia que estava tudo bem.
Que papel teve D. no silêncio de E.
O que F. esperava, se é que esperava.
Porque G. fingia, já que sabia muito bem.
O que H. tinha a esconder.
O que I. queria acrescentar.
Se o fato de eu estar ali ao lado
teve qualquer importância
para J., para K. e para o resto do alfabeto.”



SZYMBORSKA, Wisława. "ABC". In:_____. Um amor feliz. Trad. de Regina Przybycien. São Paulo: Companhia das Letras, 2016.

2.7.18

Por trás da canção "Fullgás"




Agradeço a meu amigo e parceiro Arthur Nogueira por me ter chamado atenção para um vídeo, que se encontra no You Tube, sobre a canção "Fullgás". Ele é assinado por Mr. Funky Sampa. Ei-lo:





30.6.18

Dênis Rubra: "quanto tempo cabe em um ano"



quanto tempo cabe em um ano
quantos anos em um segundo
quantos cantos entre
quatro paredes
quantos
mundos



RUBRA, Dênis. "quanto tempo cabe em um ano". In:_____. É muito cedo pra pensar. Rio de Janeiro: Rubra Editora, 2017.

28.6.18

Cassiano Ricardo: "Tradução"



Tradução

A Renato Jobim


outer space
     Kosmitchskoie prostranstvo
espace extra-athmosphérique
     espacio ultra-terrestre

tradução:

espaço poético absoluto.




RICARDO, Cassiano. "Tradução". In:_____. Jeremias sem-chorar. Rio de Janeiro: José Olympio, 1964.

26.6.18

Adriano Nunes: Sobre o videclipe da canção "Ninguém"



O dia amanheceu esteticamente implacável e belo! Um salve para todas as Musas que inspiraram o potente e inquieto Zé Pedro a dirigir o videoclipe "Rei Ninguém", da canção do Arthur Nogueira. No vídeo, vê-se a tensão dramática da poesia que a canção abarca, reluzindo e refletindo-se em uma amplidão enigmática em que o espectador não sabe a que instância dos signos o Rei que é metaforicamente Ninguém vai chegar, se quer realmente em algum lugar fisicamente alcançável. Mas não se enganem! O Rei Ninguém do Arthur Nogueira está além das convenções pragmáticas das estéticas mesquinhas e ornadas de clichês. Dizer que tem as terras de ninguém é dizer, ainda que pesem todas as consequências inescapáveis do devir e do saber sobre, que possui as terras além-dono: as terras-de-ninguém são as notas musicais da bela canção, são as imagens plenas de sentidos e significados vistas no vídeo,  procurando traduzir a real grandeza, o real tesouro que o artista tem em mãos, e de que alma e sinapses precisam para ser um rei, um rei ainda que, sob o pseudônimo "Ninguém", reine absoluto no reino que é poeticamente só seu e que lhe dá sentido e vida: o reino da Arte. Assim, como Ulisses, na Odisseia, a responder ao feroz ciclope Polifemo, astuciosamente, parece que Arthur responde a todos com a sua voz enigmática e transcendente: "Ninguém - este é o meu nome!". Bravíssimo! 
Para ser aplaudido de pé!

Adriano Nunes

Arthur Nogueira: clipe da canção"Ninguém"



Assistam ao belo clipe em que o cantor/compositor Arthur Nogueira canta "Ninguém", canção composta por ele para a tradução que o poeta Erick Monteiro Moraes fez do poema "Niemand", de Rose Ausländer:



25.6.18

Lêdo Ivo: "O homem vivo"



O homem vivo

Felicito-me a mim mesmo por ser transitório.
Sempre tive medo da eternidade,
esse grande cão obscuro que me farejava as pernas
e me seguia sem morder.

Aguardando a morte como quem espera uma carta
trazida por um estafeta divino,
nada tenho para as festas do dia seguinte.
Toda a minha vida foi este esperar sem fim.

Entre o sono e o mar total, na paisagem celeste,
soltei minha pandorga.
Vi o farol da minha terra, e minha infância inteira
estirada em cem léguas diante do mar.

Nada quero de ti, Morte, nem mesmo as recompensas de outro lado
com que amenizas o fim dos que muito sofreram.
Dá-me apenas o sono inteiriço dos que morrem
e são levados à terra dos pés juntos.

Que a vida seja um sonho, e os sonhos sejam sonhos
do sonho desdobrado dos que vivem.
Efêmero, bate no tempo um coração solitário
e a sombra da terra é pouca para escondê-lo.



IVO, Lêdo. "O homem vivo". In:_____. Poesia completa (1940-2004). Rio de Janeiro: Topbooks, 2004.

23.6.18

José Almino: "Objet trouvé"



Objet trouvé



tudo 
não 
é 
só 
bom

nem 
tudo 
é 
só 
bom




ALMINO, José. "Objet trouvé". In:_____. A estrela fria. São Paulo: Companhia das Letras, 2010.

21.6.18

Antero de Quental: "Tormento do ideal"



Tormento do ideal

Conheci a Beleza que não morre
E fiquei triste. Como quem da serra
Mais alta que haja, olhando aos pés a terra
E o mar, vê tudo, a maior nau ou torre,

Minguar, fundir-se, sob a luz que jorre:
Assim eu vi o mundo e o que ele encerra
Perder a cor, bem como a nuvem que erra
Ao pôr do sol e sobre o mar discorre.

Pedindo à forma, em vão, a ideia pura,
Tropeço, em sombras, na matéria dura,
E encontro a imperfeição de quanto existe.

Recebi o baptismo dos poetas,
E, assentado entre as formas incompletas
Para sempre fiquei pálido e triste.



QUENTAL, Antero de. "Tormento do ideal". In:_____. Sonetos. Org. por António Sergio. Lisboa: Sá da Costa Editora, 1963.


18.6.18

Entrevista de Eduardo Giannetti a Felipe Betim, do EL PAÍS



Recomendo a leitura da seguinte – excelente – entrevista do economista e filósofo Eduardo Gainnetti. Ela foi originalmente publicada na edição portuguesa do jornal espanhol El País (https://brasil.elpais.com), em 14 de junho de 2018. O entrevistador é Felipe Betim, do El País. No seu site original, o endereço da entrevista é: https://brasil.elpais.com/brasil/2018/06/05/politica/1528235313_705168.html


El País
Eduardo Giannetti | Economista e filósofo

Giannetti: “O ritmo de retomada desaponta, mas não sei onde estaríamos com Dilma”

Economista e filósofo assessora Marina Silva, a quem julga a mais comprometida com o país.
Para Eduardo Giannetti, Temer tinha um bom plano de Governo, mas só faz sobreviver desde 2017

São Paulo 14 JUN 2018 - 03:14 CEST

Quando lançou em 2016 o livro Trópicos Utópicos (Companhia das Letras), Eduardo Giannetti da Fonseca (Belo Horizonte, 1957) idealizava um Brasil que se apresentasse como alternativa aos modelos já conhecidos e uma nação que, pautada por seus próprios valores, percorre seu próprio caminho rumo ao desenvolvimento. O economista e filósofo retoma e se aprofunda no tema ao lançar agora O elogio do vira-lata e outros ensaios, uma coletânea de textos escritos entre 1989 e 2018 que reflete as mudanças pessoais pelas quais passou: "Eu era um jovem pesquisador com a pretensão de contribuir com o debate de ideias para a modernização do Brasil. Achava que o país precisava de uma injeção de liberalismo clássico", diz ele. "Hoje, me preocupa mais a construção de um Brasil que não seja uma cópia piorada dos países do norte. Me instiga a construção de uma originalidade brasileira diante de um mundo ocidental que não oferece mais sonhos e promessas de mudança genuína".

Assim, a primeira parte do livro, intitulada Enredos Brasileiros, fala sobre aspectos da psicologia brasileira, grandes questões nacionais e suas preocupações com a cultura. Ele aborda, por exemplo, o conhecido complexo de vira-lata do brasileiro e faz uma defesa de sua "condição de vira-lata". Também aborda o que chama de paradoxo do brasileiro. "Cada brasileiro, quando olha para si, se sente muito diferente e acima de tudo isso que aí está. Mas todos nós juntos somos exatamente tudo isso que aí está. É como se o brasileiro fosse o outro, sempre, e ninguém se reconhece no coletivo que somos nós juntos", explica.

Giannetti é também, junto com o economista André Lara Resende, colaborador da pré-candidata Marina Silva (REDE). Ao EL PAÍS, argumenta que a greve dos caminhoneiros mostrou que "a sociedade brasileira não tolera mais um sistema de governo em que o Estado dá a entender que a sociedade existe para servi-lo, e não o contrário". Ele critica uma política de preços da Petrobras baseada em reajustes diários de acordo com a cotação do dólar e os preços internacionais do Petróleo, algo "tecnocrática e de desconhecimento da vida comum".

Pergunta. Um dos seus textos no livro que você acaba de lançar é uma resenha de um livro do Roberto Mangabeira Unger sobre o que a esquerda deveria fazer. O que acha que ela deveria fazer?

Resposta. A minha grande bandeira, aspiração, é um Brasil em que a condição social, a condição de gênero, a condição de etnia em que a pessoa nasce não a prejudique de nenhuma maneira. Que ela tenha absoluta igualdade de oportunidade para a formação de suas capacidades de modo que ela tenha uma vida a mais plena possível. Estamos muito longe disso no Brasil, mas o caminho é a igualdade de oportunidades. Não me incomoda que as pessoas tenham desigualdade na chegada, desde que a igualdade tenha existido na partida. As pessoas tem valores diferentes, tem sonhos diferentes... Nem todo mundo, felizmente, está disposto a sacrificar tanto a vida em nome de valores financeiros e econômicos. As pessoas são diferentes e é bom que assim seja.

P. Mas a desigualdade na chegada tem que ser tão grande como é hoje no Brasil?

R. A desigualdade na chegada brasileira é totalmente viciada e deturpada por uma obscena desigualdade na partida. E isso envenena as relações sociais no Brasil. Elas são tóxicas. A maneira de corrigir isso é buscado uma equalização da igualdade de oportunidades. E temos que concentrar tudo o que for possível para corrigir essa distorção que nos acompanha desde nossa origem como nação. Mas, hoje, o estado brasileiro é um grande concentrador de renda.

P. Você está assessorando outra vez a Marina Silva [pré-candidata a presidência pela REDE]? Que papel terá em sua campanha?

R. Eu me dispus a ajudar na formulação de propostas. Estou contribuindo com o que eu puder para que isso aconteça. Fiquei muito feliz de estar trabalhando nesse projeto com uma pessoa que admiro enormemente, o André Lara Resende. Ele também está se dispondo com a formulação de propostas e ideias que possam ser implementadas por um Governo Marina.

P. No que diferencia a Marina Silva de outras candidaturas consideradas liberais, como a de Geraldo Alckmin (PSDB), Henrique Meirelles (MDB) ou João Amoêdo (NOVO)?

R. Estou acompanhando e colaborando com a Marina Silva desde 2010. Uma liderança como a dela é rara em qualquer lugar do mundo, porque é calcada em compromisso ético. Nenhum outro líder político brasileiro tem um grau de comprometimento com ética como a Marina Silva. Ela é a única capaz de trazer para o centro da agenda duas questões definidoras do nosso futuro: educação e meio ambiente. Economia é meio, não é fim. O importante é deixar nossa economia organizada para que nós possamos concentrar nossas atenções, como governo e como nação, naquilo que definirá nosso futuro. Não vejo ninguém mais apto e preparado a fazer esse projeto de estadista, de futuro, e com os valores corretos, do que Marina Silva.

P. Acabamos de sair de uma longa greve de caminhoneiros. Que balanço e que lições você faz dessa paralisação?

R. Me dei conta nesses últimos dias das semelhanças entre junho de 2013 e maio de 2018. São movimentos que começam localizados em torno de questões aparentemente muito setoriais: os 20 centavos, os 46 centavos. Transporte. São movimentos que rapidamente ganham a sociedade. A adesão é fortíssima e rápida, e acho que as novas tecnologias têm papel nisso. O sentimento todo da sociedade se mobiliza. E realmente toma conta do cenário. Não tem muita liderança centralizada, se espalha rapidamente e coloca o governo contra a parede. E depois tem uma dinâmica em que grupos minoritários radicais e violentos passam a tentar instrumentalizar o movimento. Os black blocs lá, e os pedidos por intervenção militar agora. A dinâmica é parecida. Por trás dos dois casos está um sentimento de que a sociedade brasileira não tolera mais um sistema de governo em que o Estado dá a entender que a sociedade existe para servi-lo, e não o contrário. Nós transferimos para os governantes, para o Estado brasileiro, uma fatia enorme do resultado do trabalho. A carga tributária é de 34% do PIB, o déficit nominal é 6% do PIB, o que significa que 40% de todo o valor criado pelo trabalho dos brasileiros transita pelo setor público. E a sociedade não vê contrapartida. Metade dos domicílios não tem nem sequer saneamento básico, a coisa mais elementar de uma vida digna. Como a educação fundamental, a saúde pública, a segurança, o transporte coletivo continuam tão precários? Tem alguma coisa profundamente errada nas finanças públicas brasileiras. A tentativa que vem sendo feita de 1988 pra cá, de acomodar a pressão para os gastos pelo aumento da carga tributaria, sistematicamente, esgotou. Acabou o ciclo de expansão fiscal. Então vamos ter que entrar em outro tipo de jogo. O que está por trás disso é uma demanda de mudar profundamente o modo como o Estado brasileiro direciona os recursos. Outro elemento fundamental desse sentimento de revolta hoje foram as revelações da Lava Jato, que mostrou como nunca antes o modo de se fazer política.

P. Se você estivesse dentro do governo, como resolveria a questão? Que política de preços a Petrobras deve adotar?

R. Não sou um pessoa boa de formulação e execução. Não me meto no Executivo e não é meu perfil. Mas uma coisa bem especifica e técnica é que acho uma maluquice corrigir preço do derivado do petróleo todos os dias, de acordo com dois preços altamente voláteis como o preço do petróleo no mercado internacional e o regime de cambio flutuante. Isso é uma ideia tecnocrática e de total desconhecimento da vida comum. A governança das estatais melhorou dramaticamente, acho que eles estão fazendo um trabalho muito bem vindo de profissionalização da gestão. Mas no caso específico da metodologia de correção dos derivados do petróleo, eles foram tecnocráticos e equivocados. Nós vamos de um extremo ao outro, porque antes a Dilma era de um intervencionismo desastrado. De repente, vamos para um fundamentalismo de mercado que torna o preço do gás de cozinha, do diesel e da gasolina um ativo financeiro, que varia fortemente para cima e para baixo todos os dias. Precisamos ter realismo tarifário, mas também um suavizador.

P. A paralisação mostra algumas contradições e complexidades. As pessoas querem menos impostos e mais serviços públicos universais. Apoiam a greve dos caminhoneiros, mas não aceitam pagar a conta.

R. Já está pagando muito mais do que deveria. No caso do preço médio dos remédios, 36% é imposto. Na gasolina e no diesel chega a ser mais do que isso. Não dá mais para acomodar os conflitos aumentando a carga tributária, isso chegou no limite. Precisamos repensar agora por que um Estado pelo qual transitam 40% do valor criado pelos brasileiros não atende as necessidades mais elementares das políticas públicas. O Bolsa Família é meio por cento do PIB, é a migalha que cai da mesa. E olha o impacto que isso tem na vida de milhões de brasileiros.

Uma das questões que tem que ficar claro é o sistema de castas da previdência brasileira. O benefício médio de aposentadoria do INSS, para o cidadão comum, é de 1.300 reais comum. Esse valor sobe, no Executivo federal, para 7.000 reais por mês. No Legislativo, são 16.000 reais por mês. No Judiciário, são 27.000 reais por mês. De média. Isso aqui é o antigo regime. Não fizemos no Brasil o equivalente da revolução francesa e americana, que começa com o lema “no taxation without a representation”. A gente não virou esse jogo no Brasil. Os governantes ainda agem como se a sociedade existisse para servi-los.

P. E como você acha que essa questão tributária tem que se resolver? Qual é a reforma desejável?

R. O sistema tributário brasileiro cobra desproporcionalmente de quem menos pode pagar, porque ele está calcado em impostos indiretos. E quem mais poderia e deveria estar pagando impostos consegue driblar as tentativas do fisco de taxar. Temos que caminhar para um sistema tributário menos calcado em impostos indiretos, que incidem no bolso de quem ganha menos, e um sistema mais calcado em renda e, em alguma medida, patrimônio, riqueza. O Estado brasileiro é regressivo na tributação e em grande medida regressivo no gasto. Na Previdência, o déficit de 4,2 milhões de aposentados do setor público é do tamanho do déficit da Previdência dos 29 milhões do INSS. É o sistema de castas. O gasto público em educação no Brasil está em torno de 6%, isso é mais que a média dos países da OCDE e mais do que a média de nossos pares na América Latina. Como você explica um gasto tão alto e resultados educacionais tão ruins no Pisa? Porque uma fatia muito importante do gasto público é capturado pelos mais ricos no ensino superior. O sujeito faz o fundamental e médio na escola particular cara e, quando chega na parte mais cara de sua educação, ele passa a contar com subsídio tributário que financia sua educação.

R. Quem já pagava pelo ensino fundamental e médio deve continuar pagando. E quem não puder pagar pelo ensino superior, ganha uma bolsa de estudos.

P. Você costuma dizer, na área fiscal, que precisamos de menos Brasília e mais Brasil. O que isso significa?

R. Em 1988 se optou pelo modelo do Estado federativo. O regime militar era centralizado, e optamos por descentralizar. Princípio perfeito. Mas, na prática, transferiram para os estados e municípios as atribuições do setor público, mas mantiveram no governo central a autoridade para tributar. Dois terços da arrecadação está concentrada em Brasília. Então temos um sistema de transferências muito nocivo para a boa utilização dos recursos públicos. A regra num Estado federativo é: o dinheiro público deve ser gasto o mais perto possível de onde ele é arrecadado, para o cidadão fiscalizar e cobrar. Para Brasília deveria ir aquilo que somente a União deve cuidar, como a diplomacia, o Banco Central, os órgãos reguladores... Além das distribuições regionais. Num Brasil tão desigual e heterogêneo, é normal que as regiões mais prósperas transfiram para regiões menos favorecidas. Mas por que o resto do dinheiro precisa ir para Brasília para depois voltar? Brasília não pode ficar arrecadando e repassando ou não, com os prefeitos de pires na mão pedindo dinheiro. 80% dos municípios vivem de mesada. Vira um modo de fazer política. Perde-se transparência, critério, prioridade, capacidade de fiscalização... Precisamos construir no Brasil cidadania tributária, em que as pessoas saibam o quanto pagam de imposto, para onde ele vai e como está voltando. Ninguém pode ser contra isso.

P. Que outros tipos de ideias a candidatura Marina Silva poderia trazer na questão da desigualdade e mundo do trabalho, que hoje passa por uma série de transformações tecnológicas?

R. Não posso responder por ela. Mas penso que, no mercado de trabalho brasileiro, há dezenas de milhões de cidadãos sem uma situação regular de emprego. Não dá para tolerar isso. Não é normal isso na vida organizada de qualquer país. Ninguém os representa. Esses brasileiros não têm nenhuma proteção, nenhum direito, e ninguém fala deles. Nós precisamos repensar as instituições do mercado de trabalho brasileiro tendo como objetivo maior permitir que todo brasileiro tenha, na sua atividade laboral, uma situação que lhe dê a condição de cidadão pleno. Mas o que nós temos hoje com a economia informal é subcidadãos, sem nenhum direito garantido de nada.

P. Mas com as mudanças tecnológicas, como  elas vão ter um posto de trabalho formal? Devemos começar a falar em direitos sociais desvinculados do emprego, como por exemplo uma renda mínima universal?

R. Acho um caminho interessante, mas com muito critério. Os recursos são limitados, o orçamento é restrito, e tem que ter muita seriedade. Esse é um drama que teremos que necessariamente equacionar. As instituições ficam muito defasadas em relação a mudança da vida prática e da tecnologia. Atualizar as instituições e as demandas dessa nova economia será um processo de tentativa e erro.

Há um artigo da minha coletânea chamado 'O outro Hayek', um neoliberal austríaco que defende renda mínima garantida universal, independente da pessoa trabalhar ou não. Eu adoraria estar numa sociedade que propiciasse ao cidadão uma renda independente do fato de ele estar ou não trabalhando. É um sonho de liberdade. Mas precisamos construir o caminho para isso.

P. Que balanço você faz do Governo Temer?

R. É uma pergunta que eu me faço e não consigo responder. Onde nós estaríamos agora se o Governo Dilma tivesse continuado? O Brasil estava na UTI, com sinais vitais em queda livre, sem nenhum horizonte. Era uma situação sem a menor perspectiva. Então, do ponto de vista econômico, foi um alívio ter uma boa equipe econômica, uma mudança para melhor na governança das estatais e ter um programa de reformas, que no geral é bem correto, a Ponte para o Futuro, que coloca uma agenda de mudanças para que o país volte a recuperar o crescimento e a sustentabilidade das contas públicas. Lamentavelmente, o componente político do governo Temer é... Ele não tem a menor credibilidade e acabou sendo pilhado em 14 de maio de 2017 por aquela conversa de comparsas no subsolo do Palácio. A partir de então o governo entrou no modo de sobrevivência. A agenda de reformas que estava sendo encaminhada foi praticamente abortada, interrompida, e o governo consumiu o que lhe restava de capital político simplesmente para se manter vivo diante das denúncias e de sua enorme e precária fragilidade.

P. O brasileiro ainda não sente os efeitos da recuperação. O desemprego é alto e a greve dos caminhoneiros evidenciou o como é difícil viver. Por quê?

R. Primeiro porque o governo Temer perdeu totalmente a capacidade de iniciativa ao não fazer a mais importante das reformas, que era a da Previdência. As expectativas gerais da economia foram prejudicadas por essa falência do projeto reformista. Acho que o governo Temer errou no sequenciamento das reformas, porque ele deveria ter usado o capital político do início de seu governo para fazer primeiro o mais difícil, e depois fazer o menos conflituoso. E tem um fato também, normal em todo processo de recuperação, que o emprego é uma variável de resposta lenta. Assim como o desemprego demora para aumentar quando começa a recessão, porque as empresas querem se sentir seguras de que esse quadro é permanente antes de demitir, e porque é caro demitir, o desemprego demora a cair quando acaba a recessão. Porque tem muita ociosidade, o quadro não está totalmente definido... As empresas relutam em contratar. Agora, o Brasil saiu da pior recessão da sua história. É muito desapontador o ritmo, é muito incerta a continuidade desse movimento, principalmente depois da greve, mas não sei onde estaríamos com o Governo Dilma.

P. Em 'O elogio do vira-lata', título do seu livro, você aborda a questão do complexo de vira-lata do brasileiro. Qual é a origem desta personalidade?

R. O complexo de vira-lata foi cunhado como expressão pelo Nelson Rodrigues, num contexto inclusive futebolístico. Mas depois isso transcendeu muito e entrou no imaginário brasileiro a ideia do complexo de vira-lata. Na verdade, esse sentimento de inferioridade, esse narcisismo as avessas da psicologia brasileira, não surge no momento em que é nomeado. Ele nos acompanha desde nossa origem como colônia. O mazombo era como primeiro se chamou o brasileiro, que é o filho do português imigrante com negros e indígenas. Eram chamados de brasileiros aqueles que exploravam o pau-brasil, faziam fortuna e voltavam pra Portugal. E o mazombo era uma figura... O termo é de uma língua angolana que denota bruto, iletrado, rústico, uma pessoa sem classe e distinção. O mazombo tinha vergonha de ser quem era e seu sonho era voltar pra Portugal, estudar em Coimbra e virar um cidadão de primeira. Então, o complexo de vira-lata é um traço quase de nascença da vida brasileira. E continua muito forte. A preferência por produtos importados, a inveja dos “civilizados” que têm tudo, conforto, segurança, renda, coisas de primeiro mundo.

P. Ao mesmo tempo, você ressalta e elogia uma condição nossa de vira-lata...

R. Me incomodava muito o uso do termo “vira-lata” para denotar a nossa condição inferior. O Nelson Rodrigues está coberto de razão quando ele fala que nós temos cronicamente um sentimento de inferioridade. Mas por que eleger o vira-lata do símbolo mor do que há de errado conosco? Por que vira-lata? Eu acho bela e acho digna de reconhecimento de orgulho a condição vira-lata. A síntese dessa força do ensaio é a seguinte: o verdadeiro complexo de vira-lata é a ideia de que há algo errado em ser vira-lata. E tem um subtexto aí que é o seguinte: o que é ser vira-lata? É a mistura. É não ter raça definida. E o Brasil é mestiço, tanto genética como principalmente culturalmente. Nós somos uma mestiçagens de elementos ameríndios, africanos e europeus de diversas procedências. E isso é o que nos dá força e esperança de ter uma contribuição original diante de um ocidente que está num beco sem saída.

P. Ao longo do século XX, sempre se falou que a mestiçagem tinha levado o Brasil a uma democracia racial. Mas hoje os movimentos negros estão apontando para o fato de que isso nunca existiu. De que o racismo sempre foi realidade e nunca se quis falar sobre isso. Esses mesmos movimentos negros denunciam que esse processo de mestiçagem do Brasil, sobretudo na época da escravidão, foi fruto de processos violentos, estupros... E também como um objetivo maior de embranquecer a população, como você bem aponta em seu texto. Como você se posiciona nesse debate?

R. A democracia racial foi usada como véu a encobrir uma realidade objetiva de discriminação e de racismo. É uma ideologia que encobre uma realidade que não pode ser negada. Agora, como ideal e como valor, acho que é por aí. Devemos perseguir uma igualdade de oportunidade de maneira muito mais agressiva e corajosa do que fizemos até hoje. Temos que reconhecer a existência da descriminação e combatê-la por todos os meios. Agora, nós não podemos negar, em nome disso, o que nos diferencia e o que nós temos de melhor, que é a mistura. A história é um processo muitas vezes tortuoso. A vinda dos africanos para a América é a coisa mais inominável em termos de violência e crueldade. Mas é um fato. Nós estamos aqui e estamos juntos. A minha tataravó era uma negra ex-escrava. Nós somos misturados, as pesquisas genéticas comprovam isso do ponto de vista biológico, mas o mais importante não é o biológico. É a integração cultural na música, na dança, na culinária, na literatura, no cinema... Os três gênios universais brasileiros são vira-latas: Aleijadinho, Machado de Assis e Pelé. São frutos dessa mistura, e é o que temos de melhor. E acho que temos que enaltecer e cultivar nossa condição vira-lata, que foi muito bem resumida num samba cantado pela Carmem Miranda, de um ator chamado Alberto Ribeiro, que chama-se “Cachorro Vira-Lata”. Ele enaltece a condição da liberdade do vira-lata sem coleira e sem patrão. Um belo sonho.

16.6.18

Jorge Luis Borges: "a un viejo poeta" / "a um velho poeta": trad. de Josely Vianna Baptista



A un viejo poeta

Caminas por el campo de Castilla
y casi no lo ves. Un intrincado
versículo de Juan es tu cuidado
y apenas reparaste en la amarilla

puesta del sol. La vaga luz delira
y en el confín del Este se dilata
esa luna de escarnio y de escarlata
que es acaso el espejo de la Ira.

Alzas los ojos y la miras. Una
memoria de algo que fue tuyo empieza
y se apaga. La pálida cabeza

bajas y sigues caminando triste,
sin recordar el verso que escribiste:
Y su epitafio la sangrienta luna.




a um velho poeta

Caminhas pelo campo de Castela
e quase não o vês. Um intrincado
versículo de João é teu cuidado
e mal percebes a luz amarela

do pôr do sol. A vaga luz delira
e nos confins do Leste se dilata
essa lua de escárnio e de escarlata
que talvez seja o espelho da Ira.

O olhar elevas e a contemplas. Uma
memória de algo que foi teu começa
e se dissipa. A pálida cabeça

curvas e segues caminhando triste,
sem recordar o verso que escreveste:
seu epitáfio a sangrenta lua.




BORGES, Jorge Luis. "a un viejo poeta" / "a um velho poeta". In:_____. O fazedor (1960). Trad. de Josely Vianna Baptista. São Paulo: Companhia das Letras, 2008.

12.6.18

Daniel Maia-Pinto Rodrigues: "É do princípio das tardes"



É do princípio das tardes
do sol das tardes
das janelas abertas
das cigarras
e é do sol a entrar pelas janelas
da sua incidência nas cristaleiras
nas macãs e nos jarrões,
é das iluminadas peças de bronze
do segundo plano das aguarelas
das mais à sombra fotografias da família
que eu saio
durante as horas paradas
para escrever poesia.




RODRIGUES, Daniel Maia-Pinto. "É do princípio das tardes". In:_____. Dióspiro, poesia reunida 1977-2007. Org. por Luís Miguel Queirós e José Carlos Tinoco. Vila Nova de Famalicão: Quasi Edições, 2007. 

10.6.18

Luís Miguel Nava: "Rapazes"



Rapazes

Foi há cerca de um ano que eu
os vi, onde o granito e a luz são consanguíneos.

Seguiam abraçados um
ao outro, o pensamento posto no amoroso
lençol de que era na mão deles
o guarda-chuva uma antecipação.



NAVA, Luís Miguel. "Rapazes". In:_____. Poesia completa 1979-1994. Org. por Gastão Cruz. Lisboa: Publicações Dom Quixote, 2002.

7.6.18

Mário Quintana: "O poema. I"; "O poema. II"



O poema. I

Um poema como um gole d'água bebido no escuro.
Como um pobre animal palpitando ferido.
Como pequenina moeda de prata perdida para sempre na floresta
[noturna.
Um poema sem outra angústia que a sua misteriosa condição de
[poema.

Triste.
Solitário.
Único.
Ferido de mortal beleza.




O poema. 2

O poema é uma pedra no abismo,
O eco do poema desloca os perfis:
Para bem das águas e das almas
Assassinemos o poeta..




QUINTANA, Mário. "O poema. I"; "O poema. II". In: BANDEIRA, Manuel. "Antologia". In: Apresentação da poesia brasileira, seguida de uma antologia. São Paulo: Cosanaify, 2009.

4.6.18

Luis Turiba: "Perxistência"



Perxistência

sonhos senhas
sedes credos
scripts santos ao sol
flores filtros
afloram o céu

cada passo um destino
cada ritmo uma rotina
caminhada é teimosia
mas sim, sigo rumo ao fim



 TURIBA, Luis. "Perxistência". In:_____. Qtais. Rio de Janeiro: 7 Letras, 2013.

2.6.18

Caio Meira: "Cozimento"



Cozimento

Ri o poeta
vindo da cozinha:
"adivinhe o que acaba
de sair do forno."
"Pães de queijo?"
"Não.
Um poema."



MEIRA, Caio. "Cozimento". In:_____. Romance. Rio de Janeiro: Circuito, 2013.

30.5.18

Waly Salomão: "Câmara de ecos"



Câmara de ecos

Cresci sob um teto sossegado,
meu sonho era um pequenino sonho meu.
Na ciência dos cuidados fui treinado.

Agora, entre meu ser e o ser alheio
a linha de fronteira se rompeu.



SALOMÃO, Waly. "Câmara de ecos". In:_____. "Algaravias: Câmara de ecos [1996]". In:_____. Poesia total. São Paulo: Companhia das Letras, 2014.


27.5.18

Arthur Rimbaud: "Bonne pensée du matin" / "Bom augúrio matutino": trad. de Ivo Barroso



Bom augúrio matutino

Verão, às quatro da madrugada
O sono do amor ainda demora.
Sob os bosques dispersa a aurora
            O odor da noite festejada.

Mas lá, em seus imensos canteiros
De obras, em mangas de camisa,
Ao sol das Hespérides, já se agitam
            Os carpinteiros.

Em seus desertos de serragem,
Caros lambris preparam, lentos,
Em que a riqueza da cidade
          Verá falsos firmamentos.

Ah! por esses belos Fabricantes,
Súditos de um rei da Babilônia,
Vênus! deixa um pouco os Amantes
          Com as almas em coroa.

          Rainha dos Pastores!
   Dai-lhes o trago deste dia,
   Para que em paz recobrem forças
À espera do banho de mar, ao meio-dia.





Bonne pensée du matin

À quatre heures du matin, l'été,
Le sommeil d'amour dure encore.
Sous les bosquets, l'aube évapore
          L'odeur du soir fêté.

Mais là-bas dans l'immense chantier
Vers le soleil des Hespérides,
En bras de chemise, les charpentiers
          Déjà s'agitent.

Dans leur désert de mousse, tranquilles,
Ils préparent les lambris précieux
Où la richesse de la ville
          Rira sous de faux cieux.

Ah ! pour ces Ouvriers charmants
Sujets d'un roi de Babylone,
Vénus ! laisse un peu les Amants
          Dont l'âme est en couronne

          Ô Reine des Bergers !
  Porte aux travailleurs l'eau-de-vie.
  Pour que leurs forces soient en paix
En attendant le bain dans la mer, à midi.





RIMBAUD, Arthur. "Bonne pensée du matin" / "Bom augúrio matutino". In:_____. Poesia completa. Edição bilingue. Trad. de Ivo Barroso. Rio de Janeiro: Topbooks, 1995.

25.5.18

Victor Colonna: "Curto-circuito"



Curto-circuito

De repente eu paro e olho: é ele!
Desengato marcha-a-ré crescente
Meu rosto fica roxo, vermelho
Desamarra-se o elo da corrente.

Curto-circuito, incêndio, tragédia!
Meu cabelo arrepiado espeta
Meu pulso desencapado te choca
Meu corpo endiabrado, capeta.

E meu peito pega fogo: é vida.
Um calor que se desprende e solta
Amor é caminho longo: é ida
É só ida. Não tem volta.




COLONNA, Victor. "Curto-circuito". In:_____. Cabeça, tronco e versos. Rio de Janeiro: Editora da Palavra, 2009.

22.5.18

"Mergulho": exposição de pinturas de Luiz Pizarro



Clique no cartaz, para ampliá-lo:

Leo Gonçalves: "Lição de shiatsu # 1"



Lição de shiatsu # 1

para massagem no ego:
usar a língua






GONÇALVES, Leo. "Lição de shiatsu # 1". In:_____. Use o assento para flutuar (segunda edição, revista e ampliada). Belo Horizonte: Crisálida, 2018.

20.5.18

Rogério Batalha: "Não se ouvia barulho"



Não se ouvia barulho

não se ouvia barulho
quando a lua deu colo às minhas ruínas
quando um verso represou minhas enchentes
não se ouvia barulho
quando as pedras me adotaram como filho
não se ouvia barulho
quando o andarilho fitou os olhos tristes
de sua aldeia
não se ouvia barulho
sobre os trapos que devoravam
a criança síria
morta
numa praia deserta.




BATALHA, Rogério. "Não se ouvia barulho". In:_____. Azul. Rio de Janeiro: TextoTerritório, 2016.

18.5.18

Friedrich Hölderlin: "Die Götter" / "Os deuses": trad. de Paulo Quintela



                            Os deuses

    Éter calmo! sempre bela me conservas
        A alma no meio da dor; e ante os teus raios,
            Hélios! se enobrece em valentia
                Muitas vezes o peito revoltado.

    Ó bons Deuses! pobre é quem vos não conhece;
        No peito rude nunca o dissídio se lhe acalma,
            E o mundo pra ele é noite, e nenhuma
                Alegria lhe medra nem canção nenhuma.

    Vós só, com vossa juventude eterna, mantendes
        Nos corações que vos amam a candura infantil,
            E não deixais que em cuidados e erros
                Jamais lhe morra no luto o Génio.



                            Die Götter

    Du stiller Aether! immer bewahrst du schön
        Die Seele mir im Schmerz, und es adelt sich
            Zur Tapferkeit vor deinen Strahlen,
                Helios! oft die empörte Brust mir.

    Ihr guten Götter! arm ist, wer euch nicht kennt,
        Im rohen Busen ruhet der Zwist ihm nie,
            Und Nacht ist ihm die Welt und keine
                Freude gedeihet und kein Gesang ihm.

    Nur ihr, mit eurer ewigen Jugend, nährt
        In Herzen, die euch lieben, den Kindersinn,
            Und laßt in Sorgen und in Irren
                Nimmer den Genius sich vertrauern.




HÖLDERLIN, Friedrich. "Die Götter" / "Os deuses". In:_____. Hölderlin: Poemas. Org. e trad. de Paulo Quintela. Coimbra: Atlântida, 1959.

[Hölderlin: Gedichte 1800-1804, S. 15. Digitale Bibliothek Band 75: Deutsche Lyrik von Luther bis Rilke, S. 54677 (vgl. Hölderlin-KSA Bd. 2, S. 16)]



15.5.18

Casimiro de Brito: "Velho como as flores"



100

Velho como as flores
o vinho respira
no meu copo.
Velho como as aves 
o tinto que bebo
com amigos
que partiram.





BRITO, Casimiro de. "Velho como as flores". In:_____. Arte de bem morrer.  Lisboa: Roma Editora, 2007.

13.5.18

Manuel Bandeira: "Porquinho da Índia"




Porquinho-da-Índia

Quando eu tinha seis anos
Ganhei um porquinho-da-índia.
Que dor de coração me dava
Porque o bichinho só queria estar debaixo do fogão!
Levava ele prá sala
Pra os lugares mais bonitos mais limpinhos
Ele não gostava:
Queria era estar debaixo do fogão.
Não fazia caso nenhum das minhas ternurinhas…

— O meu porquinho-da-índia foi minha primeira namorada.




BANDEIRA, Maznuel. "Porquinho-da-Índia". In:_____. Poesia completa e prosa. Rio de Janeiro: José Aguilar, 1967.

11.5.18

Adriano Nunes: "Maresia"

Agradeço a meu amigo Adriano Nunes pelo seguinte presente:


Maresia
                para Antonio Cicero


Vento do mar...
Não há sereias
Silentes, há
O sol na veia
Da verve, já
À vez se dar.
Passa o pensar...
A grã voz? Eia!
Passa-se a amar
O que incendeia
A vida, lá
Onde o ser há.
Vento no mar,
Quem nos rodeia
Está a par
De tudo, ou teima
Em duvidar
Do som ao ar?
O sentir dá
Mil voltas e, à
Flor do olhar,
Sonhos semeia.
O que mais há
Além do lar?




Adriano Nunes

9.5.18

Eugénio de Andrade: "As mãos e os frutos"



As mãos e os frutos

Shelley sem anjos e sem pureza,
Aqui estou à tua espera nesta praça,
Onde não há pombos mansos mas tristeza
E uma fonte por onde a água já não passa.

Das árvores não te falo pois estão nuas;
Das casas não vale a pena porque estão
Gastas pelo relógio e pelas luas
E pelos olhos de quem espera em vão.

De mim podia falar-te, mas não sei
Que dizer-te desta história de maneira
Que te pareça natural a minha voz.

Só sei que passo aqui a tarde inteira
Tecendo estes versos e a noite
Que te há-de trazer e nos há-de deixar sós.




ANDRADE, Eugénio de. "As mãos e os frutos". In: BERARDINELLI, Cleonice (org.). Cinco séculos de sonetos portugueses: de Camões a Fernando Pessoa. Rio de Janeiro: Casa da Palavra, 2013.

7.5.18

Armando Freitas Filho: "A tarde precipita sua cor"




A tarde precipita sua cor 
cai, no começo 
      no princípio da noite 
e o que ainda aqui resiste 
meio fera, ao precipício 
ficou na beira da taça 
que não suporta mais 
sequer um riso 
pois todo cristal está sempre
na iminência, um minuto antes
            de partir.





FREITAS FILHO, Armando. "A tarde precipita sua cor". In:_____. Uma antologia. Vila Nova de Famalicão: Quasi, 2006.

5.5.18

Hart Crane: "Medusa": trad. de Augusto de Campos




Medusa



“Caia comigo

Nas estrelas frígidas

Caia comigo

Na luz do delírio

Mergulhe

Onde não há canção

Salvo as cãs dos ventos velhos.


Siga-me

Até o fim,

Até o caos estonteante

O eterno caos fervente

Dos meus cabelos!


Contemple a sua amante, –

Pedra!”




Medusa


"Fall with me

Through the frigid stars:

Fall with me

Through the raving light: –

Sink

Where is no song

But only the white hair of aged winds.



Follow

Into utterness,

Into dizzying chaos, –

The eternal boiling chaos

Of my locks!



Behold thy lover, -

Stone!"





CRANE, Hart. "Medusa". In: CAMPOS, Augusto de (org. e trad.). Poesia da recusa. São Paulo: Perspectiva, 2006.

3.5.18

Jorge Luis Borges: "Laberinto" / "Labirinto": trad. de Augusto de Campos



Labirinto

Não haverá nunca uma porta. Já estás dentro.
E o alcácer abarca o universo
E não tem anverso nem reverso
Não tem extremo muro nem secreto centro.

Não esperes que o rigor do teu caminho
Que fatalmente se bifurca em outro,
Que fatalmente se bifurca em outro,
Terá fim. É de ferro teu destino

Como o juiz. Não creias na investida
Do touro que é um homem cuja estranha
Forma plural dá horror a essa maranha

De interminável  pedra entretecida.
Não virá. Nada esperes. Nem te espera
No negro crepúsculo uma fera.





Laberinto

No habrá nunca una puerta. Estás adentro
Y el alcázar abarca el universo
Y no tiene ni anverso ni reverso
Ni externo muro ni secreto centro.

No esperes que el rigor de tu camino
Que tercamente se bifurca en otro,
Que tercamente se bifurca en otro,
Tendrá fin. Es de hierro tu destino

Como tu juez. No aguardes la embestida
Del toro que es un hombre y cuya extraña
Forma plural da horror a la maraña

De interminable piedra entretejida.
No existe. Nada esperes. Ni siquiera
En el negro crepúsculo la fiera.




BORGES, Jorge Luis. "Laberinto" / "Labirinto". In: CAMPOS, Augusto de. Quase Borges. 20 transpoemas e uma entrevista (organização e tradução). São Paulo: Terracota, 2013.

1.5.18

Jacques Prévert: "Quand..." / "Quando...": trad. de Silviano Santiago



Quando...

Quando o leãozinho almoça
a leoa rejuvenesce
Quando o fogo exige a sua parte
a terra enrubesce
Quando a morte lhe fala do amor
a vida estremece
Quando a vida lhe fala da morte
o amor sorri.




Quand...

Quand le lionceau déjeune
la lionne rajeunit
Quand le feu réclame sa part
la terre rougit
Quand la mort lui parle de l’amour
la vie frémit
Quand la vie lui parle de la mort
l’amour sourit.





PRÉVERT, Jacques. "Quand..."/"Quando". In:_____. Poemas. Seleção e trad. de Silviano Santiago. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1985.

29.4.18

Marco Lucchesi: "Camões"




Camões




mais


belo


sol


quando


te


pões


nos rubros


mares


de Camões





LUCCHESI, Marco. "Camões". In:_____. Clio. São Paulo: Biblioteca Azul, 2014.

27.4.18

Giuseppe Ungaretti: "Agonia": Trad. de Geraldo Holanda Cavalcanti



Agonia

Morrer como as calhandras sedentas
na miragem

Ou como a codorniz
cruzado o mar
sobre as primeiras moitas
porque já não tem ânimo
de voar

Mas não viver se queixando
como um pintassilgo cego




Agonia

Morire come le allodole assetate
sul miraggio

O come la quaglia
passato il mare
nei primi cespugli
perché di volare
non ha più voglia

Ma non vivere di lamento
come un cardellino accecato





UNGARETTI, Giuseppe. "Agonia". In:_____. Poemas. Trad. de Geraldo Holanda Cavalcanti. São Paulo: USP, 2017.

25.4.18

Frank O'Hara: "My heart" / "Meu coração": trad. de Beatriz Bastos e Paulo Henriques Britto



Meu coração

Não vou chorar o tempo todo
nem hei de rir o tempo todo,
não prefiro uma “tendência” a outra.
Prefiro o imediatismo de um filme ruim,
não só os filmes b, mas também
a superprodução espetacular. Quero ser
ao menos tão vital quanto o vulgar. E se
um aficionado de minha bagunça exclamar “Isso
não parece coisa do Frank!”, que bom! Não
uso ternos azuis e marrons o tempo todo,
não é? Não. Às vezes vou à Ópera com a roupa
de trabalho. Quero meus pés descalços,
o meu rosto barbeado, e o meu coração —
ninguém manda no coração, mas
o melhor dele, a minha poesia, está aberta.





My heart

I'm not going to cry all the time
nor shall I laugh all the time,
I don't prefer one "strain" to another.
I'd have the immediacy of a bad movie,
not just a sleeper, but also the big,
overproduced first-run kind. I want to be
at least as alive as the vulgar. And if
some aficionado of my mess says "That's
not like Frank!", all to the good! I
don't wear brown and gray suits all the time,
do I? No. I wear workshirts to the opera,
often. I want my feet to be bare,
I want my face to be shaven, and my heart—
you can't plan on the heart, but
the better part of it, my poetry, is open.




O'HARA, Frank. "My heart" / "Meu coração". In:_____. Meu coração está no bolso. Trad. de Beatriz Bastos e Paulo Henriques Britto. São Paulo: Luna Parque, 2017.

23.4.18

Cecília Meireles: "Timidez"




Timidez

Basta-me um pequeno gesto,
feito de longe e de leve,
para que venhas comigo
e eu para sempre te leve. . .

— mas só esse eu não farei.

Uma palavra caída
das montanhas dos instantes
desmancha todos os mares
e une as terras mais distantes..

— palavra que eu não direi.

Para que tu me adivinhes,
entre os ventos taciturnos,
apago meus pensamentos,
ponho vestidos noturnos,

— que amargamente inventei.

E, enquanto não me descobres,
os mundos vão navegando
nos ares certos do tempo,
até não se sabe quando...

— e um dia me acabarei.





MEIRELES, Cecília. "Timidez". In: GULLAR, Ferreira (org.). O prazer do poema: Uma antologia pessoal. Rio de Janeiro: Edições de Janeiro, 2014.


21.4.18

Aleksandr Blok: "Do ciclo 'Dança da morte'": trad. de Augusto de Campos



Do ciclo Dança da morte

Noite. Fanal. Rua. Farmácia.
Uma luz estúpida e baça.
Ainda que vivas outra vida,
Tudo é igual. Não há saída.

Morres – e tudo recomeça,
E se repete a mesma peça:
Noite – rugas de gelo no canal.
Farmácia. Rua. Fanal.




BLOK, Aleksandr. "Do ciclo Dança da morte". Trad. de Augusto de Campos. In: CAMPOS, Augusto de; CAMPOS, Haroldo de; SCHNAIDERMAN, Boris (organizadores e tradutores). Poesia russa moderna. São Paulo: Perspectiva, 2012.