23.12.21

Carlos Drummond de Andrade: "A vida passada a limpo"

 



A vida passada a limpo



Ó esplêndida lua, debruçada

sobre Joaquim Nabuco, 81.

Tu não banhas apenas a fachada

e o quarto de dormir, prenda comum.


Baixas a um vago em mim, onde nenhum

halo humano ou divino fez pousada,

e me penetras, lâmina de Ogum,

e sou uma lagoa iluminada.


Tudo branco, no tempo. Que limpeza

nos resíduos e vozes e na cor

que era sinistra, e agora, flor surpresa,


já não destila mágoa nem furor:

fruto de aceitação da natureza,

essa alvura de morte lembra amor.


 



ANDRADE, Carlos Drummond de. “A. vida passada a limpo”. In:_____ “A vida passada a limpo”. In:_____, Poesia e prosa. Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 1988.

19.12.21

Manuel Bandeira: "Tema e voltas"

 



Tema e voltas




Mas para quê

Tanto sofrimento

Se nos céus há o lento

Deslizar da noite?


Mas para quê

tanto sofrimento

Se lá fora o vento

É um canto na noite?



Mas para quê

tanto sofrimento

Se agora, ao relento,

Cheira a flor da noite?


Mas para quê

tanto sofrimento

Se o meu pensamento

É livre na noite?





BANDEIRA, Manuel. “Tema e voltas”. In:_____ “Belo belo”. In:_____ Poesia completa e prosa. Rio de Janeiro: José Aguilar Editora, 1967.

15.12.21

Fernando Pessoa / Alberto Caeiro (heterônimo): "O luar através dos altos ramos"




O luar através dos altos ramos,

Dizem os poetas todos que ele é mais

Que o luar através dos altos ramos.

Mas para mim, que não sei o que penso,

O que o luar através dos altos ramos

É, além de ser

O luar através dos altos ramos,

É não ser mais

Que o luar através dos altos ramos.




PESSOA, Fernando / CAEIRO, Alberto (heterônimo). “O luar através dos altos ramos”. In:_____. “O guardador de rebanhos”. In: REIS-SÁ, Jorge; LAGE, Rui (0rgs.). Poemas portugueses. Antologia da poesia portuguesa do Séc. XIII ao Séc. XXI. Porto: Porto Editora, 2009.

11.12.21

Rainer Maria Rilke: "Wir genen um mit Blume, Weinblatt, Frucht" / "Ligamo-nos à flor, ao pâmpano e à fruta": trad. por José Paulo Paes

 


Ligamo-nos à flor, ao pâmpano e à fruta


Ligamo-nos à flor, ao pâmpano e à fruta.

Não falam só a fala das quatro estações.

Do escuro surdem vívidas irisações,

onde o brilho da inveja talvez repercuta


dos mortos que refazem a força da terra.

Que sabemos de sua parte em cada messe?

Há muito, livre, o cerne deles transparece

no próprio barro que os despojos lhes encerra.


Fazem-no de bom grado? é o que nos perguntamos.

Esses frutos intensos, trabalho de escravos,

repontam porventura para nós, seus amos?


Ou serão eles os amos, que dormem ignavos

sob as raízes e nos dão, do seu sobejo,

esse dom entre a muda força bruta e o beijo?





Wir gehen um mit Blume, Weinblatt, Frucht


Wir gehen um mit Blume, Weinblatt, Frucht.

Sie sprechen nicht die Sprache nur des Jahres.

Aus Dunkel steigt ein buntes Offenbares

und hat vielleicht den Glanz der Eifersucht


der Toten an sich, die die Erde stärken.

Was wissen wir von ihrem Teil an dem?

Es ist seit lange ihre Art, den Lehm

mit ihrem freien Marke zu durchmärken.


Nun fragt sich nur: tun sie es gern? …

Drängt diese Frucht, ein Werk von schweren Sklaven,

geballt zu uns empor, zu ihren Herrn?


Sind sie die Herrn, die bei den Wurzeln schlafen,

und gönnen uns aus ihren Uberflüssen

dies Zwischending aus stummer Kraft und Küssen?









RILKE, Rainer Maria. "Wir gehen um mit Blume, Weinblatt, Frucht" / "Ligamo-nos à flor, ao pâmpano e à fruta". In: "Os sonetos a Orfeu". In: R.M. Rilke: Poemas. Org. e trad. por José Paulo Paes. São Paulo: Companhhia das Letras, 1993.




9.12.21

Stéphane Mallarmé: "Renouveau" / "Primavera"

 



Primavera



 A primavera enferma expulsou sem clemência

 O inverno lúcido, estação de arte serena,

 E no meu ser, que ao sangue obscuro se condena,

 Num longo bocejar se espreguiça a impotência.


 Crepúsculos sem cor amornam-me a cabeça,

 Velha tumba que cinge um círculo de ferro,

 E, amargo, atrás de um sonho vago e belo eu erro

 Pelos trigais, onde se exibe a seiva espessa.


 Exausto, eu tombo enfim entre árvores e olores,

 E, cavando uma fossa para o sonho, a boca

 Mordendo a terra quente onde germinam flores,


 Espero que o meu tédio, aos poucos, vá-se embora…

 –  Porém, do alto, o Azul ri sobre a revoada louca

 Dos pássaros em flor que gorjeiam à aurora.






Renouveau


Le printemps maladif a chassé tristement

L'hiver, saison de l'art serein, l'hiver lucide,

Et, dans mon être à qui le sang morne préside

L'impuissance s'étire en un long bâillement.


Des crépuscules blancs tiédissent sous mon crâne

Qu'un cercle de fer serre ainsi qu'un vieux tombeau

Et triste, j'erre après un rêve vague et beau,

Par les champs où la sève immense se pavane


Puis je tombe énervé de parfums d'arbres, las,

Et creusant de ma face une fosse à mon rêve,

Mordant la terre chaude où poussent les lilas,


J'attends, en m'abîmant que mon ennui s'élève...

- Cependant l'Azur rit sur la haie et l'éveil

De tant d'oiseaux en fleur gazouillant au soleil.





MALLARMÉ, Stéphane. "Renouveau" / "Primavera". In: CAMPOS, Augusto. (Org. e trad.) Poesia da recusa. São Paulo: Perspectiva, 2006.




7.12.21

Jacques Prévert: "Le temps perdu" / "O tempo perdido". trad. por Silviano Santiago

 



O tempo perdido


Diante do portão da fábrica

o operário de repente para

o dia lindo agarrou-o pelo paletó

e como ele se volta

e olha o sol

vermelhinho redondinho

sorrindo no céu de chumbo

pisca-lhe o olho

familiarmente

Pois é camarada Sol

você não acha

que é babaquice

dar um dia destes 

para um patrão?





Le temps perdu



Devant la porte de l'usine

le travailleur soudain s'arrête

le beau temps l'a tiré par la veste

et comme il se retourne

et regarde le soleil

tout rouge tout rond

souriant dans son ciel de plomb

il cligne de l'œil

familièrement

Dis donc camarade Soleil

tu ne trouves pas

que c'est plutôt con

de donner une journée pareille

à un patron ?








PRÉVERT, Jacques. "Le temps perdu" / "O tempo perdido". In: PRÉVERT,  Jacques. Poemas.. Org. e trad. por Silviano Santiago. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1985.


3.12.21

Daniel Maia-Pinto Rodrigues: "A sorte favorece os rapazes"

 



A sorte favorece os rapazes.




RODRIGUES, Daniel Maia-Pinto. "A sorte favorece os rapazes". In: A sorte favorece os rapazes. Fundação Ciência e Desenvolvimento / Teatro do Campo Alegre, 2001.