31.12.14

Eugen Gomringer: "vom rand nach innern" / "da margem para dentro": trad. Roswitha Friesen Blume e Markus J. Weininger




da margem
para dentro

e dentro
ao meio

pelo centro
do meio

para fora
à margem




vom rand
nach innen

im innern
zur mitte

duchs zentrum
der mitte

nach aussen
zum rand



GOMRINGER, Eugen. "vom rand nach innen". In: BLUME, Rosvitha Friesen; WEININGER, Markus J. Weininger (org. e trad.). Seis décadas de poesia alemã. Florianópolis: Editora UFSC, 2012.

29.12.14

Carlos Drummond de Andrade: "O pintor ao meu lado"




O pintor ao meu lado
reclama:
Quando serei falsificado?



ANDRADE, Carlos Drummond de. "O pintor ao meu lado". In: CALCANHOTTO, Adriana (organização e ilustrações). Haicai do Brasil. Rio de Janeiro: Edições de Janeiro, 2014.

27.12.14

Jorge Luís Borges: "Son los ríos" / "São os rios: trad. Josely Vianna Baptista

Agradeço ao Erick Monteiro Moraes por me ter lembrado do seguinte poema de Borges, que amo, e que pertence ao mesmo livro -- Los conjurados -- que o poema "Nubes I", que já postei aqui.



Son los ríos

Somos el tiempo. Somos la famosa
parábola de Heráclito el Oscuro.
Somos el agua, no el diamante duro,
la que se pierde, no la que reposa.
Somos el río y somos aquel griego
que se mira en el río. Su reflejo
cambia en el agua del cambiante espejo,
en el cristal que cambia como el fuego.
Somos el vano río prefijado,
rumbo a su mar. La sombra lo ha cercado.
Todo nos dijo adiós, todo se aleja.
La memoria no acuña su moneda.
Y sin embargo hay algo que se queda
y sin embargo hay algo que se queja.


BORGES, Jorge Luís. “Son los rios”. In:_____. “Los conjurados”. In:_____. Obras completas, vol.2. Buenos Aires: Emecé, 1989.



São os rios

Somos o tempo. Somos a famosa
parábola de Heráclito, o Obscuro.
Somos a água, não o diamante duro,
a que se perde, não a remansosa.
Somos o rio e também aquele grego
que se olha no rio. Seu reflexo
varia na água do espelho perplexo,
no cristal, feito o fogo, sem sossego.
Somos o inútil rio prefixado,
rumo a seu mar. A sombra o tem cercado.
Tudo nos disse adeus, tudo nos deixa.
Na moeda a memória não perdura.
E no entanto algo ainda dura,
e no entanto algo ainda se queixa.


BORGES, Jorge Luís. Poesía. Trad. Josely Vianna Baptista. São Paulo: Companhia das Letras, 2009.

26.12.14

Glauco Mattoso: "Soneto rodador [1001]"





Soneto rodador [1001]


Palíndromo perfeito é o "oroboro",
a cobra que devora o próprio rabo.
Com esse talismã começo e acabo
um tema que dos bruxos é namoro.

Porém, como sou falto de decoro
e de ser pornográfico me gabo,
engulo meu caralho, até me enrabo
e rindo dessa dor gozo meu choro.

Assim sempre vivi, juntando extremos,
tirando da agonia meu proveito,
casando maus anjinhos com bons demos.

Erótico e autofágico é o conceito,
portanto, do "oroboro": eis como vemos
a cobra do palíndromo perfeito.



MATTOSO,  Glauco. "Soneto rodador". In: CORONA, Ricardo (org.). Cobra. Curitiba: Medusa, 2014.

25.12.14

Francisco Bosco: de "Flashes"





O desafio da crítica é aproximar-se e distanciar-se o máximo possível da obra -- ao mesmo tempo.


BOSCO, Francisco. "Flashes". In:_____. Da amizade. Rio de Janeiro: 7 Letras, 2003.

24.12.14

Vera Pedrosa: "arco"





arco

há uma direção
agora
árvores se reúnem
sons de água
configuram-se

de onde voltamos
o rio desce
entre rochas
pousa em bacias
escapa entre falhas
detém-se em lajes
desce entre lírios
o basalto o escurece
poeira de ouro
em suas areias
cipoais
perturbam-lhe o contorno

quanto ao moço
nele se amava
o desejo de tudo
quando parado na pedra
o mergulho e
quando nadava
lentamente

de onde voltávamos
flores se interpunham
nos caminhos
mas era como se um arco ardesse
ante o olhar entre os ânimos

o rio desce
e quem se descobre
nas águas velozes
distantes

outros campos
outros passeios
adiro à evidência
de outros vales



PEDROSA, Vera. "arco". In:_____. De onde voltamos o rio desce. Rio de Janeiro: Bem-Te-Vi, 2011.





22.12.14

Luís MIguel Nava: "Crawl"





                                          Crawl



     Às vezes, entranhando-me num espelho, consigo dar nele duas ou três braçadas sucessivas.



NAVA, Luís Miguel. "Rebentação". In:_____. Poesia completa. Org. de Gastão Cruz. Lisboa: Dom Quixote, 2002.

19.12.14

Adriano Nunes: "Acontecimentos"




A C O N T E C I M E N T O S


C I C E R O E O S E R
C I C E R O E O S E M
C I C E R O E O S M A
C I C E R O E O M A R
C I C E R O E M A R I
C I C E R O M A R I N
C I C E R M A R I N A
C I C E M A R I N A E
C I C M A R I N A E O
C I M A R I N A E O S
C M A R I N A E O S O
M A R I N A E O S O M



NUNES, Adriano. "Acontecimentos". In: Blog Quefaçocomoquenãofaço. URL: http://astripasdoverso.blogspot.com.br/. Acessado em 19/12/2014.

18.12.14

João Pedro Fagerlande: "a pálpebra desce e observa"




a pálpebra desce e observa
é sempre noite num dos hemisférios
o sol não esclarece tudo

olhos não abrem para dentro
se abrissem
ai se abrissem

não tenha medo
não há sombras no escuro



FAGERLANDE, João Pedro. Peludo.Rio de Janeiro: Baluarte, 2013.

17.12.14

Paulo Mendes Campos: "Tempo-eternidade"



Tempo-eternidade

O instante é tudo para mim que ausente
do segredo que os dias encadeia
me abismo na canção que pastoreia
as infinitas nuvens do presente.

Pobre de tempo fico transparente
à luz desta canção que me rodeia
como se a carne se fizesse alheia
à nossa opacidade descontente.

Nos meus olhos o tempo é uma cegueira
e a minha eternidade uma bandeira
aberta em céu azul de solidões.

Sem margens sem destino sem história
o tempo que se esvai é minha glória
e o susto de minh´alma sem razões.



CAMPOS, Paulo Mendes. Antologia poética. Rio de Janeiro: Fontana Expressão e Cultura, 1978.

15.12.14

Carlos Drummond de Andrade: de carta a José Guilherme Merquior




Do interessantíssimo depoimento de José Mário Pereira sobre seu amigo José Guilherme Merquior, publico abaixo um belo trecho da carta que Carlos Drummond de Andrade enviou a Merquior. 

José Mário Pereira explica que Merquior 

doutorou-se em letras pela Sorbonne, orientando de Raymond Cantel, com tese sobre Carlos Drummond de Andrade aprovada com louvor em junho de 1972. Depois de levar meses para acusar a remessa dos capítulos que Merquior lhe enviava, Drummond respondeu:

"Eu poderia  tentar justificar-me alegando que esperava o recebimento do texto completo para lhe escrever. Mas a verdade verdadeira é que, desde a leitura das primeiras páginas, me bateu  uma espécie de inibição que conheço bem, por ser velha companheira de minhas emoções mais puras. Se você estivesse ao meu lado nos momentos de leitura, decerto acharia graça na dificuldade e confusão das palavras que eu lhe dissesse. Talvez até  nem dissesse nenhuma. E na minha cara a encabulação visível diria tudo… ou antes, não diria nada, pois o melhor da sensação escapa a esse código fisionômico. Senti-me confortado, vitalizado, vivo. Meus versos saem sempre de mim como enormes pontos de interrogação, e constituem mais uma procura do que um resultado. Sei muito pouco de mim e duvido muito — você vai achar graça outra vez — de minha existência. Uma palavra que venha de fora pode trazer-me uma certeza positiva ou negativa. A sua veio com uma afirmação, uma força de convicção que me iluminou por dentro. E também com uma sutileza de percepção  e valorização crítica diante da qual  me vejo orgulhoso de nobre orgulho e… esmagado. Eis aí, meu caro Merquior. Estou feliz, por obra e graça de você, e ao mesmo tempo estou bloqueado na expressão dessa felicidade."



PEREIRA, José Mário. "O fenômeno Merquior". In: COSTA E SILVA, Alberto da. O Itamaraty na cultura brasileira. Rio de Janeiro: Francisco Alves, 2002.

13.12.14

Walt Whitman: "Full of life now" / "Pleno de vida agora": trad. Ferreira Gullar




Pleno de vida agora

Pleno de vida agora, consistente, visível,
Eu, quarenta anos vividos, no ano oitenta e três anos dos Estados,
Ao homem que viva daqui a um século, ou dentro de quantos séculos for,
A ti, que ainda não nasceste, dirijo este canto.
Quando leias isto, eu, que agora sou visível, terei me tornado invisível,
Enquanto tu serás consistente e visível, e darás realidade a meus poemas, voltando-te para mim,
Imaginando como seria bom se eu pudesse estar contigo e ser teu camarada:
Faz de conta que eu estou contigo. (E não o duvides muito, porque eu estou aí nesse momento.)



WHITMAN, Walt. "Pleno de vida agora". In: GULLAR, Ferreira (trad. e org.). O prazer do poema. Uma antologia pessoal. Rio de Janeiro: Edições de Janeiro, 2014.



Full of life now

Full of life now, compact, visible,
I, forty years old the eighty-third year of the States,
To one a century hence or any number of centuries hence,
To you yet unborn these, seeking you.
When you read these I that was visible am become invisible,
Now it is you, compact, visible, realizing my poems, seeking me,
Fancying how happy you were if I could be with you and become your comrade;
Be it as if I were with you. (Be not too certain but I am now with you.)



WHITMAN, Walt. "Leaves of grass". In:_____. The complete poems. Org. por Francis Murphy. Hamondsworth: Penguin, 1977. 

11.12.14

Eugénio de Andrade: "Até amanhã"




Até amanhã

Respira. Um corpo horizontal,
tangível, respira.
Um corpo nu, divino,
respira, ondula, infatigável.

Amorosamente toco o que resta dos deuses.
As mãos seguem a inclinação
do peito e tremem,
pesadas de desejo.

Um rio interior aguarda.
Aguarda um relâmpago,
um raio de sol,
outro corpo.

Se encosto o ouvido à sua nudez,
uma música sobe,
ergue-se do sangue,
prolonga outra música.

Um novo corpo nasce,
nasce dessa música que não cessa,
desse bosque rumoroso de luz,
debaixo do meu corpo desvelado.



ANDRADE, Eugénio de. "Até amanhã". In:_____. Poesia. Porto: Modo de Ler, 2011.

9.12.14

Gilbert Murray: sobre os deuses e a criação do mundo




Meu amigo Adriano Nunes me disse que, tendo lido o fragmento 30 de Heráclito (que se encontra aqui), lembrou-se da seguinte afirmação de Gilbert Murray:


Os deuses da maioria dos países pretendem haver criado o mundo. Os deuses olímpicos não têm tal pretensão. O máximo que chegaram a fazer foi conquistá-lo.


MURRAY, Gilbert. Apud ARENDT, Hannah. Entre o passado e o futuro. Trad. de Mauro W. Barbosa. São Paulo: Perspectiva, 2013.

8.12.14

Jorge Luis Borges: de "O credo de um poeta"





Tenho para mim que sou essencialmente um leitor. Como sabem, eu me aventurei na escrita, mas acho que o que li é muito mais importante que o que escrevi. Pois a pessoa lê o que gosta -- porém não escreve o que gostaria de escrever, e sim o que é capaz de escrever.



BORGES, Jorge Luis. "O credo de um poeta". In:_____. Esse ofício do verso. Organização de Calin-Andrei Mihailescu; tradução de José Marcos Macedo. São Paulo: Companhia das Letras, 2000.

3.12.14

Manuel Bandeira: "O martelo"




O Martelo

As rodas rangem na curva
dos trilhos
Inexoravelmente.
Mas eu salvei do meu
naufrágio
Os elementos mais
cotidianos.
O meu quarto resume o
passado em todas as casas
que habitei.
Dentro da noite
No cerne duro da cidade
Me sinto protegido.
Do jardim do convento
Vem o pio da coruja.
Doce como um arrulho de
pomba.
Sei que amanhã quando
acordar
Ouvirei o martelo do
ferreiro
Bater corajoso o seu
cântico de certezas.



BANDEIRA, Manuel. Poesia completa e prosa. Rio de Janeiro: Aguilar, 1967.

30.11.14

Vera Casa Nova: "O tempo passa, Virgínia"




O tempo passa, Virgínia,
os dias e as noites
passam tão rapidamente
que só sentimos o voo.
Quando os anos marcam
nosso corpo,
com as dobras, as veias,
as rugas, o saber sobre as coisas enobrece.
Caminhos percorridos
às vezes adiados
nem sempre contados.
Memória do viver.


NOVA, Vera Casa. "Versos". In:_____. Restos. Rio de Janeiro: 7 Letras, 2014.

27.11.14

Manuel Maria Barbosa du Bocage: "Nascemos para amar"




Nascemos para amar; a humanidade
Vai cedo ou tarde aos laços da ternura
Tu és doce atractivo, ó formosura,
Que encanta, que seduz, que persuade.

Enleia-se por gosto a liberdade;
E depois que a paixão n’alma se apura
Alguns então lhe chamam desventura,
Chamam-lhe alguns então felicidade.

Qual se abismou nas lôbregas tristezas,
Qual em suaves júbilos discorre,
Com esperanças mil na idéia acesas:

Amor ou desfalece, ou pára, ou corre:
E, segundo as diversas naturezas,
Um porfia, este esquece, aquele morre.



BOCAGE, Manuel Maria Barbosa du. "Nascemos para amar". In: PEDROSA, Inês. Poemas de amor. Antologia de poesia portuguesa. Lisboa: Dom Quixote, 2005.

25.11.14

Cioran: de "L'escroc du gouffre"




Uma poesia digna desse nome começa pela experiência da fatalidade. Livres não são senão os maus poetas.

CIORAN. Syllogismes de l'amertume. Paris: Gallimard, 1980.

23.11.14

Bertrand Russell: Sobre a fé





Os cristãos creem que sua fé faz bem, mas outras fés fazem mal. De todo modo, pensam isso sobre a fé comunista. O que eu afirmo é que todas as fés fazem mal. Podemos definir a 'fé' como uma firme crença em algo para o qual não há prova. Quando não há prova, fala-se de 'fé'. Não falamos de ter fé de que dois mais dois sejam quatro ou de que a terra seja redonda. Falamos de fé somente quando queremos substituir a evidência pela emoção.



RUSSELL, Bertrand. "Will religious faith cure our troubles?". In:_____. Human society in ethics and politics. London: Routledge, 1992.



22.11.14

Jorge Luis Borges: "Ewigkeit" / "Ewigkeit": trad. Augusto de Campos




Ewigkeit

Torne en mi boca el verso castellano
A decir lo que siempre está diciendo
Desde el latín de Séneca: el horrendo
Dictamen de que todo es del gusano.

Torne a cantar la pálida ceniza,
Los fastos de la muerte y la victoria
De esa reina retórica que pisa
Los estandartes de la vanagloria.

No así. Lo que mi barro ha bendecido
No lo voy a negar como un cobarde.
Sé que una cosa no hay. Es el olvido;

Sé que en la eternidad perdura y arde
Lo mucho y lo precioso que he perdido:
Esa fragua, esa luna y esa tarde.


Ewigkeit

Torne-me à boca o verso castelhano,
A dizer o que sempre está dizendo
Desde o latim de Sêneca : o horrendo
Ditame de que o verme é soberano.

Torne a cantar a palidez da cinza,
Os fastígios da morte e a vitória
Da rainha retórica que pisa
Os estandartes ocos da vanglória.

Não assim. O meu barro agradecido
Eu não o vou negar como um covarde.
Sei que não há uma coisa : é o olvido.

Sei que na eternidade dura e arde
O muito e o melhor por mim perdido :
Esta frágua, esta lua e esta tarde.



BORGES, Jorge Luis. "Ewigkeit". In: CAMPOS, Augusto de. Quase Borges. 20 poemas e uma entrevista. São Paulo: Terracota, 2012.

18.11.14

Entrevista sobre "O que é poesia?"




A propósito da aula-show "O que é poesia?", que será apresentada pela última vez amanhã, 19/11, no Oi Futuro de Ipanema, dei uma breve entrevista ao Luiz Fernando Vianna. Ela se encontra publicada no Blog do IMS, aqui: http://www.blogdoims.com.br/ims/a-poesia-no-palco-quatro-perguntas-para-antonio-cicero.

16.11.14

Projeto Turista Aprendiz




Na próxima terça-feira, 18/11, às 15h, o poeta Alex Varella e eu estaremos na Biblioteca Parque Estadual (Av. Presidente Vargas, 1261, Centro, Rio de Janeiro) falando sobre poesia, lendo poemas e batendo papo com alunos do Projeto – produzido pela Praga Conexões – Turista Aprendiz.

Antonio Cicero: palestra-show "O que é poesia?"




Clique na imagem, para ampliá-la:

14.11.14

Friedrich Nietzsche: a vantagem do politeísmo sobre o monoteísmo




143
[...]
No politeísmo estava prefigurada a liberdade humana e variedade de pensamento: a força de criar para si olhos novos e seus, sempre novos e cada vez mais seus; de modo que somente para o homem, entre todos os animais, não existem horizontes e perspectivas eternas.


NIETZSCHE, Friedrich. A gaia ciência. Trad., notas e posfácio de Paulo César de Souza. São Paulo: Companhia das Letras, 2009.


12.11.14

Adriano Nunes: "Prova"




"Prova" - para Antonio Cicero

Suponho que saberia
Apenas isso: que isso
Ser pode aquilo e
Que aquilo pode ser isso

Quando convir
Ou for preciso.
Logo te digo:
O que sei é que é possível

Tudo no infindo
Espaço da poesia.
Não vês os dragões azuis saindo
Do decassílabo,

Enfeitado de resquícios
De versos de Horácio e Ovídio,
Porque amas os seus ritmos,
Não vês grãs tigres

Saltando, já, sobre as rimas
Toantes que construí
Só para ti?
Não vês libélulas lindas

Levando-te, com capricho
E amor, num rito,
Sóis, crisântemos e lírios,
Nas maiores redondilhas?

Sim, acredita,
Na quadra finda
Em quatro sílabas
Bem cabe a vida.



NUNES, Adriano. In: http://astripasdoverso.blogspot.com.br/2014/11/adriano-nunes-prova-para-antonio-cicero.html

10.11.14

9.11.14

Paul Valéry. Sobre o Discurso do método, de Descartes




O que é então que leio no Discurso do método?


Não são os próprios princípios que nos podem reter por muito tempo. O que chama minha atenção, desde a encantadora narrativa de sua vida e das circunstâncias iniciais de sua pesquisa, é a presença dele mesmo nesse prelúdio de uma filosofia. É, pode dizer-se, o emprego do eu e do mim numa obra dessa espécie, e o som da voz humana; e é isso, talvez, que se opõe mais nitidamente à arquitetura escolástica. O eu e o mim devendo introduzir-nos a maneiras de pensar inteiramente genéricas, eis o meu Descartes. 




VALÉRY, Paul. "Descartes". In:_____. "Variété". In:_____. Oeuvres I. Paris: Gallimard, 1957.

5.11.14

Lançamento de Poesia em pauta




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Giuseppe Ungaretti: "Il porto sepolto" / "O porto sepulto": trad. Geraldo Holanda Cavalcanti




O porto sepulto
                           Mariano, 29 de julho de 1916

Ali chega o poeta
e depois regressa à luz com seus cantos
e os dispersa

Desta poesia
me sobra
aquele nada
de inesgotável segredo




Il porto sepolto
                         Mariano il 29 giugno 1916  

Vi arriva il poeta
e poi torna alla luce con i suoi canti
e li disperde

Di questa poesia
mi resta
quel nulla
d'inesauribile segreto



UNGARETTI, Giuseppe. A alegria. Edição bilingue. Trad. e notas de Geraldo Holanda Cavalcanti. Rio de Janeiro: Record, 2003.

2.11.14

Vinícius de Moraes: "O poeta Hart Crane suicida-se no mar"




O poeta Hart Crane suicida-se no mar

Quando mergulhaste na água
Não sentiste como é fria
Como é fria assim na noite
Como é fria, como é fria?
E ao teu medo que por certo
Te acordou da nostalgia
(Essa incrível nostalgia
Dos que vivem no deserto...)
Que te disse a Poesia?

Que te disse a Poesia
Quando Vênus que luzia
No céu tão perto (tão longe
Da tua melancolia...)
Brilhou na tua agonia
De moribundo desperto?

Que te disse a Poesia
Sobre o líquido deserto
Ante o mar boquiaberto
Incerto se te engolia
Ou ao navio a rumo certo
Que na noite se escondia?

Temeste a morte, poeta?
Temeste a escarpa sombria
Que sob a tua agonia
Descia sem rumo certo?
Como sentiste o deserto
O deserto absoluto
O oceano absoluto
Imenso, sozinho, aberto?

Que te falou o Universo
O infinito a descoberto?
Que te disse o amor incerto
Das ondas na ventania?
Que frouxos de zombaria
Não ouviste, ainda desperto
Às estrelas que por certo
Cochichavam luz macia?

Sentiste angústia, poeta
Ou um espasmo de alegria
Ao sentires que bulia
Um peixe nadando perto?
A tua carne não fremia
À ideia da dança inerte
Que teu corpo dançaria
No pélago submerso?

Dançaste muito, poeta
Entre os véus da água sombria
Coberto pela redoma
Da grande noite vazia?
Que coisas viste, poeta?

De que segredos soubeste
Suspenso na crista agreste
Do imenso abismo sem meta?
Dançaste muito, poeta?
Que te disse a Poesia?


MORAES, Vinícius. Nova antologia poética. Seleção e org. Antonio Cicero e Eucanaã Ferraz. São Paulo: Companhia das Letras, 2003.

30.10.14

Antonio Carlos Secchin: "É ele!"




É ele !

No Catumbi, montado a cavalo,
lá vai o antigo poeta
visitar o namorado.
Não leva flores, que rapazes
raro gostam de tais mimos.
Leva canções de amor e medo.
Cachoeiras de metáforas,
oceanos de anáforas, virgens a quilo.
Ao sair, deixa ao sono cego do parceiro
dois poemas, um cachimbo e um estilo.



SECCHIN, Antonio Carlos. Todos os ventos. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2002.

26.10.14

Manuel Bandeira: "Antologia"




Antologia

A vida
Com cada coisa em seu lugar.
Não vale a pena e a dor de ser vivida.
Os corpos se entendem mas as almas não.
A única coisa a fazer é tocar um tango argentino.

Vou-me embora p’ra Pasárgada!
Aqui eu não sou feliz.
Quero esquecer tudo:
— A dor de ser homem...
Este anseio infinito e vão
De possuir o que me possui.

Quero descansar
Humildemente pensando na vida e nas mulheres que amei...
Na vida inteira que podia ter sido e que não foi.

Quero descansar.
Morrer.
Morrer de corpo e alma.
Completamente.
(Todas as manhãs o aeroporto em frente me dá lições de partir.)

Quando a indesejada das gentes chegar
Encontrará lavrado o campo, a casa limpa.
A mesa posta,
Com cada coisa em seu lugar.



BANDEIRA, Manuel. "Estrela da tarde". In:____. Poesia completa e prosa. Rio de Janeiro: José Aguilar, 1967.

24.10.14




Em Salvador, ao orientar, na semana passada, uma oficina, a convite da Fundação Cultural do Estado da Bahia (FUNCEB), tive a honra de merecer do LOW FI um remix de alguns poemas meus. 

O LOW FI - Processos Criativos é idealizado por Edbrass Brasil e realizado com os bambas Laura Castro e Caio Araujo, caracteriza-se como um ponto de encontro que envolve processos criativos em cinema experimental, música e literatura. Desta zona livre de troca de saberes, entre criadores de diferentes áreas, surge um espaço de fruição e de risco diversificado para o público. 

O encontro com o LOW FI ocorreu no Teatro do Goethe Institut/ICBA (Instituto Cultura Brasil-Alemanha) de Salvador.

Abaixo, um registro, que se encontra no YouTube, de um momento do encontro. 

O poema remixado nesse momento foi "Longe", do meu livro Porventura. Ei-lo:


Longe
                                    Para Suzana Moraes

A chuva forte, o resfriado
real ou fingido, e eis-me livre
da escola e solto no meu quarto,
nos lençóis, nos mares de Chipre
ou no salão de Ana Pavlovna
ou no de Alcínoo, nas cavernas
de Barabar ou sob a abóbada
de Xanadu; perplexo em Tebas
e pelas veredas ambíguas
do sertão do corpo da língua,
cada vez mais longe de escolas
e de peladas e de bolas
e de promessas de futuros,

é mesmo errático meu rumo.








22.10.14

Adonis: "União": trad.: Michel Sleiman




União

A mim se uniu o mundo, as pálpebras
do mundo revestem as minhas.
A mim, à minha liberdade se uniu o mundo
qual dos dois cria o outro?


ADONIS. Poemas. Org. e trad. Michel Sleiman. São Paulo: Companhia das Letras, 2012. 

19.10.14

Mario Benedetti: "Cuándo la poesia" / "Quando a poesia": trad. Antonio Cicero




Cuando la poesia

Cuando la poesía abre sus puertas
uno siente que el tiempo nos abraza
una verdad gratuita y novedosa
renueva nuestro manso alrededor

cuando la poesía abre sus puertas
todo cambia y cambiamos con el cambio
todos traemos desde nuestra infancia
uno o dos versos que son como un lema
y los guardamos en nuestra memoria
como una reserva que nos hace bien

cuando la poesía abre sus puertas
es como si cambiáramos de mundo



Quando a poesia

Quando a poesia abre suas portas
sentimos que o tempo nos abraça
uma verdade gratuita e inovadora
renova nossos mansos arredores

quando a poesia abre suas portas
tudo muda e mudamos com a mudança
todos trazemos desde nossa infância
um ou dois versos que são como um lema
e os guardamos em nossa memória
como uma reserva que nos faz bem

quando a poesia abre suas portas
é como se mudássemos de mundo



Benedetti, Mario. Biografía para encontrarme. Madrid: Santillana Ed. Generales, 2012.

16.10.14

Antonio Cicero: "De trás pra frente"




De trás pra frente

O amante,
Cabeça, tronco, membro
Eretos para o amado
Não o decifra um só instante.
Eu mesmo ainda me lembro:
O amante é devorado.
Já o amado,
Por mais ignorante e indiferente,
Soletra o seu amante
De trás pra frente.


CICERO, Antonio. Guardar. Rio de Janeiro: Record, 1996.

13.10.14

A Biblioteca de Grifos de Waly Salomão




Clique para ampliar:
 



10.10.14

Walt Whitman: "For him I sing" / "Eu canto para ele": trad. Arthur Nogueira




Eu canto para ele​

Eu canto para ele.
Eu elevo o presente sobre o passado
(Feito uma árvore perene e livre de raízes, o presente no passado,)
Com tempo e espaço eu o dilato e fundo às leis imortais,
Para a partir delas fazer dele próprio a sua própria lei.


For him I sing​

For him I sing,
I raise the present on the past,
(As some perennial tree out of its roots, the present on the past,)
With time and space I him dilate and fuse the immortal laws,
To make himself by them the law unto himself.



WHITMAN, Walt. Leaves of grass. New York: The New American Library, 1958.

6.10.14

Heinrich Heine: "Os anjos" / "Die Engel": trad. André Vallias




Os anjos

Eu, incrédulo Tomé,
Já não creio na doutrina
Que o rabi e o padre ensinam:
Nesse “céu” não levo fé!

Mas nos anjos acredito,
Dou aqui meu testemunho:
Perambulam pelo mundo,
Impolutos e bonitos.

Só refuto essa bobagem
De anjo aparecer de asinha;
Sei de muitos, Senhorinha,
Desprovidos de penagem.

Com carinho e claridade,
De olho atento nos humanos,
Nos protegem, afastando
O infortúnio e a tempestade.

Amizade tão discreta
Reconforta toda gente,
Tanto mais o duplamente
Judiado, que é o poeta.



Die Engel.

Freylich ein ungläub’ger Thomas
Glaub’ ich an den Himmel nicht,
Den die Kirchenlehre Romas
Und Jerusalems verspricht.

Doch die Existenz der Engel,
Die bezweifelte ich nie;
Lichtgeschöpfe sonder Mängel,
Hier auf Erden wandeln sie.

Nur, genäd’ge Frau, die Flügel
Sprech’ ich jenen Wesen ab;
Engel giebt es ohne Flügel,
Wie ich selbst gesehen hab’.

Lieblich mit den weißen Händen,
Lieblich mit dem schönen Blick
Schützen sie den Menschen, wenden
Von ihm ab das Mißgeschick.

Ihre Huld und ihre Gnaden
Trösten jeden, doch zumeist
Ihn, der doppelt qualbeladen,
Ihn, den man den Dichter heißt.



HEINE, Heinrich. "Poema do tempo". In:_____. heine hein? poeta dos contrários. Introdução e traduções de André Vallias. São Paulo: Perspectiva, 2011.

3.10.14

Octavio Paz: "Ejemplo" / "Exemplo": trad. Antonio Cicero





Exemplo

A borboleta voava entre os carros.
Marie José me disse: deve ser Chuang Tzu,
passando por Nova Iorque.
                                             Porém a borboleta
não sabia que era uma borboleta
que sonhava ser Chuang Tzu
                                                ou Chuang Tzu
que sonhava ser uma borboleta.
A borboleta não duvidava:
                                            voava.




Ejemplo

La mariposa volaba entre los autos.
Marie José me dijo: ha de ser Chuang Tzu,
de paso por Nueva York.      
                                         Pero la mariposa
no sabía que era una mariposa
que soñaba ser Chuang Tzu
                                              o Chuang Tzu
que soñaba ser una mariposa.
La mariposa no dudaba:
                                        volaba.



PAZ, Octavio. "Árbol adentro". In:_____. Obra poética II. México: Fondo de Cultura Económica, 2004.

1.10.14

Mário Faustino: "O mundo que venci deu-me um amor"

Agradeço a Arthur Nogueira por me ter chamado atenção para o seguinte, belo poema de Mário Faustino: 



O mundo que venci deu-me um amor

O mundo que venci deu-me um amor,
Um troféu perigoso, este cavalo
Carregado de infantes couraçados.
O mundo que venci deu-me um amor
Alado galopando em céus irados,
Por cima de qualquer muro de credo,
Por cima de qualquer fosso de sexo.
O mundo que venci deu-me um amor
Amor feito de insulto e pranto e riso,
Amor que força as portas dos infernos,
Amor que galga o cume ao paraíso.
Amor que dorme e treme. Que desperta
E torna contra mim, e me devora
E me rumina em cantos de vitória...




FAUSTINO, Mário. Poesia de Mário Faustino. Civilização Brasileira: Rio de Janeiro, 1966

.

28.9.14

Casimiro de Brito: "13"




13

A morte é uma flor que palpita
no branco da noite, um rosto antepassado
que não posso ver, um rictus terribilis
que me fascina e cega. Uma flor
distraída, pensam uns,
mas há outros que sentem o brilho
da sua navalha. Abre quando quer
o seu olho de Medusa. É
uma deusa. Acolho-me à sua sombra.
Peço ao poema que me ajude
a encontrar um sentido neste segredo
que todos bebemos
e não se esgota.





BRITO, Casimiro de. Arte de bem morrer. Lisboa: Roma Editora, 2007.

24.9.14

Paul Celan: "Die Halde" / "A ladeira": trad. João Barrento e Y.K. Centeno




A ladeira

Junto a mim vives tu, igual a mim:
como uma pedra
na face caída da noite.

Oh, amada, esta ladeira,
onde rolamos sem parar,
nós pedras,
de regato em regato.
E cada vez mais redondas.
Mais iguais. Mais estranhas.

Oh, este olho embriagado,
que por aqui vagueia como nós
e que às vezes
com espanto nos vê unidos.



Die Halde                                                                                                    

Neben mir lebst du, gleich mir:
als ein Stein
in der eingesunkenen Wange der Nacht.

O diese Halde, Geliebte,
wo wir pausenlos rollen,
wir Steine,
von Rinnsal zu Rinnsal.
Runder von Mal zu Mal.
Ähnlicher. Fremder.

O dieses trunkene Aug,
das hier umherirrt wie wir
und uns zuweilen
staunend in eins schaut.



CELAN, Paul. "De limiar em limiar" / "Von Schwelle zu Schwelle". In:_____. Sete rosas mais tarde. Antologia poética. Seleção, tradução e introdução de João Barrento e Y.K. Centeno. Lisboa: Cotovia, 1996.


21.9.14

Luís de Camões: "Os bons sempre vi passar"




Esparsa sua ao desconcerto do mundo

Os bons vi sempre passar
No mundo graves tormentos;
E para mais m’espantar,
Os maus vi sempre nadar
Em mar de contentamentos.
Cuidando alcançar assim
O bem tão mal ordenado,
Fui mau, mas fui castigado:
Assi que só para mim
Anda o mundo concertado.



CAMÕES, Luís de. "De cuidados rodeado". In:_____. Lírica completa I. Vila da Maia: Imprensa Nacional, 1980.

19.9.14

W.B. Lemos: "Desdito"




Desdito

Errabundo. Tão somente
Desocupado habitué das ruas
de qualquer lugar desmundo.

Desconheço seus nomes,
elas não os têm, sequer destino.
Têm só o que são: ruas.

Errante feito em transe,
posso apenas mal-vagar-me
pelo sem-mapa e advir.



LEMOS, W.B. Rasga-mortalha. Poemas dos outros. Rio de Janeiro: Circuito, 2014.

16.9.14

Octavio Paz: "Juventud" / "Juventude": trad. Antonio Cicero




          Juventude

o salto da onda
                       mais branca
cada hora
               mais verde
cada dia
             mais jovem
a morte



          Juventud

El salto de la ola
                        más blanca
cada hora
               más verde
cada día
             más joven
la muerte



PAZ, Octavio. "Ladera Este". In:_____. Lo mejor de Octavio Paz. Barcelona: Siex Barral, 1998.

15.9.14

Antonio Cicero em "O que é poesia?"



Clique, para ampliar:

14.9.14

Ferreira Gullar: "Pintura"



Pintura

Eu sei que se tocasse
com a mão aquele canto do quadro
onde um amarelo arde
me queimaria nele
ou teria manchado para sempre de delírio
a ponta dos dedos



GULLAR, Ferreira. Relâmpagos. São Paulo: Cosac & Naify, 2003.

12.9.14

Arnaldo Antunes: "intruso entre intrusos intraduzo"






                     intruso entre intrusos intraduzo


                                      o me smo

                                         me

                                         me

                                         me

                                    no me io

                                              yo

                                              i

                                              je


                                         do eu tro    




ANTUNES, Arnaldo. n. d. a. São Paulo: Iluminuras, 2010.

9.9.14

Francisco Alvim: "Espelho"





Espelho

Meu deus como é triste
Olhar a noite nos olhos
O som da treva ecoa
no brejo mais fundo

Lembrar a montanha
a tarde cheia de sinos
a menina — névoa no azul
o menino

Uma luz
que afastasse este breu
para além da estrela remota

Olho e vejo um furo
no escuro — um lago?
Aviões partem
Para que deserto?



ALVIM, Francisco. Poemas [1968-2000]. São Paulo: Cosac & Naify, 2004.

7.9.14

Ian Hamilton: "Poet" / "Poeta": trad. Nuno Vidal





“A luz sucumbe; o mundo sorve a escuridão invernosa
E por todo o lado
Vastas cidades abandonam-se aos seus fantasmas..."
O poeta, à escuta de outras vidas
Como a sua, recomeça: "E é tudo
Delírio...”


"Light fails; the world sucks on the winter dark
And everywhere
Huge cities are surrendering their ghosts…"
The poet, listening for other lives
Like his, begins again: "And it is all
Folly…"


HAMILTON, Ian. "Poet" / "Poeta". In:____. Cinquenta poemas. Trad. Nuno Vida. Lisboa: Cotovia, 1995.


5.9.14

Mário Quintana: "S.O.S."




S.O.S.

O poema é uma garrafa de náufrago jogada ao mar.
Quem a encontra
Salva-se a si mesmo...



QUINTANA, Mário. "S.O.S.". In: CALCANHOTTO, Adriana (organização e ilulstrações). Haicai do Brasil. Rio de Janeiro: Edições de Janeiro, 2014.

3.9.14

Abaixo-assinado Estatuto da Diversidade Sexual




Caros Amigos,

Acabei de ler e assinar o abaixo-assinado: «Abaixo-assinado Estatuto da Diversidade Sexual» no endereço http://www.peticaopublica.com.br/pview.aspx?pi=EDS

Concordo com este abaixo-assinado e cumpro com o dever de o fazer chegar ao maior número de pessoas.

Caso você concorde, agradeço que assine o abaixo-assinado e que ajudem na sua divulgação através de um email para os seus contatos.

Obrigado.


Antonio Cicero

1.9.14

Adriano Nunes: "Só"










Sem
     Seu
           Ser

Sol
     Sem
           Céu

Sal
    Sem
          Mar

Sim
      Sem
            Som

Sul
    Sem
          Lar

Sem
       Vós
             Eu

Sem
       Mais
              Voz

Sem
       Ter
            Vez

Sob
      Tal
          Véu

   





NUNES, Adriano. "Só". In: Quefaçocomoquenãofaço. URL: http://astripasdoverso.blogspot.com.br/. Acessado em 29/08/2014.

31.8.14

Gregório Duvivier: "O país e o armário"




Hoje, em sua excelente coluna no Segundo Caderno de O Globo, Tony Bellotto chama atenção para a contundente crônica que Gregório Duvivier publicou na Folha de São Paulo no dia 25 do corrente. Achei importante postá-la aqui:


Gregório Duvivier


O país e o armário


É constrangedor ver todos os principais candidatos se estapeando pelo voto conservador


"Todo ano, um milhão de mulheres fazem aborto na França. Eu sou uma dessas mulheres. Eu abortei." O manifesto foi assinado por 343 mulheres e publicado no Nouvel Observateur, em 1971.

O Estado francês tinha duas opções: prender essas mulheres ou reconhecer que elas não fizeram nada de errado. O Estado não prenderia 343 mulheres. Ou melhor: não essas mulheres. Dentre as assinaturas, estavam as de Ariane Mnouchkine, Catherine Deneuve, Jeanne Moreau, Marguerite Duras. A redatora do manifesto era ninguém menos que Simone de Beauvoir. Não prenderam ninguém.

A esse manifesto, seguiram-se outros: 331 médicos assumiram-se a favor da causa. Na Alemanha, mais 374 mulheres assinaram um manifesto em que diziam: Wir haben abgetrieben. Nós abortamos. Entre as mulheres, Romy Schneider e Senta Berger. Em 1975 o aborto deixa de ser crime na França e passa a ser chamado de "interrupção voluntária de gravidez". A interrupção passa a ser "livre e gratuita" até a décima semana de gestação.

Estamos muito longe dessa lei por aqui. Nenhum dos candidatos a presidente parece interessado em discuti-la. Tampouco a classe artística está interessada em sair do armário nesse assunto.

O Brasil vai na direção oposta. É constrangedor ver todos os principais candidatos se estapeando pelo eleitorado conservador. Não se trata de propor mudanças, trata-se de vender apego à tradição. "Você me conhece, sabe que eu sou o que mais acredita em Deus, o que mais passou longe de dar a bunda, de cheirar pó, olhem só como a minha é filha virgem, olhem só como o meu filho é hétero." Todos estão desesperados pelo voto conservador. Estranhamente, ninguém está nem aí pro voto aborteiro.

Se as eleições, como anuncia o plantão da Globo, são a festa da democracia, essa festa, Dona Globo, está meio caída --ou fui eu que bebi pouco. Na minha opinião, tem pastor demais e maconha de menos. A maioria dos candidatos não fede nem cheira --a não ser um deles, que cheira.

Um amigo gay outro dia disse que "levantar bandeira é cafona e quem sai do armário é porque quer atenção". Amigo, tudo bem, ninguém é obrigado a sair do armário. Mas você não precisa trancar a porta por dentro.

Sair do armário não é um ato exibicionista. Levantar bandeira também não. O manifesto das 343 vagabundas, como ficou conhecido, não permitiu às manifestantes que elas fizessem um aborto. Elas já o tinham feito. Permitiu às suas filhas e netas.

Ateus, maconheiros, vagabundas, pederastas, sapatões e travestis do mundo: uni-vos. Porque o lado de lá tá bem juntinho.




30.8.14

Mauro Sta. Cecilia: "Enlace da lira"





Enlace da lira

Aqui estou eu novamente,
minha amada poesia.
O objetivo é um só.
Volto pros teus sons e ritmos.
Peço-te que me recebas
depois de passar um tempo
de mãos dadas em um sonho
com a crônica e o romance.
Mas indo direto ao ponto:
tu és a origem de tudo.
Jamais eu me esqueci disso
e também de alguma forma
durante esses anos todos
tentei te achar pela música.
Por favor, me aceita logo.

Um beijo (roubado), Mauro



CECILIA, Mauro Sta. A sombra do faquir. Rio de Janeiro: 7Letras, 2014. 

Curso "O pensamento filosófico vs. o pensamento poético", por Antonio Cicero

O curso terá lugar no

POP - POLO DE PENSAMENTO
à rua Conde Afonso Celso, 103
Jardim Botânico, CEP 22461-060
Rio de Janeiro, RJ
     Tel. (21) 2286-3299 e 2286-3682 



27.8.14

Carlos Pena Filho: "Elegia para a adolescência"




Elegia para a adolescência

E enfim descansaremos sob a verde
resistência dos campos escondidos.
Nem pensaremos mais no que há de ser de
nós que então seremos definidos.

No mar que nos chamou, no mar ausente,
simples e prolongado que supomos,
seremos atirados de repente,
puros e inúteis como sempre fomos.

Veremos que as vogais e as consoantes
não são mais que ornamentos coloridos,
fruto de nossas bocas inconstantes.

E em silêncio seremos transformados,
quando formos, serenos e perdidos,
além das coisas vãs precipitados.



PENA FILHO, Carlos. Livro geral. Edição de luxo. Organização e seleção de textos de Tania Carneiro Leão. Olinda: Prefeitura de Olinda, s.d.

22.8.14

Raimundo Correia: "Mal secreto"




Mal secreto

Se a cólera que espuma, a dor que mora
N’alma, e destrói cada ilusão que nasce,
Tudo o que punge, tudo o que devora
O coração, no rosto se estampasse;

Se se pudesse o espírito que chora
Ver através da máscara da face,
Quanta gente, talvez, que inveja agora
Nos causa, então piedade nos causasse!

Quanta gente que ri, talvez, consigo
Guarda um atroz, recôndito inimigo,
Como invisível chaga cancerosa!

Quanta gente que ri, talvez existe,
Cuja ventura única consiste
Em parecer aos outros venturosa!



CORREIA, Raimundo. In: BANDEIRA, Manuel (org.). Antologia dos poetas brasileiros da fase parnasiana. Rio de Janeiro: Ministério da Educação e Saúde, 1938.

19.8.14

Waly Salomão: "Garrafa"





Garrafa

Vá dizer aos camaradas
Que fui para o alto-mar
E que minha barca naufraga.

Leme partido.
Casco arrombado.
Sem farol afunda
Nas pedras dos arrecifes.

Bandeira aos farrapos. Nenhuma estrela guia
Célere desce lá do céu para minha companhia.
Destroços: proa, velame, quilha,
prancha, rede de pescar, arpão,
bússola, astrolábio, boia, sonar...

Que fui para o alto-mar
E que Medina e Meca já não significam
                                 mais nada para mim.

Entrevado
Vista turva
Porto nenhum avisto
Nas trevas da cerração.

Pelejo entre os vagalhões e as rocas
Não apuro os nós de lonjuras das seguras docas
Tampouco os altos e baixos relevos das pedras
                                                         que roncam ais
                                            no quebra-mar do cais
Ou os tapetes de mijo e restos de peixes
E patas de caranguejo e frutas podres
Tecidos pelas alpercatas e os pés nus sobre a rampa
                                                        do Mercado-Modelo.

Um marinheiro conserta sua embarcação
                                   — corpo de intempestiva casa —
Em pleno alto-mar aberto.
                                             Vá dizer aos meus amigos.



SALOMÃO, Waly. Poesia total. São Paulo: Companhia das Letras, 2014.

16.8.14

Vinícius de Moraes: "Dialética"




Dialética

É claro que a vida é boa
E a alegria, a única indizível emoção
É claro que te acho linda
Em ti bendigo o amor das coisas simples
É claro que te amo
E tenho tudo para ser feliz
Mas acontece que eu sou triste...


MORAES, Vinícius de. Nova antologia poética. Org. por Antonio Cicero e Eucanaã Ferraz. São Paulo: Companhia das Letras, 2005.

14.8.14

Antonio Cicero em "O que é poesia?"




Clique na imagem para ampliá-la:

13.8.14

eLyra: Revista da Rede Internacional Lyracompoetics



Recomendo calorosamente aos amigos deste blog que leiam o nº 3 da ótima revista eLyra, da Rede Internacional Lyracompoetics. (http://www.elyra.org/index.php/elyra/issue/current).

Entre vários artigos interessantes, ela contém uma entrevista que dei a Celia Pedrosa (http://www.elyra.org/index.php/elyra/article/view/50/52) e um excelente artigo de Luiz Fernando Valente, intitulado “Antonio Cicero e a poética das ruínas” (http://www.elyra.org/index.php/elyra/article/view/39/41). 

12.8.14

Armando Freitas Filho: "Ar de família"




Ar de família

Só sei ser íntimo ou não sei ser.
O que escrevo me ameaça de tão perto.
Amassa mãe, pai, filhos, mulheres
os de sangue símil, os de romance
os de tinta de impressão, de árvore
venosa de folhas variáveis no vento
das estações, no ferido almofariz
com o mesmo pilão de pedra
sem lavar, e entre uma socada e outra
o silêncio do punho fechado.



FREITAS FILHO, Armando. Dever. São Paulo: Companhia das Letras, 2013.

9.8.14

Constatinos Caváfis: "Che fece... Il Gran Rifiuto": trad. José Paulo Paes





Che fece... Il Gran Rifiuto

Para alguns homens, chega o dia finalmente
em que é necessário o grande Sim ou o grande Não
dizer. Percebe-se quem trazia, nessa ocasião,
o Sim já pronto dentro de si, e dizendo-o sente

seu valor aumentado, sua confiança crescida.
Não se arrepende quem diz não. Di-lo-ia outra vez
se lho perguntassem, embora saiba o mal que fez
aquele não — por mais justo que fosse — à sua vida.



CAVÁFIS, Constatinos. "Che fece... Il gran rifiuto". Trad. por José Paulo Paes. In: PAES, José Paulo. Poesia moderna da Grécia. Rio de Janeiro: Guanabara, 1986. 

7.8.14

Anacreonte: fragmento 13: trad. Antonio Cicero




Fragmentum 13

De novo jogando uma bola lilás para mim,
Eros, da cabeleira dourada,
me incita a jogar com a menina das sandálias coloridas.
Mas ela, da bela ilha de Lesbos,
ri da minha cabeleira prateada
e se interessa por outra.




ANACREONTE. "Fragmentum XIII". In: PAGE, D.L. (org.). Poetae melici Graeci. Oxford: Clarendon Press, 1967. 

Tradução por Antonio Cicero 

5.8.14

Heirich Heine: "Ich tanz nicht mit, ich räuchre nicht den Klötzen" / "Não entro nessa dança, não incenso": trad.: André Vallias




Não entro nessa dança, não incenso
Os ídolos de ouro e pés de barro;
Tampouco aperto a mão desse masmarro
Que me difama e distribui dissenso.

Não galanteio a linda rapariga
Que ostenta sem pudor suas vergonhas;
Nem acompanho as multidões medonhas
Que adoram seus heróis de meia-figa.

Eu sei: carvalhos têm que desabar,
Enquanto o junco se abaixando espera
Passar o vento forte da intempérie.

Mas do que pode um junco se orgulhar?
Tirar poeira de capacho ao sol,
Curvar-se para a linha de um anzol.



Ich tanz nicht mit, ich räuchre nicht den Klötzen,
Die außen goldig sind, inwendig Sand;
Ich schlag nicht ein, reicht mir ein Bub die Hand,
Der heimlich will den Namen mir zerfetzen.

Ich beug mich nicht vor jenen hübschen Metzen,
Die schamlos prunken mit der eignen Schand;
Ich zieh nicht mit, wenn sich der Pöbel spannt
Vor Siegeswagen seiner eiteln Götzen.

Ich weiß es wohl, die Eiche muß erliegen,
Derweil das Rohr am Bach, durch schwankes Biegen,
In Wind und Wetter stehn bleibt, nach wie vor.

Doch sprich, wie weit bringt’s wohl am End’ solch Rohr?
Welch Glück! als ein Spazierstock dient’s dem Stutzer,
Als Kleiderklopfer dient’s dem Stiefelputzer.



HEINE, Heinrich. "Sonetos-afresco". In:_____. heine hein? poeta dos contrários. Introdução e traduções de André Vallias. São Paulo: Perspectiva, 2011. 

2.8.14

Fernando Mendes Vianna: "Ofício manual"




Ofício manual

Percorrer teu corpo com as mãos
como se mãos fossem pés de criança correndo na relva,
como se mãos fossem pés de lavrador percorrendo o campo.

Percorrer teu corpo
como as asas das garças percorrem o céu,
como as nadadeiras dos peixes percorrem a água.

Percorrer teu corpo
com o olhar de uma criança percorrendo um brinquedo
antes de segurá-lo,
com a risada de uma criança segurando o brinquedo.

Percorrer teu corpo
como o olhar percorre o vinho ainda na videira
e apoja de sumo nossa boca.

Percorrer teu corpo
como um pomar carregado e um jardim florido,
colhendo flores e colhendo frutos.

Percorrer teu corpo
como um rio espalhando o humo na terra.



VIANNA, Fernando Mendes. Marinheiro no tempo. Brasília: Thesaurus, 1986.

30.7.14

Luís de Camões: "Amor é um fogo que arde sem se ver"





Amor é um fogo que arde sem se ver,
É ferida que dói, e não se sente;
É um contentamento descontente,
É dor que desatina sem doer.

É um não querer mais que bem querer;
É um andar solitário entre a gente;
É nunca contentar-se de contente;
É um cuidar que se ganha em se perder.

É querer estar preso por vontade;
É servir a quem vence, o vencedor;
É ter com quem nos mata, lealdade.

Mas como causar pode seu favor
Nos corações humanos amizade,
Se tão contrário a si é o mesmo Amor?



CAMÕES, Luís de. Lírica completa II. Sonetos. Lisboa: Imprensa Nacional / Casa da Moeda, 1980.

28.7.14

Antonio Cicero no Teatro Poeira, às 20h dos dias 29 e 30 de julho























TEATRO POEIRATEATRO PENSAMENTO . ANTÔNIO CÍCERO29 e 30 de julho
A poesia escrita é capaz de transportar o leitor para uma dimensão do ser inteiramente diferente da dimensão cotidiana – pragmática, utilitária, instrumental – em que todo o mundo passa a maior parte da vida. Trata-se da dimensão poética do ser. Para que a poesia escrita seja capaz disso, entretanto, cada poema deve ser lido comme il faut. Não se lê um poema como se lê um artigo de jornal, um e-mail, uma postagem do Facebook. Para fruir-se plenamente um poema, deve-se mergulhar nele, e isso exige tempo. Ora, como tal dispêndio gratuito de tempo entra em choque com as exigências da dimensão instrumental da vida contemporânea, muitos afirmam que a poesia tornou-se obsoleta em nosso mundo. Penso que, ao contrário, o valor da poesia é ainda hoje imenso exatamente porque, ao provisoriamente preterir a dimensão instrumental em proveito da dimensão poética do ser, ela enriquece imensamente a vida humana.

Nos encontros no Teatro Poeira pretendo convidar os ouvintes a ler, comentar e mergulhar comigo em alguns grandes poemas, de modo que, através deles, alcancemos a dimensão poética do ser.




26.7.14

John Keats: "Ode on a Grecian urn" / "Ode sobre uma urna grega": trad. Augusto de Campos




Ode sobre uma urna grega

I

Inviolada noiva de quietude e paz,
   Filha do tempo lento e da muda harmonia,
Silvestre historiadora que em silêncio dás
   Uma lição floral mais doce que a poesia:
Que lenda flor-franjada envolve tua imagem
   De homens ou divindades, para sempre errantes.
      Na Arcádia a percorrer o vale extenso e ermo?
Que deuses ou mortais? Que virgens vacilantes?
   Que louca fuga? Que perseguição sem termo?
      Que flautas ou tambores? Que êxtase selvagem?


II

A música seduz. Mas ainda é mais cara
   Se não se ouve. Dai-nos, flautas, vosso tom;
Não para o ouvido. Dai-nos a canção mais rara,
   O supremo saber da música sem som:
Jovem cantor, não há como parar a dança,
   A flor não murcha, a árvore não se desnuda;
      Amante afoito, se o teu beijo não alcança
A amada meta, não sou eu quem te lamente:
   Se não chegas ao fim, ela também não muda,
      É sempre jovem e a amarás eternamente.


III

Ah! folhagem feliz que nunca perde a cor
   Das folhas e não teme a fuga da estação;
Ah! feliz melodista, pródigo cantor
   Capaz de renovar para sempre a canção;
Ah! amor feliz! Mais que feliz! Feliz amante!
   Para sempre a querer fruir, em pleno hausto,
      Para sempre a estuar de vida palpitante,
Acima da paixão humana e sua lida
   Que deixa o coração desconsolado e exausto,
      A fronte incendiada e língua ressequida.


IV

Quem são esses chegando para o sacrifício?
   Para que verde altar o sacerdote impele
A rês a caminhar para o solene ofício,
   De grinalda vestida a cetinosa pele?
Que aldeia à beira-mar ou junto da nascente
   Ou no alto da colina foi despovoar
      Nesta manhã de sol a piedosa gente?
Ah, pobre aldeia, só silêncio agora existe
   Em tuas ruas, e ninguém virá contar
      Por que razão estás abandonada e triste.


V

Ática forma! Altivo porte! em tua trama
   Homens de mármore e mulheres emolduras
Como galhos de floresta e palmilhada grama:
   Tu, forma silenciosa, a mente nos torturas
Tal como a eternidade: Fria Pastoral!
   Quando a idade apagar toda a atual grandeza,
      Tu ficarás, em meio às dores dos demais,
Amiga, a redizer o dístico imortal:
   "A beleza é a verdade, a verdade a beleza"
      — É tudo o que há para saber, e nada mais.



Ode on a Grecian urn

I

Thou still unravish’d bride of quietness,
   Thou foster-child of silence and slow time,
Sylvan historian, who canst thus express
   A flowery tale more sweetly than our rhyme:
What leaf-fring’d legend haunts about thy shape
   Of deities or mortals, or of both,
      In Tempe or the dales of Arcady?
What men or gods are these? What maidens loth?
   What mad pursuit? What struggle to escape?
      What pipes and timbrels? What wild ecstasy?


II

Heard melodies are sweet, but those unheard
   Are sweeter; therefore, ye soft pipes, play on;
Not to the sensual ear, but, more endear'd,
   Pipe to the spirit ditties of no tone:
Fair youth, beneath the trees, thou canst not leave
   Thy song, nor ever can those trees be bare;
      Bold lover, never, never canst thou kiss
Though winning near the goal — yet, do not grieve;
   She cannot fade, though thou hast not thy bliss,
      For ever wilt thou love, and she be fair!


III

Ah, happy, happy boughs! that cannot shed
   Your leaves, nor ever bid the Spring adieu;
And, happy melodist, unwearied,
   For ever piping songs for ever new;
More happy love! more happy, happy love!
   For ever warm and still to be enjoy’d,
      For ever panting, and for ever young;
All breathing human passion far above,
   That leaves a heart high-sorrowful and cloy’d,
      A burning forehead, and a parching tongue.


IV

Who are these coming to the sacrifice?
   To what green altar, O mysterious priest,
Lead’st thou that heifer lowing at the skies,
   And all her silken flanks with garlands drest?
What little town by river or sea shore,
   Or mountain-built with peaceful citadel,
      Is emptied of this folk, this pious morn?
And, little town, thy streets for evermore
   Will silent be; and not a soul to tell
      Why thou art desolate, can e’er return.


V

O Attic shape! Fair attitude! with brede
   Of marble men and maidens overwrought,
With forest branches and the trodden weed;
   Thou, silent form, dost tease us out of thought
As doth eternity: Cold Pastoral!
   When old age shall this generation waste,
      Thou shalt remain, in midst of other woe
Than ours, a friend to man, to whom thou say’st,
   «Beauty is truth, truth beauty,» —  that is all
      Ye know on earth, and all ye need to know.



KEATS, John. "Ode on a Grecian urn" / "Ode sobre uma urna grega". Trad. Augusto de Campos. In: CAMPOS, Augusto. Entreversos. Campinas: Unicamp, 2009.

23.7.14

Cecília Meireles: "Retrato"





Retrato

Eu não tinha este rosto de hoje,
assim calmo, assim triste, assim magro,
nem estes olhos tão vazios,
nem o lábio amargo.

Eu não tinha estas mãos sem força,
tão paradas e frias e mortas;
eu não tinha este coração
que nem se mostra.

Eu não dei por esta mudança,
tão simples, tão certa, tão fácil:
Em que espelho ficou perdida
a minha face?



MEIRELES, Cecilia. "Viagem". In:_____. Obra poética. Rio de Janeiro: José Aguilar, 1967.

20.7.14

Sophia de Mello Breyner Andresen: "Arte poética"




Arte poética

A dicção não implica estar alegre ou triste
Mas dar minha voz à veemência das coisas
E fazer do mundo exterior substância da minha mente
Como quem devora o coração do leão

Olha fita escuta
Atenta para a caçada no quarto penumbroso



ANDRESEN, Sophia de Mello Breyner. "O Búzio de Cós e outros poemas". Edição de Carlos Mendes de Sousa. In:_____. Obra poética. Alfragide: Caminho, 2011.

18.7.14

Eugénio de Andrade: "Ao fim da tarde"




Ao fim da tarde

Ninguém esperava ver o mar naquele dia
mas era o mar
que estava ali, à porta naqueles olhos.



ANDRADE, Eugénio de. "Pequeno formato". In:_____. Poemas de Eugénio de Andrade. Seleção, estudo e notas de Arnaldo Saraiva. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1999.  

17.7.14

Ferreira Gullar, "Falar"




Falar

A poesia é, de fato, o fruto
de um silêncio que sou eu, sois vós,
por isso tenho que baixar a voz
porque, se falo alto, não me escuto.


A poesia é, na verdade, uma
fala ao revés da fala,
como um silêncio que o poeta exuma
do pó, a voz que jaz embaixo
do falar e no falar se cala.
Por isso o poeta tem que falar baixo
baixo quase sem fala em suma
mesmo que não se ouça coisa alguma.



GULLAR, Ferreira. Em alguma parte alguma. Rio de Janeiro: José Olympio, 2010.

13.7.14

João Cabral de Melo Neto: trecho de "O sim contra o sim"




O sim contra o sim

[...]
________________________

Miró sentia a mão direita
demasiado sábia
e que de saber tanto
já não podia inventar nada.

Quis então que desaprendesse
o muito que aprendera,
a fim de reencontrar
a linha ainda fresca da esquerda.

Pois que ela não pôde, ele pôs-se
a desenhar com esta
até que, se operando,
no braço direito ele a enxerta.

A esquerda (se não se é canhoto)
é mão sem habilidade:
reaprende a cada linha,
cada instante, a recomeçar-se.

Mondrian, também, da mão direita
andava desgostado;
não por ser ela sábia:
porque, sendo sábia, era fácil.

Assim, não a trocou de braço:
queria-a mais honesta
e por isso enxertou
outras mais sábias dentro dela.

Fez-se enxertar réguas, esquadros
e outros utensílios
para obrigar a mão
a abandonar todo improviso.

Assim foi que ele, à mão direita,
impôs tal disciplina:
fazer o que sabia
como se o aprendesse ainda.
______________________________

[...]


MELO NETO, João Cabral de. "Serial". In:_____. Obra completa. Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 1995.





10.7.14

Friedrich Hölderlin: "Menschenbeifall" / "O aplauso dos homens": trad. Manuel Bandeira




Menschenbeifall

 Ist nicht heilig mein Herz, schöneren Lebens voll,
Seit ich liebe? Warum achtet ihr mich mehr,
Da ich stolzer und wilder,
Wortereicher und leerer war?

Ach! der Menge gefällt, was auf den Marktplatz taugt,
Und es ehret der Knecht nur den Gewaltsamen;
An das Göttliche glauben
Die allein, die es selber sind.



HÖLDERLIN, Friedrich. "Gedichte". In:_____. Sämtliche Werke und Briefe. München: Carl Hanser, 1970.



O aplauso dos homens

Não trago o coração mais puro e belo e vivo
Desde que amo? Por que me afeiçoáveis mais
Quando era altivo e rude,
Palavroso e vazio?

Ah! só agrada à turba o tumulto das feiras;
Dobra-se humilde o servo ao áspero e violento.
Só creem no divino
Os que o trazem em si.



HÖLDERLIN, Friedrich. "O aplauso dos homens". Trad. Manuel Bandeira. In: BANDEIRA, Manuel. Estrela da vida inteira. Poesias reunidas. Rio de Janeiro: José Olympio, 1966.M

8.7.14

W.B. Yeats: "To be carved on a stone at Thoor Ballylee / "Para ser gravado numa pedra em Thoor Ballylee": trad. José Agostinho Baptista




To be carved on a stone at Thoor Ballylee

I, the poet William Yeats,
With old mill boards and sea-green slates,
And smithy work from the Gort forge,
Restored this tower for my wife George;
And may these characters remain
When all is ruin once again.



Para ser gravado numa pedra em Thoor Ballylee

Eu, o poeta William Yeats,
Com velhas tábuas de moinho e lousas verde-mar,
E ferro forjado na forja de Gort,
Restaurei esta torre para a minha esposa George;
Possam estes sinais permanecer
Quando tudo for ruínas outra vez.



YEATS, W. B. "De Michael Robartes and the dancer". In:_____. Uma antologia. Seleção e tradução de José Agostinho Baptista. Lisboa: Assírio & Alvim, 2010.

6.7.14

Ivan Junqueira: "O poema"

O seguinte -- belíssimo -- poema abrirá a coletânea "Essa música", de Ivan Junqueira, que será lançado pela Editora Rocco em outubro. 



O poema

Não sou eu que escrevo o meu poema:
ele é que se escreve e que se pensa,
como um polvo a distender-se, lento,
no fundo das águas, entre anêmonas
que nos abismos do mar despencam.

Ele é que se escreve com a pena
da memória, do amor, do tormento,
de tudo o que aos poucos se relembra:
um rosto, uma paisagem, a intensa
pulsação da luz manhã adentro.

Ele se escreve vindo do centro
de si mesmo, sempre se contendo.
É medido, estrito, minudente,
música sem clave ou instrumentos
que se escuta entre o som e o silêncio.

As palavras com que em vão o invento
não são mais que ociosos ornamentos,
e nenhuma gala lhe acrescentam.
Seja belo ou, ao invés, horrendo,
a ele é que cabe todo o engenho,

não a mim, que apenas o contemplo
como um sonho que se sustenta
sobre o nada, quando o mito e a lenda
eram as vísceras de que o poema
se servia para ir-se escrevendo.



JUNQUEIRA, Ivan. "O poema". In:_____. O Globo. Caderno "Prosa e Verso". Rio de Janeiro, 5/7/2014.


4.7.14

Gastão Cruz: "A colher"




A colher

Reabro uma
gaveta da infância
e encontro a colher em desuso caída
a sopa lentamente se escoando
no prato fundo:

a vida
em certos dias tinha a forma
daquele objecto antigo
tocando-me nos
lábios com um calor excessivo.



CRUZ, Gastão. "Repercussão". In:_____. Os poemas. Lisboa: Assírio e Alvim, 2009.

30.6.14

Cacaso: "Lar doce lar"




Lar doce lar

Minha pátria é minha infância:
Por isso vivo no exílio



CACASO. "Lar doce lar" In: MORICONI, Italo (org.). Destino Poesia. Antologia. Rio de Janeiro: José Olympio, 2010.

29.6.14

Ruy Castro: "Não ia ter Copa"

O seguinte -- excelente -- artigo de Ruy Castro foi publicado no jornal Folha de São Paulo, em 28 de junho do corrente:



Não ia ter Copa


Não ia ter Copa, lembra-se? Cinquenta desajustados mentais em cada cidade exibiam cartazes com esses dizeres e, misturando-se a manifestantes com reivindicações legítimas e específicas, atreviam-se a falar pelos milhões de brasileiros que gostam de futebol. E, por quase um ano, valendo-se da nossa incapacidade para cumprir prazos, respeitar orçamentos e prover segurança, fizeram parecer que seu mote ganharia quorum para se tornar realidade.

Nós, da mídia, fomos essenciais para esse pessimismo, denunciando a Fifa como Estado invasor, o fracasso na preparação da infraestrutura exigida para receber os visitantes e a diferença entre o custo estimado dos estádios e o custo real --embora não me lembre de nenhuma reportagem dizendo para onde foi o dinheiro. O "Imagina na Copa!", que começou como uma brincadeira, tornou-se a sentença para a nossa inabalável vocação para o subdesenvolvimento.

A revolta ficou ainda maior ao se constatar que, pela configuração dos estádios, o preço dos ingressos e a escolha de certas cidades-sede, esta seria uma Copa de e para as "elites" --triste ironia sabendo-se que fazia parte do plano de um governo "popular" para eternizar-se no poder. Como se fosse pouco, veio o desgaste do dito governo, provocado pela economia pífia, a corrupção comprovada e o cansaço do discurso oficial. A Copa, em certo momento, parecia simbolizar toda uma farsa. Era inevitável que entrasse na agenda dos protestos que começaram em junho de 2013.

28.6.14

Demétrio de Azeredo Soster: "aquele que está em mim"






aquele que está em mim


o outro, aquele
que está em mim,

aquele que sou
sem que eu mesmo
                  o saiba,

este ente
      desencarnado,
                entediado,

este que volta
    sem nunca ter ido,

nem sentença
      nem crime,
            nem castigo,

este ser não existe: é.

e ser assim lhe basta.



SOSTER, Demétrio de Azeredo. livro de razão. Florianópolis: Insular, 2014.

26.6.14

Bertold Brecht: "Dauerten wir unendlich" / "Se fôssemos infinitos": trad. Paulo César de Souza






Se fôssemos infinitos

Fôssemos infinitos
Tudo mudaria
Como somos finitos
Muito permanece.



BRECHT, Bertold. Poemas 1913-1956. Seleção e tradução de Paulo César de Souza. São Paulo: Editora 34, 2000.



Dauerten wir unendlich

Dauerten wir unendlich
So wandelte sich alles
Da wir aber endlich sind
Bleibt alles wie beim alten.



BRECHT, Bertold. Gesammelte Werke in 20 Bänden. Frankfurt: Suhrkamp Verlag, 1967.

24.6.14

Tony Bellotto: "A Zelite Branca"

O seguinte texto fez parte da espirituosa coluna de Tony Bellotto intitulada "A Zelite Branca e outras histórias", publicada no domingo, 22 de junho do corrente, no Segundo Caderno do Jornal O Globo.




A Zelite Branca

A Zelite Branca é uma sociedade secreta brasileira mais ou menos equivalente à Klu Klux Klan norte-americana. A odiosa Zelite Branca adora xingar oprimidos em geral e mulheres negras, pobres e exploradas em particular, principalmente as oriundas de classes baixas e desassistidas, como Marta Suplicy e Dilma Rousseff. A expressão maior da Zelite Branca é o juiz Joaquim Barbosa, branco elitista, nascido em família rica e abastada, descendente direto da nobreza imperial. Como dizem negros pobres referindo-se a Michael Jackson, fazendo valer a cota de retaliação histórica que lhes é permitida por tantos anos de opressão: branco rico é foda, quando não caga na entrada, caga na saída.


20.6.14

Noemi Jaffe: "no prison"





no prison
worse
than perfection

no crime
worse
than time

no mendicancy
worse
than money

and, oh, nothing
sort of,
worse than love.




Noemi Jaffe

18.6.14

Paul Verlaine: "Chanson d'automne" / "Canção de outono": trad. Adriano Nunes




"Canção de outono" (Tradução de Adriano Nunes)


Os suspiros infindos
Dos violinos
Do outono
Ferem meu âmago
Com langor
Monótono.

Tão sufocado
E pálido, quando
Chega a hora,
Rememoro
O tempo passado
E choro.

E me transporta
Malvado vento
De um lado
A outro, tal
Qual uma
Folha morta.



Paul Verlaine: "Chanson d'automne"


"Chanson d'automne"

Les sanglots longs
Des violons
De l'automne
Blessent mon coeur
D'une langueur
Monotone.

Tout suffocant
Et blême, quand
Sonne l'heure,
Je me souviens
Des jours anciens
Et je pleure

Et je m'en vais
Au vent mauvais
Qui m'emporte
Deçà, delà,
Pareil à la
Feuille morte.



VERLAINE, Paul. Oeuvres complètes. Paris: Librairie Léon Vanier, Éditeur, Quatrième Édition, 1908.

16.6.14

Paul Verlaine: "Chanson d'automne" / "Canção de outono": trad. Guilherme de Almeida





Canção de outono

Estes lamentos
Dos violões lentos
Do outono
Enchem minha alma
De uma onda calma
De sono.

E soluçando,
Pálido, quando
Soa a hora,
Recordo todos
Os dias doidos
De outrora.

E vou à toa
No ar mau que voa.
Que importa?
Vou pela vida,
Folha caída
E morta.



Chanson d’automne

Les sanglots longs
Des violons
De l'automne
Blessent mon coeur
D'une langueur
Monotone.

Tout suffocant
Et blême, quand
Sonne l'heure,
Je me souviens
Des jours anciens
Et je pleure

Et je m'en vais
Au vent mauvais
Qui m'emporte
Deçà, delà,
Pareil à la
Feuille morte.



VERLAINE, Paul. "Chanson d'automne". Trad. Guilherme de Almeida. In:_____. Poetas de França. São Paulo: Babel, s.d.

14.6.14

Jaime Gil de Biedma: "Amor más poderoso que la vida" / "Amor mais poderoso que a vida": trad. José Bento





Amor más poderoso que la vida

La misma calidad que el sol de tu país,
saliendo entre las nubes:
alegre y delicado matiz en unas hojas,
fulgor de un cristal, modulación
del apagado brillo de la lluvia.

La misma calidad que tu ciudad,
tu ciudad de cristal innumerable
idéntica y distinta, cambiada por el tiempo:
calles que desconozco y plaza antigua
de pájaros poblada,
la plaza en que una noche nos besamos.

La misma calidad que tu expresión,
al cabo de los años,
esta noche al mirarme:
la misma calidad que tu expresión
y la expresión herida de tus labios.

Amor que tiene calidad de vida,
amor sin exigencias de futuro,
presente del pasado,
amor más poderoso que la vida:
perdido y encontrado.
Encontrado, perdido...



Amor mais poderoso que a vida

A mesma qualidade que o sol no teu país,
a sair entre as nuvens:
alegre e delicado matiz numas folhas,
fulgor num vidro, modulação
do apagado brilho da chuva.

A mesma qualidade que a tua cidade,
tua cidade de vidro inumerável
idêntica e diferente, mudada pelo tempo:
ruas que desconheço e praça antiga
de pássaros povoada,
a praça em que uma noite nos beijámos.

A mesma qualidade que a tua expressão,
ao cabo dos anos,
esta noite ao fitar-me:
a mesma qualidade que a tua expressão
e a expressão ferida de teus lábios.

Amor que tem qualidade de vida,
amor sem exigência de futuro,
presente do passado,
amor mais poderoso do que a vida:
perdido e encontrado.
Encontrado, perdido...




BIEDMA, Jaime Gil de. "Poemas póstumos". In:_____. Antologia poética. Trad. de José Bento. Lisboa: Cotovia, 2003.