24.9.14

Paul Celan: "Die Halde" / "A ladeira": trad. João Barrento e Y.K. Centeno




A ladeira

Junto a mim vives tu, igual a mim:
como uma pedra
na face caída da noite.

Oh, amada, esta ladeira,
onde rolamos sem parar,
nós pedras,
de regato em regato.
E cada vez mais redondas.
Mais iguais. Mais estranhas.

Oh, este olho embriagado,
que por aqui vagueia como nós
e que às vezes
com espanto nos vê unidos.



Die Halde                                                                                                    

Neben mir lebst du, gleich mir:
als ein Stein
in der eingesunkenen Wange der Nacht.

O diese Halde, Geliebte,
wo wir pausenlos rollen,
wir Steine,
von Rinnsal zu Rinnsal.
Runder von Mal zu Mal.
Ähnlicher. Fremder.

O dieses trunkene Aug,
das hier umherirrt wie wir
und uns zuweilen
staunend in eins schaut.



CELAN, Paul. "De limiar em limiar" / "Von Schwelle zu Schwelle". In:_____. Sete rosas mais tarde. Antologia poética. Seleção, tradução e introdução de João Barrento e Y.K. Centeno. Lisboa: Cotovia, 1996.


7 comentários:

Jander de Melo M. A. disse...

Gostei muito. Obrigado por compartilhar.

Erick Monteiro Moraes disse...

Lindo, Cicero! Paul Celan é o máximo. Boa essa tradução, tem uma edição da iluminuras chamada "Cristal", alguns poemas também estão bem traduzidos.

Nobile José disse...

Cicero,

Hélio SCHWARTSMAN ontem na Folha disse:
"E é possível que Kant tenha sido um otimista. Ele, afinal, acreditava que a lógica presidia nossas operações mentais. Nas últimas décadas, porém, o cerco à objetividade se apertou. Desde que os psicólogos Daniel Kahneman e Amos Tversky mostraram nos anos 70 que, na hora de fazer escolhas, o cérebro recorre a truques que não são exatamente lógicos, cientistas já identificaram quase 200 vieses cognitivos --desde a tendência de só lembrar das evidências que corroboram nossas expectativas até os erros que permitem a formação de memórias falsas.

O psicólogo Dan Kahan mostrou que nossos pendores ideológicos afetam até a capacidade de fazer cálculos. Um problema matemático exposto sem apelo ideológico foi resolvido sem dificuldade pelos voluntários com maior competência numérica. Mas, quando o mesmíssimo problema foi apresentado com colorações políticas (a eficiência do controle de armas no combate ao crime), o grupo de maior habilidade errou muito mais --e os erros obedeciam às suas preferências pessoais."
Num primeiro momento, achei que tais descobertas de KAHAN inviabilizariam a apócrise. Mas após mentar um pouco, percebi que foi a apócrise que nos permitiu detectar esse viés.
Abrçs.

ADRIANO NUNES disse...

Cicero,


que belo poema! grato por compartilhá-lo!


Abraço forte,
Adriano Nunes

Antonio Cicero disse...

Caro Nobile José,

Você tem razão, pois os psicólogos empiristas que tanto impressionam Schwartsman e que o tentam para o relativismo situam-se, ex definitione, no polo positivo da apócrise, jamais no polo negativo e absoluto.

Mas Schwartsman mostra não compreender bem Kant, ao falar de “interação entre a realidade objetiva e nossa forma humana, subjetiva, de percebê-la”. Para Kant, a própria objetividade não é propriedade da coisa em si, mas é constituída pela unidade de apercepção transcendental que, através das categorias do entendimento, articula a multiplicidade da intuição numa unidade regida por leis.

De todo modo, se a objetividade estivesse tão desmoralizada quanto pretendem esses psicólogos que Schwartsman gosta de citar, de que valeriam as teses deles mesmos?


ADRIANO NUNES disse...

Cicero,

também acho a compreensão de Kant por Schwartsman precária e usada de modo distorcido para sustentar a tese dele. Pois para Kant a objetividade não é uma categoria a priori.

Abraço forte,
Adriano Nunes

Sig ff disse...

Poema demais. Muito bonito.
E sobre Kant tenho posição um pouco diferente, para mim já é científico, ele se baseia na ciência - portanto, nem otimista nem pessimista.