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9.5.19

Sophia de Mello Breyner Andresen: "Às vezes julgo ver nos meus olhos"




Às vezes julgo ver nos meus olhos

Às vezes julgo ver nos meus olhos
A promessa de outros seres
Que eu poderia ter sido,
Se a vida tivesse sido outra.

Mas dessa fabulosa descoberta
Só me vem o terror e a mágoa
De me sentir sem forma, vaga e incerta
Como a água.




ANDRESEN, Sophia de Mello Breyner. "Às vezes julgo ver nos meus olhos". In: Obra poética. Org. por Carlos Mendes de Souza. Alfragide: Editorial Caminho, 2011.

10.4.18

Sophia de Mello Breyner Andresen: "As ondas quebravam uma a uma"



As ondas quebravam uma a uma
Eu estava só com a areia e com a espuma
Do mar que cantava só para mim.



ANDRESEN, Sophia de Mello Breyner. "As ondas quebravam uma a uma". In:_____. Coral e outros poemas. Org. por Eucanaã Ferraz. São Paulo: Companhia das Letras, 2018.

1.4.18

Sophia de Mello Breyner Andresen: "Ausentes são os deuses"



Ausentes são os deuses mas presidem.
Nós habitamos nessa
Transparência ambígua.

Seu pensamento emerge quando tudo
De súbito se torna
Solenemente exacto.

O seu olhar ensina o nosso olhar:
Nossa atenção ao mundo
É o culto que pedem.




ANDRESEN, Sophia de Mello Breyner. "Ausentes são os deuses". In:_____. "Homenagem a Ricardo Reis". In:_____. Dual. Porto: Assírio & Avim, 2014.

15.3.18

Sophia de Mello Breyner Andresen: "Poema de Helena Lanari"



Poema de Helena Lanari

Gosto de ouvir o português do Brasil
Onde as palavras recuperam sua substância total
Concretas como frutos nítidas como pássaros
Gosto de ouvir a palavra com suas sílabas todas
Sem perder sequer um quinto de vogal

Quando Helena Lanari dizia o «coqueiro»
O coqueiro ficava muito mais vegetal




ANDRESEN, Sophia de Mello Breyner. "Poema de Helena Lanari". In_____. Obra poética. Org. por Carlos Mendes de Sousa. Alfragide: Caminho, 2011.

13.7.17

Sophia de Mello Breyner Andresen: "Meio-dia"


Meio-dia

Meio-dia. Um canto da praia sem ninguém.
O sol no alto, fundo, enorme, aberto,
Tornou o céu de todo o deus deserto.
A luz cai implacável como um castigo.
Não há fantasmas nem almas,
E o mar imenso solitário e antigo,
Parece bater palmas.



ANDRESEN, Sophia de Mello Breyner. "Meio-dia". In:_____. "Poesia". In:_____. Obra poética. Org. por Carlos Mendes de Sousa. Alfragide: Editorial Caminho, 2011.


18.1.17

Sophia de Mello Breyner Andresen: "Pescador"




          Pescador

               1

Irmão limpo das coisas
Sem pranto interior
sem introversão



               2

Este que está inteiro em sua vida
Fez do mar e do céu seu ser profundo
E manteve com serena lucidez
Aberto seu olhar e posto sobre o mundo.




ANDRESEN, Sophia de Mello Breyner. "Pescador". In: _____. "Livro sexto". In: _____. Obra poética. Alfragide: Caminho, 2011.

20.11.16

Sophia de Mello Breyner Andresen: "Eu me perdi"




Agradeço ao meu querido amigo, o excelente escritor e artista plástico Pedro Maciel, por me ter chamado atenção para os seguinte poema da maravilhosa Sophia de Mello Breyner Andresen:




Eu me perdi


Eu me perdi na sordidez de um mundo
Onde era preciso ser
Policia agiota fariseu
Ou cocote

Eu me perdi na sordidez do mundo
Eu em salvei na limpidez da terra

Eu me busquei no vento e me encontrei no mar
E nunca
Um navio da costa se afastou
Sem me levar




ANDRESEN, Sophia de Mello Breyner. "Eu me perdi". In:_____. Obra poética. Edição: Carlos Mendes de Sousa. Alfragide: Editorial Caminho, 2011.

7.8.16

Sophia de Mello Breyner Andresen: "Manuel Bandeira"





Manuel Bandeira

Este poeta está
Do outro lado do mar
Mas reconheço a sua voz há muitos anos
E digo ao silêncio os seus versos devagar


Relembrando
O antigo jovem tempo tempo quando
Pelos sombrios corredores da casa antiga
Nas solenes penumbras do silêncio
Eu recitava
"As três mulheres do sabonete Araxá"
E minha avó se espantava


Manuel Bandeira era o maior espanto da minha avó
Quando em manhãs intactas e perdidas
No quarto já então pleno de futura
Saudade
Eu lia
A canção do "Trem de ferro"
E o "Poema do beco"


Tempo antigo lembrança demorada
Quando deixei uma tesoura esquecida nos ramos da cerejeira
Quando
Me sentava nos bancos pintados de fresco
E no Junho inquieto e transparente
As três mulheres do sabonete Araxá
Me acompanhavam
Tão visíveis
Que um eléctrico amarelo as decepava


Estes poemas caminharam comigo e com a brisa
Nos passeados campos da minha juventude
Estes poemas poisaram a sua mão sobre o meu ombro
E foram parte do tempo respirado.




ANDRESEN, Sophia de Mello Breyner. "Manuel Bandeira". In:_____. "Brasil ou do outro lado do mar". In:_____. Obra poética. Org. por Carlos Mendes de Sousa. Alfragide: Caminho, 2011.

12.1.15

Sophia de Mello Breyner Andresen: "As três Parcas"




As três Parcas

As três Parcas que tecem os errados
Caminhos onde a rir atraiçoamos
O puro tempo onde jamais chegamos
As três Parcas conhecem os maus fados.

Por nós elas esperam nos trocados
Caminhos onde cegos nos trocamos
Por alguém que não somos nem amamos
Mas que presos nos leva e dominados.

E nunca mais o doce vento aéreo
Nos levará ao mundo desejado
E nunca mais o rosto do mistério

Será o nosso rosto conquistado
Nem nos darão os deuses o império
Que à nossa espera tinham inventado.



ANDRESEN, Sophia de Mello Breyner. "As três Parcas". In:_____. BERARDINELLI, Cleonice. Cinco séculos de sonetos portugueses. Rio de Janeiro: Casa da Palavra, 2013.

20.7.14

Sophia de Mello Breyner Andresen: "Arte poética"




Arte poética

A dicção não implica estar alegre ou triste
Mas dar minha voz à veemência das coisas
E fazer do mundo exterior substância da minha mente
Como quem devora o coração do leão

Olha fita escuta
Atenta para a caçada no quarto penumbroso



ANDRESEN, Sophia de Mello Breyner. "O Búzio de Cós e outros poemas". Edição de Carlos Mendes de Sousa. In:_____. Obra poética. Alfragide: Caminho, 2011.

12.2.14

Sophia de Mello Breyner Andresen: "Porque"





Porque

Porque os outros se mascaram mas tu não
Porque os outros usam a virtude
Para comprar o que não tem perdão.
Porque os outros têm medo mas tu não.

Porque os outros são os túmulos caiados
Onde germina calada a podridão.
Porque os outros se calam mas tu não.

Porque os outros se compram e se vendem
E os seus gestos dão sempre dividendo.
Porque os outros são hábeis mas tu não.

Porque os outros vão à sombra dos abrigos
E tu vais de mãos dadas com os perigos.
Porque os outros calculam mas tu não.




ANDRESEN,  Sophia de Mello Breyner. "Mar novo". In:_____. Obra poética. Org. por Carlos Mendes de Sousa. Alfragide: Caminho, 2011.

13.11.13

Sophia de Mello Breyner Andresen: "A casa térrea"




A casa térrea

Que a arte não se torne para ti a compensação daquilo que não
                                                                            [soubeste ser
Que não seja transferência nem refúgio
Nem deixes que o poema te adie ou divida: mas que seja
A verdade do teu inteiro estar terrestre

Então construirás a tua casa na planície costeira
A meia distância entre montanha e mar
Construirás -- como se diz -- a casa térrea --
Construirás a partir do fundamento



ANDRESEN, Sophia de Mello Breyner. "O nome das coisas". In:_____. Obra poética. Alfragide: Caminho, 2011.


6.8.13

Sophia de Mello Breyner Andresen: "Soneto de Eurydice"







Soneto de Eurydice

Eurydice perdida que no cheiro
E nas vozes do mar procura Orpheu:
Ausência que povoa terra e céu
E cobre de silêncio o mundo inteiro.

Assim bebi manhãs de nevoeiro
E deixei de estar viva e de ser eu
Em procura de um rosto que era o meu
O meu rosto secreto e verdadeiro.

Porém nem nas marés, nem na miragem
Eu te encontrei. Erguia-se somente
O rosto liso e puro da paisagem.

E devagar tornei-me transparente
Como morte nascida à tua imagem
E no mundo perdida esterilmente.



ANDRESEN, Sophia de Mello Breyner. In: BERARDINELLI, Cleonice (org.). Sonetos portugueses de Camões a Fernando Pessoa. Rio de Janeiro: Casa da Palavra, 2013. 

1.3.13

Sophia de Mello Breyner Andresen: "Lua"







Lua

Entre a terra e os astros, flor intensa,
Nascida do silêncio, a lua cheia
Dá vertigens ao mar e azula a areia,
E a terra segue-a em êxtases suspensa.




ANDRESEN, Sophia de Mello Breyner. "Dia do mar". In:_____. Obra poética. Alfragide: Caminho, 2011.

12.5.12

Sophia de Mello Breyner Andresen: "No poema"




No poema

Transferir o quadro o muro a brisa
A flor o copo o brilho da madeira
E a fria e virgem liquidez da água
Para o mundo do poema limpo e rigoroso

Preservar de decadência morte e ruína
O instante real de aparição e de surpresa
Guardar num mundo claro
O gesto claro da mão tocando a mesa




ANDRESEN, Sophia de Mello Breyner. "Livro sexto". In: Obra poética. Alfragide: Editorial Caminho, 2011.

5.12.11

Sophia de Mello Breyner Andresen: "O Minotauro"




O Minotauro


Em Creta
Onde o Minotauro reina
Banhei-me no mar

Há uma rápida dança que se dança em frente
[de um toiro
Na antiquíssima juventude do dia
Nenhuma droga me embriagou me escondeu
[me protegeu
Só bebi retsina tendo derramado na terra a
[parte que pertence aos deuses

De Creta
Enfeitei-me de flores e mastiguei o amargo
[vivo das ervas
Para inteiramente acordada comungar a terra
De Creta
Beijei o chão como Ulisses
Caminhei na luz nua

Devastada era eu própria como a cidade em
[ruína
Que ninguém reconstruiu
Mas no sol dos meus pátios vazios
A fúria reina intacta
E penetra comigo no interior do mar
Porque pertenço à raça daqueles que
[mergulham de olhos abertos
E reconhecem o abismo pedra a pedra
[anémona a anémona flor a flor
E o mar de Creta por dentro é todo azul
Oferenda incrível de primordial alegria
Onde o sombrio Minotauro navega

Pinturas ondas colunas e planícies

Em Creta
Inteiramente acordada atravessei o dia
E caminhei no interior dos palácios veementes
[e vermelhos
palácios sucessivos e roucos
Onde se ergue o respirar da sussurrada treva
E nos fitam pupilas semi-azuis de penumbra e
[terror
Imanentes ao dia –
Caminhei no palácio dual de combate
[e confronto
Onde o Príncipe dos Lírios ergue os seus gestos [matinais


nenhuma droga me embriagou me escondeu
[me protegeu
O Dionysos que dança comigo na vaga não se
[vende em nenhum mercado negro
Mas cresce como flor daqueles cujo ser
Sem cessar se busca e se perde e se desune e
[se reúne
E esta é a dança do ser

Em Creta
Os muros de tijolo da cidade minóica
São feitos com barro amassado com algas
E quando me virei para trás da minha sombra
Vi que era azul o sol que tocava o meu ombro

Em Creta onde o Minotauro reina atravessei
[a vaga
De olhos abertos inteiramente acordada
Sem drogas e sem filtro
Só vinho bebido em frente da solenidade das [coisas –
Porque pertenço à raça daqueles que
[percorrem o labirinto,
Sem jamais perderem o fio de linho da palavra




ANDRESEN, Sophia de Mello Breyner. "Dual". In:_____. Obra poética. SOUSA, Carlos Mendes de (org.). Alfragide: Caminho, 2001.

10.9.11

Sophia de Mello Bryner Andresen



Biografia

Tive amigos que morriam, amigos que partiam
Outros quebravam o seu rosto contra o tempo.
Odiei o que era fácil
Procurei-te na luz, no mar, no vento.

ANDRESEN, Sophia de Mello Bryner. No tempo dividido e mar novo. Lisboa: Salamandra, 1985.

4.8.11

Sophia de Mello Breyner Andresen: "O poema"




O poema

O poema me levará no tempo
Quando eu não for a habitação do tempo
E passarei sozinha
Entre as mãos de quem lê

O poema alguém o dirá
Às searas

Sua passagem se confundirá
Com o rumor do mar com o passar do vento

O poema habitará
O espaço mais concreto e mais atento

No ar claro nas tardes transparentes
Suas sílabas redondas

(Ó antigas ó longas
Eternas tardes lisas)

Mesmo que eu morra o poema encontrará
Uma praia onde quebrar as suas ondas

E entre quatro paredes densas
De funda e devorada solidão
Alguém seu próprio ser confundirá
Com o poema no tempo


ANDRESEN, Sophia de Mello Breyner. "Livro sexto". In:_____Obra poética. Alfragide: Caminho, 2011.

23.5.11

Sophia de Mello Breyner Andresen: "Apesar das ruínas e da morte"




Apesar das ruínas e da morte,
Onde sempre acabou cada ilusão,
A força dos meus sonhos é tão forte,
Que de tudo renasce a exaltação
E nunca as minhas mãos ficam vazias.



ANDRESEN, Sophia de Mello Breyner. "Poesia". In: Obra poética. Lisboa: Caminho, 2011.

1.9.10

Sophia de Mello Breyner Andresen: "Mar"




Mar

De todos os cantos do mundo
Amo com um amor mais forte e mais profundo
Aquela praia extasiada e nua
Onde me uni ao mar, ao vento e à lua.



ANDRESEN, Sophia de Mello Breyner. Poesia I. Lisboa: Edições Ática, 1975.