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26.4.14

Noemi Jaffe: "Teimosa humanidade"


O seguinte -- excelente -- artigo da Noemi Jaffe foi publicado na Folha de São Paulo no dia 24 de abril de 2014. Agradeço ao Nobile José por me ter chamado atenção para ele:



Teimosa humanidade

Ridicularizar o desejo de mudança social, simplificá-lo com o epíteto de 'esquerda' e atribuir-lhe o objetivo de 'pegar mulher' só revela frustrações

Não se trata mais de responder às falácias generalistas do colunista Luiz Felipe Pondé, que escreve às segundas-feiras no caderno "Ilustrada". Seria atender exatamente ao desejo, implícito em suas acusações, de polemizar gratuitamente.

O caso, agora que todos os limites de respeitabilidade foram ultrapassados, é falar não sobre o que ele escreve, mas como despeja seus impropérios. Trata-se de leviandade --um tratamento ligeiro, vão e vazio com relação à linguagem, ao próximo e a temas a que a humanidade teima em dar seriedade para continuar se considerando humana.

Há tempos que o colunista tripudia, sem graça, daquilo que chama de "querer o bem", "querer melhorar ou mudar o mundo". Em seu mais recente artigo ("Por uma direita festiva", 21/4), chega a dizer que falas como "o capital mata crianças de fome na África" servem para "pegar" mulher.

O colunista acredita se valer de falas pretensamente engraçadas, que na sua cabeça reproduzem o discurso de uma esquerda pasteurizada, para novamente ridicularizar quem se preocupa com a fome na África. Seria desperdício exemplificar outras falas da suposta esquerda que o colunista, cafona e infantilmente, procura reproduzir.

Gostaria de discutir a leviandade do tratamento jocoso às ideias de "fazer o bem" e "querer um mundo melhor", tratadas como típicas de uma esquerda cujo maior desejo é "pegar mulher". Parece que esses pensamentos nunca passariam de inocência ou demagogia disfarçada, em sua visão pretensamente schopenhauriana, machadiana ou rodrigueana de alguém cuja maturidade filosófica o levou a saber que nada nunca muda para melhor.

Schopenhauer fala, em seu conceito de "ética metafísica", do fenômeno da compaixão, ou identificação total com a dor do outro, o que representaria a afirmação plena e consciente do "querer". Nelson Rodrigues dizia que até o mais descarado canalha deve ter seus momentos de compaixão, sonho, amor ou pena. Machado de Assis, o que é nada menos que óbvio para qualquer bom leitor de sua obra, é sempre dialeticamente pessimista. Ou seja, seu pessimismo de base comporta inevitavelmente uma denúncia ou um inconformismo moral.

Provavelmente, os três autores seriam considerados pelo colunista leviano, a partir desse ponto de vista, como "esquerdinhas interessados em pegar mulher".

O desejo de mudar e de melhorar o mundo não é de esquerda nem de direita. A compaixão pelos que passam fome --malgrado sua ineficácia prática-- é um índice mínimo do humano no humano. Mas, para além da ingenuidade desses desejos e sentimentos, há neles também o possível e o praticável.

Hoje, melhorar a vida e o mundo consiste basicamente em preocupar-se em minimizar a desigualdade social e econômica. Desacreditar dessa possibilidade e, pior, desdenhá-la significa justificar o autoritarismo e sua fonte primária, o medo, aquele que mora em todos nós e que só a civilidade e a cultura são capazes de inibir. Ridicularizar o desejo de mudança social, simplificá-lo com o epíteto de "esquerda" e justificá-lo como "para pegar mulher" só revela as frustrações de quem utiliza esses pretensos argumentos.

O melhor, diante de tanto cinismo, seria se calar. Mas devo confessar minha fraqueza.

Noemi Jaffe

1.2.07

Os modernos e os antigos

Alguns amigos disseram ter achado obscura uma carta que enviei à Folha de São Paulo, publicada ontem (31/01). Receio que estejam certos. Preocupado em ser muito sucinto, eu talvez tenha sido pouco claro. Uma das vantagens do blog é ser um espaço em que se pode expender livremente as idéias.
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Trata-se do seguinte. Em entrevista concedida em 27/01 à Folha (Ilustrada, pag. E1), o professor Luiz Felipe Pondé, da PUC de São Paulo, afirmando que a pretensão dos modernos a saber mais do que os antigos causa "risadas numa mente conservadora", compara a modernidade a uma arrogante adolescente de 14 anos que entra numa empresa, joga fora o que foi feito até hoje e começa a inventar todos os procedimentos. Desse modo, ele está usando um desgastado topos, segundo o qual a Modernidade seria uma jovem pretensiosa que despreza a sabedoria e a experiência da Antigüidade e da Idade Média, mais velhas. O que eu quis fazer foi mostrar que essa metáfora já havia sido desmontada pelo menos desde o século 16, de modo que "causa risadas numa mente moderna". Por isso citei Giordano Bruno e Francis Bacon. Com a preocupação de ser compacto – pois tratava-se de uma carta de leitor, que deve ser breve – não comentei as citações, de modo talvez tenha deixado pouco claro um argumento que normalmente poderia ser entendido até por uma criança.
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O que Bacon afirma (no Novum Organum, livro I, aforismo 84) é que "a velhice do mundo, que deve ser tida como a verdadeira antiguidade, é atributo dos nossos tempos, não da idade mais jovem do mundo, em que os antigos viviam". Quanto a Bruno, quando um dos personagens do seu diálogo "Cena de le ceneri" (dialogo primo) diz preferir não discordar do parecer dos antigos "porque na antiguidade está a sapiência", o outro responde, com razão: "Se você entendesse bem o que diz, veria que do seu fundamento se infere o contrário do que pensa. Quero dizer que somos mais velhos e temos mais idade do que os nossos predecessores".
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Uma simples analogia pode ilustrar o raciocínio desses pensadores. Um retrato de quando eu tinha dois anos de idade é velho, é antigo, para mim; no entanto, sou mais velho – logo sou mais antigo – e tenho mais experiência hoje do que naquela época. Analogamente, a humanidade da época de Péricles é antiga para nós, de modo que dizemos fazer parte da Antiguidade; no entanto, a humanidade da nossa época, isto é, da época moderna, é mais velha – logo mais antiga – e tem mais experiência do que a da época de Péricles.
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Pondé devia prestar atenção ao que dizem os antigos.