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25.2.19

Ruy Espinheira Filho: "O poeta e seu leitor"




O poeta e seu leitor


Releio amado poeta
e não reencontro o que li.

Sem dúvida: é o mesmo livro
que tanto li e reli.

Onde as graves emoções
em que outrora me perdi,

os densos sopros de alma
em que chorei ou sorri?

Por mais que releia o livro,
não vejo o que vi ali.

Terá mudado o poeta,
ou me enganei no que li?

Não, não mudou o poeta,
nem me enganei no que li

na voz serena dos versos
em que chorei ou sorri:

é que o leitor do poeta
foi um que em mim já perdi.





ESPINHEIRA FILHO, Ruy. "O poeta e seu leitor". In:_____. Estação infinita e outras estações: poesia reunida (1966-2012).  Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 2012.

1.10.12

Ruy Espinheira Filho: "Depois"




Depois


Depois, saiu andando pela tarde.
Alguém cantava, longe, acalentando
os escombros do ocaso. E até onde
ele chegara se chamava vida.
Assim pensou, enquanto ouvia a doce
canção da Ausente, de onde renasciam
borboletas, regatos, girassóis
e cães ladrando em quintais antigos.
Olhou (andando, andando) o céu cinzento.
O que restava? Aquilo. As tantas horas
mortas, mortas palavras, morto chão
do amor, dispersos hálitos de alma,
e morta a infância, e tudo morto, morto
- mas persistindo, ali, com uma pátina
inelutável, e se chamava vida.
E ele parou, sentindo-se. E, repleto,
depois saiu andando pela tarde.



ESPINHEIRA FILHO, Ruy. "Memória da chuva". In:_____. Antologia poética. Salvador: Fundação Casa de Jorge Amado/Copene, 1996.