18.2.19

Luiz Roberto Nascimento Silva: "Será que é o mar"




Será que é o mar



Será que o mar conforma a terra

ou a terra invade o mar?

Visto do alto de um avião,

quando se vislumbra a Baía de Guanabara

não se sabe ao certo, nem de forma clara.


Será que é o azul do mar

que ilumina o céu e os seus olhos

ou será esse céu que dá cor à água

e ao seu transparente olhar de anágua?


Será que a distância que nos separa

é que aumenta a saudade

ou será a saudade que produz pressa

urgência da ausência

que a presença mascara?


Será que essas perguntas trazem respostas

ou serão respostas as próprias perguntas

sem importar quem as declara.

Assim segue o homem, eterno enigma

entre todos os animais; espécie mais rara.






SILVA, Luiz Roberto Nascimento. "Será que é o mar". In:_____. Rio 80 graus. Rio de Janeiro: 7 Letras, 2018.


15.2.19

W. B. Yeats: "An Irish airman foresees his death" / "Um aviador irlandês prevê a morte"



Um aviador irlandês prevê a morte


Encontrarei meu fim no meio

das nuvens de algum céu sobejo;

os que combato, eu não odeio,

também não amo os que protejo;

Kiltartan Cross é meu país,

seus pobres são a minha gente,

nada a fará mais infeliz

do que já era, ou mais contente.

Não é por lei ou por dever,

turba ou políticos, que luto,

mas pelo afã de me entreter,

a sós, nas nuvens em tumulto.

Tudo na mente foi pesado:

nada que espere ou que recorde

vale-me a pena comparado

com esta vida ou esta morte.






An Irish airman foresees his death


I know that I shall meet my fate 

Somewhere among the clouds above; 

Those that I fight I do not hate 

Those that I guard I do not love; 

My country is Kiltartan Cross,

My countrymen Kiltartan’s poor, 

No likely end could bring them loss 

Or leave them happier than before. 

Nor law, nor duty bade me fight, 

Nor public man, nor cheering crowds,

A lonely impulse of delight 

Drove to this tumult in the clouds; 

I balanced all, brought all to mind, 

The years to come seemed waste of breath, 

A waste of breath the years behind

In balance with this life, this death.






YEATS, W.B. "An Irish airman foresees his death" / "Um aviador irlandês prevê a morte". In: ASCHER, Nelson (org.). Poesia alheia. 124 poemas traduzidos. Rio de Janeiro: Imago, 1998.


13.2.19

Fernando Pessoa: "Sonhador de sonhos"




Sonhador de sonhos


Sonhador de sonhos

Queres me vender

Teus dias risonhos

Por eu te esquecer?...


Minha alma é só mágoa

Por saber que vive...

Passo como a água,

Nunca fui ou estive...






PESSOA, Fernando. “Sonhador de sonhos”. In:_____. Poesia, 1902-17. Org. por Manuela Parreira da Silva, Ana Maria Freitas, Madalena Dine. Porto:  Assírio & Alvim, 2005.

11.2.19

Ingeborg Bachmann: "Schatten Rosen Schatten" / "Sombras rosas sombras"



Sombras rosas sombras


Sob um céu estranho

sombras rosas

sombras

sobre uma terra estranha

entre rosas e sombras

numa água estranha

minha sombra






Schatten Rosen Schatten


Unter einem fremden Himmel

Schatten Rosen

Schatten

auf einer fremden Erde

zwischen Rosen und Schatten

in einem fremden Wasser

mein Schatten





BACHMANN, Ingeborg. Werke. Eds. Christine Kosehel, Inge von Weidenbaum, Clemens Münster. München, Zürich: R. Piper, 1978.

9.2.19

Jorge Luis Borges: "El despertar" / "O despertar"




O despertar                                                               


Penetra a luz e ascendo lentamente

Dos sonhos para o sonho compartido

E as coisas voltam para o seu devido

E esperado lugar e no presente

Retorna esmagador e vasto o vago

Ontem: as seculares migrações

Do pássaro e do homem, as legiões

Que o ferro destroçou, Roma e Cartago.

Torna também a cotidiana história:

Meu rosto e minha voz, o medo, a sorte.

Ah, se aquele outro despertar, a morte,

Me deparasse um tempo sem memória

Do meu nome, de mim, de meus momentos!

– Trouxesse esta manhã o esquecimento!...







El despertar


Entra la luz y asciendo torpemente

De los sueños al sueño compartido

Y las cosas recobran su debido

Y esperado lugar y en el presente

Converge abrumador y vasto el vago

Ayer: las seculares migraciones

Del pájaro y del hombre, las legiones

Que el hierro destruyó: Roma y Cartago.

Vuelve también la cotidiana historia:                                              

Mi voz, mi rostro, mi temor, mi suerte.

¡Ah, si aquel otro despertar la muerte

Me deparara un tiempo sin memoria

De mi nombre y de todo lo que he sido!

¡Ah, si en esa mañana hubiera olvido!






BORGES, Jorge Luis. “El despertar” / “O despertar”. In:_____. Borges poeta – Antologia poética bilingüe. Trad. de Jorge Wanderley. Rio de Janeiro: Leviatã, 1992.











6.2.19

Ivan Junqueira: "Poética"



Poética


A arte é pura matemática
como de Bach uma tocata
ou de Cézanne a pincelada
exasperada, mas exata.

É mais do que isso: uma abstrata
cosmogonia de fantasmas
que de ti lentos se desgarram
em busca de uma forma clara,

da linha que lhes dê, no espaço,
a geometria das rosáceas,
a curva austera das arcadas
ou o rigor de uma pilastra;

enfim, nada que lembre as dádivas
da natureza, mas a pátina
em que, domada, a vida alastra
a luz e a cor da eternidade,

tal qual se vê nas cariátides
ou nas harpias de um bestiário,
onde a emoção sucumbe à adaga
do pensamento que a trespassa.

Despencam, secas, as grinaldas
que o tempo pendurou na escarpa.
Mas dura e esplende a catedral
que se ergue muito além das árvores.





JUNQUEIRA, Ivan. "Poética". In:_____. O tempo além do tempo. Antologia. Org. por Arnaldo Saraiva. Vila Nova de Famalicão: Quasi, 2007.




5.2.19

Franz Kafka: Aphorismus 06 / Aforismo 06: trad. de Silveira de Souza




06

O momento decisivo do desenvolvimento humano é perpétuo. Em torno, movimentam-se os espíritos revolucionários, os quais, em verdade, buscam inutilmente de antemão tudo explicar, pois nada definitivo ainda aconteceu.





06

Der entscheidende Augenblick der menschlichen Entwicklung ist immerwährend. Darum sind die revolutionären geistigen Bewegungen, welche alles Frühere für nichtig erklären, im Recht, denn es ist noch nichts geschehen.





KAFKA, Franz. Aforismo 96. In:_____. 28 desaforismos = 28 Aphorismen. Trad. de Silveira de Souza. Florianópolis: Editora da UFSC: Bernúncia, 2010.