19.3.12
Fernando Brant: "Os direitos autorais são uma conquista da civilização"
Agradeço ao escritor Pedro Maciel por me ter enviado o seguinte artigo de Fernando Brant, publicado originalmente no jornal Estado de Minas, em março de 2012:
Os direitos autorais são uma conquista da civilização
Os poetas escrevem versos e os enviam aos leitores como carta de náufrago. Não têm esperança de serem muito lidos, mas almejam pelo menos a atenção dos colegas de profissão. Se o acaso, após várias edições minúsculas bancadas por suas pequenas economias, os levam a alguma espécie de reconhecimento público, é como se o mundo se debruçasse diante de seu talento. Poetas escrevem para poetas, o que nos leva a concluir que os que o lêem também o são ou, no mínimo, comungam da mesma sensibilidade. O leitor de poesia fornece o combustível para que eles prossigam.
A poesia, por mais que digam o contrário os práticos do mercado, tem um poder avassalador. Inocula a alma das pessoas e se transmite por gerações. Criada sem nenhuma ambição econômica, ela acaba por criar uma força tão forte como o dinheiro. Ela ri dos poderosos e expõe o ridículo dos ditadores, pois todos eles têm tempo de validade. A poesia não.
Nos tempos de Homero, Virgílio ou Camões, séculos e até milênios antes do capitalismo, a recompensa pelas obras criadas por eles era, no máximo, a glória contemporânea ou futura. O mesmo se pode dizer das artes da pintura e da escultura. Até que os mecenas financiassem o trabalho desses gênios.
Aí vieram o iluminismo, a idade das luzes, a revolução francesa e os direitos humanos.
A valorização do cidadão, senhor do Estado, a quem somente delegava poderes, a conquista da democracia, do governo para todos, da igualdade, da fraternidade e da liberdade. Nos versos de Cecília Meireles, “liberdade – essa palavra que o sonho humano alimenta: que não há ninguém que explique e ninguém que não entenda.”
Depois de 14 de julho de 1789, os cidadãos escritores, poetas e artistas se levantaram na defesa de seus direitos de autores. No restaurante “Les Ambassateurs”, textos escritos por eles eram encenados e eles não recebiam nada. Tudo ali era pago: os vinhos e champagnes, as requintadas refeições.
Numa certa noite, toda a Paris cultural se dirigiu àquela casa de pasto e espetáculo.Todos comeram e beberam do melhor. Na hora da conta, disseram que não pagariam nada, da mesma forma que suas obras não eram remuneradas. Chamou-se a polícia, instaurou-se a polêmica e daí resultou a criação da primeira sociedade de autores teatrais. Depois dela, centenas foram fundadas em todos os países, no ocidente e no oriente, em defesa dos criadores e de suas obras.
Disse acima que o leitor de poesia também é poeta, pois participa com sua sensibilidade da criação que o autor lhe oferece. O mesmo vale para quem escuta e canta canções, assiste a filmes, contempla as belezas plásticas e lê romances.
Mas essa parceria inexiste quando, em nome da existência de novos meios de comunicação, pessoas e empresas renegam o que é conquista da civilização e burlam o direito dos autores que dizem amar. Não amam.
18.3.12
Noemi Jaffe: "Aniversário"
aniversário
se você tenta, se você enfrenta, se você inventa, se você é briguenta, se você come menta, se você arrebenta, se você se contenta, se você é ciumenta, se você aumenta, se você condimenta, se você cumprimenta, se você se aposenta, se você é desatenta, se você arregimenta, se você cimenta, se você é cinzenta, azarenta, atenta, cruenta, barulhenta, avarenta, nojenta, fedorenta, molambenta, fraudulenta, truculenta e sonolenta, enfim e por tudo, se você quarenta e nove, você cinquenta.
Labels:
Aniversário,
Noemi Jaffe
17.3.12
Alberto Pucheu: "O dia em que Gottfried Benn pegou onda"
O poema "O dia em que Gottfried Benn pegou onda" é recitado pelo seu autor, o poeta Alberto Pucheu, no seguinte vídeo, de Danielle Fonseca, intitulado "É preciso aprender a ficar submerso":
Labels:
Alberto Pucheu,
Danielle Fonseca,
Poema
16.3.12
João Cabral de Melo Neto: "Catar feijão"
Catar feijão
Catar feijão se limita com escrever:
jogam-se os grãos na água do alguidar
e as palavras na da folha de papel;
e depois, joga-se fora o que boiar.
Certo, toda palavra boiará no papel,
água congelada, por chumbo seu verbo:
pois para catar esse feijão, soprar nele,
e jogar fora o leve e oco, palha e eco.
Ora, nesse catar feijão entra um risco:
o de que entre os grãos pesados entre
um grão qualquer, pedra ou indigesto,
um grão imastigável, de quebrar dente.
Certo não, quando ao catar palavras:
a pedra dá à frase seu grão mais vivo:
obstrui a leitura fluviante, flutual,
açula a atenção, isca-a com risco.
MELO NETO, João Cabral de. Obra completa. Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 1995.
Labels:
João Cabral de Melo Neto,
Poema
14.3.12
J.G. Hamann: de "Aesthetica in nuce"
A poesia é a língua materna da humanidade; assim como a jardinagem é mais antiga que a agricultura, a pintura que a escrita, o canto que a declamação, a parábola que a dedução, a troca que o comércio.
HAMANN, J.G. Sokratische Denkwürdigkeiten. Aesthetica in nuce. Stuttgart: Reclam, 1998.
Labels:
J.G. Hamann,
Oficina de Poesia
11.3.12
W.S. Merwin: "Yesterday" / "Ontem": trad. Antonio Cicero
Yesterday
My friend says I was not a good son
you understand
I say yes I understand
he says I did not go
to see my parents very often you know
and I say yes I know
even when I was living in the same city he says
maybe I would go there once
a month or maybe even less
I say oh yes
he says the last time I went to see my father
I say the last time I saw my father
he says the last time I saw my father
he was asking me about my life
how I was making out and he
went into the next room
to get something to give me
oh I say
feeling again the cold
of my father's hand the last time
he says and my father turned
in the doorway and saw me
look at my wristwatch and he
said you know I would like you to stay
and talk with me
oh yes I say
but if you are busy he said
I don't want you to feel that you
have to
just because I'm here
I say nothing
he says my father
said maybe
you have important work you are doing
or maybe you should be seeing
somebody I don't want to keep you
I look out the window
my friend is older than I am
he says and I told my father it was so
and I got up and left him then
you know
though there was nowhere I had to go
and nothing I had to do
Ontem
Meu amigo diz que não fui um bom filho
entende
digo sim entendo
ele diz que eu não ia
ver meus pais assiduamente sabe
e digo sim eu sei
mesmo quando eu vivia na mesma cidade ele diz
eu ia lá quem sabe uma vez
por mês quem sabe até menos
digo ah é
ele diz que da última vez que fui ver meu pai
digo a última vez que vi meu pai
ele diz que da última vez que vi meu pai
ele me perguntou sobre minha vida
como eu estava me saindo e ele
foi até o quarto
pegar alguma coisa para me dar
ah eu digo
sentindo de novo o frio
da mão de meu pai da última vez
ele diz e meu pai se virou
na soleira e me viu
olhar para o meu relógio e ele
disse sabe eu gostaria que você ficasse
e conversasse comigo
ah sim eu digo
mas se você estiver ocupado ele disse
não quero que ache que
tem que ficar
só porque eu estou aqui
eu nada digo
ele diz meu pai
disse vai ver
que você tem trabalho importante a fazer
ou então tem que encontrar
alguém não quero prender você
eu olho pela janela
meu amigo é mais velho que eu
ele diz e eu disse a meu pai que tinha
e me levantei e o deixei então
sabe
embora não tivesse que ir a lugar nenhum
nem coisa nenhuma a fazer
MERWIN, W.S. "Yesterday". Disp. no site Poets org, na URL
http://www.poets.org/viewmedia.php/prmMID/15741. Acessado em 11/03/2011.
My friend says I was not a good son
you understand
I say yes I understand
he says I did not go
to see my parents very often you know
and I say yes I know
even when I was living in the same city he says
maybe I would go there once
a month or maybe even less
I say oh yes
he says the last time I went to see my father
I say the last time I saw my father
he says the last time I saw my father
he was asking me about my life
how I was making out and he
went into the next room
to get something to give me
oh I say
feeling again the cold
of my father's hand the last time
he says and my father turned
in the doorway and saw me
look at my wristwatch and he
said you know I would like you to stay
and talk with me
oh yes I say
but if you are busy he said
I don't want you to feel that you
have to
just because I'm here
I say nothing
he says my father
said maybe
you have important work you are doing
or maybe you should be seeing
somebody I don't want to keep you
I look out the window
my friend is older than I am
he says and I told my father it was so
and I got up and left him then
you know
though there was nowhere I had to go
and nothing I had to do
Ontem
Meu amigo diz que não fui um bom filho
entende
digo sim entendo
ele diz que eu não ia
ver meus pais assiduamente sabe
e digo sim eu sei
mesmo quando eu vivia na mesma cidade ele diz
eu ia lá quem sabe uma vez
por mês quem sabe até menos
digo ah é
ele diz que da última vez que fui ver meu pai
digo a última vez que vi meu pai
ele diz que da última vez que vi meu pai
ele me perguntou sobre minha vida
como eu estava me saindo e ele
foi até o quarto
pegar alguma coisa para me dar
ah eu digo
sentindo de novo o frio
da mão de meu pai da última vez
ele diz e meu pai se virou
na soleira e me viu
olhar para o meu relógio e ele
disse sabe eu gostaria que você ficasse
e conversasse comigo
ah sim eu digo
mas se você estiver ocupado ele disse
não quero que ache que
tem que ficar
só porque eu estou aqui
eu nada digo
ele diz meu pai
disse vai ver
que você tem trabalho importante a fazer
ou então tem que encontrar
alguém não quero prender você
eu olho pela janela
meu amigo é mais velho que eu
ele diz e eu disse a meu pai que tinha
e me levantei e o deixei então
sabe
embora não tivesse que ir a lugar nenhum
nem coisa nenhuma a fazer
MERWIN, W.S. "Yesterday". Disp. no site Poets org, na URL
http://www.poets.org/viewmedia.php/prmMID/15741. Acessado em 11/03/2011.
Labels:
Poema,
W.S Merwin
7.3.12
Gastão Cruz: "Memória"
Memória
A voz rouca da noite exprime a nossa
memória poderia dizer a
nossa história mas evito
o que possa
anular o sentido
do que procuro manter vivo
CRUZ, Gastão. Observação do verão. Lisboa: Assírio & Alvim, 2011.
Labels:
Gastão Cruz,
Poema
Assinar:
Postagens (Atom)