16.11.19

Jacques Prévert: "Le grand homme" / "O grande homem": trad. de Silviano Santiago




O grande homem


No ateliê do talhador de pedra

onde o encontrei

lhe tiravam medidas

para a posteridade.






Le grand homme


Chez un tailleur de pierre

où je l’ai rencontré

il faisait prendre ses mesures

pour la postérité






PRÉVERT, Jacques. "Le grand homme" / "O grande homem". In:_____. Poemas. Trad. de Silviano Santiago. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1985.

14.11.19

Lêdo Ivo: "O espinho"




O espinho


Caluniado espinho na haste da rosa,
a ninguém ferirás nesta manhã
em que a rosa vermelha, a rosa airosa
oferta a sua vida à vida vã.

Neste dia de sol tudo é passagem.
E mesmo a eternidade é um caminho,
coito de luz e sombra, na viagem
entre o dia e a noite, a rosa e o espinho.




IVO, Lêdo. "O espinho". In:_____. "Plenilùnio". In:_____. Poesia completa: 1940-2004. Rio de Janeiro: Topbooks, 2004.

12.11.19

Paulo Henriques Britto: "Spleen 2 ½"




Spleen 2 ½


Não se fazem mais lembranças
como as de antigamente.
Agora a memória apenas
acumula indiferente

o que logrou atrair
a atenção por um instante
e amarra tudo com o mesmo
indefectível barbante

e o joga numa gaveta
cronicamente emperrada,
a qual só será aberta
na hora errada.






BRITTO,  Paulo  Henriques. "Spleen 2 ½". In:_____. Nenhum mistério. São Paulo: Companhia das Letras, 2018.

10.11.19

Sandra Niskier Flanzer: "Por si"





Por si


Quem quiser passar pela vida,
que aprenda com o sol:
ele é fogo: por força de si, se impõe.
Mas nasce e morre todos os dias,
ilumina o que vinga e depois esquece
e, a um só tempo, sabe sumir e se pôr.







FLANZER, Sandra Niskier. "Por si". In:_____. O quinto (dos infernos). Rio de Janeiro: 7 Letras, 2019. 

7.11.19

Diego Mendes Sousa: "Procurador de enigmas"




Procurador de enigmas

Parei o tempo.
Ele não parou por mim!
[tão de repente tão leve sono no imponderável (?)]
Nem poderia paralisar-se,
porque fiquei no tempo
como carrossel ilhado
[querendo não passar
querendo não acabar
no enigma do sonho inviolável (?)]

O tempo não parou para mim!
Ele não aparou os seus fantasmas
na vivenda dos mistérios
sempre em oferenda.

Procurador do seu destino miserável,
o tempo enterrou-se em mim.




SOUSA, Diego Mendes. "Procurador de enigmas". In:_____. Tinteiros da casa e do coração desertos. Guaratinguetá, SP Penalux, 2019.

5.11.19

Jorge de Sousa Braga: "Dióspiros"




Dióspiros


Há frutos que preciso
acariciar
com os dedos com
a língua

e só depois
muito depois

se deixam morder




BRAGA, Jorge de Sousa. "Dióspiros". In:_____. "O segredo da púrpura". In:_____. O poeta nu. Porto: Assírio & Alvim, 2007. 

3.11.19

Paul Verlaine: "Colloque sentimental" / "Colóquio sentimental": trad. Guilherme de Almeida




Colóquio sentimental


No velho parque frio e abandonado
Duas formas passaram lado a lado.

Olhos sem vida já, lábios tremendo,
Apenas se ouve o que elas vão dizendo.

No velho parque frio e abandonado,
Dois vultos evocaram o passado.

– Lembras-te bem do nosso amor de outrora?
– Por que é que hei de lembrar-me disso agora?

– Bate sempre por mim teu coração?
Vês sempre em sonho minha sombra? – Não.


– Ah! aqueles dias de êxtase indizível
Em que as bocas se uniam! – É possível.

– Como era azul o céu, e grande, o sonho!
– Esse sonho sumiu no céu tristonho.

Assim por entre as moitas eles iam,
E só a noite escutou o que diziam.





Colloque sentimental


Dans le vieux parc solitaire et glacé
Deux formes ont tout à l'heure passé.

Leurs yeux sont morts et leurs lèvres sont molles,
Et l'on entend à peine leurs paroles.

Dans le vieux parc solitaire et glacé
Deux spectres ont évoqué le passé.

- Te souvient-il de notre extase ancienne?
- Pourquoi voulez-vous donc qu'il m'en souvienne?

- Ton coeur bat-il toujours à mon seul nom?
Toujours vois-tu mon âme en rêve? - Non.

Ah ! les beaux jours de bonheur indicible
Où nous joignions nos bouches ! - C'est possible.

- Qu'il était bleu, le ciel, et grand, l'espoir !
- L'espoir a fui, vaincu, vers le ciel noir.

Tels ils marchaient dans les avoines folles,
Et la nuit seule entendit leurs paroles.




VERLAINE, Paul. "Colloque sentimental" / "Colóquio sentimental". In: ALMEIDA, Guilherme de (org e trad.). Poetas de França. São Paulo: Babel, s.d.