2.4.20

Antonio Cicero: "Muro"




Muro

E se um poema opaco feito muro
te fizer sonhar noites em claro?
E se justo o poema mais obscuro
te resplandecer mais que o mais claro?





CICERO, Antonio. "Muro". In:_____. Porventura. Rio de Janeiro: Record, 2012.

29.3.20

Felipe Fortuna: "Sem"




Sem


Quisera escrever branco em branco

e ainda assim mudar de linha.

O verso interpretado, a música

conduzida no ar como um salto,

mas cada palavra invisível.



(         ). Equilibrar

Vogais de cores corrompidas,

e a sílaba desaparece

Quando é lida. Quisera então

Escrever o poema sem.






FORTUNA, Felipe. "Sem". In:_____. Em seu lugar. Poemas reunidos. Rio de Janeiro: Barléu, 2005.

25.3.20

Johann Wolfgag von Goethe: "Elfenlied" /"Canção dos elfos": trad. de Paulo Quintela




Canção dos elfos


À meia-noite, quando já os homens dormem,
É então para nós que a lua brilha,
Que para nós a estrela começa a cintilar;
Vagueamos e cantamos
E é então que gostamos de dançar.

À meia-noite, quando já os homens dormem,
Sobre prados, junto aos alnos,
Buscamos o nosso lugar,
Vagueamos e cantamos
E dançamos um sonho de luar.




Elfenlied


Um Mitternacht, wenn die Menschen erst schlafen,
Dann scheinet uns der Mond,
Dann leuchtet uns der Stern;
Wir wandeln und singen,
Und tanzen erst gern.

Um Mitternacht, wenn die Menschen erst schlafen,
Auf Wiesen an den Erlen
Wir suchen unsern Raum
Und wandeln und singen
Und tanzen einen Traum.





GOETHE, Johann Wolfgang von. "Elfenlied" / "Canção dos elfos". In:_____. Poemas. Antologia. Org. e trad. por Paulo Quintela. Coimbra: Centelha, 1979.



22.3.20

Rogério Batalha: "Inútil reclamar"




Inútil reclamar


inútil reclamar
se o que se foi é nuvem
que se enruga ao bel prazer
e como tal é viagem que não cessa.

inútil reclamar
se o corpo que é feito de trevas
e varandas
no fundo sempre se orna de esperanças.

inútil reclamar
se o que se perde se veste do bagaço do vivido
e é justamente daí – que reacende –
seu facho perdido.





BATALHA, Rogério. "Inútil reclamar". In:_____. Azul. Rio de Janeiro: TextoTerritório, 2016.

20.3.20

Salgado Maranhão: "A pelagem da tigra"






A pelagem da tigra

São feitas de crisântemos as fibras
desse fogo que se molda à palavra
(e a esse jogo em que o amor se equilibra
como se a vida, então, lhe fosse escrava);
ou, talvez, da pelagem de uma tigra
(que ocultasse um vulcão em sua lava)
para blefar que fica enquanto migra
para fingir que beija quando crava.
Mas isto são hipóteses ou arenga
ao que se queira e não está à venda:
um terçar de lábios na carne brusca.
São só pegadas do que seja a lenda
de algum tesouro que se nos ofusca,
que ao tê-lo não se tenha mais que a busca.






MARANHÃO, Salgado. "A pelagem da tigra". In: SABINO, Paulo (org.). A estante dos poetas. Antologia. Rio de Janeiro: Ibis Libris, 2020.

18.3.20

Paulo Henriques Britto: Da série "Caderno". I




Da série Caderno



I

Escrevo nas nuvens.
Tenho um caderno sempre aberto numa nuvem,
e nele escrevo. É nuvem, não papel.

Mas as palavras são de terra. Escrevo terra,
mesmo escrevendo nas nuvens.
Só às palavras-terra me aferro.

Outras sei que são só som:
são ar. E há também as pura tinta
descarnada. Que são água.

A água é boa e o ar é bom.
A carne é terra: também soa,
também sobe às nuvens, certo,

e arde como a chama mais impura.
Porém é terra. E só palavras-terra
me aterram.





BRITTO, Paulo Henriques. Da série Caderno. I. In: SABINO, Paulo (org.). A estante dos poetas. Rio de Janeiro: Ibis Libris, 2020.

16.3.20

Antonio Cicero: "Canção do amor impossível"



Canção do amor impossível



Como não te perderia

se te amei perdidamente

se em teus lábios eu sorvia

néctar quando sorrias

se quando estavas presente

era eu que não me achava

e quando tu não estavas

eu também ficava ausente

se eras minha fantasia

elevada à poesia

se nasceste em meu poente

como não te perderia





CICERO, Antonio. "Canção do amor impossível". In:_____. SABINO, Paulo (org.). A estante dos poetas. Antologia. Rio de Janeiro: Ibis Libris, 2020.