21.7.18

Antonio Cicero: "Balanço"


Balanço


A infância não foi uma manhã de sol:
demorou vários séculos; e era pífia,
em geral, a companhia. Foi melhor,
em parte, a adolescência, pela delícia
do pressentimento da felicidade
na malícia, na molícia, na poesia,
no orgasmo; e pelos livros e amizades.
Um dia, apaixonado, encarei a minha
morte: e eis que ela não sustentou o olhar
e se esvaiu. Desde então é a morte alheia
que me abate. Tarde aprendi a gozar
a juventude, e já me ronda a suspeita
de que jamais serei plenamente adulto:
antes de sê-lo, serei velho. Que ao menos
os deuses façam felizes e maduros
Marcelo e um ou dois dos meus futuros versos.




CICERO, Antonio. "Balanço". In:_____. Porventura. Rio de Janeiro: Record, 2012.

19.7.18

Lançamento de "O menino que comia foie gras", de Hudson Carvalho

Como se lê no convite abaixo, na próxima segunda-feira será lançado o excelente livro de Hudson Carvalho, O menino que comia foie gras: crônicas do gourmand Pedro Henriques, para o qual tive o prazer de fazer o prefácio, intitulado "Come-se o texto". É isso mesmo: tanto as guloseimas ali apreciadas quanto o próprio textos são deliciosos! Não percam!

Antonio Cicero



Frank O'Hara: "Today" / "Hoje": trad. de Beatriz Bastos e Paulo Henrique Britto



Hoje

Ah! cangurus, paetês, milk-shakes!
Que beleza! Pérolas, gaitas,
jujubas, aspirinas! todas essas
coisas sobre as quais sempre se fala

ainda fazem de um poema uma surpresa!
Elas estão conosco todos os dias mesmo
que em casamatas e catafalcos. São coisas
com sentido. São fortes feito pedra.


Today
Oh! kangaroos, sequins, chocolate sodas!
You really are beautiful! Pearls,
harmonicas, jujubes, aspirins! all
the stuff they’ve always talked about
 
still makes a poem a surprise!
These things are with us every day
even on beachheads and biers. They
do have meaning. They’re strong as rocks.



O'HARA, Frank. "Today"/"Hoje". In:_____. Meu coração está no bolso. Trad. de Beatriz Bastos e Paulo Henriques Britto. São Paulo: Luna Parque, 2017.




17.7.18

Antonio Cicero: "A poesia e a filosofia no mundo contemporâneo"

Na semana passada proferi uma palestra intitulada "A poesia e a filosofia no mundo contemporâneo", na Academia Brasileira de Letra. O vídeo correspondente foi postado no YouTube pela ABL. Ei-lo:



15.7.18

Barão Vermelho: "A máquina de escrever"



Agradeço a Adriano Nunes por me ter informado que o poema "A máquina de escrever", de Giuseppe Ghiaroni, que publiquei aqui anteontem,  foi, há anos, musicado por Frejat/Barão Vermelho. Eis o link para a canção, no YouTube: https://youtu.be/7SlEOxqq1dI.

13.7.18

Giuseppe Ghiaroni: "A máquina de escrever"



Agradeço a Antonio Torres, por me ter chamado atenção para o seguinte belo poema de Giuseppe Ghiaroni:





A máquina de escrever


Mãe, se eu morrer de um repentino mal,
vende meus bens a bem dos meus credores:
a fantasia de festivas cores
que usei no derradeiro Carnaval.

Vende esse rádio que ganhei de prêmio
por um concurso num jornal do povo,
e aquele terno novo, ou quase novo,
com poucas manchas de café boêmio.

Vende também meus óculos antigos
que me davam uns ares inocentes.
Já não precisarei de duas lentes
para enxergar os corações amigos.

Vende , além das gravatas, do chapéu,
meus sapatos rangentes. Sem ruído
é mais provável que eu alcance o Céu
e logre penetrar despercebido.

Vende meu dente de ouro. O Paraíso
requer apenas a expressão do olhar.
Já não precisarei do meu sorriso
para um outro sorriso me enganar.

Vende meus olhos a um brechó qualquer
que os guarde numa loja poeirenta,
reluzindo na sombra pardacenta,
refletindo um semblante de mulher.

Vende tudo, ao findar a minha sorte,
libertando minha alma pensativa
para ninguém chorar a minha morte
sem realmente desejar que eu viva.

Pode vender meu próprio leito e roupa
para pagar àqueles a quem devo.
Sim, vende tudo, minha mãe, mas poupa
esta caduca máquina em que escrevo.

Mas poupa a minha amiga de horas mortas,
de teclas bambas, tique-taque incerto.
De ano em ano, manda-a ao conserto
e unta de azeite as suas peças tortas.

Vende todas as grandes pequenezas
que eram meu humílimo tesouro,
mas não! ainda que ofereçam ouro,
não venda o meu filtro de tristezas!

Quanta vez esta máquina afugenta
meus fantasmas da dúvida e do mal,
ela que é minha rude ferramenta,
o meu doce instrumento musical.

Bate rangendo, numa espécie de asma,
mas cada vez que bate é um grão de trigo.
Quando eu morrer, quem a levar consigo
há de levar consigo o meu fantasma.

Pois será para ela uma tortura
sentir nas bambas teclas solitárias
um bando de dez unhas usurárias
a datilografar uma fatura.

Deixa-a morrer também quando eu morrer;
deixa-a calar numa quietude extrema,
à espera do meu último poema
que as palavras não dão para fazer.

Conserva-a, minha mãe, no velho lar,
conservando os meus íntimos instantes,
e, nas noites de lua, não te espantes
quando as teclas baterem devagar.






GHIARONI, Giuseppe. "A máquina de escrever". In:_____.  A máquina de escrever. São Paulo: Scortecci, 1997.

12.7.18

Luís Felipe Castro Mendes: "Estóicos"



Estóicos

Deixa-te ficar comigo à beira do rio.
Entardeceu. Não procures o vulgar brilho da beleza
nem a sedução da mocidade.
Se te falarem dos deuses, finge entender.
E se chamarem poeta ao dono do circo,
concorda gravemente.




MENDES, Luís Felipe Castro. "Estóicos". In:_____. Os dias inventados. Lisboa: Gótica, 2001.