26.10.20

Antero de Quental: "Despondency"

 



Despondency



Deixá-la ir, a ave, a quem roubaram

Ninho e filhos e tudo, sem piedade. . .

Que a leve o ar sem fim da soledade

Onde as asas partidas a levaram. . .


Deixá-la ir a vela, que arrojaram

Os tufões pelo mar, na escuridade,

Quando a noite surgiu da imensidade,

Quando os ventos do Sul se levantaram. . .


Deixá-la ir, a alma lastimosa,

Que perdeu fé e paz e confiança,

À morte queda, à morte silenciosa. . .


Deixá-la ir, a nota desprendida

Dum canto extremo. . . e a última esperança. . .

E a vida. . . e o amor. . . deixá-la ir, a vida!





QUENTAL, Antero de. "Despondency". In: SÉRGIO, António (org.). Antero de Quental: Sonetos. Lisboa: Livraria Sá da Costa Editora, 1963.

24.10.20

Dênis Rubra: "arte do desentendimento"

 



arte do desentendimento



            não escrevo

            sobre o que detenho.


            escrevo

                     para apropriar-me

            do que há

            no mundo.


            para inventar oceanos,

            terra,

            céu,

            gente.


            para preencher-me de vazio,

            do que não é pleno,

            do espanto inquieto

            e do questionamento

            sobre tudo o que eu penso que eu sei.


ser poeta é desentender.




RUBRA, Dênis. "arte do desentendimento". In:_____. é muito cedo pra pensar. Rio de Janeiro: Rubra Editora, 2017.


22.10.20

MARCIAL: Epigrama 1. 46

 



1. 46


Se você exclama, Edilo: “Vou gozar – 

Depressa!” – o meu tição se esfria, apaga.

Prolongue o ato que eu irei mais rápido.

Pra ir depressa, diga: “Devagar”.





MARCIAL. Epigrama 1. 46. In: PIGNATARI, Décio (org. e trad.).  31 poemas do Rigveda e Safo a Apollinaire. Campinas: UNICAMP, 2007.





I. XLVI


Cum dicis 'Propero, fac si facis,' Hedyle, languet      

Protinus et cessat debilitata Venus.  

Expectare iube: velocius ibo retentus.      

Hedyle, si properas, dic mihi, ne properem.  





MARTIALIS, Marcus Valerius. Epigramma XLVI. In:_____. Epigrammata. In: PHI Workplace 10.00. Silver Mountain Software, 2004.

19.10.20

Nelson Ascher: "Tropical"

 



Tropical



a musa teima

nas entrelinhas

deste poema

como na minha


cabeça um símio 

banal se abana

inverossímil 

entre bananas





ASCHER, Nelson. "Tropical". In: HOLLANDA,  Heloísa Buarque de (org.). Esses poetas: uma antologia dos anos 90. Rio de Janeiro: Aeroplano, 1998.

17.10.20

Carlos Cardoso: "Cavalos marinhos"

 



Cavalos-marinhos



Há na palma de minha mão

um cavalo-marinho.


No fundo do que sou

mergulho

em raras profundezas.


Talvez assim entenda

que viver

não é acordar após dormir

e que não há maior beleza

que a solidão

e o fechar os olhos e partir.


Vejo que são rasas as pessoas

pelas partículas que vejo.


Se assim creio, assim crio

nesse mar selvagem

e apenas sumo

entre os redemoinhos

e os cavalos-marinhos


entre ondas

que abrigam e afogam

para dentro me jogam

me deixando lá.





CARDOSO, Carlos. "Cavalos marinhos". In:_____. Melancolia. Rio de Janeiro: Record, 2019.

15.10.20

Antonio Cicero: "As Musas, a Memória e o esquecimento"

 



As Musas, a Memória e o esquecimento

  

Vivemos numa época que – com a Internet, os computadores, os celulares, os tablets etc. – experimenta o desenvolvimento de uma tecnologia que tem, entre outras coisas, o sentido manifesto de acelerar tanto a comunicação entre as pessoas quanto a aquisição, o processamento e a produção de informação. Seria, portanto, de esperar que, podendo fazer mais rapidamente o que fazíamos outrora, tivéssemos hoje à nossa disposição mais tempo livre. Ora, ocorre exatamente o oposto: quase todo o mundo se queixa de não ter mais tempo para nada. Na verdade, o tempo livre parece ter encolhido muito.

Acontece que a poesia exige mais tempo livre do que a fruição de obras pertencentes a outros gêneros artísticos. Não precisamos nos concentrar numa canção ou numa pintura ou numa escultura ou na arquitetura de um prédio para que elas nos deleitem. Podemos apreciá-las en passant. Não é assim com um poema escrito. Quem lê um poema como se fosse um artigo, um ensaio ou um e-mail, por exemplo, não é capaz de fruí-lo. Para apreciar um poema é necessário dedicar-lhe tempo.

E como ninguém tem tempo para quase nada, por que perder tempo com algo que nada ensina de útil? A menos que o faça para se distrair um pouco do trabalho. Mas, como distração, não são poucos os que hoje afirmam que a poesia ficou para trás: que foi superada pelos joguinhos eletrônicos, por exemplo, que exigem menos pensamento e teriam mais a ver com o ritmo da vida contemporânea.

Pois bem, penso o contrário. É exatamente numa época de aceleração desembestada que a poesia mais se faz desejável. Por quê? Porque o que me parece inteiramente indesejável é a aceitação passiva da inevitabilidade do encolhimento do nosso tempo livre.

A verdade é que, se praticamente não temos mais tempo livre, isso ocorre porque praticamente todo o nosso tempo – mesmo aquele que se pretende livre – está preso. Preso a quê? Ao princípio do trabalho, ou melhor – inclusive, evidentemente nos tais joguinhos eletrônicos –, ao princípio do desempenho. Não estamos livres quase nunca porque nos encontramos numa cadeia utilitária em que parece que o sentido de todas as coisas e pessoas que se encontram no mundo, o sentido inclusive de nós mesmos, é sermos instrumentais para outras coisas e pessoas.

Nessas circunstâncias, nada e ninguém jamais vale por si, mas apenas como um meio para outra coisa ou pessoa que, por sua vez, também funciona como meio para ainda outra coisa ou pessoa, e assim ad infinitum. Pode-se dizer que participamos de uma espécie de linha de montagem em moto contínuo e vicioso, na qual se enquadram as próprias “diversões” que se nos apresentam imediatamente.

Em tal situação, parece-me que uma das poucas ocasiões em que conseguimos romper a cadeia utilitária cotidiana e nos libertarmos da prisão utilitária do mundo do desempenho é quando nos deixamos levar a viajar por uma obra de arte: a viajar, por exemplo, através de um poema. Ao viajar por um poema, deixamos de lado o princípio do desempenho e apreendemos a vida em si.

As Musas eram tidas pelos gregos como filhas da deusa Memória. Normalmente, supõe-se que isso signifique que elas guardam o passado. Penso que a leitura dos poetas gregos mostra o contrário. O que o fato de que as Musas sejam filhas da Memória significa é que aquilo que elas produzem seja inesquecível: seja memorável. Assim são os grandes poemas. É isso que permite que, por exemplo, o poeta romano Horácio (que, aliás, estudou em Atenas) possa dizer, na sua Ode III.xxx, (que se encontra também em latim aqui: http://antoniocicero.blogspot.com/2010/02/carpe-diem-o-seguinte-artigo-publicado.html) sobre sua poesia:

Erigi um monumento mais duradouro que o bronze,
mais alto do que a régia construção das pirâmides
que nem a voraz chuva, nem o impetuoso Áquilo
nem a inumerável série dos anos,
nem a fuga do tempo poderão destruir.
Nem tudo de mim morrerá, de mim grande parte
escapará a Libitina: jovem para sempre crescerei
no louvor dos vindouros, enquanto o Pontífice
com a tácita virgem subir ao Capitólio.
Dir-se-á de mim, onde o violento Áufido brama,
onde Dauno pobre em água sobre rústicos povos reinou,
que de origem humilde me tornei poderoso,
o primeiro a trazer o canto eólio aos metros itálicos.
Assume o orgulho que o mérito conquistou
e benévola cinge meus cabelos,
 Melpómene, com o délfico louro.

 


Antonio Cicero

13.10.20

Antonio Carlos Secchin: "Disk-Morte"

 



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SECCHIN, Antonio Carlos. "Disk-Morte". In:_____. Desdizer. Rio de Janeiro: Topbooks, 2017.