14.7.20

Canção "Antigo verão", parceria de Arthur Nogueira e Antonio Cicero

Arthur Nogueira fez a canção "Antigo verão" a partir do poema do mesmo nome, do meu livro A cidade e os livros. Ouçam:







Segundo a mitologia grega, foi da espuma do mar da ilha de Citera que nasceu Afrodite, a deusa do amor. "O embarque para Citera" é o nome do seguinte quandro de Antoine Watteau:


11.7.20

Friedrich Hölderlin: "Die scheinheiligen Dichter" / "Os poetas hipócritas": trad. de Paulo Quintela




Os poetas hipócritas


Frios hipócritas, não faleis dos deuses!
Vós sois tão razoáveis! não acreditais em Hélios,
Nem no Tonante e no Deus do Mar;
A Terra está morta, quem quer agradecer-lhe? ─

Confiança, Deuses! pois ornais a canção,
Inda que dos vossos nomes a alma já se foi,
E quando é precisa uma grande palavra,
Mãe Natureza! é em ti que se pensa.






Die scheinheiligen Dichter


Ihr kalten Heuchler, sprecht von den Göttern nicht!
Ihr habt Verstand! ihr glaubt nicht an Helios,
Noch an den Donnerer und Meergott;
Todt ist die Erde, wer mag ihr danken? –


Getrost ihr Götter! zieret ihr doch das Lied,
Wenn schon aus euren Nahmen die Seele schwand,
Und ist ein großes Wort vonnöthen,
Mutter Natur! so gedenkt man deiner.







HÖLDERLIN, Friedrich. "Die schein heiligen Dichter" / "Os poetas hipócritas". In:_____. Hölderlin: Poemas. Org. e trad. de Paulo Quintela. Coimbra: Atlântida, 1959.

9.7.20

Wallace Stevens: "As you leave the room" / "Ao sair da sala: trad. por Paulo Henriques Britto




Ao sair da sala


Você fala  Diz: O caráter do agora não é
Esqueleto saído do estojo. Eu também não.

Aquele poema sobre o abacaxi, aquele
Sobre a mente sempre insatisfeita,

Aquele sobre o herói plausível, e o outro
Sobre o verão, não são pensamentos de esqueleto.

Terei eu vivido uma vida de esqueleto,
De um descrente da realidade,

Compatriota de todos os ossos do mundo?
Agora, aqui, a neve que eu esquecera se transforma

Em parte de uma realidade maior,
De uma apreciação de uma realidade,

Uma elevação, portanto, como se eu levasse,
Ao sair, algo palpável em todos os sentidos.

Porém nada mudou além do que é
Irreal, como se coisa alguma tivesse mudado.






As You Leave the Room


You speak. You say: Today’s character is not
A skeleton out of its cabinet. Nor am I.

That poem about the pineapple, the one
About the mind as never satisfied,

The one about the credible hero, the one
About summer, are not what skeletons think about.

I wonder, have I lived a skeleton’s life,
As a disbeliever in reality,

A countryman of all the bones in the world?
Now, here, the snow I had forgotten becomes

Part of a major reality, part of
An appreciation of a reality

And thus an elevation, as if I left
With something I could touch, touch every way.

And yet nothing has been changed except what is
Unreal, as if nothing had been changed at all.







STEVENS, Wallace. "As you leave the room" / "Ao sair da sala". In: _____. O imperador do sorvete e outros poemas / Wallce Stevens. Seleção, tradução, apresentação e notas por Paulo Henriques Britto. São Paulo: Companhia das Letras, 2017.


7.7.20

Vera Casa Nova: "Abraço em Waly"




Abraço em Waly

Essa memória do riso aberto...
Não me esqueço de lembrar
aquela gargalhada florida e louca na livraria.
A história não revela,
verso aponta:
os cristais clivados.
anos 70
nem nos babilaques.
Teus cabelos crespos
ondeando teu rosto quadrangular
falando de Salvador.
Quem não se amalgamou?
nessa seiva do logbook
desse lonesome cowboy baiano,
o delírio de um tabaréu
ecoa em mim
ad aeternum.

Até breve!





CASA NOVA, Vera. "Abraço em Waly". In: Casa Nova, Vera; Carmona, Kaio; Dolabela, Marcelo (orgs.). Entrelinhas, entremontes: versos contemporâneos mineiros. Belo Horizonte: Quixote + Do Editoras Associadas, 2020.

5.7.20

Diego Mendes Sousa: "Fanal do colo agônico"




Fanal do colo agônico


O passado e eu conjugamos
uma interrogação triste?

Paro,
a esperar que o tempo intimidado
olhe-me cara a cara
a fim de que renasça pasmado e luminoso.

Fico -- como um ausente sem endereço --
em uma rua escura de um outono febril
a ver ainda pássaros negros
no agônico coração amargo.

Sou -- mirando os meus labirintos em queda --
a cachoeira ruminando horizontes fantasmas
e esquecidos.
Eu e o passado,
triste exclamação conjugada!





SOUSA, Diego Mendes. "Fanal do colo agônico". In:_____. Fanais dos verdes luzeiros. Guaratinguetá, SP: Penalux, 2019.

3.7.20

Adriano Nunes: "Cantar é preciso"


Agradeço ao poeta Adriano Nunes por ter dedicado a mim o seguinte, belo poema:



Cantar é preciso

                  para Antonio Cicero

Cantar é preciso,
Ainda que seja
O vazio, o nada,
A tristeza, a perda,
O que quer que até
Alcance a cabeça.

Cantar e cantar,
Mesmo que depois
O existir se perca
Na eterna estranheza
Da cantiga, para
Que o agoral exerça

A sua potência
De luz, porque já
Pouquíssimo importa
Senão cantar. Canta!
Canta a lida quântica,
A que vinga, íntima.

Cantar é preciso,
Ainda que seja
O vácuo, o não-ser,
O pesar à espreita,
O que quer que até
Confunda a cabeça.


1.7.20

David Mourão-Ferreira: "Soneto do cativo"




Soneto do cativo


Se é sem dúvida Amor esta explosão
De tantas sensações contraditórias;
A sórdida mistura das memórias,
Tão longe da verdade e da invenção;

O espelho deformante; a profusão
De frases insensatas, incensórias;
A cúmplice partilha nas histórias
Do que os outros dirão ou não dirão;

Se é sem dúvida Amor a cobardia
De buscar nos lençóis a mais sombria
Razão de encantamento e de desprezo;

Não há dúvida, Amor, que te não fujo
E que, por ti, tão cego, surdo e sujo,
Tenho vivido eternamente preso!





MOURÃO-FERREIRA, David. "Soneto do cativo". In: BERARDINELLI, Cleonice (org.). Cinco séculos de sonetos portugueses, de Camões a Fernando Pessoa. Rio de Janeiro: Casa da Plavra,k 2013.