17.2.18

Curso de grego antigo ministrado por Adriano Nunes



O poeta Adriano Nunes anuncia que oferecerá um curso básico de grego antigo (totalmente gratuito!) para aqueles que querem se iniciar na leitura de obras clássicas gregas. Serão estudados textos de Homero, Platão, Safo, Eurípides, Sófocles, entre muitos outros. Serão 25 lições (iniciais!) onde Adriano ensinará desde o alfabeto até a análise etimológica de termos gregos, o verso grego, etc. O curso será disponibilizado em uma página oficial criada no Facebook (https://www.facebook.com/cursodegregoantigoporadrianonunes/?ref=bookmarks) bem como no canal de Adriano no Youtube ( https://www.youtube.com/channel/UCmIl64Ja_zjf_ZZyHSye9BQ).



Antero de Quental: "Hino à Razão"



Hino à Razão

Razão, irmã do Amor e da Justiça,
Mais uma vez escuta a minha prece.
É a voz dum coração que te apetece,
Duma alma livre só a ti submissa.

Por ti é que a poeira movediça
De astros e sóis e mundos permanece;
E é por ti que a virtude prevalece,
E a flor do heroísmo medra e viça.

Por ti, na arena trágica, as nações
Buscam a liberdade, entre clarões;
E os que olham o futuro e cismam, mudos,

Por ti, podem sofrer e não se abatem,
Mãe de filhos robustos, que combatem
Tendo o teu nome escrito em seus escudos!




QUENTAL, Antero de. "Hino à Razão". In:_____. Sonetos. Lisboa: Sá da Costa, 1963.





15.2.18

Cecília Meireles: "Canção excêntrica"

Atendendo à sugestão de Ricardo, posto aqui a bela "Canção excêntrica" de Cecília Meireles:


 Canção excêntrica

Ando à procura de espaço
para o desenho da vida.
Em números me embaraço
e perco sempre a medida.
Se penso encontrar saída,
em vez de abrir um compasso,
protejo-me num abraço
e gero uma despedida.

Se volto sobre o meu passo,
é já distância perdida.

Meu coração, coisa de aço,
começa a achar um cansaço
esta procura de espaço
para o desenho da vida.
Já por exausta e descrida
não me animo a um breve traço:
– Saudosa do que não faço,
– Do que faço, arrependida.




MEIRELES, Cecília. "Canção excêntrica". In:_____. Obra poética. Rio de Janeiro: José Aguilar, 1967.

13.2.18

Euclides da Cunha: "Nestes três dias esplêndidos"

Agradeço ao poeta André Vallias por me ter chamado atenção para o seguinte poema de Euclides da Cunha:


Nestes três dias esplêndidos
Em que o Prazer tudo arrasa
Desde o cristão ao ateu,
Quem se sente neurastênico
Faz como eu,
Fica em casa



CUNHA, Euclides da. "Nestes três dias esplêndidos". In: Revista Fon-Fon!, Ano III, nº 8, 18/02/1909.

11.2.18

Eduardo Quina: "[nota]"



[nota]

continuamos estarrecidos a ouvir
a fatídica música de Orpheu.
a longínqua partitura do pranto
é alta. altíssima esta penúria
de que se fez irredutível o canto.
inculca-se a orquestração dos deuses
e da sua natureza impune.

e fez-se mytho e enigmático
na curva escarpada do tempo:
cesura que se abriu para sempre
nas entranhas.

inscrita na paisagem viva que se
desprende através da palavra
nas flores ocasionais da nossa infância
ou
nos estilhaços repercutidos e insignificantes da poesia.

tudo isto para dizer:
memória e ausência.



QUINA, Eduardo. "[nota]". In:_____. ausência. Leça da Palmeira: Eufeme, 2017 (2ª edição).

9.2.18

Fernando Pessoa: "Dom João, Infante de Portugal"



Dom João, Infante de Portugal

Não fui alguem. Minha alma estava estreita
Entre tam grandes almas minhas pares,
Inutilmente eleita,
Virgemmente parada;

Porque é do portuguez, pae de amplos mares,
Querer, poder só isto:
O inteiro mar, ou a orla vã desfeita --
O todo, ou o seu nada.



PESSOA, Fernando. "Dom João, Infante de Portugal". In:_____. Mensagem. Org. de Clarice Berardinelli, Maurício Matos. Rio de Janeiro: 7 Letras, 2008.

7.2.18

Bocage: "Enquanto o sábio arreiga o pensamento"



Enquanto o sábio arreiga o pensamento
Nos fenómenos teus, ó Natureza,
Ou solta árduo problema, ou sobre a mesa
Volve o subtil, geométrico instrumento;

Enquanto, alçando a mais o entendimento,
Estuda os vastos céus, e com certeza
Reconhece dos astros a grandeza,
A distância, o lugar e o movimento;

Enquanto o sábio, enfim, mais sabiamente
Se remonta nas asas do sentido
A corte do Senhor omnipotente,

Eu louco, eu cego, eu mísero, eu perdido,
De ti só trago cheia, oh Jónia, a mente;
Do mais e de mim mesmo ando esquecido.




BOCAGE, Manuel Maria l'Hedoux de Barbosa du. Obra completa. Edição de Daniel Pires. Porto: Caixotim, 2004.