3.8.22

UNGARETTI, Giuseppe. "Non gridate più" / "Não gritai mais"

 



Não gritai mais


Cessai de matar os mortos,

Não gritai mais, não gritai

Se quereis ainda ouvi-los,

Se esperais não perecer.


É imperceptível seu sussurro,

Não fazem rumor mais forte

Que o da relva quando cresce,

Onde não passa nenhum homem.






Non gridate più



Cessate d’uccidere i morti,

Non gridate più, non gridate

Se li volete ancora udire,

Se sperate di non perire.


Hanno l’impercettibile sussurro,

Non fanno più rumore

Del crescere dell’erba,

Lieta dove non passa l’uomo.









UNGARETTI, Giuseppe. "Non gridate più" / "Não gritai mais". In:_____ "La dolore" / "A dor". In:_____. Poemas. Edição bilingue. Trad. por Geraldo Holanda Cavalcanti. São Paulo: USP, 2017.

29.7.22

Pietro Aretino: "Soneto 3": trad. de José Paulo Paes




3


Para gozar Europa, em boi mudou-se

Jove, pelo desejo compelido,

E em mais formas bestiais, posta no olvio

A sua divindade, transformou-se.


Marte perdeu também aquele doce

Repouso a um Deus somente consentido.

Por seu muito trepar foi bem punido,

Qual rato que na rede embaraçou-se.


Este que ora mirais, em contradita,

Podendo, sem perigo, a vida interia

Trepar, a cu nem cona se habilita.


Por isso, que é sem dúvida uma asneira

Inaudita, solene, verdadeira,

Nunca mais neste mundo se repita.


Insossa brincadeira!

Pois não sabes, meu puto, que é malsão

Fazer boceta e cu da própria mão?




3


Per Europa godere in bue cangiossi

Giove, che di chiavarla avea desio,

E la sua deità posta in obblio,

In più bestiali forme trasformossi.


Marte ancor cui perdè li suoi ripossi

Che potea ben goder perchè era Dio

E di tanto chiavar pagonne il fio,

Mentre qual topo in rete pur restossi.


All'incontro costui, che qui mirate,

Che pur senza pericolo potria

Chiavar, non cura potta nè cullate.


Questa per certo è pur coglioneria

Tra le maggiori e più solennizzate

E che commessa mai al mondo sia.


Povera mercanzia!

Non lo sai tu, coglion, ch'è un gran marmotta

Colui che di sua man fa culo e potta.



ARETINO, Pietro. "Soneto 3". In: Sonetos luxuriosos. Trad. de José Paulo Paes. Rio de Janeiro: Record, 1981.


18.7.22

J.W. Goethe: "Epigrama 35"




35


A vida de um homem – que é? Porém milhares podem 

Falar desse homem, daquilo que fez e como o fez.

Menos ainda é um poema; contudo mil podem gozá-lo,

Milhares censurá-lo. Amigo, continua pois a viver facer teus poemas.









35


Eines Menschen Leben, was ists? Doch Tausende können

    Reden über den Mann, was er und wie ers getan.

Weniger ist ein Gedicht; doch können es Tausend genießen,

    Tausende tadeln. Mein Freund, lebe nur, dichte nur fort!






GOETHE, J.W. "Epigramme" / "Epigramas". Venedig, 1790. In:_____. Poemas. Versão portuguesa: Paulo Quintela. Coimbra: Atlântida Editora, SARL, 1949. 

11.7.22

Wislawa Szymborska: "Dois macacos de Breugel"

 



Dois macacos de Bruegel



É assim meu grande sonho sobre os exames finais:

sentados no parapeito dois macacos acorrentados,

atrás da janela flutua o céu

e se banha o mar.


A prova é de história da humanidade.

Gaguejo e tropeço.


Um macaco, olhos fixos em mim, ouve com ironia,

o outro parece cochilar —

mas quando à pergunta se segue o silêncio,

me sopra

com um suave tilintar de correntes.





SZYMBORSKA, Wislawa. "Dois macacos de Bruegel". In:_____ Poemas. Seleção, tradução e prefácio de Regina Przybycien. São Paulo: Companhia das Letras, 2011.

7.7.22

Oswald de Andrade: "Vício na fala"

 



Vício na fala


Para dizerem milho dizem mio

Para melhor dizem mió

Para pior pió

Para telha dizem teia

Para telhado dizem teiado

E vão fazendo telhados






ANDRADE, Oswald de. "Vício na fala". In: GULLAR, Ferreira (org.). Uma antologia pessoal.Rio de Janeiro: Edições de Janeiro, 2014.

2.7.22

Manuel António Pina: "A um jovem poeta"

 



A um jovem poeta



Procura a rosa.

Onde ela estiver

estás tu fora

de ti. Procura-a em prosa, pode ser


que em prosa ela floresça

ainda, sob tanta

metáfora; pode ser, e que quando

nela te vires te reconheças


como diante de uma infância

inicial não embaciada

de nenhuma palavra

e nenhuma lembrança.


Talvez possas então

escrever sem porquê,

evidência de novo da Razão

e passagem para o que não se vê.





PINA, Manuel António. "A um jovem poeta". In:_____   "Em prosa provavelmente". In:_____ Todas as palabras. Poesia reunida (1974-2011). Porto: Assírio & Alvim: Porto Editora, 2013.


28.6.22

Bela e profunda letra de Gilberto Gil: "Então vale a pena"

 



Então vale a pena



Se a morte faz parte da vida

E se vale a pena viver

Então morrer vale a pena

Se a gente teve o tempo para crescer

Crescer para viver de fato

O ato de amar e sofrer

Se a gente teve esse tempo

Então vale a pena morrer


Quem acordou no dia

Adormeceu na noite

Sorriu cada alegria sua

Quem andou pela rua

Atravessou a ponte

Pediu bênção à dindinha lua

Não teme a sua sorte

Abraça a sua morte

Como a uma linda ninfa nua




GIL, Gilberto. “Então vale a pena”. In: Todas as letras. Org. por Carlos.Rennó. São Paulo: Companhia das Letras, 2003.