27.7.16

Régis Bonvicino: Exposição "A NOVA UTOPIA"



Quem estiver no Rio de Janeiro a partir do próximo fim-de-semana não deve perder a exposição A Nova Utopia, do poeta Régis Bonvicino, que terá sua inauguração às 19h de sábado, dia 30 de julho, no Oi Futuro Ipanema. A curadoria da exposição é de Alberto Saraiva. 

Vejam, por exemplo, a imagem do belo poema-objeto intitulado exatamente A Nova Utopia, resultado da parceria de Régis Bonvicino com o pintor Luciano Figueiredo:



















O Oi-Futuro Ipanema fica na Av. Visconde de Pirajá, 54.

25.7.16

Alcman: "Martim-pescador": trad. Péricles Eugênio da Silva Ramos





Martim-pescador

Virgens de voz de mel
tão alta e clara,
meus membros já não podem transportar-me. 
Ah quem me dera ser, ah quem me dera,
um martim-pescador,
a voar, de coração sem medo,
junto aos alcíones por sobre a flor das ondas,
o próprio pássaro da primavera,
de cor purpúrea como o mar.



ALCMÃ. "Martim-pescador". In: RAMOS, Péricles Eugênio da Silva (organizador e tradutor). Poesia grega e latina. São Paulo: Cultrix, 1964. 




23.7.16

J.P. Cuenca: "Tudo é teatro"




Ontem foi publicado na Folha de São Paulo o seguinte ótimo artigo de João Paulo Cuenca:


Tudo é teatro

Feira de livros, cidade do interior. Depois de um debate aproxima-se uma estudante e pergunta, sem qualquer vestígio de timidez: "Você é um personagem?" Não sei o que dizer. Respondo algo como "acho que sim". E ela retruca: "O tempo inteiro?"

No prefácio da edição da Aeroplano de "Me segura qu'eu vou dar um troço" (1972), livro do Waly Salomão recém reeditado pela Companhia das Letras, o Antônio Cícero lembra da prisão do poeta e o cita numa entrevista: "Eu transformava aquele episódio, teatralizava logo aquele episódio, imediatamente, na própria cela, antes de sair. Eu botava como personagens e me incluía, como Marujeiro da Lua. Eu botava como personagens essas diferentes pessoas e suas diferentes posições no teatro: tinha uma Agente Loira Babalorixá de Umbanda, tinha um Investigador Humanista e o investigador duro. O que quer dizer tudo isso? Você transforma o horror, você tem que transformar. E isso é vontade de quê? De expressão, de que é isso? Não é a de se mostrar como vítima."

A teatralização da vida e dos seus dramas, hoje concentrada no smartphone onde metade dos leitores lerá este texto, não é de hoje –e muito menos dos anos 1970, que o diga o engenhoso fidalgo mais famoso de todos. O tema pode ser iluminado de diferentes ângulos, mas o que me traz aqui é o que o Cícero tira dessa declaração do Waly Salomão.

Ele escreve: "A vítima é o objeto nas mãos do outro. Todos nós já fomos vítimas de diferentes coisas, em diferentes momentos; porém é preciso ativamente rejeitar esses momentos, relegando-os, ainda que recentíssimos, ao passado –ainda que recentíssimo. Quem aceita a condição de vítima no presente, quem diz: "sou vítima" está, ipso facto, a tomar como consumada a condição de não ser livre. É contra essa atitude de implícita renúncia à liberdade que Waly teatraliza sua situação."

A teatralização defendida por Cícero –e por Waly– não deve ser interpretada como simples defesa do delírio dentro de um esquema binário entre realidade e imaginação. A proposta não é escapista, muito pelo contrário: trata-se de estar profundamente acordado. "Não se trata de opor o teatro ao não-teatro. O que ele julga é, antes, que tudo é teatro."


A potência desse teatro, máquina que rejeita autocomiseração, está numa certa posse de si, mesmo em momentos extremos. No limite, o único poder que temos é sobre nossa própria consciência. É ela –não as prisões que habitamos, corpos ou celas– que faz de nós quem somos. Os personagens de nós mesmos que somos.



22.7.16

Mauro Ferreira "Obra musical de Antonio Cicero geral antologia pessoal de Arthur Nogueira"




Ontem Mauro Ferreira publicou, no blog de O Globo, um artigo -- que muito me emocionou -- sobre o disco que Arthur Nogueira fez em homenagem à minha carreira. Ele se encontra aqui: http://g1.globo.com/musica/blog/mauro-ferreira/post/obra-musical-de-antonio-cicero-gera-antologia-pessoal-de-arthur-nogueira.html.

21.7.16

Jorge Luis Borges: "Las cosas" / "As coisas": trad. Josely Vianna Baptista



Ontem o poeta Erick Monteiro Moraes enviou-nos a tradução, por Josely Vianna Baptista, do seguinte -- belíssimo -- poema de Jorge Luis Borges. Resolvi postá-la aqui:



As coisas

A bengala, as moedas, o chaveiro,
A dócil fechadura, as tardias
Notas que não lerão os poucos dias
Que me restam, o baralho e o tabuleiro,
Um livro e entre suas folhas a esvaecida
violeta, monumento de uma tarde
Memorável, decerto, e já esquecida,
O rubro espelho ocidental em que arde
Uma ilusória aurora. Quantas coisas,
Limas, umbrais e atlas, taças, cravos,
Servem-nos como tácitos escravos,
Cegas e estranhamente sigilosas!
Nós já esquecidos, e durarão mais;
Sem nem saber que partimos, jamais.



Las cosas

El bastón, las monedas, el llavero,
La dócil cerradura, las tardías
Notas que no leerán los pocos días
Que me quedan, los naipes y el tablero,
Un libro y en sus páginas la ajada
Violeta, monumento de una tarde
Sin duda inolvidable y ya olvidada,
E1 rojo espejo occidental en que arde
Una ilusoria aurora. ¡Cuántas cosas,
Limas, umbrales, atlas, copas, clavos,
Nos sirven como tácitos esclavos,
Ciegas y extrañamente sigilosas!
Durarán más allá de nuestro olvido;
No sabrán nunca que nos hemos ido.




BORGES, Jorge Luis. "Las cosas". In:_____. Poesia. Edição bilingue. Trad. Josely Vianna Baptista. São Paulo: Companhia das Letras, 2009.





Waly Salomão e eu: foto de Bob Wolfenson




Tenho muita saudade de Waly Salomão. Ontem Arthur Nogueira me lembrou da seguinte foto, que o grande Bob Wolfenson tirou de nós dois:



19.7.16

Armando Freitas Filho: "Poema-prefácio"




Poema-prefácio


O rol desenrolado aqui
acolhe de tudo um pouco.
Coisas de cama, mesa, banho
um trivial variado, familiar
estranho, com uma pitada de déjà-vu
e o apanhado na rua, andando:
às vezes tão urgente e passageiro
que sem "nada no bolso ou nas mãos"
pedia canetas emprestadas
e um papel qualquer, onde
escrevia calcando, com letra
garranchosa, de dentro, imediata
e torta, mas que se aplicava
exata, naquilo que corria
por fora do escritório da cabeça
no vento livre de véu, a céu aberto
ou quando não, no nó apertado
cego, difícil de desmanchar
o que apressava o ponto final.



FREITAS FILHO, Armando. "Poema-prefácio". In:_____. Rol. São Paulo: Companhia das Letras, 2016.