7.12.21

Jacques Prévert: "Le temps perdu" / "O tempo perdido". trad. por Silviano Santiago

 



O tempo perdido


Diante do portão da fábrica

o operário de repente para

o dia lindo agarrou-o pelo paletó

e como ele se volta

e olha o sol

vermelhinho redondinho

sorrindo no céu de chumbo

pisca-lhe o olho

familiarmente

Pois é camarada Sol

você não acha

que é babaquice

dar um dia destes 

para um patrão?





Le temps perdu



Devant la porte de l'usine

le travailleur soudain s'arrête

le beau temps l'a tiré par la veste

et comme il se retourne

et regarde le soleil

tout rouge tout rond

souriant dans son ciel de plomb

il cligne de l'œil

familièrement

Dis donc camarade Soleil

tu ne trouves pas

que c'est plutôt con

de donner une journée pareille

à un patron ?








PRÉVERT, Jacques. "Le temps perdu" / "O tempo perdido". In: PRÉVERT,  Jacques. Poemas.. Org. e trad. por Silviano Santiago. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1985.


3.12.21

Daniel Maia-Pinto Rodrigues: "A sorte favorece os rapazes"

 



A sorte favorece os rapazes.




RODRIGUES, Daniel Maia-Pinto. "A sorte favorece os rapazes". In: A sorte favorece os rapazes. Fundação Ciência e Desenvolvimento / Teatro do Campo Alegre, 2001.

28.11.21

Mário de Andrade: "São Paulo pela noite"

 



São Paulo pela noite.

Meu espírito alerta

Baila em festa e metrópole.


São Paulo na manhã.

Meu coração aberto

Dilui-se em corpos flácidos.


São Paulo pela noite.

O coração alçado

Se expande em luz sinfônica.


São Paulo na manhã.

O espírito cansado

Se arrasta em marchas fúnebres.


São Paulo noite e dia...


 A forma do futuro

Define as alvoradas:

Sou bom. E tudo é glória.


O crime do presente

Enoitece o arvoredo:

Sou bom. E tudo é cólera.




ANDRADE, Mário de. "São Paulo pela noite". In: "Lira paulistana". In: Poesias completas. Org. por Diléa Zanotto Manfio. Belo Horizaonte, Itatiaia, São Paulo: Editora da Universidade de São Paulo, 1987.


22.11.21

Ângelo de Lima: "Eu ontem vi-te..."

 



Eu ontem vi-te...


Eu ontem vi-te...

Andava a luz

Do teu olhar,

Que me seduz

A divagar

Em torno de mim.

E então pedi-te,

Não que me olhasses,

Mas que afastasses,

Um poucochinho,

Do meu caminho

Um tal fulgor

De medo, amor,

Que me cegasse,

Me deslumbrasse

Fulgor assim.







LIMA, Ângelo de. "Eu ontem vi-te...". In: Poemas de amor. Antologia de  poesia portuguesa. Org. por Inês Pedrosa. Lisboa: Publicações Dom Quixote, 2005.

19.11.21

Dênis Rubra: "fazer um poema"

 



fazer um poema



fazer um poema

não é como pintar um quadro.

é desfazer a tela

é trocar as cores

refazer as formas

que o pintor pensou.

fazer um poema ressignifica o mundo

transignifica tudo

                mas não muda nada.

tudo continua

                 como tudo sempre foi.

como no fim da canção.

como depois de comer

                  a fome vem de novo.

como depois da eleição

o mesmo povo.

sem esperanças.

apenas

fazer um poema


é fazer um poema.








RUBRA, Dênis. "fazer um poema". In:_____. é muito cedo pra pensar. Rio de Janeiro: Rubra Editora, 2017.

15.11.21

Dante Milano: "Ao tempo"

 



Ao tempo



Tempo, vais para trás ou para diante?

O passado carrega a minha vida

Para trás e eu de mim fiquei distante,


Ou existir é uma contínua ida

E eu me persigo nunca me alcançando?

A hora da despedida é a da partida


A um tempo aproximando e distanciando...

Sem saber de onde vens e aonde irás,

Andando andando andando andando andando


Tempo, vais para diante ou para trás?






MILANO, Dante. "Ao tempo". In:Os melhores poemas de Dante Milano. Org. por Ivan Junqueira. São Paulo: Global, 1998.

12.11.21

Ana Luísa Amaral: "Ligeiríssimo apontamento grafológico"

 



Ligeiríssimo apontamento grafológico


Até aquela letra me seduz:
a música menor

que lhe sustenta os pontos
quebrados pela tinta,

pela luz:

pousares certos da mão,

pensares incertos,

e carregadas pausas


Não me penses grafóloga solene
a analisar-lhe o corpo:

falha-me a precisão do cientista,
o seu sábio rigor

desaprendendo a vida

Interesse de amador

é só o meu,

e um pudor (inocente)

de me sentar defronte à coisa amada,

ao meu olhar:

 

despida –







AMARAL, Ana Luísa. "Ligeiríssimo apontamento frafológico". In:_____. Entre dois rios e outras noites. Poerto: Campo das Letras, 2007.