17.7.19

Augusto Frederico Schmidt: "Paz dos túmulos"




Paz dos túmulos

Ó paz dos túmulos
Ó frio das tardes invernais nos cemitérios
Ó mármores gelados, rosas frias, Cristos de gêlo, como vos espero!
Quando serei silêncio e frio apenas?
Quando serei apenas o íntimo da terra?
Quando, enfim, dormirei na paz – na álgida paz?
Ó vento que matais as rosas, vento frio!
Quando me levareis mudando em poeira?
Quando me levareis pelas ruas
Quando me levareis em mim mesmo mudando
Para o grande mar, o grande mar, o grande mar...





SCHMIDT, Augusto Frederico. "Paz dos túmulos". In: BANDEIRA, Manuel (org.). Apresentação da poesia brasileira: seguida de uma antologia. São Paulo: Cosac Naify, 2009.

15.7.19

Guillermo Boido: "Déjà vu": trad. de Santiago Kovadloff




Déjà vu

eu vi essa província onde
a sombra de meu corpo fala
do meu corpo como de uma sombra






Déjà vu

he visto esa provincia donde
la sombra de mi cuerpo habla
de mi cuerpo como de una sombra






BOIDO, Guillermo. "Déjà vu". In: KOVADLOFF, Santiago. A palavra nômade: Poesia argentina dos anos 70. São Paulo: Iluminuras, 1990. 

13.7.19

Gastão Cruz: "Corda"




Corda

Ninguém tem nome: apenas uma escura
corda de sons que prende o corpo e deixa
queimaduras na pele, esse é o preço
de ser nomeado porque o chamamento

de cada vez se torna mais ardente
até ser casa ou roupa ou outra pele
que fere o corpo e finalmente o veste
do nome que é o dele





CRUZ, Gastão. "Corda". In:_____. Óxido. Porto: Assírio & Alvim, 2015.

11.7.19

Ingeborg Bachmann: "Alle Tage" / "Todos os dias": trad. por Rosvitha Friesen Blume e Markus J. Weininger



Todos os dias

A guerra já não é mais declarada,
Apenas prossegue. O insólito
tornou-se cotidiano. O herói
abstém-se das batalhas. O fraco
é movido para as linhas de fogo.
O uniforme do dia é a paciência,
a medalha, o mísero astro
da esperança sobre o coração.

Esse é conferido
quando nada mais acontece,
quando a metralha se cala,
quando o inimigo ficou invisível
e a sombra do eterno armamento
recobre o céu.

É conferido
pela deserção das bandeiras,
pela bravura frente ao amigo,
pela denúncia de segredos indignos
e pelo ato de ignorar
qualquer ordem.





Alle Tage

Der Krieg wird nicht mehr erklärt,
sondern fortgesetzt. Das Unerhörte 
ist alltäglich geworden. Der Held
bleibt den Kämpfen fern. Der Schwache 
ist in die Feuerzonen gerückt.
Die Uniform des Tages ist die Geduld,
die Auszeichnung der armselige Stern
der Hoffnung über dem Herzen.

Er wird verliehen,
wenn nichts mehr geschieht, 
wenn das Trommelfeuer verstummt,
wenn der Feind unsichtbar geworden ist
und der Schatten ewiger Rüstung
den Himmel bedeckt.

Er wird verliehen
für die Flucht von den Fahnen,
für die Tapferkeit vor dem Freund,
für den Verrat unwürdiger Geheimnisse
und die Nichtachtung
jeglichen Befehls.





BACHMANN, Ingeborg. "Alle Tage" / "Todos os dias". In: BLUME, Rosvitha Friesen; WEININGER, Markus J. Seis décadas de poesia alemã. Do pós-guerra ao início do século XXI. Florianópolis: Ed. da UFSC, 2012.

9.7.19

António Botto: "Não. Beijemo-nos apenas"




I


Não. Beijemo-nos, apenas,
Nesta agonia da tarde.

Guarda – 
Para outro momento
Teu viril corpo trigueiro.

O meu desejo não arde
E a convivência contigo
Modificou-me – sou outro. . .

A névoa da noite cai.

Já mal distingo a cor fulva
Dos teus cabelos. – És lindo!

A morte
Devia ser
Uma vaga fantasia!

Dá-me o teu braço: – não ponhas
Esse desmaio na voz.
Sim, beijemo-nos, apenas!,
- Que mais precisamos nós?




BOTTO, António. "Não. Beijemo-nos apenas". In:_____. "Adolescente". In:_____. Canções e outros poemas. Org. de Eduardo Pitta. Vila Nova do Famalicão: Quasi, 2007.

7.7.19

Duda Machado: "Poema 1922"




Poema 1922


o maluco irrompeu
nu na igreja
tirou o santo do altar
se aninhou no nicho

e entrou em êxtase
foi um auê geral
mas uma das beatas
não notou nada





MACHADO, Duda. "Poema 1922". In:_____. Crescente. São Paulo: Duas Cidades, 1990.

5.7.19

Daniel Faria: "As manhãs"




As manhãs


Das manhãs

Apenas levarei a tua voz

Despovoada

Sem promessas
sem barcos
E sem casas

Não levarei o orvalho das ameias
Não levarei o pulso das ramadas

Da tua voz

Levarei os sítios das mimosas
Apenas os sítios das mimosas

As pedras
As nuvens
O teu canto

Levarei manhãs      E madrugadas





FARIA, Daniel. "As manhãs" In:_____. "Oxálida". In:_____. Poesia. Vila Nova de Famalicão: Quasi, 2003.