Mostrando postagens com marcador Morte. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Morte. Mostrar todas as postagens

23.7.18

Elias Canetti: trecho de "A consciência das palavras": trad. de Nelson Ascher



A morte é o primeiro e mais antigo, haveria quase a tentação de dizer: o único fato. Tem uma idade monstruosa e, ainda assim, é nova a cada hora. Seu grau de dureza é dez, e ela corta também como o diamante. Ela possui o frio absoluto do espaço exterior: 273 graus negativos. Ela tem a velocidade de um furacão, a maior. Ela é muito real e superlativa, mas não é infinita, porque pode ser alcançada por qualquer caminho. Enquanto a morte existir, qualquer declaração é uma declaração contra ela. Enquanto a morte existir, qualquer luz é um fogo-fátuo, pois conduz a ela. Enquanto a morte existir, nenhuma beleza é bela, nenhuma bondade é boa. [...] Todas as tentativas de chegar a um acordo com a morte (e que mais são as religiões?) falharam. A descoberta de que não há nada após a morte – uma apavorante e inexaurível descoberta – banhou a vida com uma nova e desesperada santidade. O escritor que, em virtude do que nós, algo sumariamente, chamamos de seu vício, é capaz de de participar de muitas vidas deve participar também de todas as mortes que ameaçam aquelas vidas. Seu próprio medo (e quem não teme a morte?) deve tornar-se o medo que todos têm da morte. Seu próprio ódio (e quem não odeia a morte?) deve transformar-se no ódio que todos têm da morte. Isso e nada mais é sua oposição ao tempo, repleta de uma miríade de mortes.”



CANETTI, Elias. Trecho de “A consciência das palavras”. In: ASCHER, Nelson. “Canetti e a consciência das palavras”. Trad. por Nelson Ascher. In: Folha de São Paulo: Ilustrada, 02/05/1987.

13.10.12

Friedrich Nietzsche: "Morte"




89. Morte

Com a perspectiva segura da morte, uma deliciosa, odorosa gota de leviandade poderia ser mesclada a cada vida -- mas vocês, estranhas almas de farmacêutico, dela fizeram uma gota de veneno de mau sabor, com que toda a vida se torna repugnante!




NIETZSCHE, Friedrich. In:_____. 100 aforismos sobre o amor e a morte. Seleção e organização de Paulo César de Souza. São Paulo: Penguin / Companhia das Letras, 2012.

16.7.11

Fala de Carlos Drummond de Andrade sobre Deus e a morte




Você não pode imaginar como Deus me chateia. Eu não creio nele. Creio realmente numa organização natural que pode tomar o nome de Deus. Esse argumento de que não é possível existir nada sem um poder gerador que seria Deus não resolve, porque então quem criou Deus? Deus gerou o mundo? E quem gerou Deus?

[...]

Não é Deus que é misterioso; é a vida que é misteriosa. Por que nós nascemos? Por que alguém nasceu e gerou outros tantos? Esse mistério não está explicado, e eu me curvo diante dele. Agora, não aceito uma explicação metafísica.

A única coisa de que estou convencido é de que nós morremos de verdade, nós morremos mortos. Nós não revivemos, porque não há nenhum exemplo na natureza disso. Essa história de transformação está bem, mas a essência humana desaparece. Se ela se converte em cinza, em adubo, em qualquer coisa, não é mais a essência humana. Vamos convir que o homem não é assim tão importante.

E aí vem o problema da morte. A aceitação da morte é o máximo que o ser pode conseguir para efeito de se ajustar com a vida, de se entender com a natureza. Se todas as coisas são mortais, o homem não pode pretender à imortalidade. Ela me parece uma grande pretensão de sua parte. Com a ideia da imortalidade, ele se consola da sua mortalidade, mas ele não tem nenhuma prova de que exista essa imortalidade.



Transcrição de trechos de:

ANDRADE, Carlos Drummond de. Maria Julieta entrevista Carlos. Entrevista a Maria Julieta Drummond de andrade. CD. Rio de Janeiro: Luz da Cidade, 2002.

26.5.09

Richard Rorty: "O fogo da vida"

O estudante de filosofia Marcos Carvalho Lopes me enviou o último artigo escrito pelo filósofo norte-americano Richard Rorty. Originalmente publicado na revista da Poetry Foundation, ele foi muito bem traduzido por Susana de Castro. Tomei a liberdade, entretanto, de pôr a minha tradução do poema de Swinburne no lugar da dela.

O fogo da vida

Richard Rorty


Em um ensaio chamado “Pragmatismo e romantismo” tentei recolocar o argumento da “Defesa da poesia” de Shelley. No coração do romantismo, disse, estava a afirmação de que a razão só pode seguir os caminhos que a imaginação abriu primeiro. Sem palavras, não há raciocínio. Sem imaginação, não há palavras novas. Sem palavras novas, não há progresso moral ou intelectual.

Terminei este ensaio contrastando a habilidade do poeta de nos dar uma linguagem mais rica com a tentativa do filósofo de adquirir um acesso não-linguístico ao realmente real. O sonho de Platão por tal acesso foi ele mesmo uma grande descoberta poética. Mas no tempo de Shelley, argumentei, este sonho já havia se esgotado. Nós somos hoje mais capazes de reconhecer nossa finitude -- de admitir que jamais vamos entrar em contato com algo maior que nós mesmos. Esperamos, ao invés disso, que a vida humana aqui na terra se tornará mais rica do que nos séculos passados porque a linguagem usada por nossos remotos descendentes terá mais recursos do que a nossa tinha. Nosso vocabulário estará para os deles como os dos nossos ancestrais primitivos estavam para os nossos.

Nesses ensaios, como em escritos anteriores, usei ‘poesia’ em sentido largo. Expandi o termo de Harold Bloom ‘poeta forte’ para cobrir escritores de prosa que inventaram novos jogos de linguagem para jogarmos – pessoas como Platão, Newton, Marx, Darwin e Freud tanto quanto os versistas como Milton e Blake. Esses jogos podem envolver equações matemáticas, ou argumentos indutivos, ou narrativas dramáticas, ou (no caso dos versistas) inovação da prosódica. Mas a distinção entre prosa e verso era irrelevante para meus propósitos filosóficos.

Pouco depois de ter terminado de escrever “Pragmatismo e romantismo” fui diagnosticado com um câncer inoperável no pâncreas. Alguns meses depois de ter sido informado sobre as más notícias, estava sentado tomando café com meu filho mais velho e uma prima que estava me visitando. Minha prima (que é uma pastora da igreja batista) me perguntou se eu havia encontrado meus pensamentos se virando em direção a temas religiosos, e eu disse que não. “Bem, e quanto à filosofia?”, meu filho perguntou. “Não”, respondi, nem a filosofia que havia escrito nem a que havia lido pareci ter qualquer ligação com a minha situação. Não tinha nenhum problema com o argumento de Epicuro de que é irracional sentir medo da morte, nem com a sugestão de Heidegger de que a ontoteologia origina-se na tentativa de fugir da nossa mortalidade. Mas nem ataraxia (liberdade de perturbação) nem Sein zum Tode (ser em direção à morte) me pareciam ser o ponto principal.

“Nada do que tem lido tem sido de alguma utilidade?”, insistiu meu filho. “Sim”, me falei sem pensar, “poesia”. “Quais poemas?”, perguntou. Citei duas velhas castanhas que havia recentemente escavado da memória e que estranhamente estavam me encorajando, os versos mais citados do “Jardim de Proserpine” de Swinburn.

Agradecemos brevemente
A todos os deuses que há
Por não se viver para sempre;
Por jamais os mortos se erguerem;
Por chegar, por mais que volteie,
O rio sem dúvida ao mar.


We thank with brief thanksgiving
Whatever gods may be
That no life lives for ever;
That dead men rise up never;
That even the weariest river
Winds somewhere safe to sea.


e “Em seu aniversário de setenta e cinco anos” de Landor:

Natureza amei, e, próximo à natureza, arte;
Esquentei ambas as mãos diante do fogo da vida,
Ela afunda, e estou pronto para partir.

Nature I loved, and next to Nature, Art;
I warmed both hands before the fire of life,
It sinks, and I am ready to depart.


Encontrei conforto neste meandro lento e nestas brasas gaguejantes. Suspeito que nenhum efeito comparável poderia ser provocado pela prosa. Não apenas imagens, mas também rima e ritmo foram necessários para fazer o trabalho. Em linhas como essas, todos os três conspiram para produzir um grau de compressão, e assim de impacto, que apenas o verso pode alcançar. Comparada com as emoções moldadas tramadas pelos versistas, mesmo a melhor prosa é dispersa.

Apesar de diversos pedaços de verso terem tido grande significados para mim em momentos particulares da minha vida, jamais fui capaz de escrever algo pessoal (a não ser rascunhar sonetos durante reuniões departamentais entendiantes – uma maneira de rabiscar) Nem estou em dia com o trabalho dos poetas contemporâneos. Quando leio versos, na maioria das vezes se trata dos meus favoritos da adolescência. Suspeito que minha ambivalência com relação a poesia, neste sentido restrito, seja o resultado de complicações edipianas produzidas por ter tido um poeta como pai (ver James Rorty, Children of the Sun (Macmillan, 1926).)

Como quer que tenha sido, agora gostaria que tivesse passado mais tempo da minha vida com versos. Isso não é porque tema ter perdido as verdades que são incapazes de serem a afirmadas em prosa. Não existem tais verdades; não existe nada sobre a morte que Swinburne e Landor soubessem, mas que Epicuro e Heidegger fracassaram em descobrir. Ao contrário, é porque teria vivido mais plenamente se tivesse sido capaz de recitar mais velhas castanhas – da mesma forma que também teria se tivesse tido mais amigos íntimos. Culturas com vocabulários mais ricos são mais plenamente humanas – mais distantes das bestas – do que as mais pobres; homens e mulheres individuais são mais completamente humanos quando suas memórias estão amplamente estocadas com versos.


Trad. Susana de Castro

19.7.08

Thomas Hardy: de "The mayor of Casterbridge"

TESTAMENTO DE MICHAEL HENCHARD

Que Elizabeth-Jane Farfrae não seja inteirada da minha morte, e que não a façam sentir pesar por minha causa.
& que eu não seja enterrado em terra consagrada.
& que a nenhum sacristão se peça que dobre o sino.
& que a ninguém se mostre o meu cadáver.
& que nenhum cortejo fúnebre siga o meu enterro.
& que nenhuma flor seja plantada em meu sepulcro.
& que ninguém se lembre de mim.

A isso aponho meu nome.

Michael Henchard




MICHAEL HENCHARD’S WILL.

That Elizabeth-Jane Farfrae be not told of my death, or made to grieve on account of me.
& that I be not bury’d in consecrated ground.
& that no sexton be asked to toll the bell.
& that nobody is wished to see my dead body.
& that no murners walk behind me at my funeral.
& that no flours be planted on my grave.
& that no man remember me.
To this I put my name.

Michael Henchard



De: HARDY, Thomas. The mayor of Casterbridge. London: Macmillan, 1975.

27.1.08

Sobre a eutanásia

O seguinte artigo foi publicado na minha coluna da Ilustrada,da Folha de São Paulo, sábado, 26 de janeiro de 2008.


Sobre a eutanásia


NESTE MÊS, Rubem Alves escreveu, para a Folha, dois belos artigos em defesa do direito à eutanásia voluntária. Segundo ele, "como um instrumento musical, a vida só vale a pena ser vivida enquanto o corpo for capaz de produzir música, ainda que seja a de um simples sorriso". Concordo. Lembro a sentença de Sêneca: "Bom não é viver, mas viver bem".

Em reação ao primeiro dos artigos do Rubem Alves, alguns leitores escreveram cartas que o "Painel do Leitor" publicou na Folha Online. Todas elas atacam a eutanásia. Decidi comentar os seus argumentos, por considerá-los típicos, logo instrutivos.

A eutanásia voluntária pode ser descrita como o ato de proporcionar uma morte tranqüila a uma pessoa que, padecendo de um sofrimento atroz, e cujo estado de saúde haja sido diagnosticado como terminal, tenha lucidamente optado por ela.

Pois bem, um dos leitores em questão é contra a eutanásia porque lhe parece muito difícil ter certeza de que uma pessoa realmente se encontra em estado terminal. Há, segundo ele, casos que surpreendem. Não duvido disso, mas o fato é que as curas "milagrosas" são raríssimas e que, na medicina (como em toda a vida prática), não é pela expectativa da ocorrência do mais improvável, mas pela expectativa da ocorrência do mais provável que se devem orientar as decisões humanas.

Sei que "enquanto há vida, há esperança". Mas reflitamos. Enquanto há vida, há esperança de quê? De mais vida. O que importa, porém, é a qualidade dessa sobrevida. Como dizia o já citado Sêneca, o sábio vive tanto quanto deve, não tanto quanto pode, pois o que lhe importa é a qualidade, não a quantidade da sua vida. Ora, se nem sempre a melhor vida é a mais longa, sempre a mais longa morte é a pior.

Outro leitor acha que só Deus, como um pai, sabe se precisamos de uma morte lenta ou rápida, de modo que só a ele compete decidir e arquitetar a nossa morte. Confesso que me parece escandalosamente sacrílega a idéia de que Deus seja um pai que lentamente torture seu filho. Quanto ao argumento em si, porém, Rubem Alves já o havia previsto, dizendo mais ou menos que, se foi Deus que enviou a doença, não se vê por que a tentativa de prolongar a vida artificialmente seria menos contrária aos desígnios Dele do que a tentativa de abreviá-la; de modo que, se concordássemos com esse leitor, deveríamos abrir mão de toda medicina.

Finalmente, um terceiro leitor pondera que até mesmo as experiências dolorosas podem promover o crescimento espiritual. Quero crer que quem pense assim não seja um monstro, mas apenas alguém que jamais testemunhou o sofrimento, a dor, a aflição, a humilhação, a indignidade de que padece um doente terminal, sem esperança de melhora e, freqüentemente, sem controle dos esfíncteres, em meio a fezes e urina, entubado e a respirar com a ajuda de máquinas. Como pode alguém achar que há "crescimento espiritual" na redução do pensamento humano à mais obscura animalidade, à inescapável obsessão com o puro e impotente pavor da dor física?

De todo modo, as duas posições -a que defende o direito à eutanásia voluntária e a que o ataca- são assimétricas. A primeira afirma o direito daqueles que querem praticar a eutanásia; porém de maneira nenhuma nega o direito daqueles que não querem praticá-la: antes, afirma-o igualmente, pois o que na verdade defende é o direito de escolha.

Já a segunda não apenas afirma o direito dos que não querem praticar a eutanásia, mas nega o direito daqueles que querem praticá-la. Trata-se, portanto, de uma posição autoritária, que nega o direito de escolha. Normalmente, tal autoritarismo se baseia em convicções religiosas. O problema é que cada religião, considerando-se dona da verdade absoluta, pretende ignorar, primeiro, que há no mundo muitas outras religiões; segundo, que cada uma destas também se quer dona da verdade absoluta; terceiro, que as convicções de uma entram em choque com as das outras. Há, além disso, também as convições de ateus e de agnósticos no mundo, e as religiões pretendem ignorar – quarto – que não há nenhum critério externo a todas essas convicções que nos permita julgar racionalmente se alguma – e qual – delas está com a verdade.

Ora, os princípios da sociedade aberta e livre – por exemplo, o princípio segundo o qual cada cidadão tem o direito de pensar e agir como queira – maximamente em relação à sua própria vida e morte – desde que não infrinja igual direito de outrem – são concebidos pela razão crítica exatamente a partir do reconhecimento dessas verdades que as religiões pretendem ignorar. Donde os inevitáveis conflitos entre as religiões e as sociedades abertas e livres.

Os defensores da eutanásia são às vezes acusados de fazerem parte de uma "cultura da morte". Trata-se de uma lamentável e deliberada confusão. A morte é, concretamente, o processo de morrer. Esse processo pode ser rápido ou lento. O direito à eutanásia é o direito que aquele que está a morrer tem de abreviar a sua morte, caso esta esteja sendo excessivamente sofrida. Abreviar a morte é torná-la mais curta, menor, mais leve. Seria, portanto, mais correto dizer que quem pertence à cultura da morte são aqueles que preferem impor a todos a morte mais longa, maior, mais pesada.

24.10.07

Mark Twain: sobre a morte

Uma declaração de Mark Twain, citada por Dawkins na mesma página em que cita o pensamento de Russell que postei ontem:

Não temo a morte. Já fui morto por bilhões e bilhões de anos, antes de nascer, e isso não me causou o menor incômodo.

Citada por DAWKINS, R. The God delusion. Boston: Houghton Mifflin Company, 2006, p.354.

Bertrand Russell: de No que acredito

Bertrand Russell, trecho de “No que acredito”:

Acredito que ao morrer apodrecerei e nada do meu eu sobreviverá. Não sou jovem e amo a vida. Mas desdenho tremer de terror à idéia do aniquilamento. A felicidade não se torna menos verdadeira por ter que chegar ao fim, e o pensamento e o amor não perdem o seu valor por não durarem para sempre. Muitos homens já se portaram orgulhosamente no cadafalso; certamente o mesmo orgulho deveria nos ensinar a pensar verdadeiramente sobre o posto do homem no mundo. Mesmo se inicialmente as janelas abertas da ciência fazem-nos tremer após o quente aconchego dos mitos antropomórficos tradicionais, no final o ar fresco revigora, e os grandes espaços têm o seu próprio esplendor.

Citado por DAWKINS, R. The God delusion. Boston: Houghton Mifflin Company, 2006, p.354.

24.5.07

Entrevista a Washington Castilhos

Por ocasião da visita de Bento XVI, Washington Castilhos, do Sexuality Policy Watch (Observatório de Sexualidade e Política), escreveu vários artigos, extremamente interessantes, sobre a Igreja Católica e a sexualidade. Fui um dos entrevistados para o artigo “A ética entre o bem e o mal”, que pode ser encontrado através do seguinte link: http://www.sxpolitics.org/mambo452/index.php?option=com_content&task=view&id=106&Itemid=127. A seguir, publico as perguntas de Castilhos e as minhas respostas:

1. A pergunta central do texto é: é possivel para o homem constituir uma ética que não seja a religiosa?

Sim. Não consta que haja mais criminosos entre os irreligiosos do que entre os religiosos. O ser humano sabe que determinadas coisas são erradas porque é capaz de se colocar no lugar do outro e de colocar o outro no seu lugar. Quem faz uma coisa errada sabe que rompe um pacto tácito estabelecido com os outros seres humanos. Não é preciso religião para ensinar isso. A ética exposta por Kant, por exemplo, não é religiosa. As religiões não fazem senão – na melhor das hipóteses – espelhar os princípios e a regras que os homens elaboraram para poderem melhor conviver em sociedade. A prova disso é que, embora muitos dos princípios e regras que os homens se impõem não sejam espelhados pela religião, eles são, no entanto, respeitados. Por exemplo, achamos errado que uma pessoa abandone um amigo na hora da necessidade. Pensamos assim, embora esse princípio não tenha sido enunciado por nenhum dos mandamentos. Por que então imaginar que, se não existissem os mandamentos, não continuaríamos, do mesmo modo, a considerar algumas coisas certas e outras erradas? Os gregos não tinham mandamentos e acreditavam que seus deuses eram capazes de mentir, trair, roubar, e até de prender e castrar o pai, ou de devorar os filhos. Entretanto, tanto quanto nós, eles consideravam essas coisas erradas.

Alguns, porém, ainda que não sejam eles próprios religiosos, alegam que a religião é necessária como um freio para os impulsos criminosos de grande parte da humanidade. Para isso, o que realmente acham necessário inventar é o inferno. A existência do inferno seria uma "pia fraus", uma "mentira santa". Isso nada tem a ver com moral. Ao contrário, trata-se de uma fraude, de uma mentira, de uma imoralidade com finalidades repressivas. Como poderia estar uma imoralidade na base da moral?

O verdadeiro freio para os criminosos é a lei humana e a sua aplicação. Como diz, com razão, Pierre Bayle, "um mal que só se vê à distância ou por conjectura" – ele se refere ao Inferno – "não muda nossa conduta, como se pode ver pelo exemplo dos jovens que sabem que morrerão um dia ou pensam que morrerão talvez dentro em pouco e nem por isso estão prontos a mortificar suas paixões". E ainda: "A concupiscência sendo a fonte de todos os crimes, é evidente que, já que ela reina entre os religiosos, tanto que entre os ateus, os idólatras devem ser tão capazes de serem levados a todo tipo de crime quanto os ateus; e que uns e outros não teriam conseguido formar sociedades, se um freio mais forte que a relgião, a saber, as leis humanas, não reprimisse sua perversidade. E isso mostra a falta de fundamento que há em dizer que o conhecimento vago e confuso de uma Providência seja útil para enfraquecer a corrupção humana."

2. Nos pronunciamentos de Bento XVI, um tema se coloca como urgente proposta de caminho para a sociedade moderna: o alargamento da razão. O papa Bento XVI sonha com uma Igreja que se contraponha ao que enxerga como a principal fraqueza da cultura contemporânea: o relativismo. Na opinião do papa a razão encontra-se hoje reduzida, resumida à cientificidade, existem nas palavras dele "patologias da razão" ou "hybris da razão", como também ele chama. Para isso, ele propõe o tal "alargamento da razão" como saída ao "laicismo dominante". Como o sr analisa esse raciocínio? Em sua opinião, a Igreja Católica tem problemas em lidar com a modernidade?

Francamente, não vejo grande novidade no discurso de Bento XVI. O que é diferente é a atitude dele, que é mais agressiva, na defesa dos dogmas da Igreja Católica. No fundo, foi a partir da grande síntese de fé e razão empreendida por são Tomás de Aquino que, em Regensburg, ele atacou o fideísmo muçulmano e protestante. Graças a uma interpretação extremamente questionável de santo Agostinho e são Paulo – interpretação que os coloca demasiadamente próximos da posição de Tomás – ele localiza na Idade Média tardia, em Duns Scotus, a origem do fideísmo ocidental e, com isso, do Protestantismo. Este seria, portanto, o resultado de um desvio da linha correta, isto é, tomista.

A meu ver, o que na verdade ocorreu foi que a teologia da Idade Média tardia se deu conta da irrecuperável incompatibilidade entre a razão e a religião revelada: entre o Deus dos filósofos e o Deus de Abraão, como diria Pascal mais tarde. Ela percebeu esse problema, não por uma insuficiência da sua racionalidade, mas, ao contrário, por ter sido intransigentemente racional. Foi por não querer diminuir nem a razão, nem a religião, que ela optou pelo dualismo. Pode-se dizer que o fundamentalismo protestante é a opção exclusiva pelo lado da fé e, por outro lado, que o positivismo – que, junto com o relativismo, é o outro alvo dos ataques de Bento XVI – é a opção pelo lado da razão. É por causa dessa origem que, de certo modo, justifica-se tomar o positivismo como uma razão diminuída, uma razão que limita a si própria.

A solução para essas limitações é, evidentemente, o abandono da própria problemática da relação entre a fé e a razão, que o positivismo ainda inconscientemente conserva. A verdadeira razão ampliada é a razão ilimitadamente livre e crítica, a razão tout court, e a principal condição para o seu exercício é a sociedade aberta. A tentativa de Bento XVI de voltar ao tomismo, como se nada senão um desvio tivesse ocorrido depois dele, é simplesmente regressiva e, por isso, destinada ao fracasso.

3. Em um texto recente seu, o sr afirma que é preciso defender a modernidade e a razão contra ataques da esquerda e da direita e afirma que é perigoso "relativizar a razão pelo sentimento". É perigoso relativizar a razão pela fé?

Sem dúvida. Colocar a fé, que é o oposto da razão, antes da razão é ser irracionalista. O irracionalismo – principalmente no que diz respeito à esfera pública – é o que há de mais perigoso.

3. Como o sr analisa a ética católica em relação à reprodução e à sexualidade e a moralidade que ela imprime a temas relativos a esses campos?

O catolicismo alega defender a vida, mas a verdade é que a vida que realmente importa, para ele, não é esta, mas a "outra", isto é, a "eterna", isto é, a que vem depois da morte, isto é, a própria morte. E, perto da vida eterna, o que é, para o verdadeiro católico, o sofrimento nesta vida? Assim, o catolicismo não defende a vida, mas a morte e o sofrimento. "Quem quer o celeste", dizia são Bernardo, "não gosta do terrestre; quem anseia pelo eterno despreza o transitório". Desse modo, os prazeres terrenos não valem por si e estão muito próximos do pecado, pois afastam o ser humano do celeste e do eterno. Não é, pois, por um respeito absoluto pela vida terrena – respeito que ela jamais teve – que a Igreja condena o aborto, mas, em primeiro lugar, porque, segundo a sua interpretação teleológica do mundo, o prazer sexual não tem, para ela, finalidade em si próprio, mas na reprodução, e, em segundo lugar, porque quer afirmar a heteronomia do ser humano, quer afirmar sua convicção de que o ser humano não é dono de si próprio nem do seu corpo. É por essas mesmas razões que ela condena a homossexualidade.

Penso que cada um tem o direito de acreditar no que quiser, por mais irracional que seja, e de agir de acordo com as suas crenças, desde que, ao fazê-lo, não infrinja idêntico direito de outrem. Isso porém implica que ninguém – nem indivíduos nem instituições laicas ou religiosas – tem o direito de impor as suas crenças particulares ou o seu modo de vida aos outros. Assim, a Igreja está sendo subversiva do princípio universal do direito e do Estado laico quando, por exemplo, tenta impedir os casais homossexuais de terem as suas parcerias civis reconhecidas pela lei.