23.3.19

Paul Éluard: "Nusch": trad. por Maria Gabriela Llansol




Nusch

Os sentimentos aparentes
A leveza de abordagem
A cabeleira das carícias

Sem cuidados sem cuidar o mal
Teus olhos são entregues ao que vêem
Reflectidos por aquilo que olham

Confiança de cristal
Entre dois espelhos
De noite teus olhos extraviam-se
Para reunir ao desejo o despertar.






Nusch


Les sentiments apparents
La légèreté d’approche
La chevelure des caresses

Sans soucis sans soupçons
Tes yeux sont livrés à ce qu’ils voient
Vus par ce qu’ils regardent.

Confiance de cristal
Entre deux miroirs
La nuit tes yeux se perdent
Pour joindre l’éveil au désir.






ÉLUARD, Paul. "Nusch". In:_____. Derniers poèmes d'amour/Últimos poemas de amor. Trad. por Maria Gabriela Llansol. Lisboa: Relógio D'Água Editores, 2002.

22.3.19

Qinho convida Antonio Cicero





Hoje, sexta-feira, 22de março, às 21:00, terei o prazer de dizer alguns poemas meus durante o show que o admirável cantor Quinho fará no Clube Manouche. Qinho, aliás, intitulou esse show “Qinho convida Antonio Cicero”: o que muito me honra.

O Clube Manouche fica no subsolo da Casa Camolese, que se localiza na rua Jardim Botânico, 983, no Jardim Botânico, no Rio de Janeiro.


19.3.19

Jorge Salomão: "duplo"



                                                   duplo


eu e minha sombra
na poça d’água
na lama
no carnaval
no circo
no disco a rolar
no alto mar
no deserto dos dias
no negro de nós
eu ela
a voar
juntos a brincar
conforme a luz
jogo de amar






SALOMÃO, Jorge. "duplo". In:_____. Mosaical. Rio de Janeiro: Gryphus, 1994.

16.3.19

Wallace Stevens: "The planet on the table" / "O planeta na mesa": Trad. por Paulo Henriques Britto




O planeta na mesa


Ariel gostou de ter escrito seus poemas.
Eram de um tempo relembrado
Ou de algo visto que o agradara.

Outros feitos do sol
Eram agrura e tumulto
E o arbusto maduro retorcido.

Seu ser e o sol eram um só
E seus poemas, embora feitos de seu ser,
Não eram menos feitos do sol.

Que perdurassem não era importante.
O importante era que portassem
Algum traço ou caráter,

Uma afluência, mesmo quase imperceptível,
Na pobreza de suas palavras,
Do planeta do qual faziam parte.






The planet on the table


Ariel was glad he had written his poems.
They were of a remembered time
Or of something seen that he liked.

Other makings of the sun
Were waste and welter
And the ripe shrub writhed.

His self and the sun were one
And his poems, although makings of his self,
Were no less makings of the sun.

It was not important that they survive.
What mattered was that they should bear
Some lineament or character,

Some affluence, if only half-perceived,
In the poverty of their words,
Of the planet of which they were part.






STEVENS, Wallace. "The planet on the table" / "O planeta na mesa". In:_____. O imperador do sorvete e outros poemas. Trad. por Paulo Henriques Britto. São Paulo: Companhia das Letras, 2017.

13.3.19

Marcial: "Epigramma XVI": trad. de Nelson Ascher




1/16


Algo de bom, muito de médio e mais de ruim
lerás, Avito, aqui: um livro é feito assim.




I/XVI

Sunto bona, sunt quaedam mediocria, sunt mala plura
quae legis hic: aliter non fit, Avite, liber.






MARCIAL. "Epigramma I.XVI". In: ASCHER, Nelson. Poesia alheia. 124 poemas traduzidos. Rio de Janeiro: Imago, 1998.

11.3.19

Cassiano Ricardo: "Poética"




Poética


1

Que é a Poesia?

                    uma ilha
                    cercada
              de palavras
                     por todos
                     os lados.



3

Que é o Poeta?

                     um homem
que trabalha o poema
com o suor do seu rosto.
                     Um homem
               que tem fome
como qualquer outro
                          homem.





RICARDO, Cassiano. "Poética". In: Jeremias sem-chorar. Rio de Janeiro: José Olympio, 1964.
             

10.3.19

Constatinos Caváfis: "O primeiro degrau"




O primeiro degrau

Foi a Teócrito queixar-se um dia
Eumene, poeta ainda jovem:
“Faz dois anos que escrevo e até agora
compus apenas um idílio.
Esse, o meu único trabalho pronto.
Pobre de mim! Pelo que vejo, é alta,
deveras alta, a escada da Poesia.
Estou no primeiro degrau: jamais,
infeliz que sou, chegarei ao topo.”
“Essas palavras”, respondeu Teócrito,
“são um despropósito, blasfêmias.
Se estás no primeiro degrau, cumpria
te sentires feliz e envaidecido.
Chegar onde chegaste não é pouco,
nem é pequena glória o que fizeste.
Do primeiro degrau da mesma escada
está bem distante o comum das pessoas.
Para pisar esse degrau de ingresso,
necessário é que sejas, por direito,
cidadão da cidade das ideias –
um título difícil: raramente
fazem-se ali naturalizações.
De quantos na sua ágora legislam,
aventureiro algum pode zombar.
Chegar onde chegaste não é pouco,
nem é pequena glória o que fizeste.”





KAVÁFIS, K. "O primeiro degrau". In: PAES, José Paulo (org. e trad.). Poesia moderna da Grécia. Rio de Janeiro: Guanabara, 1986.



8.3.19

Anna Akhmatova: "Творчество" / "A criação": trad. por Joaquim Manuel Magalhães e Vadim Dmitriev




A criação

Acontece deste modo: uma certa languidez;
No ouvido não se calam as pancadas dos relógios;
Ao longe diminui o estrondo do trovão.
E vislumbram-se queixas e gemidos
De aprisionadas vozes que não se reconhecem.
Um certo círculo secreto estreita-se,
Mas nesse abismo de badaladas e murmúrios
Levanta-se um som que tudo venceu.
É tal o silêncio irreparável em seu redor
Que se escuta como no bosque cresce a erva,
Como anda pela terra o mal com um alforge…
Mas as palavras começaram já a ouvir-se
E das rimas leves os tinidos de sinalização,  –
É quando eu começo a compreender,
E de modo simples as linhas ditadas
Deitam-se no caderno branco de neve.





Творчество (1936)

Бывает так: какая-то истома;
В ушах не умолкает бой часов;
Вдали раскат стихающего грома.
Неузнанных и пленных голосов
Мне чудятся и жалобы и стоны,
Сужается какой-то тайный круг,
Но в этой бездне шепотов и звонов
Встает один, все победивший звук.
Так вкруг него непоправимо тихо,
Что слышно, как в лесу растет трава,
Как по земле идет с котомкой лихо...
Но вот уже послышались слова
И легких рифм сигнальные звоночки, -
Тогда я начинаю понимать,
И просто продиктованные строчки
Ложатся в белоснежную тетрадь.





AKHMATOVA, Anna. "Творчество"/"A criação". In:_____. Poemas. Trad. por Joaquim Manuel Magalhães e Vadim Dmitriev. Lisboa: Relógio D'Água Editores, 2003.

6.3.19

Antonio Cicero: "Simbiose"





Simbiose

Sou seu poeta só
Só em você descubro a poesia
que era minha já
mas eu não via.

Só eu sou seu poeta
Só eu revelo a poesia sua
e à noite indiscreta
você de lua.




CICERO, Antonio. “Simbiose”. In:_____. Guardar. Rio de Janeiro: Record, 1996.

3.3.19

Ferreira Gullar: "O duplo"




O duplo



Foi-se formando

a meu lado

                 um outro

que é mais Gullar do que eu



que se apossou do que vi

                        do que fiz

                do que era meu



e pelo país

                flutua

livre da morte

e do morto

             

pelas ruas da cidade

         vejo-o passar

          com meu rosto



mas sem o peso

          do corpo

que sou eu

culpado e pouco







GULLAR, Ferreira. "O duplo". In:_____. Em alguma parte alguma. Lisboa: Babel, 2010.

1.3.19

Casimiro de Brito: "Esta manhã não lavei os olhos --"




71

Esta manhã não lavei os olhos – 
pensei em ti.


*


Se o teu ouvido se fechou à minha boca
poderei escrever ainda poemas de amor?
A arte de amar não me serve para nada.


*


Um fogo em luz transformado.
Subitamente a sombra.


*


Há dias em que morro de amor.
Nos outros, de tão desamado,
morro um pouco mais.





BRITO, Casimiro de. “Esta manhã não lavei os olhos”. In:_____. "Arte de bem morrer". In:_____ 69 poemas de amor. Tavira: 4Águas editora, 2008.

26.2.19

Vera Casa Nova: "Retiro-me do verso"




Retiro-me do verso


Retiro-me do verso
Retiro-me.
Retiro.
Estou em outro verso
Reverso da estória.

Retiro-me da página
Entro na imagem.

Retiro de meus dias
O suor do poema
A acidez da imagem.





CASA NOVA, Vera. "Retiro-me do verso". In:_____. Língua plena: poemas de Vera Casa Nova. Rio de Janeiro: Gramma, 2018.

25.2.19

Ruy Espinheira Filho: "O poeta e seu leitor"




O poeta e seu leitor


Releio amado poeta
e não reencontro o que li.

Sem dúvida: é o mesmo livro
que tanto li e reli.

Onde as graves emoções
em que outrora me perdi,

os densos sopros de alma
em que chorei ou sorri?

Por mais que releia o livro,
não vejo o que vi ali.

Terá mudado o poeta,
ou me enganei no que li?

Não, não mudou o poeta,
nem me enganei no que li

na voz serena dos versos
em que chorei ou sorri:

é que o leitor do poeta
foi um que em mim já perdi.





ESPINHEIRA FILHO, Ruy. "O poeta e seu leitor". In:_____. Estação infinita e outras estações: poesia reunida (1966-2012).  Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 2012.

23.2.19

Vinícius de Moraes: "Balada da moça do Miramar"




Balada da moça do Miramar


Silêncio da madrugada
No Edifício Miramar...
Sentada em frente à janela
Nua, morta, deslumbrada
Uma moça mira o mar.

Ninguém sabe quem é ela
Nem ninguém há de saber
Deixou a porta trancada
Faz bem uns dois cinco dias
Já começa a apodrecer
Seus ambos joelhos de âmbar
Furam-lhe o branco da pele
E a grande flor do seu corpo
Destila um fétido mel.

Mantém-se extática em face
Da aurora em elaboração
Embora formigas pretas
Que lhe entram pelos ouvidos
Se escapem por umas gretas
Do lado do coração.
Em volta é segredo: e móveis
Imóveis na solidão...
Mas apesar da necrose
Que lhe corrói o nariz
A moça está tão sem pose
Numa ilusão tão serena
Que, certo, morreu feliz.

A vida que está na morte
Os dedos já lhe comeu
Só lhe resta um aro de ouro
Que a morte em vida lhe deu
Mas seu cabelo de ouro
Rebrilha com tanta luz
Que a sua caveira é bela
E belo é seu ventre louro
E seus pelinhos azuis.

De noite é a lua quem ama
A moça do Miramar
Enquanto o mar tece a trama
Desse conúbio lunar
Depois é o sol violento
O sol batido de vento
Que vem com furor violeta
A moça violentar.

Muitos dias se passaram
Muitos dias passarão
À noite segue-se o dia
E assim os dias se vão
E enquanto os dias se passam
Trazendo a putrefação
À noite coisas se passam...
A moça e a lua se enlaçam
Ambas mortas de paixão.

Ah, morte do amor do mundo
Ah, vida feita de dar
Ah, sonhos sempre nascendo
Ah, sonhos sempre a acabar
Ah, flores que estão crescendo
Do fundo da podridão
Ah, vermes, morte vivendo
Nas flores ainda em botão
Ah, sonhos, ah, desesperos
Ah, desespero de amar
Ah, vida sempre morrendo
Ah, moça do Miramar!





MORAES, Vinícius de. "Balada da moça do Miramari". In:_____. Nova antologia poética. Org. por Antonio Cicero e Eucanaã Ferraz. São Paulo: Companhia das Letras, 2005.

20.2.19

Ferreira Gullar: "Verão"




Verão


Este fevereiro azul
como a chama da paixão
nascido com a morte certa
com prevista duração

deflagra suas manhãs
sobre as montanhas e o mar
com o desatino de tudo
que está para se acabar.

A carne de fevereiro
tem o sabor suicida
de coisa que está vivendo
vivendo mas já perdida.

Mas como tudo que vive
não desiste de viver,
fevereiro não desiste:
vai morrer, não quer morrer.

E a luta de resistência
se trava em todo lugar:
por cima dos edifícios
por sobre as águas do mar.

O vento que empurra a tarde
arrasta a fera ferida,
rasga-lhe o corpo de nuvens,
dessangra-a sobre a avenida

Vieira Souto e o Arpoador
numa ampla hemorragia.
Suja de sangue as montanhas
tinge as águas da baía.

E nesse esquartejamento
a que outros chamam verão,
fevereiro em agonia
resiste mordendo o chão.

Sim, fevereiro resiste
como uma fera ferida.
É essa esperança doida
que é o próprio nome da vida.

Vai morrer, não quer morrer.
Se apega a tudo que existe:
na areia, no mar, na relva,
no meu coração — resiste.




GULLAR, Ferreira. “Verão”. In:_____. Dentro da noite veloz. São Paulo: Companhia das Letras, 2018.

18.2.19

Luiz Roberto Nascimento Silva: "Será que é o mar"




Será que é o mar



Será que o mar conforma a terra

ou a terra invade o mar?

Visto do alto de um avião,

quando se vislumbra a Baía de Guanabara

não se sabe ao certo, nem de forma clara.


Será que é o azul do mar

que ilumina o céu e os seus olhos

ou será esse céu que dá cor à água

e ao seu transparente olhar de anágua?


Será que a distância que nos separa

é que aumenta a saudade

ou será a saudade que produz pressa

urgência da ausência

que a presença mascara?


Será que essas perguntas trazem respostas

ou serão respostas as próprias perguntas

sem importar quem as declara.

Assim segue o homem, eterno enigma

entre todos os animais; espécie mais rara.






SILVA, Luiz Roberto Nascimento. "Será que é o mar". In:_____. Rio 80 graus. Rio de Janeiro: 7 Letras, 2018.


15.2.19

W. B. Yeats: "An Irish airman foresees his death" / "Um aviador irlandês prevê a morte"



Um aviador irlandês prevê a morte


Encontrarei meu fim no meio

das nuvens de algum céu sobejo;

os que combato, eu não odeio,

também não amo os que protejo;

Kiltartan Cross é meu país,

seus pobres são a minha gente,

nada a fará mais infeliz

do que já era, ou mais contente.

Não é por lei ou por dever,

turba ou políticos, que luto,

mas pelo afã de me entreter,

a sós, nas nuvens em tumulto.

Tudo na mente foi pesado:

nada que espere ou que recorde

vale-me a pena comparado

com esta vida ou esta morte.






An Irish airman foresees his death


I know that I shall meet my fate 

Somewhere among the clouds above; 

Those that I fight I do not hate 

Those that I guard I do not love; 

My country is Kiltartan Cross,

My countrymen Kiltartan’s poor, 

No likely end could bring them loss 

Or leave them happier than before. 

Nor law, nor duty bade me fight, 

Nor public man, nor cheering crowds,

A lonely impulse of delight 

Drove to this tumult in the clouds; 

I balanced all, brought all to mind, 

The years to come seemed waste of breath, 

A waste of breath the years behind

In balance with this life, this death.






YEATS, W.B. "An Irish airman foresees his death" / "Um aviador irlandês prevê a morte". In: ASCHER, Nelson (org.). Poesia alheia. 124 poemas traduzidos. Rio de Janeiro: Imago, 1998.


13.2.19

Fernando Pessoa: "Sonhador de sonhos"




Sonhador de sonhos


Sonhador de sonhos

Queres me vender

Teus dias risonhos

Por eu te esquecer?...


Minha alma é só mágoa

Por saber que vive...

Passo como a água,

Nunca fui ou estive...






PESSOA, Fernando. “Sonhador de sonhos”. In:_____. Poesia, 1902-17. Org. por Manuela Parreira da Silva, Ana Maria Freitas, Madalena Dine. Porto:  Assírio & Alvim, 2005.

11.2.19

Ingeborg Bachmann: "Schatten Rosen Schatten" / "Sombras rosas sombras"



Sombras rosas sombras


Sob um céu estranho

sombras rosas

sombras

sobre uma terra estranha

entre rosas e sombras

numa água estranha

minha sombra






Schatten Rosen Schatten


Unter einem fremden Himmel

Schatten Rosen

Schatten

auf einer fremden Erde

zwischen Rosen und Schatten

in einem fremden Wasser

mein Schatten





BACHMANN, Ingeborg. Werke. Eds. Christine Kosehel, Inge von Weidenbaum, Clemens Münster. München, Zürich: R. Piper, 1978.

9.2.19

Jorge Luis Borges: "El despertar" / "O despertar"




O despertar                                                               


Penetra a luz e ascendo lentamente

Dos sonhos para o sonho compartido

E as coisas voltam para o seu devido

E esperado lugar e no presente

Retorna esmagador e vasto o vago

Ontem: as seculares migrações

Do pássaro e do homem, as legiões

Que o ferro destroçou, Roma e Cartago.

Torna também a cotidiana história:

Meu rosto e minha voz, o medo, a sorte.

Ah, se aquele outro despertar, a morte,

Me deparasse um tempo sem memória

Do meu nome, de mim, de meus momentos!

– Trouxesse esta manhã o esquecimento!...







El despertar


Entra la luz y asciendo torpemente

De los sueños al sueño compartido

Y las cosas recobran su debido

Y esperado lugar y en el presente

Converge abrumador y vasto el vago

Ayer: las seculares migraciones

Del pájaro y del hombre, las legiones

Que el hierro destruyó: Roma y Cartago.

Vuelve también la cotidiana historia:                                              

Mi voz, mi rostro, mi temor, mi suerte.

¡Ah, si aquel otro despertar la muerte

Me deparara un tiempo sin memoria

De mi nombre y de todo lo que he sido!

¡Ah, si en esa mañana hubiera olvido!






BORGES, Jorge Luis. “El despertar” / “O despertar”. In:_____. Borges poeta – Antologia poética bilingüe. Trad. de Jorge Wanderley. Rio de Janeiro: Leviatã, 1992.











6.2.19

Ivan Junqueira: "Poética"



Poética


A arte é pura matemática
como de Bach uma tocata
ou de Cézanne a pincelada
exasperada, mas exata.

É mais do que isso: uma abstrata
cosmogonia de fantasmas
que de ti lentos se desgarram
em busca de uma forma clara,

da linha que lhes dê, no espaço,
a geometria das rosáceas,
a curva austera das arcadas
ou o rigor de uma pilastra;

enfim, nada que lembre as dádivas
da natureza, mas a pátina
em que, domada, a vida alastra
a luz e a cor da eternidade,

tal qual se vê nas cariátides
ou nas harpias de um bestiário,
onde a emoção sucumbe à adaga
do pensamento que a trespassa.

Despencam, secas, as grinaldas
que o tempo pendurou na escarpa.
Mas dura e esplende a catedral
que se ergue muito além das árvores.





JUNQUEIRA, Ivan. "Poética". In:_____. O tempo além do tempo. Antologia. Org. por Arnaldo Saraiva. Vila Nova de Famalicão: Quasi, 2007.




5.2.19

Franz Kafka: Aphorismus 06 / Aforismo 06: trad. de Silveira de Souza




06

O momento decisivo do desenvolvimento humano é perpétuo. Em torno, movimentam-se os espíritos revolucionários, os quais, em verdade, buscam inutilmente de antemão tudo explicar, pois nada definitivo ainda aconteceu.





06

Der entscheidende Augenblick der menschlichen Entwicklung ist immerwährend. Darum sind die revolutionären geistigen Bewegungen, welche alles Frühere für nichtig erklären, im Recht, denn es ist noch nichts geschehen.





KAFKA, Franz. Aforismo 96. In:_____. 28 desaforismos = 28 Aphorismen. Trad. de Silveira de Souza. Florianópolis: Editora da UFSC: Bernúncia, 2010.

4.2.19

Hélio Schwartsman: "Trevas cristãs"



Ontem foi publicado na Folha de São Paulo um artigo em que, oportunamente, Hélio Schwartsman nos lembra do perigo que pode representar um lema como "Deus acima de todos", do Presidente Jair Bolsonaro, do seu Ministro das Relações Exteriores, Ernesto Araujo, e de outros membros do atual governo brasileiro:



Trevas cristãs

O “Deus acima de todos” que integrou o lema da campanha de Jair Bolsonaro e ainda o acompanha em muitas de suas declarações deveria provocar calafrios em todas as pessoas historicamente alfabetizadas, sejam elas religiosas ou não. Como a maioria dos brasileiros votou em Jair Bolsonaro conhecendo seu lema, parece lícito concluir que ou a maioria das pessoas é masoquista ou não é historicamente alfabetizada.

Nesta última hipótese, nossos professores de história, todos eles esquerdistas, fracassaram miseravelmente em mostrar para seus alunos os crimes cometidos em nome de Deus. Um bom jeito de sanar essa falha é a leitura de “The Darkening Age” (a idade das trevas), de Catherine Nixey (há uma edição lusitana).

A tese central do livro é simples. O cristianismo triunfou na Europa e cercanias destruindo o mundo clássico que o precedeu. O “destruir” deve ser interpretado literalmente, para incluir a pilhagem de templos, vandalização de estátuas, queima de livros e, é claro, tortura e assassinato de adversários. Nixey conta os detalhes dessa história.

Para dar uma ideia da escala da destruição, estima-se que apenas 10% da literatura clássica tenha sobrevivido até a Idade Moderna. Se considerarmos só os latinos, o quadro é ainda pior. Só 1% do que foi escrito por romanos não cristãos foi preservado. Santos das Igrejas Católica e Ortodoxa, como João Crisóstomo, gabavam-se de ter feito desaparecer toda uma cultura.

O que mais perturba na leitura de “The Darkening Age” é a total semelhança entre o que fizeram os cristãos dos anos 300, 400 e 500 o que fazem hoje membros do Taleban e do Estado Islâmico. A intolerância que militantes religiosos radicais mostram para com outros credos, os assassinatos praticados com requintes de crueldade e a insana “certeza” de estar obedecendo a comandos de um ente supremo infalível revelam quão perigoso é pôr Deus acima de tudo.


Hélio Schwartsman

2.2.19

Giuseppe Ungaretti: "Tutto ho perduto" / "Tudo perdi": trad. de Geraldo Holanda Cavalcanti



Tudo perdi


Tudo perdi de minha infância
E já não mais poderei
Desmemoriar-me num grito.

Soterrei a infância
Na profundez das noites
E agora uma espada invisível
Me separa de tudo.

Relembro que exultava te amando,
Hoje eis-me perdido
No infinito das noites.

Desespero que incessante aumenta
Presa à garganta,
A vida já não me é mais
Que uma rocha de gritos.




Tutto ho perduto

Tutto ho perduto dell'infanzia
E non potrò mai più
Smemorarmi in un grido.
 
L'infanzia ho sotterrato
Nel fondo delle notti
E ora, spada invisibile,
Mi separa da tutto.

Di me rammento che esultavo amandoti,
Ed eccomi perduto
In infinito delle notti.

Disperazione che incessante aumenta
La vita non mi è più,
Arrestata in fondo alla gola,
Che una roccia di gridi.





UNGARETTI, Giuseppe. "Tutto ho perduto" / "Tudo perdi". In:_____. Poemas. Trad. de Geraldo Holanda Cavalcanti. São Paulo: Edusp, 2017.




31.1.19

Antonio Cicero: "Alguns versos"




Alguns versos

As letras brancas de alguns versos me espreitam,
em pé, do fundo azul de uma tela, atrás
da qual luz natural adentra a janela
por onde, ao levantar quase nada o olhar,
vejo o sol aberto amarelar as folhas
da acácia em alvoroço: Marcelo está
para chegar. E de repente, de fora
do presente, pareço apenas lembrar
disso tudo como de algo que não há de
retornar jamais e em lágrimas exulto
de sentir falta justamente da tarde
que me banha e escorre rumo ao mar sem margens
de cujo fundo veio para ser mundo
e se acendeu feito um fósforo, e é tarde.




CICERO, Antonio. "Alguns versos". In:_____. A cidade e os livros. Rio de Janeiro: Record, 2002.

29.1.19

William Shakespeare: "Sonnet 18" / "Soneto 18": trad. de Geraldo Carneiro



Soneto 18

Te comparar com um dia de verão?
Tu és mais temperada e adorável.
Vento balança em maio a flor-botão
E o império do verão não é durável.
O sol às vezes brilha com rigor,
Ou sua tez dourada é mais escura;
Toda beleza enfim perde o esplendor,
Por acaso ou descaso da Natura;
Mas teu verão nunca se apagará,
Perdendo a posse da beleza tua,
Nem a morte rirá por te ofuscar,
Se em versos imortais te perpetuas.
    Enquanto alguém respire e veja e viva,
    Viva este poema, e nele sobrevivas.





Sonnet 18

Shall I compare thee to a summer’s day?
Thou art more lovely and more temperate:
Rough winds do shake the darling buds of May,
And summer’s lease hath all too short a date:
Sometime too hot the eye of heaven shines,
And often is his gold complexion dimmed,
And every fair from fair sometime declines,
By chance, or nature’s changing course untrimmed:
But thy eternal summer shall not fade,
Nor lose possession of that fair thou ow’st,
Nor shall death brag thou wand’rest in his shade,
When in eternal lines to time thou grow’st,
    So long as men can breathe or eyes can see,
    So long lives this, and this gives life to thee.







SHAKESPEARE, William. "Sonnet 18" / "Soneto 18". In:_____. O discurso do amor rasgado. Poemas, cenas e fragmentos de William Shakespeare. Trad. de Geraldo Carneiro. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2012.

27.1.19

Eugénio de Andrade: "Canção breve"



Canção breve

Tudo me prende à terra onde me dei:
o rio subitamente adolescente,
a luz tropeçando nas esquinas,
as areias onde ardi impaciente.

Tudo me prende do mesmo triste amor
que há em saber que a vida pouco dura,
e nela ponho a esperança ou o calor
de uns dedos com restos de ternura.

Dizem que há outros céus e outras luas
e outros olhos densos de alegria,
mas eu sou destas casas, destas ruas,
deste amor a escorrer melancolia.




ANDRADE, Eugénio de. "Canção breve". In:_____. Primeiros poemas; As mãos e os frutos; Os amantes sem dinheiro. Vila Nova de Famalicão: Quasi, 2006.

26.1.19

Heinrich Heine: "Die Fräulein stand am Meere" / "Uma garota, lá na praia": trad. de André Vallias



Uma garota, lá na praia,
Acompanhando o pôr do sol,
Com olhos rasos d’água solta
Suspiros fundos e alguns ais.

Ora, garota, paciência!
É sempre a mesma velha história:
Agora o astro sai de cena –
De manhãzinha, está de volta.





Das Fräulein stand am Meere
Und seufzte lang und bang,
Es rührte sie so sehre
Der Sonnenuntergang.

Mein Fräulein! seyn Sie munter,
Das ist ein altes Stück;
Hier vorne geht sie unter
Und kehrt von hinten zurück.




HEINE, Heinrich. "Die Fräulein stand am Meere" / "Uma garota, lá na praia". In:_____. Heine, heim? Poeta dos contrários. Org. e trad. por André Vallias. São Paulo: Perspectiva, 2011. 

24.1.19

Nelson Ascher: "Exegi monumentum"



Exegi monumentum

Ergui pra mim, mais alto
que o Empire State Building, menos
biodegradável mesmo
que o urânio, um monumento

que, à chuva ácida ileso
e imune à inversão térmica,
não tem turnover nem
sairá de moda nunca.

Não morrerei de todo:
cinqüenta ou mais por cento
de meu ego hão de incólumes
furtar-se à obsolescência

programada e hei de estar
no Quem É Quem enquanto
Hollywood dê seus Oscars
anuais ou supermodels

desfilem mudas pelas
mil e uma passarelas.
Onde transborda infecto
nosso Tietê, nas várzeas

garoentas sempre cujos
quatrocentões votavam
antanho em Jânio Quadros,
lembrar-se-ão de que fui

quem adaptou primeiro
em Sampa, ao berimbau
tropicalista, Horácio.
Credita-me tais méritos

e põe durante este ano
fiscal, Academia
Sueca, em minha conta
a grana do Nobel.




ASCHER, Nelson. "Exegi monumentum". In:_____. Parte alguma. São Paulo: Companhia das Letras, 2005.

21.1.19

Adriano Nunes: "Fluir"



Agradeço ao poeta Adriano Nunes por me ter dedicado o seguinte belo ensaio:




Fluir – para Antonio Cicero
Quando tocamos na palavra “rio”, parece vir, de imediato, a imagem de Heráclito de Éfeso (Ἡράκλειτος;  540-475 a.C.). Pois bem: em nossa língua, a portuguesa, a palavra “rio” vem do latim vulgar rius, do latim rīvus ("riacho, pequeno riacho"). Em espanhol também temos “río” e na língua francesa, encontramos, por sua vez, “rivière”. No antigo francês, havia a palavra “ru” pronunciada /ʁy/(ri, onde o “i” é fechado e tem pronúncia símile à letra ü alemã), também significando “pequeno riacho”. Nem no português nem no espanhol, temos alguma palavra que se assemelhe a “fluxo”, para definir e significar “rio”, o que definiria intrinsecamente melhor o que um rio é.
Na língua francesa, “rio” é usualmente e mais comumente designado por “rivière” cuja base etimológica também é a latina rius. “Rivière” também existe na língua inglesa, porém não significa “rio”, mas sim um colar de diamantes ou outras pedras preciosas. Todavia, a língua de Baudelaire apresenta uma palavra, que tem um uso menos comum, chamada “fleuve” (rio) originada, por sua vez, do latim “fluvius”. Lembrem-se de que, no latim clássico, a letra “v” é pronunciada como “u”, assim, a palavra soa “fluius”.
Vejam agora que interessante: dizem que a língua alemã é a língua da filosofia por sua capacidade de expressão máxima com as palavras, para dar sentido e significado às coisas. Não é que “rio”, em alemão, é “Fluss”, palavra que vem do antigo alemão “fluz” e que já chegou a ser Fluß (ortografia pré-1996)! Ainda, em alemão, podemos encontrar a palavra “Strom” que significa córrego (rio pequeno), corrente, corrente elétrica; eletricidade. Paremos, um pouco, aqui, para não cairmos em um labirinto etimológico aparentemente sem fim!
Essas derivações foram expostas para que percebamos as semelhanças linguísticas a fim de chegarmos a Heráclito, especificamente a alguns fragmentos, como o Fragmento 12. Neste fragmento, o filósofo grego diz “ποταμοῖσι τοῖσιν αὐτοῖσιν ἐμβαίνουσιν ἕτερα καὶ ἕτερα ὕδατα ἐπιρρεῖ” (sobre aqueles que entram nos mesmos rios, sempre diferentes águas fluem). No Fragmento 49a, há: ποταµοῖς τοῖς αὐτοῖς ἐµϐαίνοµέν τε καὶ οὐκ ἐµϐαίνοµεν, εἶµέν τε καὶ οὐκ εἶµέν (entramos e não entramos nos mesmos rios, somos e não somos). E, por fim, o Fragmento 91: “ποταμῷ γὰρ οὐκ ἔστιν εμβῆναι δὶς τῷ αὐτῷ καθ' Ἡράκλειτον οὐδὲ θνητῆς οὐσίας δὶς ἅψασθαι κατὰ ἕξιν <τῆς αὐτῆς>· ἀλλ' ὀξύτητι καὶ τάχει μεταβολῆς] σκίδνησι καὶ πάλιν συνάγει [(μᾶλλον δὲ οὐδὲ πάλιν οὐδ' ὕστερον, ἀλλ' ἅμα)] συνίσταται καὶ ἀπολείπει καὶ πρόσεισι καὶ ἄπεισι” (Em um mesmo rio não se pode entrar duas vezes, de acordo com Heráclito, nem é possível tocar substância mortal duas vezes no que diz respeito ao seu estado. Mas, graças à rapidez e à força da mudança, dispersa-se e reúne-se outra vez, (ou melhor, une-se e passa nem novamente nem depois, mas simultaneamente) constitui-se e dissolve-se, aproxima-se e segue.).
O que notamos é a relação íntima entre “fluir” e “rio”, por isso, em alemão, a palavra “Fluss” parece atender melhor ao significado de “rio” do que as palavras das línguas de origem latina. Com o latim isso não pode ser atestado, já que há a palavra fluvius que também se significa “rio”. E com o grego antigo, que se pode afirmar? Na língua de Homero, “rio” é “ποταμός”, por isso temos em nossa língua “hipopótamo” (cavalo do rio), entre outras palavras. A sua etimologia é mesmo incerta. Mais comumente tenta-se explicá-la como relacionada a πῑ́πτω (cair). Poderia também ser relacionada a πετάννῡμι (expandir), o que a tornaria idêntica ao proto-germânico faþmaz (“abraçar”). Notem como os rios se expandem e abraçam o mar! A palavra πετάννῡμι (expandir) vem do proto-indo-europeu peth-. Alguns cognatos incluem fæm (do inglês antigo) e do latim “pateō”, “patulus”. Notem agora uma semelhança interessante: a palavra latina “patulus” é um adjetivo cujo significado original compreendia “aberto”, “bem aberto”, “escancarado”, ”espalhado, “estendido”. “Patulus” tem proximidade com “ποταμός”, (/po.ta.mós/).
O poeta e filósofo Antonio Cicero, em seu ensaio "Que é a poesia?" publicado na "Ilustrada", da Folha de São Paulo, no dia 4 de outubro de 2008, ao analisar o poema "O Rio", de Manuel Bandeira, diz, brilhantemente, que “desde o título, "O Rio", torna-se inevitável pensar no famoso rio do filósofo grego Heráclito, em que não é possível pisar duas vezes. O primeiro verso reforça essa impressão: "Ser como o rio"... Mas a sentença de Heráclito – aparte certas interpretações recherchées – enfatiza o mobilismo universal, o fato de que coisa nenhuma jamais permanece a mesma. O rio de Bandeira, ao contrário, é em primeiro lugar a própria imagem da constância e até de um certo estoicismo: "Ser como o rio que deflui/ Silencioso dentro da noite./ Não temer as trevas da noite"”
Assim tudo flui e, em poesia, essa fluidez pode mesmo parecer e ser estática, num paradoxo que faz com que a poesia, enquanto arte, seja, nos moldes kantianos, uma finalidade sem fim e destituída de quaisquer interesses. Se pensarmos então que tudo muda e que as mudanças podem, de algum modo, ser necessárias ou urgentes, não poderemos esquecer os belos versos de Camões que parecem ser uma grande filosofia: “Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades,/Muda-se o ser, muda-se a confiança;/Todo o mundo é composto de mudança,”. Ora, mas Camões emprega justamente uma forma fixa, o soneto decassílabo, para tratar do tema da mudança!
Como esquecer também as linhas belas do Sermão do Mandato (1643), de Vieira, quando após defender que tudo muda e que “tudo cura o tempo, tudo faz esquecer, tudo gasta, tudo digere, tudo acaba”, conclui afirmando que “o amor perfeito, e que só merece o nome de amor, vive imortal sobre a esfera da mudança, e não chegam lá as jurisdições do tempo. Nem os anos o diminuem, nem os séculos o enfraquecem, nem as eternidades o cansam.”. Ainda que ele se refira a um amor metafísico, sobre-humano, não nos custa imaginar que o amor talvez fosse/seja a única coisa que escapasse/escape às jurisdições do tempo in totum, por isso tanto Cristo, ao proclamar o amor como o maior de tudo, quanto Immanuel Kant, ao afirmar categoricamente que a humanidade é um fim em si mesmo, talvez estivessem a dizer-nos o quanto é fundamental respeitar as diferenças e as igualdades, todas as pessoas, todas as mudanças.
E mais: não à-toa, Kant põe o tempo, em Kritik der reinen Vernunft como uma intuição pura, tratando-o em sua Estética Transcendental, pois estética em seu significado grego original quer dizer “sensação”. É preciso não só, portanto, o entendimento puro, mas também a intuição sensível para que as mudanças não só sejam percebidas como fenômenos, mas inteligivelmente compreendidas e explicadas. Deste modo, o sábio alemão afirma que “o tempo é uma representação necessária que constitui o fundamento de todas as intuições. Não se pode suprimir o próprio tempo em relação aos fenômenos em geral, embora se possam perfeitamente abstrair os fenômenos do tempo. O tempo é, pois, dado a priori. Somente nele é possível toda a realidade dos fenômenos.”.
Este percurso ensaístico finda com a possibilidade de novos momentos, porque, sendo um acontecimento, transcende e flui. Que rio ou mar poderiam ser mais imensos e ter tanta força com as suas águas do que a Poesia? Se para Kant, nada pode suprimir o tempo por ser uma condição necessária a priori, a poesia, astutamente, escapa às armadilhas do tempo, como grandeza supratemporal, pois não apenas pode engendrá-lo como excluí-lo das realidades fatuais.
Adriano Nunes

20.1.19

Jorge Luis Borges: "Blind Pew": trad. de Josely Vianna Baptista



Blind Pew

Longe do mar e da formosa guerra,
que assim o amor todo o perdido louva,
o bucaneiro cego fatigava
os terrosos caminhos da Inglaterra.

Escorraçado pelos cães das granjas,
caçoada dos meninos do povoado,
dormia um enfermiço e gretado
sono no enegrecido pó das sanjas.

Sabia que em remotas praias de ouro
era seu um recôndito tesouro
e isso serenava sua adversa sorte;

a ti também, em outras praias de ouro,
te aguarda incorruptível teu tesouro:
a vasta e vaga e necessária morte.




Blind Pew

Lejos del mar y de la hermosa guerra, 
que así el amor lo que ha perdido alaba, 
el bucanero ciego fatigaba 
los terrosos caminos de Inglaterra.

Ladrado por los perros de las granjas, 
pifia de los muchachos del poblado, 
dormía un achacoso y agrietado 
sueño en el negro polvo de las zanjas.

Sabía que en remotas playas de oro 
era suyo un recóndito tesoro 
y esto aliviaba su contraria suerte;

a ti también, en otras playas de oro, 
te aguarda incorruptible tu tesoro: 
la vasta y vaga y necesaria muerte.





BORGES, Jorge Luis. "Blind Pew". In:_____. O fazedor. Trad. de Josely Vianna Baptista. São Paulo: Companhia das Letras, 2008



18.1.19

Antonio Cicero: "Oráculo"




Oráculo


Vai e diz ao rei:

Cai a casa magnífica,

O santuário de Apolo;

Fenece o louro sagrado;

A voz da vidente emudece;

As fontes murmurantes se calam para sempre.



Diz adeus adeus.

Tudo erra, tanto

A terra vagabunda quanto

Tu, planetário.

Criança e rei,

Delira e ri:

Meu sepulcro não será tua masmorra.

Alimenta teu espírito também com meu cadáver,

Pisa sobre estas esplêndidas ruínas e,

Se não há caminhos,

Voa.

Voa ri delira

Nessa viagem sem retorno ou fim.







CICERO, Antonio. "Oráculo". In:_____. Guardar. Rio de Janeiro: Record, 1997.

15.1.19

Alex Varella: "Ela é de Alexandria" e "O pombo flâneur"



Ela é de Alexandria

A luz negra de seu corpo ilumina todo o porto.
Ela é de Alexandria, da baía de Alexandria.
Eu venho de Sírias,
pelo Egito, por Jônia,
por Creta,
pela Grécia.
Em meu corpo corre o sangue do mar.




O pombo flâneur

Todo pombo é flâneur, mas o carioca ainda mais.
Conta Paulo Mendes Campos que era verão,
e dois deles tinham marcado um encontro,
às cinco azul em ponto,
nos céus do Rio de Janeiro.
Os tradicionais relógios da Mesbla e da Central marcavam a hora,
mas não marcavam o tempo,
(nenhum relógio marca o tempo).
Atravessando a cidade num fio de luz,
a vista ardendo de azul,
aquele pombo se atrasou
e, arrulhando,
em uma sentença se explicou:
“-- Desculpe , meu amor,
mas o dia estava tão bonito que eu vim andando;
eu tinha de vir andando!”




VARELLA, Alex. "Ela é de Alexandria" e "O pombo flâneur".

13.1.19

Salgado Maranhão: "Refrão secreto"



Refrão secreto

Aqui,
a carne aberta
aos relâmpagos
                         (ante as estalagens
de edificações do ser).

Palavras que cicatrizam
granito; palavras
que viralizam o tempo
                                   que se alcova
com os larápios.

Há que se varrer
a memória a serrote;

há que se brotar
com as enchentes.

Tudo é o mesmo
estar-se
            em sonho
e substância:

nos córregos que atravessam
as uvas; no desejo
esticado ao deserto.

Se eu pudesse inserir
a galáxia em meu peito,
seria só o refrão
                         de um coração
que late —;

entre paixões ferinas
e revólveres de chocolate.





MARANHÃO, Salgado. "Refrão secreto". In:_____. A sagração dos lobos. Rio de Janeiro: 7 Letras, 2017.

11.1.19

Jorge Fernandes da Silveira: "Samira no miradouro"



SAMIRA NO MIRADOURO

mais pesada fosse a
pedra
sobre
as minas de prata
o ouro do dia
o vento desfazia a tarde em
nuvem
de fitas

Margarida
ao me curvar
para colher da
cova a
palma caída
me deu a sua mão
e

sabíamos
se de mármore
talhada mais
bela não seria
Samira
ó pedra
no miradouro
a fitar o
infinito
encantado de
vê-la


15 de agosto de 1994





SILVEIRA, Jorge Fernandes da. “Samira no miradouro”. In:_____. Memorial de Jorge da Silveira: a poor boy from nichtheroy. Rio de Janeiro: Desalinho, 2018.

9.1.19

Alphonsus de Guimaraens Filho: "Soneto dos quarenta anos"



Soneto dos quarenta anos

Não me ficou da vida mágoa alguma
de que possa lembrar aos quarenta anos
senão esses cansados desenganos
que o mar que trouxe leva como espuma.

Foram-se os anos, mas que são os anos?
Chama que em sombra esfaz-se, apenas bruma.
As horas que eu vivi, de uma em uma,
deixaram sonhos e deixaram danos.

Muita morte passou n'alma ferida:
meu pai e meus irmãos, mortos amados.
Mas pela minha vida passou vida,

passou amor também, passou carinho.
E pelos dias claros ou magoados
não fui feliz e nem sofri sozinho.




GUIMARÃES FILHO, Alphonsus de. "Soneto dos quarenta anos". In: Suplemento Literário de Minas Gerais. Belo Horizonte, Maio de 2018.

7.1.19

Alain Bosquet: "Le mot par le mot" / "Do verbo o verbo...": trad. por Mário Laranjeira



Do verbo o verbo...

É o poema em mim que escreve o meu poema,
do verbo o verbo se origina.
Ele é meu ocupante; e nem sei se me ama.
Quer a poesia, essa inquilina,

meu espaço vital gerir e, furibunda,
ralha: quem sabe estou errado.
Há de absolver-me um dia; em sua porção mais funda,
eu lhe preparo um melhor fado.

Faremos par feliz; há de a minha alegria 
vencer-lhe toda inquietação.
Os trêmulos detesta; a mim não cederia 
emprego algum: a narração,

nem a trama, ou a letra, ou mesmo a melodia, 
pois tudo quer decidir logo.
Meu cérebro retrai-se e a minha razào fria 
Não vale um dado posto em jogo.

Sou para o meu poema esqueleto ilusório;
numa mortalha ia melhor.
Ele é adulto, pode ser o promontório,
a ave, o azul e a tília em flor.

Nada mais a dizer, poeta; quieto assim
sonhando com sonhar eu vou.
Em si mesmo se pensa o poema, sem mim;
luxúria de que me privou.





Le mot par le mot

C'est le poème en moi qui écrit mon poème ;
Le mot par le mont engendré.
Il est mon occupant ; je ne sais pas s'il m'aime.
Mon locataire veut gérer

Mon espace vital et, de plus, il me gronde : 
peut-être suis-je dans mon tort. 
Il m'absoudra un jour ; en ses couches profondes, 
je lui prépare un meilleur sort.

Nous formerons un couple heureux ; mon allégresse 
aura raison de ses soucis. 
Il a horreur des trémolos ; il ne me laisse 
aucun emploi : ni le récit,

ni le déroulement, ni l'air, ni la musique
car il prétend tout décider. 
Mon cerveau se rétracte et ma pauvre logique 
vaut moins, dit-il, qu'un coup de dé.

Je suis pour mon poème un squelette inutile, 
qui ferait mieux dans un linceul. 
Il est adulte, il peut devenir la presqu'île, 
l'oiseau, l'azur et le tilleul.

Je n'ai plus rien à dire, Ô poète : en silence 
je rêve au défi de rêver. 
Mon poème sans moi en soi-même se pense, 
luxure dont il m'a privé.





BOSQUET, Alain. "Le mot par le mot" / "Do verbo o verbo...". In: LARANJEIRA, Mário (seleção, org. e trad.) Poetas de França hoje (1945-1995). São Paulo: EDUSP, 1996. 

5.1.19

Ferreira Gullar: "Visita"



Visita

no dia de
finados ele foi
ao cemitério
porque era o único
lugar do mundo onde
podia estar
perto do filho mas
diante daquele
bloco negro
de pedra
impenetrável
entendeu
que nunca mais
poderia alcançá-lo

Então
apanhou do chão um
pedaço amarrotado
de papel escreveu
eu te amo filho
pôs em cima do
mármore sob uma
flor
e saiu
soluçando





GULLAR, Ferreira. "Visita". In:_____. "Muitas vozes". In:_____. Toda poesia. Rio de Janeiro: José Olympio, 2015.

3.1.19

P.B. Shelley: "Time" / "Tempo": trad. por Adriano Scandolara



O tempo

Ó insondável Mar! marulho de anos,
      Tempo em cujos pelágios fundas mágoas
Salmouram só do pranto dos humanos!
      Maré sem margens, sob as vossas águas
Podeis os fins do ser mortal tocar
      E, nauseado, a uivar, pedindo mais,
Em suas margens vis os restos vomitais;
Pérfido na bonança, atroz na fúria,
   Quem vai vos desbravar,
   Ó insondável Mar?




Time

Unfathomable Sea! whose waves are years,
      Ocean of Time, whose waters of deep woe
Are brackish with the salt of human tears!
      Thou shoreless flood, which in thy ebb and flow
Claspest the limits of mortality!
      And sick of prey, yet howling on for more,
Vomitest thy wrecks on its inhospitable shore;
      Treacherous in calm, and terrible in storm,
         Who shall put forth on thee,
         Unfathomable Sea?





SHELLEY, Percy B. “Time” / “O tempo”. In:_____. Prometeu desacorrentado e outros poemas. Trad. por Adriano Scandolara. Belo Horizonte: Autêntica, 2015.

1.1.19

M.D. Magno: "The sun of a beach"



The sun of a beach

Purgando os recalcantes batistérios,
pudesse a inteligência mais arguta,
frente ao grave prestígio do “mistério”,
se outorgar claridade absoluta.

Só há o Haver (e não-Haver não há)
sem mínimo “mistério” que o garanta
– só isto tentariam concertar
as demandas daquele que se espanta...

Contudo, nada vale, mesmo o Nada
da radical Indiferença posta,
em caução de conforto à nossa estada.

Nenhum Bem, nenhum Mal, nos salvarão;
nem os ouros da vida, nem a bosta.
O jeito é dizer Sim – mesmo se Não.




MAGNO, M.D. “The sun of a beach”. In:_____. “S’obras (1982-1999)”. In:_____. Literadura. Rio de Janeiro: Novamente, 2018.