22.9.19

Adonis: "Árvore do dia e da noite": trad. por Michel Sleiman





Árvore do dia e da noite

Antes que o dia venha chego
antes que se pergunte pelo sol ilumino
árvores vêm correndo atrás de mim
andam à minha sombra cálices de flor
e o delírio em meu rosto ergue
ilhas e penhascos de silêncio cujas portas a palavra desconhece
se ilumina a noite amiga e se esquecem
no meu leito os dias,

depois, quando as fontes rolarem no meu peito
desabotoarem as vestes e dormirem
acordarei a água e os espelhos, e reluzirei
como eles, a lâmina das visões

então eu durmo.





ADONIS. "Árvore do dia e da noite". In:_____. Adonis [poemas]. Org. e trad. por Michel Sleiman. São Paulo: Companhia das Letras, 2012.

20.9.19

Arthur Nogueira canta "Consegui"



Arthur Nogueira canta, em show, a canção "Consegui", parceria dele comigo.
                                                                                               Antonio Cicero


17.9.19

Carlos Cardoso: "O passado"




O passado

Passadas as horas ficou o passado
e o vago que é a lagoa Rodrigo de Freitas
e seus peixes mortos a boiarem.

É nele que me fixo.

O passado é fonte de riqueza
é nele que busco o saber
é nele que encontro o que busco,

o passado é mais hoje que o presente
que quando ausente
é no passado que eu volto.

O futuro que vejo é refém do passado que eu sei,

como uma couve que brota do seu broto
como uma árvore que um dia foi semente,

o passado é melancolia,
e de repente

isso é tudo o que eu queria.





CARDOSO, Carlos."O passado". In:_____. Melancolia. Rio de Janeiro: Record, 2019.

15.9.19

Antero de Quental: "Sepultura romântica"




Sepultura romântica

Ali, onde o mar quebra, num cachão
Rugidor e monótono, e os ventos
Erguem pelo areal os seus lamentos,
Ali se há-de enterrar meu coração.

Queimem-no os sóis da adusta solidão
Na fornalha do estio, em dias lentos;
Depois, no Inverno, os sopros violentos
Lhe revolvam em torno o árido chão…

Até que se desfaça e, já tornado
Em impalpável pó, seja levado
Nos turbilhões que o vento levantar…

Com suas lutas, seu cans ado anseio,
Seu louco amor, dissolva-se no seio
Desse infecundo desse amargo mar!”






QUENTAL, Antero de. "Sepultura romântica". In: GULLAR, Ferreira (org. e trad.). O prazer do poema: uma antologia pessoal. Rio de Janeiro: Edições de Janeiro, 2014.


12.9.19

Georg Trakl: "Die Sonne" / "O sol": trad. de João Barrento




O sol

Diariamente, o sol amarelo vem por cima do monte.
Bela é a floresta, o animal sombrio,
O homem: caçador ou pastor.

Fulvo, emerge o peixe no lago verde.
Sob  a curva do céu
Desliza levemente o pescador no barco azul.

Lentamente, amadurece a uva, o trigo.
Quando, no silêncio, declina o dia,
Obras boas e más estão preparadas.

Quando chega a noite
O viajante ergue levemente as pesadas pálpebras;
De sombrio abismo jorra sol.





Die Sonne

Täglich kommt die gelbe Sonne über den Hügel.
Schön ist der Wald, das dunkle Tier,
Der Mensch; Jäger oder Hirt.

Rötlich steigt im grünen Weiher der Fisch.
Unter dem runden Himmel
Fährt der Fischer leise im blauen Kahn.

Langsam reift die Traube, das Korn.
Wenn sich stille der Tag neigt,
Ist ein Gutes und Böses bereitet.

Wenn es Nacht wird,
Hebt der Wanderer leise die schweren Lider;
Sonne aus finsterer Schlucht bricht.






TRAKL, Georg. "Die Sonne" / "O sol". In: BARRENTO, João (seleção e tradução). A alma e o caos: 100 poemas expressionistas. Lisboa: Relógio D'Água Editores, 2001.


9.9.19

Diego Mendes Sousa: "Ser do mar"




Ser dor mar

Cosmonave de um coração costeiro
que navega na preamar da dor
na maré do amor
no mar do ser
meu alterego
a dor-mar
a domar
os sargaços
de um sal salgado
de um sol solstício
de uma lua lunática
que passa na alma
de enseada

Meu coração aberto
nas praias do sonho
litoral de aberturas
ao mundo





SOUSA, Diego Mendes. "Ser dor mar". In:_____. "Opus II: Coração Costeiro". In:_____.  Velas náufragas. Guaratinguetá, SP.: Penalux, 2019.

7.9.19

Jacques Prévert: "Le discours sur la paix" / "Discurso sobre a paz": trad. de Silviano Santiago




Discurso sobre a paz

Já no final de um discurso extremamente importante
o grande homem de Estado engasgando
com uma bela frase oca
escorrega
e desamparado com a boca escancarada
sem fôlego
mostra os dentes
e a cárie dentária dos seus pacíficos raciocínios
deixa exposto o nervo da guerra:
a delicada questão do dinheiro.






Le discours sur la paix

Vers la fin d'un discours extrêmement important
le grand homme d'Etat trébuchant
sur une belle phrase creuse
tombe dedans
et désemparé la bouche grande ouverte
haletant
montre les dents
et la carie dentaire de ses pacifiques raisonnements
met à vif le nerf de la guerre
la délicate question d'argent.




PRÉVERT, Jacques. "Le discours sur la paix" / "Discurso sobre a paz". In:_____. Poemas. Seleção e tradução por Silviano Santiago. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1985.

5.9.19

Adriano Nunes: "Melhor um poema"

Agradeço a Adriano Nunes por me ter dedicado o seguinte, belo poema:



Melhor um poema

                         para Antonio Cicero


Melhor um poema
Do que prisões, penas,
Pedras e problemas.
Melhor um poema

Do que algum dilema,
Propósito. Apenas
Em ser sol se antena.
Melhor um poema!

Que a querela extrema
Política, em cena,
Que se concatena,
Melhor um poema!

Do que algoz algema,
Do que vãs sistemas,
Do que a práxis plena...
Melhor? Um poema!

Eis que nos acena
O poema: gema
Raríssima! Apenas
Em ser é, se esquema.






3.9.19

Giuseppe Ungaretti: "Se tu mio fratello" / "Se tu, meu irmão": trad. por Geraldo Holanda Cavalcanti




Se tu, meu irmão


Se, vivo, regressasses ao meu encontro,
Com a mão estendida,
Poderia ainda,
No elã de esquecer, apertá-la,
Irmão.

Mas de ti, de ti já nada me envolve
Senão sonhos, vislumbres,
O fogo sem foco do passado.

A memória não me traz senão imagens
E para mim mesmo, eu mesmo
Já não sou mais
Que o vazio nada de meu pensamento.






Se tu mio fratello


Se tu mi rivenissi incontro vivo,
Con la mano tesa,
Ancora potrei,
Di nuovo in uno slancio d'oblio, stringere,
Fratello, una mano.

Ma di te, di te più non mi circondano
Che sogni, barlumi,
I fuochi senza fuoco del passato.

La memoria non svolge che le immagini
E a me stesso, io stesso
Non sono già più
Che l'annientante nulla del pensiero.






UNGARETTI, Giuseppe. "Se tu mio fratello" / "Se tu, meu irmão". In:_____. Poemas. Seleção e traduções por Geraldo Holanda Cavalcanti. São Paulo: Edusp, 2017. 


1.9.19

Antonio Carlos Secchin: "Soneto veloz"




Soneto veloz

O poema sai correndo à minha frente,
desse jeito jamais vou segurá-lo.
Fingia estar aqui, mas de repente
se intrometeu no trote de um cavalo.

Na estrofe dois passou em disparada.
No espaço esvaziado eu arremeto
inútil rede, a recolher o nada:
o poema escapuliu deste quarteto.

Consigo enfim laçá-lo, ele se faz
inteiro e hostil, à minha revelia.
E se revela, súbito, capaz

de me livrar do laço que o prendia.
Livres nós dois, agora ele já fala
na voz que nasce quando o autor se cala.





SECCHIN, Antonio Carlos. "Soneto veloz". In:_____. Desdizer e antes. Rio de Janeiro: Topbooks, 2017.

30.8.19

André Frenaud: "Parade" / "Parada": trad. de Mário Laranjeira




Parada

Ele achou sua fonte,
Ele pôs pão na sopa,
Ele dormiu à mesa,
Ele saciou-se em sonho,
Ele botou um ovo,
Ele se aviva em cisma,
Ele se ativa em força,
Ele se acopla à lira,
Ele se cumpre em voto
Do sopro do Espírito.

Esse homem é um poeta.





Parade

Il a trouvé sa source,
Il a trempé sa soupe,
Il s’assoupit à table,
Il s’assouvit en rêve,
Il s’accroupit pour pondre,
Il s’avive à songer,
Il s’active à pousser,
Il s’accouple à la lyre,
Il s’accomplit par vœu
Du souffle de l’Esprit.

Cet homme est un poète.




FRÉNAUD, André. “Parade” / “Parada”. In: LARANJEIRA, Mário (org. e trad.). Poetas de França hoje: 1945-1995. Rio de Janeiro: São Paulo: Edusp, 1996. 

26.8.19

Al Berto: "Os amigos"




Os amigos

no regresso encontrei aqueles
que haviam estendido o sedento corpo
sobre infindáveis areias

tinham os gestos lentos das feras amansadas
e o mar iluminava-lhes as máscaras
esculpidas pelo dedo errante da noite

prendiam sóis nos cabelos entrançados
lentamente
moldavam o rosto lívido como um osso
mas estavam vivos quando lhes toquei
depois
a solidão transformou-os de novo em dor
e nenhum quis pernoitar na respiração
do lume

ofereci-lhes mel e ensinei-os a escutar
a flor que murcha no estremecer da luz
levei-os comigo
até onde o perfume insensato de um poema
os transmudou em remota e resignada ausência




AL BERTO. "Os amigos". In:REIS-SÁ, Jorge e LAGE, Rui. Antologia da poesia portuguesa do séc. XIII ao séc. XXI. Porto: Porto Editora, 2009.

21.8.19

Waly Salomão: "Cobra-coral"




Cobra-coral

Para de ondular, agora, cobra-coral:
a fim de que eu copie as cores com que te adornas,
a fim de que eu faça um colar para dar à minha amada,
a fim de que tua beleza
                    teu langor
                    tua elegância
                              reinem sobre as cobras não corais





SALOMÃO, Waly. "Cobra-coral". In:_____. "Tarifa de embarque". In:_____. Poesia total. São Paulo: Companhia das Letras, 2014.

18.8.19

Antonio Cicero: Sobre "A poesia e a crítica"

Falo um pouco de poesia e da ABL na seguinte entrevista que dei para o Canal Curta, por ocasião do lançamento do meu livro A poesia e a crítica, em 2017:


15.8.19

Carlos Pena Filho: "Chope"




Chope


Na avenida Guararapes,
o Recife vai marchando.
O bairro de Santo Antonio,
tanto se foi transformando
que, agora às cinco da tarde,
mais se assemelha a um festim.
Nas mesas do Bar Savoy,
o refrão tem sido assim:
São trinta copos de chope,
são trinta homens sentados,
trezentos desejos presos,
trinta mil sonhos frustrados.
Ah, mas se a gente pudesse
fazer o que tem vontade:
espiar o banho de uma,
a outra, amar pela metade
e daquela que é mais linda
quebrar a rija vaidade.
Mas como a gente não pode
fazer o que tem vontade,
o jeito é mudar a vida
num diabólico festim.
Por isso no Bar Savoy,
o refrão é sempre assim:
São trinta copos de chope,
são trinta homens sentados,
trezentos desejos presos,
trinta mil sonhos frustrados.




PENA FILHO,  Carlos. "Chope". In:_____. Livro geral. Olinda: Secretaria de Patrimônio e Cultura da Prefeitura de Olinda, s.d.

12.8.19

Luis Turiba: "Desacontessências"




Desacontessências

desaconteci
(mentavelmente)
tudo acontece para
desacontecer em si

anoitece para amanhecer
nascer viver crescer morrer
tecer escrituras em silêncios
semânticas em pura seda

desconstruir óbvios
reconstruir amálgamas
experimentos ordinários
holografias d’almas




TURIBA, Luis. "Desacontessências". In:_____. Desacontecimentos. Rio de Janeiro: 7Letras, 2019.

10.8.19

Antonio Cicero: "O fim da vida"



O fim da vida

Conhece da humana lida
a sorte:
o único fim da vida
é a morte
e não há, depois da morte
mais nada.
Eis o que torna esta vida
sagrada:
ela é tudo e o resto, nada.





CICERO, Antonio. "O fim da vida". In:_____. Porventura. Rio de Janeiro: Record, 2012.

5.8.19

Mário Faustino: "Ego de mona kateudo"




Ego de mona kateudo

Dor, dor de minha alma, é madrugada
E aportam-me lembranças de quem amo.
E dobram sonhos na mal-estrelada
Memória arfante donde alguém que chamo
Para outros braços cardiais me nega
Restos de rosa entre lençóis de olvido.
Ao longe ladra um coração na cega
Noite ambulante. E escuto-te o mugido,
Oh vento que meu cérebro aleitaste,
Tempo que meu destino ruminaste.
Amor, amor, enquanto luzes, puro,
Dormido e claro, eu velo em vasto escuro,
Ouvindo as asas roucas de outro dia
Cantar sem despertar minha alegria.





FAUSTINO, Mário. "Ego de mona kateudo". In:_____. Poesia de Mário Faustino. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1966.




Observo que o título desse poema é a transcrição para caracteres latinos do último verso do fragmento 168b de um poema de Safo. "Ego de mona kateudo" significa "E eu durmo sozinha". O poema de Safo e sua tradução podem ser lidos neste blog desde 2008, aqui: http://antoniocicero.blogspot.com/2008/02/safo-fr-168b.html

2.8.19

J.W. Goethe: "An die Günstigen" / "Aos leitores amigos": trad. de Paulo Quintela




Aos leitores amigos

Poetas não podem calar-se,
Querem às turbas mostrar-se.
Há-de haver louvores, censuras!
Quem vai confessar-se em prosa?
Mas abrimo-nos sub rosa
No calmo bosque das Musas.

Quanto errei, quanto vivi,
Quanto aspirei e sofri,
Só flores num ramo – aí estão;
E a velhice e a juventude,
E o erro e a virtude
Ficam bem numa canção.




An die Günstigen

Dichter lieben nicht zu schweigen,
Wollen sich der Menge zeigen.
Lob und Tadel muß ja sein!
Niemand beichtet gern in Prosa;
Doch vertraun wir oft sub rosa
In der Musen stillem Hain.

Was ich irrte, was ich strebte,
Was ich litt und was ich lebte,
Sind hier Blumen nur im Strauß;
Und das Alter wie die Jugend,
Und der Fehler wie die Tugend
Nimmt sich gut in Liedern aus.





GOETHE, Johann Wolfgang von. "An die Günstigen" / "Aos leitores amigos". In: Poemas. Antologia bilingue. Versão portuguesa de Paulo Quintela. Coimbra: Centelha, 1979.

29.7.19

Dorothy Parker: "Résumé" / "Em suma": trad. de Nelson Ascher






Em suma

Navalhas doem,
ácido mancha,
o rio molha,
drogas dão cãibra;
arma é ilegal,
laço desfaz-se,
gás cheira mal.
Viva: é mais fácil.





Résumé

Razors pain you –
Rivers are damp:
Acids stain you;
And drugs cause cramp.
Guns aren’t lawful;
Nooses give;
Gas smells awful;
You might as well live.





PARKER, Dorothy. "Resumé" / "Em suma". In: ASCHER, Nelson. Poesia alheia. 124 poemas traduzidos. Trad. de Nelson Ascher. Rio de Janeiro: Imago, 1998.

24.7.19

Alex Varella: "Pedro do Rio"





PEDRO DO RIO
                À Memória De Lygia Pape


Pedro cuidava
Do rio e do passarinho
À beira da estrada
União E Indústria
Pedro era o rio
Pedro do Rio





VARELLA, Alex. "Pedro do Rio". In:_____. Em Ítaca. Ilha de Santa Catarina: Noa Noa, 1985. 

19.7.19

Manuel Bandeira: "Céu"




Céu

A criança olha
Para o céu azul.
Levanta a mãozinha.
Quer tocar o céu.

Não sente a criança
Que o céu é ilusão:
Crê que o não alcança,
Quando o tem na mão.





BANDEIRA, Manuel. "Céu". In:_____. "Belo belo". In:_____. Poesia completa e prosa. Rio de Janeiro: José Aguilar, 1967.

17.7.19

Augusto Frederico Schmidt: "Paz dos túmulos"




Paz dos túmulos

Ó paz dos túmulos
Ó frio das tardes invernais nos cemitérios
Ó mármores gelados, rosas frias, Cristos de gêlo, como vos espero!
Quando serei silêncio e frio apenas?
Quando serei apenas o íntimo da terra?
Quando, enfim, dormirei na paz – na álgida paz?
Ó vento que matais as rosas, vento frio!
Quando me levareis mudando em poeira?
Quando me levareis pelas ruas
Quando me levareis em mim mesmo mudando
Para o grande mar, o grande mar, o grande mar...





SCHMIDT, Augusto Frederico. "Paz dos túmulos". In: BANDEIRA, Manuel (org.). Apresentação da poesia brasileira: seguida de uma antologia. São Paulo: Cosac Naify, 2009.

15.7.19

Guillermo Boido: "Déjà vu": trad. de Santiago Kovadloff




Déjà vu

eu vi essa província onde
a sombra de meu corpo fala
do meu corpo como de uma sombra






Déjà vu

he visto esa provincia donde
la sombra de mi cuerpo habla
de mi cuerpo como de una sombra






BOIDO, Guillermo. "Déjà vu". In: KOVADLOFF, Santiago. A palavra nômade: Poesia argentina dos anos 70. São Paulo: Iluminuras, 1990. 

13.7.19

Gastão Cruz: "Corda"




Corda

Ninguém tem nome: apenas uma escura
corda de sons que prende o corpo e deixa
queimaduras na pele, esse é o preço
de ser nomeado porque o chamamento

de cada vez se torna mais ardente
até ser casa ou roupa ou outra pele
que fere o corpo e finalmente o veste
do nome que é o dele





CRUZ, Gastão. "Corda". In:_____. Óxido. Porto: Assírio & Alvim, 2015.

11.7.19

Ingeborg Bachmann: "Alle Tage" / "Todos os dias": trad. por Rosvitha Friesen Blume e Markus J. Weininger



Todos os dias

A guerra já não é mais declarada,
Apenas prossegue. O insólito
tornou-se cotidiano. O herói
abstém-se das batalhas. O fraco
é movido para as linhas de fogo.
O uniforme do dia é a paciência,
a medalha, o mísero astro
da esperança sobre o coração.

Esse é conferido
quando nada mais acontece,
quando a metralha se cala,
quando o inimigo ficou invisível
e a sombra do eterno armamento
recobre o céu.

É conferido
pela deserção das bandeiras,
pela bravura frente ao amigo,
pela denúncia de segredos indignos
e pelo ato de ignorar
qualquer ordem.





Alle Tage

Der Krieg wird nicht mehr erklärt,
sondern fortgesetzt. Das Unerhörte 
ist alltäglich geworden. Der Held
bleibt den Kämpfen fern. Der Schwache 
ist in die Feuerzonen gerückt.
Die Uniform des Tages ist die Geduld,
die Auszeichnung der armselige Stern
der Hoffnung über dem Herzen.

Er wird verliehen,
wenn nichts mehr geschieht, 
wenn das Trommelfeuer verstummt,
wenn der Feind unsichtbar geworden ist
und der Schatten ewiger Rüstung
den Himmel bedeckt.

Er wird verliehen
für die Flucht von den Fahnen,
für die Tapferkeit vor dem Freund,
für den Verrat unwürdiger Geheimnisse
und die Nichtachtung
jeglichen Befehls.





BACHMANN, Ingeborg. "Alle Tage" / "Todos os dias". In: BLUME, Rosvitha Friesen; WEININGER, Markus J. Seis décadas de poesia alemã. Do pós-guerra ao início do século XXI. Florianópolis: Ed. da UFSC, 2012.

9.7.19

António Botto: "Não. Beijemo-nos apenas"




I


Não. Beijemo-nos, apenas,
Nesta agonia da tarde.

Guarda – 
Para outro momento
Teu viril corpo trigueiro.

O meu desejo não arde
E a convivência contigo
Modificou-me – sou outro. . .

A névoa da noite cai.

Já mal distingo a cor fulva
Dos teus cabelos. – És lindo!

A morte
Devia ser
Uma vaga fantasia!

Dá-me o teu braço: – não ponhas
Esse desmaio na voz.
Sim, beijemo-nos, apenas!,
- Que mais precisamos nós?




BOTTO, António. "Não. Beijemo-nos apenas". In:_____. "Adolescente". In:_____. Canções e outros poemas. Org. de Eduardo Pitta. Vila Nova do Famalicão: Quasi, 2007.

7.7.19

Duda Machado: "Poema 1922"




Poema 1922


o maluco irrompeu
nu na igreja
tirou o santo do altar
se aninhou no nicho

e entrou em êxtase
foi um auê geral
mas uma das beatas
não notou nada





MACHADO, Duda. "Poema 1922". In:_____. Crescente. São Paulo: Duas Cidades, 1990.

5.7.19

Daniel Faria: "As manhãs"




As manhãs


Das manhãs

Apenas levarei a tua voz

Despovoada

Sem promessas
sem barcos
E sem casas

Não levarei o orvalho das ameias
Não levarei o pulso das ramadas

Da tua voz

Levarei os sítios das mimosas
Apenas os sítios das mimosas

As pedras
As nuvens
O teu canto

Levarei manhãs      E madrugadas





FARIA, Daniel. "As manhãs" In:_____. "Oxálida". In:_____. Poesia. Vila Nova de Famalicão: Quasi, 2003.

2.7.19

Antonio Cicero: "Buquê"





Buquê

                                        para Sérgio Luz

Ó Sérgio, Sérgio, somos ainda
crianças. Nossas almas são novas.
Não chegamos a adquirir antigas
ciências. Dizem que o que destroça
de tempos em tempos nossas crenças
são catástrofes, que nos impedem
de amadurecer. Mas quem se lembra
mesmo ou se importa se, ao que parece,
o que nasceu merece morrer?
Desprezar a morte, amar o doce,
o justo, o belo e o saber: esse é
o buquê. Ontem nasceu o mundo.
Amanhã talvez pereça. Hoje
viva o esquecimento e morra o luto.








CICERO, Antonio: "Buquê". In:_____. A cidade e os livros. Rio de Janeiro: Record, 2002.

30.6.19

Carlos Drummond de Andrade: "Oficina irritada"




Oficina irritada

Eu quero compor um soneto duro
como poeta algum ousara escrever.
Eu quero pintar um soneto escuro,
seco, abafado, difícil de ler.

Quero que meu soneto, no futuro,
não desperte em ninguém nenhum prazer.
E que, no seu maligno ar imaturo,
ao mesmo tempo saiba ser, não ser.

Esse meu verbo antipático e impuro
há de pungir, há de fazer sofrer,
tendão de vênus sob o pedicuro.

Ninguém o lembrará: tiro no muro,
cão mijando no caos, enquanto Arcturo,
claro enigma, se deixa surpreender.





ANDRADE, Carlos Drummond de. "Oficina irritada". In:_____. "Claro enigma". In:_____. Poesia e prosa. Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 1988.

28.6.19

Antero de Quental: "Em viagem"




Em viagem

Pelo caminho estreito, aonde a custo
Se encontra uma só flor, ou ave, ou fonte,
Mas só bruta aridez de áspero monte
E os sóis e a febre do areal adusto,

Pelo caminho estreito entrei sem susto
E sem susto encarei, vendo-os defronte,
Fantasmas que surgiam do horizonte
A acometer meu coração robusto...

Quem sois vós, peregrinos singulares?
Dor, Tédio, Desenganos e Pesares...
Atraz deles a Morte espreita ainda...

Conheço-vos. Meus guias derradeiros
Sereis vós. Silenciosos companheiros,
Bem-vindos, pois, e tu, Morte, bem-vinda!





QUENTAL, Antero de. "Em viagem". In:_____. Sonetos. Org. por António Sérgio. Lisboa: Livraria Sá da Costa, 1963.

26.6.19

Tanussi Cardoso: "Origem 1"




Origem 1


eu não sou 
de onde nasci

eu não sou 
de onde vim

nenhuma língua me engana
nenhuma terra me enterra

eu sou
onde estou

eu sou
onde sou





CARDOSO, Tanussi. "Origem 1". In:_____. eu e outras conssequências. Guaratinguetá: Editora Penaluz, 2017.

23.6.19

José Gomes Ferreira: "Menino que vais na rua"




Menino que vais na rua

                   (Serenata cínica para o Bettencourt cantar:)


Menino que vais na rua,
não cantes nem chores: berra!
Cospe no céu e na Lua
e aprende a pisar a Terra.


Aprende a pisar o Mundo.
Deixa a Lua aos violinos
dos olhos dos vagabundos
e dos poetas caninos.


Aprende a pisar a vida.
Deixa a Lua às costureiras
–  pobre moeda caída
de quem não tem algibeiras.


Aprende a pisar no chão
o silêncio do luar
sem sentir no coração
outras pedras a gritar.


Pisa a Lua sem remorsos,
estatelada no solo...
Não hesites! Quebra os ossos
dessa criança de colo.


Pisa-a, frio, com coragem,
sem olhos de serenata:
que isso que vês na paisagem
não é ouro nem é prata.


Menino que vais na rua,
não chores, nem cantes: berra!
ou, então, salta pra Lua
e mija de lá na Terra.




FERREIRA, José Gomes. "Menino que vais na rua". In:_____. Poesias II. Lisboa: Portugália Editora, 1972.


21.6.19

William Soares dos Santos: "O novo modus operandi do mundo é o algoritmo"




O novo modus operandi do mundo é o algoritmo

O novo modus operandi do mundo
é o algoritmo.
Não mais aquele sentimento de
ser uma espécie que a biologia
constituiu em tempos primais,
nem a consciência que se instaurou
com o orgulho da modernidade,
mas as estatísticas que,
de agora em diante,
parecem conduzir
a nossa história
sem lances de dados.





SANTOS, William Soares dos. "O novo modus operandi do mundo é o algoritmo". In:_____. Três Sóis. São Paulo: Patuá, 2019.

19.6.19

Robert Frost: "Nothing gold can stay" / "Nada de ouro permanece": trad. de Ivan Justen Santana




Nothing Gold Can Stay

Nature's first green is gold,
Her hardest hue to hold.
Her early leaf's a flower;
But only so an hour.
Then leaf subsides to leaf.
So Eden sank to grief,
So dawn goes down to day.
Nothing gold can stay.




FROST, Robert. "Nothing gold can stay". In:_____. The poetry of Robert Frost: The collected poems. Org. por Edward Connery Lathem. New York: Henry Holt and Company, 1975.




Nada de ouro permanece

O verde no início é de ouro,
Seu mais difícil tesouro.
Folha nova em flor aflora,
Mas apenas por uma hora.
Depois folhas se sucedem.
Na mágoa naufraga esse Éden,
No dia essa aurora perde-se.
Nada de ouro permanece.





FROST, Robert. "Nada de ouro permanece". Trad. de Ivan Justen Santana. In URL ossurtado.blogspot.com/2011/06/nothing-nada-gold-permanece-can-verde.html. 

17.6.19

A Estante do Poeta



Amanhã, dia 18, estarei no Espaço Afluentes, na Av. Rio Branco, 181, sala 1905 (em frente à estação de metrô “Carioca”), participando do projeto “A Estante do Poeta”, no qual fui convidado a conversar com Paulo Sabino sobre como a poesia entrou na minha vida, como foi que me descobri poeta e que poetas e/ou poemas mais me influenciaram. 

Antonio Cicero



15.6.19

Eugénio de Andrade: "Mar de setembro"




Mar de setembro

Tudo era claro:
céu, lábios, areias.
O mar estava perto,
fremente de espumas.
Corpos ou ondas:
iam, vinham, iam,
dóceis, leves -- só
ritmo e brancura.
Felizes, cantam;
serenos, dormem;
despertos, amam,
exaltam o silêncio.
Tudo era claro,
jovem, alado.
O mar estava perto.
Puríssimo. Doirado.




ANDRADE, Eugénio de. "Mar de setembro". In:_____. Poemas de Eugénio de Andade. Org. Por Arnaldo Saraiva. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1999.

13.6.19

Manoel de Barros: "Sem título"




Sem título

de Livro sobre nada (1996)


Sei que fazer o inconexo aclara as loucuras.
Sou formado em desencontros.
A sensatez me absurda.
Os delírios verbais me terapeutam.
Posso dar alegria ao esgoto (palavra aceita tudo).
(E sei de Baudelaire que passou muitos meses tenso
porque não encontrava um título para os seus poemas.
Um título que harmonizasse os seus conflitos. Até que
apareceu Flores do mal. A beleza e a dor. Essa antítese
o acalmou.)

As antíteses congraçam.





BARROS, Manoel de. "Sem título". In:_____. Ocupação Manuel de Barros. Org. por Carlos Costa. São Paulo: Itaú Cultural, 2019.

11.6.19

Emily Dickinson: "Fame is a bee" / "A Fama é uma abelha"




79

A Fama é uma abelha.
   Tem um estribilho –
Um ferrão em brasa –
   Ah! também tem asa.





79

Fame is a bee.
   It has a song –
It has a sting –
   Ah, too, it has a wing.







DICKINSON,  Emily. "Fame is a bee" \ "A Fama é uma abelha". In:_____. Não sou ninguém. Trad. de Augusto de Campos. Campinas: Editora da Unicamp, 2008.

9.6.19

Fernando Pessoa / Ricardo Reis: "Sim, sei bem"




Sim, sei bem



Sim, sei bem

Que nunca serei alguém.

    Sei de sobra

Que nunca terei uma obra.

    Sei, enfim,

Que nunca saberei de mim.

    Sim, mas agora,

Enquanto dura esta hora,

    Este luar, estes ramos,

Esta paz em que estamos,

    Deixem-me me crer

O que nunca poderei ser.





PESSOA, Fernando. "Sim, sei bem". In:_____. "Odes de Ricardo Reis". In:_____. "Ficções do interlúdio". In:_____. Obra poética. Org. por Maria Aliete Galhoz. Rio de Janeiro: Editora Nova Aguilar, 1986.

7.6.19

Francisco Alvim: "Com ansiedade"




Com ansiedade

Os dias passam ao lado
o sol passa ao lado
de quem desceu as escadas

Nas varandas tremula
o azul de um céu redondo, distante

Quem tem janelas
que fique a espiar o mundo




ALVIM, Francisco. "Com ansiedade". In:_____. Poemas. 1968-2000. São Paulo: Cosac & Naify, 2004.

5.6.19

Antero de Quental: "O que diz a Morte"




O que diz a Morte

Deixai-os vir a mim, os que lidaram;
Deixai-os vir a mim, os que padecem;
E os que cheios de mágoa e tédio encaram
As próprias obras vãs, de que escarnecem...

Em mim, os Sofrimentos que não saram,
Paixão, Dúvida e Mal, se desvanecem.
As torrentes da Dor, que nunca param,
Como num mar, em mim desaparecem. -

Assim a Morte diz. Verbo velado,
Silencioso intérprete sagrado
Das cousas invisíveis, muda e fria,

É, na sua mudez, mais retumbante
Que o clamoroso mar; mais rutilante,
Na sua noite, do que a luz do dia.




QUENTAL, Antero de. "O que diz a Morte". In:_____. Sonetos. Org. por Antonio Sergio. Lisboa: Sá da Costa, 1963.

1.6.19

Nelson Ascher: "Saudade"




Saudade

Posto que nem é de bom-tom falar
sobre a tristeza insossa
cujo vaivém, quando se apossa
de mim, me embala como o som

sem fim das ondas do Leblon,
dispondo-me a curtir a fossa
a sós, pus na vitrola a bossa
nova de João, Vinícius, Tom,

menos pra ouvir o que ela tem,
porque talvez já nem me agrade
a ausência tanto faz de quem,

do que pra que, pouco à vontade,
meu coração se encha, se bem
que sob protesto, de saudade.




ASCHER, Nelson. "Saudade". In:_____. Parte alguma. Poesia (1997-2004). São Paulo: Companhia das Letras, 2005.

29.5.19

Bocage: "Soneto XLVIII"




Soneto XLVIII

Já por bárbaros climas entranhado,
Já por mares inóspitos vagante,
Vítima triste da fortuna errante,
Té dos mais desprezíveis desprezado:

Da fagueira esperança abandonado,
Lassas as forças, pálido o semblante,
Sinto rasgar meu peito a cada instante
A mágoa de morrer expatriado.

Mas, ah! Quem bem maior, se contra a sorte
Lá do sepulcro no sagrado hospício
Refúgio me promete a amiga Morte!

Vem, pois, ó nume aos míseros propício,
Vem livrar-me da mão pesada e forte,
Que de rastos me leva ao precipício!




BOCAGE, Manuel Maria Barbosa du. "Soneto XLVIII. In:_____. Sonetos de Bocage. São Paulo: Edições Saraiva, 1956, tomo II.

27.5.19

Conferência de Antonio Cicero: "Poesia e música a partir de Homero"



Eis a conferência “Poesia e música a partir de Homero”, que fiz na Academia Brasileira de Letras no dia 16 de maio. Ela fez parte do ciclo de conferências “Poesia cantada: melodia e verso”, sob a coordenação do Acadêmico e jornalista Zuenir Ventura. A Acadêmica e escritora Ana Maria Machado é a coordenadora geral dos ciclos de conferências de 2019.


25.5.19

Ricardo Silvestrin: "Ofício"




Ofício

Não tem atalho
na travessia do artista.

Seu nome é trabalho,
embora o ócio
faça parte do ofício.

Embora ria enquanto
pega no pesado.

Outros sonhem 
com aposentadoria.

O trabalho do artista
vai até o último dia.




SILVESTRIN, Ricardo. "Ofício". In:_____. Sobre o que. São Paulo: Patuá, 2019.

23.5.19

"Poesia e Prosa": programa de Maria Bethania em homenagem a Waly Salomão




Assistam à bela homenagem que Maria Bethania fez ao poeta Waly Salomão, em seu programa "Poesia e Prosa", no canal Arte 1. Do programa participaram José Miguel Wisnik, Jards Macalé e Antonio Cicero.


20.5.19

Luís de Camões: "Oh, como se me alonga, de ano em ano"




Oh, como se me alonga, de ano em ano,
A peregrinação cansada minha!
Como se encurta, e como ao fim caminha
Este meu breve e vão discurso humano!

Vai-se gastando a idade e cresce o dano;
Perde-se-me um remédio, que inda tinha;
Se por experiência se adivinha,
Qualquer grande esperança é grande engano.

Corro após este bem que não se alcança;
No meio do caminho me falece,
Mil vezes caio, e perco a confiança.

Quando ele foge, eu tardo; e, na tardança,
Se os olhos ergo a ver se inda parece,
Da vista se me perde e da esperança.





CAMÕES, Luís de. "Oh, como se me alonga, de ano em ano". In:_____. Lírica. São Paulo: Cultrix, 1981.

18.5.19

Alain: "Le vrai poète..." \ "O verdadeiro poeta..."





Le vrai poète est celui qui trouve l’idée en forgeant le vers.





O verdadeiro poeta é aquele que encontra a ideia ao forjar o verso.






ALAIN. Préliminaires à l'esthétique. Paris: Gallimard, 1939.







16.5.19

Jorge Luis Borges: "El ciego" / "O cego"




O cego

I

Foi despojado do diverso mundo,
Dos rostos, que ainda são o que eram antes,
Das ruas próximas, hoje distantes,
E do côncavo azul, ontem profundo.

Dos livros lhe restou só o que deixa
A memória, essa fórmula do olvido
Que o formato retém, não o sentido,
E que apenas os títulos enfeixa.

O desnível espreita. Cada passo
Pode levar à queda. Sou o lento
Prisioneiro de um tempo sonolento

Que não registra aurora nem ocaso.
É noite. Não há outros. Com o verso
Lavro este meu insípido universo.





El ciego

II

Lo han despojado del diverso mundo,
De los rostros, que son lo que eran antes.
De las cercanas calles, hoy distantes,
Y del cóncavo azul, ayer profundo.

De los libros le queda lo que deja
La memoria, esa forma del olvido
Que retiene el formato, no el sentido,
Y que los meros títulos refleja.

El desnivel acecha. Cada paso
Puede ser la caída. Soy el lento
Prisionero de un tiempo soñoliento

Que no marca su aurora ni su ocaso.
Es de noche. No hay otros. Con el verso
Debo labrar mi insípido universo.




BORGES, Jorge Luis. "El ciego" / "O cego". In: CAMPOS, Augusto de. (Org. e trad.). Quase Borges. 20 poemas e uma entrevisa. São Paulo: Terracota, 2013. 

13.5.19

Manuel António Pina: "Esplanada"




Esplanada

Naquele tempo falavas muito de perfeição,
da prosa dos versos irregulares
onde cantam os sentimentos irregulares.
Envelhecemos todos, tu, eu e a discussão,

agora lês saramagos & coisas assim
e eu já não fico a ouvir-te como antigamente
olhando as tuas pernas que subiam lentamente
até um sítio escuro dentro de mim.

O café agora é um banco, tu professora do liceu;
Bob Dylan encheu-se de dinheiro, o Che morreu.
Agora as tuas pernas são coisas úteis, andantes,
e não caminhos por andar como dantes.






PINA, Manuel António. "Esplanada". In:_____. Um sítio onde pousar a cabeça. Santa Maria da Feira: Edição do autor, 1991.

11.5.19

Inscrição na estátua de Isis, em Sais, no Egito




Sobre o texto abaixo, em que Plutarco reproduz, em tradução grega, a inscrição que se encontra em Sais, no Egito, no templo a Ísis, Kant declarou que 

"Talvez jamais tenha sido dito ou pensado algo mais sublime do que o que se lê naquela inscrição sobre o Templo de Isis (a mãe natureza)" (KANT, Immanuel. Kritik der Uteilskraft. Frankfurt: Suhrkamp, 1957, p.243).










9.5.19

Sophia de Mello Breyner Andresen: "Às vezes julgo ver nos meus olhos"




Às vezes julgo ver nos meus olhos

Às vezes julgo ver nos meus olhos
A promessa de outros seres
Que eu poderia ter sido,
Se a vida tivesse sido outra.

Mas dessa fabulosa descoberta
Só me vem o terror e a mágoa
De me sentir sem forma, vaga e incerta
Como a água.




ANDRESEN, Sophia de Mello Breyner. "Às vezes julgo ver nos meus olhos". In: Obra poética. Org. por Carlos Mendes de Souza. Alfragide: Editorial Caminho, 2011.

7.5.19

Francisco Alvim: "A minha pessoa"




A minha pessoa




Só tem


Serve?










ALVIM, Francisco. "A minha pessoa". In:_____. O medo nenhum. São Paulo: Companhia das Letras, 2011.

4.5.19

Philip Larkin: "The trees" / "As árvores": trad. de Rui Carvalho Homem




As árvores

As folhas rebentam nas árvores
Como algo que quase se diz;
Os novos botões espreguiçam-se,
O verde é uma forma de mágoa.

Será que renascem, e nós
A envelhecer? Não, também morrem.
O truque que as faz parecer novas
Está escrito no grão dos anéis.

Porém os castelos inquietos
Adensam e crescem com o Maio.
Dizem: “passou, morreu o ano –
Recomecem, recomecem…”




The Trees

The Trees are coming into leaf
Like something almost being said;
The recent buds relax and spread,
Their greenness is a kind of grief.

Is it that they are born again
And we grow old? No, they die too.
Their yearly trick of looking new
Is written down in the rings of grain.

Yet still the unresting castles thresh
In fullgrown thickness every May.
Last year is dead, they seem to say,
Begin afresh, afresh, afresh.




LARKIN, Philip. "The trees" / "As árvores". In:_____. Janelas altas. Título original: High windows. Trad. por Rui Carvalho Homem.  Lisboa: Cotovia, 2004. 

28.4.19

Antonio Cicero: "3h47"




3h47

Bem que Horacio dizia
preferir dormir bem
a escrever poesia.





CICERO, Antonio. "3h47". In:_____. Porventura. Rio de Janeiro: Record, 2012. 

26.4.19

Christovam de Chevalier: "Tua boca"




Tua boca

                  a Gustavo Carvalho Miranda

Uma flor carnívora é a tua boca.
Sinfonia de Mahler. Ópio fascinante.
Mais que afago, que ela seja a toca
refúgio e degredo deste poeta delirante.

Poeta que, febril, clama por teus lábios
numa prece silenciosa e eloqüente.
Invoco deuses, Bilac, anjos e sábios...
No céu da tua boca ouço estrelas cadentes.





CHEVALIER, Christovam de. "Tua boca". In:_____. No escuro da noite em claro. Rio de Janeiro: 7 Letras, 2016.

24.4.19

Johann Wolfgang von Goethe: "Wandrers Nachtlied" / "Canção noturna do andarilho: trad. por Nelson Ascher




Canção noturna do andarilho

No alto das colinas
há paz;
não se ouve, ali nas
frondes, mais
que um sopro manso.
Nem há no bosque um trino. Aguarda:
tampouco tarda
o teu descanso.






Wandrers Nachtlied

Über allen Gipfeln
Ist Ruh,
In allen Wipfeln
Spürest Du
Kaum einen Hauch;
Die Vögelein schweigen im Walde.
Warte nur, balde
Ruhest du auch.







GOETHE, Johann Wolfgang von. "Wandrers Nachtlied" / "Canção noturna do andarilho". In: ASCHER, Nelson (tradução e organização). Poesia alheia. Rio de Janeiro: Imago, 1998.

22.4.19

Luiz Otávio Oliani: "Receituário"




Receituário

não manche o poema
com palavras vazias
velhas metáforas
adjetivos em vão

não faça versos
sobre o passado-clichê

não sufoque
o eu lírico
dê-lhe sobrevida
para respirar

deixe o lirismo
bater à porta:
permita que entre




OLIANI, Luiz Otávio. "Receituário". In:_____. Palimpsestos, outras vozes e águas. Guaratinguetá: Penaluz, 2018.

20.4.19

Heinrich Heine: "Es kommt der Tod" / "Chegou a morte": trad, por André Vallias



Chegou a morte

Chegou a morte – agora vou
Dizer o que o orgulho não
Me permitiu: meu coração
Tão só por ti pulsou, pulsou.

Já estou fechado no ataúde,
Descem-me à cova. A calmaria
Me abraça enfim, mas tu, Maria,
Por mim irás, muito amiúde,

Chorar, e pra quê, afinal?
Consola-te, este é o destino
Humano: o que há de bom e fino
E grande sempre acaba mal.




Es kommt der Tod

Es kommt der Tod -- jetzt will ich sagen,
Was zu verschweigen ewiglich
Mein Stolz gebot: für dich, für dich,
Es hat mein Herz für dich geschlagen!

Der Sarg ist fertig, sie versenken
Mich in die Gruft. Da hab ich Ruh.
Doch du, doch du, Maria, du
Wirst weinen oft und mein gedenken.

Du ringst sogar die schönen Hände --
O tröste dich -- Das ist das Loos,
Das Menschenloos: -- was gut und groß
Und schön, das nimmt ein schlechtes Ende.






HEINE, Heinrich. "Es kommt der Tod" / "Chegou a morte". In:_____. Heine, heim? Poeta dos contrários. Org. e trad. por André Vallias. São Paulo: Perspectiva: Goethe Institut, 2011.

18.4.19

Claudia Roquette-Pinto: "Fait-accompli"




Fait-accompli

antes que houvesse ou vice-
versa, os céus de nice
antes que florença me invadisse
a bici-
cleta abrisse o zíper
da tardinha (venice beach) an-
tes que a mão cúmplice no rinque
em viena descobrisse
a nova língua, perna-a-perna
antes vence, antes
cacos de matisse al
guém ergueu um verso liso sem
indício de andaime — e nem
por isso tinha pisado um hall de hotel





ROQUETTE-PINTO, Claudia. "Fait-accompli". In:_____. Saxífraga. Rio de Janeiro: Salamandra, 1993.

16.4.19

Mauro Santa Cecília: "Hades"




Hades

28 dias de uma
Vida desfeita
Certeza insólita
Somos todos água
Para os chineses
ancestrais
O intestino representa
a alma disse o doutor
Fiquei doente da alma
Minha alma ficou
doente de mim
Dos meus medos
Do meu rancor
Da minha mágoa.
Ainda bem que
me resta o amor
vestido de ilusão
E o esquecimento
de todas as regras.





SANTA CECÍLIA, Mauro. "Hades". In:_____. Decolagem. Rio de Janeiro: 7 Letras, 2019.

14.4.19

Mauro Santa Cecília lança o livro de poemas "Decolagem"


Imperdível! O poeta, letrista e compositor Mauro Santa Cecília lança seu novo livro de poemas -- Decolagem -- no Rio de Janeiro, pela editora 7 Letras, na Galeria Vitrine de Ipanema, na Av. Visconde de Pirajá, 580! O prefácio do livro é do poeta Adriano Nunes.




13.4.19

Antonio Cicero: "Prólogo"





Prólogo

Por onde começar? Pelo começo
absoluto, pelo rio Oceano,
já que ele é, segundo o poeta cego
em cujo canto a terra e o céu escampo
e o que é e será e não é mais
e longe e perto se abrem para mim,
pai das coisas divinas e mortais,
seu líquido princípio, fluxo e fim:
pois ele corre em torno deste mundo
e de todas as coisas que emergiram
das águas em que, após breves percursos,
mergulharão de novo um belo dia;
e flui nos próprios núcleos e nos lados
ocultos dessas coisas, nos quais faz
redemunhos por cujos centros cavos
tudo o que existe escoa sem cessar
de volta àquelas águas de onde surge:
não me refiro à água elementar
que delas mana e nelas se confunde
com os elementos terra, fogo e ar
mas a águas que nunca são as mesmas:
outras e outras, sem identidade
além do fluxo, nelas só lampeja
a própria mutação, sem mais mutante:
um nada de onde tudo vem a ser,
escuridão de onde provém a luz,
tal Oceano é a mudança pura.
Mas eis que a poesia nos conduz,
feito um repuxo e a seu bel-prazer,
de volta do princípio às criaturas.






CICERO, Antonio. "Prólogo". In:_____. A cidade e os livros. Rio de Janeiro: Record, 2002.

10.4.19

Frank Sinatra e Liza Minelli cantam "New York, New York"


Maravilhoso encontro de Frank Sinatra e Liza Minelli:



9.4.19

Nelson Ascher: "Elegiazinha"




Elegiazinha

[i. m. nikita (gata da Inês)]


Gatos não morrem de verdade:
eles apenas se reintegram
no ronronar da eternidade.

Gatos jamais morrem de fato:
suas almas saem de fininho
atrás de alguma alma de rato.

Gatos não morrem: sua fictícia
morte não passa de uma forma
mais refinada de preguiça.

Gatos não morrem: rumo a um nível
mais alto é que eles, galho a galho,
sobem numa árvore invisível.

Gatos não morrem: mais preciso
- se somem - é dizer que foram
rasgar sofás no paraíso

e dormirão lá, depois do ônus
de sete bem vividas vidas,
seus sete merecidos sonos.





ASCHER, Nelson. "Elegiazinha". In:_____. Parte alguma. São Paulo: Companhia das Letras, 2005.

6.4.19

Mauro Santa Cecília lança o livro de poemas "Decolagem"


ATENÇÃO: DEVIDO ÀS CHUVAS TORRENCIAIS, O LANÇAMENTO DO LIVRO DE MAURO SANTA CECÍLIA FOI ADIADO PARA AS 18H DA TERÇA-FEIRA DA PRÓXIMA SEMANA, DIA 16 DE ABRIL!


Imperdível! O poeta, letrista e compositor Mauro Santa Cecília lança seu novo livro de poemas -- Decolagem -- no Rio de Janeiro, pela editora 7 Letras, na Galeria Vitrine de Ipanema, na Av. Visconde de Pirajá, 580! O prefácio do livro é do poeta Adriano Nunes.




5.4.19

Michel Deguy: "Bord" / "Borda": trad. por Paula Glenadel e Marcos Siscar




Borda

Por que está de volta esta fórmula amada
“Às bordas do mundo ainda uma vez”
O que é esta borda, a “borda”, o ser-à-borda
A bordadura em Baudelaire e
O terraço dos príncipes de Rimbaud
Com vista para o mundo e o todo como
Tendo passado por aqui quem repassará por lá





Bord

Pourquoi revient cette formule aimée
“Au bord du mode encore une fois”
Qu’est ce bord, qu’est-ce “bord”, être-au-bord
La bordure chez Baudelaire et
La terrasse des princes de Rimbaud
Avec vue sur le monde et le tout comme
Ayant passé par ici qui repassera par là





DEGUY, Michel. "Bord" / "Borda". In:_____. A rosa das línguas. Trad. por Paula Glenadel e Marcos Siscar. São Paulo: Cosac & Naify; Rio de Janeiro: 7 Letras, 2004.

2.4.19

Antonio Cicero: "Valeu"




Valeu

Vida, valeu.
Não te repetirei jamais.






CICERO, Antonio. "Valeu". In:_____. Porventura. Rio de Janeiro: Record, 2012.

31.3.19

Jacques Prévert: "Le fusillé" / "O fuzilado": trad. por Carlos Drummond de Andrade




O fuzilado

As flores, os jardins, os repuxos, os risos,
e a doçura da vida.
Jaz um homem no chão e banha com seu sangue
as lembranças, as flores, repuxos e jardins
e sonhos infantis.
Jaz um homem no chão, qual embrulho sangrento,
e flores e jardins, repuxos e lembranças
e doçura da vida.
Jaz um homem no chão, criança adormecida.






Le fusillé

Les fleurs les jardins les jets d'eau les sourires
Et la douceur de vivre
Un homme est là par terre et baigne dans son sang
Les souvenirs les fleurs les jets d'eau les jardins
Les rêves enfantins
Un homme est là par terre comme un paquet sanglant
Les fleurs les jets d'eau les jardins les souvenirs
Et la douceur de vivre
Un homme est là par terre comme un enfant dormant.





PRÉVERT, Jacques. "Le fusillé"/"O fusilado". Trad. por Carlos Drummond de Andrade. In: ANDRADE,  Carlos Drummond de. Poesia traduzida. Org. e notas de Augusto Massi e Júlio Castañon Guimarães. São Paulo: Cosac Naify, 2011.

29.3.19

Antonio Cícero: “Os maiores intelectuais que já conheci têm a poesia na mais alta conta”




Seguindo a sugestão de meu grande amigo Adriano Nunes, publico a seguir uma entrevista que concedi à Revista Forum em 2017, logo depois de ter sido eleito para a ABL:



Revista Forum
https://www.revistaforum.com.br/antonio-cicero-os-maiores-intelectuais-que-ja-conheci-tem-poesia-na-mais-alta-conta/

13 DE AGOSTO DE 2017

Antonio Cícero: “Os maiores intelectuais que já conheci têm a poesia na mais alta conta”

Por Ivan Longo

“Modernamente, alguns dos maiores poetas contemporâneos são ‘letristas’. No Brasil, temos, por exemplo, Vinícius de Moraes, Caetano Veloso e Chico Buarque”, avalia Cícero, recém eleito para a cadeira 27 da Academia Brasileira de Letras. Confira sua entrevista à Fórum

Por Lucas Vasques

Filósofo, escritor, poeta, letrista, ensaísta e mais. Há muitos Antonio Cícero em um só. No último dia 10 de agosto, em reconhecimento à sua rica trajetória intelectual, ele foi eleito para a cadeira 27 da Academia Brasileira de Letras (ABL), sucedendo Eduardo Portella. Antes, os ocupantes da cadeira 27 foram Joaquim Nabuco (fundador da cadeira e que escolheu como patrono Maciel Monteiro), Dantas Barreto, Gregório da Fonseca, Levi Carneiro e Otávio de Faria.

“Antonio Cícero é um dos escritores mais representativos da literatura brasileira contemporânea”, definiu Domício Proença Filho, presidente da ABL. E sua trajetória foi longa. Autor dos livros de poemas Guardar, A cidade e os livros, Porventura e O livro de sombras, este em parceria com o artista plástico Luciano Figueiredo, também publicou ensaios filosóficos, além de ter uma intensa militância na cena cultural brasileira, organizando e participando ativamente de coletâneas e conferências.

Cícero escreve poesia desde jovem, mas sua escrita passou a ser mais conhecida popularmente depois que começou a compor as letras das canções de sua irmã Marina Lima, como Fullgás, Para Começar e À Francesa, as duas primeiras em parceria com Marina e a última com Cláudio Zolli. Também teve outros parceiros na música, com destaque para Waly Salomão, João Bosco, Orlando Moraes, Adriana Calcanhoto e Lulu Santos (coautor, junto com Cícero e Sérgio Souza, do grande sucesso O Último Romântico).

Fórum – A poesia, de alguma forma, é encarada com certo menosprezo, inclusive dentro do universo intelectual. Sua eleição à ABL pode representar uma mudança nesse paradigma?

Antonio Cícero – Há muitos “universos intelectuais”. Não acho que a poesia seja encarada com menosprezo nos melhores universos intelectuais. Ao contrário: os maiores intelectuais que já conheci – e conheci muitos, tanto no Brasil quanto no exterior – têm a poesia na mais alta conta. Que intelectual de peso pode desprezar as obras de Homero, Virgílio, Horácio, Dante, Shakespeare, Camões, Antero de Quental, Calderón de la Barca, Keats, Wordsworth, Goethe, Hölderlin, Baudelaire, Mallarmé, Fernando Pessoa, T.S. Eliot, Manuel Bandeira, Drummond, João Cabral, Ferreira Gullar, Augusto de Campos, Armando Freitas Filho ou tantos e tantos outros?

Fórum – Você, além de filósofo e poeta, também ficou conhecido por ser um letrista de destaque na MPB. Uma velha discussão que permeia o mundo acadêmico é se letra de canção é poesia. Há poesia em letra de canção? E quais as intersecções entre ambas?

Antonio Cícero – A poesia começou sendo cantada. Os poemas de Homero eram recitativos, isto é, eram meio recitados e meio cantados. Os poemas líricos gregos, como a própria palavra “lírico” indica, eram cantados, acompanhados pela lira. Assim, alguns dos maiores poemas da tradição ocidental eram o que chamamos de “letras de música”. Modernamente, alguns dos maiores poetas contemporâneos são “letristas”. No Brasil, temos, por exemplo, Vinícius de Moraes, Caetano Veloso e Chico Buarque.

Fórum – Dentro desse debate, o fato de Bob Dylan ter sido escolhido para ganhar o Prêmio Nobel de Literatura indica que a literatura pode ser encarada de uma forma mais ampla?

Antonio Cícero – Sim, claro.

Fórum – Em sua avaliação, o que há de filosofia na sua poesia?

Antonio Cícero – Na poesia podem entrar todas as faculdades humanas: razão, intelecto, emoção, sensação, sentimento, emoção, memória, cultura etc. Assim, o que pensamos filosoficamente pode, de um modo ou de outro, entrar num poema. Contudo, a filosofia não é, num poema, necessariamente mais importante do que um gosto, uma impressão, um amor, um ódio, um corpo, um rosto… Quando está presente, ela não passa de um elemento, muitas vezes inteiramente secundário. Não é, de maneira nenhuma, a filosofia que torna um poema bom ou ruim. Mesmo quem não é marxista pode, por exemplo, admirar imensamente um poema de Brecht em que estejam presentes ideias marxistas.

Fórum – Um poema, apesar de ser uma forma bem particular de linguagem, pode funcionar como crítica ou narrativa filosófica?

Antonio Cícero – Sim. O poema de Lucrécio De rerum natura pretende ser um tratado filosófico epicurista. Mas o que o torna bom enquanto tratado epicurista não é necessariamente o que torna alguns de seus trechos esplêndidos enquanto poesia. Por exemplo, os seguintes dois versos têm sido considerados como versos insuperáveis em qualquer literatura, mesmo por quem não é epicurista:

“nequiquam, quoniam medio de fonte leporum

surgit amari aliquit quod in ipsis floribus angat”,

 que podem ser traduzidos como

“tudo é em vão, pois da própria fonte da doçura

súbito surge algo que nos amargura”

Fórum – O presidente da ABL, Domício Proença Filho, afirmou que você é um dos escritores mais representativos da literatura brasileira contemporânea. Você encara isso como uma forma de reconhecimento por seus anos de trabalho?

Antonio Cícero – Sim. E fico muito grato ao presidente Domício Proença Filho por ter afirmado isso.

Foto: Eucanaã Ferraz/Divulgação




CICERO, Antonio. “Os maiores intelectuais que já conheci têm a poesia na mais alta conta”. In: Revista Forum: https://www.revistaforum.com.br/antonio-cicero-os-maiores-intelectuais-que-ja-conheci-tem-poesia-na-mais-alta-conta/


26.3.19

Moacyr Félix: "O erotismo"




O erotismo

Instruído pelo demônio, seu confidente
e seu irmão, inventor da liberdade além
da temporalidade oca, o poeta sabe outra vez
que a imaginação é erótica e que o erotismo é
uma explosão de infinitos se movendo
entre os silêncios da vida em nossa boca.





FÉLIX, Moacyr. "O erotismo". In:_____. Em nome da vida. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira; São Paulo: Massao Ohno, 1981.

23.3.19

Paul Éluard: "Nusch": trad. por Maria Gabriela Llansol




Nusch

Os sentimentos aparentes
A leveza de abordagem
A cabeleira das carícias

Sem cuidados sem cuidar o mal
Teus olhos são entregues ao que vêem
Reflectidos por aquilo que olham

Confiança de cristal
Entre dois espelhos
De noite teus olhos extraviam-se
Para reunir ao desejo o despertar.






Nusch


Les sentiments apparents
La légèreté d’approche
La chevelure des caresses

Sans soucis sans soupçons
Tes yeux sont livrés à ce qu’ils voient
Vus par ce qu’ils regardent.

Confiance de cristal
Entre deux miroirs
La nuit tes yeux se perdent
Pour joindre l’éveil au désir.






ÉLUARD, Paul. "Nusch". In:_____. Derniers poèmes d'amour/Últimos poemas de amor. Trad. por Maria Gabriela Llansol. Lisboa: Relógio D'Água Editores, 2002.

22.3.19

Qinho convida Antonio Cicero





Hoje, sexta-feira, 22de março, às 21:00, terei o prazer de dizer alguns poemas meus durante o show que o admirável cantor Quinho fará no Clube Manouche. Qinho, aliás, intitulou esse show “Qinho convida Antonio Cicero”: o que muito me honra.

O Clube Manouche fica no subsolo da Casa Camolese, que se localiza na rua Jardim Botânico, 983, no Jardim Botânico, no Rio de Janeiro.


19.3.19

Jorge Salomão: "duplo"



                                                   duplo


eu e minha sombra
na poça d’água
na lama
no carnaval
no circo
no disco a rolar
no alto mar
no deserto dos dias
no negro de nós
eu ela
a voar
juntos a brincar
conforme a luz
jogo de amar






SALOMÃO, Jorge. "duplo". In:_____. Mosaical. Rio de Janeiro: Gryphus, 1994.

16.3.19

Wallace Stevens: "The planet on the table" / "O planeta na mesa": Trad. por Paulo Henriques Britto




O planeta na mesa


Ariel gostou de ter escrito seus poemas.
Eram de um tempo relembrado
Ou de algo visto que o agradara.

Outros feitos do sol
Eram agrura e tumulto
E o arbusto maduro retorcido.

Seu ser e o sol eram um só
E seus poemas, embora feitos de seu ser,
Não eram menos feitos do sol.

Que perdurassem não era importante.
O importante era que portassem
Algum traço ou caráter,

Uma afluência, mesmo quase imperceptível,
Na pobreza de suas palavras,
Do planeta do qual faziam parte.






The planet on the table


Ariel was glad he had written his poems.
They were of a remembered time
Or of something seen that he liked.

Other makings of the sun
Were waste and welter
And the ripe shrub writhed.

His self and the sun were one
And his poems, although makings of his self,
Were no less makings of the sun.

It was not important that they survive.
What mattered was that they should bear
Some lineament or character,

Some affluence, if only half-perceived,
In the poverty of their words,
Of the planet of which they were part.






STEVENS, Wallace. "The planet on the table" / "O planeta na mesa". In:_____. O imperador do sorvete e outros poemas. Trad. por Paulo Henriques Britto. São Paulo: Companhia das Letras, 2017.

13.3.19

Marcial: "Epigramma XVI": trad. de Nelson Ascher




1/16


Algo de bom, muito de médio e mais de ruim
lerás, Avito, aqui: um livro é feito assim.




I/XVI

Sunto bona, sunt quaedam mediocria, sunt mala plura
quae legis hic: aliter non fit, Avite, liber.






MARCIAL. "Epigramma I.XVI". In: ASCHER, Nelson. Poesia alheia. 124 poemas traduzidos. Rio de Janeiro: Imago, 1998.

11.3.19

Cassiano Ricardo: "Poética"




Poética


1

Que é a Poesia?

                    uma ilha
                    cercada
              de palavras
                     por todos
                     os lados.



3

Que é o Poeta?

                     um homem
que trabalha o poema
com o suor do seu rosto.
                     Um homem
               que tem fome
como qualquer outro
                          homem.





RICARDO, Cassiano. "Poética". In: Jeremias sem-chorar. Rio de Janeiro: José Olympio, 1964.
             

10.3.19

Constatinos Caváfis: "O primeiro degrau"




O primeiro degrau

Foi a Teócrito queixar-se um dia
Eumene, poeta ainda jovem:
“Faz dois anos que escrevo e até agora
compus apenas um idílio.
Esse, o meu único trabalho pronto.
Pobre de mim! Pelo que vejo, é alta,
deveras alta, a escada da Poesia.
Estou no primeiro degrau: jamais,
infeliz que sou, chegarei ao topo.”
“Essas palavras”, respondeu Teócrito,
“são um despropósito, blasfêmias.
Se estás no primeiro degrau, cumpria
te sentires feliz e envaidecido.
Chegar onde chegaste não é pouco,
nem é pequena glória o que fizeste.
Do primeiro degrau da mesma escada
está bem distante o comum das pessoas.
Para pisar esse degrau de ingresso,
necessário é que sejas, por direito,
cidadão da cidade das ideias –
um título difícil: raramente
fazem-se ali naturalizações.
De quantos na sua ágora legislam,
aventureiro algum pode zombar.
Chegar onde chegaste não é pouco,
nem é pequena glória o que fizeste.”





KAVÁFIS, K. "O primeiro degrau". In: PAES, José Paulo (org. e trad.). Poesia moderna da Grécia. Rio de Janeiro: Guanabara, 1986.



8.3.19

Anna Akhmatova: "Творчество" / "A criação": trad. por Joaquim Manuel Magalhães e Vadim Dmitriev




A criação

Acontece deste modo: uma certa languidez;
No ouvido não se calam as pancadas dos relógios;
Ao longe diminui o estrondo do trovão.
E vislumbram-se queixas e gemidos
De aprisionadas vozes que não se reconhecem.
Um certo círculo secreto estreita-se,
Mas nesse abismo de badaladas e murmúrios
Levanta-se um som que tudo venceu.
É tal o silêncio irreparável em seu redor
Que se escuta como no bosque cresce a erva,
Como anda pela terra o mal com um alforge…
Mas as palavras começaram já a ouvir-se
E das rimas leves os tinidos de sinalização,  –
É quando eu começo a compreender,
E de modo simples as linhas ditadas
Deitam-se no caderno branco de neve.





Творчество (1936)

Бывает так: какая-то истома;
В ушах не умолкает бой часов;
Вдали раскат стихающего грома.
Неузнанных и пленных голосов
Мне чудятся и жалобы и стоны,
Сужается какой-то тайный круг,
Но в этой бездне шепотов и звонов
Встает один, все победивший звук.
Так вкруг него непоправимо тихо,
Что слышно, как в лесу растет трава,
Как по земле идет с котомкой лихо...
Но вот уже послышались слова
И легких рифм сигнальные звоночки, -
Тогда я начинаю понимать,
И просто продиктованные строчки
Ложатся в белоснежную тетрадь.





AKHMATOVA, Anna. "Творчество"/"A criação". In:_____. Poemas. Trad. por Joaquim Manuel Magalhães e Vadim Dmitriev. Lisboa: Relógio D'Água Editores, 2003.

6.3.19

Antonio Cicero: "Simbiose"





Simbiose

Sou seu poeta só
Só em você descubro a poesia
que era minha já
mas eu não via.

Só eu sou seu poeta
Só eu revelo a poesia sua
e à noite indiscreta
você de lua.




CICERO, Antonio. “Simbiose”. In:_____. Guardar. Rio de Janeiro: Record, 1996.