17.7.19

Augusto Frederico Schmidt: "Paz dos túmulos"




Paz dos túmulos

Ó paz dos túmulos
Ó frio das tardes invernais nos cemitérios
Ó mármores gelados, rosas frias, Cristos de gêlo, como vos espero!
Quando serei silêncio e frio apenas?
Quando serei apenas o íntimo da terra?
Quando, enfim, dormirei na paz – na álgida paz?
Ó vento que matais as rosas, vento frio!
Quando me levareis mudando em poeira?
Quando me levareis pelas ruas
Quando me levareis em mim mesmo mudando
Para o grande mar, o grande mar, o grande mar...





SCHMIDT, Augusto Frederico. "Paz dos túmulos". In: BANDEIRA, Manuel (org.). Apresentação da poesia brasileira: seguida de uma antologia. São Paulo: Cosac Naify, 2009.

15.7.19

Guillermo Boido: "Déjà vu": trad. de Santiago Kovadloff




Déjà vu

eu vi essa província onde
a sombra de meu corpo fala
do meu corpo como de uma sombra






Déjà vu

he visto esa provincia donde
la sombra de mi cuerpo habla
de mi cuerpo como de una sombra






BOIDO, Guillermo. "Déjà vu". In: KOVADLOFF, Santiago. A palavra nômade: Poesia argentina dos anos 70. São Paulo: Iluminuras, 1990. 

13.7.19

Gastão Cruz: "Corda"




Corda

Ninguém tem nome: apenas uma escura
corda de sons que prende o corpo e deixa
queimaduras na pele, esse é o preço
de ser nomeado porque o chamamento

de cada vez se torna mais ardente
até ser casa ou roupa ou outra pele
que fere o corpo e finalmente o veste
do nome que é o dele





CRUZ, Gastão. "Corda". In:_____. Óxido. Porto: Assírio & Alvim, 2015.

11.7.19

Ingeborg Bachmann: "Alle Tage" / "Todos os dias": trad. por Rosvitha Friesen Blume e Markus J. Weininger



Todos os dias

A guerra já não é mais declarada,
Apenas prossegue. O insólito
tornou-se cotidiano. O herói
abstém-se das batalhas. O fraco
é movido para as linhas de fogo.
O uniforme do dia é a paciência,
a medalha, o mísero astro
da esperança sobre o coração.

Esse é conferido
quando nada mais acontece,
quando a metralha se cala,
quando o inimigo ficou invisível
e a sombra do eterno armamento
recobre o céu.

É conferido
pela deserção das bandeiras,
pela bravura frente ao amigo,
pela denúncia de segredos indignos
e pelo ato de ignorar
qualquer ordem.





Alle Tage

Der Krieg wird nicht mehr erklärt,
sondern fortgesetzt. Das Unerhörte 
ist alltäglich geworden. Der Held
bleibt den Kämpfen fern. Der Schwache 
ist in die Feuerzonen gerückt.
Die Uniform des Tages ist die Geduld,
die Auszeichnung der armselige Stern
der Hoffnung über dem Herzen.

Er wird verliehen,
wenn nichts mehr geschieht, 
wenn das Trommelfeuer verstummt,
wenn der Feind unsichtbar geworden ist
und der Schatten ewiger Rüstung
den Himmel bedeckt.

Er wird verliehen
für die Flucht von den Fahnen,
für die Tapferkeit vor dem Freund,
für den Verrat unwürdiger Geheimnisse
und die Nichtachtung
jeglichen Befehls.





BACHMANN, Ingeborg. "Alle Tage" / "Todos os dias". In: BLUME, Rosvitha Friesen; WEININGER, Markus J. Seis décadas de poesia alemã. Do pós-guerra ao início do século XXI. Florianópolis: Ed. da UFSC, 2012.

9.7.19

António Botto: "Não. Beijemo-nos apenas"




I


Não. Beijemo-nos, apenas,
Nesta agonia da tarde.

Guarda – 
Para outro momento
Teu viril corpo trigueiro.

O meu desejo não arde
E a convivência contigo
Modificou-me – sou outro. . .

A névoa da noite cai.

Já mal distingo a cor fulva
Dos teus cabelos. – És lindo!

A morte
Devia ser
Uma vaga fantasia!

Dá-me o teu braço: – não ponhas
Esse desmaio na voz.
Sim, beijemo-nos, apenas!,
- Que mais precisamos nós?




BOTTO, António. "Não. Beijemo-nos apenas". In:_____. "Adolescente". In:_____. Canções e outros poemas. Org. de Eduardo Pitta. Vila Nova do Famalicão: Quasi, 2007.

7.7.19

Duda Machado: "Poema 1922"




Poema 1922


o maluco irrompeu
nu na igreja
tirou o santo do altar
se aninhou no nicho

e entrou em êxtase
foi um auê geral
mas uma das beatas
não notou nada





MACHADO, Duda. "Poema 1922". In:_____. Crescente. São Paulo: Duas Cidades, 1990.

5.7.19

Daniel Faria: "As manhãs"




As manhãs


Das manhãs

Apenas levarei a tua voz

Despovoada

Sem promessas
sem barcos
E sem casas

Não levarei o orvalho das ameias
Não levarei o pulso das ramadas

Da tua voz

Levarei os sítios das mimosas
Apenas os sítios das mimosas

As pedras
As nuvens
O teu canto

Levarei manhãs      E madrugadas





FARIA, Daniel. "As manhãs" In:_____. "Oxálida". In:_____. Poesia. Vila Nova de Famalicão: Quasi, 2003.

2.7.19

Antonio Cicero: "Buquê"





Buquê

                                        para Sérgio Luz

Ó Sérgio, Sérgio, somos ainda
crianças. Nossas almas são novas.
Não chegamos a adquirir antigas
ciências. Dizem que o que destroça
de tempos em tempos nossas crenças
são catástrofes, que nos impedem
de amadurecer. Mas quem se lembra
mesmo ou se importa se, ao que parece,
o que nasceu merece morrer?
Desprezar a morte, amar o doce,
o justo, o belo e o saber: esse é
o buquê. Ontem nasceu o mundo.
Amanhã talvez pereça. Hoje
viva o esquecimento e morra o luto.








CICERO, Antonio: "Buquê". In:_____. A cidade e os livros. Rio de Janeiro: Record, 2002.

30.6.19

Carlos Drummond de Andrade: "Oficina irritada"




Oficina irritada

Eu quero compor um soneto duro
como poeta algum ousara escrever.
Eu quero pintar um soneto escuro,
seco, abafado, difícil de ler.

Quero que meu soneto, no futuro,
não desperte em ninguém nenhum prazer.
E que, no seu maligno ar imaturo,
ao mesmo tempo saiba ser, não ser.

Esse meu verbo antipático e impuro
há de pungir, há de fazer sofrer,
tendão de vênus sob o pedicuro.

Ninguém o lembrará: tiro no muro,
cão mijando no caos, enquanto Arcturo,
claro enigma, se deixa surpreender.





ANDRADE, Carlos Drummond de. "Oficina irritada". In:_____. "Claro enigma". In:_____. Poesia e prosa. Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 1988.

28.6.19

Antero de Quental: "Em viagem"




Em viagem

Pelo caminho estreito, aonde a custo
Se encontra uma só flor, ou ave, ou fonte,
Mas só bruta aridez de áspero monte
E os sóis e a febre do areal adusto,

Pelo caminho estreito entrei sem susto
E sem susto encarei, vendo-os defronte,
Fantasmas que surgiam do horizonte
A acometer meu coração robusto...

Quem sois vós, peregrinos singulares?
Dor, Tédio, Desenganos e Pesares...
Atraz deles a Morte espreita ainda...

Conheço-vos. Meus guias derradeiros
Sereis vós. Silenciosos companheiros,
Bem-vindos, pois, e tu, Morte, bem-vinda!





QUENTAL, Antero de. "Em viagem". In:_____. Sonetos. Org. por António Sérgio. Lisboa: Livraria Sá da Costa, 1963.

26.6.19

Tanussi Cardoso: "Origem 1"




Origem 1


eu não sou 
de onde nasci

eu não sou 
de onde vim

nenhuma língua me engana
nenhuma terra me enterra

eu sou
onde estou

eu sou
onde sou





CARDOSO, Tanussi. "Origem 1". In:_____. eu e outras conssequências. Guaratinguetá: Editora Penaluz, 2017.

23.6.19

José Gomes Ferreira: "Menino que vais na rua"




Menino que vais na rua

                   (Serenata cínica para o Bettencourt cantar:)


Menino que vais na rua,
não cantes nem chores: berra!
Cospe no céu e na Lua
e aprende a pisar a Terra.


Aprende a pisar o Mundo.
Deixa a Lua aos violinos
dos olhos dos vagabundos
e dos poetas caninos.


Aprende a pisar a vida.
Deixa a Lua às costureiras
–  pobre moeda caída
de quem não tem algibeiras.


Aprende a pisar no chão
o silêncio do luar
sem sentir no coração
outras pedras a gritar.


Pisa a Lua sem remorsos,
estatelada no solo...
Não hesites! Quebra os ossos
dessa criança de colo.


Pisa-a, frio, com coragem,
sem olhos de serenata:
que isso que vês na paisagem
não é ouro nem é prata.


Menino que vais na rua,
não chores, nem cantes: berra!
ou, então, salta pra Lua
e mija de lá na Terra.




FERREIRA, José Gomes. "Menino que vais na rua". In:_____. Poesias II. Lisboa: Portugália Editora, 1972.


21.6.19

William Soares dos Santos: "O novo modus operandi do mundo é o algoritmo"




O novo modus operandi do mundo é o algoritmo

O novo modus operandi do mundo
é o algoritmo.
Não mais aquele sentimento de
ser uma espécie que a biologia
constituiu em tempos primais,
nem a consciência que se instaurou
com o orgulho da modernidade,
mas as estatísticas que,
de agora em diante,
parecem conduzir
a nossa história
sem lances de dados.





SANTOS, William Soares dos. "O novo modus operandi do mundo é o algoritmo". In:_____. Três Sóis. São Paulo: Patuá, 2019.

19.6.19

Robert Frost: "Nothing gold can stay" / "Nada de ouro permanece": trad. de Ivan Justen Santana




Nothing Gold Can Stay

Nature's first green is gold,
Her hardest hue to hold.
Her early leaf's a flower;
But only so an hour.
Then leaf subsides to leaf.
So Eden sank to grief,
So dawn goes down to day.
Nothing gold can stay.




FROST, Robert. "Nothing gold can stay". In:_____. The poetry of Robert Frost: The collected poems. Org. por Edward Connery Lathem. New York: Henry Holt and Company, 1975.




Nada de ouro permanece

O verde no início é de ouro,
Seu mais difícil tesouro.
Folha nova em flor aflora,
Mas apenas por uma hora.
Depois folhas se sucedem.
Na mágoa naufraga esse Éden,
No dia essa aurora perde-se.
Nada de ouro permanece.





FROST, Robert. "Nada de ouro permanece". Trad. de Ivan Justen Santana. In URL ossurtado.blogspot.com/2011/06/nothing-nada-gold-permanece-can-verde.html. 

17.6.19

A Estante do Poeta



Amanhã, dia 18, estarei no Espaço Afluentes, na Av. Rio Branco, 181, sala 1905 (em frente à estação de metrô “Carioca”), participando do projeto “A Estante do Poeta”, no qual fui convidado a conversar com Paulo Sabino sobre como a poesia entrou na minha vida, como foi que me descobri poeta e que poetas e/ou poemas mais me influenciaram. 

Antonio Cicero



15.6.19

Eugénio de Andrade: "Mar de setembro"




Mar de setembro

Tudo era claro:
céu, lábios, areias.
O mar estava perto,
fremente de espumas.
Corpos ou ondas:
iam, vinham, iam,
dóceis, leves -- só
ritmo e brancura.
Felizes, cantam;
serenos, dormem;
despertos, amam,
exaltam o silêncio.
Tudo era claro,
jovem, alado.
O mar estava perto.
Puríssimo. Doirado.




ANDRADE, Eugénio de. "Mar de setembro". In:_____. Poemas de Eugénio de Andade. Org. Por Arnaldo Saraiva. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1999.

13.6.19

Manoel de Barros: "Sem título"




Sem título

de Livro sobre nada (1996)


Sei que fazer o inconexo aclara as loucuras.
Sou formado em desencontros.
A sensatez me absurda.
Os delírios verbais me terapeutam.
Posso dar alegria ao esgoto (palavra aceita tudo).
(E sei de Baudelaire que passou muitos meses tenso
porque não encontrava um título para os seus poemas.
Um título que harmonizasse os seus conflitos. Até que
apareceu Flores do mal. A beleza e a dor. Essa antítese
o acalmou.)

As antíteses congraçam.





BARROS, Manoel de. "Sem título". In:_____. Ocupação Manuel de Barros. Org. por Carlos Costa. São Paulo: Itaú Cultural, 2019.

11.6.19

Emily Dickinson: "Fame is a bee" / "A Fama é uma abelha"




79

A Fama é uma abelha.
   Tem um estribilho –
Um ferrão em brasa –
   Ah! também tem asa.





79

Fame is a bee.
   It has a song –
It has a sting –
   Ah, too, it has a wing.







DICKINSON,  Emily. "Fame is a bee" \ "A Fama é uma abelha". In:_____. Não sou ninguém. Trad. de Augusto de Campos. Campinas: Editora da Unicamp, 2008.

9.6.19

Fernando Pessoa / Ricardo Reis: "Sim, sei bem"




Sim, sei bem



Sim, sei bem

Que nunca serei alguém.

    Sei de sobra

Que nunca terei uma obra.

    Sei, enfim,

Que nunca saberei de mim.

    Sim, mas agora,

Enquanto dura esta hora,

    Este luar, estes ramos,

Esta paz em que estamos,

    Deixem-me me crer

O que nunca poderei ser.





PESSOA, Fernando. "Sim, sei bem". In:_____. "Odes de Ricardo Reis". In:_____. "Ficções do interlúdio". In:_____. Obra poética. Org. por Maria Aliete Galhoz. Rio de Janeiro: Editora Nova Aguilar, 1986.

7.6.19

Francisco Alvim: "Com ansiedade"




Com ansiedade

Os dias passam ao lado
o sol passa ao lado
de quem desceu as escadas

Nas varandas tremula
o azul de um céu redondo, distante

Quem tem janelas
que fique a espiar o mundo




ALVIM, Francisco. "Com ansiedade". In:_____. Poemas. 1968-2000. São Paulo: Cosac & Naify, 2004.

5.6.19

Antero de Quental: "O que diz a Morte"




O que diz a Morte

Deixai-os vir a mim, os que lidaram;
Deixai-os vir a mim, os que padecem;
E os que cheios de mágoa e tédio encaram
As próprias obras vãs, de que escarnecem...

Em mim, os Sofrimentos que não saram,
Paixão, Dúvida e Mal, se desvanecem.
As torrentes da Dor, que nunca param,
Como num mar, em mim desaparecem. -

Assim a Morte diz. Verbo velado,
Silencioso intérprete sagrado
Das cousas invisíveis, muda e fria,

É, na sua mudez, mais retumbante
Que o clamoroso mar; mais rutilante,
Na sua noite, do que a luz do dia.




QUENTAL, Antero de. "O que diz a Morte". In:_____. Sonetos. Org. por Antonio Sergio. Lisboa: Sá da Costa, 1963.

1.6.19

Nelson Ascher: "Saudade"




Saudade

Posto que nem é de bom-tom falar
sobre a tristeza insossa
cujo vaivém, quando se apossa
de mim, me embala como o som

sem fim das ondas do Leblon,
dispondo-me a curtir a fossa
a sós, pus na vitrola a bossa
nova de João, Vinícius, Tom,

menos pra ouvir o que ela tem,
porque talvez já nem me agrade
a ausência tanto faz de quem,

do que pra que, pouco à vontade,
meu coração se encha, se bem
que sob protesto, de saudade.




ASCHER, Nelson. "Saudade". In:_____. Parte alguma. Poesia (1997-2004). São Paulo: Companhia das Letras, 2005.

29.5.19

Bocage: "Soneto XLVIII"




Soneto XLVIII

Já por bárbaros climas entranhado,
Já por mares inóspitos vagante,
Vítima triste da fortuna errante,
Té dos mais desprezíveis desprezado:

Da fagueira esperança abandonado,
Lassas as forças, pálido o semblante,
Sinto rasgar meu peito a cada instante
A mágoa de morrer expatriado.

Mas, ah! Quem bem maior, se contra a sorte
Lá do sepulcro no sagrado hospício
Refúgio me promete a amiga Morte!

Vem, pois, ó nume aos míseros propício,
Vem livrar-me da mão pesada e forte,
Que de rastos me leva ao precipício!




BOCAGE, Manuel Maria Barbosa du. "Soneto XLVIII. In:_____. Sonetos de Bocage. São Paulo: Edições Saraiva, 1956, tomo II.

27.5.19

Conferência de Antonio Cicero: "Poesia e música a partir de Homero"



Eis a conferência “Poesia e música a partir de Homero”, que fiz na Academia Brasileira de Letras no dia 16 de maio. Ela fez parte do ciclo de conferências “Poesia cantada: melodia e verso”, sob a coordenação do Acadêmico e jornalista Zuenir Ventura. A Acadêmica e escritora Ana Maria Machado é a coordenadora geral dos ciclos de conferências de 2019.


25.5.19

Ricardo Silvestrin: "Ofício"




Ofício

Não tem atalho
na travessia do artista.

Seu nome é trabalho,
embora o ócio
faça parte do ofício.

Embora ria enquanto
pega no pesado.

Outros sonhem 
com aposentadoria.

O trabalho do artista
vai até o último dia.




SILVESTRIN, Ricardo. "Ofício". In:_____. Sobre o que. São Paulo: Patuá, 2019.

23.5.19

"Poesia e Prosa": programa de Maria Bethania em homenagem a Waly Salomão




Assistam à bela homenagem que Maria Bethania fez ao poeta Waly Salomão, em seu programa "Poesia e Prosa", no canal Arte 1. Do programa participaram José Miguel Wisnik, Jards Macalé e Antonio Cicero.


20.5.19

Luís de Camões: "Oh, como se me alonga, de ano em ano"




Oh, como se me alonga, de ano em ano,
A peregrinação cansada minha!
Como se encurta, e como ao fim caminha
Este meu breve e vão discurso humano!

Vai-se gastando a idade e cresce o dano;
Perde-se-me um remédio, que inda tinha;
Se por experiência se adivinha,
Qualquer grande esperança é grande engano.

Corro após este bem que não se alcança;
No meio do caminho me falece,
Mil vezes caio, e perco a confiança.

Quando ele foge, eu tardo; e, na tardança,
Se os olhos ergo a ver se inda parece,
Da vista se me perde e da esperança.





CAMÕES, Luís de. "Oh, como se me alonga, de ano em ano". In:_____. Lírica. São Paulo: Cultrix, 1981.

18.5.19

Alain: "Le vrai poète..." \ "O verdadeiro poeta..."





Le vrai poète est celui qui trouve l’idée en forgeant le vers.





O verdadeiro poeta é aquele que encontra a ideia ao forjar o verso.






ALAIN. Préliminaires à l'esthétique. Paris: Gallimard, 1939.







16.5.19

Jorge Luis Borges: "El ciego" / "O cego"




O cego

I

Foi despojado do diverso mundo,
Dos rostos, que ainda são o que eram antes,
Das ruas próximas, hoje distantes,
E do côncavo azul, ontem profundo.

Dos livros lhe restou só o que deixa
A memória, essa fórmula do olvido
Que o formato retém, não o sentido,
E que apenas os títulos enfeixa.

O desnível espreita. Cada passo
Pode levar à queda. Sou o lento
Prisioneiro de um tempo sonolento

Que não registra aurora nem ocaso.
É noite. Não há outros. Com o verso
Lavro este meu insípido universo.





El ciego

II

Lo han despojado del diverso mundo,
De los rostros, que son lo que eran antes.
De las cercanas calles, hoy distantes,
Y del cóncavo azul, ayer profundo.

De los libros le queda lo que deja
La memoria, esa forma del olvido
Que retiene el formato, no el sentido,
Y que los meros títulos refleja.

El desnivel acecha. Cada paso
Puede ser la caída. Soy el lento
Prisionero de un tiempo soñoliento

Que no marca su aurora ni su ocaso.
Es de noche. No hay otros. Con el verso
Debo labrar mi insípido universo.




BORGES, Jorge Luis. "El ciego" / "O cego". In: CAMPOS, Augusto de. (Org. e trad.). Quase Borges. 20 poemas e uma entrevisa. São Paulo: Terracota, 2013. 

13.5.19

Manuel António Pina: "Esplanada"




Esplanada

Naquele tempo falavas muito de perfeição,
da prosa dos versos irregulares
onde cantam os sentimentos irregulares.
Envelhecemos todos, tu, eu e a discussão,

agora lês saramagos & coisas assim
e eu já não fico a ouvir-te como antigamente
olhando as tuas pernas que subiam lentamente
até um sítio escuro dentro de mim.

O café agora é um banco, tu professora do liceu;
Bob Dylan encheu-se de dinheiro, o Che morreu.
Agora as tuas pernas são coisas úteis, andantes,
e não caminhos por andar como dantes.






PINA, Manuel António. "Esplanada". In:_____. Um sítio onde pousar a cabeça. Santa Maria da Feira: Edição do autor, 1991.

11.5.19

Inscrição na estátua de Isis, em Sais, no Egito




Sobre o texto abaixo, em que Plutarco reproduz, em tradução grega, a inscrição que se encontra em Sais, no Egito, no templo a Ísis, Kant declarou que 

"Talvez jamais tenha sido dito ou pensado algo mais sublime do que o que se lê naquela inscrição sobre o Templo de Isis (a mãe natureza)" (KANT, Immanuel. Kritik der Uteilskraft. Frankfurt: Suhrkamp, 1957, p.243).










9.5.19

Sophia de Mello Breyner Andresen: "Às vezes julgo ver nos meus olhos"




Às vezes julgo ver nos meus olhos

Às vezes julgo ver nos meus olhos
A promessa de outros seres
Que eu poderia ter sido,
Se a vida tivesse sido outra.

Mas dessa fabulosa descoberta
Só me vem o terror e a mágoa
De me sentir sem forma, vaga e incerta
Como a água.




ANDRESEN, Sophia de Mello Breyner. "Às vezes julgo ver nos meus olhos". In: Obra poética. Org. por Carlos Mendes de Souza. Alfragide: Editorial Caminho, 2011.

7.5.19

Francisco Alvim: "A minha pessoa"




A minha pessoa




Só tem


Serve?










ALVIM, Francisco. "A minha pessoa". In:_____. O medo nenhum. São Paulo: Companhia das Letras, 2011.

4.5.19

Philip Larkin: "The trees" / "As árvores": trad. de Rui Carvalho Homem




As árvores

As folhas rebentam nas árvores
Como algo que quase se diz;
Os novos botões espreguiçam-se,
O verde é uma forma de mágoa.

Será que renascem, e nós
A envelhecer? Não, também morrem.
O truque que as faz parecer novas
Está escrito no grão dos anéis.

Porém os castelos inquietos
Adensam e crescem com o Maio.
Dizem: “passou, morreu o ano –
Recomecem, recomecem…”




The Trees

The Trees are coming into leaf
Like something almost being said;
The recent buds relax and spread,
Their greenness is a kind of grief.

Is it that they are born again
And we grow old? No, they die too.
Their yearly trick of looking new
Is written down in the rings of grain.

Yet still the unresting castles thresh
In fullgrown thickness every May.
Last year is dead, they seem to say,
Begin afresh, afresh, afresh.




LARKIN, Philip. "The trees" / "As árvores". In:_____. Janelas altas. Título original: High windows. Trad. por Rui Carvalho Homem.  Lisboa: Cotovia, 2004. 

1.5.19

Carlos Pena Filho: "Primeiro poema no vazio"




Primeiro poema no vazio

Buscava tudo o que havia
de nunca mais encontrar
em sua face macia,
em seu leve caminhar,
nas rotas claras do dia,
nos verdes sulcos do mar,
e de tudo quanto havia
de nunca mais encontrar
restou a forma vazia
suspensa no seu olhar
e a tênue melancolia
de quem não se soube achar
nas rotas claras do dia,
nos verdes sulcos do mar





PENA FILHO, Carlos. "Primeiro poema no vazio". In:_____. Livro geral. Olinda: Prefeitura de Olinda, s.d.



28.4.19

Antonio Cicero: "3h47"




3h47

Bem que Horacio dizia
preferir dormir bem
a escrever poesia.





CICERO, Antonio. "3h47". In:_____. Porventura. Rio de Janeiro: Record, 2012. 

26.4.19

Christovam de Chevalier: "Tua boca"




Tua boca

                  a Gustavo Carvalho Miranda

Uma flor carnívora é a tua boca.
Sinfonia de Mahler. Ópio fascinante.
Mais que afago, que ela seja a toca
refúgio e degredo deste poeta delirante.

Poeta que, febril, clama por teus lábios
numa prece silenciosa e eloqüente.
Invoco deuses, Bilac, anjos e sábios...
No céu da tua boca ouço estrelas cadentes.





CHEVALIER, Christovam de. "Tua boca". In:_____. No escuro da noite em claro. Rio de Janeiro: 7 Letras, 2016.

24.4.19

Johann Wolfgang von Goethe: "Wandrers Nachtlied" / "Canção noturna do andarilho: trad. por Nelson Ascher




Canção noturna do andarilho

No alto das colinas
há paz;
não se ouve, ali nas
frondes, mais
que um sopro manso.
Nem há no bosque um trino. Aguarda:
tampouco tarda
o teu descanso.






Wandrers Nachtlied

Über allen Gipfeln
Ist Ruh,
In allen Wipfeln
Spürest Du
Kaum einen Hauch;
Die Vögelein schweigen im Walde.
Warte nur, balde
Ruhest du auch.







GOETHE, Johann Wolfgang von. "Wandrers Nachtlied" / "Canção noturna do andarilho". In: ASCHER, Nelson (tradução e organização). Poesia alheia. Rio de Janeiro: Imago, 1998.

22.4.19

Luiz Otávio Oliani: "Receituário"




Receituário

não manche o poema
com palavras vazias
velhas metáforas
adjetivos em vão

não faça versos
sobre o passado-clichê

não sufoque
o eu lírico
dê-lhe sobrevida
para respirar

deixe o lirismo
bater à porta:
permita que entre




OLIANI, Luiz Otávio. "Receituário". In:_____. Palimpsestos, outras vozes e águas. Guaratinguetá: Penaluz, 2018.

20.4.19

Heinrich Heine: "Es kommt der Tod" / "Chegou a morte": trad, por André Vallias



Chegou a morte

Chegou a morte – agora vou
Dizer o que o orgulho não
Me permitiu: meu coração
Tão só por ti pulsou, pulsou.

Já estou fechado no ataúde,
Descem-me à cova. A calmaria
Me abraça enfim, mas tu, Maria,
Por mim irás, muito amiúde,

Chorar, e pra quê, afinal?
Consola-te, este é o destino
Humano: o que há de bom e fino
E grande sempre acaba mal.




Es kommt der Tod

Es kommt der Tod -- jetzt will ich sagen,
Was zu verschweigen ewiglich
Mein Stolz gebot: für dich, für dich,
Es hat mein Herz für dich geschlagen!

Der Sarg ist fertig, sie versenken
Mich in die Gruft. Da hab ich Ruh.
Doch du, doch du, Maria, du
Wirst weinen oft und mein gedenken.

Du ringst sogar die schönen Hände --
O tröste dich -- Das ist das Loos,
Das Menschenloos: -- was gut und groß
Und schön, das nimmt ein schlechtes Ende.






HEINE, Heinrich. "Es kommt der Tod" / "Chegou a morte". In:_____. Heine, heim? Poeta dos contrários. Org. e trad. por André Vallias. São Paulo: Perspectiva: Goethe Institut, 2011.

18.4.19

Claudia Roquette-Pinto: "Fait-accompli"




Fait-accompli

antes que houvesse ou vice-
versa, os céus de nice
antes que florença me invadisse
a bici-
cleta abrisse o zíper
da tardinha (venice beach) an-
tes que a mão cúmplice no rinque
em viena descobrisse
a nova língua, perna-a-perna
antes vence, antes
cacos de matisse al
guém ergueu um verso liso sem
indício de andaime — e nem
por isso tinha pisado um hall de hotel





ROQUETTE-PINTO, Claudia. "Fait-accompli". In:_____. Saxífraga. Rio de Janeiro: Salamandra, 1993.

16.4.19

Mauro Santa Cecília: "Hades"




Hades

28 dias de uma
Vida desfeita
Certeza insólita
Somos todos água
Para os chineses
ancestrais
O intestino representa
a alma disse o doutor
Fiquei doente da alma
Minha alma ficou
doente de mim
Dos meus medos
Do meu rancor
Da minha mágoa.
Ainda bem que
me resta o amor
vestido de ilusão
E o esquecimento
de todas as regras.





SANTA CECÍLIA, Mauro. "Hades". In:_____. Decolagem. Rio de Janeiro: 7 Letras, 2019.

14.4.19

Mauro Santa Cecília lança o livro de poemas "Decolagem"


Imperdível! O poeta, letrista e compositor Mauro Santa Cecília lança seu novo livro de poemas -- Decolagem -- no Rio de Janeiro, pela editora 7 Letras, na Galeria Vitrine de Ipanema, na Av. Visconde de Pirajá, 580! O prefácio do livro é do poeta Adriano Nunes.




13.4.19

Antonio Cicero: "Prólogo"





Prólogo

Por onde começar? Pelo começo
absoluto, pelo rio Oceano,
já que ele é, segundo o poeta cego
em cujo canto a terra e o céu escampo
e o que é e será e não é mais
e longe e perto se abrem para mim,
pai das coisas divinas e mortais,
seu líquido princípio, fluxo e fim:
pois ele corre em torno deste mundo
e de todas as coisas que emergiram
das águas em que, após breves percursos,
mergulharão de novo um belo dia;
e flui nos próprios núcleos e nos lados
ocultos dessas coisas, nos quais faz
redemunhos por cujos centros cavos
tudo o que existe escoa sem cessar
de volta àquelas águas de onde surge:
não me refiro à água elementar
que delas mana e nelas se confunde
com os elementos terra, fogo e ar
mas a águas que nunca são as mesmas:
outras e outras, sem identidade
além do fluxo, nelas só lampeja
a própria mutação, sem mais mutante:
um nada de onde tudo vem a ser,
escuridão de onde provém a luz,
tal Oceano é a mudança pura.
Mas eis que a poesia nos conduz,
feito um repuxo e a seu bel-prazer,
de volta do princípio às criaturas.






CICERO, Antonio. "Prólogo". In:_____. A cidade e os livros. Rio de Janeiro: Record, 2002.

10.4.19

Frank Sinatra e Liza Minelli cantam "New York, New York"


Maravilhoso encontro de Frank Sinatra e Liza Minelli:



9.4.19

Nelson Ascher: "Elegiazinha"




Elegiazinha

[i. m. nikita (gata da Inês)]


Gatos não morrem de verdade:
eles apenas se reintegram
no ronronar da eternidade.

Gatos jamais morrem de fato:
suas almas saem de fininho
atrás de alguma alma de rato.

Gatos não morrem: sua fictícia
morte não passa de uma forma
mais refinada de preguiça.

Gatos não morrem: rumo a um nível
mais alto é que eles, galho a galho,
sobem numa árvore invisível.

Gatos não morrem: mais preciso
- se somem - é dizer que foram
rasgar sofás no paraíso

e dormirão lá, depois do ônus
de sete bem vividas vidas,
seus sete merecidos sonos.





ASCHER, Nelson. "Elegiazinha". In:_____. Parte alguma. São Paulo: Companhia das Letras, 2005.

6.4.19

Mauro Santa Cecília lança o livro de poemas "Decolagem"


ATENÇÃO: DEVIDO ÀS CHUVAS TORRENCIAIS, O LANÇAMENTO DO LIVRO DE MAURO SANTA CECÍLIA FOI ADIADO PARA AS 18H DA TERÇA-FEIRA DA PRÓXIMA SEMANA, DIA 16 DE ABRIL!


Imperdível! O poeta, letrista e compositor Mauro Santa Cecília lança seu novo livro de poemas -- Decolagem -- no Rio de Janeiro, pela editora 7 Letras, na Galeria Vitrine de Ipanema, na Av. Visconde de Pirajá, 580! O prefácio do livro é do poeta Adriano Nunes.




5.4.19

Michel Deguy: "Bord" / "Borda": trad. por Paula Glenadel e Marcos Siscar




Borda

Por que está de volta esta fórmula amada
“Às bordas do mundo ainda uma vez”
O que é esta borda, a “borda”, o ser-à-borda
A bordadura em Baudelaire e
O terraço dos príncipes de Rimbaud
Com vista para o mundo e o todo como
Tendo passado por aqui quem repassará por lá





Bord

Pourquoi revient cette formule aimée
“Au bord du mode encore une fois”
Qu’est ce bord, qu’est-ce “bord”, être-au-bord
La bordure chez Baudelaire et
La terrasse des princes de Rimbaud
Avec vue sur le monde et le tout comme
Ayant passé par ici qui repassera par là





DEGUY, Michel. "Bord" / "Borda". In:_____. A rosa das línguas. Trad. por Paula Glenadel e Marcos Siscar. São Paulo: Cosac & Naify; Rio de Janeiro: 7 Letras, 2004.

2.4.19

Antonio Cicero: "Valeu"




Valeu

Vida, valeu.
Não te repetirei jamais.






CICERO, Antonio. "Valeu". In:_____. Porventura. Rio de Janeiro: Record, 2012.

31.3.19

Jacques Prévert: "Le fusillé" / "O fuzilado": trad. por Carlos Drummond de Andrade




O fuzilado

As flores, os jardins, os repuxos, os risos,
e a doçura da vida.
Jaz um homem no chão e banha com seu sangue
as lembranças, as flores, repuxos e jardins
e sonhos infantis.
Jaz um homem no chão, qual embrulho sangrento,
e flores e jardins, repuxos e lembranças
e doçura da vida.
Jaz um homem no chão, criança adormecida.






Le fusillé

Les fleurs les jardins les jets d'eau les sourires
Et la douceur de vivre
Un homme est là par terre et baigne dans son sang
Les souvenirs les fleurs les jets d'eau les jardins
Les rêves enfantins
Un homme est là par terre comme un paquet sanglant
Les fleurs les jets d'eau les jardins les souvenirs
Et la douceur de vivre
Un homme est là par terre comme un enfant dormant.





PRÉVERT, Jacques. "Le fusillé"/"O fusilado". Trad. por Carlos Drummond de Andrade. In: ANDRADE,  Carlos Drummond de. Poesia traduzida. Org. e notas de Augusto Massi e Júlio Castañon Guimarães. São Paulo: Cosac Naify, 2011.

29.3.19

Antonio Cícero: “Os maiores intelectuais que já conheci têm a poesia na mais alta conta”




Seguindo a sugestão de meu grande amigo Adriano Nunes, publico a seguir uma entrevista que concedi à Revista Forum em 2017, logo depois de ter sido eleito para a ABL:



Revista Forum
https://www.revistaforum.com.br/antonio-cicero-os-maiores-intelectuais-que-ja-conheci-tem-poesia-na-mais-alta-conta/

13 DE AGOSTO DE 2017

Antonio Cícero: “Os maiores intelectuais que já conheci têm a poesia na mais alta conta”

Por Ivan Longo

“Modernamente, alguns dos maiores poetas contemporâneos são ‘letristas’. No Brasil, temos, por exemplo, Vinícius de Moraes, Caetano Veloso e Chico Buarque”, avalia Cícero, recém eleito para a cadeira 27 da Academia Brasileira de Letras. Confira sua entrevista à Fórum

Por Lucas Vasques

Filósofo, escritor, poeta, letrista, ensaísta e mais. Há muitos Antonio Cícero em um só. No último dia 10 de agosto, em reconhecimento à sua rica trajetória intelectual, ele foi eleito para a cadeira 27 da Academia Brasileira de Letras (ABL), sucedendo Eduardo Portella. Antes, os ocupantes da cadeira 27 foram Joaquim Nabuco (fundador da cadeira e que escolheu como patrono Maciel Monteiro), Dantas Barreto, Gregório da Fonseca, Levi Carneiro e Otávio de Faria.

“Antonio Cícero é um dos escritores mais representativos da literatura brasileira contemporânea”, definiu Domício Proença Filho, presidente da ABL. E sua trajetória foi longa. Autor dos livros de poemas Guardar, A cidade e os livros, Porventura e O livro de sombras, este em parceria com o artista plástico Luciano Figueiredo, também publicou ensaios filosóficos, além de ter uma intensa militância na cena cultural brasileira, organizando e participando ativamente de coletâneas e conferências.

Cícero escreve poesia desde jovem, mas sua escrita passou a ser mais conhecida popularmente depois que começou a compor as letras das canções de sua irmã Marina Lima, como Fullgás, Para Começar e À Francesa, as duas primeiras em parceria com Marina e a última com Cláudio Zolli. Também teve outros parceiros na música, com destaque para Waly Salomão, João Bosco, Orlando Moraes, Adriana Calcanhoto e Lulu Santos (coautor, junto com Cícero e Sérgio Souza, do grande sucesso O Último Romântico).

Fórum – A poesia, de alguma forma, é encarada com certo menosprezo, inclusive dentro do universo intelectual. Sua eleição à ABL pode representar uma mudança nesse paradigma?

Antonio Cícero – Há muitos “universos intelectuais”. Não acho que a poesia seja encarada com menosprezo nos melhores universos intelectuais. Ao contrário: os maiores intelectuais que já conheci – e conheci muitos, tanto no Brasil quanto no exterior – têm a poesia na mais alta conta. Que intelectual de peso pode desprezar as obras de Homero, Virgílio, Horácio, Dante, Shakespeare, Camões, Antero de Quental, Calderón de la Barca, Keats, Wordsworth, Goethe, Hölderlin, Baudelaire, Mallarmé, Fernando Pessoa, T.S. Eliot, Manuel Bandeira, Drummond, João Cabral, Ferreira Gullar, Augusto de Campos, Armando Freitas Filho ou tantos e tantos outros?

Fórum – Você, além de filósofo e poeta, também ficou conhecido por ser um letrista de destaque na MPB. Uma velha discussão que permeia o mundo acadêmico é se letra de canção é poesia. Há poesia em letra de canção? E quais as intersecções entre ambas?

Antonio Cícero – A poesia começou sendo cantada. Os poemas de Homero eram recitativos, isto é, eram meio recitados e meio cantados. Os poemas líricos gregos, como a própria palavra “lírico” indica, eram cantados, acompanhados pela lira. Assim, alguns dos maiores poemas da tradição ocidental eram o que chamamos de “letras de música”. Modernamente, alguns dos maiores poetas contemporâneos são “letristas”. No Brasil, temos, por exemplo, Vinícius de Moraes, Caetano Veloso e Chico Buarque.

Fórum – Dentro desse debate, o fato de Bob Dylan ter sido escolhido para ganhar o Prêmio Nobel de Literatura indica que a literatura pode ser encarada de uma forma mais ampla?

Antonio Cícero – Sim, claro.

Fórum – Em sua avaliação, o que há de filosofia na sua poesia?

Antonio Cícero – Na poesia podem entrar todas as faculdades humanas: razão, intelecto, emoção, sensação, sentimento, emoção, memória, cultura etc. Assim, o que pensamos filosoficamente pode, de um modo ou de outro, entrar num poema. Contudo, a filosofia não é, num poema, necessariamente mais importante do que um gosto, uma impressão, um amor, um ódio, um corpo, um rosto… Quando está presente, ela não passa de um elemento, muitas vezes inteiramente secundário. Não é, de maneira nenhuma, a filosofia que torna um poema bom ou ruim. Mesmo quem não é marxista pode, por exemplo, admirar imensamente um poema de Brecht em que estejam presentes ideias marxistas.

Fórum – Um poema, apesar de ser uma forma bem particular de linguagem, pode funcionar como crítica ou narrativa filosófica?

Antonio Cícero – Sim. O poema de Lucrécio De rerum natura pretende ser um tratado filosófico epicurista. Mas o que o torna bom enquanto tratado epicurista não é necessariamente o que torna alguns de seus trechos esplêndidos enquanto poesia. Por exemplo, os seguintes dois versos têm sido considerados como versos insuperáveis em qualquer literatura, mesmo por quem não é epicurista:

“nequiquam, quoniam medio de fonte leporum

surgit amari aliquit quod in ipsis floribus angat”,

 que podem ser traduzidos como

“tudo é em vão, pois da própria fonte da doçura

súbito surge algo que nos amargura”

Fórum – O presidente da ABL, Domício Proença Filho, afirmou que você é um dos escritores mais representativos da literatura brasileira contemporânea. Você encara isso como uma forma de reconhecimento por seus anos de trabalho?

Antonio Cícero – Sim. E fico muito grato ao presidente Domício Proença Filho por ter afirmado isso.

Foto: Eucanaã Ferraz/Divulgação




CICERO, Antonio. “Os maiores intelectuais que já conheci têm a poesia na mais alta conta”. In: Revista Forum: https://www.revistaforum.com.br/antonio-cicero-os-maiores-intelectuais-que-ja-conheci-tem-poesia-na-mais-alta-conta/


26.3.19

Moacyr Félix: "O erotismo"




O erotismo

Instruído pelo demônio, seu confidente
e seu irmão, inventor da liberdade além
da temporalidade oca, o poeta sabe outra vez
que a imaginação é erótica e que o erotismo é
uma explosão de infinitos se movendo
entre os silêncios da vida em nossa boca.





FÉLIX, Moacyr. "O erotismo". In:_____. Em nome da vida. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira; São Paulo: Massao Ohno, 1981.

23.3.19

Paul Éluard: "Nusch": trad. por Maria Gabriela Llansol




Nusch

Os sentimentos aparentes
A leveza de abordagem
A cabeleira das carícias

Sem cuidados sem cuidar o mal
Teus olhos são entregues ao que vêem
Reflectidos por aquilo que olham

Confiança de cristal
Entre dois espelhos
De noite teus olhos extraviam-se
Para reunir ao desejo o despertar.






Nusch


Les sentiments apparents
La légèreté d’approche
La chevelure des caresses

Sans soucis sans soupçons
Tes yeux sont livrés à ce qu’ils voient
Vus par ce qu’ils regardent.

Confiance de cristal
Entre deux miroirs
La nuit tes yeux se perdent
Pour joindre l’éveil au désir.






ÉLUARD, Paul. "Nusch". In:_____. Derniers poèmes d'amour/Últimos poemas de amor. Trad. por Maria Gabriela Llansol. Lisboa: Relógio D'Água Editores, 2002.

22.3.19

Qinho convida Antonio Cicero





Hoje, sexta-feira, 22de março, às 21:00, terei o prazer de dizer alguns poemas meus durante o show que o admirável cantor Quinho fará no Clube Manouche. Qinho, aliás, intitulou esse show “Qinho convida Antonio Cicero”: o que muito me honra.

O Clube Manouche fica no subsolo da Casa Camolese, que se localiza na rua Jardim Botânico, 983, no Jardim Botânico, no Rio de Janeiro.


19.3.19

Jorge Salomão: "duplo"



                                                   duplo


eu e minha sombra
na poça d’água
na lama
no carnaval
no circo
no disco a rolar
no alto mar
no deserto dos dias
no negro de nós
eu ela
a voar
juntos a brincar
conforme a luz
jogo de amar






SALOMÃO, Jorge. "duplo". In:_____. Mosaical. Rio de Janeiro: Gryphus, 1994.

16.3.19

Wallace Stevens: "The planet on the table" / "O planeta na mesa": Trad. por Paulo Henriques Britto




O planeta na mesa


Ariel gostou de ter escrito seus poemas.
Eram de um tempo relembrado
Ou de algo visto que o agradara.

Outros feitos do sol
Eram agrura e tumulto
E o arbusto maduro retorcido.

Seu ser e o sol eram um só
E seus poemas, embora feitos de seu ser,
Não eram menos feitos do sol.

Que perdurassem não era importante.
O importante era que portassem
Algum traço ou caráter,

Uma afluência, mesmo quase imperceptível,
Na pobreza de suas palavras,
Do planeta do qual faziam parte.






The planet on the table


Ariel was glad he had written his poems.
They were of a remembered time
Or of something seen that he liked.

Other makings of the sun
Were waste and welter
And the ripe shrub writhed.

His self and the sun were one
And his poems, although makings of his self,
Were no less makings of the sun.

It was not important that they survive.
What mattered was that they should bear
Some lineament or character,

Some affluence, if only half-perceived,
In the poverty of their words,
Of the planet of which they were part.






STEVENS, Wallace. "The planet on the table" / "O planeta na mesa". In:_____. O imperador do sorvete e outros poemas. Trad. por Paulo Henriques Britto. São Paulo: Companhia das Letras, 2017.

13.3.19

Marcial: "Epigramma XVI": trad. de Nelson Ascher




1/16


Algo de bom, muito de médio e mais de ruim
lerás, Avito, aqui: um livro é feito assim.




I/XVI

Sunto bona, sunt quaedam mediocria, sunt mala plura
quae legis hic: aliter non fit, Avite, liber.






MARCIAL. "Epigramma I.XVI". In: ASCHER, Nelson. Poesia alheia. 124 poemas traduzidos. Rio de Janeiro: Imago, 1998.

11.3.19

Cassiano Ricardo: "Poética"




Poética


1

Que é a Poesia?

                    uma ilha
                    cercada
              de palavras
                     por todos
                     os lados.



3

Que é o Poeta?

                     um homem
que trabalha o poema
com o suor do seu rosto.
                     Um homem
               que tem fome
como qualquer outro
                          homem.





RICARDO, Cassiano. "Poética". In: Jeremias sem-chorar. Rio de Janeiro: José Olympio, 1964.
             

10.3.19

Constatinos Caváfis: "O primeiro degrau"




O primeiro degrau

Foi a Teócrito queixar-se um dia
Eumene, poeta ainda jovem:
“Faz dois anos que escrevo e até agora
compus apenas um idílio.
Esse, o meu único trabalho pronto.
Pobre de mim! Pelo que vejo, é alta,
deveras alta, a escada da Poesia.
Estou no primeiro degrau: jamais,
infeliz que sou, chegarei ao topo.”
“Essas palavras”, respondeu Teócrito,
“são um despropósito, blasfêmias.
Se estás no primeiro degrau, cumpria
te sentires feliz e envaidecido.
Chegar onde chegaste não é pouco,
nem é pequena glória o que fizeste.
Do primeiro degrau da mesma escada
está bem distante o comum das pessoas.
Para pisar esse degrau de ingresso,
necessário é que sejas, por direito,
cidadão da cidade das ideias –
um título difícil: raramente
fazem-se ali naturalizações.
De quantos na sua ágora legislam,
aventureiro algum pode zombar.
Chegar onde chegaste não é pouco,
nem é pequena glória o que fizeste.”





KAVÁFIS, K. "O primeiro degrau". In: PAES, José Paulo (org. e trad.). Poesia moderna da Grécia. Rio de Janeiro: Guanabara, 1986.



8.3.19

Anna Akhmatova: "Творчество" / "A criação": trad. por Joaquim Manuel Magalhães e Vadim Dmitriev




A criação

Acontece deste modo: uma certa languidez;
No ouvido não se calam as pancadas dos relógios;
Ao longe diminui o estrondo do trovão.
E vislumbram-se queixas e gemidos
De aprisionadas vozes que não se reconhecem.
Um certo círculo secreto estreita-se,
Mas nesse abismo de badaladas e murmúrios
Levanta-se um som que tudo venceu.
É tal o silêncio irreparável em seu redor
Que se escuta como no bosque cresce a erva,
Como anda pela terra o mal com um alforge…
Mas as palavras começaram já a ouvir-se
E das rimas leves os tinidos de sinalização,  –
É quando eu começo a compreender,
E de modo simples as linhas ditadas
Deitam-se no caderno branco de neve.





Творчество (1936)

Бывает так: какая-то истома;
В ушах не умолкает бой часов;
Вдали раскат стихающего грома.
Неузнанных и пленных голосов
Мне чудятся и жалобы и стоны,
Сужается какой-то тайный круг,
Но в этой бездне шепотов и звонов
Встает один, все победивший звук.
Так вкруг него непоправимо тихо,
Что слышно, как в лесу растет трава,
Как по земле идет с котомкой лихо...
Но вот уже послышались слова
И легких рифм сигнальные звоночки, -
Тогда я начинаю понимать,
И просто продиктованные строчки
Ложатся в белоснежную тетрадь.





AKHMATOVA, Anna. "Творчество"/"A criação". In:_____. Poemas. Trad. por Joaquim Manuel Magalhães e Vadim Dmitriev. Lisboa: Relógio D'Água Editores, 2003.

6.3.19

Antonio Cicero: "Simbiose"





Simbiose

Sou seu poeta só
Só em você descubro a poesia
que era minha já
mas eu não via.

Só eu sou seu poeta
Só eu revelo a poesia sua
e à noite indiscreta
você de lua.




CICERO, Antonio. “Simbiose”. In:_____. Guardar. Rio de Janeiro: Record, 1996.

3.3.19

Ferreira Gullar: "O duplo"




O duplo



Foi-se formando

a meu lado

                 um outro

que é mais Gullar do que eu



que se apossou do que vi

                        do que fiz

                do que era meu



e pelo país

                flutua

livre da morte

e do morto

             

pelas ruas da cidade

         vejo-o passar

          com meu rosto



mas sem o peso

          do corpo

que sou eu

culpado e pouco







GULLAR, Ferreira. "O duplo". In:_____. Em alguma parte alguma. Lisboa: Babel, 2010.

1.3.19

Casimiro de Brito: "Esta manhã não lavei os olhos --"




71

Esta manhã não lavei os olhos – 
pensei em ti.


*


Se o teu ouvido se fechou à minha boca
poderei escrever ainda poemas de amor?
A arte de amar não me serve para nada.


*


Um fogo em luz transformado.
Subitamente a sombra.


*


Há dias em que morro de amor.
Nos outros, de tão desamado,
morro um pouco mais.





BRITO, Casimiro de. “Esta manhã não lavei os olhos”. In:_____. "Arte de bem morrer". In:_____ 69 poemas de amor. Tavira: 4Águas editora, 2008.

26.2.19

Vera Casa Nova: "Retiro-me do verso"




Retiro-me do verso


Retiro-me do verso
Retiro-me.
Retiro.
Estou em outro verso
Reverso da estória.

Retiro-me da página
Entro na imagem.

Retiro de meus dias
O suor do poema
A acidez da imagem.





CASA NOVA, Vera. "Retiro-me do verso". In:_____. Língua plena: poemas de Vera Casa Nova. Rio de Janeiro: Gramma, 2018.

25.2.19

Ruy Espinheira Filho: "O poeta e seu leitor"




O poeta e seu leitor


Releio amado poeta
e não reencontro o que li.

Sem dúvida: é o mesmo livro
que tanto li e reli.

Onde as graves emoções
em que outrora me perdi,

os densos sopros de alma
em que chorei ou sorri?

Por mais que releia o livro,
não vejo o que vi ali.

Terá mudado o poeta,
ou me enganei no que li?

Não, não mudou o poeta,
nem me enganei no que li

na voz serena dos versos
em que chorei ou sorri:

é que o leitor do poeta
foi um que em mim já perdi.





ESPINHEIRA FILHO, Ruy. "O poeta e seu leitor". In:_____. Estação infinita e outras estações: poesia reunida (1966-2012).  Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 2012.

23.2.19

Vinícius de Moraes: "Balada da moça do Miramar"




Balada da moça do Miramar


Silêncio da madrugada
No Edifício Miramar...
Sentada em frente à janela
Nua, morta, deslumbrada
Uma moça mira o mar.

Ninguém sabe quem é ela
Nem ninguém há de saber
Deixou a porta trancada
Faz bem uns dois cinco dias
Já começa a apodrecer
Seus ambos joelhos de âmbar
Furam-lhe o branco da pele
E a grande flor do seu corpo
Destila um fétido mel.

Mantém-se extática em face
Da aurora em elaboração
Embora formigas pretas
Que lhe entram pelos ouvidos
Se escapem por umas gretas
Do lado do coração.
Em volta é segredo: e móveis
Imóveis na solidão...
Mas apesar da necrose
Que lhe corrói o nariz
A moça está tão sem pose
Numa ilusão tão serena
Que, certo, morreu feliz.

A vida que está na morte
Os dedos já lhe comeu
Só lhe resta um aro de ouro
Que a morte em vida lhe deu
Mas seu cabelo de ouro
Rebrilha com tanta luz
Que a sua caveira é bela
E belo é seu ventre louro
E seus pelinhos azuis.

De noite é a lua quem ama
A moça do Miramar
Enquanto o mar tece a trama
Desse conúbio lunar
Depois é o sol violento
O sol batido de vento
Que vem com furor violeta
A moça violentar.

Muitos dias se passaram
Muitos dias passarão
À noite segue-se o dia
E assim os dias se vão
E enquanto os dias se passam
Trazendo a putrefação
À noite coisas se passam...
A moça e a lua se enlaçam
Ambas mortas de paixão.

Ah, morte do amor do mundo
Ah, vida feita de dar
Ah, sonhos sempre nascendo
Ah, sonhos sempre a acabar
Ah, flores que estão crescendo
Do fundo da podridão
Ah, vermes, morte vivendo
Nas flores ainda em botão
Ah, sonhos, ah, desesperos
Ah, desespero de amar
Ah, vida sempre morrendo
Ah, moça do Miramar!





MORAES, Vinícius de. "Balada da moça do Miramari". In:_____. Nova antologia poética. Org. por Antonio Cicero e Eucanaã Ferraz. São Paulo: Companhia das Letras, 2005.

20.2.19

Ferreira Gullar: "Verão"




Verão


Este fevereiro azul
como a chama da paixão
nascido com a morte certa
com prevista duração

deflagra suas manhãs
sobre as montanhas e o mar
com o desatino de tudo
que está para se acabar.

A carne de fevereiro
tem o sabor suicida
de coisa que está vivendo
vivendo mas já perdida.

Mas como tudo que vive
não desiste de viver,
fevereiro não desiste:
vai morrer, não quer morrer.

E a luta de resistência
se trava em todo lugar:
por cima dos edifícios
por sobre as águas do mar.

O vento que empurra a tarde
arrasta a fera ferida,
rasga-lhe o corpo de nuvens,
dessangra-a sobre a avenida

Vieira Souto e o Arpoador
numa ampla hemorragia.
Suja de sangue as montanhas
tinge as águas da baía.

E nesse esquartejamento
a que outros chamam verão,
fevereiro em agonia
resiste mordendo o chão.

Sim, fevereiro resiste
como uma fera ferida.
É essa esperança doida
que é o próprio nome da vida.

Vai morrer, não quer morrer.
Se apega a tudo que existe:
na areia, no mar, na relva,
no meu coração — resiste.




GULLAR, Ferreira. “Verão”. In:_____. Dentro da noite veloz. São Paulo: Companhia das Letras, 2018.

18.2.19

Luiz Roberto Nascimento Silva: "Será que é o mar"




Será que é o mar



Será que o mar conforma a terra

ou a terra invade o mar?

Visto do alto de um avião,

quando se vislumbra a Baía de Guanabara

não se sabe ao certo, nem de forma clara.


Será que é o azul do mar

que ilumina o céu e os seus olhos

ou será esse céu que dá cor à água

e ao seu transparente olhar de anágua?


Será que a distância que nos separa

é que aumenta a saudade

ou será a saudade que produz pressa

urgência da ausência

que a presença mascara?


Será que essas perguntas trazem respostas

ou serão respostas as próprias perguntas

sem importar quem as declara.

Assim segue o homem, eterno enigma

entre todos os animais; espécie mais rara.






SILVA, Luiz Roberto Nascimento. "Será que é o mar". In:_____. Rio 80 graus. Rio de Janeiro: 7 Letras, 2018.


15.2.19

W. B. Yeats: "An Irish airman foresees his death" / "Um aviador irlandês prevê a morte"



Um aviador irlandês prevê a morte


Encontrarei meu fim no meio

das nuvens de algum céu sobejo;

os que combato, eu não odeio,

também não amo os que protejo;

Kiltartan Cross é meu país,

seus pobres são a minha gente,

nada a fará mais infeliz

do que já era, ou mais contente.

Não é por lei ou por dever,

turba ou políticos, que luto,

mas pelo afã de me entreter,

a sós, nas nuvens em tumulto.

Tudo na mente foi pesado:

nada que espere ou que recorde

vale-me a pena comparado

com esta vida ou esta morte.






An Irish airman foresees his death


I know that I shall meet my fate 

Somewhere among the clouds above; 

Those that I fight I do not hate 

Those that I guard I do not love; 

My country is Kiltartan Cross,

My countrymen Kiltartan’s poor, 

No likely end could bring them loss 

Or leave them happier than before. 

Nor law, nor duty bade me fight, 

Nor public man, nor cheering crowds,

A lonely impulse of delight 

Drove to this tumult in the clouds; 

I balanced all, brought all to mind, 

The years to come seemed waste of breath, 

A waste of breath the years behind

In balance with this life, this death.






YEATS, W.B. "An Irish airman foresees his death" / "Um aviador irlandês prevê a morte". In: ASCHER, Nelson (org.). Poesia alheia. 124 poemas traduzidos. Rio de Janeiro: Imago, 1998.


13.2.19

Fernando Pessoa: "Sonhador de sonhos"




Sonhador de sonhos


Sonhador de sonhos

Queres me vender

Teus dias risonhos

Por eu te esquecer?...


Minha alma é só mágoa

Por saber que vive...

Passo como a água,

Nunca fui ou estive...






PESSOA, Fernando. “Sonhador de sonhos”. In:_____. Poesia, 1902-17. Org. por Manuela Parreira da Silva, Ana Maria Freitas, Madalena Dine. Porto:  Assírio & Alvim, 2005.

11.2.19

Ingeborg Bachmann: "Schatten Rosen Schatten" / "Sombras rosas sombras"



Sombras rosas sombras


Sob um céu estranho

sombras rosas

sombras

sobre uma terra estranha

entre rosas e sombras

numa água estranha

minha sombra






Schatten Rosen Schatten


Unter einem fremden Himmel

Schatten Rosen

Schatten

auf einer fremden Erde

zwischen Rosen und Schatten

in einem fremden Wasser

mein Schatten





BACHMANN, Ingeborg. Werke. Eds. Christine Kosehel, Inge von Weidenbaum, Clemens Münster. München, Zürich: R. Piper, 1978.

9.2.19

Jorge Luis Borges: "El despertar" / "O despertar"




O despertar                                                               


Penetra a luz e ascendo lentamente

Dos sonhos para o sonho compartido

E as coisas voltam para o seu devido

E esperado lugar e no presente

Retorna esmagador e vasto o vago

Ontem: as seculares migrações

Do pássaro e do homem, as legiões

Que o ferro destroçou, Roma e Cartago.

Torna também a cotidiana história:

Meu rosto e minha voz, o medo, a sorte.

Ah, se aquele outro despertar, a morte,

Me deparasse um tempo sem memória

Do meu nome, de mim, de meus momentos!

– Trouxesse esta manhã o esquecimento!...







El despertar


Entra la luz y asciendo torpemente

De los sueños al sueño compartido

Y las cosas recobran su debido

Y esperado lugar y en el presente

Converge abrumador y vasto el vago

Ayer: las seculares migraciones

Del pájaro y del hombre, las legiones

Que el hierro destruyó: Roma y Cartago.

Vuelve también la cotidiana historia:                                              

Mi voz, mi rostro, mi temor, mi suerte.

¡Ah, si aquel otro despertar la muerte

Me deparara un tiempo sin memoria

De mi nombre y de todo lo que he sido!

¡Ah, si en esa mañana hubiera olvido!






BORGES, Jorge Luis. “El despertar” / “O despertar”. In:_____. Borges poeta – Antologia poética bilingüe. Trad. de Jorge Wanderley. Rio de Janeiro: Leviatã, 1992.