31.12.12

FELIZ ANO NOVO!

30.12.12

José Martí: "Si ves un monte de espumas" / "Se vês um monte de espumas": trad. Antonio Cicero








Si ves un monte de espumas,
Es mi verso lo que ves,
Mi verso es un monte, y es
Un abanico de plumas.

Mi verso es como un puñal
Que por el puño echa flor:
Mi verso es un surtidor
Que da un agua de coral.

Mi verso es de un verde claro
Y de un carmín encendido:
Mi verso es un ciervo herido
Que busca en el monte amparo.

Mi verso al valiente agrada:
Mi verso, breve y sincero,
Es del vigor del acero
Con que se funde la espada.




Se vês um monte de espumas,
É o meu verso que vês
Ele é um monte ou talvez
Um leque feito de plumas

Meu verso é como um punhal
Que pelo punho põe flor;
Meu verso é um provedor
De uma água de coral.

Meu verso é de um verde claro
E de um carmim acendido;
Meu verso é um cervo ferido
Que busca no monte amparo.

Meu verso ao valente agrada:
Meu verso, breve e sincero,
É do vigor do aço fero
Com que se funde a espada.



MARTÍ, José. "Si ves un monte de espumas". In: OCA, Francisco Montes de. Ocho siglos de poesía en lengua española. Mexico: Porroa, 1974.

27.12.12

Eugénio de Andrade: "Arte dos versos"






Arte dos versos

Toda a ciência está aqui,
na maneira como esta mulher
dos arredores de Cantão,
ou dos campos de Alpedrinha,
rega quatro ou cinco leiras
de couves: mão certeira
com a água,
intimidade com a terra,
empenho do coração.
Assim se faz o poema.




ANDRADE, Eugénio de. Rente ao dizer. Fundação Eugénio de Andrade, 1992.

25.12.12

Heirich Heine: "Ehmals glaubt ich, alle Küsse" / "Acreditava antigamente": trad. André Vallias






Acreditava antigamente
Que todo beijo que me tiram,
Ou que recebo de presente,
Fosse por obra do destino.

Deram-me beijos e beijei,
Antes com tanta seriedade,
Como se obedecesse às leis
Que regem a necessidade.

Agora sei como é supérfluo
E não me faço de rogado,
Vou dando beijos em excesso,
Incrédulo e despreocupado.





Ehmals glaubt ich, alle Küsse,
Die ein Weib uns gibt und nimmt,
Seien uns, durch Schicksalsschlüsse,
Schon urzeitlich vorbestimmt.

Küsse nahm ich, und ich küßte
So mit Ernst in jener Zeit,
Als ob ich erfüllen müßte
Thaten der Notwendigkeit.

Jetzo weiß ich, überflüssig,
Wie so manches, ist der Kuß,
Und mit leichtern Sinnen küß ich,
Glaubenlos im Überfluß.



HEINE, Heinrich: "Uma gaivota. Poemas, 1830-1839". In:_____. VALLIAS, André (org., intr. e trad.). Heine, heim? Poeta dos contrários. São Paulo: Perspectiva, Goethe Institut, 2011.

23.12.12

Lêdo Ivo: "O portão"






O portão




O portão fica aberto o dia inteiro

mas à noite eu mesmo vou fechá-lo.

Não espero nenhum visitante noturno

a não ser o ladrão que salta o muro dos sonhos.

A noite é tão silenciosa que me faz escutar

o nascimento dos mananciais nas florestas.

Minha cama branca como a via-láctea

é breve para mim na noite negra.

Ocupo todo o espaço da mundo. Minha mão desatenta

derruba uma estrela e enxota um morcego.

O bater de meu coração intriga as corujas

que, nos ramos dos cedros, ruminam o enigma

do dia e da noite paridos pelas águas.

No meu sonho de pedra fico imóvel e viajo.

Sou o vento que apalpa as alcachofras

e enferruja os arreios pendurados no estábulo.

Sou a formiga que, guiada pelas constelações,

respira os perfumes da terra e do oceano.

Um homem que sonha é tudo o que não é:

o mar que os navios avariaram,

o silvo negro do trem entre fogueiras,

a mancha que escurece o tambor de querosene.

Se antes de dormir fecho o meu portão

no sonho ele se abre. E quem não veio de dia

pisando as folhas secas dos eucaliptos

vem de noite e conhece o caminho, igual aos mortos

que todavia jamais vieram, mas sabem onde estou

— coberto por uma mortalha, como todos os que sonham

e se agitam na escuridão, e gritam as palavras

que fugiram do dicionário e foram respirar o ar da noite que cheira a jasmim

e ao doce esterco fermentado.

os visitantes indesejáveis atravessam as portas trancadas

e as persianas que filtram a passagem da brisa e me rodeiam.

Ó mistério do mundo! Nenhum cadeado fecha o portão da noite.

Foi em vão que ao anoitecer pensei em dormir sozinho

protegido pelo arame farpado que cerca as minhas terras

e pelos meus cães que sonham de olhos abertos.

À noite, uma simples aragem destrói os muros dos homens.

Embora o meu portão vá amanhecer fechado

sei que alguém o abriu, no silêncio da noite,

e assistiu no escuro ao meu sono inquieto.





IVO, Lêdo. "A noite misteriosa". In:_____. Poesia completa (1940-2004). Rio de Janeiro: Topbooks, 2004.

20.12.12

Luiz Roberto Nascimento Silva: "O alfabeto da devassa"






Por mais duro que pareça agora
isso tudo passará.
A tempestade irá embora.

As nuvens pesadas se dissiparão.
Poderemos olhar o céu,
sol poente; novamente

Guardaremos a lição:
para cada azul cintilante
brilhando sob nossas cabeças

existe igual noite de trevas
mosaico invertido,
grafite da escuridão.




SILVA, Luiz Roberto Nascimento. O alfabeto da devassa. Rio de Janeiro: Rocco, 2005.

18.12.12

Lau Siqueira: "Viver é delicado"







viver é delicado

argumento de samba

sentimento de fado





SIQUEIRA, Lau. Poesia sem pele. Porto Alegre: Casa Verde, 2011.


16.12.12

Friedrich Nietzsche: § 157 de "Além do bem e do mal": trad. de Paulo César de Souza





157
O pensamento do suicídio é um forte consolo: com ele atravessamos mais de uma noite ruim.



NIETZSCHE, Friedrich. Além do bem e do mal. Prelúdio a uma filosofia do futuro. trad., notas e posfácio de Paulo César de Souza. São Paulo: Companhia das Letras, 1992.







14.12.12

Günther Eich: "Inventur" / "Balanço": trad. Rosvitha Friesen Blume e Markus J. Weininger






Balanço



Isso é minha boina,
isso o meu casacão,
aqui meu barbeador
na sacola de linho.

Lata de conserva:
meu prato, meu copo,
risquei o nome na
face da lata.

Riscado aqui com este
precioso prego
que de invejosos
olhos escondo.

Na sacola do pão,
um par de meias de lã
e algumas coisas
que a ninguém revelo,

assim, serve à minha cabeça
como travesseiro de noite.
O papelão aqui se estende
entre mim e a terra.

A carga do lápis
é o que mais amo:
de dia escreve-me versos
que de noite inventei.

Aqui meus alfarrábios,
isso é minha lona,
isso é minha toalha,
isso, meu fio de coser.




Inventur


Dies ist meine Mütze,
dies ist mein Mantel,
hier mein Rasierzeug
im Beutel aus Leinen.

Konservenbüchse:
Mein Teller, mein Becher,
ich hab in das Weißblech
den Namen geritzt.

Geritzt hier mit diesem
kostbaren Nagel,
den vor begehrlichen
Augen ich berge.

Im Brotbeutel sind
ein Paar wollene Socken
und einiges, was ich
niemand verrate,

so dient er als Kissen
nachts meinem Kopf.
Die Pappe hier liegt
zwischen mir und der Erde.

Die Bleistiftmine
lieb ich am meisten:
Tags schreibt sie mir Verse,
die nachts ich erdacht.

Dies ist mein Notizbuch,
dies ist meine Zeltbahn,
dies ist mein Handtuch,
dies ist mein Zwirn.



EICH, Günther. "Inventur" / "Balanço". In:_____. BLUME, Rosvitha Friesen e WEININGER, Markus J. (Orgs.) Seis décadas da poesia alemã. Do pós-guerra ao início do século XXI. antologia bilingue. Trad. dos organizadores. Florianópolis: Editora UFSC, 2012.

12.12.12

Rainer Maria Rilke: "Schlußstück" / "Conclusão": trad. Augusto de Campos






Schlußstück


Der Tod ist groß.
Wir sind die Seinen
lachenden Munds.
Wenn wir uns mitten im Leben meinen,
wagt er zu weinen
mitten in uns.





Conclusão

A Morte é grande.
Nós, sua presa,
vamos sem receio.
Quando rimos, indo, em meio à correnteza,
chora de surpresa
em nosso meio.





RILKE, Rainer Maria. "O livro de imagens"/"Das Buch des Bilders". In: CAMPOS, Augusto. Coisas e anjos de Rilke. Perspectiva: 2001.

9.12.12

Bertold Brecht: "Den Nachgeborenen" / "O nascido depois": trad. Paulo César de Souza






O nascido depois

Eu confesso: eu
Não tenho esperança.
Os cegos falam de uma saída. Eu
Vejo.
Após os erros terem sido usados
Como última companhia, à nossa frente
Senta-se o Nada.





Den Nachgeborenen

Ich gestehe es: ich
Habe keine Hoffnung.
Die Blinden reden von einem Ausweg.
Ich sehe.
Wenn die Irrtümer verbraucht sind
Sitzt als letzter Gesellschafter
Uns das Nichts gegenüber.




BRECHT, Bertold. Werke. Große kommentierte Berliner und Frankfurter Ausgabe. Frankfurt: Suhrkamp, 1988.

BRECHT, Bertold. Poemas 1913-1956. Tradução de Paulo César de Souza. São Paulo: Editora 34, 2000.

8.12.12

CONVITE




Data: 11 de dezembro de 2012
Hora: 18:30hs
Local: Salão Marquês de Paraná
Universidade Cândido Mendes
Rua da Assembléia, 10 - 42º andar
Rio de Janeiro, RJ





Informações:

Rua Mosela, 289, Mosela - Petrópolis, RJ
Tel/Fax: (24) 2242-6433
e-mails: bolrede@terra.com.br
centroalceuamorosolima@yahoo.com.br


Apoio:
Associação de Amigos do Dr. Alceu / AADA

5.12.12

Paul Celan: "Der Gast" / "O hóspede": trad. Flávio R. Kothe






O hóspede

Bem antes da noite
te visita alguém que saudou o obscuro.
Bem antes do dia
ele acorda
e ativa, antes de partir, um sono,
um sono ressoando passos:
ficas a ouvi-lo mensurar distâncias,
e é bem lá que lanças tua alma.



Der Gast

Lange vor Abend

kehrt bei dir ein, der den Gruß getauscht mit dem Dunkel.
Lange vor Tag
wacht er auf
und facht, eh er geht, einen Schlaf an,
einen Schlaf, durchklungen von Schritten:
du hörst ihn die Fernen durchmessen
und wirfst deine Seele dorthin.

      CELAN, Paul. Poemas II. Introdução, tradução, comentários e organização de Flávio R. Kothe. Rio de Janeiro: Tempo Brasileiro, 1985.  

3.12.12

Conferências sobre Filosofia e Cultura Brasileira


Programação


CAIXA Cultural Rio de Janeiro

04 a 07 de dezembro de 2012

Av. Almirante Barroso, 25 – Centro

(próximo ao metrô Carioca)

Telefone: (21) 2544-4080

As vagas serão preenchidas pela ordem de chegada dos interessados.

80 vagas. Sujeito à lotação.

As senhas serão distribuídas a partir das 17h.

04/12, terça-feira

18h Antonio Cícero: Filosofia e niilismo

19h30 Ana Cristina Chiara: O salto da índia: corpos na cultura brasileira

05/12, quarta-feira

18h Luiz Carlos Maciel: O sol da liberdade

19h30 Patrick Pessoa: Brás e o Brasil: a Filosofia da Arte de Machado de Assis

06/12, quinta-feira

18h Adriany Mendonça: Aspectos filosóficos da antropofagia oswaldiana

19h30 Alexandre Mendonça: Cultura popular e Filosofia

07/12, sexta-feira

18h Rosa Dias: A família do barulho na Belair de Júlio Bressane

19h30 Jorge Mautner: A amálgama do Brasil universal

2.12.12

Antero de Quental: "Sonho oriental"







Sonho Oriental



Sonho-me ás vezes rei, n'alguma ilha,
Muito longe, nos mares do Oriente,
Onde a noite é balsâmica e fulgente
E a lua cheia sobre as águas brilha...

O aroma da magnólia e da baunilha
Paira no ar diáfano e dormente...
Lambe a orla dos bosques, vagamente,
O mar com finas ondas de escumilha...

E enquanto eu na varanda de marfim
Me encosto, absorto n'um cismar sem fim,
Tu, meu amor, divagas ao luar,

Do profundo jardim pelas clareiras,
Ou descansas debaixo das palmeiras,
Tendo aos pés um leão familiar.




QUENTAL, Antero de. Sonetos. Org. por António Sérgio. Lisboa: Sá da Costa, 1963.






30.11.12

Wisława Szymborska: "As três palavras mais estranhas": trad. Refina Przybycien






As três palavras mais estranhas


Quando pronuncio a palavra Futuro,
a primeira sílaba já se perde no passado.

Quando pronuncio a palavra Silêncio,
suprimo-o.

Quando pronuncio a  palavra Nada,
crio algo que não cabe em nenhum não ser.




SZYMBORSKA, Wisława. "Instante". In:_____. Poemas. Trad. Regina Przybycien. São Paulo: Companhia das Letras, 2011.

28.11.12

Gastão Cruz: Ofício






No dia 24 do corrente, participei, no Fórum das Letras de Ouro Preto, de uma discussão com Eduardo Jardim intitulada "A poesia nasce da filosofia?", sob a mediação de Fabrício Marques. No início de sua interessante preleção, Eduardo Jardim citou o seguinte belo poema de Gastão Cruz: 



Ofício

Os poemas que não fiz não os fiz porque estava
dando ao meu corpo aquela espécie de alma
que não pôde a poesia nunca dar-lhe

Os poemas que fiz só os fiz porque estava
pedindo ao corpo aquela espécie de alma
que somente a poesia pode dar-lhe

Assim devolve o corpo a poesia
que se confunde com o duro sopro
de quem está vivo e às vezes não respira.

          CRUZ, Gastão. "As palavras e as coisas". In:_____. Escarpas. Lisboa: Assírio e Alvim, 2010.

25.11.12

W.H. Auden: sobre o poeta e as palavras







Um poeta é, antes de qualquer outra coisa, uma pessoa que ama apaixonadamente a linguagem. Se tal amor é sinal de seu dom poético ou é o próprio dom -- pois a paixão é algo dado, e não escolhido -- não sei, mas é certamente o sinal pelo qual se reconhece se um jovem é potencialmente poeta ou não.

"Por que você quer escrever poesia?" Se o jovem responde: "Tenho coisas importantes a dizer", então não é um poeta. Se responde: "Gosto de curtir as palavras, ouvindo o que elas têm a dizer", então talvez se torne um poeta.





AUDEN, W.H. “Squares and oblongs”. In: ARNHEIM, Rudolf; AUDEN, W.H.; SHAPIRO, Karl; STAUFFER, Donald A. Poets at work. Introdução de Charles A. Abbott. New York: Hartcourt, Brace and Company, 1948, p.170.

19.11.12

Entrevista de Antonio Cicero ao jornalista Carlos de Souza




A seguinte entrevista, que concedi ao jornalista Carlos de Souza, foi publicada no jornal Tribuna do Norte, de Natal, no dia 15 do corrente:

1. Você é filósofo e poeta. Como você define as duas atividades?

O filósofo representa a razão radicalmente ambiciosa, a razão que pretende alcançar a verdade universal, necessária e absoluta no que diz respeito ao ente enquanto ente, no que diz respeito ao conhecimento e no que diz respeito aos valores éticos e estéticos.

O poeta é um artista que produz obras literárias em que não é possível separar forma de conteúdo, significante de significado, intelecto de imaginação, razão de emoção, conceito de sensação etc.

2. Você acha que a poesia perdeu sua capacidade de influir no mundo contemporâneo?

Acho que a poesia – principalmente a poesia escrita – jamais teve grande capacidade de influir no mundo contemporâneo a ela. A meu ver, seu sentido não é intervir no mundo, mas facultar àquele que a frui o acesso outras dimensões do ser, que não a dimensão pragmática, utilitária, instrumental, em que necessariamente passamos a maior parte das nossas vidas.

3. Como você faz diferença entre um poema bom e um ruim?

Um poema bom é um poema que, ao provocar um intenso jogo das nossas faculdades – razão, intelecto, imaginação, sensibilidade, emoção, sensualidade – entre si, dá ao leitor acesso a outras dimensões dos ser.

4. João Cabral de Melo Neto dizia que escrever poesia é transpiração. Você acredita em inspiração?

Sim, mas a inspiração não se separa da transpiração. É principalmente durante o trabalho, durante a luta com as palavras, que o poeta colhe as mais felizes intervenções do acaso e do inconsciente chamadas “inspirações”.

5. Você passou a ser conhecido do grande público através das letras de músicas escritas para sua irmã Marina Lima. Como você diferencia letra de música e poema?

A obra de arte em que a letra é normalmente apreciada é a canção, composta de letra e música. A letra é boa se contribuir para a composição de uma bela canção.

No que me diz respeito, como não componho música, faço letras para composições musicais que me são enviadas pelos meus parceiros. Por isso, ao fazer uma letra, levo em conta a música à qual ela se associará, o parceiro que a enviou e o cantor ou a cantora a que se destina.

Já quando faço um poema, não penso senão nas exigências dele mesmo.

Contudo, é possível que uma letra seja um excelente poema, e é possível que um poema se converta numa excelente letra, quando algum compositor faz uma música para acompanhá-la.

Nem o poema é automaticamente melhor do que a canção, nem vice-versa. Toda obra de arte deve ser julgada enquanto indivíduo, e não enquanto membro de uma espécie.

6. Você participou de alguns filmes, um de Bressane e outro de Caetano, se não me engano. Como foi essa experiência?

Caetano Veloso e Julinho Bressane são velhos amigos. Assim, foi um prazer trabalhar para eles. Por outro lado, como não sou ator, não gosto de me ver na tela, pois sempre fico muito crítico em relação ao meu desempenho.

7. Você também lançou um CD lendo seus próprios poemas e participou de outro, na companhia de outros artistas, lendo Drummond. Como é sua relação com as novas mídias?

Embora ache que os poemas, inclusive os meus, devem ser lidos, em primeiro lugar, por cada leitor individualmente, gosto de ler poemas – meus e de outros poetas – em voz alta.

Quanto à Internet, uso-a, em primeiro lugar, para me comunicar com outros, através de e-mails. Em segundo lugar, uso-a como uma grande enciclopédia ou biblioteca. Em terceiro lugar, mantenho um blog, onde posto pequenos textos que admiro, meus ou de outros.

8. Qual a afinidade entre você e a poesia de Carlos Drummond de Andrade?

Gosto muito, desde adolescente, da poesia de Drummond. Quando amo um poema, ele faz parte de minha vida, e eu o sinto como se ele fosse meu, como se eu o tivesse escrito. Ora, amo vários poemas de Drummond.

9. Sua obra ensaística toca sempre no assunto vanguardas. O poeta Ferreira Gullar diz que as vanguardas já nascem velhas. Isso procede?

Não conhecendo o contexto em que Gullar disse isso, não sei exatamente o que ele estava dizendo, de modo que prefiro não comentar.

Minha posição em relação às vanguardas é a seguinte. “Vanguarda” vem de “avant-garde”. “Avant-garde” é o destacamento que vai à frente do grosso das tropas, apontando o caminho que elas devem seguir. Historicamente, cada vanguarda artística apontou um caminho diferente para a arte. Nenhum desses caminhos foi seguido por todo o exército, mas, no total, as vanguardas abriram uma infinidade de caminhos. Graças a elas, hoje sabemos que nenhum caminho está a priori vedado à poesia. Sabemos que é sempre preciso considerar cada caso individualmente. Isso não é pouco. Entretanto, uma vez que isso já é algo conhecido, não precisa ser repetido. Assim, não há mais sentido nenhum em falar de “vanguarda”, pois não resta nenhum caminho a abrir. Continua a haver arte experimental, é claro. De certo modo, toda arte é experimental, mas a arte experimental não pretende mais estar à frente de todos os demais artistas, experimentais ou não, de modo que não pretende ser vanguarda. Além disso, historicamente, cada vanguarda, em sua luta por afirmar determinado caminho, acabava por desprezar os caminhos já abertos. Hoje estão abertos não só os caminhos apontados pela vanguarda e os que a arte experimental contemporânea está a trilhar, mas também os que a tradição havia antes aberto.

10. Seus livros O Mundo Desde o Fim e Finalidades Sem Fim, tem um espaçamento de dez anos entre a publicação de um e outro? Dá trabalho escrever filosofia?

Não só dá trabalho, como sou muito lento. E gosto mais de ler do que de escrever.

11. Os livros de poemas Guardar, A Cidade e os Livros e Livro de Sombras também guardam uma distância de épocas. É difícil escrever poesia?

Normalmente, demoro mais ainda para escrever um poema do que um ensaio ou um artigo. E um ensaio ou artigo eu escrevo num prazo relativamente determinado, ainda que longo. Já a um poema não se pode determinar um prazo. Ele tem seu tempo próprio. E nunca se sabe se um poema que se começa a escrever vai, afinal, ficar pronto. Pode não dar em nada.

12. Você também organizou algumas coletâneas, uma com o poeta Eucanaã Ferraz e outra com Waly Salomão. Como foi essa experiência?

A que fiz com Waly, chamada “O relativismo enquanto visão do mundo” foi a reunião de uma série de palestras organizadas por nós dois em São Paulo, em 1994, com filósofos de primeira linha, como, entre outros, Richard Rorty, Ernest Gellner, Peter Sloterdijk e Bento Prado Júnior.

A que fiz com Eucanaã foi uma nova antologia da obra de Vinícius de Moraes, poeta que ambos amamos. Escolhemos os poemas que tanto eu quanto ele considera os melhores do Vinícius.

13. Você está na coletânea Os Cem Melhores Poemas Brasileiros do Século XX. Você se considera um poeta canônico?

Não.

14. Seus poemas lembram a poesia clássica. Quais são suas influências?

Muitas. Para mim, de fato, o poeta mais impressionante é o romano Horácio. Mas gosto de tantos poetas, desde os gregos e romanos... Não sei.

15. Quem está escrevendo poesia de qualidade hoje no Brasil?

Prefiro não responder, porque, sempre que respondo em alguma entrevista a essa pergunta, tenho problemas com os poetas que não me lembrei de citar.

16. Você tem um blog, homepage, na internet... Como é seu relacionamento com o público pela web?

Em geral, muito bom. Havia mais discussão – às vezes de alto nível, às vezes nem tanto – quando eu publicava no blog os artigos, frequentemente polêmicos, que escrevia para a Folha de São Paulo. Em geral eram os fanáticos – religiosos ou políticos (de direita e de esquerda) – que baixavam o nível. Hoje não escrevo mais para jornal nenhum, de modo que os textos que publicam são, em geral, poemas e, em geral, esses poemas são menos polêmicos do que os artigos que eu escrevia para a Folha.

17. Você se interessa por política? Se sim, como você vê o Brasil de hoje?

Penso que o Brasil melhorou muito, a partir da administração de Fernando Henrique. E gosto de Dilma.

18. Que conselhos você daria a um jovem poeta?

Que leia muita poesia; que conheça o máximo que consiga da poesia canônica.



14.11.12

Jorge Luis Borges: "Nubes II" / "Nuvens II": trad. Antonio Cicero





Nubes II


Por el aire andan plácidas montañas

o cordilleras trágicas de sombra

que oscurecen el día. Se las nombra

nubes. Las formas suelen ser extrañas.

Shakespeare observó una. Parecía

un dragón. Esa nube de una tarde

en su palabra resplandece y arde

y la seguimos viendo todavía.

¿Qué son las nubes? ¿Una arquitetura

del azar? Quizá Dios las necesita

para la ejecución de Su infinita

obra y son hilos de la trama oscura.

Quizá la nube sea no menos vana

que el hombre que la mira en mañana.





Nuvens II



Pelo ar andam plácidas montanhas

ou cordilheiras trágicas de sombra

que obscurecem o dia. Chamam-nas

nuvens. As formas podem ser estranhas.

Shakespeare observou uma. Parecia

um dragão. Essa nuvem de uma tarde

em sua palavra resplandece e arde

e continuamos a vê-la ainda.

Que são as nuvens? Uma arquitetura

do azar? Talvez Deus as necessite

para a execução de Sua infinita

obra e sejam fios da trama obscura.

Talvez a nuvem seja não menos vã

que o homem que a contempla na manhã.





BORGES, Jorge Luis. "Los conjurados". In:_____. Obras completas II. 1975-1985. Buenos Aires: Emecé, 1989.







11.11.12

Arnaldo Antunes: de "Psia"





Porque eu te olhava e você era o meu cinema, a minha Scarlet O' Hara, a minha Excalibur, a minha Salambô, a minha Nastassia Filípovna, a minha Brigitte Bardot, o meu Tadzio, a minha Anne, a minha Lorraine, a minha Ceci, a minha Odete Grecy, a minha Capitu, a minha Cabocla, a minha Pagu, a minha Barbarella, a minha Honey Moon, o meu amuleto de Ogum, a minha Honey Baby, a minha Rosemary, a minha Merlin Monroe, o meu Rodolfo Valentino, a minha Emanuelle, o meu Bambi, a minha Lília Brick, a minha Poliana, a minha Gilda, a minha Julieta, e eu dizia a você do meu amor e você ria, suspirava e ria.




ANTUNES, Arnaldo. "Psia". In:_____. Como é que chama o nome disso. São Paulo: Publifolha, 2006.

9.11.12

Paul Valéry: de "Rhumbs"






É poeta aquele a quem a dificuldade inerente à sua arte dá ideias, -- e não o é aquele a quem ela as retira.





VALÉRY, Paul. "Rhumbs". In:_____. Tel quel II. Paris: Gallimard, 1943.

6.11.12

Nelson Ascher: "14 versos"








14 versos



Não zombes, crítico, da forma
que, além de poetas como Dante,
Quevedo ou Mallarmé durante
os séculos quando era a norma,

Púchkin, narrando com mestria
um duelo em seu Ievguêni Oniéguin
(num duelo desses morreria),
usou como outros não conseguem.

Sem rejeitar a própria era,
Drummond e Rilke, todavia,
levaram o soneto a extremos

de perfeição e, em sua cegueira,
Borges também, conforme via
mais do que nós, que vemos, vemos.




ASCHER, Nelson. Parte Alguma. Poesia. São Paulo: Companhia das Letras, 2005.

5.11.12

Eugénio de Andrade: "Ao fim da tarde"





Ao fim da tarde

Ninguém esperava ver o mar naquele dia
mas era o mar
que estava ali à porta naqueles olhos.




ANDRADE, Eugénio de. Poemas de Eugénio de Andrade. Org. por Arnaldo Saraiva. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1999.

2.11.12

Luiz Roberto Nascimento Silva: "Não se deve"






Não se deve


Não se deve romper o silêncio
sem um motivo preciso.
As palavras devem ser necessárias
inadiáveis como um aviso.




NASCIMENTO SILVA, Luiz Roberto. A flauta vertebral. Rio de Janeiro: Rocco, 1999.

30.10.12

Carlos Pena Filho: "Pedro Álvares Cabral"





Pedro Álvares Cabral


O enorme céu que cobre mar e mágoas
e abriga os astros,
sustém meu claro sonho sobre as águas,
velas e mastros.

Um dia hei de encontrar terra ignota:
é assim quem sonha.
E se nenhuma houver em minha rota,
Que Deus a ponha.

Em meio ao longo mar não faço caso
dos dias meus,
Pois tenho a guiar-me o vento ou o puro acaso
e o acaso é Deus.



PENA FILHO, Carlos. Livro geral: poemas. Org. por Tânia Carneiro Leão. Recife: ed. da organizadora, 1999.

28.10.12

Aderbal Freire Filho: programa "Arte do Artista", da TV Brasil, com participação dos poetas Antonio Cicero e Eucanaã Ferraz





Eis o programa da TV Brasil "Arte do Artista", dirigido e estrelado por Aderbal Freire Filho, de que, a convite dele, participamos eu e Eucanaã Ferraz:


27.10.12

Katia Maciel: "babuíno"






O seguinte poema faz parte do livro Zun, de Katia Maciel, que será lançado na Galeria A Gentil Carióca Lá, na próxima terça-feira, às 19h. Na ocasião, a autora e eu conversaremos sobre poesia com o público.






babuíno


macaco louco
se entrega ao canto

some
aparece de novo

anda
de um lado pro outro

eu cá no meu canto
me escondo

























25.10.12






No dia 30 de outubro, terça-feira, terá lugar o lançamento do livro de poemas ZUN, de Kátia Maciel, na galeria A Gentil Carioca Lá, na Av. Epitácio Pessoa, 1674/401. No mesmo local, antes do lançamento, às 19h, conversarei com a autora sobre o seu livro.


Clique na imagem, para ampliá-la:

23.10.12

Alex Varella: "Marítimo"





O seguinte poema faz parte do livro Céu em cima / Mar em baixo, de Alex Varella, que será lançado em Niterói na próxima quinta-feira (vejam postagem abaixo desta):






MARÍTIMO


Passo o tempo em frente ao mar

O coração e os olhos vestidos de calção









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Lançamento em Niterói do livro "Céu em cima / Mar em baixo", de Alex Varella



O belíssimo livro de Alex Varella, "Céu em cima / Mar em baixo", será lançado em Niterói, na quinta-feira, 25 do corrente, em Icaraí, na Livraria Gutenberg, na rua Cel. Moreira César, 211, Lj. 101. Todos os frequentadores da Acontecimentos estão convidados!




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Horácio: Ode I.5 / Para Pirra: trad. Haroldo de Campos




Para Pirra

Quem, Pirra
agora
se lava em rosas
(pluma e latex)
na rosicama do
teu duplex?
Quem,
onda a onda,
do teu cabelo
desfaz a trança
platino-blonda?
Pobre coitado
inocente inútil
vai lamentar-se
para toda a vida.
Um deus volúvel
mais do que a brisa
muda em mar negro
seu lago azul.
Pensava que eras
dócil-macia
toda ouro mel.
Não és. Varias.
(Ah quem se fia
no fútil brilho
desse ouropel!)
Eu, por meu turno,
todo ex-aluno,
esta oferenda
ao deus Netuno
padripotente
no teu vestíbulo
deixo suspensa
(vide a legenda):
VMIDA AINDA
A TVNICA



CAMPOS, Haroldo de. "Para Pirra". Apud ACHCAR, Francisco. Lírica e lugar comum. Alguns temas de Horácio e sua presença em português. São Paulo: Edusp, 1994.





Ode I.5

Quis multa gracilis te puer in rosa
perfusus liquidis urget odoribus
grato, Pyrrha, sub antro?
cui flavam religas comam
simplex munditiis? heu quotiens fidem
mutatosque deos flebit et aspera
nigris aequora ventis
emirabitur insolens,
qui nunc te fruitur credulus aurea,
qui semper vacuam, semper amabilem
sperat, nescius aurae
fallacis. miseri, quibus
intemptata nites: me tabula sacer
votiva paries indicat uvida
suspendisse potenti
vestimenta maris deo.





21.10.12

Federico Garcia Lorca: "Gacela del amor desesperado" / "Gazel do amor desesperado: trad. William Agel de Melo






Gazela del amor desesperado

La noche no quiere venir
para que tú no vengas
ni yo pueda ir.

Pero yo iré
aunque un sol de alacranes me coma la sien.

Pero tú vendrás
con la lengua quemada por la lluvia de sal.

El día no quiere venir
para que tú no vengas
ni yo pueda ir.

Pero yo iré
entregando a los sapos mi mordido clavel.

Pero tú vendrás
por las turbias cloacas de la oscuridad.

Ni la noche ni el día quieren venir
para que por ti muera
y tú mueras por mí.





Gazel do amor desesperado

A noite não quer vir
para que tu não venhas,
nem eu possa ir.

Ma eu irei,
inda que um sol de lacraias me coma a fronte.

Mas tu virás
com a língua queimada pela chuva de sal.

O dia não quer vir
para que tu não venhas,
nem eu possa ir.

Mas eu irei,
entregando aos sapos meu mordido cravo.

Mas tu virás
pelas turvas cloacas da escuridão.

Nem a noite nem o dia querem vir
para que por ti morra
e tu morras por mim.

19.10.12

Eucanaã Ferraz: "Papel tesoura e cola!



O seguinte poema faz parte do livro Sentimental, que será lançado por Eucanaã Ferraz na próxima terça-feira, 23 do corrente, na Livraria Travessa de Ipanema, a partir das 19h:


Papel tesoura e cola


Dia de verão na Vista Chinesa. Eu, sozinho,
era um mandarim frio; mas vendo tudo

do alto, tomado pela beleza, achei que
em meu coração a tristeza era mesquinha;

pensar em mim e em você me pareceu avareza,
tendo em vista que nós somos bem menores

vistos do Alto da Boa Vista. Janeiro bicicletas
bem-te-vis entraram pelos meus olhos

abrindo em cheio meu peito; que sombra
demoraria à luz de tantas lanternas?

Mesmo a noite mais profunda logo se incendiara
e, decerto, morreríamos só depois da madrugada.

Era uma tarde chinesa, tarde de mim sem você,
quando vi que nós dois juntos não valíamos

a cena.

16.10.12

Lançamento de livro do poeta Eucanaã Ferraz




Terça-feira, 23 de outubro, às 19h, será lançado na Livraria da Travessa de Ipanema o livro de poemas Sentimental, de Eucanaã Ferraz. Todos os frequentadores do Acontecimentos estão convidados.



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15.10.12

Abu Nuwas: "Nos banhos públicos"





O aiatolá Ali Khameni, líder supremo do Irã, declarou no sábado que a homossexualidade é uma anormalidade ocidental. Com isso repetiu a estupidez do presidente do seu país, Mahmoud Ahmadinejad, que havia declarado, em 2007, não haver homossexualidade no Irã. Tratar-se-á de manifestações de crassa ignorância sobre o próprio país deles ou de inescrupulosa má fé? Ambas as coisas, sem dúvida.


O fato é que qualquer pessoa culta sabe, por exemplo, que “desde a aurora da poesia persa no século IX até o século XX, não apenas a homossexualidade foi aprovada na poesia persa, mas a verdade é que o homoerotismo constituiu praticamente o único tema amatório dos “ghazals” (poemas líricos curtos, semelhantes a sonetos) e o assunto principal de grande parte da poesia persa de amor” (“Encyclopaedia Iranica” disp. em http://www.iranicaonline.org/articles/homosexuality-iii).

De todo modo, a declaração do aiatolá me incitou a postar aqui um pequeno poema do grande poeta persa Abu Nuwas, do século IX:


Nos banhos públicos


Nos banhos públicos, os mistérios ocultos pelas calças
São revelados.
Tudo se torna radiantemente claro.
Deleite os olhos!
Belas bundas, tóraxes perfeitos,
E ouvirás rapazes pios a se olhar e exclamar
"Deus é grande!”, “Louvado seja Deus!”
Ah, que palácios de deleites são os banhos públicos!
Ainda que os toalheiros, a entrar de vez em quando,
Um pouco estraguem o prazer.

    NUWAS, Abu. Carousing with gazelles. Trad. Jaafar Abu Tarab. New York: iUniverse, 2005.

14.10.12

Zuenir Ventura: "Crime e castigo"





Creio que o seguinte artigo de Zuenir Ventura, publicado em O Globo no dia 13 do corrente, é o mais equilibrado e correto dos muitos que li sobre o julgamento do "mensalão":


Crime e castigo


Com sua serena lucidez, a ministra Cármen Lúcia fez uma ressalva ao votar pela condenação de José Genoino e José Dirceu: "Não estou julgando a história de pessoas que em diversas ocasiões tiveram a vida reta. Estou julgando os fatos apresentados nestes autos." O mesmo poderia ser dito em relação ao PT, cuja trajetória até estourar o escândalo do mensalão foi também reta. Não são os princípios programáticos do Partido dos Trabalhares que estão sendo condenados pelo STF, "não é a história, mas os fatos", como também afirmou o decano Celso de Mello. O que se condena é um acidente grave de percurso, um mau passo, um enorme desvio de conduta. Em reunião com seu Ministério no dia 12 de agosto de 2005, Lula, chocado com as revelações sobre dirigentes do partido, desabafou: "Eu me sinto traído por práticas inaceitáveis sobre as quais eu não tinha qualquer conhecimento. Não tenho nenhuma vergonha de dizer que nós temos de pedir desculpas. O PT tem de pedir desculpas. O governo, onde errou, precisa pedir desculpas."

Por que não pedir agora? Por que o Lula de 2012 reage ao julgamento mandando seus companheiros receberem o castigo de "cabeça erguida", como se houvesse algum motivo para soberba? Seria tão mais honesto, tão mais coerente com as origens éticas do partido se, em vez de desqualificar o trabalho do Supremo com suspeitas infundadas e se, em lugar de responsabilizar a mídia, os réus mensaleiros aceitassem o revés com humildade e fizessem uma corajosa autocrítica como pedia Lula sete anos atrás.

Como dirigentes partidários ousam suspeitar da isenção de uma Corte cujos membros em sua maioria foram indicados por Lula e Dilma e que, portanto, não têm qualquer razão para lhes ser deliberadamente hostis? Que interesses levariam esses juízes a sacrificar suas reputações para "condenar sem provas"? Como colocar em dúvida a correção de um personagem como Joaquim Barbosa, que pode ter um temperamento difícil, mas cuja opção política é conhecida (há dias, ele confessou em entrevista ter votado três vezes em Lula, sem arrependimento, porque "as mudanças e avanços no Brasil nos últimos dez anos são inegáveis").

Os petistas acreditam ter motivos de queixa pelo rigor inédito do STF, que, espera-se, não seja de exceção, aplicado apenas nesse caso. Mas, ao se recusar a assumir a culpa que lhe cabe, o PT perdeu a oportunidade histórica de ser diferente também no erro, como foi um dia nos acertos.

Zuenir Ventura

13.10.12

Friedrich Nietzsche: "Morte"




89. Morte

Com a perspectiva segura da morte, uma deliciosa, odorosa gota de leviandade poderia ser mesclada a cada vida -- mas vocês, estranhas almas de farmacêutico, dela fizeram uma gota de veneno de mau sabor, com que toda a vida se torna repugnante!




NIETZSCHE, Friedrich. In:_____. 100 aforismos sobre o amor e a morte. Seleção e organização de Paulo César de Souza. São Paulo: Penguin / Companhia das Letras, 2012.

11.10.12

Constantinos Caváfis: O espelho da entrada / trad. José Paulo Paes





O espelho da entrada


À entrada da mansão
havia um grande espelho muito antigo,
comprado pelo menos há mais de oitenta anos.

Um rapaz belíssimo, empregado de alfaiate
(e nos domingos atleta diletante)
estava ali com um pacote.

Deu-o a alguém da casa, que o levou para dentro
com o recibo. O empregado do alfaiate
ficou sozinho, à espera.

Acercou-se do espelho e mirou-se
para ajeitar a gravata. Após cinco minutos,
trouxeram-lhe o recibo e ele se foi.

Mas o antigo espelho, que vira e revira
nos seus longos anos de existência
coisas e rostos aos milhares;
mas o antigo espelho agora se alegrava
e exultava de haver mostrado sobre si
por um instante a beleza culminante.



CAVÁFIS, Constantinos. In: PAES, José Paulo (org. e trad.). Poesia moderna da Grécia. Rio de Janeiro: Guanabara, 1986

8.10.12

Francisco Alvim: "Sofrimento"




Sofrimento

Cara de tristeza na festa
Anda, vê um copo d'água pra teu pai





ALVIM, Francisco. "Elefante". In:_____. Poemas [1968-2000]. São Paulo: Cosac & Naify; Rio de Janeiro: 7 Letras, 2004.


6.10.12

Roberto Corrêa dos Santos: "O Porventura, de Antonio Cicero"



Com grande felicidade recebi, do grande artista e teórico da literatura e da arte Roberto Corrêa dos Santos, o seguinte belíssimo texto sobre o meu livro Porventura:





O Porventura, de Antonio Cicero


por Roberto Corrêa dos Santos



I



Alumbram-me, diga-se logo, nos poemas plasmados no Porventura, de Antonio Cicero, as sabedorias de vida e de arte verbal ali inscritas – sabedorias sempre a um tempo joviais e maduras; alumbram-se igualmente o ter-se feito no livro um trajeto que permite a todos o poder seguir sem asperezas de transcurso a variedade de pensamentos plásticos, modulares e rítmicos sobre coisas e existência várias e o quente espalhar-se nos versos um si assubjetivo e, portanto, público, exposto com as virtudes de um medido dizer, uma enunciação que não se transborda senão até o exato afeto a propagar-se do leitor no espírito: ora a voz ergue-se vivaz e aos saltos e alegre, ora a voz traz o desenho não do sussurro mas do construir-se um cantar em escrita e em tom, afirme-se, deliciosamente afagante: difícil não ser pelas linhas conduzido, em leveza não presente em poeta algum dos do Brasil e assim entregar-se ao bom traço das direções que Cicero faz ocorrer qual um acontecimento, um sopro, uma epifania sem distúrbio. Nas modéstia e brancura clássicas do Porventura, desde logo envolvido sou por frases que se encontram em apagamentos que avocam o, destaque-se, advérbio... ‘de dúvida’, de inexistente dúvida; alteia-se um porventura de forma nominal, a um passo do nome, do pronome, da massa de um quase-substantivo; não só de polidezas o termo do título se constrói. Em inventável ‘porventura, terias uma xícara?’ marcar-se-ia o talvez, não como dúvida ou hesitação, e sim como hipótese; não o sinal de um indagar retórico mas o grafismo de um movimento, de um balanço, um pêndulo elegante e risonho no mundo das frases, das tantas frases de hoje, escritas e desgraciadas; no porventura, esse, bem o talvez: um talvez a provavelmente deslocar-se para inserir-se entre o definido e o indefinido, constituindo outras macias sinuosidades na ordem normalmente dura das perguntas, e, ainda também, com o termo, o porventura, produz-se certa evidência – sendo título, e só (seus suplementos lá, no corpo dos versos) – de suavíssimo enigma; enigma posto na capa (junto ao sempre belo compor de Luciano Figueiredo), oferecendo no conjunto geral da obra uma tal interessante contemporaneidade a situar-se em parceria com os muitos feitos de arte visual constituídos ‘simplesmente’ pelas recolhas e pelo registros de matérias brandas que visam à partilha de mimos, de delicados mimos, como os de Brígida Baltar ou os de Daniela Seixas – aquela pesca orvalhos, brisas, noites, coloca-os em frascos; esta cola pestanas que tombam de seus olhos diante de folhas de papel de trabalho, e nascem sob adesivos discretos parênteses, parênteses vindos do corpo. Vem do corpo e do ar o Porventura, de Cicero: o livro guarda-os, protege-os, afaga-os; inteiro vi seu irmão Roberto, Corrêa como eu. E nele sorriu meu irmão Luizinho, Lulu Corrêa.


II


Poder-se-ia o porventura instalar-se em ‘faria eu isto de morrer agora se porventura não tivesses chegado a tempo’; na frase, como no retângulo editado, certa bênção pagã, recordos de aventurança, potências de um não-acontecer justo por destino: assim, instalam-se na espacial geometria de Cicero (a) o campo aberto, (b) a vida sagrada e sem dogma, (c) a possibilidade ardente, (d) o riso e a fenda, sem melancolias fracas. E a epígrafe, entretanto, põe-se a rasurar um dos porventura, aquele relativo à poesia: ‘a poesia’ – certifica, com quem escreve, Cocteau –, ‘a poesia, indispensável’. Dessa convicta firmeza, desse nenhum porventura entre os muitos outros porventura, vão-se fazendo esboços de uma aristocrática Poética e seus itens gerais. Descrevo-os: (1 poema 1) em estado de poesia, o não ser possível o amadurecimento: pode alguém tornar-se velho, somente velho; velho e, jovialmente, não maduro – deuses, sim, esses poderão madurar os amados, próximos e a virem; (2 poema 2) em estado de poesia, o impossível de evitar-se a morte, podendo-se, porém, afastar sombra e derrota; (3 poema 3) em estado de poesia, o perderem-se os rumos do olho e do ego, elaborando-se e firmando-se, e isso apenas possivelmente, o vigor do a tornar-se; (4 poema 4) em estado de poesia, o humor e o contraste lado a lado e no mesmo largo continente; (5 poema 5) em estado de poesia, o interditar-se das histórias pingentes e esmolas; (6 poema 6) em estado de poesia, a entrega à arte de fisgar o que para sempre escapa; (7 poema 7) em estado de poesia, o exame cuidadoso da coisa olhada, tendo em conta, dia a dia, o inadiável retorno; (8 poema 8) em estado de poesia, o estar sempre aquém no gesto de caminhar e caminhar em direção aos jamais suficientes louvores a mestres genealógicos; (9 poema 9) em estado de poesia, o saltar em voo, tendo o terreno; (10 poema 10) em estado de poesia, o ir à matéria do amor, a que suspende o repirar e o ver; (11 poema 11) em estado de poesia, os esquecimentos quanto a feitos quando feitos; (12 poema 12) em estado de poesia, o destacar da morte a cor; (13 poema 13) em estado de poesia, a deriva e o esmo em mapas idos, até refazer da origem um dêitico do aqui, e do já; (14 poema 14) em estado de poesia, o deflagrar de frases sobre o ativo e grande vazio; (15 poema 15) em estado de poesia, o bem o grande bem do desviar-se; (16 poema 16) em estado de poesia, o de novo esquecer-se do exato término-a-vir, dobrando-se por sobre a agoralidade, um termo seu, Cicero; (17 poema 17) em estado de poesia, o dar a ver, no menor, o miolo, o isto de entes segredando; (18 poema 18) em estado de poesia, o restar em páginas o vagado sobre solos e grãos; (19 poema 19) em estado de poesia, o precaver-se e o prosseguir; (20 poema 20) em estado de poesia, o concentrar, por vezes, todos os plurais; (21 poema 21) em estado de poesia, o abrir com as mãos o que seja natural, desentranhando-lhe duas não contornáveis cores provenientes de tintas básicas; (22 poema 22) em estado de poesia, o auscultar na seta à frente o sentido do vital antes; (23 poema 23) em estado de poesia, o aconchegar-se no macio bom das coisas, dando-se de algum modo ao pronto para o interromper; (24 poema 24) em estado de poesia, o traçar em pathos de distância o implacável mas retido grito; (25 poema 25) em estado de poesia, o reconhecer o terreno, defendendo-o se necessário; (26 poema 26) em estado de poesia, o saber – dele valendo-se – da potência das tinturas; (27 poema 27) em estado de poesia, o aceitar a hipótese de ser traído pelo que fez; (28 poema 28) em estado de poesia, o clarear, por curvos jeitos, modos alguns de as ilusões funcionarem; (29 poema 29) em estado de poesia, o aclamar as aberturas que se incorporam em virtude do muito mais do que houver no haver; (30 poema 30) em estado de poesia, o sublinhar o risco a inserir-se entre o incômodo, o outro, o pensamento; (31 poema 31) em estado de poesia, o indicar com beleza tonteante a quase infixável passagem do epifânico; (32 poema 32) em estado de poesia, o despedir-se; (33 poema 33) em estado de poesia, o despedir-se; (34 poema 34) em estado de poesia, o recolher-se no ao redor; (35 poema 35) em estado de poesia, o remeter a, o remeter a – dormir. Dormir, após as curvas verbais, as teclas das rimas em costuras internas como se pontos gráficos e notas musicais, as pianísticas, e a flauta soando, interrompendo-se, e as muitas ligas conjuntivas eeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeee: as personagens surgindo e logo familiares, próximas: uma atual arte de mover e mover e mover um novo Sonho de uma noite de verão, por meio de um raro e outro como se, um como se poético-ficcional – feliz –, a girar o Porventura amplo, seu teatro lírico de radical delicadeza forte; assim o mirei seu operar, Cicero, mirei-o com todo o corpo – extasiado, sim: extasiado.



3.10.12

Ferreira Gullar: Entrevista à revista Veja




A seguinte -- brilhante -- entrevista do poeta Ferreira Gullar a Pedro Dias Leite, da revista Veja, foi publicada em 26 de setembro do corrente.



UMA VISÃO CRÍTICA DAS COISAS
Pedro Dias Leite

O poeta diz que o socialismo não faz mais sentido, recusa o rótulo de direitista e ataca: “Quando ser de esquerda dava cadeia, ninguém era. Agora que dá prêmio, todo mundo é”

Um dos maiores poetas brasileiros de todos os tempos, Ferreira Gullar, 82 anos, foi militante do Partido Comunista Brasileiro e, exilado pela ditadura militar, viveu na União Soviética, no Chile e na Argentina.

Desiludiu-se do socialismo em todas as suas formas e hoje acha o capitalismo “invencível”.

É autor de versos clássicos — “À vida falta uma parte / — seria o lado de fora — / para que se visse passar / ao mesmo tempo que passa / e no final fosse apenas / um tempo de que se acorda / não um sono sem resposta. / À vida falta uma porta”.

Gullar teve dois filhos afligidos pela esquizofrenia. Um deles morreu. O poeta narra o drama familiar e faz a defesa da internação em hospitais psiquiátricos dos doentes em fase aguda. Sobre seu ofício, diz: “Tem de haver espanto, não se faz poesia a frio”.

O senhor já disse que “se bacharelou em subversão” em Moscou e escreveu um poema em que a moça era “quase tão bonita quanto a revolução cubana”. Como se deu sua desilusão com a utopia comunista?

GULLAR: Não houve nenhum fato determinado. Nenhuma decepção específica. Foi uma questão de reflexão, de experiência de vida, de as coisas irem acontecendo, não só comigo, mas no contexto internacional. É fato que as coisas mudaram. O socialismo fracassou. Quando o Muro de Berlim caiu, minha visão já era bastante crítica.

A derrocada do socialismo não se deu ao cabo de alguma grande guerra. O fracasso do sistema foi interno. Voltei a Moscou há alguns anos. O túmulo do Lenin está ali na Praça Vermelha, mas pelo resto da cidade só se veem anúncios da Coca-Cola. Não tenho dúvida nenhuma de que o socialismo acabou, só alguns malucos insistem no contrário. Se o socialismo entrou em colapso quando ainda tinha a União Soviética como segunda força econômica e militar do mundo, não vai ser agora que esse sistema vai vencer.

Por que o capitalismo venceu?

GULLAR: O capitalismo do século XIX era realmente uma coisa abominável, com um nível de exploração inaceitável. As pessoas com espírito de solidariedade e com sentimento de justiça se revoltaram contra aquilo. O Manifesto Comunista, de Marx, em 1848, e o movimento que se seguiu tiveram um papel importante para mudar a sociedade.

A luta dos trabalhadores, o movimento sindical, a tomada de consciência dos direitos, tudo isso fez melhorar a relação capital-trabalho. O que está errado é achar, como Marx diz, que quem produza riqueza é o trabalhador e o capitalista só o explora. É bobagem. Sem a empresa, não existe riqueza. Um depende do outro. O empresário é um intelectual que, em vez de escrever poesias, monta empresas. É um criador, um indivíduo que faz coisas novas.

A visão de que só um lado produz riqueza e o outro só explora é radical, sectária, primária. A partir dessa miopia, tudo o mais deu errado para o campo socialista. Mas é um equívoco concluir que a derrocada do socialismo seja a prova de que o capitalismo é inteiramente bom. O capitalismo é a expressão do egoísmo, da voracidade humana, da ganância. O ser humano é isso, com raras exceções.

O capitalismo é forte porque é instintivo. O socialismo foi um sonho maravilhoso, uma realidade inventada que tinha como objetivo criar uma sociedade melhor. O capitalismo não é uma teoria. Ele nasceu da necessidade real da sociedade e dos instintos do ser humano. Por isso ele é invencível.

A força que torna o capitalismo invencível vem dessa origem natural indiscutível. Agora mesmo, enquanto falamos, há milhões de pessoas inventando maneiras novas de ganhar dinheiro. É óbvio que um governo central com seis burocratas dirigindo um país não vai ter a capacidade de ditar rumos a esses milhões de pessoas. Não tem cabimento.

O senhor se considera um direitista?

GULLAR: Eu, de direita? Era só o que faltava. A questão é muito clara. Quando ser de esquerda dava cadeia, ninguém era. Agora que dá prêmio, todo mundo é. Pensar isso a meu respeito não é honesto. Porque o que estou dizendo é que o socialismo acabou, estabeleceu ditaduras, não criou democracia em lugar algum e matou gente em quantidade. Isso tudo é verdade. Não estou inventando.

E Cuba?

GULLAR: Não posso defender um regime sob o qual eu não gostaria de viver. Não posso admirar um país do qual eu não possa sair na hora que quiser. Não dá para defender um regime em que não se possa publicar um livro sem pedir permissão ao governo. Apesar disso, há uma porção de intelectuais brasileiros que defendem Cuba, mas, obviamente, não querem viver lá de jeito nenhum. É difícil para as pessoas reconhecer que estavam erradas, que passaram a vida toda pregando uma coisa que nunca deu certo.

Como o senhor define sua visão política?

GULLAR: Não acho que o capitalismo seja justo.

O capitalismo é uma fatalidade, não tem saída. Ele produz desigualdade e exploração. A natureza é injusta. A justiça é uma invenção humana. Um nasce inteligente e o outro burro. Um nasce inteligente, o outro aleijado. Quem quer corrigir essa injustiça somos nós. A capacidade criativa do capitalismo é fundamental para a sociedade se desenvolver, para a solução da desigualdade, porque é só a produção da riqueza que resolve isso. A função do estado é impedir que o capitalismo leve a exploração ao nível que ele quer levar.

Qual a sua visão do governo Dilma Rousseff?

Dilma é uma mulher honesta, não rouba, não tem a característica da demagogia. Mas ela foi posta no poder pelo Lula. Assim, não tem autoridade moral para dizer não a ele. Nesse aspecto, é prisioneira dele.

Como o senhor avalia a perspectiva de condenação dos réus do mensalão?

GULLAR: O julgamento não vai alterar o curso da história brasileira de uma hora para a outra. Mas o que o Supremo está fazendo é muito importante. É uma coisa altamente positiva para a sociedade. Punir corruptos, pessoas que se aproveitaram de posições dentro do governo, é uma chama de esperança.

O senhor se identifica com algum partido político atual?

GULLAR: Eu fui do Partido Comunista, mas era moderado. Nunca defendi a luta armada. A luta armada só ajudou mesmo a justificar a ação da linha dura militar, que queria aniquilar seus oponentes. Quando fui preso, em 1968, fui classificado como prisioneiro de guerra. O argumento dos militares era, e é, irrespondível: quem pega em armas quer matar, então deve estar preparado para morrer.

O senhor condena quem pegou em armas para lutar contra o regime militar?

GULLAR: Quem aderiu à luta armada foram pessoas generosas, íntegras, tanto que algumas sacrificaram sua vida. Mas por um equívoco. Você tem de ter uma visão critica das coisas, não pode ficar eternamente se deixando levar por revolta, por ressentimentos. A melhor coisa para o inimigo é o outro perder a cabeça. Lutar contra quem está lúcido é mais difícil do que lutar contra um desvairado.

Como se justifica sua defesa da internação no tratamento da esquizofrenia?

GULLAR: As pessoas usam a palavra manicômio para desmoralizar os hospitais psiquiátricos. Internei meu filho em hospitais que têm piscina, salão de jogos, biblioteca. Mesmo os públicos não têm mais a camisa de força ou sala com grades. Tive dois filhos esquizofrênicos. Um morreu, o outro está vivo, mas não tem mais o problema no mesmo grau. Controlou com remédio, e a idade também ajuda. A esquizofrenia surge na adolescência e se junta à impetuosidade. Com o tempo, a pessoa vai amadurecendo. Doença é doença, não é a gente. Se estou gripado, a gripe não sou eu. A esquizofrenia é uma doença, mas eu não sou a esquizofrenia. Posso evoluir, me tornar uma pessoa mais madura, debaixo de toda aquela confusão. O esquizofrênico com 50 anos não é o mesmo de quando tinha 17.

Qual o pior momento na sua convivência com filhos esquizofrênicos?

GULLAR: Quando a pessoa entra em surto, ela pode se jogar pela janela. Meu filho, o Paulo, se jogou. Hoje ele anda mancando porque sofreu uma lesão na coluna. Ele conversava comigo, via televisão, brincava, lia meus poemas. Em surto, não tinha controle. Queria estrangular a empregada. Nessas horas, a única maneira é internar e medicar. Nesse estado, sem nenhum socorro, o esquizofrênico pode fazer qualquer coisa.

A família pobre faz o quê, se não tem mais onde internar?

Se mantiver a pessoa em casa, ela poderá tocar fogo em tudo, pegar uma faca e tentar assassinar o pai. Poderá fugir para a rua, desvairada. Essa política contra os hospitais psiquiátricos tem como resultado prático uma tragédia em que os ricos internam seus filhos em clínicas particulares e os pobres morrem na rua.

Quando ouço alguém dizer que as famílias internam os filhos porque querem se ver livres deles, só posso pensar que essa pessoa gosta dos meus filhos mais do que eu. Nunca viu meu filho, mas ama meu filho mais do que eu. Absurdo. Você não sabe o que é uma família ter um filho esquizofrênico. Além do problema do tratamento, existe o desespero de não saber o que fazer.

Os hospitais psiquiátricos continuam a existir porque os médicos sabem que não há outra saída. Não se interna um doente para que ele fique vinte anos lá dentro, mas sim três dias, três meses. Meus filhos nunca ficaram internados além do tempo necessário. Eles voltavam para casa normais. Era uma alegria. Nenhuma família quer ter seu filho preso.

Como foi a primeira vez que se defrontou com a doença?

GULLAR: O primeiro surto do Paulo foi no exílio, em Buenos Aires. Um dia, no apartamento, a gente estava brincando, a bola desceu pela escada, ele saiu para pegá-la e não voltou. Desci, ele tinha sumido. Em que direção eu ando? Voltei para casa e fiquei chorando, não sabia o que fazer. Paulo ficou meses sumido. Isso foi em 1974, logo que cheguei a Buenos Aires. Terminei encontrando-o preso. No desvario, ele tentou roubar um carro — não sabia nem dirigir — e foi preso. Fez greve de fome. Estava esquelético.

O policial disse que era preciso uma ordem para soltá-lo, porque era menor. Mas deixou que eu levasse meu filho, porque sabia que ele estava doente. Levei o Paulo para casa. Ele entrou e começou a arrebentar a janela. Morávamos no quinto andar. Ele foi internado. Até o dia em que, esperto como é, sumiu do hospital, para sempre. Foi encontrado em São Paulo. Saiu de Buenos Aires sem um tostão, com a roupa do corpo. Esses episódios não têm fim.

Como é seu método para fazer poesia?

GULLAR: Já fiquei doze anos sem publicar um livro. Meu último saiu há onze anos. Poesia não nasce pela vontade da gente, ela nasce do espanto, alguma coisa da vida que eu vejo e que não sabia. Só escrevo assim. Estou na praia, lembro do meu filho que morreu. Ele via aquele mar, aquela paisagem. Hoje estou vendo por ele. Aí começo um poema… Os mortos veem o mundo pelos olhos dos vivos. Não dá para escrever um poema sobre qualquer coisa.

O mundo aparentemente está explicado, mas não está. Viver em um mundo sem explicação alguma ia deixar todo mundo louco. Mas nenhuma explicação explica tudo, nem poderia. Então de vez em quando o não explicado se revela, e é isso que faz nascer a poesia. Só aquilo que não se sabe pode ser poesia.

A idade é uma aliada ou uma inimiga do poeta?

GULLAR: Com o avanço da idade, diminuem a vontade e a inspiração. A gente passa a se espantar menos. Tem poeta que não se espanta mais, mas insiste em continuar escrevendo, não quer se dar por vencido. Então ele começa a escrever bobagens ou coisas sem a mesma qualidade das que produzia antes. Saber fazer ele sabe, mas é só técnica, falta alguma coisa. Não se faz poesia a frio. Isso não vai acontecer comigo. Sem o espanto, eu não faço.

Escrever só para fazer de conta, não faço. Eu vou morrer. O poeta que tem dentro de mim também. Tudo acaba um dia. Quando o poeta dentro de mim morrer, não escrevo mais. Não vou forçar a barra. Isso não vai acontecer. Toda vez que publico um livro, a sensação que tenho é de que aquele é o definitivo. Escrever um poema para mim é uma grande felicidade. Se não acontecer, não aconteceu.



1.10.12

Ruy Espinheira Filho: "Depois"




Depois


Depois, saiu andando pela tarde.
Alguém cantava, longe, acalentando
os escombros do ocaso. E até onde
ele chegara se chamava vida.
Assim pensou, enquanto ouvia a doce
canção da Ausente, de onde renasciam
borboletas, regatos, girassóis
e cães ladrando em quintais antigos.
Olhou (andando, andando) o céu cinzento.
O que restava? Aquilo. As tantas horas
mortas, mortas palavras, morto chão
do amor, dispersos hálitos de alma,
e morta a infância, e tudo morto, morto
- mas persistindo, ali, com uma pátina
inelutável, e se chamava vida.
E ele parou, sentindo-se. E, repleto,
depois saiu andando pela tarde.



ESPINHEIRA FILHO, Ruy. "Memória da chuva". In:_____. Antologia poética. Salvador: Fundação Casa de Jorge Amado/Copene, 1996.

27.9.12

Ítalo Calvino: de "Por que ler os clássicos"



Segunda proposta de definição de "clássico":


Faz alguns anos, Michel Butor, lecionando nos Estados Unidos, cansado de ouvir perguntas sobre Emile Zola, que jamais lera, decidiu ler todo o ciclo dos Rougon-Macquart. Descobriu que era totalmente diverso do que pensava: uma fabulosa genealogia mitológica e cosmogônica, que descreveu num belíssimo ensaio. Isso confirma que ler pela primeira vez um grande livro na idade madura é um prazer extraordinário: diferente (mas não se pode dizer maior ou menor) se comparado a uma leitura da juventude. A juventude comunica ao ato de ler como a qualquer outra experiência um sabor e uma importância particulares; ao passo que na maturidade apreciam-se (deveriam ser apreciados) muitos detalhes, níveis e significados a mais. Podemos tentar então esta outra fórmula de definição:


2 Dizem-se clássicos aqueles livros que constituem uma riqueza para quem os tenha lido e amado; mas constituem uma riqueza não menor para quem se reserva a sorte de lê-los pela primeira vez nas melhores condições para apreciá-los.



CALVINO, Ítalo. "Por que ler os clássicos". In:_____. Por que ler os clássicos. Trad. de Nilson Moulin. São Paulo: Companhia das Letras, 2001.

25.9.12

Francisco Sá de Miranda: "Ao Amor e à Fortuna"






Ao Amor e à Fortuna


Amor e Fortuna são
dous deuses que os antigos
ambos os pintaram cegos;
ambos não seguem rezão;
ambos aos mores amigos
dão mores desassossegos;
ambos são sem piedade;
ambos não lhes tomais tino
do querer ou não querer;
ambos não falam verdade:
Amor é cego minino,
Fortuna é cega mulher.        




SÁ de MIRANDA, Francisco. Obras completas. Lisboa: Sá da Costa, 1976.

23.9.12

Folha de São Paulo: "Subdesenvolvimento puro"




O seguinte -- excelente -- editorial da Folha de São Paulo foi publicado no dia 21 do corrente:


Subdesenvolvimento puro



A publicação de mais charges satirizando o profeta Maomé por uma revista francesa, "Charlie Hebdo", faz antever novas manifestações violentas no Oriente Médio.


Alguns já se perguntam se, de fato, vale a pena que sistemas jurídicos de países democráticos deem guarida a manifestações que poderiam ser classificadas como provocação. E a resposta só pode ser um inequívoco "sim".


Ninguém é obrigado a gostar das charges nem do filme produzido nos EUA que deflagrou a onda de protestos, mas é essencial que se preserve o direito das pessoas de exprimir o que bem entendam. E essa liberdade só faz sentido se for robusta, ou seja, se abarcar até aquilo que a maioria considera errado, ou mesmo repugnante.


Defesa tão veemente da liberdade de expressão poderia parecer um capricho, comparável ao fundamentalismo daqueles que querem blindar cultos e profetas de críticas e sátiras. Mas há uma diferença crucial: enquanto a proteção almejada por religiões serviria apenas para evitar que se questionem seus dogmas, a afirmação do direito de dizer o que se pensa está na origem das principais conquistas da civilização ocidental.


Para começar, a liberdade de expressão é indissociável da própria noção de democracia representativa. A possibilidade de crítica ampla é decisiva não apenas para controlar governantes como também para constituir um eleitorado razoavelmente bem informado, que é a base do sistema.


Mais que isso: se ideias, teorias e evidências não pudessem ser livremente discutidas, a ciência, com todos os confortos tecnológicos que acarreta, caminharia bem mais devagar -se é que se moveria.


Mesmo no campo da moral, tão cara a religiosos, a liberdade de expressão, ao assegurar que todos os temas possam ser discutidos sob todos os aspectos, ajuda a sociedade a encontrar o equilíbrio entre mudança e estabilidade.


A própria noção de modernidade implica aceitar que costumes, tradições e crenças são históricos e se alteram na esteira das transformações da sociedade e do conhecimento objetivo sobre o mundo.


A aversão do fanatismo islâmico à crítica e aos direitos do indivíduo, assim, é um dos fatores que impedem o avanço institucional e científico das sociedades em que se torna dominante -ou seja, impedem seu próprio desenvolvimento. Até que se deem conta da contradição, muito sangue será vertido.




19.9.12

Marco Lucchesi: "Ubi es, vita..."




Ubi es, vita...


O sono de Leopardi

o verbo de Clarice

e a sombra de Cioran


vida vida

eis o botim

dos que reclamam vida



LUCCHESI, Marco. "Temporais". In:_____. Poemas reunidos. Rio de Janeiro: Record, 2000.

17.9.12

Teócrito: Epigrama IX.599: trad. de José Paulo Paes




I.599

Olha para essa estátua, ó forasteiro,
atentamente e diz, de regresso à pátria:
"Eu vi em Teos a estátua de Anacreonte,
que entre os antigos foi excelente aedo".
Ah, e do seu pendor por rapazes não
te esqueças, para dizer o homem todo.



Texto grego: clique para ampliar:





PAES, José Paulo (org. e trad.). Poemas da Antologia Grega ou Palatina. Séculos VII a.C. a V d.C. São Paulo: Companhia das Letras, 2001.

15.9.12

Epicuro: fragmento de "Carta a Meneceu"




Nunca se protele o filosofar quando se é jovem, nem canse o fazê-lo quando se é velho, pois que ninguém é jamais pouco maduro nem demasiado maduro para conquistar a saúde da alma. E quem diz que a hora de filosofar ainda não chegou ou já passou assemelha-se ao que diz que ainda não chegou ou já passou a hora de ser feliz.



Epicure. "Lettre à Ménécée". In: CONCHE, Marcel (org.). Epicure: lettres et maximes. Villiers-sur-mer: Éditions de Mégare, 1977.

14.9.12

Curso "Poesia e Filosofia", no POP








A partir de quarta-feira que vem, darei um curso de três aulas no POP (Pólo de Pensamento), intitulado Poesia e Filosofia. Elas terão lugar nos dias 19 de setembro, 26 de setembro e 3 de outubro. Mais detalhes abaixo (clique na imagem para ampliá-la):





O POP fica na Rua Conde Afonso Celso, 103, no Jardim Botânico, no Rio de Janeiro. Seus telefones são (21)2286-3299 e (21)2286-3682.

12.9.12

Manuel Bandeira: "O espelho"




O espelho

Ardo em Desejo na tarde que arde!
Oh, como é belo dentro de mim
Teu corpo de ouro no fim da tarde:
Teu corpo que arde dentro de mim
Que ardo contigo no fim da tarde!

Num espelho sobrenatural,
No infinito (e esse espelho é o infinito?...)
Vejo-te nua, como num rito,
À luz também sobrenatural,
Dentro de mim, nua no infinito!

De novo em posse da virgindade,
- virgem, mas sabendo toda a vida -
No ambiente da minha soledade,
De pé, toda nua, na virgindade
Da revelação primeira da vida!



BANDEIRA, Manuel. "O ritmo dissoluto". In:_____. Poesia completa e prosa. Rio de Janeiro: Aguilar, 1967.

8.9.12

Adriano Espínola: "O prego"




O que mais dói não
é o retrato na parede,

mas o prego ali
cravado, persistente,

no centro da mancha
do quadro ausente.



ESPÍNOLA, Adriano. Praia provisória. Rio de Janeiro: Topbooks, 2005.

6.9.12

Nulla unda




Nulla unda
tam profunda
quam vis amoris
furibunda.




Nenhuma onda
tão profunda
quanto a força do amor
é furibunda.


Provérbio latino.

3.9.12

Adriano Nunes: "Crítica literária: 'Porventura' de Antonio Cicero




CRÍTICA LITERÁRIA:
"Porventura" de Antonio Cicero


A poesia é indispensável. Isso seria um justo balanço para que um poeta dissesse às musas o quão importante é a poesia, para o próprio poeta, para os outros poetas, para o leitor, para o mundo, para a poesia, sim, para a poesia, porque a poesia que é indispensável é a boa poesia, aquela trabalhada, pensada, muitas vezes tardia, muitas vezes mutilada, dissecada, precisa, que pode demorar anos, meses, dias, horas, minutos ou surgir, súbita, em segundos, como um susto, um lampejo, um relâmpago, para, depois de plena, lançar cosmos no cosmo, existências sobre a existência. Bem, o leitor, no final das contas, no balanço geral, definitivo, é quem mais ganha com isso. O livro "Porventura" de Antonio Cicero, recentemente lançado pelo Grupo Editorial Record, com seus 35 belos poemas, justifica afirmar: A poesia é muito mais que indispensável!

Marcado por momentos intimistas, cotidianos (perdas de amigos, familiares) e reflexivos, "Porventura" se desdobra, multiplica-se a cada vez que é lido. O livro se abre com o denso e tenso poema "Balanço" com hendecassílabos instigantes, belos, nos quais o saldo alegre, nítido, colorido que o amor impõe à vida, anulando a morte, contrapõe-se com a presença fria, dura, pesada, da morte, que também tem arte.

"Porventura" é um grande achado na poesia contemporânea. Seus poemas, aparentemente simples, muitos dos quais fazendo referências ao dia a dia, como se fossem feitos para um leitor comum, desatento, não o são. São versos calculados, feitos com maestria, onde se percebem o rigor técnico apurado, uma sensibilidade superior e um viés poético único, universal, capaz de criar imagens especiais, impactantes, de uma beleza rara, ou melhor, dadas como portentos à vista de quem lê.

Cicero trabalha ainda um de seus temas preferidos, a mitologia, a Grécia Clássica, fazendo referências explícitas a Homero, a Horácio, à Guerra de Troia, a Ícaro, iluminando-nos com o seu saber.

Ao ler "Porventura", emocionei-me bastante. Algo me tocou profundamente. Como leitor. Como poeta. Como amigo que ganha de presente um poema dedicado - "Leblon" -. E chorei ao recitar o poema "Presente" dedicado ao poeta Eucanaã Ferraz, entendendo a pergunta: E Por que não dar a mim mesmo este presente?

"Porventura" é livro para se dar, dar aos amigos, é para louvar, levá-lo aonde se vai, para que a vida seja indispensável, porque é tudo e sagrada.

Adriano Nunes

2.9.12

Pedro Tamen: "(Washington D.C.")






                                               (Washington, D.C.)

Como um velho     como um cão
sentado num parque frente aos desportistas
ressentindo Pessoa     o Campos     como ele
como um velho     como um cão
sentado num parque ao sol
a não pensar em nada ou repensando
as coisas sem interesse e sem razão

Deixar correr o tempo sem memória
entre memoriais de tudo quanto houve
valendo-me assim do que os outros lembram
para nada lembrar     não tanto
como um velho sentado num parque:
como um cão.



TAMEN, Pedro. Memorial indescritível. Lisboa: Gótica, 2000.

31.8.12

Pedro Bloch: de "Sem pedras no caminho"




Sem pedras no caminho

Carlos Drummond de Andrade ("o maior poeta que o Brasil já teve", na opinião de Manuel Bandeira) recebe aquele estudantezinho atrevido que, de saída, lhe pergunta, sem a menor cerimônia, já amigo de "tu":

-- Onde nasceste?

A vontade de Drummond seria responder: "Em Itabiriste". Mas contém e fica à espera. O menino, decididamente da extrema esquerda, quer que todos assumam posição no mundo de hoje. E pergunta:

-- Drummond, qual é a posição de escritor nos dias que vivemos?

Este não hesita e dispara:

-- A posição de escritor pode ser de pé, sentada ou deitada, conforme lhe resulte mais cômodo.

E, diante do espanto do menino, aconselha:

-- Menino, se você não é comunista, vá sendo logo, que é para deixar de ser depressa. Eu também já fui e deixei.

[...]



BLOCH, Pedro. "Sem pedras no caminho". Originalmente publicado na revista Manchete em junho de 1963. In: Carlos Drummond de Andrade. Org. por Larissa Pinto Alves Ribeiro. Rio de Janeiro: Azougue, 2011.

30.8.12

Lançamento do livro "Forma e sentido contemporâneo: Poesia"




Na próxima terça-feira, 4 de setembro, a partir das 19h30, será lançado o livro Forma e sentido contemporâneo: poesia, com textos inéditos de Tzvetan Todorov, Marjorie Perloff, Michel Deguy e José Miguel Wisnik, entre outros, no Oi Futuro do Flamengo. Vejam o convite:


Clique na imagem para ampliá-la:


28.8.12




§100

[...]

Rien faire comme une bête , deitar na água e calmamente olhar para o céu, ‘ser, nada mais, sem qualquer determinação ou realização ulterior’ poderiam tomar o lugar de processo, ato, realização, e assim verdadeiramente cumprir a promessa da lógica dialética de desembocar em sua origem. Nenhum dos conceitos abstratos chega mais perto da utopia realizada do que o da paz eterna.




ADORNO, Theodor. Minima moralia. Frankfurt: Suhrkamp, 1969,

26.8.12

Antonio Cicero em Leituras Sabáticas, na TV Estadão




Ontem foi ao ar a minha participação nas Leituras Sabáticas da TV Estadão, do jornal O Estado de São Paulo. Ficou assim:


25.8.12

Johann Wolfgang von Goethe: sobre o artista




O artista tem com a natureza uma relação dupla: é seu senhor e seu escravo ao mesmo tempo. É seu escravo, na medida em que tem que trabalhar com meios terrestres, para se fazer entender; porém é seu senhor, na medida em que submete esses meios terrestres às suas intenções mais elevadas e os torna servos das mesmas.




GOETHE, Johann Wolfgang von. Briefe, "Gespräche". In: Briefe, Tagebücher, Gespräche. Eingerichtet von Mathias Bertram. Berlin: Directmedia, 1998. CD-Rom.

23.8.12

Salvatore Quasimodo: "Specchio" / "Espelho": trad. Geraldo Holanda Cavalcanti




Espelho

E eis que do tronco
rompem-se os brotos:
um verde mais novo da relva
que o coração acalma:
o tronco parecia já morto,
vergado no barranco.

E tudo me sabe a milagre;
e eu sou aquela água de nuvens
que hoje reflecte nas poças
mais azul seu pedaço de céu,
aquele verde que se racha da casca
e que tampouco ontem à noite existia.


Specchio

Ed ecco sul tronco
Si rompono gemme:
un verde più nuovo dell’erba
che il cuore riposa:
il tronco pareva già morto,
piegato sul botro.

E tutto mi sa di miracolo;
e sono quell’acqua di nube
che oggi rispecchia nei fossi
più azzurro il suo pezzo di cielo,
quel verde che spacca la scorza
che pure stanotte non c’era.



QUASIMODO, Salvatore. Poesias. Seleção, trad. e notas de Geraldo Holanda Cavalcanti. Rio de Janeiro: Record, 1999.

21.8.12

Paulo Guedes: "Socialismo tardio"




O seguinte -- excelente -- artigo do economista Paulo Guedes foi publicado em O Globo na segunda-feira, 20 de agosto:


Socialismo tardio

“Presidentes que não saem do ar: Hugo Chávez, da Venezuela, Cristina Kirchner, da Argentina, e Rafael Correa, do Equador, usam redes nacionais de rádio e TV para impor sua visão”, informa O GLOBO de ontem em matéria que revela como arma política o “microfone estatal a serviço do poder”.

Estive em Cuba com minha família há apenas alguns anos. Fidel Castro era ainda presidente. Quando liguei a televisão no hotel e percorri os canais, o comandante estava em todos eles. Era ainda pior do que esse clássico sintoma de tiranetes em ascensão que se comunicam com frequência em cadeias nacionais de televisão.

Filmado em diferentes ocasiões, em longuíssimos discursos, fazia preleções para crianças em escolas, presidia reuniões políticas, exortava jovens em cerimônias de formatura universitária, recebia delegações políticas estrangeiras, em onipresente tentativa de lavagem cerebral.

Entusiasmante nos primeiros minutos, tolerável por meia hora e insuportável a partir de então. Chávez, a cuja visita pude assistir naquela ocasião, teve mesmo em Fidel um grande mestre.

Hoje sabemos todos que Lula não era Chávez. Mas nem todos sabíamos que o Brasil não é a Venezuela. O antigo procurador-geral da República Antonio Fernando de Souza sabia. O atual procurador-geral, Roberto Gurgel, e o ministro do Supremo Tribunal Federal Joaquim Barbosa também. Quem não sabia era a turma do mensalão.

Há quem, ainda hoje, acredite na concentração dos poderes políticos, na centralização administrativa, na estatização da economia e no controle da mídia como receitas adequadas para o Brasil. O equívoco intelectual tem nome: um exacerbado socialismo nacionalista.

Essa é uma estrada conhecida, trilhada à “esquerda” e à “direita” por regimes totalitários que infelicitaram milhões de seres humanos. Enveredaram por esse caminho as ditaduras de partido único da Itália de Mussolini, da Alemanha de Hitler, da Rússia de Stalin. O caminho da servidão.

“Mussolini foi antes de tudo um socialista. O ingrediente nacionalista foi também virulento. O fascismo italiano é, como o nazismo alemão, um nacional-socialismo”, diagnostica o insuspeito e lúcido Edgar Morin, em “Cultura e barbárie europeias” (2005). O socialismo bolivariano é a doença latina do século XXI.

19.8.12

Lançamento do livro de poemas "Porventura" em São Paulo



Convido os amigos e leitores do blog residentes em São Paulo para o lançamento do meu novo livro de poemas, "Porventura", que terá lugar amanhã (segunda-feira), a partir das 19h30, no Espaço Revista Cult, na Rua Inácio Pereira da Rocha, 400, em Vila Madalena.





17.8.12

Vinícius de Moraes: "A anunciação"




A anunciação

Virgem! filha minha
De onde vens assim
Tão suja de terra
Cheirando a jasmim
A saia com mancha
De flor carmesim
E os brincos da orelha
Fazendo tlintlin?
Minha mãe querida
Venho do jardim
Onde a olhar o céu
Fui, adormeci.
Quando despertei
Cheirava a jasmim
Que um anjo esfolhava
Por cima de mim...



MORAES, Vinícius de. Nova antologia poética. Org. por Antonio Cicero e Eucanaã Ferraz. São Paulo: Companhia das Letras, 2003.

14.8.12

"Por que escreve?"





Remexendo no meu computador, achei a resposta que, em janeiro de 2011, dei ao Marcos Lopes, professor do Departamento de Teoria Literária da UNICAMP, quando ele me fez a pergunta: "Por que escreve?". Hoje, por ocasião do lançamento do meu novo livro de poemas, Porventura, achei interessante publicá-la.


Marcos Lopes: Por que escreve?

Antonio Cicero: Evidentemente, a pergunta não diz respeito à razão pela qual escrevo coisas tais como e-mails, currículos, listas de compras etc. O que se quer saber é por que escrevo as coisas pelas quais sou considerado escritor, isto é, por que escrevo poemas e ensaios. Ora, escrevo poemas por umas razões e ensaios por outras.

Mas há, de fato, uma razão pela qual escrevo tanto poemas quanto ensaios: uma razão pela qual me tornei escritor. É que toda fala – inclusive a fala (o desenrolar) do pensamento – parece-me deficiente. É através da escrita que adquiro posse real do meu próprio pensamento. Assim, para mim, a fala, quando não tem um sentido meramente utilitário, é uma espécie de protorrascunho da escrita.

No que diz respeito à teoria, isso quer dizer que não se consegue ser suficientemente preciso a menos que se use a escrita para tornar as ideias claras e distintas, como queria Descartes. Só a escrita permite a revisão, a análise e a correção do discurso. A fala é o domínio privilegiado da falácia retórica. A escrita falaciosa é a que está impregnada de fala. Através da escrita e da reescritura tento captar e eliminar ao máximo as falácias: em primeiro lugar, as do meu próprio pensamento; em segundo lugar, as dos pensamentos alheios.

Quanto à poesia, considero um poema como uma obra de arte elaborada com palavras. Ora, é a escrita que permite a elaboração mais cuidadosa. Para produzir uma obra de arte elaborada com palavras é preciso – tendo em vista finalidades inteiramente diferentes das teóricas – rever, analisar e corrigir o seu esboço tantas vezes quantas se fizerem necessárias.

A fala – inclusive, como eu já disse, a do pensamento – constitui um protorrascunho. A partir desse protorrascunho, escreve-se o primeiro rascunho. É preciso passá-lo a limpo, isto é, retirar-lhe tudo o que não lhe pertence por direito, modificar o que deve ser modificado, adicionar o que falta, reduzi-lo ao que deve ser e apenas ao que deve ser. Nesse procedimento, vários rascunhos se sucedem. Sem a escrita isso seria impossível.

Mas talvez a pergunta seja: Por que escrevo poemas? A resposta se encontra guardada no meu poema Guardar. Seu final diz:

Por isso se escreve, por isso se diz, por isso se publica, por isso se
declara e declama um poema:
Para guardá-lo:
Para que ele, por sua vez, guarde o que guarda:
Guarde o que quer que guarda um poema:
Por isso o lance do poema:
Por guardar-se o que se quer guardar.

13.8.12

Entrevista a Luciano Trigo




Hoje foi publicada no "Portal G1" (http://g1.globo.com/platb/maquinadeescrever/) a entrevista que dei para Luciano Trigo sobre o livro Porventura, que estou lançando hoje, na Livraria da Travessa de Ipanema, a partir das 19h.

12.8.12

Oscar Wilde: de "O crítico como artista"




Os seres humanos são escravos das palavras. Indignam-se contra o Materialismo, como dizem, esquecidos de que jamais houve melhoria material que não tenha espiritualizado o mundo e que tem havido poucos, se é que algum, despertar espiritual que não tenha desperdiçado as faculdades do mundo em esperanças estéreis e aspirações improdutivas, e crenças vazias ou estorvantes. O que chamam de “pecado” é um elemento essencial do progresso. Sem ele, o mundo estagnaria ou envelheceria, ou se tornaria sem graça.



WILDE, Oscar. "The critic as artist". In:_____. The works of Oscar Wilde. London: Collins, 1980.

10.8.12

Lançamento do livro "Porventura", de Antonio Cicero




Clique na imagem do convite, para ampliá-la:

8.8.12

Antonio Cicero: "Na praia"




Eis um poema do meu novo livro, Porventura, que será lançado, no Rio de Janeiro, na próxima segunda-feira, dia 13, na Livraria da Travessa de Ipanema e, em São Paulo, na segunda-feira seguinte, dia 20, no Espaço Revista Cult, na Rua Inácio Pereira da Rocha, 400, Vila Madalena.


Na praia

Na praia –- parece que foi ontem --
ficávamos dentro d’água eu,
Roberto, Ibinho, Roberto Fontes
e Vinícius, a água era um céu,
e voávamos nas ondas trans-
parentes, deslizantes, do azul
mais profundo do fundo ciã
do oceano Atlântico do sul.
Mas era outro século: Roberto
morreu, morreu Vinícius, Roberto
Fontes quase nunca vejo, e Ibinho
casou e mudou. Já não procuro
o azul. Os mares em que mergulho
são os homéricos, cor de vinho.




CICERO, Antonio. Porventura. Rio de Janeiro: Record, 2012.

5.8.12

José Castello: "Cicero em transe"




O seguinte artigo de José Castello foi publicado no suplemento "Prosa e Verso", do jornal O Globo, no dia 3 de agosto:


Cicero em transe

Nas mãos hábeis de Antonio Cícero, a poesia se transforma em uma dança. E o poeta, em uma dança. O próprio Cícero descreve: “Eram palavras aladas/ e faladas não para ficar/ mas, encantadas, voar”. Refere-se aos juramentos de amor, que fazemos entrelaçados na cama, envoltos nos lençóis da língua. Palavras em que a sedução vale mais que a eficácia. “Carícias que por lá/ sopramos: brisas afrodisíacas/ ao pé do ouvido, jamais contratos”. Vivemos no século das transações, dos acordos jurídicos e dos compromissos comerciais. Mundo em que o desejo parece não só imprestável, mas vergonhoso. Pois a poesia, com sua dança, é o terreno do desejo. Enquanto o mundo se verticaliza na ilusão do poder, o poeta se deita para dele duvidar.

Leio os versos de Antonio Cícero em “Porventura”, sua nova e inspiradora coletânea de poemas (Record). Leio e meu coração de leitor também balança. Homens que sabem o que querem não leem versos. “Jamais serei plenamente adulto:/ antes de sê-lo, serei velho”, escreve o poeta, desprezando as certezas que petrificam. A suspeita de que jamais será completamente adulto (pedra) é uma aposta no movimento. O poeta não apenas dança, mas gira, e com seu giro perfura a casca da arrogância. Entra em transe, vive em transe: para o poeta, escrever é uma dança que não se esgota.

Dois mestres surgem em cena, dois poetas, grandes poetas: o anglo-americano W. H. Auden (1907-1979) e o irlandês W. B. Yeats (1865-1939). “Eu exaltaria Auden/ viajante atormentado/ dialético e bizarro”. No mundo da sensatez, das fotocópias autenticadas e da moda, é útil reler Auden que, mesmo educado nos rigores de Oxford, frequentou a esquerda radical e viveu sua homossexualidade abertamente em plenos anos de 1930. “Ou quem sabe, Yeats, numa tarde/ feito essa, tão vadia/ possa a leitura da tua/ poesia, pura Musa,/ inspirar a minha arte/ se eu lhe implorar”. Também Yeats entregou-se ao transe, misturando o hinduísmo, as crenças teosóficas e o ocultismo, e levou a loucura romântica a seu limite. Auden e Yeats, no entanto, se estranhavam. Um via no outro, talvez, o grande rombo que não percebia em si. Indiferente a essas diferenças, Cícero os incorpora. E dança com eles, na grande sala da poesia.

Entrega-se, assim, ao transe das palavras, em que a vida se torna sagrada. Não porque ela repita os textos antigos, ou manifeste a voz de um deus, mas simplesmente porque se reafirma como vida. “Eis o que torna esta vida/ sagrada:/ ela é tudo e o resto, nada”. Lembra-nos o poeta que o único fim (sentido) da vida é a morte, “e não há, depois da morte,/ mais nada”. A constatação, que a alguns deprime, e em outros inocula o cinismo, ao colocar a vida em seu próprio fim, na verdade a engrandece. A vida, essa dança desequilibrada na qual, tontos, mas cheios de calor, resistimos. A vida, à qual a grande poesia — como a de Antonio Cícero — sempre se agarra.

Ao evocar Arquimedes de Siracusa, físico e astrônomo da Grécia Antiga, o poeta recorda as quadraturas, os cálculos de areia, as esferas, cilindros e estrelas, para em seu nome dizer: “nada do que realizei se encontra à altura/ do que há por fazer./ A matemática é longa,/ a vida breve”. Tristes os que acreditam nas sínteses, nos gráficos e nas grandes soluções — enquanto a vida se arrasta como um rio interminável. Tudo o que fazemos, dizemos, escrevemos, é sempre pouco. Muito pouco. O real nos ultrapassa, e por isso real é. O poeta é aquele que não se banha duas vezes nas mesmas águas. Não bloqueia, não detém, não recolhe: entrega-se. Como Arquimedes, um homem cuja ciência, muito mais estreita que o mundo, conservava a consciência do pouco que (apesar de tudo) tinha a dizer.

A vida é desejo e, por isso, nunca chega a si, sempre está aquém de si. No livro de Antonio Cícero, um pequeno poema, “Desejo”, diz tudo: “Só o desejo não passa/ e só deseja o que passa/ e passo meu tempo inteiro/ enfrentando um só problema:/ ao menos no meu poema/ agarrar o passageiro”. Na vida contemporânea, nos habituamos às escadas rolantes que levam sempre às mesmas vitrines. Às religiões ortodoxas, que repetem sempre as mesmas verdades. Ao pragmatismo, que conduz sempre ao mesmo cinismo. Quase não há mais vida (movimento e passagem) na vida contemporânea. Uns poucos — os poetas — insistem em agarrá-la. Insistem em se fixar no instante que, mal é, já não é mais. Só os poetas suportam a fluidez na qual, apesar de nossa indiferença, estamos mergulhados.

“Que não se engane ninguém:/ ser um poeta é uma África”, escreve Cícero. Em um mundo que se entrelaça em uma grande rede, na qual tudo se vende e tudo se expõe, o poeta aponta a inutilidade de seu gesto. “Exporei tudo na rede/ sem ganhar nem um vintém”. O poeta sabe que trabalha nas bordas, ali onde as verdades escorrem, e que trabalha com as sobras, ali onde ninguém mais deseja. “Eis o que consegui:/ tudo estava partido e então/ juntei tudo em ti”. Partes que não se encaixam, palavras que não se completam, certezas que se esfarelam: “eu quis correr esse risco antes de virar/ pó”. O risco do poeta é o risco de existir. Pode haver aposta mais bela?

No mundo do tempo real, nos asfixiamos em notícias e fatos que, muito raramente, tocam o real. Nesse universo hiperiluminado, de imagens feéricas e figuras chapadas, desprezamos as entrelinhas. Contudo, é nelas que a vida não só se costura, mas respira. O poeta coloca-se em outro lugar, que Cícero descreve assim: “É aqui, mais real que as notícias, na própria/ matéria, na dobradura de uma folha”. Ali permanece, espremido em um vão, entre “linhas e planos apenas esboçados”. Quem aguenta, hoje, a imprecisão de um esboço? Quem suporta o meio do caminho, onde nada se afirma e nada se completa? Pergunta o poeta: “Não será a saída um desvio/ e o caminho o único fim?” Questão incômoda, que arruína nosso mundo de balancetes e de planilhas, enquanto o poeta, resignado a ser, limita-se a respirar. Respira o grande rio que o arrasta. Respira as coisas do mundo e, sempre suspeitando de si, se pergunta: “dar a mim mesmo este presente?”