12.8.12

Oscar Wilde: de "O crítico como artista"




Os seres humanos são escravos das palavras. Indignam-se contra o Materialismo, como dizem, esquecidos de que jamais houve melhoria material que não tenha espiritualizado o mundo e que tem havido poucos, se é que algum, despertar espiritual que não tenha desperdiçado as faculdades do mundo em esperanças estéreis e aspirações improdutivas, e crenças vazias ou estorvantes. O que chamam de “pecado” é um elemento essencial do progresso. Sem ele, o mundo estagnaria ou envelheceria, ou se tornaria sem graça.



WILDE, Oscar. "The critic as artist". In:_____. The works of Oscar Wilde. London: Collins, 1980.

4 comentários:

Aetano disse...

Interessante reflexão, Cicero! Deixo aqui um texto que também considero interessante.

Abraços!

NELSON ASCHER

O conformismo dos poetas


ANTIGAMENTE OS poetas vinham nos mais diversos formatos, tamanhos e modelos. Havia santos, como San Juan de la Cruz, e criminosos condenados, como François Villon, pacifistas, como Tibulo, e guerreiros, como Camões. Alguns eram nobres, como o primeiro dos trovadores, Guilherme, duque da Aquitânia, o príncipe Viázemski ou Alfonso 10º, o Sábio, e outros, numerosos demais para serem citados, morreram, miseráveis e abandonados, de fome.
Enquanto Gabriele D'Annunzio colecionava amantes do sexo feminino, Allen Ginsberg ou W. H. Auden eram gays, e, se, por um lado, Marina Tzvietáieva e Anna Akhmátova eram famosas por seus muitos casos extraconjugais, Gertrude Stein e Elizabeth Bishop eram abertamente homossexuais e, até onde se sabe, Emily Dickinson e Sor Juana Inés de La Cruz morreram virgens.
Mais, contudo, do que a posição social, estilo de vida ou detalhes biográficos, o que diferenciava, ainda há pouco, os poetas entre si era o que pensavam e como o escreviam.
Microcosmo concentrado ou sintético que era das mentalidades possíveis e impossíveis de uma época, sua produção descortinava um repertório capaz de propiciar, aos historiadores e demais investigadores, uma visão privilegiada da opulência mental do passado e de fornecer, aos contemporâneos, pontos de vista alternativos que lhes permitissem questionar a loucura ambiente, reafirmando a própria sanidade.
Nunca, aliás, a poesia cumpriu tão bem essa missão quanto no mundo sufocante dos regimes totalitários do século 20, regimes cuja desrazão violenta, malgrado os que buscassem disfarçá-la de razão inevitável, os poetas, com seus recursos, desmontaram peça por peça antes que a realidade desse, afinal, cabo deles.
Depois desse interlúdio heróico é desolador contemplar o panorama atual. Seria interessante perguntar tanto aos cidadãos comuns como aos poetas o que é que eles pensam de uma profusão de tópicos, pois, cotejando-se os resultados, o que obteríamos seriam opiniões de todo tipo entre os cidadãos normais e opiniões monolíticas entre os poetas.
Da Guerra do Iraque ao aquecimento global, do consumismo ao sionismo, do escândalo do mensalão ao do dossiê, em cada um desses quesitos veríamos os poetas se alinhando, como dócil manada, à esquerda -e, quando esta, então, encontra-se no poder, sentando-se humildemente aos pés do governo vigente. Os poetas são hoje a fatia mais homogênea da intelectualidade e se ocupam quase exclusivamente de propagar-lhe os dogmas.
Como se chegou a isso? Por duas vias: a estilística e a grupal.
A poesia não é obrigada a dizer nada, mas pode dizer tudo. Nem tudo, porém, é facilmente dizível, e descobrir como expressar certas questões é tarefa árdua. Ocorre que o modernismo e o concretismo (assim como tendências similares no exterior) legaram-nos um repertório estreito de formas fáceis e devidamente testadas. Quem se submete à ditadura do coloquialismo e divaga sobre si mesmo ou sobre o cotidiano num prosaísmo banal é chamado de moderno. Quem formule um trocadilho simplório e o enfatize visualmente mediante recursos tipográficos elementares se julga vanguardista. Com a forma assim resolvida, resta apenas achar uma mensagem adequada. Não é de se admirar que esta seja também a mais óbvia que se apresente.
Quanto ao gregarismo dos poetas, esse é o recurso perfeito para discipliná-los, induzindo-os a aceitar voluntariamente as idéias recebidas e os lugares-comuns do grupo. Os romancistas, depois do sucesso inicial, dialogam direto com um público que não é majoritariamente formado nem de outros romancistas, nem de intelectuais em geral, mas de gente comum. Se leitores de mente aberta compram seus livros, os ficcionistas estão livres para falar o que bem entenderem, inclusive coisas que choquem uma platéia que os vê como "entertainers".
[segue]

Aetano disse...

[cont.]

Não é este o caso dos poetas, sobretudo dos novos, cujo público preferencial são os demais poetas, os críticos e a intelectualidade. É deles que depende sua publicação numa revista, sua inclusão numa antologia, o convite para um festival ou simpósio. Antes de cruzar tais obstáculos, os novos não alcançarão o público leigo dos poetas consagrados. Nem é segredo que seus pares ou superiores hierárquicos comportam-se antes como jurados partidários ou censores para os quais a conformidade ideológica está acima da qualidade ou da promessa literária. E a maneira mais segura de lhes chamar a atenção é bajulando-os individualmente ou enquanto casta, algo que requer a repetição incessante das palavras de ordem que identificam o rebanho e o mantêm coeso.

(Folha de São Paulo, segunda-feira, 28 de abril de 2008)

Aeta

Wilson Luques disse...

Gostei do texto. Quantas vezes aponto esse aspecto e o pessoal fala que eu sou um ressentido. O pior é a Universidade no geral no Brasil. Como bem falou Evaldo Cabral e outro escritor brasileiro recentemente sobre os especialistas. E o pior é que poetas dos mais variados matizes se curvaram aos ´doutorandos´ fazedores de orelhas. Uma poesia que não se manifesta de per si porque porecisar de um manifesto? Os escritores, poetas, filósofos de um modo geral curvaram-se ao poder acadêmico. Agora eu fico imaginando se no lugar das universidades fossem os de bacamarte em punho. Não iria sobrar nada mesmo. A nossa literatura está numa UTI faz tempo e nada melhor de doutores desse naipe para cuidarem bem ou mal dela.

Wilson Luques disse...

Friday, November 17, 2006




Os silêncios de Pascal


No princípio

Bem no princípio
Havia o silêncio de Pascal


O buraco negro havia

Havia Estrelas

Estelares magnificências


Tudo

Prelúdio de um nada


Hoje
Nesse princípio-precipício
Sentados harmoniosamente
No prepúcio de um míssil
Ereto-eréctil-erosivo
Aqui nos encontramos

No princípio

Bem no princípio

Havia o silêncio


Não esse silêncio

No princípio havia o silêncio

Silêncio de Pascal

Magma da magnânima estrela