5.8.12

José Castello: "Cicero em transe"




O seguinte artigo de José Castello foi publicado no suplemento "Prosa e Verso", do jornal O Globo, no dia 3 de agosto:


Cicero em transe

Nas mãos hábeis de Antonio Cícero, a poesia se transforma em uma dança. E o poeta, em uma dança. O próprio Cícero descreve: “Eram palavras aladas/ e faladas não para ficar/ mas, encantadas, voar”. Refere-se aos juramentos de amor, que fazemos entrelaçados na cama, envoltos nos lençóis da língua. Palavras em que a sedução vale mais que a eficácia. “Carícias que por lá/ sopramos: brisas afrodisíacas/ ao pé do ouvido, jamais contratos”. Vivemos no século das transações, dos acordos jurídicos e dos compromissos comerciais. Mundo em que o desejo parece não só imprestável, mas vergonhoso. Pois a poesia, com sua dança, é o terreno do desejo. Enquanto o mundo se verticaliza na ilusão do poder, o poeta se deita para dele duvidar.

Leio os versos de Antonio Cícero em “Porventura”, sua nova e inspiradora coletânea de poemas (Record). Leio e meu coração de leitor também balança. Homens que sabem o que querem não leem versos. “Jamais serei plenamente adulto:/ antes de sê-lo, serei velho”, escreve o poeta, desprezando as certezas que petrificam. A suspeita de que jamais será completamente adulto (pedra) é uma aposta no movimento. O poeta não apenas dança, mas gira, e com seu giro perfura a casca da arrogância. Entra em transe, vive em transe: para o poeta, escrever é uma dança que não se esgota.

Dois mestres surgem em cena, dois poetas, grandes poetas: o anglo-americano W. H. Auden (1907-1979) e o irlandês W. B. Yeats (1865-1939). “Eu exaltaria Auden/ viajante atormentado/ dialético e bizarro”. No mundo da sensatez, das fotocópias autenticadas e da moda, é útil reler Auden que, mesmo educado nos rigores de Oxford, frequentou a esquerda radical e viveu sua homossexualidade abertamente em plenos anos de 1930. “Ou quem sabe, Yeats, numa tarde/ feito essa, tão vadia/ possa a leitura da tua/ poesia, pura Musa,/ inspirar a minha arte/ se eu lhe implorar”. Também Yeats entregou-se ao transe, misturando o hinduísmo, as crenças teosóficas e o ocultismo, e levou a loucura romântica a seu limite. Auden e Yeats, no entanto, se estranhavam. Um via no outro, talvez, o grande rombo que não percebia em si. Indiferente a essas diferenças, Cícero os incorpora. E dança com eles, na grande sala da poesia.

Entrega-se, assim, ao transe das palavras, em que a vida se torna sagrada. Não porque ela repita os textos antigos, ou manifeste a voz de um deus, mas simplesmente porque se reafirma como vida. “Eis o que torna esta vida/ sagrada:/ ela é tudo e o resto, nada”. Lembra-nos o poeta que o único fim (sentido) da vida é a morte, “e não há, depois da morte,/ mais nada”. A constatação, que a alguns deprime, e em outros inocula o cinismo, ao colocar a vida em seu próprio fim, na verdade a engrandece. A vida, essa dança desequilibrada na qual, tontos, mas cheios de calor, resistimos. A vida, à qual a grande poesia — como a de Antonio Cícero — sempre se agarra.

Ao evocar Arquimedes de Siracusa, físico e astrônomo da Grécia Antiga, o poeta recorda as quadraturas, os cálculos de areia, as esferas, cilindros e estrelas, para em seu nome dizer: “nada do que realizei se encontra à altura/ do que há por fazer./ A matemática é longa,/ a vida breve”. Tristes os que acreditam nas sínteses, nos gráficos e nas grandes soluções — enquanto a vida se arrasta como um rio interminável. Tudo o que fazemos, dizemos, escrevemos, é sempre pouco. Muito pouco. O real nos ultrapassa, e por isso real é. O poeta é aquele que não se banha duas vezes nas mesmas águas. Não bloqueia, não detém, não recolhe: entrega-se. Como Arquimedes, um homem cuja ciência, muito mais estreita que o mundo, conservava a consciência do pouco que (apesar de tudo) tinha a dizer.

A vida é desejo e, por isso, nunca chega a si, sempre está aquém de si. No livro de Antonio Cícero, um pequeno poema, “Desejo”, diz tudo: “Só o desejo não passa/ e só deseja o que passa/ e passo meu tempo inteiro/ enfrentando um só problema:/ ao menos no meu poema/ agarrar o passageiro”. Na vida contemporânea, nos habituamos às escadas rolantes que levam sempre às mesmas vitrines. Às religiões ortodoxas, que repetem sempre as mesmas verdades. Ao pragmatismo, que conduz sempre ao mesmo cinismo. Quase não há mais vida (movimento e passagem) na vida contemporânea. Uns poucos — os poetas — insistem em agarrá-la. Insistem em se fixar no instante que, mal é, já não é mais. Só os poetas suportam a fluidez na qual, apesar de nossa indiferença, estamos mergulhados.

“Que não se engane ninguém:/ ser um poeta é uma África”, escreve Cícero. Em um mundo que se entrelaça em uma grande rede, na qual tudo se vende e tudo se expõe, o poeta aponta a inutilidade de seu gesto. “Exporei tudo na rede/ sem ganhar nem um vintém”. O poeta sabe que trabalha nas bordas, ali onde as verdades escorrem, e que trabalha com as sobras, ali onde ninguém mais deseja. “Eis o que consegui:/ tudo estava partido e então/ juntei tudo em ti”. Partes que não se encaixam, palavras que não se completam, certezas que se esfarelam: “eu quis correr esse risco antes de virar/ pó”. O risco do poeta é o risco de existir. Pode haver aposta mais bela?

No mundo do tempo real, nos asfixiamos em notícias e fatos que, muito raramente, tocam o real. Nesse universo hiperiluminado, de imagens feéricas e figuras chapadas, desprezamos as entrelinhas. Contudo, é nelas que a vida não só se costura, mas respira. O poeta coloca-se em outro lugar, que Cícero descreve assim: “É aqui, mais real que as notícias, na própria/ matéria, na dobradura de uma folha”. Ali permanece, espremido em um vão, entre “linhas e planos apenas esboçados”. Quem aguenta, hoje, a imprecisão de um esboço? Quem suporta o meio do caminho, onde nada se afirma e nada se completa? Pergunta o poeta: “Não será a saída um desvio/ e o caminho o único fim?” Questão incômoda, que arruína nosso mundo de balancetes e de planilhas, enquanto o poeta, resignado a ser, limita-se a respirar. Respira o grande rio que o arrasta. Respira as coisas do mundo e, sempre suspeitando de si, se pergunta: “dar a mim mesmo este presente?”

7 comentários:

Nobile José disse...

excelente artigo. o lançamento vai ser ainda esse mês, no rio? querendo ir... abrçs.

Alcione Domingues disse...

Que maravilha de entrevista, não canso de ler e reler, massa mesmo, sim, a descoberta, o arrepio da ousadia, do novo, Cicero manda mais que bem, arrebenta! E já saindo da escada rolante para a livraria, não posso mais ficar sem esse livro nas mãos, como se isso fosse porventura possível!

Antonio Cicero disse...

Sim, Nobile José. O lançamento vai ser na próxima segunda-feira, no dia 13, na Travessa de Ipanema. Vou postar um convite amanhã.

Abraço

Carmem Maria disse...

Artigo maravilhoso, esclarecedor. O livro Porventura é lindo, um presente para nós leitores do Antonio Cicero.

Aetano disse...

Que texto! Leio e releio e já me aventuro em "Porventura".

Sucesso e um forte abraço, Cicero!

Aeta

Fernanda Carvalho disse...

Bom dia, A Lexikon Editora está produzindo a edição do livro intitulado: Ler, Falar, Escrever - Práticas discursivas no Ensino Médio uma proposta teórico-metodológica das autoras Cilene Cunha e Janete dos Santos Bessa Neves (240 p.).
Solicitamos sua autorização para a utilização do texto abaixo na obra em questão: "Guardar".

Contamos com a sua colaboração e aguardamos seu retorno.

Antonio Cicero disse...

Fernanda,
por favor encaminhe seu pedido de autorização para Marcelo Pies, no seguinte endereço:
acontecimentos@uol.com.br.

Obrigado