Eis a conferência “Poesia e música a partir de Homero”, que fiz na Academia Brasileira de Letras no dia 16 de maio. Ela fez parte do ciclo de conferências “Poesia
cantada: melodia e verso”, sob a coordenação do Acadêmico e jornalista Zuenir
Ventura. A Acadêmica e escritora Ana Maria Machado é a coordenadora geral dos
ciclos de conferências de 2019.
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27.5.19
2.6.15
Adriano Nunes: "A música e Israel"
A música e Israel
Certamente os raivosos de plantão e os que levantam bandeiras para tudo (sem nem saber por que as levantam!) devem estar-se questionando: qual das atitudes seria a pequena e mais mesquinha: cantar ou não cantar em Israel. Aqui, pelos ditames da razão, derrubo as bandeiras e dou vez à arte, respondendo: pequeno e mesquinho é deixar de cantar em qualquer lugar! Levar a música onde quer que se possa não é ato de compactuar com formas e sistemas de governo. Ou ações governamentais. A arte é uma finalidade sem fim. E, por ser sem fim, é que pode atender a todas as expectativas humanas, pois através da sua amplidão e beleza é capaz de mudar o mundo, tornando-o civilizado e melhor. Assim, a música, não só atinge os ouvidos, mas o coração. Arte panfletária impregnada de política não é arte. É manifesto. A arte é livre e sempre será. Agrada gregos, troianos, palestinos, israelitas, árabes, russos, todos, de algum modo. Canta-se em momentos de alegria ou de dor. Evitar cantar em qualquer lugar é tomar o lugar como inexistente. É negar a um povo a dignidade humana. Logo, pedir a plenos pulmões que Caetano Veloso e Gilberto Gil não cantem em Israel é alimentar a discórdia e tomar partido, numa situação que não pode ser medida sob o simples olhar da retaliação. Só os israelitas e palestinos sabem bem quem eles são. E porque agem dessa maneira uns com os outros. Se a paz ainda não veio, é porque ainda há muito que se fazer por ela. E uma das formas da paz surgir é evitar esses bloqueios e campanhas mesquinhos, tanto pra um lado como para o outro. O artista é um ser livre. Sua liberdade consiste justamente em conseguir amar as diferenças. Respeitá-las. Bálsamo será o canto dos baianos em Israel. Talvez, alcance até os palestinos. Ambos não estarão, ali, a dizer que apoiam guerra alguma, pois como diz belamente Gil em "A paz": "a paz invadiu o meu coração/ de repente me encheu de paz/como se o vento de um tufão/arrancasse os meus pés do chão/onde já não me enterro mais". Esse "não me enterro mais" denota que nós, seres humanos, somos de todos os lugares. E, por não pertencermos a um só lugar, não temos que levantar bandeira contra um lugar específico. Que Gil e Caetano cantem. E que seus cantos ecoem cosmo afora e anulem os pensamentos mesquinhos e repletos de ódio e retaliações. A arte é uma mistura humana inclassificável.
Adriano Nunes
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10.8.13
Entrevista a Nahima Maciel, do Correio Brasiliense
Na ocasião em que recebi o Prêmio ABL de Poesia, dei a Nahima Maciel a seguinte entrevista, publicada no dia 21 de julho, no Correio Brasiliense:
- Pode falar um pouco
sobre o Porventura? Como nasceu o livro? Que temas te inquietavam na hora
em que escreveu os versos? Foram escritos de uma vez ou são poemas de vários
períodos diferentes?
São poemas escritos
ao longo de mais ou menos uma década. Ao final de 2011 – precisamente ao
terminar de escrever um poema chamado “Nihil”, achei que, excluindo vários
poemas, escrevendo alguns outros, modificando terceiros e organizando-os numa
certa sequência, eu teria um livro de poesia pronto. E comecei a trabalhar nesse
sentido. Os temas são variados, mas talvez o tempo, a efemeridade da vida e a
própria poesia sejam os mais frequentes.
- O que o prêmio
significa para você? E a ABL?
A ABL é composta por
um grupo de notáveis que inclui vários poetas, escritores, críticos, pensadores,
artistas que admiro muito. Que tal grupo me tenha conferido esse prêmio
representa um reconhecimento do valor da minha poesia que me deixa muito feliz.
- Houve uma época em
que a filosofia se antepôs à poesia na tua vida. E hoje, qual o espaço da
filosofia?
Na verdade, acho que
a filosofia nunca propriamente se antepôs à poesia, na minha vida. O que
acontece é que, quando decido escrever um texto filosófico, faço-o para
intervir, isto é, para tomar posição, para tomar partido, em discussões sobre
questões fundamentais que dizem respeito ao sentido do conhecimento, do ser, da
vida, dos valores éticos e estéticos etc. Em última análise, quando escrevo um
texto filosófico, faço-o porque suponho ter algo a dizer que possa fazer alguma
diferença: algo que possa mudar para melhor o modo de as pessoas pensarem ou
agirem em relação a alguma coisa. E tenho a pretensão de que tal mudança possa
ser, de algum modo, importante: de que, ainda que numa escala ínfima, ela possa
tornar o mundo melhor. Logo, sinto certa urgência, e mesmo certa obrigação ética
de escrevê-lo.
Já a maravilha da
poesia consiste justamente em nos dar acesso a outra temporalidade, que nada tem
a ver com essa temporalidade prática, política, utilitária, instrumental a que,
em última análise, a filosofia está ligada. Por isso, não sinto a mesma urgência
em escrever poemas. Quem começa a fazer um poema tem que se deixar levar pelo
tempo que ele exija. Ele pode ficar pronto em pouco tempo, mas pode demorar
dias, semanas, meses, anos. E pode jamais ficar pronto ou ficar bom. E o poema é
bom quando vale por si. Ora, nada me dá tanta satisfação quanto fazer algo que
penso valer por si.
- Li em uma entrevista
que é difícil para você escrever poesia. Por que?
Não é tanto que seja
difícil: é que não basta que eu queira escrever um poema, para que o faça. É
preciso que ele aconteça em mim, ou através de mim, por razões que não dependem
exclusivamente da minha vontade, e cuja natureza precisa ignoro.
- O que acha dessa
jovem poesia que tem despontado principalmente no Rio de Janeiro?
Gosto de vários
jovens poetas. É sempre chato citar nomes, porque a gente acaba esquecendo, às
vezes, do(s) mais importante(s). Mas gosto, por exemplo, de Omar Salomão, de
Fabrício Corsaletti, de Bruna Beber...
- A variedade formal
nos poemas é algo que te move? Como ela acontece? Você acha que
Porventura tem mais dessa variedade do que A cidade e os livros?
Que diferenças você vê em relação aos teus últimos dois livros?
Ela simplesmente
acontece. Às vezes, um primeiro verso me sugere uma métrica. Às vezes, a forma
vai se impondo, não sei dizer por que. Acho que, de fato, A cidade e os
livros é dotado de maior unidade formal do que os demais. Mas não sei
explicar a razão disso.
- Qual o espaço da
ideia e qual o espaço do cotidiano no teu processo poético?
Isso muda de poema
para poema. Tudo o que a gente sabe, toda nossa experiência, toda nossa
filosofia, toda nossa fantasia, toda nossa cultura, tudo é capaz de entrar num
poema. O poema é feito com todas as nossas faculdades: intelecto, intuição,
razão, sensibilidade, sensualidade, humor, memória etc. E a importância de cada
um desses fatores varia de poema para poema. Não há fórmula
pronta.
- A poesia e a música
acontecem de forma diferente na tua cabeça? Como?
Sim. É que não sou
músico. Não toco nenhum instrumento, nem sei cantar. Só faço a letra. E faço a
letra depois de ouvir a música com a qual ela vai se casar. Por isso, para mim,
a diferença entre a letra e o poema é que o fim deste está em si próprio,
enquanto que o fim da letra é a canção que vai resultar do casamento dela com a
música.
- E a poesia no Brasil,
você acha que ela está em alta? Que as editoras estão publicando mais? Ou
não?
Tomara que sim. O
sucesso do esplêndido livro “Toda poesia”, de Leminski, faz pensar que sim. Mas
uma vez ouvi o próprio Leminski dizer, numa palestra, que o fato de que livro de
poesia não venda é uma coisa boa, e não ruim. Por que? Porque – dizia ele – isso
significa que não se faz poesia por dinheiro, mas somente por amor. Concordo com
isso.
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2.7.12
Entrevista a Amarílis Lage
Há cerca de dez dias, concedi uma entrevista a Amarílis Lage, que usou alguns trechos da mesma em matéria intitulada "Um claro enigma", publicada no suplemento "Eu & Fim de Semana", do jornal Valor Econômico. Resolvi aqui postar a entrevista integral.
Entrevista a Amarílis Lage:
Amarlis Lage: Gostaria de começar abordando um tema sobre o qual vi você falar em uma entrevista na Globo News. Nela, você apontava uma diferença da poesia em relação à forma como lidamos com outros bens culturais: podemos desfrutar de uma música sem prestar muita atenção a ela, por exemplo, mas a poesia exige tempo, exige um mergulho. Por isso, seria “incompatível” com nosso tempo. Mas, também por isso, seria “necessária” ao nosso tempo. Achei essa ideia muito interessante e gostaria de entendê-la melhor. Hoje, é comum a impressão de que a poesia tem pouca visibilidade ou impacto (aliás, gostaria de saber se você compartilha essa impressão). Isso seria reflexo dessa incompatibilidade? A produção artística tem sido pressionada por aspectos como consumo e velocidade?
Antonio Cicero: Na aurora da cultura ocidental, na Grécia, a poesia era cantada. A poesia lírica se dava como letras de canções. Tudo indica que a poesia épica, como a de Homero, consistia num recitativo, isto é, numa espécie de rap. Nesse tempo, ela podia ser fruída passivamente, como hoje fruímos uma canção. Já a poesia escrita é diferente. Ela exige concentração. Ela consome tempo. Por isso, seu público sempre foi muito reduzido, em comparação com o público da poesia musicada. Hoje essa situação é mais dramática, pois nos encontramos presos a uma cadeia utilitária em que o sentido de cada coisa e pessoa que se encontra no mundo, o sentido inclusive de cada um de nós mesmos, é ser instrumental para outras coisas ou pessoas. Ninguém – nada – jamais vale por si, mas apenas como meio para outra coisa ou pessoa que, por sua vez, também funciona como meio para ainda outra coisa ou pessoa. Estamos praticamente o tempo todo trabalhando ou desempenhando, inclusive – e talvez sobretudo – através dos computadores, da Internet, dos celulares, dos tablets etc. Como ter tempo para a poesia? No entanto, parece que, justamente por isso, é ela que pode nos livrar, ao menos temporariamente, dessa cadeia, proporcionando-nos acesso a outra temporalidade. Ela representa uma alternativa à vida totalmente escravizada ao princípio do desempenho.
Enquanto pensava sobre isso, acabei me lembrando do papel que a internet pode ter. De modo geral, o mundo digital é muito associado a imediatismo e dispersão. Porém, algumas pessoas com as quais conversei consideram a internet um ambiente muito propício para a poesia. Um dos aspectos levantados foi o fato de tanto a poesia quanto o mundo virtual ultrapassarem a questão da linearidade. Outro, mais prático, se referia à facilidade para a divulgação de poemas, já que o espaço para a poesia seria restrito nas editoras e livrarias. Em sua opinião, a internet tem um efeito significativo sobre a produção, a divulgação ou a leitura de poesia no Brasil? Se sim, de que forma isso ocorre?
Sim. Como você observa, hoje qualquer um com acesso à Internet pode nela publicar seus poemas. Por outro lado, isso mesmo significa que os poemas de um poeta desconhecido provavelmente passarão despercebidos em meio a centenas de milhares de outros poemas de outros desconhecidos. E a Internet não propicia a atenção, mas a dispersão do internauta: o que significa também que ela não propicia as condições de concentração necessárias para a plena fruição da poesia.
Outra ideia com a qual tenho me deparado com frequência é a de que a poesia brasileira hoje vive um momento marcado pela diversidade. Você concorda com essa percepção ou vê pontos de convergência na boa poesia contemporânea? Havia de fato no passado (refiro-me, especificamente, ao século passado), uma percepção mais clara de quais eram os nomes e os modelos dominantes?
Há sem dúvida uma grande diversidade na poesia contemporânea. Não vejo nenhuma tendência dominante. Tampouco há modelos dominantes. Creio, entretanto, que o debate em torno do cânone poético continua, com o mesmo grau aproximado de concordância e discordância. Poucos hoje discordam, por exemplo, da importância de Bandeira, Drummond, Cabral, Murilo Mendes, Jorge de Lima, Ferreira Gullar ou Augusto de Campos.
Vi uma entrevista na qual você dizia que “não há poesia contemporânea - ou melhor, não há boa poesia contemporânea - que se pretenda imune às influências vanguardistas”. De que forma essa influência se dá na boa poesia contemporânea? Lembro que você se referia à liberdade em relação ao uso das formas no poema. A influência se dá também em outros aspectos?
Antes da experiências das vanguardas era comum o fetichismo de determinadas formas poéticas. Uma sequência de versos que correspondesse a certas formas fixas – a um soneto, por exemplo – era já tida como um poema. Por outro lado, um texto que violasse certas regras tradicionais – que não consistisse de versos métricos, por exemplo – não era considerado um poema. Ao produzir textos que, violando essas regras tradicionais, não só pretendiam ser poemas, mas, efetivamente, funcionavam como verdadeiros poemas, as vanguardas mostraram a possibilidade da invenção de novas formas poéticas e superaram o fetichismo tradicional. Essas são as maiores lições que elas nos legaram. Além disso, os grandes poetas vanguardistas, como todos os grandes poetas, deixaram-nos poemas admiráveis, que muito nos ensinam sobre a poesia.
Ainda sobre o uso das formas – vejo que parte da crítica olha essa heterogeneidade com muita desconfiança. Posso exemplificar com trechos de um texto relativamente recente da Iumna Maria Simon publicado na Piauí: “O passado, para o poeta contemporâneo (...) ficou reduzido, simplesmente, à condição de materiais disponíveis, a um conjunto de técnicas (...) que podem ser repetidos, copiados e desdobrados”; “Até onde vejo, as formas poéticas deixaram de ser valores que cobram adesão à experiência histórica e ao significado que carregam”; “O poeta entra na dita contemporaneidade como um consumidor, que pode usar todas as formas disponíveis sem se comprometer”.
Essa tem sido uma questão central para a crítica no Brasil?
Que desafios e vantagens você acha que essa heterogeneidade traz para o poeta e para o leitor?
Sobre a primeira citação que você faz, isto é, “O passado, para o poeta contemporâneo (...) ficou reduzido, simplesmente, à condição de materiais disponíveis, a um conjunto de técnicas (...) que podem ser repetidos, copiados e desdobrados”, observo o seguinte. Desde sempre, o passado da poesia ofereceu aos poetas materiais e técnicas. Os poetas lírico gregos, como Píndaro, por exemplo, citavam em seus poemas versos inteiros de Homero. Atenaios dizia que as tragédias atenienses eram migalhas de Homero. O poeta romano Horácio se gabava de ter transplantado formas gregas para o latim. Os poetas contemporâneos fazem algo equivalente. Por que, porém, pensar que, na poesia contemporânea o passado “ficou reduzido” a materiais e técnicas, quando ele era muito mais que isso, para os antigos? Cada poeta tem sua relação singular com o passado, que jamais se reduz a técnicas ou materiais, embora também inclua estes. O que me parece redutiva é a leitura que Simon faz dos poetas contemporâneos.
Sobre a segunda citação, isto é, “Até onde vejo, as formas poéticas deixaram de ser valores que cobram adesão à experiência histórica e ao significado que carregam”, observo o seguinte. Formas jamais cobram coisa nenhuma. Um soneto tinha um sentido para Petrarca, outro, completamente diferente, para Ronsard, que se lixava para o sentido que o soneto tivera para Petrarca, outro, completamente diferente, para Góngora, que se lixava para o sentido que o soneto tivera para Ronsard ou Petrarca; e o mesmo pode ser dito, em relação a seus predecessores, de um soneto de Baudelaire ou de Mário de Andrade ou de Drummond, ou de Paulo Henrique Britto. No fundo, Simon é vítima do fetichismo da forma, que descrevi acima.
Sobre a terceira citação, isto é, “O poeta entra na dita contemporaneidade como um consumidor, que pode usar todas as formas disponíveis sem se comprometer”, observo o seguinte. Primeiro, todo produtor é também um consumidor. Segundo, em cada poema, tudo é conteúdo: e tudo é forma. É entre formas que se repetem e formas que não se repetem que se criam todos os poemas. A sintaxe do poema, as relações paronomásticas das palavras que o compõem e as próprias palavras são formas/conteúdos. Em relação a tais formas, as formas fixas não possuem nenhum privilégio. Trata-se apenas de formas que são catalogadas porque se repetem. No final, o que conta é a totalidade das formas/conteúdos que interagem entre si para produzir um objeto absolutamente singular. Dado que não há fórmulas nem receitas para criar tais objetos, todos os poemas bons são experimentais. É pena que a professora não se tenha dado ao trabalho de observar de perto como trabalham os poetas contemporâneos. Ela talvez tivesse então percebido que como eles, ao contrário dela, não são vítimas do fetichismo da forma fixa, são capazes de usar tais formas simplesmente na qualidade de autoimposições formais arbitrárias que, contrapondo-se à espontaneidade criativa, imponham tensões estimulantes ao processo da produção do poema. Tal é o sentido, por exemplo, da afirmação de João Cabral de que a rima é necessária, pois “para se criar algo, é necessário um esforço. Um obstáculo diante do ser o obriga a muito mais esforço e faz com que ele atinja o seu extremo”. É normalmente com esse propósito que os poetas contemporâneos usam as formas fixas. Elas são, para eles, meios, e não fins.
Terceiro, o compromisso do poeta é e deve ser, em primeiro lugar, com a poesia, isto é, com o poema que está concretamente a fazer, e nem com esta ou aquela forma tomada de modo isolado ou abstrato, nem com esta ou aquela ideologia.
Você já mencionou também que um dos poetas mais marcantes na sua formação foi Carlos Drummond de Andrade. Como isso reflete em seu trabalho? Acha que, de modo geral, a poesia feita hoje no Brasil dialoga com a poesia de Drummond? Se sim, como?
Com certeza se reflete em meu trabalho, porém não sei dizer como. Dado que Drummond é, a meu ver, o maior poeta que já tivemos, creio que nenhum poeta contemporâneo pode deixar de, de algum modo, dialogar com ele. Aliás, Drummond já fazia tudo o que a professora Simon condena nos contemporâneos, tanto tendo usado as formas fixas (magistralmente) quanto tendo feito poemas experimentais (magníficos).
Nesse cenário que parece ser tão diverso, seria muito interessante se pudéssemos apresentar aos leitores alguns poetas que têm produzido trabalhos importantes no Brasil, como é o seu. O senhor poderia me ajudar indicando alguns de seus pares e me ajudando a ver onde o trabalho deles se destaca?
O problema de tais listas é que, com certeza, a gente sempre se esquece de algum nome importantíssimo. Mas cito os nomes que primeiro me ocorreram, em ordem alfabética: Alberto Pucheu, Alex Varella, Armando Freitas Filho, Arnaldo Antunes, Cláudia Roquette Pinto, Eucanaã Ferraz, Nelson Ascher, Ricardo Silvestrin, Salgado Maranhão...
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30.3.10
Entrevista: "A riqueza está nas diferenças"
Por ocasião da Conferência Internacional Sobre a Língua Portuguesa que, patrocinada pelo Itamaraty, teve lugar em Brasília, de 25 a 28 do corrente, o Correio Braziliense publicou, no domingo, a seguinte entrevista, concedida por mim a Severino Francisco:
Poesia é doença ou cura?
Nem uma coisa nem outra. Chamá-la de doença ou cura seria confundi-la com a vida do poeta. Poesia é arte: a produção de um objeto que é feito de linguagem e dotado de valor estético. Sendo um objeto, ele não se confunde com a vida daquele que o produz. E não é porque esteja doente ou porque queira se curar que o poeta faz um poema; se assim fosse, o poema só interessaria ao doente. Acontece que, ao contrário, ele interessa a muita gente cuja vida nada tem a ver com a do poeta.
A frase dita por Caetano Veloso, “Só é possível filosofar em alemão”, ainda vale nos dias de hoje?
Não, nunca valeu. Na verdade, a frase não é de Caetano, mas de Heidegger que, não nos esqueçamos, chegou a apoiar o nazismo. Caetano a citou numa canção, de modo irônico, pois ele próprio é leitor, por exemplo, do filósofo francês Jean-Paul Sartre. A letra diz: “Se você tem uma ideia incrível/ É melhor fazer uma canção/ Está provado que só é possível/ Filosofar em alemão”. Uma ideia incrível é, literalmente, uma ideia em que não se pode acreditar: uma ideia que não é crível ou lógica; mas uma ideia incrível é também uma ideia maravilhosa. Pois bem, se você tem uma ideia que, não sendo crível nem lógica, é maravilhosa, é melhor fazer uma canção do que fazer filosofia. Por quê? Porque fazer filosofia para provar uma ideia que não é crível nem lógica, como Heidegger fez com essa de que só é possível filosofar em alemão, é, além de ridículo, nocivo.
A poesia e a música ainda estão casadas? Há novos poetas interessados na palavra cantada? Esta conexão entre música e poesia é uma singularidade da cultura brasileira?
Creio que sempre haverá poetas interessados na palavra cantada. A letra de música é uma espécie de poesia, e alguns letristas são grandes poetas, como o próprio Caetano, que já citei. Mas isso não é uma singularidade da cultura brasileira. Afinal, na Grécia antiga, toda poesia lírica era cantada; os poetas provençais cantavam; e existem grandes poetas entre os letristas americanos, ingleses, mexicanos, cubanos, franceses, portugueses etc.
Apesar da revolução tecnológica e da invenção de novos meios de comunicação, há um descaso com o cultivo da palavra pelas novas gerações?
Isso tem a ver com um desinteresse pela poesia como um espaço da singularidade?
Não sei se realmente há maior descaso hoje do que outrora. A verdade é que, antigamente, as pessoas que não se interessavam pela poesia não se destacavam tanto quanto hoje, quando qualquer um pode publicar o que pensa num blog. De todo modo, penso que seria interessante que as pessoas aprendessem a ler poesia nas escolas. Não digo ler em voz alta, mas simplesmente ler. É grande o analfabetismo no que diz respeito à linguagem poética.
O rapper é o poeta do futuro?
Talvez. Do presente é que não é.
Fale da sua luta contra a discriminação baseada na orientação sexual ou na identidade de gênero do cidadão.
É muito simples. Em particular, todo mundo tem o direito de ter o preconceito que quiser: não se pode negar a ninguém o direito à burrice. Em público, porém, a história é outra. Um país é tanto maior quanto mais for capaz de garantir a convivência do maior número possível de diferenças de ideias, comportamentos, projetos particulares, gostos, estilos de vida etc. Diferenças são riqueza. Absolutamente nada é mais importante do que isso. O único motivo que pode racionalmente ser invocado para negar a alguém o direito a se comportar de determinada maneira é que tal comportamento fira os iguais direitos de outras pessoas. Ora, o comportamento gay ou transexual não atropela os direitos alheios nem infringe lei brasileira nenhuma. Por isso, o gay deve ter o direito de existir e se manifestar publicamente sem temer repressão do Estado ou da sociedade.
Qual é sua relação artística com Marina Lima, sua irmã? Você dá palpite no trabalho dela e vice-versa?
Sim, mas mais antigamente do que hoje. Faço poucas letras hoje em dia, de modo que diminuíram as nossas parcerias.
Você viveu num Rio de Janeiro de sexo, drogas e rock ‘n’ roll. O que mais o marcou nesse período tão criativo e tão destrutivo?
A melhor coisa foi a liberação sexual; as piores coisas foram o surgimento da Aids e a disseminação da cocaína.
Hoje, você se considera um poeta de crachá, acadêmico ou um libertário?
Considero-me poeta, simplesmente: e isso, principalmente logo que termino de escrever um poema. Como dizia o poeta inglês W. H. Auden, é só nessa hora que a gente sabe que é poeta. Antes disso e depois disso, a gente não sabe se ainda é poeta.
Por que que a poesia marginal brasileira não é estudada e reverenciada nas universidades, como os beats foram nos Estados Unidos? Há preconceito?
Não sei se ainda é assim. Há muitas teses sobre Leminski, por exemplo, que era considerado marginal. O mesmo acontece com Waly Salomão. Também Chacal é objeto de teses. Agora mesmo, as obras reunidas de Roberto Piva, outro marginal, foram organizadas pelo professor de literatura Alcir Pécora.
Quem você gostaria de ver na Academia Brasileira de Letras, José Sarney ou Chacal?
Sarney já está na Academia há muito tempo, goste-se ou não disso. Quanto a Chacal, não creio que ele queira ser acadêmico, uma vez que se considera poeta marginal, e o poeta marginal se define exatamente por oposição ao acadêmico.
Como anda a política cultural do Brasil?
Já foi pior. Melhorou a partir de Gilberto Gil. Mas é claro que ainda tem muito a melhorar.
Por que é tão difícil publicar um livro?
É difcil publicar um livro porque poesia não vende. Leminski dizia que o fato de não vender era bom, pois isso quer dizer que se escreve poesia por amor, e não por dinheiro. Mesmo assim, parece que hoje se publicam mais livros de poesia do que jamais. E acontece que os poetas publicam também na Internet.
Quais os sinais positivos que você detecta na cultura nos dias de hoje?
Uma coisa que me parece muito positiva é o entrosamento cada vez maior entre o Brasil e Portugal; ou melhor, entre o Brasil e os demais países lusófonos. Por exemplo, cada vez se leem mais poetas portugueses, angolanos, moçambicanos etc. no Brasil e, por outro lado, poetas brasileiros em Portugal, Angola, Moçambique etc. Isso é enriquecedor para todos nós.
7.3.10
Mind the gap
O seguinte artigo foi publicado na minha coluna da "Ilustrada", da Folha de São Paulo, no sábado, 6 de março:
Mind the gap
NO METRÔ do Rio de Janeiro, quando o trem se aproxima de uma estação, ouve-se uma voz a anunciá-la, dizendo, por exemplo: "Próxima estação: Botafogo". De um tempo para cá, começaram a anunciar a próxima estação também em inglês, como: "Next station: Botafogo". Em português, às vezes dão outras informações, como "estação de transferência para a Gávea" etc. Em inglês, porém, só dizem o nome da estação. Por isso, recentemente fiquei surpreso quando, tendo ouvido a advertência "cuidado com o vão entre o trem e a plataforma", ouvi, em seguida: "Mind the gap".
Isso me transportou para muitos anos atrás, quando eu morava em Londres. Lembro-me de que me divertia ao ouvir essa mesma sentença em algumas estações do metrô. É que "mind the gap" quer dizer, literalmente, "atenção ao vão", "cuidado com o vão" ou "cuidado com a lacuna", e tudo isso já era sugestivo. Ademais, a palavra "mind" pode ser também usada como substantivo, significando "mente". A expressão "mind the gap" pode, portanto, ser ouvida mais ou menos como "a mente, o vão" ou “a mente, a lacuna”. E eu "viajava" um pouco com essa ambigüidade.
Naturalmente, não fui o único a perceber a graça de "mind the gap". Há pouco tempo, tomei conhecimento de que existem ao menos um filme, uma produtora de cinema, uma companhia de teatro e um romance chamados "Mind the Gap", todos inspirados na frase dita no metrô de Londres.
De todo modo, o prazer que eu sentia com a ambiguidade da sentença "mind the gap" dita no metrô era de natureza estética. Eu apreendia essa sentença à maneira de um "ready made" poético. Como se sabe, o conceito de "ready made", cunhado pelo artista plástico Marcel Duchamp, designa um objeto já existente que, deslocado do seu contexto e colocado numa exposição ou num museu, pede para ser apreciado esteticamente. É o caso do urinol que Duchamp submeteu a uma exposição.
Na verdade, a intenção do gesto de Duchamp havia sido mais a de contestar a instituição da arte do que a de revelar a possibilidade de que qualquer coisa, mesmo a mais improvável, pudesse ser objeto de fruição estética: de que esta residisse mais na atitude estética do receptor do que na própria coisa. No entanto, creio que foi desse modo que a maior parte dos artistas e críticos sempre a entenderam.
Mais próxima de celebrar a atitude estética parece-me ser a peça musical de John Cage "4'33"". Descrevo-a para o leitor que não a conheça. Trata-se de uma composição de três movimentos, composta para qualquer instrumento ou combinação de instrumentos. Os músicos entram, mas não tocam música nos instrumentos que seguram ou ante os quais se sentam. O primeiro movimento dura trinta segundos, o segundo, dois minutos e vinte e três segundos, e o terceiro, um minuto e quarenta segundos. O que os ouvintes realmente ouvem é o “silêncio” que, na verdade, consiste no som ambiente: a tosse de alguém, o ranger de uma poltrona, a respiração do ouvinte ao lado, o som distante de um avião que passa. Trata-se, portanto, de aprender a captar esteticamente, como se fosse música, o que chamamos de “silêncio” ou de “ruído”.
O fato é que assim como, nas artes plásticas, o "ready made" levou muitos artistas e críticos de arte a considerarem obsoleta a arte de pintar ou esculpir, na poesia ele levou muitos poetas e críticos literários a considerarem obsoleta a arte de fazer poemas. Entende-se: se é possível encontrar prazer estético num texto recortado do jornal, num trecho de diálogo de uma novela mexicana, numa sentença grafitada, numa frase ouvida ao léu ou na advertência do metrô, quem precisa da arte da poesia, de poemas ou de poetas?
A melhor resposta a uma pergunta dessas seria, evidentemente: "Ninguém". Não é preciso arte ou poesia. "Toda arte é perfeitamente inútil", como diz Oscar Wilde. E: "A única desculpa para fazer uma coisa inútil é admirá-la intensamente".
Mas a verdade é que, embora a celebração da atitude estética tenha sido extremamente importante, é evidente que seria uma tolice inferir que, em consequência dela, a arte se tenha tornado obsoleta. Do fato de ser possível obter prazer estético de diversas fontes não decorre que se trate do mesmo prazer, seja quantitativa, seja qualitativamente. Do fato de que se possa obter prazer estético tanto da sentença ouvida no metrô de Londres quanto do poema "Numa estação de metrô", de Ezra Pound, não decorre que ambos tenham o mesmo valor. Pensar o contrário equivaleria a supor que, do fato de que os seres humanos são capazes de se deleitar com o farfalhar das copas das árvores ao vento, de habitar cavernas e de comer frutas silvestres, devamos jogar fora a música, a arquitetura e a culinária.
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