30.3.10

Entrevista: "A riqueza está nas diferenças"




Por ocasião da Conferência Internacional Sobre a Língua Portuguesa que, patrocinada pelo Itamaraty, teve lugar em Brasília, de 25 a 28 do corrente, o Correio Braziliense publicou, no domingo, a seguinte entrevista, concedida por mim a Severino Francisco:

Poesia é doença ou cura?

Nem uma coisa nem outra. Chamá-la de doença ou cura seria confundi-la com a vida do poeta. Poesia é arte: a produção de um objeto que é feito de linguagem e dotado de valor estético. Sendo um objeto, ele não se confunde com a vida daquele que o produz. E não é porque esteja doente ou porque queira se curar que o poeta faz um poema; se assim fosse, o poema só interessaria ao doente. Acontece que, ao contrário, ele interessa a muita gente cuja vida nada tem a ver com a do poeta.

A frase dita por Caetano Veloso, “Só é possível filosofar em alemão”, ainda vale nos dias de hoje?

Não, nunca valeu. Na verdade, a frase não é de Caetano, mas de Heidegger que, não nos esqueçamos, chegou a apoiar o nazismo. Caetano a citou numa canção, de modo irônico, pois ele próprio é leitor, por exemplo, do filósofo francês Jean-Paul Sartre. A letra diz: “Se você tem uma ideia incrível/ É melhor fazer uma canção/ Está provado que só é possível/ Filosofar em alemão”. Uma ideia incrível é, literalmente, uma ideia em que não se pode acreditar: uma ideia que não é crível ou lógica; mas uma ideia incrível é também uma ideia maravilhosa. Pois bem, se você tem uma ideia que, não sendo crível nem lógica, é maravilhosa, é melhor fazer uma canção do que fazer filosofia. Por quê? Porque fazer filosofia para provar uma ideia que não é crível nem lógica, como Heidegger fez com essa de que só é possível filosofar em alemão, é, além de ridículo, nocivo.

A poesia e a música ainda estão casadas? Há novos poetas interessados na palavra cantada? Esta conexão entre música e poesia é uma singularidade da cultura brasileira?

Creio que sempre haverá poetas interessados na palavra cantada. A letra de música é uma espécie de poesia, e alguns letristas são grandes poetas, como o próprio Caetano, que já citei. Mas isso não é uma singularidade da cultura brasileira. Afinal, na Grécia antiga, toda poesia lírica era cantada; os poetas provençais cantavam; e existem grandes poetas entre os letristas americanos, ingleses, mexicanos, cubanos, franceses, portugueses etc.

Apesar da revolução tecnológica e da invenção de novos meios de comunicação, há um descaso com o cultivo da palavra pelas novas gerações?
Isso tem a ver com um desinteresse pela poesia como um espaço da singularidade?


Não sei se realmente há maior descaso hoje do que outrora. A verdade é que, antigamente, as pessoas que não se interessavam pela poesia não se destacavam tanto quanto hoje, quando qualquer um pode publicar o que pensa num blog. De todo modo, penso que seria interessante que as pessoas aprendessem a ler poesia nas escolas. Não digo ler em voz alta, mas simplesmente ler. É grande o analfabetismo no que diz respeito à linguagem poética.

O rapper é o poeta do futuro?

Talvez. Do presente é que não é.

Fale da sua luta contra a discriminação baseada na orientação sexual ou na identidade de gênero do cidadão.

É muito simples. Em particular, todo mundo tem o direito de ter o preconceito que quiser: não se pode negar a ninguém o direito à burrice. Em público, porém, a história é outra. Um país é tanto maior quanto mais for capaz de garantir a convivência do maior número possível de diferenças de ideias, comportamentos, projetos particulares, gostos, estilos de vida etc. Diferenças são riqueza. Absolutamente nada é mais importante do que isso. O único motivo que pode racionalmente ser invocado para negar a alguém o direito a se comportar de determinada maneira é que tal comportamento fira os iguais direitos de outras pessoas. Ora, o comportamento gay ou transexual não atropela os direitos alheios nem infringe lei brasileira nenhuma. Por isso, o gay deve ter o direito de existir e se manifestar publicamente sem temer repressão do Estado ou da sociedade.

Qual é sua relação artística com Marina Lima, sua irmã? Você dá palpite no trabalho dela e vice-versa?

Sim, mas mais antigamente do que hoje. Faço poucas letras hoje em dia, de modo que diminuíram as nossas parcerias.

Você viveu num Rio de Janeiro de sexo, drogas e rock ‘n’ roll. O que mais o marcou nesse período tão criativo e tão destrutivo?

A melhor coisa foi a liberação sexual; as piores coisas foram o surgimento da Aids e a disseminação da cocaína.

Hoje, você se considera um poeta de crachá, acadêmico ou um libertário?

Considero-me poeta, simplesmente: e isso, principalmente logo que termino de escrever um poema. Como dizia o poeta inglês W. H. Auden, é só nessa hora que a gente sabe que é poeta. Antes disso e depois disso, a gente não sabe se ainda é poeta.

Por que que a poesia marginal brasileira não é estudada e reverenciada nas universidades, como os beats foram nos Estados Unidos? Há preconceito?

Não sei se ainda é assim. Há muitas teses sobre Leminski, por exemplo, que era considerado marginal. O mesmo acontece com Waly Salomão. Também Chacal é objeto de teses. Agora mesmo, as obras reunidas de Roberto Piva, outro marginal, foram organizadas pelo professor de literatura Alcir Pécora.

Quem você gostaria de ver na Academia Brasileira de Letras, José Sarney ou Chacal?

Sarney já está na Academia há muito tempo, goste-se ou não disso. Quanto a Chacal, não creio que ele queira ser acadêmico, uma vez que se considera poeta marginal, e o poeta marginal se define exatamente por oposição ao acadêmico.

Como anda a política cultural do Brasil?

Já foi pior. Melhorou a partir de Gilberto Gil. Mas é claro que ainda tem muito a melhorar.

Por que é tão difícil publicar um livro?

É difcil publicar um livro porque poesia não vende. Leminski dizia que o fato de não vender era bom, pois isso quer dizer que se escreve poesia por amor, e não por dinheiro. Mesmo assim, parece que hoje se publicam mais livros de poesia do que jamais. E acontece que os poetas publicam também na Internet.

Quais os sinais positivos que você detecta na cultura nos dias de hoje?

Uma coisa que me parece muito positiva é o entrosamento cada vez maior entre o Brasil e Portugal; ou melhor, entre o Brasil e os demais países lusófonos. Por exemplo, cada vez se leem mais poetas portugueses, angolanos, moçambicanos etc. no Brasil e, por outro lado, poetas brasileiros em Portugal, Angola, Moçambique etc. Isso é enriquecedor para todos nós.

8 comentários:

carmen disse...

Hey, Poeta!

Gostei tanto da entrevista que colei em Vidráguas... Há palavras que não se pode guardar, por isso espraiamos.

Um abraço

Carmen Silvia Presotto

Antonio Cicero disse...

Legal, Carmen, Obrigado.

Beijo

Robson Ribeiro disse...

Adorei! Como sempre.

Cicero, é sempre bom saber das suas opiniões, porque, independente de concordar ou não, percebo em tudo o que você diz uma coerência e um embasamento que certamente são frutos de muito estudo e reflexão.
Nunca deixe de compartilhar conosco suas ideias.
Parabéns, mais uma vez.

Paulo Henrique disse...

Desde Protágoras, a verdade é o principal instrumento de segregação. Isso é um problema!

ADRIANO NUNES disse...

Cicero,


Muito bom lê-lo assim, decifrá-lo um pouco mais! Valeu!


Um poema novo:

"Enquanto escrevo"

Perco a cabeça
Enquanto escrevo
Versos. Se devo
À vida (Desça

Do pedestal!,
Grita meu cérebro)
Isso, não lembro.
Tudo é total-

Mente sem pé
Nem cabeça. É
Apenas sonho

O que proponho
A todos, é
No verso, fé.



Abração,
A. Nunes.

Victor Colonna disse...

Cícero,
Grande entrevista. Você é um mestre com as palavras, elas amam você! Segue aí uma pequena crônica!

Grande abraço!

A PALAVRA E A LÍNGUA (Victor Colonna)

Há palavras que soam bem apenas em determinada língua. Para estas, não há sinônimo que baste.

Establishment é inglês, os sinônimos em outras línguas enfraquecem a palavra, que tem algo de nobreza decadente, tradição e arrogância.

Mis-en-scène é francês, é mais que jogo de cena, menos que teatro.

Há casos em que duas línguas se juntam numa só expressam. Adoro falar “fazer forfait”, que é uma ausência inesperada, o não comparecimento a um compromisso previamente marcado.

Com saudade não há quem possa. Todos sabem que saudade é coisa nossa.

Muitas vezes as palavras fazem forfait comigo, eu compareço e elas não, elas em brancas nuvens, eu em folhas brancas, mãos vazias, morto de saudade.

É dura a vida de escritor.

Paulodaluzmoreira disse...

Puxa, Cícero, não sei se vc se sentiu assim, mas lendo a entrevista tive a impressão de um milagre: vc conseguiu dar uma boa entrevista sem NENHUMA ajuda do entrevistador - muito antes pelo contrário. Cada pergunta era uma barca furada que vc pegava, tapava o buraco e levava para algum lugar interessante. Parabéns!

Fernando Campanella disse...

Parabéns pela entrevista, Cícero, lucidez e seriedade. Muito importante o trecho que enfatiza a necessidade de convivência das diferenças para maior riqueza cultural e desenvolvimento de uma sociedade.
Um grande abraço.