18.3.10

Friedrich Hölderlin: "Hälfte des Lebens" / "Metade da vida": trad. de Manuel Bandeira




Metade da vida


Peras amarelas
E rosas silvestres
Da paisagem sobre a
Lagoa.

Ó cisnes graciosos,
Bêbedos de beijos,
Enfiando a cabeça
Na água santa e sóbria!

Ai de mim, aonde, se
É inverno agora, achar as
Flores? E aonde
O calor do sol
E a sombra da terra?
Os muros avultam
Mudos e frios; à fria nortada
Rangem os cata-ventos.



Hälfte des Lebens


Mit gelben Birnen hänget
Und voll mit wilden Rosen
Das Land in den See,
Ihr holden Schwäne,
Und trunken von Küssen
Tunkt ihr das Haupt
Ins heilignüchterne Wasser.

Weh mir, wo nehm ich, wenn
Es Winter ist, die Blumen, und wo
Den Sonnenschein,
Und Schatten der Erde?
Die Mauern stehn
Sprachlos und kalt, im Winde
Klirren die Fahnen.



HÖLDERLIN, Friedrich. Sämtliche Werke und Briefe. München: Carl Hanser
Verlag, 1970.

Tradução:
BANDEIRA, Manuel. Estrela da vida inteira. Rio de Janeiro: José Olympio, 1966.

7 comentários:

Paulo Henrique disse...

Píndaro - "Elísio"
Enquanto aqui é noite,
o sol fulgura vigoroso para eles
no mundo subterrâneo;
e diante da cidade,
pelos campos de rosas carmesins,o incenso
derrama a sua sombra,
e os ramos vergam-se com frutos de ouro.
Uns se divertem com cavalos ou lutando,
enquanto jogam outros, ou a lira tocam,
e entre eles a felicidade é como a árvore
que já cresceu de todo e se acha em flor.
Por essa terra amável
um doce aroma sem cessar se espalha:
nos altares dos deuses eles mesclam
arômatos de toda espécie
ao fogo que de longe brilha.

Denso negror expelem no outro lado
os lentos rios da sombria noite.

(Tradução: Péricles E.S. Ramos)

Jefferson Bessa disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Nobile José disse...

acho que te vi...

era você
no meu sonho
tenho quase certeza
atraveçavas a rua?
giravas um moinho?

minha voz embargada
do lado de cá da calçada
insistiu pra eu ficar sozinho

sim, era você
tenho certa certeza

da próxima vez
pulo a poça, atravesso
o vazio, arrumo a cara
vou pro rio, e te digo:

Valério disse...

António.

Sou português. E muito a propósito de Holderlin, conhecemo-nos em Lisboa Novembro passado na Casa Fernando Pessoa quando por cá passou pela ocasião de “Os Livres Pensadores”, se não me engano. Sem compromisso quanto ao “conhecemo-nos”, pois que assim se costuma dizer de quando dois ou mais indivíduos trocam nomes e apertos de mão. Habitualmente é falso contrato, convenção social, gesto abstracto, retrato-de-jornal (maldito tique de escrever sem pensar uma rima que em escrito fique para poeta eu me julgar). Porem, neste caso, depois de sermos apresentados, sendo que, como é óbvio, eu já o conhecia a si e já o contrario não se pode de todo conceber. Tudo na mesma e claro nada.

Estive presente no serão em género caseiro em que tive a oportunidade de o ouvir recitar um poema de sua autoria que disse estar há muito inacabado e cujo título não me recordo, nem sei se o há, nem me interessa. Não querendo abusar da confiança - ainda há tão pouco nos conhecemos – fiquei completamente fascinado não só com a coisa em si, mas também com a sua leitura tão simples e tão clara (até parecia o próprio do tal do dito poeta a falar como se as palavras fossem suas). Já tendo mil vezes de António Cícero falar (até porque o Brasil e eu somos tu-cá tu-lá), nunca tivera verdadeiro contacto com a obra. Logo fiquei muito feliz, pois a minha ignorância me dera a oportunidade de suspeitar de uma grande descoberta. Vital.

O colóquio no dia seguinte, não se pode dizer que tenha sido pleno... Porém, a sua intervenção com a leitura daquela espécie de ensaio foi do mais elevado interesse. Nesse mesmo evento, o Caetano fez-me o favor de publicitar este blogue. Mais esta da maior importância agradeço ao Caetano. Tenho seguido e acompanhado e explorado e vampirizado este ACONTECIMENTOS e sinto-me um privilegiado por me terem ensinado a ler e a saber falar a sua língua. A sua tertúlia virtual é um verdadeiro acontecimento na minha vida actual. Impensável no meu país natal, bela merda Portugal, que não vive senão à mingua até já de sua própria língua. (Curioso: vê-se que foi sem pensar que o que se disse saiu a rimar.)

Esta noite resolvi escrever-lhe para lhe agradecer o seu dedicado exercício a esta coisa grega. Estou a adorar isto de agora sermos conhecidos, para mim tem sido um negócio da china. Neste vínculo tão desmesuradamente desigual, achei por mínimo bem dizer-lhe estas toscas mas honestas palavritas de um grande obrigado pela enorme (enorme é enorme), e nobilíssima CIDADE.



Lisboa, 20 de Março de 2010

Antonio Cicero disse...

Caro Valério,

Muito obrigado digo eu, pelas suas palavras gentis. Amo Portugal. Fiquei encantado com seu texto tão bem escrito e tão português. Fico feliz de saber que costuma visitar este blog. Seja bem-vindo!

Um grande abraço

Valério disse...

Já que me fazem sentir tão bem acolhido nesta ilha em que, parece-me a mim, acaba por funcionar, de forma leve e completamente descomprometida, uma espécie de laboratório da Palavra. Aqui nesta orbe do António que tudo lê e (porquê?), tendo em conta o carácter de elevado critério desta embaixada, tudo aqui nesta orbe, já então e porque não urbe, acaba por ser aquilo que se designa por publicado. Quero eu dizer: imaginemos que estou navegando na internet e venho dar de caras com um poema do Holderlin; verifico que está postado num blog de um senhor chamado António Cícero (terei toda a legitimidade em não saber de quem se trata, em até desconfiar de que será talvez algum bacano sandeu que rapinou o nome a algum filósofo, algum político, algum (vai-se a ver) imperador, qualquer um deles, romano. Não tendo nada contra sandeus nem contra nomes nem contra romanos nem contra qualquer mister que houver e sendo amigo tão chegado do Holderlin (falo de espírito, não de espectro), vou bisbilhotar os comentários a propósito do meu poeta (coitado – só ele e Deus saberão...).

E leio por exemplo:
“Enquanto aqui é noite,
o sol fulgura vigoroso para eles”
e
“Dois polos: mapa norteador do desejo dividido”
e
“Permaneço no quarto que não se abre”

Nestes comentários vejo “publicados” (sem aspas) muitos e bons escritos de gentes que desconheço - porque certamente não foram forjadas para serem publicadas. Resumindo e para não ser maçador (coisa que, confesso, me é muito difícil evitar), aqui no seu blog tudo se pode editar. Democracia maior só talvez mesmo roubar.

Demo cra tenho uma questão a lançar: qual destes poemas seria melhor para editar?

1- “As linhas desta vida são diferentes
Como são os caminhos e as fronteiras dos montes
O que aqui somos, pode acabá-lo alem um Deus
Com harmonias, prémio eterno e paz”

2- “My work
is prose and poetry
but I like more Rose
than dinasty.
My Rose
is mine
and dinasty
I have no one.
Poetry only
is my dinasty
my work
but I like prose too
when I am whit Rose
comprennez-vous?“

3- “Que farei angustiado
onde caminho perdido
onde vou descaminhado
pecador desatinado
homem embalde nacido?”


Nenhum deles escreveu 1, 2 e 3 com intenção de “publicar” , mas acontece que estão publicados e é certo que, para isso, em alguma parte foram gravados. Até o mais solitário escrito e mais remoto não quer senão desesperadamente ser lido. Ou então não (que sei eu?), quantos poetas haverá que desenham seus versos na areia onde bate o mar?

O que foi concebido para o mar apagar
Talvez faça sentido se alguém o postar


Mentes obesas perfiladas
Gentes tesas derrubadas
Intenções maiores desencontradas
Emoções a cores todas desfocadas

Ai de mim senhor que já mais não posso
Deixai a este pobre cantor
um pouco do tanto de quanto é vosso
dizei que sim senhor e dai-me seja o que for
do que me cabe herdar sendo vós todo nosso

mandai-me um remédio ou medicamento
que cure este tédio em que me atormento
meu choro minhas preces todo o meu lamento
prometo adorar temer a tudo quanto é bento
mas revelai-me senhor só vos peço um momento
qual a substância activa do vosso ensinamento



Obrigado e abraços

ADRIANO NUNES disse...

amado cicero: lindo poema e linda tradução de bandeira! Estou com o pc com defeito! Por isso a configuração da msg via internet do celular! Abs! A. Nunes.