Mostrando postagens com marcador Tempo. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Tempo. Mostrar todas as postagens
24.1.13
José Castello: "Cicero, poeta do tempo"
Orgulho-me de aqui postar o seguinte artigo, do escritor e crítico literário José Castello, que foi publicado no dia 18 do corrente na coluna "Instantâneos Literários", do suplemento EU&, do jornalValor Econômico.
Cicero, poeta do tempo
por José Castello
Nossa vida cotidiana tornou-se quase inteiramente regida por princípios utilitários, pragmáticos, instrumentais, lamenta o poeta e filósofo carioca Antonio Cicero, de 67 anos. "Sempre foi assim, porém hoje as novas tecnologias eletrônicas potencializaram essa subordinação da vida ao princípio do desempenho." Ele reconhece que elas mudaram a vida de todos nós, que houve um avanço e uma transformação. Mas isso será apenas bom? "Ao invés de economizarem nosso tempo, as novas tecnologias o consomem." A tecnologia do século XXI devora o tempo. Devora o próprio século XXI. Resta-nos pouco tempo para meditar e contemplar. Para viver.
Para escapar dessa armadilha, Cicero - que no dia 11 se inscreveu para concorrer à vaga deixada pelo poeta Ledo Ivo na Academia Brasileira de Letras - se impõe certas regras pessoais, que segue com abnegação. Só consulta seus e-mails duas vezes por dia. Acessa a internet, na maior parte das vezes, apenas para fazer pesquisas, usando-a, assim, como uma antiga enciclopédia. Mantém um blog, chamado Acontecimentos (antoniocicero.blogspot.com.br), mas só o alimenta, com textos seus ou alheios, a cada dois dias. Também não participa das redes sociais, como o Facebook e o Twitter. Mesmo o celular, só o utiliza no caso de emergências, embora nele carregue também alguns dicionários e outros textos, de que eventualmente se vale. "Para mim, é imprescindível ter tempo", diz.
No mundo instrumentalizado e pragmático em que vivemos, ele admite, "é grande o pessimismo com que muitos consideram as artes tradicionais e, em particular, a poesia". Nosso mundo é veloz, obcecado por índices e resultados, quer as coisas sempre "para ontem". Tem como ideal, portanto, devorar o tempo, não usufruí-lo. "As artes tradicionais têm perdido sentido na medida em que deixaram de corresponder à exaltação contemporânea da atividade veloz, multifuncional, polivalente." Ninguém pode ler poesia, Cicero lembra, como quem lê um e-mail ou uma bula. A poesia não se lê apressadamente, mas, ao contrário, exige lentidão e entrega, paciência e concentração, devaneio e tempo. A poesia exige de seu leitor uma entrega absoluta. "Para ler poesia, o leitor deve entregar-se incondicionalmente, por um tempo determinado, aos caprichos semânticos, sintáticos, sonoros do poema." Mais uma vez: a leitura da poesia exige tempo. Dizendo de outra forma: a matéria da poesia é o próprio tempo.
O mais grave: essa entrega incondicional não oferece ao leitor garantia alguma de que ele terá, ao fim da leitura, um resultado palpável. A verdade é que não o terá. Em consequência, lembra Cicero, para a maioria das pessoas a poesia guarda um aspecto anacrônico. Extemporâneo, intempestivo, inoportuno. A poesia parece estar "fora do tempo" quando, ao contrário, ela é, por excelência, o lugar do tempo. Avisa Cicero, desde logo, que não partilha desse pessimismo em relação à poesia e às artes. "Ao contrário, penso que, ao abrir para o leitor uma dimensão do ser oposta à utilitária, pragmática, instrumental, uma dimensão do tempo que não é regida pelo princípio do desempenho, a literatura lhe oferece a possibilidade de um enorme enriquecimento vital." A poesia é um sopro que nos desperta. Mas é também uma brisa lenta e sutil, que exige paciência e serenidade. Quem chega a ela, porém, se vitaliza.
Assim é Antonio Cicero em pleno terceiro milênio: um homem que, justamente porque tem como matéria o tempo, está, de certo modo, fora do tempo ou, pelo menos, contra o momentâneo. Sim: é preciso aqui distinguir tempo e instante. O tempo é um fio, o instante é um corte. O tempo é uma longa estrada, o instante um semáforo que nos leva a parar para, logo depois, partir em disparada. Precisamos reaprender a respirar. Tudo isso vem... com o tempo! O pai de Cicero tinha uma grande biblioteca. Desde adolescente, ele pôde ler muito. Os portugueses, os russos, os franceses, os ingleses, os alemães, os italianos. Admite: "Hoje leio muito pouca ficção". Hoje lê, sobretudo, poesia e ensaio. Poesia e filosofia. "Acho que é uma questão de administração do tempo. Escrever sobre filosofia exige de mim um bom tempo de leitura, estudo e reflexão." Outra vez, e mais uma vez, o tempo, que deve ser curtido, alongado, prorrogado - isso em um século regido pelo culto ao instantâneo e ao "tempo real", que nada mais é que uma lasca do tempo, uma sucessão louca de fatias muito finas. E nos entulhamos dessas fatias finas e avulsas e ao fim (do tempo) estamos intoxicados, sem poder dizer o que engolimos. Não é assim nosso século?
Cicero lê também, é claro, muita poesia. E é a leitura da poesia, como em um círculo mágico, que o leva a escrever poesia. Que o empurra de volta a ela. Em seu livro mais recente, "Porventura" (Record), no poema "Auden e Yeats", como se estivesse dialogando com o poeta irlandês William B. Yeats (1865-1939), ele escreve: "possa a leitura da tua/ poesia, pura Musa,/ inspirar a minha arte". Outra vez a respiração. Mais uma vez o tempo, com seu ritmo mais natural, o inspirar e expirar. "A grande poesia, como a de Yeats, funciona para mim como uma Musa, que me impele a escrever." Logo: a poesia não é soprada desde fora, pelas filhas de Zeus, deusas distantes da Grécia antiga. É na própria poesia que a Musa habita. A poesia é a Musa da poesia, nos leva Cicero a pensar.
No mundo atual, lamenta Cicero, "é grande o pessimismo com que muitos consideram as artes tradicionais e, em particular, a poesia"
Entre todos os poetas, ele diz ainda, aquele com quem continua mais a aprender é Horácio (65 a.C.-8 a.C.), o poeta e filósofo da Roma antiga. "Cada vez que releio um de seus poemas, maravilho-me como se estivesse lendo pela primeira vez." Surpreende-se, sobretudo, com o modo como, nos poemas de Horácio, cada palavra modifica e é modificada pelas demais. Como se o poema estivesse vivo. (E não está?) Com seu olhar exigente, Antonio Cicero - embora leia os poetas brasileiros contemporâneos - acredita que a melhor poesia brasileira foi produzida no século XX. "Sobretudo a partir do modernismo." Pensa em Bandeira, Drummond, Cabral, Murilo Mendes, Cecília Meireles, poetas que constituem uma base muito forte para a poesia contemporânea. "E penso que há poetas contemporâneos que fazem jus a essa tradição." Discreto, prefere não citar nomes. Quanto a si mesmo, porém, não consegue se situar "em nenhum cenário literário". E, na verdade, nem faz questão disso. "Parece-me que, para fazê-lo, seria preciso tentar ver-se como que pelos olhos dos outros, e desconfio que quem consegue fazer tal coisa diminui a própria espontaneidade e potência". Um poeta deve contar apenas com o próprio olhar, ainda que esse olhar, a rigor, seja o da cegueira.
Cicero está cercado de livros. Lista que considera "nada original": Shakespeare, Hölderlin, Leopardi, Baudelaire, Rilke, Brecht, Yeats, Pessoa, Bandeira, Drummond e tantos outros. "Com eles aprendi que um poema é um objeto de palavras que merece existir por si." Adverte, porém, que essa afirmação não significa uma adesão ao formalismo. "Não é apenas a forma das palavras que interessa num poema, mas tudo aquilo de que ele é composto, inclusive os significados que ele suportar." Apesar dessa ressalva, insiste: um poema merece existir por si. "Sua apreciação mobiliza e confunde, isto é, atualiza, num jogo singular, as nossas mais diversas faculdades." Não apenas o intelecto, mas a imaginação, a razão, a sensibilidade, a sensualidade, a emoção - pensa Cicero - são afetadas pela leitura de um poema. O leitor se agita por inteiro. O poema (uma faca de palavras) o atravessa. A leitura do poema o interroga e transforma.
Ainda na adolescência, recorda-se, descobriu o conselho do russo Vladimir Maiakóvski (1893-1930), considerado o maior poeta do futurismo, que recomendava aos jovens poetas carregarem sempre um caderninho de notas e uma caneta. Até recentemente, cumpriu-o à risca. Depois descobriu que podia usar o telefone celular não tanto como telefone, mas como bloco de notas. "Eu o uso mais para isso, e como dicionário, do que como telefone".
Também abandonou o papel: hoje escreve já as primeiras versões de seus poemas no computador. Contudo, a sombra do papel permanece inalterável: não consegue ler bem um poema e corrigi-lo, se o conserva na tela do computador. Precisa imprimi-lo: só consegue mexer nele quando o deixa de volta deitado no papel. Depois, retorna ao computador, mais uma vez ao papel, outra ao computador etc., até o dia em que, por fim, dá o poema por terminado. É um processo longo e lento, em que, pouco a pouco, muitas palavras são abandonadas e muitas outras incorporadas, uma longa gestação que exige persistência e paciência. De fato, nos mostra Cicero, não existe poeta impaciente. Pelo menos, não para ele.
A poesia lhe surge de repente e em qualquer lugar. Pode surgir quando já está deitado, quase dormindo ou quase acordando, e nesses casos precisa se levantar correndo e anotá-la ou ela se perderá. "Caso não o faça, ela será, em 99% dos casos, esquecida. As palavras são, como dizia Homero, aladas, e voam para longe." Nada disso, contudo, o afeta ou cansa. A poesia (mesmo o mais árduo dos poemas) sempre deu a Cicero grande prazer e alegria. Entende assim: "A escrita é uma forma de enfrentar e superar a dor ou o sofrimento". Nesse caso, enfim, a poesia tem, sim, uma utilidade. Um uso íntimo, pessoal, secreto - que relação alguma estabelece com as vantagens de mercado ou com os objetivos da produção. Cada poema a seu tempo. Cada poeta com seu tempo. Matéria da poesia, o tempo é uma experiência singular e particular. Tempo de cada um, sempre assim.
Cicero prepara, no momento, uma coletânea de ensaios. Ao mesmo tempo, planeja escrever um livro sobre o niilismo. "Tento mostrar que a filosofia radicalmente ambiciosa, que é aquela em que a razão busca a verdade absoluta e universal, inevitavelmente conduz ao niilismo" (do latim "nihil", isto é, nada). Hoje, apesar de seu apego à poesia, são, sobretudo, as preocupações filosóficas que o movem. Embora considere poesia e filosofia "atividades opostas", apega-se às duas. Enquanto a filosofia depende de uma argumentação que a sustente, a poesia basta a si mesma. São duas paixões antagônicas que, no entanto, ele não consegue separar.
A preocupação central de Cicero, nos dois casos, é sempre com a passagem do tempo. Depois dos 60 anos de idade, começou a se preocupar cada vez mais - como é natural - com a idade, a velhice e a morte. O tempo, mais uma vez, está no coração do poeta. Em seu último livro, "Porventura", ele aparece no centro de poemas como "Balanço", "Palavras Aladas", "Meio Fio" e "Presente". Matéria da poesia, o tempo é também, no caso de Cicero, seu objeto. O tempo que, em seu caso, quase chega a ser um sinônimo de poesia.
Leia mais em:
http://www.valor.com.br/cultura/2974610/cicero-poeta-do-tempo#ixzz2ItheyA52
Labels:
Antonio Cicero,
Filosofia,
José Castello,
Poesia,
Tempo
21.7.12
Octavio Paz: de "Poesia e modernidade"
O mundo de Dante era finito e por isso pôde traçar a geografia do inferno, do purgatório e do paraíso. Mas esse mundo limitado era eterno: os homens estavam destinados a viver pelos séculos dos séculos e, depois do Juízo Final, sem experimentar mudança alguma. A eternidade dissipa o tempo e a sucessão. Seremos para sempre o que somos. Nisso consiste a diferença radical entre o mundo medieval e o moderno. O cristão medieval vivia num espaço finito e estava destinado à eternidade dos bem-aventurados ou dos réprobos; nós vivemos num universo infinito e estamos destinados a desaparecer para sempre. Nossa condição é trágica num sentido que nem os pagãos da Antiguidade nem os cristãos da Idade Média suspeitaram.
PAZ, Octavio. "Poesía y modernidad". In:_____. La otra voz. Poesía y fin de siglo. Barcelona: Seix Barral, 1990.
Labels:
Dante Alighieri,
Eternidade,
Finitude,
Idade Média,
Infinidade,
Modernidade,
Octavio Paz,
Tempo
2.7.12
Entrevista a Amarílis Lage
Há cerca de dez dias, concedi uma entrevista a Amarílis Lage, que usou alguns trechos da mesma em matéria intitulada "Um claro enigma", publicada no suplemento "Eu & Fim de Semana", do jornal Valor Econômico. Resolvi aqui postar a entrevista integral.
Entrevista a Amarílis Lage:
Amarlis Lage: Gostaria de começar abordando um tema sobre o qual vi você falar em uma entrevista na Globo News. Nela, você apontava uma diferença da poesia em relação à forma como lidamos com outros bens culturais: podemos desfrutar de uma música sem prestar muita atenção a ela, por exemplo, mas a poesia exige tempo, exige um mergulho. Por isso, seria “incompatível” com nosso tempo. Mas, também por isso, seria “necessária” ao nosso tempo. Achei essa ideia muito interessante e gostaria de entendê-la melhor. Hoje, é comum a impressão de que a poesia tem pouca visibilidade ou impacto (aliás, gostaria de saber se você compartilha essa impressão). Isso seria reflexo dessa incompatibilidade? A produção artística tem sido pressionada por aspectos como consumo e velocidade?
Antonio Cicero: Na aurora da cultura ocidental, na Grécia, a poesia era cantada. A poesia lírica se dava como letras de canções. Tudo indica que a poesia épica, como a de Homero, consistia num recitativo, isto é, numa espécie de rap. Nesse tempo, ela podia ser fruída passivamente, como hoje fruímos uma canção. Já a poesia escrita é diferente. Ela exige concentração. Ela consome tempo. Por isso, seu público sempre foi muito reduzido, em comparação com o público da poesia musicada. Hoje essa situação é mais dramática, pois nos encontramos presos a uma cadeia utilitária em que o sentido de cada coisa e pessoa que se encontra no mundo, o sentido inclusive de cada um de nós mesmos, é ser instrumental para outras coisas ou pessoas. Ninguém – nada – jamais vale por si, mas apenas como meio para outra coisa ou pessoa que, por sua vez, também funciona como meio para ainda outra coisa ou pessoa. Estamos praticamente o tempo todo trabalhando ou desempenhando, inclusive – e talvez sobretudo – através dos computadores, da Internet, dos celulares, dos tablets etc. Como ter tempo para a poesia? No entanto, parece que, justamente por isso, é ela que pode nos livrar, ao menos temporariamente, dessa cadeia, proporcionando-nos acesso a outra temporalidade. Ela representa uma alternativa à vida totalmente escravizada ao princípio do desempenho.
Enquanto pensava sobre isso, acabei me lembrando do papel que a internet pode ter. De modo geral, o mundo digital é muito associado a imediatismo e dispersão. Porém, algumas pessoas com as quais conversei consideram a internet um ambiente muito propício para a poesia. Um dos aspectos levantados foi o fato de tanto a poesia quanto o mundo virtual ultrapassarem a questão da linearidade. Outro, mais prático, se referia à facilidade para a divulgação de poemas, já que o espaço para a poesia seria restrito nas editoras e livrarias. Em sua opinião, a internet tem um efeito significativo sobre a produção, a divulgação ou a leitura de poesia no Brasil? Se sim, de que forma isso ocorre?
Sim. Como você observa, hoje qualquer um com acesso à Internet pode nela publicar seus poemas. Por outro lado, isso mesmo significa que os poemas de um poeta desconhecido provavelmente passarão despercebidos em meio a centenas de milhares de outros poemas de outros desconhecidos. E a Internet não propicia a atenção, mas a dispersão do internauta: o que significa também que ela não propicia as condições de concentração necessárias para a plena fruição da poesia.
Outra ideia com a qual tenho me deparado com frequência é a de que a poesia brasileira hoje vive um momento marcado pela diversidade. Você concorda com essa percepção ou vê pontos de convergência na boa poesia contemporânea? Havia de fato no passado (refiro-me, especificamente, ao século passado), uma percepção mais clara de quais eram os nomes e os modelos dominantes?
Há sem dúvida uma grande diversidade na poesia contemporânea. Não vejo nenhuma tendência dominante. Tampouco há modelos dominantes. Creio, entretanto, que o debate em torno do cânone poético continua, com o mesmo grau aproximado de concordância e discordância. Poucos hoje discordam, por exemplo, da importância de Bandeira, Drummond, Cabral, Murilo Mendes, Jorge de Lima, Ferreira Gullar ou Augusto de Campos.
Vi uma entrevista na qual você dizia que “não há poesia contemporânea - ou melhor, não há boa poesia contemporânea - que se pretenda imune às influências vanguardistas”. De que forma essa influência se dá na boa poesia contemporânea? Lembro que você se referia à liberdade em relação ao uso das formas no poema. A influência se dá também em outros aspectos?
Antes da experiências das vanguardas era comum o fetichismo de determinadas formas poéticas. Uma sequência de versos que correspondesse a certas formas fixas – a um soneto, por exemplo – era já tida como um poema. Por outro lado, um texto que violasse certas regras tradicionais – que não consistisse de versos métricos, por exemplo – não era considerado um poema. Ao produzir textos que, violando essas regras tradicionais, não só pretendiam ser poemas, mas, efetivamente, funcionavam como verdadeiros poemas, as vanguardas mostraram a possibilidade da invenção de novas formas poéticas e superaram o fetichismo tradicional. Essas são as maiores lições que elas nos legaram. Além disso, os grandes poetas vanguardistas, como todos os grandes poetas, deixaram-nos poemas admiráveis, que muito nos ensinam sobre a poesia.
Ainda sobre o uso das formas – vejo que parte da crítica olha essa heterogeneidade com muita desconfiança. Posso exemplificar com trechos de um texto relativamente recente da Iumna Maria Simon publicado na Piauí: “O passado, para o poeta contemporâneo (...) ficou reduzido, simplesmente, à condição de materiais disponíveis, a um conjunto de técnicas (...) que podem ser repetidos, copiados e desdobrados”; “Até onde vejo, as formas poéticas deixaram de ser valores que cobram adesão à experiência histórica e ao significado que carregam”; “O poeta entra na dita contemporaneidade como um consumidor, que pode usar todas as formas disponíveis sem se comprometer”.
Essa tem sido uma questão central para a crítica no Brasil?
Que desafios e vantagens você acha que essa heterogeneidade traz para o poeta e para o leitor?
Sobre a primeira citação que você faz, isto é, “O passado, para o poeta contemporâneo (...) ficou reduzido, simplesmente, à condição de materiais disponíveis, a um conjunto de técnicas (...) que podem ser repetidos, copiados e desdobrados”, observo o seguinte. Desde sempre, o passado da poesia ofereceu aos poetas materiais e técnicas. Os poetas lírico gregos, como Píndaro, por exemplo, citavam em seus poemas versos inteiros de Homero. Atenaios dizia que as tragédias atenienses eram migalhas de Homero. O poeta romano Horácio se gabava de ter transplantado formas gregas para o latim. Os poetas contemporâneos fazem algo equivalente. Por que, porém, pensar que, na poesia contemporânea o passado “ficou reduzido” a materiais e técnicas, quando ele era muito mais que isso, para os antigos? Cada poeta tem sua relação singular com o passado, que jamais se reduz a técnicas ou materiais, embora também inclua estes. O que me parece redutiva é a leitura que Simon faz dos poetas contemporâneos.
Sobre a segunda citação, isto é, “Até onde vejo, as formas poéticas deixaram de ser valores que cobram adesão à experiência histórica e ao significado que carregam”, observo o seguinte. Formas jamais cobram coisa nenhuma. Um soneto tinha um sentido para Petrarca, outro, completamente diferente, para Ronsard, que se lixava para o sentido que o soneto tivera para Petrarca, outro, completamente diferente, para Góngora, que se lixava para o sentido que o soneto tivera para Ronsard ou Petrarca; e o mesmo pode ser dito, em relação a seus predecessores, de um soneto de Baudelaire ou de Mário de Andrade ou de Drummond, ou de Paulo Henrique Britto. No fundo, Simon é vítima do fetichismo da forma, que descrevi acima.
Sobre a terceira citação, isto é, “O poeta entra na dita contemporaneidade como um consumidor, que pode usar todas as formas disponíveis sem se comprometer”, observo o seguinte. Primeiro, todo produtor é também um consumidor. Segundo, em cada poema, tudo é conteúdo: e tudo é forma. É entre formas que se repetem e formas que não se repetem que se criam todos os poemas. A sintaxe do poema, as relações paronomásticas das palavras que o compõem e as próprias palavras são formas/conteúdos. Em relação a tais formas, as formas fixas não possuem nenhum privilégio. Trata-se apenas de formas que são catalogadas porque se repetem. No final, o que conta é a totalidade das formas/conteúdos que interagem entre si para produzir um objeto absolutamente singular. Dado que não há fórmulas nem receitas para criar tais objetos, todos os poemas bons são experimentais. É pena que a professora não se tenha dado ao trabalho de observar de perto como trabalham os poetas contemporâneos. Ela talvez tivesse então percebido que como eles, ao contrário dela, não são vítimas do fetichismo da forma fixa, são capazes de usar tais formas simplesmente na qualidade de autoimposições formais arbitrárias que, contrapondo-se à espontaneidade criativa, imponham tensões estimulantes ao processo da produção do poema. Tal é o sentido, por exemplo, da afirmação de João Cabral de que a rima é necessária, pois “para se criar algo, é necessário um esforço. Um obstáculo diante do ser o obriga a muito mais esforço e faz com que ele atinja o seu extremo”. É normalmente com esse propósito que os poetas contemporâneos usam as formas fixas. Elas são, para eles, meios, e não fins.
Terceiro, o compromisso do poeta é e deve ser, em primeiro lugar, com a poesia, isto é, com o poema que está concretamente a fazer, e nem com esta ou aquela forma tomada de modo isolado ou abstrato, nem com esta ou aquela ideologia.
Você já mencionou também que um dos poetas mais marcantes na sua formação foi Carlos Drummond de Andrade. Como isso reflete em seu trabalho? Acha que, de modo geral, a poesia feita hoje no Brasil dialoga com a poesia de Drummond? Se sim, como?
Com certeza se reflete em meu trabalho, porém não sei dizer como. Dado que Drummond é, a meu ver, o maior poeta que já tivemos, creio que nenhum poeta contemporâneo pode deixar de, de algum modo, dialogar com ele. Aliás, Drummond já fazia tudo o que a professora Simon condena nos contemporâneos, tanto tendo usado as formas fixas (magistralmente) quanto tendo feito poemas experimentais (magníficos).
Nesse cenário que parece ser tão diverso, seria muito interessante se pudéssemos apresentar aos leitores alguns poetas que têm produzido trabalhos importantes no Brasil, como é o seu. O senhor poderia me ajudar indicando alguns de seus pares e me ajudando a ver onde o trabalho deles se destaca?
O problema de tais listas é que, com certeza, a gente sempre se esquece de algum nome importantíssimo. Mas cito os nomes que primeiro me ocorreram, em ordem alfabética: Alberto Pucheu, Alex Varella, Armando Freitas Filho, Arnaldo Antunes, Cláudia Roquette Pinto, Eucanaã Ferraz, Nelson Ascher, Ricardo Silvestrin, Salgado Maranhão...
Labels:
Arte,
Carlos Drummond de Andrade,
Formas fixas,
Internet,
Iumna Maria Simon,
Música,
Poesia,
Tempo,
Vanguardas
17.11.10
Hokusai: "Desde seis anos..."
Desde seis anos, tenho mania de desenhar as formas das coisas. Aos cinquenta anos, eu tinha publicado uma infinidade de desenhos, mas nada do que fiz antes dos setenta anos vale a pena. Foi aos setenta e três que compreendi mais ou menos a estrutura da verdadeira natureza dos animais, das árvores, das plantas, dos pássaros, dos peixes e dos insetos.
Consequentemente, quando eu tiver oitenta anos, terei progredido ainda mais; aos noventa, penetrarei no mistério das coisas. Com cem anos, serei um artista maravilhoso. E quando eu tiver cento e dez, tudo o que eu criar: um ponto, uma linha, tudo será vivo.
Peço aos que viverem tanto quanto eu que vejam como cumpro minha palavra.
Escrito na idade de sete e cinco anos por mim, outrora Hokusai, hoje Gwakio Rojin, o velho louco pelo desenho.
6.4.10
Jorge Luis Borges e Osvaldo Ferrari: trecho de diálogo
OSVALDO FERRARI: Para além de todas as modas do nosso século, o senhor declarou, em um de seus textos, que afortunadamente não possui vocação iconoclasta.
JORGE LUIS BORGES: Sim, é verdade, acho que devemos respeitar o passado, uma vez que o passado é tão facilmente modificável, não é? No presente.
OSVALDO FERRARI: Mas essa atitude de se manter alheio às sucessivas modas iconoclastas, por sua parte...
JORGE LUIS BORGES: Ah, sim, eu acredito que sim; mas é um mau hábito francês pensar na literatura em termos de escolas, ou em termos de gerações. Flaubert disse: "Quando um verso é bom, perde sua escola". E acrescentou: "Um bom verso de Boileau equivale a um bom verso de Hugo". E é verdade: quando um poeta acerta, acerta para sempre, e não interessa muito que estética professe, ou em que época tenha sido escrito: esse verso é bom, e é bom para sempre. E isso acontece com todos os versos bons, podem ser lidos sem levar em conta o fato de que correspondem, por exemplo, ao século XIII, à língua italiana, ou ao século XIX, à língua inglesa, ou que opiniões políticas professava o poeta: o verso é bom. Eu sempre cito aquele verso de Boileau; surpreendentemente, Boileau diz: "O momento no qual falo já está longe de mim". É um verso melancólico e, além disso, no momento em que dizemos o verso, esse verso deixa de ser presente, e se perde no passado, e não importa se é um passado muito recente ou um passado remoto: o verso fica ali. E foi Boileau quem disse; esse verso não se parece com a imagem que temos de Boileau, mas seria igualmente bom se fosse de Verlaine, se fosse de Hugo, ou se fosse de um autor desconhecido: o verso existe por conta própria.*
BORGES, Jorge Luis; FERRARI, Osvaldo. "Os clássicos aos 85 anos". Sobre os sonhos e outros diálogos. Trad. de John Lionel O'Kuinghttons Rodríguez. São Paulo: Hedra, 2009.
* O verso "Le moment où je parle est déjà loin de moi" é a tradução que Boileau fez de um trecho do verso 153 da Sátira V de Pérsio. O verso inteiro de Pérsio diz: "Vive memor lethi: fugit hora; hoc quod loquor inde est" (Lembra da morte, ao viver: a hora foge; isto que digo já passou). "A hora foge" remete ao famoso trecho do verso de Virgílio que diz: "Sed fugit interea, fugit irreparabile tempus" (Mas enquanto isso foge, foge irreparável o tempo). Esse verso nos lembra as palavras de Horácio "dum loquimur fugerit invida aetas" (enquanto conversamos, terá fugido despeitada a hora), de famosa ode que já citei, como exemplo do motivo "carpe diem", neste blog, aqui: http://antoniocicero.blogspot.com/2010/02/carpe-diem-o-seguinte-artigo-publicado.html. A.C.
Labels:
John O'Kuinghttons,
Jorge Luis Borges,
Nicolas Boileau,
Osvaldo Ferrari,
Passado,
Poesia,
Tempo,
Verso
6.9.09
Vladimir Jankélévitch: sobre o tempo
O tempo revela o charme das coisas sem charme. É por isso que o tempo é poeta. Só os
poetas e pintores são capazes de conhecer de imediato o charme do presente. [...] Utrillo [1883-1955] pintava um poste ou um muro num subúrbio sórdido... e isso fazia sonhar. O que os poetas e pintores sabem traduzir no presente, o tempo o traduz para nós que não somos nem pintores nem poetas. É o tempo que é poeta para nós".
JANKÉLÉVITCH, Vladimir. Citado por: VIANNA, Hermano. "O mercado da desconfiança". Folha de São Paulo, caderno "Mais", São Paulo, 6 de setembro de 2009.
Labels:
Hermano Vianna,
Pintura,
Poesia,
Tempo,
Vladimir Jankélévitch
7.9.08
Sobre os poemas enviados a este blog
Em comentário ao poema "Um fio do seu cabelo", do Arnaldo Antunes, Adriano Nunes escreveu: "SE FOSSE POSSÍVEL E SE VOCÊ QUISER, GOSTARÍAMOS TODOS DO BLOG, COM CERTEZA, QUE VOCÊ CRITICASSE, EXPUSESSE UM COMENTÁRIO SOBRE AS POESIAS QUE NÓS, OS BLOGUEIROS, ENVIAMOS PARA VOCÊ". Como sinto que isso é um sentimento não apenas dele, resolvi postar aqui a minha resposta:
Querido Adriano,
Obrigado pela distinção que me confere, supondo que pudesse ser de alguma valia a opinião que eu expressasse sobre os poemas que você e outros freqüentadores deste blog me enviam.
Francamente, eu gostaria de poder fazer o que você pede, mas, infelizmente, não é viável. Gosto de vários dos poemas que me enviam (inclusive seus); não gosto tanto de vários outros; mas não acho certo publicar uma opinião leviana, baseada apenas numa primeira impressão. De que vale uma primeira impressão, em matéria de poesia? Deixe-me dar um exemplo. Na década de setenta, quando eu morava na Inglaterra, ouvi elogios a um poeta inglês chamado Philip Larkin. Comprei um livro seu. Como me tinha sido recomendado por alguém cuja opinião eu prezava muito, li-o mais de uma vez. Ainda hoje o tenho, com alguns poemas marcados. Lembro-me porém de ter achado Larkin um poeta menor. Não entendi como podiam elogiá-lo tanto. Pareceu-me mesquinho, insípido, provinciano. Logo me esqueci dele. Décadas depois, no mês passado, deparei-me com uma citação de um poema de Larkin. Fiquei arrepiado. Era um grande poema. Procurei meu antigo volume. Vi que o que tinha nas mãos era um exemplar de uma obra prima. Por que se deu essa mudança em meu gosto? Mistério.
Assim, a menos que me tenha debruçado um bom tempo sobre a obra (e não apenas sobre um ou alguns poemas) de um poeta, não me sinto com o direito de desencorajá-lo, caso não aprecie o(s) texto(s) que ele enviou. Eu posso simplesmente não o(s) ter entendido por não ter sentido afinidade com o projeto poético dele: e isso, possivelmente, por uma falha minha, e não dele.
Por outro lado, lembro as palavras de Eliot: “nenhum poeta honesto jamais pode ter certeza do valor permanente do que escreveu: ele pode ter perdido tempo e atrapalhado a própria vida por nada”. Com que direito eu, sem fundamento suficiente, encorajaria alguém a talvez atrapalhar a própria vida por nada?
O ideal seria, portanto, que eu tivesse tempo para me dedicar, como gostaria, a ler escrupulosamente as obras de todos os poetas com os quais, através deste blog, tenho contato e, em seguida, escrevesse responsavelmente sobre elas. Infelizmente não tenho esse tempo: mal tenho tempo para ler coisas que me são essenciais ou para escrever uma fração das coisas que desejo.
Entretanto, ainda que eu tivesse tempo e fizesse tudo isso, não creio que o meu parecer representasse nada de realmente importante para poeta algum. A VERDADE É QUE NINGUÉM PODE OBTER DE OUTRA PESSOA UMA CONFIRMAÇÃO SEGURA DO VALOR DAQUILO QUE ESCREVE. É-SE POETA A DESPEITO DESSE FATO, OU NÃO SE É POETA.
Bandeira confessou uma vez que ficava “sempre embaraçado para dar qualquer conselho” e que dizia ao jovem poeta que continuasse a fazer os seus versos “sem se preocupar com a opinião de ninguém, inclusive a minha”. Sem a menor pretensão de me comparar com Bandeira, é exatamente isso o que eu gostaria de dizer.
Abraço,
Antonio Cicero
Querido Adriano,
Obrigado pela distinção que me confere, supondo que pudesse ser de alguma valia a opinião que eu expressasse sobre os poemas que você e outros freqüentadores deste blog me enviam.
Francamente, eu gostaria de poder fazer o que você pede, mas, infelizmente, não é viável. Gosto de vários dos poemas que me enviam (inclusive seus); não gosto tanto de vários outros; mas não acho certo publicar uma opinião leviana, baseada apenas numa primeira impressão. De que vale uma primeira impressão, em matéria de poesia? Deixe-me dar um exemplo. Na década de setenta, quando eu morava na Inglaterra, ouvi elogios a um poeta inglês chamado Philip Larkin. Comprei um livro seu. Como me tinha sido recomendado por alguém cuja opinião eu prezava muito, li-o mais de uma vez. Ainda hoje o tenho, com alguns poemas marcados. Lembro-me porém de ter achado Larkin um poeta menor. Não entendi como podiam elogiá-lo tanto. Pareceu-me mesquinho, insípido, provinciano. Logo me esqueci dele. Décadas depois, no mês passado, deparei-me com uma citação de um poema de Larkin. Fiquei arrepiado. Era um grande poema. Procurei meu antigo volume. Vi que o que tinha nas mãos era um exemplar de uma obra prima. Por que se deu essa mudança em meu gosto? Mistério.
Assim, a menos que me tenha debruçado um bom tempo sobre a obra (e não apenas sobre um ou alguns poemas) de um poeta, não me sinto com o direito de desencorajá-lo, caso não aprecie o(s) texto(s) que ele enviou. Eu posso simplesmente não o(s) ter entendido por não ter sentido afinidade com o projeto poético dele: e isso, possivelmente, por uma falha minha, e não dele.
Por outro lado, lembro as palavras de Eliot: “nenhum poeta honesto jamais pode ter certeza do valor permanente do que escreveu: ele pode ter perdido tempo e atrapalhado a própria vida por nada”. Com que direito eu, sem fundamento suficiente, encorajaria alguém a talvez atrapalhar a própria vida por nada?
O ideal seria, portanto, que eu tivesse tempo para me dedicar, como gostaria, a ler escrupulosamente as obras de todos os poetas com os quais, através deste blog, tenho contato e, em seguida, escrevesse responsavelmente sobre elas. Infelizmente não tenho esse tempo: mal tenho tempo para ler coisas que me são essenciais ou para escrever uma fração das coisas que desejo.
Entretanto, ainda que eu tivesse tempo e fizesse tudo isso, não creio que o meu parecer representasse nada de realmente importante para poeta algum. A VERDADE É QUE NINGUÉM PODE OBTER DE OUTRA PESSOA UMA CONFIRMAÇÃO SEGURA DO VALOR DAQUILO QUE ESCREVE. É-SE POETA A DESPEITO DESSE FATO, OU NÃO SE É POETA.
Bandeira confessou uma vez que ficava “sempre embaraçado para dar qualquer conselho” e que dizia ao jovem poeta que continuasse a fazer os seus versos “sem se preocupar com a opinião de ninguém, inclusive a minha”. Sem a menor pretensão de me comparar com Bandeira, é exatamente isso o que eu gostaria de dizer.
Abraço,
Antonio Cicero
22.8.08
Paul Valéry: sobre a falta de tempo
Outro dia, por ocasião do lançamento do excelente O livro das citações, do Eduardo Giannetti, conversei com ele sobre a epidemia da falta de tempo que, paradoxalmente, assola nosso mundo informatizado. Ele se lembrou então de um texto (citado exatamente n’O livro das citações) em que Valéry, em 1935, já falava desse flagelo. Ei-lo:
O tempo livre que tenho em mente não é o lazer tal como normalmente entendido. O lazer aparente ainda permanece conosco, e, de fato, está protegido e propagado por medidas legais e pelo progresso mecânico. As jornadas de trabalho são medidas, e a sua duração em horas, regulada por lei. O que eu digo, porém, é que o nosso ócio interno, algo muito distinto do lazer cronometrado, está desaparecendo. Estamos perdendo aquela paz essencial nas profundezas do nosso ser, aquela ausência sem preço na qual os elementos mais delicados da vida se renovam e se confortam, ao passo que o ser interior é de algum modo liberado de passado e futuro, de um estado de alerta presente, de obrigações pendentes e expectativas à espreita. Nenhuma preocupação, nenhum amanhã, nenhuma pressão interna, mas uma forma de repouso na ausência, uma vacuidade benéfica que traz a mente de volta à sua verdadeira liberdade, ocupada apenas consigo mesma. Livre de suas obrigações para com o saber prático e desonerada de qualquer preocupação sobre o porvir, ela cria formas tão puras como o cristal. Mas as demandas, a tensão, a pressa da existência moderna perturbam e destroem esse precioso repouso. Olhe para dentro e ao redor de si! O progresso da insônia é notável e anda pari passu com todas as outras modalidades de progresso.
PAUL VALÉRY (1935)
In: GIANNETTI, Eduardo. O livro das citações. São Paulo: Companhia das Letras, 2008.
O tempo livre que tenho em mente não é o lazer tal como normalmente entendido. O lazer aparente ainda permanece conosco, e, de fato, está protegido e propagado por medidas legais e pelo progresso mecânico. As jornadas de trabalho são medidas, e a sua duração em horas, regulada por lei. O que eu digo, porém, é que o nosso ócio interno, algo muito distinto do lazer cronometrado, está desaparecendo. Estamos perdendo aquela paz essencial nas profundezas do nosso ser, aquela ausência sem preço na qual os elementos mais delicados da vida se renovam e se confortam, ao passo que o ser interior é de algum modo liberado de passado e futuro, de um estado de alerta presente, de obrigações pendentes e expectativas à espreita. Nenhuma preocupação, nenhum amanhã, nenhuma pressão interna, mas uma forma de repouso na ausência, uma vacuidade benéfica que traz a mente de volta à sua verdadeira liberdade, ocupada apenas consigo mesma. Livre de suas obrigações para com o saber prático e desonerada de qualquer preocupação sobre o porvir, ela cria formas tão puras como o cristal. Mas as demandas, a tensão, a pressa da existência moderna perturbam e destroem esse precioso repouso. Olhe para dentro e ao redor de si! O progresso da insônia é notável e anda pari passu com todas as outras modalidades de progresso.
PAUL VALÉRY (1935)
In: GIANNETTI, Eduardo. O livro das citações. São Paulo: Companhia das Letras, 2008.
Labels:
Eduardo Giannetti,
Insônia,
Lazer,
Liberdade,
Paul Valéry,
Progresso,
Tempo
Assinar:
Postagens (Atom)