10.12.10

Bertold Brecht: "Von der Kindermörderin Marie Farrar" / "A infanticida Marie Farrar": trad. de Paulo César de Souza





A infanticida Marie Farrar
 1
Marie Farrar, nascida em abril, menor
De idade, raquítica, sem sinais, órfã
Até agora sem antecedentes, afirma
Ter matado uma criança, da seguinte maneira:
Diz que, com dois meses de gravidez
Visitou uma mulher num subsolo
E recebeu, para abortar, uma injeção
Que em nada adiantou, embora doesse.
     Os senhores, por favor, não fiquem indignados.
     Pois todos nós precisamos de ajuda, coitados.


2
Ela porém, diz, não deixou de pagar
O combinado, e passou a usar uma cinta
E bebeu álcool, colocou pimenta dentro
Mas só fez vomitar e expelir.
Sua barriga aumentava a olhos vistos
E também doía, por exemplo, ao lavar pratos.
E ela mesma, diz, ainda não terminara de crescer.
Rezava à Virgem Maria, a esperança não perdia.
     Os senhores, por favor, não fiquem indignados
     Pois todos nós precisamos de ajuda, coitados.


3
Mas as rezas foram de pouca ajuda, ao que parece.
Havia pedido muito. Com o corpo já maior
Desmaiava na Missa. Várias vezes suou
Suor frio, ajoelhada diante do altar.
Mas manteve seu estado em segredo
Até a hora do nascimento.
Havia dado certo, pois ninguém acreditava
Que ela, tão pouco atraente, caísse em tentação.
     Mas os senhores, por favor, não fiquem indignados
     Pois todos nós precisamos de ajuda, coitados.


4
Nesse dia, diz ela, de manhã cedo
Ao lavar a escada, sentiu como se
Lhe arranhassem as entranhas. Estremeceu.
Conseguiu no entanto esconder a dor.
Durante o dia, pendurando a roupa lavada
Quebrou a cabeça pensando: percebeu angustiada
Que iria dar à luz, sentindo então
O coração pesado. Era tarde quando se retirou.
     Mas os senhores, por favor, não fiquem indignados
     Pois todos nós precisamos de ajuda, coitados.



5
Mas foi chamada ainda uma vez, após se deitar:
Havia caído mais neve, ela teve que limpar.
Isso até a meia-noite. Foi um dia longo.
Somente de madrugada ela foi parir em paz.
E teve, como diz, um filho homem.
Um filho como tantos outros filhos.
Uma mãe como as outras ela não era, porém
E não podemos desprezá-la por isso.
     Mas os senhores, por favor, não fiquem indignados.
     Pois todos nós precisamos de ajuda, coitados.


6
Vamos deixá-la então acabar
De contar o que aconteceu ao filho
(Diz que nada deseja esconder)
Para que se veja como sou eu, como é você.
Havia acabado de se deitar, diz, quando
Sentiu náuseas. Sozinha
Sem saber o que viria
Com esforço calou seus gritos.
     E os senhores, por favor, não fiquem indignados
     Pois todos precisamos de ajuda, coitados.


7
Com as últimas forças, diz ela
Pois seu quarto estava muito frio
Arrastou-se até o sanitário, e lá (já não
sabe quando) deu à luz sem cerimônia
Lá pelo nascer do sol. Agora, diz ela
Estava inteiramente perturbada, e já com o corpo
Meio enrijecido, mal podia segurar a criança
Porque caía neve naquele sanitário dos serventes.
     Os senhores, por favor, não fiquem indignados
     Pois todos nós precisamos de ajuda, coitados.


8
Então, entre o quarto e o sanitário — diz que
Até então não havia acontecido — a criança começou
A chorar, o que a irritou tanto, diz, que
Com ambos os punhos, cegamente, sem parar
Bateu nela até que se calasse, diz ela.
Levou em seguida o corpo da criança
Para sua cama, pelo resto da noite
E de manhã escondeu-o na lavanderia.
     Os senhores, por favor, não fiquem indignados
     Pois todos nós precisamos de ajuda, coitados.


9
Marie Farrar, nascida em abril
Falecida na prisão de Meissen
Mãe solteira, condenada, pode lhes mostrar
A fragilidade de toda criatura. Vocês
Que dão à luz entre lençóis limpos
E chamam de “abençoada” sua gravidez
Não amaldiçoem os fracos e rejeitados, pois
Se o seu pecado foi grave, o sofrimento é grande.
     Por isso lhes peço que não fiquem indignados
     Pois todos nós precisamos de ajuda, coitados.





Von der Kindermörderin Marie Farrar


1
Marie Farrar, geboren im April
Unmündig, merkmallos,rachitisch, Waise
Bislang angeblich unbescholten, will
Ein Kind ermordet haben in der Weise:
Sie sagt, sie habe schon im zweiten Monat
Bei einer Frau in einem Kellerhaus
Versucht, es abzutreiben mit zwei Spritzen
Angeblich schmerzhaft, doch ging's nicht heraus.
     Doch ihr, ich bitte euch, wollt nich in Zorn verfallen
     Denn alle Kreatur braucht Hilf von allen.

2
Sie habe dennoch, sagt sie, gleich bezahlt
was ausgemacht war, sich fortan geschnürt
Auch Sprit getrunken, Pfeffer drin vermahlt
Doch habe sie das nur stark abgeführt.
Ihr Leib sei zusehends geschwollen, habe
Auch stark geschmerzt, beim Tellerwaschen oft.
Sie selbst sei, sagt sie, damals noch gewachsen.
Sie habe zu Marie gebetet, viel erhofft.
     Auch ihr, ich bitte euch, wollt nich in Zorn verfallen
     Denn alle Kreatur braucht Hilf von allen.

3
Doch die Gebete hätten, scheinbar, nichts genützt.
Es war auch viel verlangt. Als sie dann dicker war
Hab ihr in Frühmetten geschwindelt. Oft hab sie geschwitzt
Auch Angstschweiß, häufig unter dem Altar.
Doch hab den Zustand sie geheimgehalten
Bis die Geburt sie nachher überfiel
Es sei gegangen, da wohl niemand glaubte
dass sie, sehr reizlos, in Versuchung fiel.
     Und ihr, ich bitte euch, wollt nich in Zorn verfallen
     Denn alle Kreatur braucht Hilf von allen.

4
An diesem Tag, sagt sie, in aller Früh
Ist ihr beim Stiegenwischen so, als krallten
Ihr Nägel in den Bauch. Es schüttelt sie.
Jedoch gelingt es ihr, den Schmerz geheimzuhalten.
Den ganzen Tag, es sei beim Wäschehängen
Zerbricht sie sich den Kopf; dann kommt sie drauf
Dass sie gebären sollte, und es wird ihr
Gleich schwer ums Herz. Erst spät geht sie hinauf.
     Doch ihr, ich bitte euch, wollt nich in Zorn verfallen
     Denn alle Kreatur braucht Hilf von allen.


5
Man holte sie noch einmal, als sie lag
Schnee war gefallen, und sie mußte kehren.
Das ging bis elf. Es war ein langer Tag.
Erst in der Nacht konnt sie in Ruhe gebären.
Und sie gebar, so sagt sie, einen Sohn.
Der Sohn war ebenso wie andere Söhne.
Doch war sie nicht, wie andre Mütter sind obschon -
Es liegt kein Grund vor, dass ich sie verhöhne.
     Auch ihr, ich bitte euch, wollt nich in Zorn verfallen
     Denn alle Kreatur braucht Hilf von allen.

6
So lasst sie also weiter denn erzählen
wie es mit diesem Sohn geworden ist
(Sie wolle davon, sagt sie, nichts verhehlen)
Damit man sieht wie ich bin und du bist.
Sie sagt, sie sei, nur kurz im Bett, von Übel-
keit stark befallen worden, und allein
Hab sie, nicht wissend, was geschehen sollte
Mit Mühe sich bezwungen, nicht zu schrein.
     Und ihr, ich bitte euch, wollt nich in Zorn verfallen
     Denn alle Kreatur braucht Hilf von allen.

7
Mit letzter Kraft hab sie, so sagt sie, dann
Da ihre Kammer auch eiskalt gewesen
sich zum Abort geschleppt und dort auch (wann
weiß sie nicht mehr) geborn ohn Federlesen
So gegen Morgen zu. Sie sei, sagt sie
Jetzt ganz verwirrt gewesen, habe dann
Halb schon erstarrt, das Kind kaum halten können
Weil es in den Gesindabort hereinschnein kann.
     Auch ihr, ich bitte euch, wollt nich in Zorn verfallen
     Denn alle Kreatur braucht Hilf von allen.

8
Dann zwischen Kammer und Abort - vorher, sagt sie
Sei noch gar nichts gewesen - fing das Kind
zu schreien an, das hab sie so verdrossen, sagt sie
Dass sie's mit beiden Fäusten, ohne Aufhörn, blind
So lang geschlagen habe, bis es still war, sagt sie.
Hieraus hab sie das Tote noch durchaus
zu sich ins Bett genommen für den Rest der Nacht
Und es versteckt am Morgen in dem Wäschehaus.
     Doch ihr, ich bitte euch, wollt nich in Zorn verfallen
     Denn alle Kreatur braucht Hilf von allen.


9
Marie Farrar, geboren im April

gestorben im Gefängnishaus zu Meißen
Ledige Kindesmutter, abgeurteilt, will
Euch die Gebrechen aller Kreatur erweisen.
Ihr, die ihr gut gebärt in saubren Wochenbetten
und nennt "gesegnet" euren schwangren Schoß
wollt nicht verdammen die verworfnen Schwachen
Denn ihre Sünd war groß, doch ihr Leid war groß.
     Darum ihr, ich bitte euch, wollt nich in Zorn verfallen
     Denn alle Kreatur braucht Hilf von allen.






BRECHT, Bertold. Die Hauspostille. Frankfurt: Suhrkamp, 1976.

BRECHT, Bertold. "Poemas do Manual de devoção de Bertold Brecht". Poemas 1913-1956. Seleção e tradução de Paulo César de Souza. Sâo Paulo: Editora 34, 2001.

8 comentários:

ADRIANO NUNES disse...

Cicero,

Uma das coisas mais fortes e belas que ultimamente li - texto atualíssimo! (incluo aqui o texto do Dráuzio Varella)

Grato por compartilhar!

Abração,
Adriano Nunes

Climacus disse...

sei que esse não é o espaço, mas, queria lamentar a ausência de Antonio Cícero nas manhãs dos sábados paulistas, como disse Caetano Veloso certa vez: mais uma "FALHA de São Paulo". Em suas colunas quinzenais, os paulistas conheceram melhor uma prosa bela, crítica e corajosa.

Antonio Cicero disse...

Muito obrigado, Climacus.

Felizmente, tive leitores de grande qualidade como você; mas parece que a quantidade dos mesmos era menor do que a que convém à “Ilustrada” de sábado.

Abraço

Climacus disse...

Mude-se para o ESTADO e, certamente, muitos "mesmos" acompanharão,

Abraço.

Alcione disse...

Também achei lamentável, assim como minha mãe de 83 anos que queria picar o artigo e enviar prá quem trocou, rss, mais e mais precisamos de sua arte e lucidez, que fica na Ilustríssima, um grande abraço!

Domingos da Mota disse...

Poemas com gente dentro, com Brecht
sempre actual, cada vez mais actual.
Obrigado.

Nobile José disse...

sim, climacus, mais uma, das inúmeras, "falhas de são paulo"...

Balaio Variado disse...

Olá

Gostaria de convidá-los para assistir o clip de um espetáculo baseado no texto "Maria Farrar".

Este é o link do post em meu blog

http://www.balaiovariado.com/2010/01/menina-condenada-morte-baseado-em.html

Abraços
Balaio Variado