6.9.09

Vladimir Jankélévitch: sobre o tempo




O tempo revela o charme das coisas sem charme. É por isso que o tempo é poeta. Só os
poetas e pintores são capazes de conhecer de imediato o charme do presente. [...] Utrillo [1883-1955] pintava um poste ou um muro num subúrbio sórdido... e isso fazia sonhar. O que os poetas e pintores sabem traduzir no presente, o tempo o traduz para nós que não somos nem pintores nem poetas. É o tempo que é poeta para nós".



JANKÉLÉVITCH, Vladimir. Citado por: VIANNA, Hermano. "O mercado da desconfiança". Folha de São Paulo, caderno "Mais", São Paulo, 6 de setembro de 2009.

13 comentários:

ADRIANO NUNES disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Fernando Campanella disse...

Muito lindo o texto do Jankélévitch... e eu completaria: o tempo e a distância são os maiores poetas. Grande abraço, Cícero.

Robson Ribeiro disse...

Belo texto, Cícero.

Obrigado.

Grande Abraço!

ADRIANO NUNES disse...

Cicero,


ao texto:



"TEMPO"



Tempo para o quê?
Tempo para quando?
E até mesmo quando
Ou mesmo por quê?


Tempo para o verso
Ou versos ao tempo
Desse contratempo
Temido e perverso?


Por que o tempo passa
Demolindo a linha
Da vida que é minha
E tudo devassa


E tudo devora,
Símiles, opostos,
Mantendo-os expostos
No momento agora?


Por que não se despe-
De, volta a ser deus
E vislumbra os seus,
Do céu, não se despe


Do relógio, do dígito
Do despertador,
De toda essa dor,
Do caos que cogito?


Por que nunca foge
De si, da Seara-
Láctea, gira e pára
Para ver São Jorge


Na Lua e na sua
Responde: Pra quê?
Pra quando? Por que
Mais se perpetua?



obs: tem som : barulho? : no meu blog!

Abs,
A. Nunes.

André Gide disse...

"É lá que fazem luzir os seus coros e têm as suas belas moradas/

e junto delas habitam também as Graças e o Desejo,/

em ambiente de festa."

(Hesíodo, Teogonia, vv. 63-5).

André Gide disse...

"A vida sem festas é um longo caminho sem hospedaria."
(Demócrito, Fragmentos, 230).

Gracias Cícero, e em Sampa faz Sol.

ADRIANO NUNES disse...

Cicero,


O verso: "do dígito" não deve ter "do", foi a pressa! foi o tempo!


Abs,
A. Nunes.

paulinho (paulo sabino) disse...

cicero dos céus,

que delícia, que corte preciso!

AMEI!

beijú!

Filipe disse...

Olá

O meu nome é Filipe Paixão e sou estudante de arquitectura em Portugal, estou neste momento no ultimo ano do curso e a desenvolver a tese de mestrado, que tem o intuito desenvolver a temática da imtemporalidade que a arquitectura pode ter. Nesse sentido, o tema do tempo, interessa-me muito, e este seu post é sem dúvida, muito interessante. Descobri numa entrevista a um arquitecto Português, uma citação sua em que dizia algo como "o que importa não é escrever novo, é escrever algo que a leitura não envelheça." Gostaria, se fosse possivel, de saber o contexto em que o disse, se num texto, num poema, e, saber se tem poemas sobre essa temática, ou mesmo se me recomenda algo nesse campo da prosa ou poesia, ligada à temporalidade e perenidade, o tempo como moldador de coisas, etc.

Parabéns pelo seu trabalho


Um abraço de Portugal


Filipe Paixão

Antonio Cicero disse...

Filipe,

Disse-o num trecho (p.141) do meu livro Finalidades sem fim (Vila Nova de Famalicão: Quasi, 2007). Encontra-se no ensaio intitulado “Poesia e filosofia”, na seção “A questão do novo”. Falando sobre o culto à novidade, digo que:

“se os poemas tivessem valor na medida em que descobrissem novos caminhos para a poesia, que aconteceria quando passasse a novidade desses novos caminhos? Por que é que um poema continua sendo bom mesmo depois que mil poemas posteriores já trilharam os caminhos que ele um dia apontou? Será porque sabemos que ele foi o primeiro? Mas pensar desse modo seria degradar a apreciação estética a uma apreciação histórica. Se fosse assim, só se leria Dante, por exemplo, por interesse histórico, por respeito ao fato de ele ter sido inovador no seu tempo, mais ou menos como se pode ler Copérnico hoje. Ora, a verdade é que o meu prazer em ler Dante não depende absolutamente de saber que ele inovou em algum aspecto. Mesmo um leitor que ignore que Dante foi inovador é capaz de obter um prazer estético vivo, atual, e não histórico, da leitura da Divina comédia. E é essa propriedade que distingue a grande literatura. Na verdade, Isócrates já tinha, na Grécia antiga, resolvido a questão da novidade ao afirmar que, nas artes da palavra, são dignos de admiração e honra não os primeiros a fazer alguma coisa, mas os melhores, e que se deve honrar não os que tentam fazer o que ninguém antes fez, mas os que são capazes de fazer o que ninguém mais consegue.69 Em última análise, o importante é fazer não o novo, mas aquilo que não envelhece.
“Contudo, na realidade, há um famoso lema de Pound que também diz o que estou a afirmar. Refiro-me a “Literature is news that stays news”, que ele exemplifica observando que não consegue esgotar o interesse que tem pelo Ta Hio de Confúcio e pelos poemas homéricos.70 Curiosamente, talvez em conseqüência do parentesco new/news, muitos dos seus seguidores não parecem perceber que a concepção de poesia que aqui se manifesta é completamente diferente daquela que aconselha aos poetas: “make it new”.
“O fato é que os poemas pretendem permanecer vivos, mesmo quando já morreram o seu autor e o país em que ele viveu, e mesmo quando já deixou de ser falada (embora continue a ser lida) a língua em foram feitos. É o que permite a Horácio71 dizer, com toda a razão:

Exegi monumentum aere perennius
regalique situ pyramidum altius,
quod non imber edax, non aquilo impotens
possit diruere aut innumerabilis
annorum series et fuga temporum.

Um abraço

Antonio Cicero disse...

Filipe,

Por coincidência, ontem publiquei uma versão portuguesa do poema de Horácio com o qual conclui o comentário anterior. Dê uma olhada.

Abraço

Filipe disse...

Muito obrigado desde já pela disponibilidade. Vou ver com atenção então o trecho e o ultimo post.


Confesso que essa sua afirmação foi o que me influenciou fortemente na escolha do tema para a investigação. O objectivo é desenvolver um projecto de arquitectura para a disciplina de projecto, como componente práctica, e paralelamente, uma dissertação sobre esse projecto e um determinado tema. Ainda estou muito no inicio, mas interessa-me essa capacidade da arquitectura atingir uma "intemporalidade", coisa que vou tentar tranpor para o objecto arquitectonico, e esse seu trecho, sintetiza muito bem esse pensamento e essa preocupaçao que todos teem em querer (desde muito cedo) fazer algo novo ao invés de algo que "a leitura não envelheça".

Muito obrigado mais uma vez, gostaria posteriormente, com o avançar dos projectos (teorico e pratico) lhe mostrar os resultados, uma vez que foram de certo modo influenciados por si.



um abraço


Filipe Paixão

Antonio Cicero disse...

Filipe,

acho que a minha postagem de ontem ("Sobre a Ode de Horácio postada ontem") tem a ver com isso.

Abraço