9.9.09

Francisco de Sá de Miranda: Trova





Comigo me desavim,
sou posto em todo perigo;
não posso viver comigo
nem posso fugir de mim.

Com dor, da gente fugia,
antes que esta assim crescesse:
agora já fugiria
de mim, se de mim pudesse.
Que meio espero ou que fim
do vão trabalho que sigo,
pois que trago a mim comigo
tamanho imigo de mim?




SÁ DE MIRANDA, Francisco de. "Trovas à maneira antiga". Obras completas. Lisboa: Sá da Costa, 1976.

16 comentários:

Amélia disse...

Que bom voltar aos cl´+assicos, não é mesmo? Um abraço

ADRIANO NUNES disse...

Cicero,


Belíssimo! Grato!


Grande abraço,
Adriano Nunes.

André Gide disse...

"O diálogo filosófico se faz um diálogo não monológico; ele é perfeitamente dialógico, o ponto de encontro entre perspectivas filosóficas diferentes que se entrecruzam e se influenciam reciprocamente. Eu gosto de dizer que em filosofia o seu melhor amigo é o seu mais duro inimigo. Na filosofia você precisa dialogar com aquele que está o mais distante possível da sua posição, ou você corre o risco de a sua filosofia tornar-se uma ideologia". (Bento Prado Júnior)

João Renato disse...

Prezado Cícero,
É impressionante na poesia que alguém vivendo entre os séculos XV e XVI faça um poema que poderia ser sido feito na semana passada, e seria moderno (será isso um clássico ?).
Aliás, no poema do Ivan Junqueira que voce postou anteriormente, encontro a mesma repartição do ser.
Abraço,
JR.

ADRIANO NUNES disse...

CICERO,


Um novo soneto:


"PEPITA" - PARA GLAUCO MATTOSO



Todo poema tem data
Pensada, tempo de vida
Indeterminado, lida
Com liames, nós desata,


De tudo trata, retrata
Tudo, sofre e sempre dita
A regra do jogo, fita
A métrica, toda nata


Da alma, à palavra, credita
Vingar, à luz dilatada,
Procura-a, a pura pepita


Perdida, nessa empreitada
Sináptica, não transcrita
À prova do tudo ou nada.






Grande abraço,
Adriano Nunes.

Antonio Cicero disse...

João Renato,

esse poema confirma a tese de Pound que gosto de citar: "Um clássico é clássico não porque se conforme a certas regras estruturais ou se adeque a certas definições (de que o seu autor muito provavelmente nunca ouviu falar). É clássico por causa de certo frescor eterno e irreprimível".

Abraço

ADRIANO NUNES disse...
Esta postagem foi removida pelo autor.
O quarto do escritor disse...

Rimas poéticas trazem sempre uma sensação da poesia mais sagrada
Seis sílabas fica lindo assim
Prazer

ADRIANO NUNES disse...

Cicero,


Desculpe mais uma vez ter deletado o comentário, mas notei que o poema precisava ser modificado, havia algo nele que não me agradava (ou melhor, não seria digno dele), por isso o refiz agora e o envio:


"CANTO V" - Para Antonio Cicero, a pessoa que mais amo no mundo!


Canto, mesmo quando
Tudo é dor, é pranto.
Canto mesmo, enquanto
Por tristezas ando,


Enquanto poeta.
Canto toda a vida,
Outrora perdida,
Errada nem certa,


A vida do canto
Do verso, cobrando
Do verso o comando
Da vida que canto!



Grande abraço,
Adriano Nunes.

paulinho (paulo sabino) disse...

este poema é lindo demais!

bethânia, em 67 se não me engano, extraiu o primeiro verso dessa poesia para dar nome a um dos seus espetáculos: "comigo me desavim".

tão bonitas... as linhas sempre me lembram pessoa. tanto é que, antes de saber o nome do seu autor, eu "tinha certeza" de que os versos eram do pessoa (rs rs).

delícia encontrá-los, os versos, aqui! um achado!

beijú!

Emerson Leal disse...

Grande, sensacional. Maior angústia do mundo. Tin-tin.

Alcione disse...

Saudade

Da flor erguida
Em meio à incerteza
Das cores
Que enaltecem sua alteza
O pedregulho
Orgulho
Fidalguia dos
Rancores
Jamais superados
Em meio ao perfume
Da flor do amor
Mesmo vagalume
Em transes de
Portais lembrados
Umbrais
Por vezes ultrapassados
E por isso tão amados.

CECILE PETROVISK disse...

Antonio,


Essencial!


***SILÊNCIO DE SILÍCIO***


Outro grito
De granito,
Na garganta,
Se agiganta.


Vasto uivo
Vocativo
De silício
Do silêncio.


Sem limite,
A laringe
De grafite
Tudo atinge.


Frágil dita,
De palavra
A palavra,
Infinita.



Beijo,
Cecile.

Cris disse...

Adoro as suas escolhas.
Esse poema acordou a voz de José de Almada Negreiros em mim, não resisto e trago-a aqui.
Beijos

A sombra sou eu

A minha sombra sou eu,
ela não me segue,
eu estou na minha sombra
e não vou em mim.
Sombra de mim que recebo a luz,
sombra atrelada ao que eu nasci,
distância imutável de minha sombra a mim,
toco-me e não me atinjo,
só sei do que seria
se de minha sombra chegasse a mim.
Passa-se tudo em seguir-me
e finjo que sou eu que sigo,
finjo que sou eu que vou
e não que me persigo.
Faço por confundir a minha sombra comigo:
estou sempre às portas da vida,
sempre lá, sempre às portas de mim!

José de Almada Negreiros

Jonathan disse...

É, Sá de Miranda realmente fez um poema atemporal e muito bom!!!!

abraços

Jefferson Bessa disse...

Que linda escolha, Cicero!

muitos perigos cercam..os perigos "de mim" são os maiores. Lindo mesmo!

Um abraço.
Jefferson