15.4.15

Nicanor Parra: "Cambios de nombre" / "Mudanças de nome": trad. de Joana Barossi




Mudanças de nome

Aos amantes das belas letras
Dirijo meus melhores desejos
Vou mudar o nome de algumas coisas.

Minha posição é esta:
O poeta não cumpre sua palavra
Se não muda o nome das coisas.

Por que motivo o sol
Continuará chamando-se sol?
Peço que chame Micifuz
Aquele das botas de quarenta léguas!

Meus sapatos parecem ataúdes?
Saibam que de hoje em diante
Os sapatos se chamam ataúdes.
Comuniquem, anotem e publiquem
Que os sapatos mudaram de nome:
De agora em adiante se chamam ataúdes.

Bom, a noite é longa
Todo poeta que se preza
Deve ter seu próprio dicionário
E antes que eu esqueça
Até o nome de deus é preciso mudar
Que cada um o chame como quiser:
Esse é um problema pessoal.



Cambios de nombre

A los amantes de las bellas letras 
Hago llegar mis mejores deseos 
Voy a cambiar de nombre a algunas cosas.

Mi posición es ésta: 
El poeta no cumple su palabra 
Si no cambia los nombres de las cosas.

¿Con qué razón el sol 
Ha de seguir llamándose sol? 
¡Pido que se llame Micifuz 
El de las botas de cuarenta leguas!

¿Mis zapatos parecen ataúdes? 
Sepan que desde hoy en adelante 
Los zapatos se llaman ataúdes. 
Comuníquese, anótese y publíquese 
Que los zapatos han cambiado de nombre: 
Desde ahora se llaman ataúdes.

Bueno, la noche es larga 
Todo poeta que se estime a sí mismo 
Debe tener su propio diccionario 
Y antes que se me olvide 
Al propio dios hay que cambiarle nombre 
Que cada cual lo llame como quiera: 
Ese es un problema personal.



PARRA,  Nicanor. "Cambios de nombre" / "Mudanças de nome". Trad. de Joana Barossi. In: Cândido. Publicação da Biblioteca Pública do Paraná. Curitiba, Março de 2015, nº 44. 

3 comentários:

Alcione disse...


Busquei
Antuérpia
Namíbia
Londres
Não conheci
Nenhuma cidade
Qualquer política
Democrática
Asiática
Maia
Camundongos, elefantes
Jacarés, antas, pernilongos
Gatos
O mundo verde rosa
O mundo sonhado
Acreditado
Somado em centilhões
Milhões dourados
Rendendo trocados
Punhos cerrados
Prá todo lado
O mau humor, rancor
O olho já, enviesado
Busquei
Electra
Chet Baker
Clara Nunes
Tim maia
Basquiat
E o segundo que passa
Sem nenhuma pressa
E o meu amor, a vida
Que recomeça.


Rodrigo Linares disse...

Olá! Há um erro de digitação na tradução do primeiro verso. Em todo caso, agradeço por compartilhar conosco esse belo poema. Abraço.

Antonio Cicero disse...

Obrigado por me avisar, Rodrigo! Já corrigi.

Abraço