7.5.07

A filosofia e a língua alemã

O seguinte artigo foi publicado na minha coluna da Folha de São Paulo, sábado, 5 de maio:


A FILOSOFIA E A LÍNGUA ALEMÃ
Já que a França se portava como a herdeira de Roma, a Alemanha se identificaria com a Grécia

AO CABO de uma palestra que fiz recentemente, perguntaram-me se concordo com a tese de que só é possível filosofar em alemão. Não foi a primeira vez. Essa questão se tornou popular no Brasil a partir de dois versos da canção "Língua", de Caetano Veloso, a saber: "Se você tem uma idéia incrível é melhor fazer uma canção/ Está provado que só é possível filosofar em alemão".
Ocorre que os versos que se encontram no interior de um poema ou de uma canção não estão necessariamente afirmando aquilo que afirmariam fora do poema, noutro contexto. Por exemplo, no poema de Carlos Drummond de Andrade "O Sobrevivente", um verso diz: "O último trovador morreu em 1914". Esse verso vale no poema pelo efeito que causa: pouco importa que seja verdadeiro ou falso. Seria diferente se, em vez de um verso, fosse uma proposição num livro de história da literatura.
Nesse sentido, um poema é análogo a uma pintura. Um episódio da vida de Matisse ajuda a ilustrar esse fato. Visitando o ateliê do mestre, ao ver uma das suas últimas obras, uma senhora comentou: "Parece-me que o braço dessa mulher está muito comprido". "Madame", respondeu ele polidamente, "a senhora está equivocada. Não se trata de uma mulher, mas de uma pintura."
Analogamente, a quem quiser debater com Caetano a afirmação de que só é possível filosofar em alemão, ele poderia responder: "Não se trata de uma afirmação, mas de uma canção". Na verdade, o verso em questão possui uma forte carga irônica e provocativa: tanto mais quanto a afirmação de que só é possível filosofar em alemão é geralmente atribuída a Heidegger, filósofo cujo tema precípuo é o ser. Ora, logo no início de "Língua", um verso ("Gosto de ser e de estar") explora um importante privilégio poético-filosófico da língua portuguesa e de pouquíssimas outras línguas latinas, que é a distinção entre ser e estar: privilégio não compartilhado pela língua alemã.
Mas, abstraindo da canção de Caetano, consideremos a própria tese de Heidegger. Para ele, a língua que hoje mais se aproxima da grega antiga -que considerava a língua do pensamento por excelência- é a alemã. Essa pretensão tem uma história. Os poetas e pensadores românticos da Alemanha inventaram a superioridade filosófica do seu idioma porque foram durante muito tempo assombrados pela presunção, que lhes era opressiva, da superioridade do latim e do francês.
Como se sabe, o latim foi a língua da filosofia e da ciência na Europa inteira desde o Império Romano até a segunda metade do século 18, enquanto o alemão era considerado uma língua bárbara. Na segunda metade do século 17 e no século 18, a França dominou culturalmente a Europa. Paris foi a nova Roma e o francês o novo latim. O alemão Leibniz escreveu seus tratados filosóficos em latim e francês. O filósofo alemão Christian Wolff e o jovem Kant também escreveram em latim. Na corte de Frederico o Grande, falava-se francês; nas escolas prussianas, o alemão, depreciado como "língua de cocheiros", era proibido.
Não admira que os intelectuais alemães -de origem burguesa ou pequeno-burguesa- tenham reagido violentamente, tanto contra o culto que a aristocracia do seu país dedicava a tudo o que era francês quanto contra o concomitante desprezo que reservava a tudo o que era alemão. Para eles, já que a França se portava como a herdeira de Roma, a Alemanha se identificaria com a Grécia. Se o léxico francês era descendente do latino, a morfologia e a sintaxe alemãs teriam afinidades com as gregas. Se modernamente o francês, como outrora o latim, posava de língua da civilização universal, é que eram superficiais a civilização e a universalidade; o alemão seria, ao contrário, a língua da cultura e da particularidade germânica: autêntica, profunda, e o equivalente moderno do grego.
Levando isso em conta, estranha-se menos o fato de que Heidegger tenha sido capaz de querer crer que a superficialidade que atribui ao pensamento ocidental moderno -o "esquecimento do ser"- tenha começado com a tradução dos termos filosóficos gregos para o latim; ou de afirmar que os franceses só consigam começar a pensar quando aprendem alemão.
Estranho é que haja franceses ou brasileiros que acreditem nesses mitos germânicos, quando falam idiomas derivados da língua latina, cujo vocabulário é rico de 2000 anos de filosofia, e que tinha – ela sim – enorme afinidade com a língua grega, além de ter absorvido diretamente a sua herança.

21 comentários:

Anônimo disse...

depois dos resultados de ontem os versos de caetano que não me saiem da cabeça são,

eu não espero pelo dia em que todos os homens concordem/ apenas sei de diversas harmonias possíveis sem juízo final. // alguma coisa está fora da ordem/ fora da nova ordem mundial

je ne compris pas le monde. merde.

Anônimo disse...

("comprend".excusez-moi)

Anônimo disse...

je ne comprends pas le monde, merde!



c'est vrai, moi non plus!

Paulinho disse...

cicero, como sempre, os seus textos são muitíssimo inteligentes, afins ao que vejo, penso.

texto poético serve, e muito, pra provocar, pra incitar o leitor a pensar e repensar determinadas questões. a grande magia do poema.

acho que o caetano provoca quando diz ser melhor fazer uma canção caso uma idéia incrível ocorra por conta da força que a música popular possui na nossa cultura, extremamente ligada a essa arte. expressamos questões sócio-culturais através de nossas canções; é um grande achado no brasil a força que tem a expressão musical.

no mais, assino embaixo de tudo que vc escreveu sobre filosofar em alemão. caetano, gênio da raça, sabedor dessas questões, não perderia uma bela provocação ao dispor os seus versos de modo tão contundente, uma afirmação categórica.

tudo bonito, meu querido!

grande beijo n'ocê!

Anônimo disse...

HDGRRRRRRRRRRR!!!

Lucas N disse...

Caro Antônio,

Muito interessante seu artigo. Acredito que o fator principal para a utilização de uma língua na filosofia é a existência de uma "tradição". É claro que torna-se difícil compor textos sobre assuntos inteiramente novos na língua utilizada. Mas os filósofos alemães provaram que isso é apenas uma dificuldade inicial, chegando mesmo a criar uma vasta tradição filosófica, quase hegemônica. Felizmente, na língua portuguesa, contamos tanto com a tradição latina quanto com a grega, das quais herdamos vocabulário além de inúmeras traduções, que alimentam a possibilidade de redigir textos filosóficos claros e leves como os seus.

Não posso deixar de pensar, com uma certa ironia, que a própria existência do "Antônio Cícero" é uma paródia aos versos do Caetano: Se você tem uma idéia incrível, seja filósofo. E faça canções.

um abraço,
Lucas Nicolato

cãorafeiro disse...

texto é muito esclarecedor.

não paro de me surpreender com a forma como os efeitos nefastos do romantismo germânico perduram até aos nossos dias...muitas das coisas que as pessoas dão por certas, por tradicionais, por ancoradas em tempos imemoriais foram inventadas pelo romantismo germânicos, começando com os contos tipo branca de neve, com que as nossas crianças continuam a ser socializadas.

cãorafeiro disse...

ops, o comentário anterior foi com pseudónimo. chamo-me sarah franco e sou de portugal.

Lucas N disse...

sarah, os contos de fada não foram inventados pelo romantismo germânico. versões da branca de neve e outros contos circulam pela europa há séculos. apenas a forma consagrada que conhecemos é que foi criada no século xix. a "lição moral" também foi introduzida como elemento principal dos contos nesse período, embora pais e avós usem histórias fantásticas para educar seus filhos desde as primeiras mitologias.

Anônimo disse...

merci, anônimo! (tanto mais q nunca se sabe: à luz dos "novos" valores sarkônianos tanto pontapé no francês é capaz de dar direito a prisão)

a Língua de caetano, eu acho, é um elogio da diversidade e uma celebração dos mecanismos de evolução (- que são todos culturais).

falar é bom, mas se for errado pode até ser melhor ("lhe amo!") - não é um apelo ao caos mas à liberdade de pensamento.

cícero,
a evolução da língua é necessariamente um processo moderno..?

osrevni disse...

É curioso, meu curso sobre o Nascimento da Tragédia de Nietzsche começou justamente com essa associação França-Roma, Alemanha-Grécia, que era moda do Idealismo alemão... mas o Heidegger, se não me falha a memória, atribui o esquecimento do ser já a muitos filósofos gregos; bom, pra isso eu precisaria dar uma olhada mais profunda.
Saravá!

Antonio Cicero disse...

Caro Osrevni,

Heidegger achava que o começo do esquecimento do ser começou a acontecer na filosofia clássica de Platão e Aristóteles. Entretanto, Heidegger era extremamente ambivalente em relação a esse começo do fim. Embora falasse às vezes de decadência, ele também dizia que “apesar de tudo, essa decadência ficou nas alturas, não se afundou na baixeza” (v. Einführung in die Metaphysik. Tübingen, 1987, p.141). Ela era decadência somente em relação ao que ele considerava o momento mais alto – anterior a Sócrates – do pensamento grego. Mas foi Roma que, para ele, realizou plenamente o que havia sido apenas uma tendência do pensamento clássico. Este se teria tornado “indeterminado, vulgarizado e aguado”, segundo ele, “pela ‘tradução’ ao romano” (sic: In Grundfragen der Philosophie. Ausgewählte ‘Probleme’ der Logik’. Frankfurt am Main, 1984, p.70 e 68). Em “A origem da obra de arte”, ele diz explicitamente que “o pensamento tomou as palavras gregas sem a experiência correspondente e originária que elas diziam, sem a palavra grega. A falta de chão do pensamento ocidental começa com essa tradução (In: “Der Ursprung des Kunstwerkes”. In: Holzwege. Frankfurt am Main, 1977, p.8.).

danilo disse...

Antonio,
Estava tentando achar o texto em que Heidegger escreveu esse trecho de que só é possível filosofar em duas línguas: grego e alemão.
Você sabe ao certo qual texto?
Saudações
Danilo

Antonio Cicero disse...

Danilo,

O que conheço de Heidegger que mais se aproxima disso se encontra no livro Nietzsche II, na parte intitulada "Das europäische Nihilismus" (O niilismo europeu), no capítulo "Die obersten Werten als Kategorien" (Os valores supremos enquanto categorias), na p.73 da edição Neske, 1961. Lá, falando da palavra "categoria", ele diz que o uso que dela faz Aristóteles corresponde inteiramente "ao espírito linguístico grego, que, de toda maneira, é implicitamente filosófico-metafísico, de modo que assinala a língua grega sobre todas as outras línguas, junto com o sânscrito e a língua alemã bem preservada."

Abraço,
Antonio Cicero

Anônimo disse...

LATINOS não fiquem tristes somos trágicos por isso, filosofamos,vocês nos tiraram tudo, por isso encolhemos é a nossa forma de vida ,afinal a filosofia como conceito- tese- idea- forma- espetáculo é dos gregos-atitude.Que me desculpem os latinos e principalmente os romanos ,mas vocês são maus, náo nos deixam ter lugar neste país.Grande abraço assim mesmo...mais vale a vida!

Ana disse...

Que postura honesta a sua, diante de tantas polêmicas.
Mais uma vez, a minha admiração.
Mas me veio um pensamento: até nisso Hitler agiu fora do que podemos chamar de contexto da Alemanha, quando deixa clara a sua preferência pelas artes, e pelo pensamento demolidor, vindo dos romanos, além dos gregos.
É sempre muito bom passar por aqui!
Um abraço

ju disse...

Antonio Cícero faço faculdade de letras e estou estudando em lingüistica, justamente esse texto. O romantismo valoriza as tradições nacionais, você poderia me ajudar citando alguns autores que assim como Heidegger defendem o nacionalismo da lingua. Desde já obrigada

Antonio Cicero disse...

Ju,

infelizmente, estou sem tempo para lhe dar uma bibliografia. Alguns dos autores fundamentais são Herder, Fichte (o "Discurso à nação alemã"), Hegel e Alfred Bäumler.

Abraço,
Antonio Cicero

João Sebastião Bar disse...

Caro Cícero,

É sempre um banho de elixir para a alma ler seus textos, pela beleza de suas idéias e escritas, uma degustação fina e essencial.

Sou paulista do interior do estado, que se vangloria ter a maior universidade do Brasil, diferente das duas primeiras universidades que foram criadas, UFRJ e UFMG, que nasceram em 07 de setembro de 1920 e 1927, respectivamente, essa nasceu em 25 de janeiro de 1934, passou mais de meio século deslumbrada com a comemoração de “14 de julho” (d'onde a critica ao “Tristes Trópicos” veio do outro lado do Rio), nas duas últimas décadas, fascinada está com a comemoração de “4 de julho”, mas de qualquer forma, é notável perceber que ainda não chegou em 7 de setembro neste Brasil varonil, um cosmopolitismo do “intelectual colonizado” do pensar pequeno.

Rememorando o contraste do Brasil no inicio do século XX, que foi uma efervescência política e cultura, principalmente nos anos 20’s:
“A década de 1920, no entanto, vê agravarem-se as contradições da República Velha e intensificarem-se os movimentos,..., que culminam na Revolução de 1930. São testemunhos desse processo, as greves operárias, o movimento tenentista, a Semana de Arte Moderna (1922), a fundação do Partido Comunista (1922), a criação da Academia Brasileira de Ciências (1922) e da Associação Brasileira de Educação (1924), entre outros.”
http://www.ufrj.br/pr/conteudo_pr.php?sigla=HISTORIA

Diante da provocação e do relato, lembrando um pensamento de Jung, “quem olha para fora sonha, quem olha para dentro, desperta”.

Pergunto-lhe: Estaria você vendo (ou escreveu?) algum “Re-Nascimento” do Brasil-Latino-global (a descobrir essa nova consciência dos três) neste raiar do terceiro milênio ao sul do equador, dos trópicos até à “estética do frio”, começando pela formação do choro-samba do século XIX/XX a visão de centro e ao mesmo tempo periferia desde século XXI, da minha pretensa idéia de superação do modelo sociológico de Max Weber, no sentido de se libertar do deus do norte e dos pensamentos do norte, ou pelo menos, incorporar a elas as nossas idéias criativas e a nossa deusa do mar, como diria Darci Ribeiro, ou seja, um Re-Nascer da antropofagia oswaldiana ao Shakespeare wagneriano?

Saudações e aquele abraço, de raízes caipira e do verão do norte.
JSB

Antonio Cicero disse...

Caro João,

Não sei se entendi bem a sua pergunta. É sem dúvida um assunto sobre o qual você pensou bem mais do que eu.
A verdade é que o Brasil se torna cada vez mais importante no mundo: cultural, política e economicamente. Temos imensos problemas, como todo o mundo, mas não dá mais para nos considerarmos pobrezinhos explorados, vítimas do imperialismo etc. Quando o intelectual aceita o papel de vítima, ele escapa da responsabilidade de pensar por conta própria. Com isso, porém, ele aceita o papel de periférico, o papel de "menor de idade", o papel de ser mero divulgador, diluidor e consumidor do pensamento alheio.
Espero que hoje haja mais gente no Brasil que compreenda isso: que compreenda que, como estamos no centro do mundo e somos os herdeiros de toda a cultura do passado, seríamos simplesmente covardes se recusássemos assumir a responsabilidade de pensar as coisas até o fim, e de reconhecer que ninguém pode fazê-lo por nós.

Abraço

Anônimo disse...

Cheguei ao seu blog faz pouco tempo - coincidentemente por um texto também sobre Heidegger, publicado na Folha da São Paulo há alguns dias -, por isso estou comentando um post já relativamente antigo.

Ao ler o post, não pude deixar de lembrar que Heidegger nomeou originalmente uma de suas conferências "Qu'est-ce que la Philosophie?". Dada a óbvia importância do (meta)tema, fiquei imaginando se esta peculiariedade, título em francês para conferêcia em alemão, teria alguma relação com o desprezo que ele nutria pelas línguas latinas e a supremacia que atribuia ao alemão no campo da filosofia tão bem expostos em seu texto.