28.5.07

Armando Freitas Filho: Caçar em vão

Um clássico de Armando Freitas Filho:



Caçar em vão


Às vezes escreve-se a cavalo.

Arremetendo, com toda a carga.

Saltando obstáculos ou não.

Atropelando tudo, passando

por cima sem puxar o freio –

a galope – no susto, disparado

sobre pedras, fora da margem

feito só de patas, sem cabeça

nem tempo de ler no pensamento

o que corre ou o que empaca:

sem ter a calma e o cálculo

de quem colhe e cata feijão.



Do livro Fio terra

In: Máquina de escrever: poesia reunida e revista. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2003, p.583.

4 comentários:

Paulinho disse...

armando freitas filho é mão que pira, que arde - pois pirar é arder a mil, a cem por hora -, são dedos-tochas que nunca à burocracia, aos papéis timbrados e carimbados.

armando freitas filho é cão danado, dado à longa vida, à poesia desembestada, à mão livre.

com armando, me armo de amores.
sim, armar de amores... porque sua delicadeza é forte, bruta - uma bruta flor -.

que bom encontrá-lo por aqui.

belo presente, cicero!

grande beijo, lindeza!

Elisa disse...

Caçar é quase sempre um movimento um pouco em vão. Mas funciona.

Diego Barreto Ivo disse...

Que rítmo! Difícil em português, ainda mais não sendo algo importado do inglês, o que geralmente soa pedante.

J Alexandre Sartorelli disse...

Caça

Isso de oscilar
Não é tão importante
Quanto as noites
Que perdi no rastro de teu cheiro.

As flores se desmancham
No estio que não me alegra
E a lua se anuncia atrás do morro.

É um modo de acertar-me no mundo.

Antes que me esqueça,
Meus cães perderam o faro
E se perdem na rua estreita.