17.5.09

Os perigos da espontaneidade

O seguinte artigo foi publicado na minha coluna da "Ilustrada", da Folha de São Paulo, sábado, 16 de maio.


Os perigos da espontaneidade

TANTO O poeta francês Paul Valéry quanto o nosso João Cabral de Melo Neto, que costumava citar o primeiro, desconfiavam de que tudo o que lhes chegasse espontaneamente, à maneira de inspiração, era eco de alguma coisa que houvessem lido, ouvido ou percebido de alguma maneira. Por isso, só confiavam no que resultasse de um trabalho rigoroso, que eliminasse tudo o que fosse alheio.

Concordo com isso. Na verdade, acho que há, sem dúvida, no próprio João Cabral, algo que não vem do trabalho e que poderia ser chamado de "inspiração". Entretanto, parece-me que ela ocorre principalmente durante o próprio trabalho, que, pondo o poeta ante problemas imprevisíveis, exige dele uma extraordinária abertura e receptividade para o aproveitamento criativo daquilo que o acaso, o inconsciente, o inesperado, enfim, oferecem. Como diz Heráclito, "aquele que não espera o inesperado não o encontra".

De todo modo, há poucos dias uma experiência me confirmou o fato de que muito do que nos vem espontaneamente não passa de eco. Ao escrever um verbete intitulado "Verso" para a revista "Serrote", falei, em determinado momento, do recurso poético chamado "enjambement" ou "cavalgamento" (a palavra francesa é tão mais usada entre nós do que a portuguesa que acabo de notar que meu corretor ortográfico marca esta como errada, e não aquela). Trata-se, como bem o define o "Aurélio", do "processo poético de pôr no verso seguinte uma ou mais palavras que completem o sentido do verso anterior". O exemplo aureliano são os belos versos de Camões:

Debaixo dos pés duros dos ardentes
Cavalos treme a terra, os vales soam.

Os poetas modernos usam mais o enjambement do que os clássicos. De fato, com o verso livre, a importância expressiva do enjambement aumentou. Querendo dar um exemplo disso, lembrei logo de alguns versos de um livro que iluminou minha adolescência, "A Rosa do Povo", de Carlos Drummond de Andrade, mestre absoluto do enjambement. Do poema "Consideração do Poema", por exemplo, lembrei dos seguintes:

Que Neruda me dê sua gravata
chamejante. Me perco em Apollinaire. Adeus, Maiakóvski.

O final do verso exige uma pausa na apreensão do poema pelo leitor. O primeiro verso parece conter um pensamento completo. Entretanto, o enjambement faz com que a sentença, não coincidindo com o verso, termine no verso seguinte: "chamejante. Me perco em Apollinaire. Adeus Maiakóvski".

Nesse poema, Drummond pretende estar sem-cerimoniosamente a pedir, aos poetas que admira, elementos com os quais compor seus próprios poemas. A Neruda ele pede a gravata. Ocorre que a gravata, fazendo um laço em torno do pescoço de quem a usa, é um item formal e convencional do vestuário masculino. Assim, metaforicamente, a gravata seria uma forma convencional que tornaria o poema um tanto preso, mas "composto", no sentido de socialmente aceitável. Uma forma fixa às vezes não passa disso. Contudo, a palavra "chamejante", do verso seguinte, muda tudo. Uma gravata chamejante já é o oposto de uma convenção: trata-se da convenção em chamas, e lembra a gravata amarela, usada provocativamente pelo poeta revolucionário Maiakóvski, cujo nome é a última palavra do verso.

Esse exemplo era bom, mas uma inspiração súbita, como uma lufada de ar, trouxe-me à mente outro, ainda melhor. Refiro aos versos de "A Flor e a Náusea" que dizem:

Quarenta anos e nenhum problema
resolvido, sequer colocado.

Aqui, evidentemente, enquanto o primeiro verso diz algo que parece motivo de felicidade, o segundo nos faz cair na realidade, transfigurando o sentido do primeiro verso para uma espécie de sonho passageiro. Esse efeito poético do enjambement não poderia ser obtido em prosa.

Incluí esse exemplo no verbete e me dei por satisfeito. Tinha sido um grande achado. Pois bem, ontem, tentando pôr em ordem os papéis que imprimo diariamente, seja de textos meus, seja de outros, tomei um susto quando me deparei com uma página de um artigo que eu havia recebido por e-mail no ano passado, em que exatamente esses dois versos eram citados como exemplo de enjambement.

Trata-se do ensaio "Do Começo ao Fim do Poema", do poeta Alberto Pucheu. Na época, eu não tinha tido tempo de o ler de cabo a rabo, de modo que o guardara para depois. Mas aquilo era coincidência demais. Com certeza eu tinha passado os olhos por aquele exemplo de enjambement e ele me ficara na cabeça. E mais uma vez me dei conta de como Cabral e Valéry tinham razão de desconfiar de tudo o que chega espontaneamente.

22 comentários:

noemi disse...

cicero querido,
fiz um bloguinho. chama-se nadaestaacontecendo.blogspot.com

se você quiser, apareça lá.

beijo grande,
noemi

Antonio Cicero disse...

Noemi,

adorei. Vou pôr um link para ele agora.

Beijo

BAR DO BARDO disse...

Antonio Cicero, bom texto.

Adorei a sua percepção. Concordo. E eu, digo mais, sou adepto do racional 100%. O que não consegue compor a cifra pretendida é desarrazoado e podem dar o nome que quiserem...

Um abraço.

- Henrique Pimenta

Domingos da Mota disse...

Caro Antonio Cícero, as minhas desculpas, mas dado que poisou uma gralha no soneto que lhe enviei, tomo a liberdade de o reenviar:

SONETO PÓS-MODERNO


Literalmente obscuros
os poemas abstractos
são profundos, e são duros
(só roídos pelos ratos),

pois em vez de parafusos
e das solas dos sapatos
têm versos abstrusos
onde poisam olharapos.

Sem qualquer conotação,
sem semântica concreta,
a raiar a equação
do vazio do poeta,

dada a pose, tão herméticos,
faço poemas heréticos.

Domingos da Mota

CECILE PETROVISK disse...

Antonio,

Sempre aprendo contigo! Parabéns pelo excelente ensaio!


Eis um novo poema, quase dois sonetos:


***DÚPLICE***


Sinto-me só.
Tudo me fere.


É madrugada.
Que vida breve!


Ninguém tem dó
De mim, de nada.


Perdi o rumo
Do fado. Fujo


De todo sonho,
Feito marujo


Da terra. Sumo
No que suponho.


A lida segue
Sempre precisa.


A solidão
Só me pesquisa,


Quer que me entregue
A tudo em vão.


Não me darei
Ao verso assim.


Não me remeto
Ao mesmo fim.


Não sei se hei
De ter direito


Ao meu desejo
De estar disperso.


Beijos,
Cecile.

Arthur Nogueira disse...

Querido Cicero,

que artigo delicioso! A maneira como você conduziu e ilustrou o texto é irresistível.

Adoro ler sua coluna e já aguardo ansioso o próximo artigo.

Fique bem - um beijo grande.

Alaor Ignácio disse...

Antonio Cicero, muito prazer.

Acompanho seus artigos (seriam crônicas? breves ensaios?) pela Folha. Gostei particularmente desses perigos da espontaneidade. De fato, a criação é a solução de problemas, sejam voltados à composição artística ou aos efêmeros incidentes do dia a dia. Considero extremamente criativo o cara que, na falta de luz, troca a lâmpada.
Obrigado pelos seus textos,
Alaor Ignácio

Héber Sales disse...

Bem lembrado, meu caro. Por via das dúvidas, usarei o google antes de publicar qualquer coisa a partir de agora. Forte abraço, Héber.

w.m.carvalho disse...

Li o artigo no sábado, na Folha impressa. Gostei muito!
A memória ainda nos atormenta, quando escrevemos, diante da possibilidade de estarmos repetindo alguma idéia ou autor: a angústia de uma possível influência.

w.m.carvalho

fred girauta disse...

tu também te espantas
da explosão espontânea
que a ti desponta?

paulinho disse...

os perigos da espontaneidade... a necessidade de trabalhar aquilo que chega desprevenido, inesperadamente... lindo, cicero, maravilha, meu poetósofo de primeira!

o trabalho com o que nos toma de assalto, o trabalho com o que nos chega inesperadamente, não impede que o poeta seja extremamente emocional nas suas linhas.

as pessoas tendem a fazer uma embolação entre estas duas coisas: a pessoalidade, ou seja, a proximidade do poeta, dos seus sentimentos, com o que é dito nos versos e o trabalho não espontâneo, o exercício voluntário, em cima das linhas que se configuram.

acredito que o trabalho que ponha em xeque o que vem espontaneamente, o que vem da inspiração, consiga dizer melhor as pretensões do poeta, consiga passar de forma mais íntegra o que intenciona o bardo. excluir a capacidade criativa do poeta, vinda da sua autoconsciência, é colocar a função do poeta aquém dele mesmo.

um beijo, meu lindo e benvindo!

Marcello Jardim disse...

“AQUELE QUE NÃO ESPERA O INESPERADO NÃO O ENCONTRA” ;
Prezado Cícero,
Deve haver algo em comum entre o que seja inesperado e o que seja impossível. Às vezes o inesperado é só o que está além de nossas vistas (ou diante delas mas acaba despercebido, como você notou), o que jaz em distâncias infinitas e que ao hábito miúdo de pensar e de ser quem somos é mais fácil chamar de impossível. Em que grande medida o impossível não é apenas filho do hábito? Estive, em sonho possível, na nebulosa da Águia, junto aos pilares da criação e lá vi as coisas antes de seus nomes e o impossível ainda era apenas um...sonho, e a memória não mentia e a possibilidade irrestrita de ser era tudo que havia. Acho que o que era lá permanece sendo aquilo que Drummond não desafia nem dá conta (como na “Elegia”) e que a mim também, de volta do/ao sonho, desmonta.
Não há nesse “desmonte” o chamado para uma espécie de ato decisivo que seria o desabitar de todo hábito fingidor de uma distância que encobre a urgência e o assombro de existir? O inesperado desmontando o impossível?
Abraço

João Tibau Campos disse...

Me passa pela cabeça que tudo o que se cria é cópia. Quando não de uma outrra obra, é cópia da maior de todas, a vida, o mundo (sem tons religiosos, por favor).

A vida e as coisas nos afetam e nos penetram. Depois repetimos nossas afecções de forma "original", em justaposições, aglutinações, e qualquer tipo de composição.

Mas cade o de fato original? Não há!
Tolos são os que vêem nisso motivo para tristeza...



Enfim,
obrigado pela aula

João

Angela disse...

Bem, esta frase: "o mínimo de mim sou eu" que não lembro o autor, pode servir para este "fenômeno". O que é verdadeiramente nosso e não ecos, absorvidos inconscientemente, de outrem? Quanto "de mim, sou eu"? Nas artes plásticas percebe-se isso de forma chamejante.

Aetano disse...

Belíssimo texto, Cicero!!!

Angela, eu SUPONHO q a frase "o mínimo de mim sou eu" seja minha (postada por mim aqui: http://antoniocicero.blogspot.com/2009/03/fernando-mendes-vianna-proclamacao-do.html; e alhures por vários amigos meus rsrs).
Digo suponho porque ela me ocorreu de modo - agora estou ciente do quão perigosamente - espontâneo.

Abraço, caro Cicero.

Aeta

Angela disse...

Aetano,
Cícero nos colocou (bela, didática e elegantemente) a interrogação sobre nossas cabeças, pelo que dizemos, pintamos, compomos."O quanto de mim sou eu" a frase é tão sábia que pensei(veja só)ter sido de um filósofo grego, desses de proparoxítono nome..rsrsrs

Angela disse...

Por gentileza, Cícero, corrija pra mim?
"de proparoxítono nome" no lugar de "paroxítono....."
Obrigada

Robson Ribeiro disse...

Cara, esse assunto é palpitante para mim.

Eu sempre penso sobre isso, porque escrevo poemas. Costumo dizer que estou sempre trabalhando num poema, mesmo quando estou fazendo algo completamente (ou aparentemente) contrário.

É como se os versos fossem o resultado de uma interpretação ou uma sei lá o que de tudo o que vivo, presencio, vejo, ouço, leio, faço parte direta ou indiretamente. Mas não como uma cópia simplesmente.

Evidentemente há o trabalho sobre essa atividade, a técnica, os recursos... Mas não posso negar que minhas obras têm muito de tudo e todos.

Grande Abraço!

Analuka disse...

Passear por aqui sempre provoca reflexões instigantes acerca de diversos temas... Faz bem também para as almas sonhadoras, como a minha. Abraço alado azul.

dani disse...

Meu nome é Daniela, sou estudante de letras e professora de francês. Foi a primeira vez que entrei aqui, por indicação de uma amiga, e gostei muito do seu texto, até porque já estudei intertextualidade e outras teorias. Me senti meio em casa ;-p

Espero voltar.

Cordialmente,
daniela.

sourceofdance disse...

Muito bons os exemplos que voce usa. Me lembra de uma maneira que o meu pai tinha de responder aos nossos pedidos, que se colocada em forma de verso daria um enjambement com cara de finta linguística:
-Pai, posso ir pro parquinho?
-Nao. Tem problema.

Ricardo disse...

Caro Cícero, isso me lembra uma comparação que Cabral fazia entre os símbolos da poesia. Ele não gostava do Pégaso, preferia a galinha ou o peru, aves que não voam. "O poeta é o pássaro que tem de andar um quilômetro pelo chão", disse ele. Genial, não ? - abraço !!