3.5.09

Foucault e o fundacionismo

O seguinte artigo foi publicado na minha coluna da "Ilustrada", da Folha de São Paulo, sábado, 2 de maio:


Foucault e o fundacionismo


O RELATIVISMO e o antifundacionismo filosóficos, tão comuns em nossos dias, são frequentemente apresentados não somente como resultados de uma pretensa falência da racionalidade moderna, mas como reações libertárias ao domínio, tido como totalitário, da razão absolutista e fundacionista. Mas pode ocorrer que o relativista, tentando escapar do fundacionismo, acabe por se enredar no fundamentalismo. Um episódio da vida intelectual de Michel Foucault ilustra o que acabo de dizer.

A partir dos cursos que deu sobre a hermenêutica do sujeito, em 1981, Foucault se dedicou a investigar o que chama de "cuidado de si". Trata-se de uma postura filosófica que ele encontra na antiguidade entre, por exemplo, os filósofos estoicos e epicúrios. Para ela, a verdade não é dada ao sujeito como simples ato de conhecimento. Para conseguir acesso à verdade, o sujeito precisa se transformar – se converter –, por meio de um longo trabalho de ascese. A verdade alcançada com esse esforço retorna ao sujeito como uma iluminação que lhe proporciona a beatitude e a tranquilidade da alma. A essa relação com a verdade Foucault chama de "espiritualidade".

Segundo ele, a espiritualidade foi quase esquecida no mundo moderno. "Entrou-se na idade moderna", diz Foucault, "no dia em que se admitiu que o que dá acesso à verdade, as condições segundo as quais o sujeito pode ter acesso à verdade são o conhecimento e somente o conhecimento".


Sendo assim, a modernidade filosófica consiste na perda da espiritualidade. Ora, tanto a palavra "espiritualidade" mesma quanto o modo em que seu sentido é determinado por Foucault – como um processo que inclui ascese, conversão, transfiguração, iluminação, beatificação pela descoberta da verdade – remete-nos à religião.

Não há como não lembrar que três anos antes desses cursos, em 1978, Foucault defendia a Revolução Iraniana, liderada pelo aiatolá Khomeini, afirmando que ela representava a tentativa de "abrir na política uma dimensão espiritual". Trata-se de uma coisa, comenta ele, "de cuja possibilidade nós [os modernos] nos esquecemos desde a Renascença e as grandes crises do cristianismo: uma espiritualidade política". A Revolução Iraniana estava, segundo ele, "atravessada pelo sopro de uma religião que fala menos do além que da transfiguração deste mundo aqui".

Nesse ponto ele tem razão. Como, na mesma época, observou Maxime Rodinson, importante especialista no Islã:

"Mesmo um fundamentalismo islâmico mínimo exigiria, segundo o Alcorão, que as mãos de ladrões fossem cortadas e que a partilha da mulher na herança seja cortada pela metade. Se houver um retorno à tradição, como os religiosos querem, então será necessário chicotear aquele que beber vinho e chicotear ou lapidar a adúltera. Nada será mais perigoso que a acusação venerável: meu adversário é um inimigo de Deus".

Como é possível que Foucault tenha ignorado essa realidade, sem falar na realidade da opressão das mulheres, da censura à imprensa, da prisão de dissidentes, da execução de apóstatas e homossexuais etc., se ele declarava que seu papel intelectual era "mostrar às pessoas que elas são muito mais livres do que pensam"?

Parece-me que ele conseguia minimizar esses desrespeitos aos direitos humanos no Irã por já ter relativizado de antemão a própria verdade. Simplesmente, como ele dizia, os iranianos "não têm o mesmo regime de verdade que nós". E ele observava que o nosso regime de verdade, aliás, "é bem particular, mesmo embora se tenha tornado quase universal".

A suposição de que há diferentes "regimes de verdade" irredutíveis uns aos outros e de que o nosso regime de verdade, sendo apenas um entre outros, não tem privilégio nenhum quanto aos demais conduz a impasses teóricos jamais adequadamente enfrentados por Foucault.

Por exemplo, se não temos o direito de julgar as verdades dos iranianos porque eles têm um diferente regime de verdade, então não temos sequer o direito de afirmar que eles têm um diferente regime de verdade: principalmente se levarmos em conta que, a partir do seu próprio regime espiritual de verdade -segundo o qual o Islã é a verdade absoluta-, os iranianos jamais reconheceriam a "verdade" de que o nosso regime de verdade seja diferente do deles: ou mesmo de que existam diferentes regimes de verdade.

A verdade é que não são casuais esses tropeços práticos e teóricos de Foucault. Eles radicam no relativismo e antifundacionismo de todo o seu pensamento.

30 comentários:

ADRIANO NUNES disse...

Cicero,

Como sempre, artigos perfeitos, esclarecedores! Parabéns!



Abraço forte!
Adriano Nunes.

Pedro Paulo disse...

Não sabia dessa mancada do Foucault - apesar de pouco saber sobre ele. Relativizar, desconstruir, é uma tarefa complexa, mas muito útil para compreendermos o funcionamento da sociedade e, dessa maneira, combatermos os ópios dos nossos tempos. Obrigado pelo esclarecimento Antonio Cicero. As pessoas não costumam explorar furos dos clássicos; os colocam num pedestal como se TODOS fossem mais do que nós (Übermenschs). Não te conhecia, vim por indicação e gostei do seu escrito. Já está nos favoritos! Voltarei mais, grande abraço, até!

ADRIANO NUNES disse...

CICERO,


Um poema da madrugada:


"DESCOBERTA"

Coração
Em pedaços:
Sou poeta.


O que faço
Dessa vida
Inquieta?


Ver minh'alma
Iludida
Nunca basta?


Todo sonho
De que vale?
Todo verso


Que me salve
Desse fado
Enfadonho,


Que não finde
Enforcando
O meu canto.



Abraço forte!
Adriano Nunes.

Antonio disse...

Cicero, caro

Gostaria de colocar duas ou três perguntas.

Até que ponto este relativismo que você imputa a Foucault foi realmente o culpado pelo equívoco dele em, digamos, "aderir", à revolução islâmica?

Será que é possível estabelecer este relação direta entre causa e efeito -- relativismo / adesão à regimes bárbaros e tirânicos -- no caso de Foucault?

Se é possível, como mensurar de maneira objetiva a importância ou o grau em que esta suposta visão filosófica de Foucault (seu suposto relativismo), tenha influenciado sua simpatia pelo curso de um acontecimento político?

Em se tratando de um acontecimento político, não poderia ter Foucault cometido um erro de avaliação, como tantas pessoas que não são nem filósofas nem relativistas o fazem?

Abraço,

Antonio

Antonio Cicero disse...

Antonio,

Tenho a impressão de ter deixado isso claro no meu artigo. Pouco importam as razões de Foucault para apoiar a Revolução Iraniana. O problema é a justificação relativista que ele dá para não criticá-la a partir da defesa de direitos humanos universais, como seria certo. De fato, muita gente –relativista ou não – apoiou a Revolução Iraniana inicialmente. Mas quando ficou claro que ela estava a instituir uma teocracia e a aplicar a sharia, tornou-se impossível, para alguém que defendesse os direitos humanos e uma sociedade aberta, deixar de condená-la.

Foucault, porém, continuou apoiando o regime do aiatolá. Em novembro de 1978, uma mulher iraniana vivendo em Paris (Atoussa H.) criticou no Nouvel Observateur essa postura dele. Ela observou que as mulheres sem véus já estavam sendo insultadas nas ruas e que o governo já deixava claro que as mulheres seriam obrigadas a aderir à lei islâmica. Lembrando as formas brutais de “justiça” na Arábia Saudita, ela mencionou o fato de que “as cabeças e as mãos dos amantes e dos ladrões são cortadas”.

A advertência de Rodinson, que cito no meu artigo, foi publicada na capa do Le Monde, em dezembro de 1978.

Pois bem, a declaração de Foucault sobre os “diferentes regimes de verdade” veio em abril de 1979. O relativismo dos diferentes “regimes de verdade” (que são mais ou menos equivalentes aos “procedimentos familiares de justificação que dada sociedade usa”, de que Rorty fala) é, portanto, o que o salva de ter que condenar o regime do aiatolá por violar os direitos humanos.

Como é possível inocentar o relativismo? No mínimo, ele serviu de desculpa.

Abraço

Antonio disse...

A. Cicero,

Não havia ficado claro não, pelo menos para mim. É possível apoiar uma revolução, ou um determinado regime, mas depois se arrepender de tê-lo feito, caso venham a tona indícios de crueldade e humilhação perpetrados em nome de tal revolução ou regime. Tudo que eu quis fazer foi levantar a hipótese de se não poderia ter sido este o caso.

(E há um motivo bastante pessoal para eu pensar assim: meu avô não apenas apoiou o nosso golpe militar, como ajudou em sua articulação. Depois que viu onde a coisa foi parar, se arrependeu. É o tipo de coisa que pode acontecer, não acha?)

Mas agora, em sua resposta, você nos fornece a cronologia do episódio: em dezembro de 78, o Le Monde estampava na capa os horrores da revolução iraniana; em 79, Foucault insistia em defendê-la, usando para isso um argumento relativista. O que, obviamente, é um equivoco completo.

Mas não entendo sua insistência em colocar Focault e Rorty no mesmo saco -- um saco sujo e fedorento, onde se lê "Relativistas" no rótulo.

A meu ver, isso não apenas é equivocado do ponto de vista intelectual -- dado que Rorty jamais apoiou ou apoiaria um regime que não garantisse os direitos humanos, não importa o quão antifundacionista seja a sua posição filosófica -- como é também um reducionismo.

As contribuições de Foucault para o conhecimento? Qual que nada! Falemos somente do Foucault relativista pervertido, e de como ele ajudou a enfraquecer a fibra moral que garante nossa superioridade enquanto civilização.

É mais ou menos o que fazem polemistas como Reinaldo Azevedo ou Diogo Mainardi. Eles também estão preocupados apenas em gritar "relativista!" toda vez que se defrontam com algo de Foucault -- e não em apreciar suas contribuições, que não são poucas, para o ambiente intelectual do século XX.

Abraço,

Antonio

Antonio Cicero disse...

Antonio,

A proposta do meu artigo não foi fazer um panorama do pensamento de Foucault. Não sei como é que você sente falta de elogios a Foucault. Foucault não precisa de elogios. Ele já é elogiado demais nas universidades brasileiras e não estou aqui para fazer parte de coro nenhum.

Eu quis mostrar (e acho que consegui fazê-lo) como o relativismo pode levar a perigosos impasses práticos e teóricos.

Reinaldo Azevedo e Diogo Mainardi rejeitam o relativismo em nome de um absoluto positivo qualquer (Deus, uma religião uma cultura, sei lá). A posição relativista de Foucault acabou por levá-lo a defender a mesma coisa que eles, apenas noutra religião e cultura. Já a minha posição é absolutamente incompatível com a deles, pois rechaço todo absoluto positivo, em nome do absoluto negativo, ou da negatividade absoluta.

Rorty, por acaso, isto é, contingentemente, teve mais bom senso do que Foucault; mas foi por acaso, pois o mesmo "antifundacionismo" dele já antes levara o seu precursor no antifundacionismo, isto é, Heidegger, a tomar posições práticas e teóricas muito mais questionáveis do que as de Foucault...

Pax disse...

Antonio Cicero

Gostaria de explorar essa sua frase:

"Já a minha posição é absolutamente incompatível com a deles, pois rechaço todo absoluto positivo, em nome do absoluto negativo, ou da negatividade absoluta"

A pergunta vem de dúvida mesmo, de fraca formação filosófica.

O ascetismo surge, caso não esteja enganado, com a insuficiência que a antinomia Heráclito-Parmênides deixou de herança. Abriu-se uma brecha e os sofistas apareceram até que Sócrates os combateu. Merece nota que uma coisa levou a outra e acabaram contribuindo para a formação/nascimento da filosofia clássica e do método científico socrático.

O ponto que ignoro é o link possível entre esse salto do nascimento da filosofia clássica (sofismo/método) e essa nomenclatura absoluto positivo/absoluto negativo.

No mais estou completamente de acordo. Impossível aceitar “opressão das mulheres, da censura à imprensa, da prisão de dissidentes, da execução de apóstatas e homossexuais etc.” como você bem coloca. Tão simples quanto isso. Reverei meus parcos conhecimentos de Foucault com essa tua leitura que me parece bastante apropriada.

ADRIANO NUNES disse...

Amado cicero,


Adoro suas exposições. Para defender algo ou falar sobre algo tem que ter base, conhecimento profundo e não apenas ficar às margens da superficialidade. Por isso, o considero O CARA MAIS CULTO DO BRASIL, SEM RELATIVIZAR ABSOLUTAMENTE NADA!


Aproveito e deixo o meu novo poema:

"DESSE IMPULSO"


Estou em Paripueira.
Procuro por um papel,
Para escrever alguns versos.
Há a areia.


Da praia, vejo outro mar
Abraçar meu coração.
Lanço-me às águas, às ondas.
Tudo aguardo.


As casas, o litoral,
As pessoas, a visão
Dessa paisagem, a vida,
Tudo acaba


Logo a seguir, no poema.
Sei que posso ser feliz,
Mesmo sozinho, escrevendo
Sob o Sol.



Beijo imenso!
Adriano Nunes.

Antonio Cicero disse...

Pax,

explico isso no artigo "O relativismo e a modernidade", de 30/12/2009, aqui neste blog. O absoluto negativo ou a negatividade absoluta se identificam com a pura razão crítica. Dê uma olhada.

Abraço

Antonio Cicero disse...

Adriano,

não mereço tal elogio, mas agradeço a sua infalível generosidade.

Grande abraço

Alcione disse...

Elemento vazado
Cubo, quadrado
Vai de um
A outro lado
Tento, de improviso
Percorrer o paraíso
Vermelho
Sinal fechado
Verde
Aberto
Amarelo, reflito
O que é certo
O sinal, repentino
Reflete a mente
Incoerente
Fluxo contínuo.

CECILE PETROVISK disse...

Antonio,


Parabéns!

***GULA*** (PARA GRACILIANO RAMOS)


Uma bala abala Baleia.
Nem seca acertava seu ser.
Tiro seco esse em seus preás!
Quantos preás! Quantos preás!



Beijos!
Cecile.

Aetano disse...

Cicero,

Gostei muito do seu artigo, que para mim se torna bem mais claro em razão da empolgante leitura do seu livro "O mundo desde o fim".

Acho interessantes algumas ideias de Foucault - sobretudo a análise dos micro-poderes - e não reconheci no seu artigo nenhuma pretensão de impugnar a totalidade da obra dele. De todo modo, desconfio que alguns textos desse filósofo sejam, na verdade, "discursos hipotéticos", à maneira como ele mesmo descreveu o primeiro volume da "História da Sexualidade":

"ALAIN GROSRICHARD: Abordemos a HISTÓRIA DA SEXUALIDADE, de que conhecemos o primeiro volume e que, pelo que você anuncia, deve ter seis.
MICHEL FOUCAULT: Gostaria primeiro de dizer que estou realmente contente em estar aqui com vocês. Foi um pouco por isso que dei esta forma a este livro. Até o momento, eu havia empacotado as coisas, não havia economizado citações, referências e havia publicado tijolos um pouco pesados, que quase nunca obtiveram resposta. Daí a ideia deste livro-programa, tipo queijo GRUYÈRE, cheio de buracos para que neles possamos nos alojar. Não quis dizer 'Eis o que penso', pois ainda não estou muito seguro quanto ao que formulei. Mas quis ver se aquilo podia ser dito e até que ponto podia ser dito. Certamente, há o risco disto ser muito decepcionante para vocês. O que existe de incerto no que escrevi é certamente incerto. Não há artifícios; não há retóricas. E não estou certo quanto ao que escreverei nos próximos volumes. Por isso queria saber qual foi o efeito produzido por este discurso hipotético, geral. Acho que é a primeira vez que encontro pessoas que querem participar do jogo que proponho em meu livro.
[...]."

("Microfísica do Poder", p. 243, Graal. Tradução de Roberto Machado).


Parabéns, Cicero, e obrigado.

Abraço.

Lucas disse...

Caro Antonio Cicero,

Muito importante esse artigo, tanto pela questão filosófica em si, quanto pela recente "quase-visita" do ditador iraniano ao nosso país.

De fato, acho que o erro cometido por Foucault é recorrente em diversos pensadores, tanto à esquerda quanto à direita.

Não tenho tido tanto tempo quanto gostaria para ler e comentar seu blog, mas sempre que passo por aqui encontro coisas bacanas como esse artigo. Fico feliz que continue sempre mantendo a alta a qualidade de seu trabalho.

um abraço,
Lucas

WILSON LUQUES COSTA disse...

PREZADO ANTONIO CICERO, PERMITA-ME ESSE ESCRITO AZAFAMADO TOCADO PELO TACÃO DO DONO DA LAN HOUSE. GRATO.



05/05/2009


A DOXA DE NOSSA CONTEMPORANEIDADE

Descartes tem um anexim interessante sobre o bom senso, todavia não julgo também que podemos conceber uma ideia universal de verdade; e como Descartes, poderíamos aplicar aquela mesma máxima ao que concerne a esse conceito que vem nos fazendo perder as madeixas na chamada filosofia pós-moderna; a saber, o que é verdade? Julgo, cá comigo, também, que verdade não é aquilo que se queira como verdade; e mais, para ser verdade-verdade, há que comportar em si, no seu conceptus, a ideia de não-contradição, e, além, mais, de universalidade. De modo que a chamada verdade universal há que conter a ideia de não-contradição e universalidade, posto que uma mínima salvaguarda irá colocá-la no limbo como tantas e tantas outras verdades. Por isso, seria mister ficar claro que verdade particular não nos serve e nem nos serviria; e eu ainda julgo que isso seria impossível, para não dizermos, ainda mais, impensável. Na verdade, verdade, o conceito de verdade universal nos serve apenas como um leitmotiv, pelo qual seremos tocados em nossas buscas, o qual nos trará tantas outras benesses que não sejam a própria verdade; ou seja: é como se você buscasse uma agulha num palheiro, mas que encontrasse um rubi ou um diamante, porque no palheiro não havia a tal da agulha. Isso se assemelharia àquilo que na economia se denomina de benefícios colaterias ou externalidades. Por isso é preciso dizer que, quando se defende esta ou aquela ideia, mesmo que aquela comporte mais benefícios do que essa, ou essa do que aquela, não estamos falando de verdade, mas de um tipo de utilidade ou bom senso, o´um tipo de imperativo categórico etc. Há, portanto, que se fazer uma distinção entre bem/utilidade/bom senso/ética e verdade. Poderemos falar, sim, de mais autonomia e menos heteronomia ou vice-versa, mas jamais falarmos de verdade universal para justificarmos esse ou aquele pensamento que pensamos ser em nossas consciências não contraditório e universal. Ou seja, para resumir, não devemos jamais confundir verdade universal com doxa de autoridade.


Escrito por wilson luques costa às 10h15

Bruno H. Chads disse...

Caro Antônio Cícero,

Nenhum regime de verdade se considera a si próprio como “apenas um regime de verdade”. É essa cegueira quanto aos seus pressupostos que sustenta qualquer regime de verdade (e são tais pressupostos que Foucault vai querer fazer a genealogia). O que é posto em questão por ele é a noção que se tem de “verdade”. Numa época dada, por exemplo, quais são os critérios que distinguem o que é verdadeiro do falso? São esses critérios de distinção que Foucault visa fazer a genealogia e mostrar que não passam de critérios cujas raízes se encontram na história. Concordo que se acaba por cair num relativismo, do tipo “a verdade não existe”. Mas também é importante lembrar que essa verdade que Foucault denuncia é a verdade como adequação entre os discursos e as coisas. Semelhante denúncia feita por Foucault consiste justamente em liberar a linguagem dessa referência às coisas, uma vez que é nisso que as formas de pensamento totalitário consistem.

Um abraço

Bruno Holmes Chads (bhchads@hotmail.com)

Pax disse...

Caro Antonio Cicero,

Li o texto "O relativismo e a modernidade". Muito bom. O compêndio aqui no blog é bastante abrangente.

Você vê uma enorme diferença entre essa discussão e as questões que Sócrates enfrentou em seu tempo? A impressão que tenho é que séculos passaram mas o fundamento da questão não.

Suas considerações sobre ética apontam o íntimo vínculo entre a filosofia teórica e a vida prática - mesmo com alguns exageros - e o combate ao ascetismo teórico e a perigosa licença política e moral.

Pra mim, parece ontem. Ou hoje.

Abraços.

Antonio Cicero disse...

Caro Bruno,

Há vários problemas com essa concepção. Por exemplo: Quais são os critérios que distinguem o que é verdadeiro do falso, no próprio discurso de Foucault? Ele critica os critérios da sociedade em que vive a partir dos critérios vigentes nessa mesma – isto é, na nossa – sociedade? Aparentemente sim, pois, do contrário, a partir de que critérios – dos critérios de que sociedade – o discurso dele pretende ser verdadeiro? E como é que nós – que pertencemos a essa sociedade – o julgaríamos verdadeiro? Ou o discurso dele não deve ser considerado verdadeiro por nós nem por ele mesmo? Mas de que adianta um discurso falso?

Você diz que Foucault denuncia a verdade como adequação entre os discursos e as coisas e que é nessa referência dos discursos às coisas que as formas de pensamento totalitário consistem. Mas o que é o pensamento totalitário? Os mais indiscutivelmente totalitários que conhecemos devem ser a ideologia nazista, a ideologia comunista soviética e a ideologia comunista chinesa. Pois bem, analisando as duas primeiras, Hannah Arendt chegou à conclusão que, para dizer o que é a verdade, elas obedecem unicamente à lógica de uma idéia. “O pensamento ideológico”, diz ela, “torna-se independente de toda experiência a partir da qual ele não pode aprender nada de novo, mesmo quando se trata de algo que acaba de ocorrer. Assim, o pensamento ideológico se torna emancipado da realidade que percebemos com nossos cinco sentidos e insiste numa realidade “mais verdadeira”, escondida por trás de todas as coisas perceptíveis, dominando-as desse lugar de encobrimento e exigindo um sexto sentido que nos permita percebê-la. O sexto sentido é fornecido precisamente pela ideologia, a doutrinação ideológica que se ensina nas instituições educativas, estabelecidas exclusivamente para esse fim, para treinar os “soldados políticos” nas Ordensburgen dos nazistas ou nas escolas do Comintern e do Cominform. A propaganda do movimento totalitário também serve para emancipar o pensamento da experiência e da realidade”. Em suma, o pensamento ideológico totalitário é exatamente aquele que dispensa qualquer controle dos discursos realidade, isto é, pelas coisas.

Já nas sociedades mais abertas que se conhecem, como a Europa Ocidental, os Estados Unidos e mesmo o Brasil de hoje, as pessoas espontaneamente pensam que os discursos devem se adequar à realidade, isto é, às coisas. Exatamente o oposto do que você diz que Foucault pensa.

Abraço

Aetano disse...

Caro Cícero,

Penso, com Aristóteles, que o meio é a virtude de todas as coisas. Com isso quero dizer que, assim como percebo um FANATISMO num discurso alienado da realidade, também percebo um CINISMO num discurso que dela é refém. Há uma reflexão de Bobbio que chega à mesma conclusão quando discute a ética da convicção e a ética da responsabilidade (pena que agora não disponho de tempo para transcrevê-la).
Quero observar que não estou dizendo que vc defende aquele cinismo - pelo pouco que suponho conhecê-lo, sou capaz de afimar que NÃO é essa a sua posição. A minha observação é somente no sentido de que os extremos apresentam problemas igualmente graves.

Abraço.

Aeta

Antonio Cicero disse...

Aetano,

acho que não ficou claro o que eu disse sobre a adequação do discurso ao real. A palavra "adequação" talvez o tenha levado a pensar que eu estava defendendo o conformismo. É um equívoco.

A concepção da verdade como adequação entre o pensamento e a realidade vem de Tomás de Aquino, que definia a verdade como “adaequatio intellectus et rei”. Isso significa que o pensamento verdadeiro é o que corresponde ao real. Isso quer dizer simplesmente que, se digo, por exemplo, “O Irã é uma ditadura”, esse juízo será verdadeiro se o Irã for de fato uma ditadura e falso, se o Irã não for uma ditadura. Em suma, essa concepção da verdade nada tem a ver com conformismo ou cinismo.

Abraço

Aetano disse...

Cicero,

De fato não ficou claro. Mas a tarefa de se fazer compreender não é tão fácil assim. Eu, por exemplo, disse com todas as letras que não o estava acusando de defender o cinismo/conformismo, mas ainda assim não consegui me fazer entender.
De todo modo, o bom dessas incompreensões - para mim - é que, na generosa tarefa de desfazê-las, sempre aprendo com vc.

P.S. O artigo do Contardo, hoje, na Folha, traz uma reflexão que converge com a sua. Pensei até em publicá-lo aqui, pois vcs dois, para mim, tornaram-se "referências incontornáveis".

Grato.

Abraço,

Aeta.

Júlio Servo disse...

Muito bom Cícero!

Vivemos em um tempo onde o relativismo é a bússola que guia a nossa sociedade. Questioná-lo, para a maioria de intelectuais e profissionais é um erro gravíssimo.

Gostei muito do equilíbrio do texto.

Um abraço!

Júlio Servo disse...

Antônio, você poderia explicar conceitualmente o que qer dizer com o absoluto negativo? É exatamente o oposto do absoluto positivo? Seria justamente o relativismo ``total`` impregnado de uma questão tão arbitrária quanto outra qualquer?


Grato.

Antonio Cicero disse...

Caro Júlio,

O absoluto negativo é a razão pura, isto é, crítica, isto é, negativa. Como eu disse no artigo “O relativismo e a modernidade”, de 30/12/2007, aqui publicado, o que acontece é que, ao mesmo tempo em que, por um lado, todos os pretensos conhecimentos positivos são reconhecidos como relativos pela razão, por outro lado, ela mesma (enquanto faculdade de criticar) constitui um absoluto epistemológico. Não que ela não possa criticar a si própria: ao contrário, nunca é demais lembrar que, na "Crítica da Razão Pura", de Kant, a razão é tanto sujeito quanto objeto da crítica. Entretanto, justamente ao criticar e questionar a si própria, a razão não pode deixar de se afirmar.

De todo modo, o reconhecimento de que a razão crítica - ou negativa - é epistemologicamente absoluta equivale ao reconhecimento de que nenhum pretenso conhecimento positivo é absoluto: ou, em outras palavras, de que todo pretenso conhecimento positivo é relativo.

Por sua vez, o reconhecimento da relatividade – logo, da falibilidade – de todo pretenso conhecimento positivo é o que torna possível conceber a constituição das condições da produção do conhecimento científico empírico – entre as quais a sociedade aberta – e a concomitante rejeição de toda pretensão de pretenso conhecimento que se furte ao exame aberto e livre das suas pretensões cognitivas.

Abraço

Anônimo disse...

Prezado Antonio Cícero

Não pretendo polemizar com você na seara dos argumentos que sustentam a sua opinião sobre Foucault.

Desde os primeiros movimentos dos governos dos aiatolás no Irã, muitas vozes já criticaram o envolvimento de Foucault com o que ele chamara de “espiritualidade política” e o espírito ocidental da época, inoculado pelas agências transnacionais de informação, fez conhecer como “revolução islâmica”.

O que move esta minha escrita é a existência de uma lacuna no ensaio “Foucault e o fundacionismo” (Folha de S. Paulo, 2/5/2009. E10), exatamente no lugar em que você se propõe a circular no interior do pensamento foucaultiano. O que escrevo, portanto, antes de assumir um caráter polêmico, na esfera da opinião, pretende um caráter esclarecedor.

Tenho explorado há alguns anos a obra de Foucault; isso não significa que dela conheça os múltiplos meandros, as muitas pregas. Dela me utilizo, seguindo o desejo de Foucault, como se fosse uma caixa de ferramentas que tem me possibilitado fazer funcionar várias indagações sobre o jornalismo, desde que esse se aliou à burguesia brasileira no século XIX.

Mais concretamente, no que poderia habitar o seu artigo, mas está ausente dele, me refiro às “reportagens de idéias”, expressão elaborada por Foucault para dar consistência teórica às reportagens que publicou sobre o Irã no jornal italiano Corriere della Sera no final dos anos 1970.

Neste ponto, dois esclarecimentos são necessários.

Primeiro: o que Foucault considera reportagem excede o gênero jornalístico cristalizado pela racionalidade do jornalismo. O Foucault, que se reconheceu jornalista, desejava assistir o “nascimento das idéias” e, para isso, trabalhava em conjunto com jornalistas. Dois fragmentos do texto “As reportagens de idéias” dão o sentido da expressão e da conjunção que pretendia entre jornalistas e intelectuais:

"Existem mais idéias sobre a terra que os intelectuais podem imaginar. E essas idéias são mais ativas, mais fortes, mais resistentes e mais apaixonantes que poderiam pensar os políticos. É preciso assistir ao nascimento das idéias e à explosão da força delas: e isso não nos livros que as enunciam, mas sim dentro dos acontecimentos nos quais elas manifestam a sua força, nas lutas que se travam pelas idéias, contra ou com elas [...]

"[...] Este é o sentido que nós queremos dar a essas reportagens onde a análise do que se pensa será ligada àquilo que virá. Os intelectuais trabalharão com os jornalistas no ponto de cruzamento entre as idéias e os acontecimentos" (Foucault, M. 1994. Les reportages d’ideé. Dits et Écrits, tome III. Paris, Gallimard, p. 706-707. Artigo publicado originalmente no Corriere della Sera, vol.103, nº267, 12/11/1978, p.1)

Segundo: nas reportagens que Foucault fez sobre o Irã, a preocupação de revelar como o jornalismo constitui zonas de silêncio em torno a determinadas idéias e indivíduos, e como naturaliza para os seus leitores o discurso hegemônico, é central. Nas reportagens sobre o Irã, se você ler a série de reportagens publicada no Corriere della Sera, poderá constatar a emergência do sentido complexo de um grande acontecimento, que era e continua sendo chamado de “revolução” pelo jornalismo ocidental: o sentido de “espiritualidade política” que se manifesta como a base de uma autotransformação subjetiva, a partir da qual se pode pensar de outro modo sobre o sentido de um evento revolucionário.

No contexto iraniano, a reportagem de idéias conduziu o pensamento para mais perto da indecibilidade daquele evento. O que Foucault escreveu sobre o Irã é o que ouviu de múltiplas fontes, que não foram entrevistadas pelos jornalistas ocidentais. Foucault encontra-se com militantes da oposição democrática, com líderes da oposição, com estudantes, homens da rua, com jovens islâmicos nos cemitérios, onde as reuniões eram permitidas, na universidade, nas portas das mesquitas. Foucault entrevista líderes religiosos. aiatolás que viviam ameaçados pelo regime do Xá. Para uma entrevista com o aiatolá Shariat Madari, cuja residência em Qhom foi refúgio de muitos militantes dos Comitês de Defesa dos Direitos Humanos, ele e Thierry Voeltzel enfrentam a estrada e os soldados armados de metralhadora que vigiavam a rua.

O tempo todo Foucault faz anotações e repete a mesma pergunta: “O que você quer?”; e recebe de quatro entre cinco entrevistados a mesma resposta que o aiatolá Khomeini havia dado a jornalistas em seu exílio em Paris: “Um governo islâmico” (‘À quoi rêvent les Iraniens’, in Dits et Ecrits, vol. III, 1994, pp. 690-691).

Até aqui, vão os esclarecimentos para o que considero uma lacuna em seu ensaio: a contribuição de Foucault para o reconhecimento das zonas de sombra da sociedade e das vozes silenciadas e de como o jornalismo pode ser um instrumento para tal ação no Irã.

Com essa lacuna já exposta, não há como evitar a polêmica, à medida que ela evidencia uma inverdade em seu texto: Foucault ignorou o que se passava no Irã. E, neste sentido, você alinha muitos elementos: a opressão das mulheres, a censura a imprensa, a prisão dos dissidentes, a execução de apostatas e homossexuais, entre outros.

Se nos voltamos ao passado é possível colocar foco no que parece, segundo o parágrafo anterior, uma coisa única, sem relevos, com base na resposta de Foucault aos que o criticaram, utilizando os argumentos que você continua utilizando, ou seja, de que a posição de Foucault deveria ser a mesma, antes da deposição do Xá, depois da deposição do Xá, e ao longo do regime dos aiatolás.

Quando se torna alvo de uma série de ataques da intelectualidade francesa por seu envolvimento no Irã, Foucault escreve dois ou três artigos em que descreve a sua ação de jornalista. Explica que se interessou pelo processo coletivo resumido no termo “espiritualidade política”, ou seja, que se interessou por “uma história sonhada que era tão religiosa quanto política”. A espiritualidade, à qual se referiam aqueles que se insurgiram e escolheram morrer por uma causa, segundo Foucault, não poderia ser reduzida ao que veio depois, com o “governo sangrento de um clero fundamentalista”.

Como Foucault deixou escrito em “É Inútil Revoltar-se?”, a insurreição é uma singularidade histórica que foi compreendida por ele em si mesma e no momento de seu acontecimento, independentemente do seu desdobramento. O papel do intelectual e da moral teórica que lhe deu consistência naquele ato de reconhecimento do presente, nesse sentido, não pertence ao que pode ser entendido como domínio das estratégias da política. Trata-se de uma atitude “antiestratégica”:

"...ser respeitoso quando uma singularidade se levanta, intransigente quando o poder infringe o universal. Escolha simples, tarefa difícil: pois é preciso ao mesmo tempo ver um pouco abaixo da história o que a rompe e a agita e vigiar um pouco atrás da política o que deve limitá-la incondicionalmente. Afinal, é meu trabalho: não sou nem o primeiro nem o último que o faz. Mas eu o escolhi" (Foucault apud D. Eribon, p. 270).

Saudações cordiais, Beatriz Marocco.

Antonio Cicero disse...

Prezada Beatriz,

Você diz que há uma inverdade em meu texto, que teria sido dizer que Foucault ignorava o que se passava no Irã. Ora, eu jamais disse isso. O texto que escrevi é: “Como é possível que Foucault tenha ignorado essa realidade, sem falar na realidade da opressão das mulheres, da censura à imprensa, da prisão de dissidentes, da execução de apóstatas e homossexuais etc., se ele declarava que seu papel intelectual era "mostrar às pessoas que elas são muito mais livres do que pensam"?

A que realidade eu estava me referindo? Ao fato de que "Mesmo um fundamentalismo islâmico mínimo exigiria, segundo o Alcorão, que as mãos de ladrões fossem cortadas e que a partilha da mulher na herança seja cortada pela metade. Se houver um retorno à tradição, como os religiosos querem, então será necessário chicotear aquele que beber vinho e chicotear ou lapidar a adúltera. Nada será mais perigoso que a acusação venerável: meu adversário é um inimigo de Deus".

A palavra “ignorar” não quer dizer apenas “não conhecer” ou “não saber”, mas também “não tomar conhecimento”; “não prestar atenção a”, “fingir não notar”. É assim que se diz, por exemplo, “Fulano me ignorou durante toda a festa”. Pois bem, é evidentemente nesse sentido que usei a palavra no contexto em questão.

A acusação que faço a Foucault é mais grave do que simplesmente a de que ele não soubesse do que se passava no Irã. Digo que ele preferiu não tomar conhecimento do que significava o islamismo (para evitar outro mal-entendido, observe bem que não estou, aqui, a me referir ao Islã, mas ao islamismo).

Quanto à “espiritualidade política”, falo desse conceito no meu artigo, sim. E o considero uma monstruosidade. Observo que Foucault dizia que nos esquecemos da espiritualidade política “desde a Renascença e as grandes crises do cristianismo”. Sim: a “espiritualidade política” pertence à Idade das Trevas, e é lá que deve permanecer sepultada. Em últiima análise, ela se presta a tentativas de legitimação da teocracia, isto é, da pior forma de totalitarismo. O fato de que a maioria da população do Irã tenha apoiado a Revolução – o que não é de estranhar, tendo em vista que estavam a se livrar da ditadura de Reza Pahlevi – não legitima o regime dos aiatolás. Mais importante do que o apoio da maioria (que também Hitler e Mussolini tiveram) é o direito das minorias e, sobretudo, dos indivíduos: em suma, mais importante são os direitos humanos. Estes, porém, são, nesse contexto, ignorados por Foucault.

Essa ignorância, que tem como contrapartida o uso de conceitos espúrios como “espiritualidade política”, está, como eu digo, radicada em vários pressupostos teóricos inconsistentes do seu empreendimento crítico.

Veja bem: não tenho a menor intenção de desqualificar tudo o que Foucault fez. Eu mesmo aprecio grande parte da sua obra.

Entretanto, não posso deixar de considerar inconsistentes, por exemplo, o conceito de “episteme”, “a priori histórico” e “regime de verdade”, como espero ter mostrado no meu artigo. É inconsistente também a sua rejeição em bloco da “racionalidade ocidental”, que acaba sendo uma rejeição da racionalidade tout court, por um discurso que, ele mesmo, pretende ser racional. E é inconsistente a sua pretensa rejeição de universais, que acaba resultando na noção em última análise irracionalista de “singularidade histórica”.

Saudações cordiais

Aetano disse...

Cicero, com a sua permissão e para conhecimento dos demais, gostaria de publicar aqui o texto do Contardo Calligaris (Folha de São Paulo, 07/05/09, caderno "Ilustrada"), onde ele - certamente provocado pelo seu artigo - reforça os seus argumentos e endossa a defesa do individualismo.


CONTARDO CALLIGARIS

"Ahmadinejad e Foucault"

O PRESIDENTE do Irã, Mahmoud Ahmadinejad, adiou sua visita ao Brasil. Melhor assim. Ele é uma das figuras mais sinistras da praça política mundial: uma encarnação do ódio assassino como solução para o fato de que sempre há outros que vivem, pensam e sentem de uma maneira diferente da nossa.
Há um problema no Oriente Médio? Simples, basta acabar com os judeus e aniquilar o Estado de Israel. Isso lhe lembra algo que já aconteceu? Não se preocupe: o genocídio é uma invenção sionista. Há iranianos que pulam a cerca? Simples, basta massacrar as adúlteras, mesmo que tenham sido estupradas. Há iranianos homossexuais?Eventualmente, "tinha" - já não tem mais. E por aí vai, para todos os dissidentes, externos e internos.
Ultimamente, em Genebra, quando Ahmadinejad falou, os diplomatas ocidentais deixaram a sala. Os brasileiros apenas emitiram uma nota de repúdio. Três razões:
1) O Irã é um bom comprador no Oriente Médio, e dinheiro não tem cheiro. Discordo desse argumento neoliberal: o dinheiro tem cheiro, sim, sobretudo quando vem numa mala de carniças.
2) Ahmadinejad extrapola porque está em campanha e se endereça à sua base eleitoral. Quer dizer que ele se sustenta numa base que pensa como ele? Pior ainda.
3) Campeão da coexistência de diferenças (étnicas, religiosas e infelizmente econômicas), o Brasil pode ser um valioso mediador de conflitos. Ótimo, mas o que significa mediar? Por uma limitação da qual não quero me desfazer, eu não consigo ponderar os problemas do mundo sem pensar nos indivíduos. E, conversando com Ahmadinejad, seria assombrado pela visão de uma mulher tremendo de medo, num porão, incapaz de invocar seu deus porque, segundo lhe ensinaram, ele está inteiramente com um grupo de barbudos que, sentados no quarto de cima, tomam chá e decidem quando ela será apedrejada. É um pensamento que me dá nojo.
Reli os artigos que Michel Foucault escreveu para o "Corriere della Sera", durante duas viagens ao Irã, em 1978, no começo da "Revolução" Iraniana (em "Dits et Ecrits vol. 2, 1976-1983", Gallimard, e, em inglês, "Foucault and the Iranian Revolution", University of Chicago).
Foucault me ensinou a enxergar a mão furtiva do poder, mesmo nas sociedades aparentemente "livres". Como foi que ele escreveu uma apologia entusiasta do que já prometia ser um regime totalitário como poucos na história?
No sábado passado, neste espaço, Antônio Cicero também voltou a esses escritos de Foucault -talvez inspirado pela visita iminente. Cicero argumentou que o relativismo libertário (a ideia de que não temos o direito de julgar regimes de verdade diferentes do nosso) levou Foucault a defender um fundamentalismo que não reconhece nenhuma verdade que não seja a dele. Concordo. O relativismo só faz sentido se ele for uma exceção à sua própria regra: todos os regimes de verdade são respeitáveis, salvo os que não respeitam a verdade dos outros.
Mas o que mais me impressionou, relendo Foucault, foi que, naquelas viagens, ele não ouviu nenhuma voz de dissenso. Só percebeu a perfeita unanimidade de um povo desejoso de se refundar "espiritualmente", além de suas diferenças políticas. Talvez ele tenha saído de Paris já decidido a encontrar, na "Revolução" Iraniana, o protótipo de uma nova esperança coletiva.
Aparentemente, vale também para Foucault: sermos indivíduos é uma tarefa árdua, que suscita a nostalgia permanente de uma coletividade em que poderíamos, enfim, descansar. Algo assim: que venha a "vontade geral" com a qual sonhava Rousseau e nos permita renunciar por um tempo a nossas responsabilidades singulares!
Pois bem, Ahmadinejad nos lembra que a "vontade geral" se constrói sempre sobre os cadáveres dos que não concordam.
Foucault achava que a psicanálise, levando-nos a falar sobre os desejos sexuais, abre a porta para que o poder se insinue em nossa vida privada. Pode ser, mas, para mim, o legado irrenunciável da psicanálise é sobretudo a necessidade de pensar nas pessoas uma por uma, sem ilusões e entusiasmos coletivos, ou seja, sem esquecer aquela mulher que, no porão, ainda está esperando para saber a que horas será apedrejada.
Presidente Lula, caso Ahmadinejad seja reeleito e venha ao Brasil, na hora da foto oficial, peço-lhe, por favor, que o senhor pense nessa mulher e se abstenha de sorrir.

***

Abraço, Cicero.

Aeta.

eduengler disse...

As palavras: "direito", "universal" e "verdade", são peças-chave para as observações descritas no texto.

Ao observarmos, o direito como uma convenção formalizada, e esta originada nos costumes; quando esquecida a origem, a formalização passa a ter um caráter quase sacro e inabalável. Cuidado há de se ter ao racionalizar estas questões, pois ambas as "formas" podem cair no fundamentalismo (ou será que já não estamos, ocidentalmente, nele?!!).
Pelo mesmo viés, universalizar algo não universal, de caráter ocidental apenas, não seria também uma espécie de doutrinamento?
Quanto a verdade, vale a pena citar neste comentário, uma passagem entre P. Schwarzert e M. Lutero:

Schwarzert(Melâncton): Proclama-se muitas vezes a própria fé quando precisamente se acabe de perdê-la e passa-se a procurá-la em todas as ruas - e não é então que a gente a proclama com menos ardor!
Lutero: Dizes a verdade hoje, meu irmão, e falas como se fosses um anjo!
Schwarzert: Mas essa é exatamente a idéia de teus inimigos e eles a aplicam a ti.
Lutero: Então é uma mentira saída das entranhas do diabo!

Os pontos de vista da verdade, interessante não?!
E nem entramos na questão da percepção da verdade, mas poderíamos ir por este simulacro.
Gostei do artigo, abraços.

Catatau disse...

É verdade que o apoio de Foucault à revolução foi um tropeço, mas foi um tropeço em "dois tempos" por assim dizer: cobrindo o acontecimento, o careca realmente veio a pensar que, diante da deposição de Mossadeq e a nova opressão de Palahvi e seu serviço do Savak, todo aquele movimento motivado por caracteres "espirituais" levaria a algo diferente. Mas, quando começaram as primeiras barbaridades - inesperadas, para Foucault -, ele logo se moveu publicamente contra o que começava a ocorrer, como se vê por exemplo em sua carta aberta a Mehdi Bazargan.
A "espiritualidade", nesse sentido, não se refere tanto ao Islã em si mesmo, mas sim ao caráter revolucionário de abertura que se anunciava entre os islâmicos, certo sentimento de que estava para nascer "outra coisa" irredutível à repressão anterior. O que ocorreu foi a manutenção "reativa" da repressão... Mas ainda assim, se Foucault estivesse vivo durante a primavera árabe, talvez fizese um interessante reporte ao que ocorreu no Irã. E novamente, o que desencadeou a primavera e o que ocorreu depois (o que ocorre agora) pertencem a dois movimentos distintos. O fechamento num regime repressor seria, nesse sentido, o próprio fechamento da revolta revolucionária contra o regime.
Nisso a "espiritualidade" revolucionária talvez se reuniria com a dos antigos: espécies de exemplares de horizontes de conduta irredutíveis à normatização contemporânea ou à incipiente Regula que se anunciava desde os antigos greco-romanos. Mas enfim, são aqui vários "talvez".