13.5.09

Joaquim Cardozo: "Canção elegíaca"

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Canção elegíaca

Quando os teus olhos fecharem
Para o esplendor deste mundo,
Num chão de cinza e fadigas
Hei de ficar de joelhos;
Quando os teus olhos fecharem
Hão de murchar as espigas,
Hão de cegar os espelhos.

Quando os teus olhos fecharem
E as tuas mãos repousarem
No peito frio e deserto,
Hão de morrer as cantigas;
Irá ficar desde e sempre
Entre ilusões inimigas,
Meu coração descoberto.

Ondas do mar - traiçoeiras -
A mim virão, de tão mansas,
Lamber os dedos da mão;
Serenas e comovidas
As águas regressarão
Ao seio das cordilheiras;
Quando os teus olhos fecharem
Hão de sofrer ternamente
Todas as coisas vencidas,
Profundas e prisioneiras;
Hão de cansar as distâncias,
Hão de fugir as bandeiras.

Sopro da vida sem margens,
Fase de impulsos extremos,
O teu hálito irá indo,
Longe e além reproduzindo
Como um vento que passasse
Em paisagens que não vemos;
Nas paisagens dos pintores
Comovendo os girassóis
Perturbando os crisantemos.

O teu ventre será terra
Erma, dormente e tranquila
De savana e de paul;
Tua nudez será fonte,
Cingida de aurora verde,
A cantar saudade pura
De abril, de sonho, de azul,
Fechados no anoitecer.


CARDOZO, Joaquim. Signo estrelado. Rio de Janeiro: Livros de Portugal, 1960.

10 comentários:

marcelo girard disse...

a poesia brasileira precisa renovar suas paisagens e imagens.

Anônimo disse...

lindo!

wellington machado disse...

Belíssimo poema!!!

Jefferson Bessa disse...

Caro Cícero,
fico muito feliz por ver um poema de Joaquim Cardozo no seu blog. Poeta muito pouco lido. Um dos grandes nomes da poesia brasileira. Canção elegíaca é um poema e tanto! Hoje mesmo eu reli o poema "A tarde sobe" e fiquei impressionado pela beleza do poema que será a próxima postagem no meu blog.

Um abraço.
Jefferson.

CECILE PETROVISK disse...

Antonio,


Que belo poema!


Um poema meu para você:

***ARTEFATO*** (PARA ANTONIO CICERO)


Dou-te o meu poema inacabado,
Um rabisco a lápis do meu ser:


(Pele
Vasos
Ossos
Nervos
Músculos)


Terás todos os meus batimentos,
Todas as minhas respirações,


Penetrarás em minhas entranhas,
Dissecarás as trevas de mim,


Lerás as letras já gastas, trêmulas,
Quase apagadas e, nessas páginas


Reviradas, verás minhas vidas,
Outras vontades, outros sentidos:


Entrarão, à socapa, sem pressa,
Metáforas das minhas memórias


Nesse corpo desnudo, desfeito,
Vestígio das horas, fóssil vivo.


Aprenderás a não ter mais medo
De minh'alma, quando me desfaço.


Enfim, em formol, os meus sonetos,
Todos os meus sonhos findarão.


Sentirás, depois, meu coração
Pulsar, nesses versos vulneráveis,


Em um só ritmo, cheio de dor,
Querendo para sempre parar?


Beijos,
Cecile.

Alcione disse...

Oh, sol ingrato
Somente à noite tu vês a lua
Iluminada
Linda, enluarada, nua,
Somente à noite
Quando o açoite
Persegue nossa estrada
E então
Baldado a ilusão
Teu hálito me acalma
Vai fundo na minha alma
À procura no meio do mato
Um beijo de paixão.

Angela Warlet disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Angela Warlet disse...

Oi Cícero!
O poema deste pernambucano é lindo!
Lembrei dos poetas portugueses que ultimamente tenho lido.
Vai aí uma sugestão: postares mais estes maravilhosos poetas!
Abraço,angela

paulinho disse...

que lindo poema, cicero amado!

o lance é torcermos para que estes olhos não se fechem tão cedo (rs).

beijo bom e terno.

Délio P. Lopes Lopes disse...

Joaquim Cardoso é atemporal, como o são as belas construções, os poemas, contos, dessarte ele é mais um daqueles que merecem figurar na grande galeria dos “magos” da escrita brasileira. A poesia, como todo tipo de obra de arte “não precisa de renovação”, carece sim de interpretação, de gosto pelo fazer humano, de respeito sem pretensão de estilo, escola, engajamento ideológico ou enquadramento em periodicidade literária. Joaquim Cardoso, além de poeta era crítico de arte e, arquiteto de estirpe indiscutível. Suas raízes estão no Recife, mas seus versos ganharam o mundo, conviveu na sua simplicidade com poetas modernistas, como Manuel Bandeira e João Cabral de Melo Neto. Seus poemas são aqueles que quando se lê, bate uma vontade enorme de tê-los escrito, pelo seu vigor estético, rima despojada de cientificismo, conformidade simbólica de fácil assimilação, metáforas que invadem todos os poros da compreensão, alusões de reflexo imediato entre o mundo onírico, fantástico, sobrenatural, intimista, enfim de inquisição da alma em contraste impactante com o mundo real, à espreita do homem para oprimi-lo e chamá-lo de volta para viver seu dia a dia opaco, limitado e invariavelmente consciente.