7.5.09

René Char: "Le poète..." / "O poeta..."

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O poeta não diz a verdade, ele a vive; e ao vivê-la, torna-se mentiroso. Paradoxo das Musas: justeza do poema".



Le poète ne dit pas la vérité, il la vit; et la vivant, il devient mensonger. Paradoxe des Muses: justesse du poème.



De: CHAR, René. "Recherche de la base et du sommet. iv. À une sérénité crispée (1952)". Oeuvres complètes. Paris: Gallimard, 1983.

22 comentários:

ADRIANO NUNES disse...

Cicero,

Excelente! Parabéns pela postagem!


Abraço forte!
Adriano Nunes.

Aetano disse...

Cicero,

vc poderia, esquematicamente, claro, apontar as origens e a "evolução" da ideia de que os poetas mentem? Nietzsche a remete a Homero e, além desses, a encontramos tb, como tema, em Enzensberger e Pessoa (corrija-me se estiver enganado).

Como é q tudo começou, vc saberia e poderia dizer?

Grato. Abraço.

Aeta.

paulinho disse...

na mosca, cicero! lindo!

sobre esta questão, a do poeta viver a verdade e tornar-se, em contrapartida, um mentiroso, ou seja, um fingidor, possuo este poema que trata exatamente desse assunto. ei-lo aqui:

"O poeta é um fingidor." (Fernando Pessoa)

em todo o poema
o sempre mesmo esquema:
por mais que o poeta
fale o que o peito liberta
confesse o que -- só -- em verso
derrame o seu luto em vida imerso
ao escrever percebo plainar
um outro que paira que alço

pois que o poema
ao teimar andar
com o sapato que calço
o sempre mesmo esquema:

no fundo no fundo
qualquer poema que causo
-- todo poema --
com o seu fundo falso
________________________

ou seja: por mais que o poema insista em andar com o sapato que calço, por mais que queira falar sobre os meus passos, sobre o meu caminhar, há sempre, ali, nos versos, um fundo falso: pois que o poema não se trata de uma autobiografia; há questões, nele, que estão ligadas somente a ele, ligadas à sua composição, à sua estrutura poética, à resolução dos entraves causados pelo próprio fazer poético.

não sei se me fiz entender, se consegui ser elucidativo, mas acho que é assim (rs).

beijo, lindão!

Domingos da Mota disse...

Caro Antonio Cícero,

Este poema de René Char, será uma outra maneira de dizer o mesmo que Fernando Pessoa no seu poema

AUTOPSICOGRAFIA

O poeta é um fingidor.
Finge tão completamente
Que chega a fingir que é dor
A dor que deveras sente.

E os que lêem o que escreve,
Na dor lida sentem bem,
Não as duas que ele teve,
Mas só a que eles não têm.

E assim nas calhas da roda
Gira, a entreter a razão,
Esse comboio de corda
Que se chama coração.


As minhas saudações,

Domingos da Mota

ADRIANO NUNES disse...

Cicero,


Segui a dica do Aetano, após lê-la em seu blog, e fui ler o texto de Contardo: ótimo e brilhante - igualmente ao seu (citado por ele).


Abraço forte!
Adriano Nunes.

J Alexandre Sartorelli disse...

O poeta é um fingidor,etc.,etc.
[]´s

Antonio Cicero disse...

Aetano,

na tradição ocidental, isso começou com o poema "Teogonia", de Hesíodo, onde as Musas dizem: "sabemos contar muitas mentiras parecidas com a verdade". Depois, na "República", Platão usou contra os poetas essa declaração das Musas. Para Montaigne, a grande poesia estava acima das regras e da razão. Teseu, no “Midsummer night’s dream”, de Shakespeare, afirmava que o poeta dava residência e nome a um nada feito de ar. Keats pensava que o poeta não tem caráter porque é um camaleão. O Zarathustra de Nietzsche – que no entanto se considerava poeta – dizia que os poetas mentem muito porque sabem pouco. Segundo Gombrowski, o mundo dos versos é fictício e falso. Rimbaud queria que o poeta se tornasse vidente. Ruy Belo descreveu a poesia como a emissão de palavras sem cobertura, isto é, sem fundos, do mesmo modo que se fala de “cheque sem cobertura” (ou de “cheque sem fundos”). E, como alguns amigos aqui observaram, Fernando Pessoa dizia que o poeta é um fingidor.

Mas observe que cada vez que um poeta diz a mesma coisa que outro, ele já está dizendo outra coisa. Não sabe ler poesia quem, sem perceber isso, supõe que os poetas estão apenas a se repetir. René Char, por exemplo, não está dizendo o mesmo que Fernando Pessoa, pois além de dizer que o poeta é mentiroso, ele diz que o poeta vive a verdade; e isso nos faz pensar na relação entre viver a verdade e dizer uma mentira; e no que é viver a verdade e no que é viver uma mentira. E quando penso nisso me ocorre que o importante no fundo é que o poema, e não o poeta, viva a verdade, quando mente, e que minta para viver a verdade; e que é para que o seu poema viva a verdade que o poeta a vive, quando mente para fazer o poema.

Abraço

João Renato disse...

Prezado Cícero,
Acho que toda arte é uma representação construída; querer que os versos do poeta digam a verdade seria como exigir que um quadro do mar seja molhado ou que a escultura de um corpo seja desfrutável.
Também gostei muito do que o Paulinho disse. Mas só acho que o fundo é verdadeiro, mesmo se não for real; falsa é a construção.
Um abraço,
João Renato.

Aetano disse...

Brilhante, caro Cicero!!!

E, se a verdade é, como disse Tomás de Aquino, “adaequatio intellectus et rei”, então, para viver a verdade de um poema deve-se estar além da verdade e da mentira. Assim, nos vingamos da intangibilidade do poema nos poetas, a quem nós, pobres mortais, não sem uma ponta de inveja e rancor, atribuímos a pecha de mentiroso.

Muito grato. Abraço.

Aeta.

ADRIANO NUNES disse...

Amado Cicero,

Quando digo que você é o cara é porque é o cara! Não é um elogio ou generosidade infalíveis: talvez, a sua humildade, a sua bela alma não queiram aceitar o fato como real e certo! Sinto um orgulho imenso de ser seu amigo e poder fazer parte desse blog que, a cada dia que passa, vai ficando cada vez melhor. Todos nós aqui apendemos com você e saiba que é muito gratificante. Mais uma vez: VOCÊ É O CARA!!!! AMO-TE MUITO!!!



Abraço fraterno!!!
Adriano Nunes.

Anônimo disse...

Olá, concordo com a opinião do paulinho, em termos... pois nao há fundo falso qdo se trata de questoes ligadas somente a ele (poeta) eu diria que possa existir o "falso" qdo o poema fala do que é externo a ele, do outro talvez. ou do mundo que ele nao compreende bem, ainda assim nao é falsidade é a verdade que ele vê e sente.

*elucidativo é uma palavra bonita...

gosto do seu blog, abraços

Andrea

Angela disse...

Os poetas - com sua poesia - são possuidores da capacidade de desnudar o mundo, mas tidos como mentirosos.Têm o dom de desvelar a verdade e iludir(velá-la)O que se constitui num paradoxo.Penso que o poeta cria um mundo de coerência cuja geografia está no espaço do poema.Ali tudo vale, desde que haja verossimilhança interna.Se isto está posto em desacordo com a verdade do senso comum, paciência, vale aquela justeza do poema.Contudo, contudo,ao mentir ele revela o mundo.

Angela disse...

Achei incrível sua resposta a Aetano.Vc é tão lógico,erudito,suave no dizer as coisas.Que muito bom.

Antonio Cicero disse...

Agradeço as palavras gentis de Adriano, Aetano, Paulinho e Ângela.

Beijos

ADRIANO NUNES disse...

Cicero,

Um outro soneto:


"ENTRE FORMAS E MÉTRICA, MENTINDO"


Retida em meus poemas, nesse mundo
De palavras sagrado, alegremente,
A minh'alma conservo, para sempre.
Todo meu eu preserva-se profundo,


Enquanto faço versos. Assim vivo
Entre formas e métrica, mentindo
Sobre o que sequer sinto, só, sumindo
Feito nuvem no céu, gás difusivo.


Atravesso lugares, esse tempo,
Povos, pedras, misérias e memória.
Não há verdade em nada. No que penso,


Há pesado vazio que sufoca
Meu ser por dentro e fora, dissolvendo,
Aos poucos, minha vida, minha estória.


Abraço forte!
Adriano Nunes.

paulinho disse...

andrea,

também adoro "elucidativo" (rs). acho bacana, bonita a palavra, né?

tenho a impressão de que não me fiz compreender...

quando afirmo o fundo falso, é porque poesia não se trata APENAS, PURA OU SIMPLESMENTE, de linhas descritivas dos sentimentos ou das impressões que o poeta tenha. por mais que o poeta descreva sentimentos ou impressões, ao torná-los um poema, os sentimentos ou as impressões deixam de ser sentimentos e impressões para transformarem-se em outra coisa: em poesia.

na feitura de um poema, para que este esteja a contento, sacrifica-se, muitas vezes, a tão LITERAL descrição de sentimentos ou impressões do poeta, em prol de uma obra poética plena aos olhos de quem a criou. isso acontece; e muito. todavia, não significa dizer que, por conta do trabalho na confecção de uma poesia, o poeta seja falso "porque mente", mas falso porque a realidade ali, na obra poética, é mesclada, misturada, à criatividade do bardo (desenvolvida por sua autoconsciência), quando este elabora as suas linhas.

não sei se ainda continuo obscuro ou se consegui ser, desta vez,(olha a palavrinha que a gente adora - rs) elucidativo. cicero, se você conseguiu compreender o que escrevi, e a dúvida da andrea persistir, você me dá um help? hein, hein (rs)?

um beijo nocê, andrea. outro no "síndico" deste agradável e prazeroso "condomínio literário". ;-)

ADRIANO NUNES disse...

Cicero,

Paulinho, claro que foi "elucidativo", ao menos, para mim... Estava sentindo sua falta aqui. Quando você perguntou se eu queria ver os vídeos ou se tinha como me enviar se você os conseguisse, tem sim. mande o seu email para o meu blog que não posto a sua mensagem. Aí, comunicamo-nos por email, ok?!

Abraço forte em você e no "Ciço" (como chamamos Cíceros aqui no Nordeste)

Adriano Nunes.

CECILE PETROVISK disse...

Antonio,

Linda aula poética!



"TRINITROTOLUENO"


Todo verso faz faísca


(Não haverá momentos)


Tudo vai explodir
Nada nos restará
Tudo irá pelos ares


(Não haverá sentidos)


Tudo virará cinzas
Nada nos sobrará
Tudo será só pó


(Não haverá lugares)


Tudo terminará
Nada nos salvará
Tudo terá final


(Não haverá razões)


Todo verso tem pólvora!


Beijos,
Cecile.

CECILE PETROVISK disse...

Antonio,

Obs.: "toda voz faz faísca" para que o poema aconteça melhor!



Obrigada!
Cecile.

Jac. disse...

Não leve 'ao pé da letra'
o que o poeta escreve
Nem ouça o que ao vento ele espalha

Ele é volúvel
Não se espante

São palavras
Só palavras

E ele as joga por aí sem pudor
Ele as deita em qualquer esquina

Que os poetas
Não se pode prendê-los

São meninos, são meninas!

Jac Rizzo.

Beijos, querido poeta!

Jefferson Bessa disse...

Caro Cícero, valeu mesmo pelo texto de René Char e pelos seus comentários!

Um abraço.
Jefferson.

Maria Nathalia Segtovich disse...

PORQUE APRENDI A "GUARDAR UMA COISA..." OFEREÇO AO POETA QUE ME CONTOU O SEGREDO MAIS ALGUMAS PALAVRAS DE RENÉ CHAR.
QUE SEJAM GUARDADAS NOS ACONTECIMENTOS, ENTÃO :

De todas as águas claras a poesia é a que menos tarda nos reflexos de suas pontes.
Poesia: vida futura dentro do homem requalificado. (XXVII)

René Char, Fúria e Mistério, 1962, In: Nu Perdido e Outros Poemas,São Paulo: Iluminuras, 1995.

SEU BLOGUE está indexado NO MEU "ESPAÇOS E LEITURAS" no http://oolhodaorigem.blogspot.com

Bons acontecimentos!
Maria Nathalia Segtovich