20.11.08

W.H. Auden: "Funeral blues" / "Blues fúnebre" (tradução de Nelson Ascher)

Nelson Ascher traduziu "Funeral blues", de W.H. Auden, para a Folha de São Paulo, em janeiro de 1995. Essa primeira versão se encontra no seu livro Poesia alheia (Rio de Janeiro: Imago, 1998). Recentemente, ela a reviu e modificou. Publico aqui a nova, esplêndida e inédita versão, e, em seguida, o poema original:



BLUES FÚNEBRE


Detenham-se os relógios, cale o telefone,
jogue-se um osso para o cão não ladrar mais,
façam silêncio os pianos e o tambor sancione
o féretro que sai com seu cortejo atrás.

Aviões acima, circulando em alvoroço,
escrevam contra o céu o anúncio: ele morreu.
Pombas de luto ostentem crepe no pescoço
e os guardas ponham luvas negras como breu.

Ele era norte, sul, leste, oeste meus e tanto
meus dias úteis quanto o meu fim-de-semana,
meu meio-dia, meia-noite, fala e canto.
Julguei o amor eterno: quem o faz se engana.

Apaguem as estrelas: já nenhuma presta.
Guardem a lua. Arriado, o sol não se levante.
Removam cada oceano e varram a floresta.
Pois tudo mais acabará mal de hoje em diante.




FUNERAL BLUES

Stop all the clocks, cut off the telephone,
prevent the dog from barking with a juicy bone,
silence the pianos and, with muffled drums,
bring out the coffin, let the mourners come.

Let airplanes circle moaning overhead
scribbling on the sky the message: he's dead.
Put crepe-bows round the white necks of the public doves,
let the traffic policemen wear black cotton gloves.

He was my North, my South, my East and West,
my working week, my Sunday rest,
my noon, my midnight, my talk, my song.
I thought that love would last forever; I was wrong.

The stars are not wanted now, put out every one.
Pack up the moon, dismantle the sun.
Pull away the ocean and sweep up the wood.
For nothing now can ever come to any good.

12 comentários:

Anônimo disse...

Cicero,
que lindos os dois poemas! e que desafio (ingrato, acho eu) é o trabalho de um tradutor - pq, nos casos melhores, o produto final são sempre dois poemas. e por isso é que eu te agradeço as edições bilingues - poesia a dobrar!


pack up the moon, dismantle the sun!

abraço,
F.

Aldemar Norek disse...

Esplêndido mesmo, o poema e a tradução! Uma aula de poesia, outra de tradução. Obrigado por mais estas. Grande abraço,
aldemar norek

Ca:mila disse...

parece uma letra do tom waits

QUEFAÇOCOMOQUENÃOFAÇO disse...

AMADO POETA,


ESPLÊNDIDOS TRADUÇÃO E POEMA! TUDO DE BOM!





ABRAÇO FORTE!
ADRIANO NUNES, MACEIÓ/AL.

QUEFAÇOCOMOQUENÃOFAÇO disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
sappho disse...

Olá Cicero,

Sem relação com o post, mas eu estava revendo um vídeo cômico agora e pensei em te mandar. Não sei como é o seu humor, mas espero que agrade. É de um comediante chamado Louis CK e o tema é a igreja católica:
http://www.youtube.com/watch?v=VABSoHYQr6k

QUEFAÇOCOMOQUENÃOFAÇO disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Elisa Kozlowsky disse...

É, tem um ar daquela música "Underground" do Tom Waits.

Muito bom.

@eta disse...

Gratíssimo!

paulinho disse...

plac plac plac (são os aplausos - rs)!

MARAVILHOSO, cicero! que forte, pulsante, que lindo!

e tudo a ver com os poemas que você vem publicando; tanto este como o do shakespeare e o do machado de assis, apesar da temática triste, pulsam, ainda que abatida, ferida, de vida.

beijo beijo beijo!

Chico disse...

Esse poema foi recitado pelo personagem Matthew no filme Four Weddings and a Funeral, exatamente no funeral de Gareth. Um filme interessantissimo que nao deveria ter sido tao banalizado.

humberto disse...

Como contribuição, gostaria de deixar minha tradução do poema:

Blues Fúnebre

Parem todos os relógios, que os telefones emudeçam.
Para calar o cachorro, um bom osso lhe ofereçam.
Silenciem os pianos, e em surdina os tambores
Acompanhem o féretro. Venham os pranteadores.

Que aviões a sobrevoar em círculos lamurientos
Rabisquem no céu o Anúncio de Seu Falecimento.
Que nas praças as pombas usem coleiras de crepe, em luto,
E os guardas de trânsito calcem luvas negras em tributo.

Ele foi meu norte, meu sul, meu nascente, meu poente.
Foi o labor da minha semana, meu domingo indolente.
Foi meu dia, minha noite, meu falar e meu cantar.
Julguei ser o amor infindo. Como pude assim errar?

Já não me importam as estrelas: fique o céu todo apagado.
Empacotem e embrulhem a lua; seja o sol desmantelado.
Esvaziem os oceanos, do mundo sejam as florestas varridas.
Porque agora, para mim, nada resta de bom nesta vida.

Tradução de Humberto Kawai