31.8.09

Nelson Ascher: "Mallarmé"




Mallarmé


Porquanto ao jogo adestre
a língua que selvagem
condensa-se em linguagem
o ensimesmado mestre

perscruta além das extre-
midades na voragem
de estrelas que interagem
uma inscrição rupestre

gravada desde o início
na abóbada suprema
que lhe descerra o indício

de um verbo que se queima
feito minério físsil
na origem do poema.






Nelson Ascher escreveu esse poema para os 150 anos de nascimento de Mallarmé (1992). Ele foi publicado no livro O sonho da razão (Rio de Janeiro: Editora 24, 1993) e recentemente retrabalhado pelo autor.

13 comentários:

Nydia Bonetti disse...

a língua condensada em linguagem, desde as cavernas. que beleza este poema de ascher.

ADRIANO NUNES disse...

Cicero,


Muito bom. Remete-nos à própria estrutura poética de Mallarmé, apesar de que sou bastante receioso quando se quebram palavras em versos e elas ficam sem dar um sentido pleno tanto ao verso quebrado quanto ao verso seguinte. Creio que sou muito exigente quanto essa técnica, mas nem por isso o poema deixa de ser belo.




Abraço forte,
Adriano Nunes.

Antonio Bento disse...

Drei Träume georg trakl

Mich däucht, ich träumte von Blätterfall,
Von weiten Wäldern und dunklen Seen,
Von trauriger Worte Widerhall -
Doch konnt'ich ihren Sinn nicht verstehn.

Mich däucht ich träumte von Sternenfall,
Von blasser Augen weinendem Flehn,
Von eines Lächelns Widerhall -
Doch konnt'ich seinen Sinn nicht verstehn.

Wie Blätterfall, wie Sternenfall,
So sah ich mich ewig kommen und gehn,
Eines Traumes unsterblicher Widerhall,
Doch konnt'ich seinen Sinn nicht verstehn.


Três Sonhos trad. João Barrento

Vi-me num sonho de folhas caindo,
De lagos escuros num bosque perdido,
De tristes palavras ecoando -
Mas não sabia entender-lhes o sentido.

Vi-me num sonho de estrelas caindo,
De preces chorosas num olhar ferido,
De um sorriso que vinha ecoando -
Mas não sabia entender-lhe o sentido.

Como estrela caindo, folha tombando,
Assim me via num vai-vem perdido,
Eternamente esse sonho ecoando -
Mas não sabia entender-lhe o sentido.

Andre Rebelo disse...

Querido Antonio Cicero, há muito leio seu blog e acompanho seu trabalho desde que li e ouvi poema seu cantado por sua irmã no álbum O Chamado. Vez ou outra pego seus textos ou textos que você posta aqui e ponho lá no meu blog, sempre dando os devidos créditos, claro. Mas hoje foi diferente: li o maravilhoso soneto Antonio Cicero, escrito por um conterâneo, e resolvi, humildemente, por no blog o que me venho à mente. Não se sinta obrigado a ir lá, mas quis deixá-lo ciente, obviamente, da minha existência e admiração por você. Um abraço. André Rebelo.

Antonio Cicero disse...

André,

Muito obrigado. Visitei os seus vários blogs. Gostei de todos e deixei um comentário no http://andrerebelo.blogspot.com/.

Abraço grande

Domingos da Mota disse...

Caro António Cícero,

Belo, excelente poema.


DM

Marcelo Silva disse...

Adriano,

Não concordo, quando você dá a entender que, neste poema, “se quebram palavras em versos e eles ficam sem dar um sentido pleno tanto ao verso quebrado quanto ao verso seguinte”. Aqui, o sentido é pleno, mas se encontra no poema como um todo, e exige uma leitura e uma releitura, até que seja encontrado por cada leitor: o que aumenta o encanto do poema, pois corresponde à ideia da perscrutação, de que o próprio poema fala, e remete à poesia de Mallarmé. Desse modo, o poema é mais rico como está, sem pontuação e repleto de enjambements e mesmo de quebras de palavras. O leitor é que deve, através de uma leitura cuidadosa, suprir a pontuação que lhe torne o poema compreensível. Embora o poema seja belíssimo como está, sem pontuação, diferentes pontuações possíveis revelariam sentidos bem precisos para ele. Vou lhe dar um exemplo:

Porquanto ao jogo adestre
a língua (que, selvagem,
condensa-se em linguagem),
o ensimesmado mestre
perscruta, além das extre-
midades, na voragem
de estrelas que interagem,
uma inscrição rupestre
– gravada desde o início
na abóbada suprema –
que lhe descerra o indício
de um verbo que se queima,
feito minério físsil,
na origem do poema.

Saudações

Aetano disse...

O poema é belíssimo... e o jogo do poema é estupendo.

Grato, Cicero.

Aeta

ADRIANO NUNES disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
ADRIANO NUNES disse...

Caro Marcelo Silva,

Só um exemplo a que me refiro:


"Não vês que outra métrica cuidadosa-
Mente se aproxima? Que tudo dosa?"


Grande abraço,
Adriano Nunes.

P.S.: continuemos a amar Ascher e Mallarmé!

wilson luques costa disse...

É verdade, eu concordo com vocês...

De novo a minha vez?
eu vou de três

Na oito não erro
na dois não titubeio
a quatro no castigo
e ela outra vez

Aqui neste bar nunca faço feio

Na caçapa do fundo: bola seis
As bolas um e sete na do meio

agora vocês
já foi a minha vez

vê se pega de fina ou de permeio

nós vamos jogar vidas ou tampinha?

o zeca te falou que também vinha?

o teleco só me disse talvez

o adolfo falou que não faltaria
o ernesto disse que hoje não viria

então chama o turcão

o mané e o alvarez...

Cândido Rolim disse...

Concordo com o Adriano Nunes quanto aos cortes feitos nos versos sem uma proposta nova para o que resta dessa quebra.
Cícero, parabéns pelo blog. vez por outra passo aqui. abraço
Cândido.

Marcelo Silva disse...

Caros Adriano e Cândido,

Entendo a restrição que vocês fazem, mas não compartilho dela. Para mim, quebrar uma palavra no meio, mesmo que seus fragmentos não tenham sentido, é uma radicalização do enjambement, que quebra os versos de tal modo que eles não têm sentido senão em conjunto. No caso do poema do Ascher, acho interessante justamente que a rima se encontre no meio de uma palavra, ironicamente desprezando a convenção da naturalidade (que no fundo é um artifício) em nome da afirmação do artifício (que no fundo é uma convenção superior).

Abraços