31.1.19

Antonio Cicero: "Alguns versos"




Alguns versos

As letras brancas de alguns versos me espreitam,
em pé, do fundo azul de uma tela, atrás
da qual luz natural adentra a janela
por onde, ao levantar quase nada o olhar,
vejo o sol aberto amarelar as folhas
da acácia em alvoroço: Marcelo está
para chegar. E de repente, de fora
do presente, pareço apenas lembrar
disso tudo como de algo que não há de
retornar jamais e em lágrimas exulto
de sentir falta justamente da tarde
que me banha e escorre rumo ao mar sem margens
de cujo fundo veio para ser mundo
e se acendeu feito um fósforo, e é tarde.




CICERO, Antonio. "Alguns versos". In:_____. A cidade e os livros. Rio de Janeiro: Record, 2002.

5 comentários:

Jonas Freitas disse...

Belo poema.

Antonio Cicero disse...

Obrigado, Jonas!

bea disse...

Tudo tem o seu tempo e a tarde de ser tarde é ainda tempo. E conta. E quem dera que não contasse e numa centelha voasse. Ou mergulhando para o fundo se dissolvesse nas águas, sendo, enfim, alimento de peixes e corais.

Jonas Freitas disse...

Antônio Cícero aceita jovens escritores para orientar?
Compreendo que deve ser uma pessoa bem ocupada, mas queria uma crítica em poucas linhas de meu poema. Opinião sincera! Desde já agradeço.

Insuficiência
(À Língua Portuguesa e à Torre de Babel)
Todas as palavras não me dizem o que agora ocorre.
Todas as palavras são escassas para dizer o que já se passou.
Todas as palavras não serão todas quando o futuro chegar.
Todas as palavras que hoje falamos não são as que falaram meus avós.
Todas as palavras que hoje falo talvez…
Todas as palavras sempre serão insuficientes enquanto o homem imaginar e criar.

Antonio Cicero disse...

Caro Jonas,

Sinceramente, gostei do seu poema. É um poema de verdade. Parabéns!

Abraço