10.10.08

Nando Reis: "Igreja"

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IGREJA (Nando Reis)

Eu não gosto de padre
Eu não gosto de madre
Eu não gosto de frei.

Eu não gosto de bispo
Eu não gosto de cristo
Eu não digo amém.

Eu não monto presépio
Eu não gosto de vigário
Nem da missa das seis.

Eu não gosto de terço
Eu não gosto do berço
De Jesus de Belém.

Eu não gosto do papa
Eu não creio na graça
Do milagre de Deus.

Eu não gosto da igreja
Eu não entro na igreja
Eu não tenho religião.

32 comentários:

Mariano disse...

INTO MY ARMS (Nick Cave)

I don't believe in an interventionist God/But I Know,darling,that you do/But if I did I would kneel down and ask Him/ Not to intervene when it came to you/ Not to touch a hair on your head/ To leave you as you are/ And if He felt He had to direct you/Then direct you into my arms.

Into my arms, O Lord.

And I don't believe in the existence of angels/But looking at you I wonder if that's true/ But if I did I would summon then together/ And ask then to watch over you/ To each burn a candle for you/ To make bright and clear your path/ And to walk, like Christ, in grace and love/ And guide you into my arms.

Into my arms, O Lord.

But I believe in Love/And I Know that you do too/ And I believe in some kind of path/ That we can walk down, me and you/ So keep your candles burning/ And make your journey bright and pure/ That she will keep returning/ Always and evermore.

Into my arms, O Lord.

Jorge disse...

O Nando Reis é Phoda, sem papas na lingua nessa letra. Gosto muito dele! Adorei teu espaço e voltarei.

paulo de toledo disse...

Antonio, Cabeça Dinossauro é o melhor disco de roque brasileiro da década de 80.
E, como eu costumo dizer, DEUS É GRANDE MAS NÃO É DOIS.
Abbracci

Marcone disse...

que coisa ridicula! o site estava tão bom até aqui... blagh!

Anônimo disse...

Particularmente, gosto bastante da poesia do frei Juan de La Cruz.

E gosto do Nick Cave.

Elisa Kozlowsky disse...

Sim, ele é ateu, e...daí?

Antonio Cicero disse...

Elisa,

Ele não diz que é ateu.

Beijo

Ana Rejaine disse...

caro Antonio
Isso não acrescenta nada, não é mesmo ?

"Onde a mente é maior, o coração, os sentimentos, a magnanimidade, a caridade, a TOLERÂNCIA , a bondade e o resto delas dificilmente consegue respirar." [ Virginia Woolf ]

abraços

Ana

paulinho disse...

cicero, meu amor,

arrebentou! adorei!

essa pérola do nando reis me lembra, com a modéstia que me cabe, uma poesia minha, chamada "prece de louvor à vida de duília". eu a adoro exatamente pelo clima punk que ela guarda em seus versos, essa coisa escarrada, sem travas na língua.

mais uma vez: ARREBENTOU!

and let's rocking and rolling! ;-)

beijo gostoso, poeta esperto!

Anônimo disse...

Concordo, A. Cicero
Não acreditar em um "deus intervencionista", não gostar de padres, missas, religiões e correlatos não significa propriamente ateismo.
Abraço
Mariano

Elisa Kozlowsky disse...

OK. Ele só diz q não gosta nem crê na graça do milagre. Valeu, Cícero.

QUEFAÇOCOMOQUENÃOFAÇO disse...

MEU POETA LINDO,


O QUE É MAIS IMPRESSIONANTE NESTA OBRA-PRIMA DO NANDO REIS É A SUA DENSIDADE MUSICAL (TANTO IMPLÍCITA QUANTO EXPLÍCTA, QUANDO FOI GRAVADA). POETICAMENTE É LINDA DEMAIS. SUAS ALITERAÇÕES E ANÁFORAS, A SUJEIÇÃO DE EXPOR-SE EM PRIMEIRA PESSOA - MANIFESTO INTERNO - SUA RELIGIOSIDADE ÍNTIMA, ESFACELAM O QUE NOS É IMPOSTO E INSTRUÍDO À FORÇA COMO CERTO, SUA AFIRMAÇÃO-NEGAÇÃO DE QUE O NÃO CRER NÃO QUER DIZER QUE NÃO SE CRIA.
O TITÃ NANDO RESTAURA O TEMA COMO SE ESTIVESSE PRESO NA COVA DOS LEÕES E DÁ A SUA ALMA PARA QUE ATEUS E CRISTÃOS SE DELICIEM. ASSIM É A POESIA. O POETA NÃO NECESSARIAMENTE É O QUE DIZ OU EXPRESSA. FERNANDO PESSOA JÁ NOS DESMASCAROU: "TODO POETA É UM FINGIDOR".
CICERO, OBRIGADO POR ALIMENTAR-NOS COM PÉROLAS QUE , ÀS VEZES, DÃO-SE POR PERDIDAS. E, PROVEITANDO O MOMENTO, QUERO DIZER QUE O SENHOR MARCONE PRECISA APRENDER A AMAR E RESPEITAR A POESIA. A POESIA ESTÁ ACIMA DO BEM E DOM MAL... OS POETAS SAGRAM, SABIA? A ÚNICA COISA RIDÍCULA E INFELIZ QUE HÁ NESTE SITE É O COMENTÁRIO DELE: FRÍVOLO E DESNECESSÁRIO.


UM FORTE ABRAÇO. AMO-TE!
ADRIANO NUNES, MACEIÓ/AL.

Marcone disse...

Poemas São como Vitrais Pintados

Poemas são como vitrais pintados!
Se olharmos da praça para a igreja,
Tudo é escuro e sombrio;
E é assim que o Senhor Burguês os vê.
Ficará agastado? — Que lhe preste!...
E agastado fique toda a vida!

Mas — vamos! — vinde vós cá para dentro,
Saudai a sagrada capela!
De repente tudo é claro de cores:
Súbito brilham histórias e ornatos;
Sente-se um presságio neste esplendor nobre;
Isto, sim, que é pra vós, filhos de Deus!
Edificai-vos, regalai os olhos!

Goethe121

Antonio Cicero disse...

Adriano querido,

muito obrigado pelas suas palavras. Você disse tudo o que penso sobre a letra do Nando Reis.

Abraço grande.

Marcello disse...

Prezado Cicero, gosto do poema também porque o que ele pode ter de polêmico não implica nenhum imperativo do tipo ama-me ou deixa-me.Assim, opera como um desafio, uma armadilha talvez,aos que querem que o mundo dos ímpios zombe deles para gozarem da posição vantajosa onde se crêem justificados a levantar os dedos em riste contra essa impiedade do mundo.
É uma espécie de pega-pedante,como de resto todo o Cabeça Dinossauro me parecia ser.E não há,nas músicas,um tom que sente sua própria comicidade e inutilidade,como que a escarnecer do viés objetivante da cultura?Bons tempos aqueles idos de 86,os Titãs prá mim tem gosto de pinga,cursinho, vestibular e academia da força aérea.
Mas vejo também um contraponto que talvez caiba bem aqui,saído da pena de dom Miguel de Unamuno:"O mundo quer ser enganado,ou com o engano antes da razão,que é a poesia,ou com o engano depois dela,que é a religião.Já disse Maquiavel que quem quiser enganar,sempre encontrará quem deixe que o enganem.".

abç

Antonio Cicero disse...

Ana,
será que não é você que está sendo intolerante? Acho que acrescenta alguma coisa sim. O Jorge, o Paulo de Toledo o Paulinho e o Adriano, por exemplo, gostarm. Leia o que eles disseram.
Abraços

Antonio Cicero disse...

Marcone,

Obrigado pelos seus comentários – que me interessam mesmo quando me criticam – e pelo poema de Goethe.

Entretanto, chamo atenção para o fato – que você sem dúvida não ignora – de que o poema “Poemas são como vitrais pintados” não é sobre a Igreja, mas sobre a poesia.

Aplicado ao poema do Nando Reis, podemos dizer que quem o lê do lado de fora, como você o fez, vê tudo escuro e sombrio; mas quem o lê (ou ouve, pois ele é ainda melhor na canção de que faz parte) de dentro, fazendo suas as palavras dele, vê tudo claro e de cores, assim como o Jorge, o Paulo de Toledo, o Paulinho, o Adriano e eu o vemos.

Abraços.
Antonio Cicero

paulinho disse...

não gosto de me meter em comentário alheio; nunca o faço, mas, aqui, permito-me um adendo:

ao meu ver, essa noção judaico-cristã de "tolerância" não serve pra muita coisa. é melhor do que nada, certamente, mas está longe do ideal.

digo num poema: "nunca se bastar na tolerância;/ ela cria grande distância/ do objetivo que se deve alcançar:/ igualdade no aproveitamento do que a vida ofertar."

isso por quê? porque a tolerância é muito muito muito pouco; pressupõe a existência de um, que é o tolerado, e de outro, que é o tolerante, ou seja, pressupõe uma relação de superioridade de um (tolerante) em relação ao outro (tolerado). imaginem se, quem hoje tolera, "resolve" deixar de tolerar. o que acontece? o tolerado se fode.

portanto, precisamos criar formas de relação onde as partes (tolerante e tolerado) estejam, sempre, em pé de igualdade, precisamos inventar modos de relação onde conceitos como "tolerância" e "intolerância" sejam banidos.

é isso.

um beijo nocê, poeta maravilha!

M. disse...

sim Antonio Cicero, sobre poemas,isto fica obvio já na primeira linha do poema, ne? mas pensei no "edificai-vos, regalai os olhos!" pq nem tudo que brilha é ouro_entre milhões de humanos e siderais enganos. Entrei e sai da edificação (eu tb jamais ocultei o monstro e jamais hei de oculta-lo) mas é que não vi mesmo nenhuma luz na coisa do Nando Reis. Não pq falou mal de igreja ou que seja, mas é que (o turvo será eu?) que não vi nenhum "esplendor nobre" nas palavras do dito poeta, nada contra os inocentes do Leblon, cada um com seu poeta.

obrigado pela atenção e educação.

betina moraes disse...

pensador,

nando reis é incontestável poeta!

músico de sonoridade inconfundível,

pessoa do mais fino tecido,


não há o que acrescentar quanto ao post, cheguei tarde.

porém, posso destacar a opinião do assíduo Adriano Nunes que mais uma vez mostra uma "antena" fortíssima com a língua portuguesa, a gamática e a poesia.

no mais, tudo sempre muito bem posto aqui no seu blog, com comprometimento máximo e clareza absoluta.

parabéns!

um abraço!

leo disse...

No comité de estrelas intergalácticas

ninguém ilumina

ou é iluminado.



Mas quando uma simples vela é acesa em meio ao breu

Ó Deus! O universo logo logo dá-se conta do clarão.

leo disse...

O paraíso é aqui mesmo
O inferno é aqui mesmo
O diabo somos nós

A luz que emana somos nós

Quem atira lama e quem a limpa
em reverência, somos nós

Arthur Nogueira disse...

Querido Cicero,

não conhecia essa letra, muito interessante. Não acho que ela incite discutir religião, como algumas pessoas aqui propuseram. Creio que o mais importante seja o mesmo que seu poema "Sair" sugere: celebrar a gratuidade do magnífico mistério do ser. Para isso, Deus não existe nem faz falta.

Um beijo grande.
Saudade de vê-lo.

Lucas Nicolato disse...

Antonio,

Gosto muito dessa canção (de um dos maiores cancionistas das últimas décadas), mas confesso que tenho uma certa dificuldade em avaliá-lo como poema - a lembrança da canção é intensa demais.

Não entendi bem as críticas. O poema não pode, por princípio, ser intolerante, já que não exclui nada, nem nega a possiblidade de poemas que digam justamente o oposto. Mas certamente achar que o blog é ruim apenas por acolher esse poema é intolerância.

um abraço,
lucas

Enzo disse...

Pois é ...
Ele deve gostar de gnomos e duendes...
Coloca aí a música do Tihuana


abç

Ana Rejaine disse...

Paulinho.......
.Será que vc não está lendo muito
Nietzsche ? ops..leia com moderação!

beijoss

Ana

Poeta, sou nova por aqui, estou aaaadorando seu blog!

Anônimo disse...

Não consigo deixar de crer que a letra de Nando Reis se refere à igreja, ou à Igreja, como queiram, ou mesmo, de modo mais genérico, como sugere a gradação presente em toda enumeração, à religião. A beleza da letra é brutal: está, de certo modo, na brutalidade com que o paralelismo elabora, fazendo do punk o primal e, do manifesto, a expressão singularíssima de um eu. E é sob esse aspecto que a letra parece-me mais aprofundar o incômodo. Essa expressão direta e inequívoca do gosto de um eu (ou seria melhor do não-gosto de um eu)em nenhum momento é desrespeitosa, é apenas enumerativa; sua agressividade é um efeito colateral da explicitação de um gosto. Parece-me que a intolerância se revela naquele que enxerga nela a intolerância, a intolerância de quem não a acolhe, de quem não acolhe a possibilidade de alguém não gostar de algo. Esse efeito coloca-nos diante da intolerância subliminar a todo discurso da tolerância. Concordo, Cícero, que na letra, este eu não diz ser ateu, mas você não concorda comigo que a maior vítima da intolerância hoje em dia é o atéismo? O teísta vê o ateísta, quando não como um inimigo "mais profundo", de um modo mais sutil e talvez perigoso, com incredulidade, sem dar crédito à própria convicção do ateu, como aquele comentário mais prosaico ilustra: "ah, você diz que é ateu, mas, na hora do aperto, reza escondido..."

Um abraçoatrasado pelo aniversário.

Marcelo Diniz

QUEFAÇOCOMOQUENÃOFAÇO disse...

Cicero,


Sinto-me honrado pelo seu comentário.
Betina, muito obrigado também pelo seu!
Aproveitando o tema... e os embates (são sempre cognitivos!):


Resposta
(Nando Reis e Samuel Rosa)



Bem mais que o tempo
que nós perdemos
ficou pra trás, também,
o que nos juntou.


Ainda lembro
que eu estava lendo
só pra saber
"o que você achou
dos versos que eu fiz ?"

e ainda espero
resposta.

Desfaz o vento
o que há por dentro
desse lugar
que ninguém mais pisou.
Você está vendo
o que está acontecendo ?
Nesse caderno
eu sei que ainda estão

os versos seus,
tão meus,
que peço

pros versos meus,
tão seus,
que esperem
e que os aceite.

Em paz

eu digo que eu sou
o antigo do que vai adiante
Sem mais,
eu fico onde estou
prefiro continuar distante.

prefiro continuar distante.


UM GRANDE ABRAÇO!
ADRIANO NUNES, MACEIÓ/AL

Alcione disse...

A igreja

Os sinos badalam
Tocam a música
Marcando o horário circular
Sua abóboda, iluminada, é bela
Mistura-se com os contornos dos edifícios
A fuligem, a lata que maltrata,
Iluminada em meio a outras luzes
Parece um disco voador
Quem sabe noutra era
Deixando de lado
Os interditos malditos
A batina, a sabatina
As iras e todas as suas mentiras
Restando só sua beleza
Assim feito, Veneza.

Antonio Cicero disse...

Marcelo,
Obrigado.

Sim, acho que o ateu é vítima de intolerância. Em 1999 o Instituto de Pesquisas Gallup, nos Estados Unidos, perguntou se as pessoas estariam dispostas a votar numa pessoa altamente qualificada que fosse mulher (95% disseram que sim); católica (94% de sim); judia (92% de sim); preta (92% de sim); homossexual (79% de sim); atéia (49% de sim).

Abraço

paulinho disse...

ana,

não tenho lido nada do nietzsche, por incrível que possa parecer-lhe. mas acho, sempre, uma ótima pedida.

ler com moderação? impossível! sou dado ao imoderado (rs).

beijo grande em você e no dono do pedaço.;-)

nicole aguiar disse...

que pecado, meu Deus